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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A Hard Day's Night - The Album

                                                                                                                 Capítulo 38 

Esta é minha saga  

O Universo das Canções dos Beatles


Todos os Capítulos têm acesso neste LINK 

O ano de 1963 fora estonteante, com dois LPs e 3 compactos de inéditas, todos ascendendo ao N°1 das paradas, e a Beatlemania estava instalada! Houve shows por todo o Reino Unido e até na Alemanha e SuéciaE 1964 começou exatamente como 1963 terminou. O ritmo era frenético e não poupou nem Natal e Ano Novo, houve um show por dia em Londres, de 21 de dezembro a 11 de janeiro, sem folgas! Três dias depois, estavam em Paris para uma temporadas de 20 dias, dois shows por dia, às vezes três, que seria apenas mais um passo na história Beatle, se durante um daqueles dias, mais precisamente um 25 de janeiro, eles não recebessem a notícia que iria catapultar sua carreira para sempre.

Uma breve travessia do Oceano é necessária para explicar. A EMI tentou repetir o sucesso dos Beatles na América, mas ele não veio de imediato como se esperava. Sua subsidiária Capitol Records se recusava a acreditar no potencial dos rapazes, então tiveram que recorrer a selos menores para o efeito, Vee Jay e Swan Records. Eles lançaram os mesmos singles capitaneados por Please Please Me, From Me to You e She Loves You, mas eles não 'aconteciam', não chegavam ao Top 100 nacional de jeito nenhum. Quando a Capitol retomou a coisa, fez uma combinação matadora, lançando em dezembro o compacto I Want To Hold Your Hand e She Loves You, que começou a tocar nas rádios e a subir nas paradas. Virou o ano e a Vee Jay lançou, em 10 de janeiro, o álbum 'Please Please Me' igualzinho ao original inglês, mas com o nome 'Introducing The Beatles', e 10 dias depois, a Capitol abriu o olho e lançou o LP 'Meet The Beatles', que tinha as canções autorais do álbum 'With The Beatles', mais I Want To Hold Your Hand e I Saw Her Standing There e This Boy, que fora o Lado B da primeira, no Reino Unido.  E finalmente, a coisa aconteceu, e os Beatles souberam, lá em Paris, que eles haviam conquistado a America: I Want To Hold Your Hand estava no topo da parada americana. E eles disseram ao Brian Epstein: 
'Agora pode comprar as passagens e confirmar o show no Ed Sullivan!" 
Chegar ao N°1 era a condição sine qua non para atravessarem o Atlântico! 

Aí, veio a Invasão da América, fechando o aeroporto  de New York em 7 de fevereiro, e veio o primeiro show no dia 9, assistido por metade da população americana e, rapidamente, os Beatles ocupavam os 5 primeiros postos na parada do país, e estavam completas as condições para embarcarem de vez no novo projeto que abraçavam: o primeiro filme, A Hard Day's Night, que foi o embrião para o terceiro LP dos Beatles,  de mesmo nome, objeto do presente capítulo! E que ainda não tinha nome, àquela altura!

Finalmente, vamos às canções do LP! Primeiramente, para manter a tradição destes capítulos, vou começar pela análise das canções Covers de outros artistas, certo? Errado! Não as há! São 13 composições de Lennon/McCartney, não só a primeira vez na carreira dos Beatles, mas a primeira vez na história do Rock, que uma banda faz um lançamento 100% autoral! O fenômeno continuava firme!

O filme foi um sucesso mundial, reverenciado até hoje.

O disco não ficou atrás, e vamos à análise!

Detalhes sobre essas canções mais abaixo...

  1. A Hard Day´s Night
  2. I Should Have Known Better
  3. If I Fell
  4. I´m Happy Just to Dance With You
  5. And I Love Her
  6. Tell Me Why
  7. Can´t Buy Me Love
  8. Any Time at All
  9. I´ll Cry Instead
  10. Things We Said Today
  11. When I Get Home
  12. You Can´t Do That
  13. I´ll Be Back

As 7 primeiras estão no Lado A do LP, e são as que estão na trilha sonora do filme. As demais 6, do Lado B, não aparecem no filme, à época de seu lançamento. Em relançamento na década de 1980, I'll Cry Instead é inserida numa sequência de abertura. 

A canção 7 foi gravada em Paris. As demais foram gravadas em 7 sessões em Abbey Road, sendo 4 delas até o início das filmagens, quando gravaram as canções 2 a 6 e 10, que estavam destinadas à trilha do filme. A canção título, como verão, ainda não existia. Eles voltaram ao estúdio para gravá-la em meados de abril, terminaram as filmagens no final daquele mês, e voltaram ao estúdio para as duas últimas sessões, em junho, para as canções 8, 9, 11, 12, 13.

Um ponto a destacar sobre os compositores. Após uma divisão mais ou menos equitativa entre os dois, nos primeiros dois LP's, "A Hard Day's Night" mostrou um Lennon insanamente criativo, impossível de competir, muito mais preponderante que McCartney. John foi o responsável por 10 das 13 composições!

Ah, sim, antes das canções, eis o nosso já tradicional quadro de Grupos, Assuntos e Classes. Vejam que este álbum inaugura o outro grupo de canções, as Mind Songs. As demais 12 são do Grupo Heart Songs.

Percebam a tabela abaixo. 




Mais detalhes sobre a divisão entre Heart & Mind Song, aqui, neste LINK

Traduzindo
  • São 12 canções que falam ao Coração e uma à Mente
  • São 10 canções no Assunto Garotas e 2 no Assunto Saudadee
  • Das 10 Girl Songs, 4 são de Amor, 4 de Paquera e duas de DR
  • As Miss Songs relatam Desespero e Retorno
A Hard Day's Night é, portanto, um 

89% Heart, 77% Girl, 62% Love & DtR Album!

Na tabela abaixo, as evidências, nas letras, do porquê da classificação acima!




Vamos à análise das canções de autoria dos Beatles!!

Atenção, quem acompanhou minha Saga até aqui, viu que já dei detalhes de muitas canções! Então, se já leu, sugiro dar uma passeada por sobre o texto, e seguir para a próxima canção!


LADO A

1. A Hard Day's Night  (Body Self Song by John Lennon)

'Hoje foi um dia difícil, eu tenho trabalhado como um cachorro. Hoje foi um dia difícil Eu deveria estar dormindo como uma pedra mas qu as ando eu chego em casa, eu descubro que você me faz sentir tão bem  Foi a primeira Self Song dos Beatles. Na Classe Body. 
Imagine as filmagens do primeiro filme dos Beatles, 1964, ainda sem nome, dia cansativo, chega a noite, Ringo senta-se numa daquelas cadeiras de Diretor e fala: “It’s been a hard day ... 's night...”, sendo que o 'night' ele falou quando percebeu que já estava de noite.. Dick Lester, o diretor, ouviu, olhou pra Paul, e pensou: “That’s the name!” Numa carona pra casa, ele encomendou a John, que compôs a música mesma noite, no verso de um cartão que seu filho de 1 ano recebera de um fã, e virou o nome do disco e do filme.  Foi um de vários 'Ringoisms' da história beatle. Sendo muito simples, ele soltava uma dessas de vez em quando, frases ligeiramente incorretas, aparentemente estranhas, mas com um sentido cômico, isso tem até nome, malapropismo! Fato interessante é que John escreveu a letra, quase finalizada, e a acabou  num táxi a caminho do estúdio, aos olhos de um amigo boquiaberto que o pegara em sua casa, e que depois acompanhou a gravação da canção, em apenas três horas de estúdio, onde John passou a ponte ("When I'm home, everything seems to be right") para Paul cantar, porque não atingia o agudo da canção que ele mesmo compusera! Apesar de a letra ressaltar a importância da mulher de John que o abraça firme quando ele chega em casa, cansado de um dia duro, preferi focar no estado físico do autor, de pleno cansaço.
Musicalmente, são notáveis a abertura e o fechamento da canção. O acorde poderoso e estridente que abre a canção (e o LP, e o Filme) mereceu análises profundas nos anos seguintes ... houve até um artigo publicado numa revista científica, intitulado "Mathematics, Physics and 'A Hard Day's Night'", em que o cientista analisa o incrível som segundo Transformadas de Fourier!! E ainda foi contestado por outro matemático que atribuiu outro enfoque, mas também utilizando as tais Transformadas. Mas não é pra menos. Dá só uma olhada nas notações possíveis, identificadas pelos especialistas: G7add9sus4 ou G7sus4 ou G11sus4 ou ainda Dm7sus4, mas também poderia ser um 'simples' Fadd9... ufa! Aquele primeiro ali pode ser explicado como 'Sol com Sétima e Nona, com a Quarta em vez da Terceira', ou seja, G-B-D-F-A-C, tá fácil procê? Ou seja, quase todas as notas da escala! O Mi (E) deve ter ficado chateado por não participar de mais esse momento genial dos Beatles. O efeito magistral foi obtido por duas guitarras, de John e George, o baixo de Paul, o piano de George Martin e ainda Ringo, na caixa e prato.  O fundamental do acorde é o baixo em Ré (D) do Paul. Uau! E no final, um belíssimo arpejo de George Harrison, em loop, que segue até a próxima música do disco, ou até a próxima cena do filme, foi pra isso que foi criado!!!

2. I Should Have Known Better (Love Girl Song by John Lennon)

John declara: "Eu deveria ter imaginado, com uma garota feito você, que eu adoraria tudo que você faz. E eu adoro, hey, hey, hey, E eu adoro.
Pois que John declara seu amor à garota mas depois acha que ela lhe pode dar mais pedindo que ela seja dele, ai, ai ai, enfim.  No filme, ela aparece na cena do trem. Ponto altíssimo da canção é a gaita de John, que retomou após Love Me Do e Please Please Me, e depois voltaria em I'm A Loser. Ela abre todos os versos, e fecha a canção na ponte final. Falando em ponte ("And when I tell you that I love you"), ali aparece  pela primeira vez a guitarra Rickenbacker de 12 cordas de George, que voltaria no verso instrumental adiante, e em praticamente todas as canções daquele LP a partir de então. A canção foi lançada em compacto como Lado B de Can't Buy Me Love, mas apenas nos EUA, pois no Reino Unido, foi Things We Said Today. Para nós aqui da terra, a canção chegou a nossos ouvidos numa versão de Renato Barros (dos Blue Caps) com uma letra que hoje seria considerada digna de pedófilos ("Aaaaah, deixa essa boneca e vem brincar de amor!")

 

3. If I Fell  (Flirt Girl Song by Paul McCartney)

John propõe: "Se eu der meu coração para você, preciso ter certeza desde o início que você irá me amar mais do que ela!"
Nesta que é a primeira balada de John, ele flerta com uma garota, mesmo estando compromissado com outra, ai, ai, ai. Era John escapando do açucarado boy meets girl com estilo. Se notarem a letra como um todo, verificarão que foi uma situação de triângulo amoroso, que acabou por se efetivar na vida dele, quatro anos depois, quando deixou Cynthia por Yoko. A canção foi feita já em New York, durante aqueles 10 dias em que os Beatles bagunçaram os Estados Unidos em fevereiro de 1964. Paul contribuiu com partes da letra e com as magníficas harmonias vocais, reverenciadas como das melhores da história deles, afinal os dois trocam a primeira voz da canção várias vezes, com Paul fazendo a parte mais aguda, como sempre. Um verdadeiro primor! Faço questão que vejam, ouçam, sintam, emocionem-se com este vídeo tutorial (LINK) quando poderão se certificar da genialidade da dupla vocal. No filme, a canção é levada numa cena de ensaio para um programa de TV, e a edição é notável, porque John começa cantando para Ringo, enquanto ele arruma seu instrumento, a tempo de tocar a primeira aparição da bateria na canção. Genial! A gente fica tão embasbacado ao falar das harmonias que se esquece dos instrumentos. John faz o ritmo no violão, a bateria de Ringo é suave, o baixo de Paul é, efetivamente, padrão, nada demais, mas a guitarra de George, novamente a Rickenbacker 12-cordas, aparece um pouco mais, na introdução (aliás, que introdução é aquela?!), ao longo dos versos, menos um pouco na ponte, e é importante na finalização. Pra quem ouve com fones de ouvido, ela se percebe no fone direito!  Na introdução se percebe a evolução do pensamento do compositor. Nem bem se passaram três meses desde I Want To Hold Your Hand, e ele já admite que "And I found that love was more than just holding hands".

   4. I´m Happy Just to Dance With You (Flirt Girl Song by John Lennon)

George canta: "Apenas dançar com você é tudo que eu preciso. Antes que essa dança termine, acredito que também me apaixonarei por você, estou tão feliz quando você dança comigo!"

Sim, era George cantando John, que teve a ideia da canção e Paul ajudou nas letras e arranjos! Foi a solitária aparição de George no LP como lead singer, menos que as duas de cada um dos LP's anteriores. Apesar de ele lá ter inaugurado sua carreira de compositor, meio ano antes, com Don't Bother Me em 'With The Beatles', ele estava demorando muito a entregar a canção que dissera ter, então John tomou a atitude de fazer uma pra ele, afinal ela tinha que aparecer no filme! George admite que na época, ele precisava de meses pra finalizar uma canção. Aquela foi a segunda e última vez que George cantou uma original Lennon/McCartney, sendo a outra a deliciosa Do You Want To Know a Secret, do primeiro LP 'Please Please Me'. A letra é simples com tema adolescente, mas apresenta pontos incomuns, e instrumentação distinta. Ela começa com o final do refrão ("Before this dance is through..."), e termina com um refrão com letra alterada ("I've discovered I'm in love with you."), duas características incomuns. Paul e John presentes nos O-O-O-O's. Paul apresenta uma sequência de baixo bastante variada, e ousada até, proporcionando uma contra-melodia muito interessante, enquanto John inova no ritmo em sua guitarra, e Ringo provê batidas sincopadas em overdubs dando uma cara bem diferente! No filme, a cena começa divertida, com bailarinos ao som instrumental e John fazendo estrepolias a caminho do palco, onde George sobe um tablado, a única vez em que tocam nessa configuração, John e Paul, abaixo e Ringo tocando de frente para eles. Cena muito boa! Veja aqui, neste LINK!

   5. And I Love Her  (Love Girl Song by Paul McCartney)

Paul suborna: "Dar-te-ei tudo que eu tenho pra dar se você disser que me ama também. Eu posso não ter muito pra dar mas o que eu tenho, eu darei a você!"
Esta é a primeira balada da carreira de Paul, iniciando uma sequência de canções românticas que seguiria com I'll Follow The Sun, Yesterday, Michelle, Here There And Everywhere nos álbuns seguintes, o que o alçaria ao título de maior baladeiro dos Beatles, mas era um jogo que  estava empatado, afinal John fizera o primeiro gol com If I Fell, outra linda balada duas canções antes, no mesmo LP. Foram 3 sessões necessárias para finalizar a canção, que acabou com 3 diferenças em relação aos primeiros takes, (i) George deixou de lado sua Rickenbacker 12 cordas e, no violão fez o brilhante riff de introdução, que também volta no último verso, que Paul elogia até hoje, (ii) John aceitou o desafio de tornar a canção menos repetitiva, chamou Paul para tomar um chá e elaboraram a ponte ("A love like ours should never die as long as I have you near me") e, finalmente, Ringo deixou a bateria e ficou só nos bongôs. Note que na ponte trazida por John há uma mudança da terceira pessoa ("her") para a segunda pessoa ("you"), mas tudo bem. Houve também a decisão de subir meio tom para a entrada do solo de George e do verso final, e a inclusão posterior de clavas, ajudando na levada latina da canção. John ficou o tempo todo no cha-kun-dun no violão. George também foi fundamental no delicado arpejo nas cordas agudas de seu violão, a partir do segundo verso! Na cena do filme, Paul está num tablado, John sentado ao fundo, George leva seu ótimo violão com uma perna sobre o tablado e Ringo firme em seu atabaque, quase escondido pela bateria sem uso! Paul e George têm ótimos closes!

6. Tell Me Why  (Return Miss Song by John Lennon)

John clama: "Olha, eu te implorei de joelhos! Se apenas você ouvisse as minhas súplicas. Se existe algo que eu possa fazer, pois eu não suporto, estou tão apaixonado por você! Me diga por que você chorou e por que mentiu pra mim! 
Apesar de parecer uma DR, preferi classificar a saudade e o desejo de retorno depois de uma briga como a tônica da canção, que fecha o Lado A, última pertencente à trilha sonora do filme. A canção é 100% de John, o que leva a concluir-se que o 'you' era Cynthia, com quem era casado! Musicalmente, considero a bateria introdutória de Ringo como o ponto alto da canção, com viradas precedendo dois acordes de guitarra e ao piano de George Martin, quatro vezes. E Ringo repete as viradas mais seis vezes, a chamar refrões, e versos, e a ponte, e ainda mais duas vezes no final. Um show do nosso baterista! O refrão, aliás, abre a canção, como em It Won't BLong! As harmonias vocais perfeitas de Paul e George (ambos nos graves com John nos agudos, algo bem incomum!) dialogam em triplo nos versos, respondendo nas frases pares às chamadas de John nas frases ímpares, expliquei-me? Melhor desenhar:
 

Note, assim, rapidamente, duas coisas importantes, denotando a qualidade deles como letristas

  • Que segue válida a política de não repetirem letras, como descobri ao descrever Do You Want To Know A Secret: os dois versos (1-4 e 5-8) têm letras diferentes;
  • Que TODAS (as quatro) rimas são RICAS!

    • 1-3: verbo com adjetivo; 
    • 2-4: adjetivo com verbo; 
    • 5-7: verbo com preposição; 
    • 6-8: verbo com substantivo.

Ah, os três entram também entram em falseto ("If there's anythin' I can do") na ponte! Impecáveis!

No filme, Tell Me Why abre a sequência final de trechos de três canções tocadas ao vivo no programa de TV, juntamente com If I Fell (que já aparecera na íntegra em ensaio) e I Should Have Known Better (que já aparecera na íntegra na cena do trem). Deixo o vídeo aqui, neste LINK, para que deliciem-se:
(i)   com o sorriso de Ringo, 
(ii)  com a gaita de John, 
(iii) com as harmonias vocais dos três, e, claro,  
(iv) com a dancinha das perninhas de George!

Bem, para finalizar, vocês gostaram de ver Tell Me Why tocada ao vivo? Pois contentem-se, porque foi a PRIMEIRA e ÚLTIMA vez. Nunca a tocaram nas turnês, nem nos programas de TV, nem John, muito menos Paul em suas carreiras solo lembraram-se dela!  

 7. Can´t Buy Me Love  (Flirt Girl Song by Paul McCartney)

Paul esclarece: "Vou te dar tudo que eu tenho pra dar se você disser que me ama também. Eu posso não ter muito pra dar,  mas o que eu tenho, eu darei a você. 
A paquera evolvendo amor e dinheiro passeia pelo blues animado que Paul criou, sozinho, com quase nenhuma ajuda de John. Ela foi escrita enquanto estavam na maratona parisiense de dois shows por noite, mas tinham um piano na enorme suite que ocupavam no luxuoso Hotel George V que usavam para compor as canções que precisavam para o filme. E gravaram lá mesmo, no Marconi Studios da EMI, única vez na carreira que gravaram fora da Inglaterra. E foi muito rápido, os quatro tocando seus instrumentos habituais, em quatro takes. Depois, apenas George teve tempo de voltar ao estúdio fazer um overdub de seu solo de guitarra, e dá pra se notar o original em partes da gravação final. Aliás, esse solo inaugurava uma prática que seria adotada dali em diante: a composição do solo de guitarra. Até então, George chegava e tocava o que lhe dava na telha! Outro que teria que voltar ao estúdio para fazer um overdub era Ringo, mas ele não tinha agenda: ele tinha inúmeras cenas solo no filme. Então, como os pratos necessitassem de mais agudos, que pegou na baqueta foi mesmo o engenheiro Norman Smith, não creditado!
 
O ponto alto da canção, entretanto, é o vocal vigoroso de Paul, apenas ele aparece, embora eu particularmente ache muito interessante os backing vocals de John e George que se ouvem em versão alternativa do Anthology, nas partes "ooooh satisfied" ou "ooooh just can't buy," e equivalentes. A ideia de começar pelo nome da canção (e também do final) foi de George Martin, para causar impacto, o que claramente foi conseguido. Notáveis também são os já tradicionais Beatles Breaks, momentos em que os instrumentos param, deixando apenas a voz do cantor, prática que usaram em algumas canções, notavelmente logo na primeira, Love Me Do. Aqui, eles ocorrem, brilhantemente, nos trechos em que Paul canta "much for money". Boa decisão também a de deixarem apenas baixo e bateria no final.  A canção era uma favorita de shows nas turnês de 1964!
 
No filme, a cena em que a canção aparece é an-to-ló-gi-ca, quando os quatro, em meio à fuga dos fãs, fazem malabarismos acrobáticos mil, lembrando muito cenas do cinema mudo, tipo Comedy Capers. Deixo a cena aqui (um pouco modificada, com tempo variado), neste LINK, para lembrança e exaltação.
 
Antes de ser a sétima canção do álbum, a canção foi lançada em compacto, com You Can't Do That no Lado B, em 24 de março de 1964, quatro dias depois do lançamento nos Estados Unidos, onde foi imediatamente para o topo da parada, comandando um trenzinho de cinco canções dos Beatles nas posições 2 a 5 (as outras eram Twist And Shout, She Loves You, I Want To Hold Your Hand e Please Please Me), fato único na história da música. E juntando-se a outras nove, até a posição 100, também inédito. 
A América estava definitivamente conquistada.

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LADO B

Espero ser mais conciso nas canções da Lado B. Ao menos não haverá descrições de suas cenas no filme nas últimas 6 canções, pois não fizeram parte da trilha sonora. Após o término das filmagens em meados de abril, fizeram alguns shows até o fim do mês, e saíram para merecidas férias de 30 dias inteiro, celebrando o sucesso mundial que tinham, já milionários. Felizmente, John levou seu violão para o Tahiti,  para aonde foi com a esposa Cynthia, e o novo casal George e Pattie Boyd, que ele conheceu nas filmagens. A outra metade dos Beatles, ou seja, Paul (com Jane Asher) e Ringo (com a esposa Maurreen) foram passear de barco. Paul tabém levou o violão!

Afora You Can't Do That, que fora feita antes das filmagens, e lançada com Can't Buy Me Love, e I'll Cry Insead, feita para o filme e rejeitada, as demais quatro canções foram feitas nas férias de maio, e gravadas nos dois primeiros dias de junho. Foram três de John e uma de Paul, e o esquema era aquele: "Hey ladshave this song for you!", e os outros três, que absolutamente não a conheciam, tinham que aprender e sair tocando, direto, melhorando-a on the job.


 8. Any Time at All  (Flirt Girl Song by John Lennon)

John se oferece: "A qualquer hora! A qualquer hora! A qualquer hora! É só me ligar e estarei com você.  Se você precisar de alguém pra amar, apenas olhe nos meus olhos, estarei aí pra te fazer sentir bem. 
Ele se coloca à disposição para amá-la, é só ligar! Foi praticamente uma repetição do tema de All I've Got To Do, de chamar ao telefone, enfim, mas desta vez num rock da melhor qualidade. Marcante para mim é o início, com uma batida seca de Ringo, e John entra com o refrão, lá em cima, num Beatle break, sem instrumentos "Any time at..." e a guitarra só entra no "..all". Note que são três as vezes em que a expressão é cantada no refrão, mas a segunda vez, quem canta é Paul, voltando John para a terceira. É sabido que Paul tinha mais alcance de vocal que seu companheiro. Os versos são cantados uma oitava abaixo do refrão, e há duas vezes o artifício do overdub, porque seria impossível cantar direto os trechos 
"I'll be there to make you feel right (If you're feeling) sorry and sad" e 
"There is nothing I won't do (If you need a) shoulder to cry on", 
as partes em azul são colocadas a posteriori.
Notável é o piano que aparece no verso, com uma nota comprida a cada acorde, e que também faz a sessão instrumental, primeiro em composição com a guitarra de George e se destacando mais ao final da sessão com notas crescentes introduzindo mais um refrão. Esse belo piano é ideia e execução de Paul! Depois daquela sessão de 2 de junho, nunca mais os Beatles tocaram Any Time At All, em nenhuma ocasião, no time at all, uma pena.

 9. I´ll Cry Instead  (Dispair Miss Song by John Lennon)

John se oferece: "Eu tenho todos os motivos do mundo para estar louco porque eu acabei perder a única garota que eu tinha. Se eu pudesse fazer do meu jeito, eu me trancaria a chave hoje, mas eu não posso, então em vez disso, eu choro. 
Após um encontro com Bob Dylan em janeiro, em que os Beatles se deliciaram com um disco do bardo, John havia se decidido que era hora de começar a falar menos, para adolescente e mais sobre seus sentimentos. Esta canção tem um leque memorável de angústias expostas com relação a seu relacionamento perdido, em que ele passa 


mas como não pode e até conseguir, ele apenas chora, que é o título da canção. Aliás, que nem se pode chamar de refrão, mas é a ÚNICA letra que se repete ao longo de todas as linhas, impressionante a construção lírica do poema! 
 
Musicalmente, nem há destaques a serem feitos, apenas quatro músicos excelentes tocando magistralmente seus instrumentos regulares, com John no violão, Paul no baixo (ok, foi bem variado!), George na guitarra e Ringo na bateria (ah, ele tocou pandeiro também). John cantou sozinho, sem as tradicionais harmonias que eles faziam tão bem.  
 
O fato notável é que ela foi feita por encomenda para musicar aquela cena em que os quatro fogem das fãs e fazem malabarismos, para a qual foi aproveitada Can't Buy Me Love, porém foi considerada carregada de emoções demais, havemos de concordar, não é mesmo? Além disso, ficou curta para preencher a cena toda. Ela nunca foi tocada ao vivo, mas felizmente foi ressuscitada num tributo a Lennon, num relançamento do filme em 1981, de fundo a uma série de fotos deles em 1964  passando em ritmo alucinante!
... eu disse 'felizmente' porque fizeram o tributo

mas foi 'infelizmente' por causa da razão para ele...

 

 10. Things We Said Today  (Love Girl Song by Paul McCartney)

Paul declara: "Você diz que será minha, garota, até o fim dos tempos. Nos dias de hoje uma garota tão gentil parece tão difícil de se achar. Algum dia quando estivermos sonhando, profundamente apaixonados, sem muito a dizer, então nos lembraremos de coisas que dissemos hoje  mostra a capacidade profissional da banda.
Essa foi a única canção de Paul no Lado B do disco. Ela foi feita durante as merecidas férias do grupo, conforme já detalhado acima. A letra versava sobre sua relação com uma menina que pouco tem tempo de ver porque ambos têm carreiras atribuladas. ("Someday when I'm lonely, wishing you weren't so far away").  Esse era o caso de Jane Asher, atriz concorrida, que viajava muito, assim como ele. 
Things We Said Today foi apresentada aos demais 3 companheiros numa sessão do dia 2 de junho e estava PRONTA apenas TRÊS TAKES DEPOIS, o que mostra a capacidade dos instrumentistas. Ela é marcada pelo triplet grave do violão de John, aquele ta-ra-ran do início, e que é repetido no meio e no final da canção, magnífico! John também toca um piano que encorpa a ponte ("Me, I'm just the lucky kind. Love to hear you say that love is luck.."), que também é enriquecida pelo pandeiro de Ringo! Apenas se ouve a voz de Paul na canção, dobrada e em segunda voz nas metades finais dos versos.  
A canção foi bastante tocada  ao vivo, sendo duas vezes na BBC e muitas nas excursões de 1964. Nessas ocasiões, era George quem fazia as segundas vozes de Paul. Ela foi a escolhida para fazer o Lado B de A Hard Day's Night em compacto lançado simultaneamente com o LP.

 11. When I Get Home  (Love Girl Song by John Lennon)

John declara: "Who-hoaa,Who-hoaa, Eu tenho um monte de coisas para falar com ela quando eu chegar em casa. Vamos, eu estou saindo porque eu vou ver minha garota hoje. Eu tenho um monte de coisas que eu tenho que dizer a ela"
Apesar de ser escrita nas férias no Tahiti, John descreve as saudades de casa, como se estivesse nas suas longas ausências em excursões e filmagens, talvez para acalmar Cynthia, que ficava com o pequeno Julian o tempo todo! John mostra todo seu apuro literário ao usar pela primeira vez na história do rock a palavra "trivialities", e ainda fazendo rima rica com "please". A coisa começa lindamente com o refrão gritado em harmonia tripla (John Paul George) até chegar ao nome da canção quando fica apenas John, e então entra Ringo com uma virada maravilhosa na bateria e segue John cantando o verso, depois mais refrão e verso e refrão e ponte ("When I'm getting home tonight, I'm gonna hold her tight. I'm gonna love her till the cows come home") apenas com John de novo. Sente-se falta de mais viradas de Ringo, mas ele  estava ali no sacrifício, cheio de dor em sua garganta: ele internar-se-ia no dia seguinte para extração das amídalas, o que causou sua substituição por um certo Stevie Nichol nos primeiros 10 dias da primeira grande excursão internacional, a Dinamarca, Holanda, Hong Kong e à primeira cidade da Austrália. Ringo voltaria para o resto de Austrália e Nova Zelândia! A canção nunca foi tocada ao vivo e é é sub-avaliada pelos críticos, mas não por mim, e decerto a grande maioria dos fãs, que a amarão até as vacas voltarem para casa, no fim dos tempos!

  12. You Can't Do That  (DtR Girl Song by John Lennon)

John ameaça: "Eu tenho algo a dizer que talvez lhe cause dor: se eu pegar você falando com aquele garoto de novo, eu vou te decepcionar, e te deixar imediatamente, porque eu já te disse antes, oh, você não pode fazer isso"
Canção típica de DR entre casais, com ameaças! Ela foi feita em Miami, em meio ao estrondoso sucesso da invasão da América. intenção é que  fosse  incluída no filme A Hard Day's Night, mas foi deixada de lado com a chegada da canção título! Retrato da possessividade de John em relação à sua amada, ciúme explícito, não querendo nem que ela converse com outros rapazes, apesar de ele não fazer a parte dele, com inúúúmeras puladas de cerca. Ele podia, né! 
COWBELL
Esplêndida também musicalmente, a começar pelo riff matador de guitarra que abre solitário e arrebatador a canção, para entrarem apenas depois os outros instrumentos. Foi a primeira vez em que os Beatles fizeram desse jeito, e repetiram a fórmula em Day Tripper, Ticket To Ride, I Feel Fine e outras. Ouvem-se os ecos do riff ao longo de toda a canção e ele volta, triunfal, ao final! Siga encantado com os duelos vocais, com Paul e George enfatizando em harmonia dupla as ameaças de John, a partir do segundo verso. E também no "GREEEEEEN" da ponte. Pois é, parece que veio daí a expressão 'verde de inveja', hehehe.  E ouça o solo de guitarra de John (raríssimo!), o bongô de Ringo, mas principalmente o 'cowbell' tocado por Paul em overdub, ao longo de toda a canção, com breves interrupções, cheguei a contar, foram 260 vezes que Paul bateu com sapiência aquele sonoríssimo instrumento de percussão. 
Ela foi tocada ao vivo na BBC, quase um mês antes de ser lançada como Lado B do compacto liderado por Can't Buy Me Love, Número 1 imediato nas paradas, e seguiu sendo tocada nos shows das excursões pós-filmagens! Um sucesso!!!

13. I'll Be Back  (DtR Girl Song by John Lennon)

John implora: "Você sabe, se você partir o meu coração, eu vou embora, mas eu voltarei porque eu já lhe disse adeus antes, mas eu voltei"

Canção de DR de casal, com submissão do sujeito totalmente apaixonado! John segue em sua insegurança sentimental que é uma constante em toda a sua carreira, é só lembrar que Don't Let Me Down lá do final, quando já mudou de esposa, mas o coração segue inseguro. A canção foi feita nas férias de John e George e respectivas companheiras no Tahiti. Na volta, logo no primeiro dia de gravação, dedicaram três horas e 16 takes para terminá-la. O notável de I'll Be   Back é sua  complexa estrutura, de 10 componentes, um recorde, senão vejamos: verso-verso-ponte1-verso-verso-ponte2-verso-verso-ponte1-verso! E nenhum deles é refrão!  Com dois requintes: duas pontes (inédito), e quando a primeira é repetida, ela vem com letra diferente!!!! Vejam: "I love you so, I'm the one who wants you" e "I wanna go but I'd hate to leave you"
Outra coisa é o tom da canção, que os especialistas não têm certeza se é LaMaior ou LaMenor, porque a abertura de George ao violão fica lá e cá, depois o verso começa cá e termina lá.  Notáveis são as variações de tempo e as inclusões pontuais de triplets no violão de George, que podem ser notados  em pontos selecionados  ao longo da canção, melhor identificados com fones de ouvido (no esquerdo, ok?). Os versos são em harmonia dupla com Paul, mas nota-se uma nota alta de George ao longo! As pontes (todas as TRÊS!) são levadas apenas por John! E a canção termina com um Fade-out, também inédito para um final de LP, alternando também lá e cá....e segue a dúvida dos especialistas...


UFA! 

Comentar 13 Lennon/McCartney Songs não foi fácil! è muita riqueza, muita inovação, muita qualidade, que a gente sente a necessidad de descrever.

Todas foram montadas nos dois lados de um vinil, na ordem apresentada acima, que foi colocado numa capa antológica! Robert Freeman, mais uma vez, deu a ideia de apresentar 4 fileiras de fotos dos quatro membros da banda, como se fosse um rolo de filme, afinal, tudo foi inspirado pelo filme que estavam fazendo! O fundo das fotos era azul, e o título acima delas todas. No Brasil, felizmente optaram por lançar as mesmas canções, porém a capa tinha um fundo vermelho, e o nome foi abrasileirado, apresentando Os Reis do Iê Iê Iê, que seria também o nome do filme! Foi o primeiro álbum que eu comprei, ou  melhor, pedi na loja, para que meu irmão, 13 anos mais velho, me presenteasse, no meu aniversário de sete anos, em 1965. Eu já conhecia, porque ele havia comprado o LP Beatles Again, seis meses antes! Comecei cedo a paixão!

No Reino Unido, o LP foi para o topo da parada onde ficou 21 semanas. Nos EUA, preferiram lançar diferente... Pegaram as sete canções da trilha, mais I'll Cry Instead e acrescentaram mais quatro instrumentais de George Martin. Talvez por isso tenha ficado 'apenas' 12 semanas, mesmo assim, sendo o maior sucesso do ano, no mercado mais importante do mundo! O álbum oficial é regularmente colocado nas listas dos melhores álbuns de todos os tempos, em inúmeras enquetes.

 

4 comentários:

  1. Ufa!
    Nada mais justo que este ufa! próximo do final. Que fôlego! Ficou muito bom. Como disse de outra vez, há tanta coisa ai que jamais descobriria sem um guia experiente para mostrar o caminho.
    É para ler várias vezes, ouvindo as canções, vendo os vídeos e, a cada vez ter a atenção voltada para um detalhe novo. Parabéns

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  2. Meu amigo, o passeio pelas canções e sua estórias, nos possibilitam compreender a genialidade dos quatro.
    São detalhes que passam desapercebidos pelos ouvidos dos mortais e fanáticos beatlemaníacos, como nos.
    Nos perdemos na viagem curtindo o som e não percebemos a riqueza que os envolve.
    Vc insere em nossa viagem o ingrediente mágico que possibilita a compreensão do todo.
    Obrigado

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  3. Noooossa Homerix, existe algum termo mais apropriado do que superação? Dizer que você se superou nesta postagem me parece pouco, insuficiente. Sobrou gás para comentar o próximo LP dos Beatles ou antes irá tirar licença prêmio? Obrigado por tantas informações que você traz à tona, vou acabar especialista em Beatles e não apenas um grande fã.

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  4. Caro Homero, parabéns pelo excelente, bem escrito, criativo, cativante, divertido, colorido, emocionante, onomatopeico texto. Proponho uma sugestão de melhoria: o plural correto de LP, na língua portuguesa, é LPs, não LP's. Na língua inglesa o apóstrofo significa não plural, mas posse.

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