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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

I Miss Elis ...

Fui vê-la no cinema, já, já, minha crítica, 
enquanto isso aproveito para revisitar meu post ELISético
Modéstia à parte, mandei muito bem!!!
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Sinto falta de Elis Regina. 

Há 39 anos!


No dia 19 de janeiro de 1982, ela foi encontrada morta em seu apartamento, intoxicada por álcool e cocaína. Aos 36 anos de idade...

Naquela data eu ficava órfão de novo, pouco mais de 13 meses depois da partida de John Lennon. Portanto, agora, órfão musical de pai e mãe. Lembro-me do momento em que ouvi a notícia. Estava na Bahia, começando meu estágio de campo como Engenheiro de Petróleo.

Não apareceu até hoje, nenhuma cantora que se equiparasse a ela.

Algumas bateram na trave, mas faltavam detalhes, que se encontravam todos nela, uma conjunção cósmica. Uma Pelé de saia e com voz.
 
Gal? Bethania? Simone? Fafá? Zizi? Joana? Marina?

No way!!

Eu a vi, pela primeira vez, no Festival da Record de 1966, quando defendeu "Arrastão", com seus braços giratórios qual dois ventiladores anti-sincronizados, berrando 'Pra miiiiiim, olha o arrastão entrando num mar sem fim...", com um cabelo horroroso todo armado, coisa da época. Ano seguinte, no maior festival de todos os tempos (neste link), defendeu "O Cantador", ganhando o prêmio de melhor intérprete, coisa que a partir daí não necessitaria disputar nunca mais. Primeiro que não disputaria mais mesmo, segundo que, se participasse de algum concurso do gênero, seria considerada 'hors-concours', sem qualquer contestação.



A década de 1970 viu uma Elis maior que o samba e a bossa nova a que se dedicou no começo de carreira, em  que teve um de seus grandes duetos, com Jair Rodrigues. Uma Elis aprimorando seu domínio vocal até um ponto inalcançável por nenhuma outra. Uma interpretação visual diferenciada, com sentimento teatral. E um visual diferente, com cabelo curtinho. .
 
Ali, ela começava a lançar compositores que se mostrariam monstros sagrados, como Milton Nascimento "Maria, Maria!", João Bosco "O Bêbado e o Equilibrista", Ivan Liins "Madalena", Renato Teixeira "Romaria", Zé Rodrix "Casa no Campo" Marcos e Paulo Sérgio Valle "Black is Beautiful". Comprei o meu primeiro LP  de Elis em 1971, justamente o primeiro desta fase, ótimo 'ELA', aonde me marcou a interpretação da canção dos irmãos Valle, com gritos lancinantes e afinadíssimos. Como brinde, uma brilhante interpretação de "Golden Slumbers", dos Beatles.
 
Claro que os velhos  e já então consagrados compositores tinham em Elis sua maior intérprete. GIlberto Gil, Tom Jobim, Chico Buarque, entregavam a ela coisas como "Se eu quiser falar com Deus", "Águas de Março" e a espetacular "Atrás da Porta"... Isso só pra mostrar uma canção de cada um deles, que sempre a procuravam para cantar, digo, interpretar suas obras. Isso mesmo: Elis interpretava, como ninguém, sentia e transmitia o clima da música. Uma interessante exceção nesse rol de monstros sagrados foi Caetano Veloso. Sim, ele deu a ela 'Cinema Olympia', mas se não me engano, ficou quase que só nisso. Caetano privilegiava sua irmã Bethania e sua conterrânea Gal. O que não o impediu de fazer uma grande declaração. Em um festival de 1973, em que Elis foi recebida com frieza pela platéia, Caetano pegou o microfone e disse: "Um pouco mais de respeito, por favor, pela maior cantora desta Terra!"

Em 1975, Elis lançou um marco na história da música, o espetácula "Falso Brilhante", que teve mais de 1200 apresentações em São Paulo. Numa delas, teve minha presença, em 1976 quando cursava o 1º ano da Poli. Pude presenciar duas das melhores canções de Belchior, outro que ela lançou ao estrelato, as ótimas "Como Nossos Pais" e "Velha Roupa Colorida", em que ela arrasou, ainda que incomodada com "a ponta de um torturante bandaid no calcanhar" (genial sacada de João Bosco, na verdade, Aldir Blanc, o letrista da dupla).

Não se esquecer jamais das grandes interpretações que teve do celestial Adoniran Barbosa, em especial quando dava um tiro no Árvaro. E, seguindo na linha do humor, entrego aqui, neste LINK, um dueto tão inesperado quanto magnífico, dela com o humorista Chico Anysio, outro iluminado, interpretando Canto de Ossanha, aliás, uma ótima oportunidade de relembrar mais um dos deuses da música que 'usaram' Elis, Vinicius de Morais, aqui numa parceria com Baden Powell.

Vida pessoal? Complicada, muito por sua língua ferina, honrando seu apelido de 'Pimentinha'. Do primeiro casamento, com Ronaldo Bôscoli, que não deve ter sido fácil, como vimos no seriado "Maysa", teve um filho, João Marcelo. Do segundo, com César Camargo Mariano, teve os filhos Pedro e a hoje famosa Maria Rita, que até tem o mesmo timbre da mãe, mas a potência, quanta diferença!!!

Encontramos um novo Pelé? Não!

Encontraremos um novo Pelé? Não!
 
Se trocar Pelé por Elis,
e adaptar-se o gênero
nas duas frases acima.
Pra mim, sem dúvida.


 Homerix Lembrando Elis Ventura

As Canções de Revolver

              Capítulo 41

Esta é minha saga  

O Universo das Canções dos Beatles



Todos os Capítulos têm acesso neste LINK 

O cenário para o 7° LP e o que aconteceu nos oito meses que separaram seu lançamento do LP anterior está aqui neste LINK

Os assuntos tratados em Rubber Soul estão detalhados aqui neste LINK 

Aqui, minhas análises das canções de Revolver. Pinceladas sobre a música, uma passeada pelas letras, instrumentos, e curiosidades.

Basta clicar nos links correspondentes!


Taxman

https://blogdohomerix.blogspot.com/2021/01/taxman-ou-mordida-do-leao-ingles.html

Eleanor Rigby

https://blogdohomerix.blogspot.com/2021/01/eleanor-rigby-panteao-da-solidao.html 

I'm Only Sleeping

https://blogdohomerix.blogspot.com/2021/01/im-only-sleeping-deix-eu-quieto.html 

Love You To

https://blogdohomerix.blogspot.com/2021/01/lo-you-to-all-day-long.html


Outras 10 chegarão aqui...

Love You To All Day Long

Esta é a 4ª canção do Lado A do álbum Revolver 

a história do álbum, cenário, assuntos e canções, aqui neste LINK

É uma de 5 canções Discursos para o Mundo

as demais 4 canções do mesmo Assunto e Classe, aqui, neste LINK


4. Love You To   World Speech Song by George Harrison)

George prega: "A vida é tão curta, uma nova não pode ser comprada, e o que você tem significa tanto pra mim. Faça amor o dia todo! Faça amor cantando canções"
Ora, ora, seu George Harrison estava com tudo mesmo. Abre pela primeira vez um álbum Beatles (Taxman), depois ouve Paul (Eleanor Rigby) e John (I'm Only Sleeping) apresentarem seus trabalhos, e logo emplaca sua segunda canção em um Lado A de um LP Beatle, outra primeira vez, e que seria a única! E ainda por cima, não deixa nenhum dos seus companheiros tocarem nada: "Fiquem aí ouvindo!". E eu acrescentaria "... e viajando em minha mensagem!".   Como eu disse, os outros Beatles quase não têm vez, as estrelas são os instrumentos indianos (cítara, tabla e tambura) na canção, bem, em verdade, Ringo toca um pandeiro! E Paul faz um backing vocal! A linha é tênue entre considerá-la uma World Speech Song, ou uma Love Song, porque ele fala 'I'll make love to you if you want me to', mas eu prefiro a outra interpretação devido à imersão que George fazia na cultura indiana, de interesses mais planetários, sugerindo que pratique o amor, no sentido amplo, na mesma linha de John fez em Rubber Soul, na canção The Word. No último verso, o alerta é pra tomar tenência, porque podem "screw you in the ground", e complementa com "They'll fill you in with their sins you'll see". Fique atento!
George segue firme na regra Beatle: tente não repetir letra! E ele vem com três versos diferentes, intercalados com três refrões diferentes,  o que é absolutamente inédito!!! O apoio vocal de Paul, como sempre é no agudo, mas o diferente é que consta apenas de uma nota na sílaba final de cada refrão, três vezes um "me" e uma vez um "see", ao que nem pronuncia as consoantes "m" e"s", apenas a vogal "e", enquanto George faz a mesma sílaba, mas em melismas, variando as notas seis vezes. Como assim, três mais um igual a quatro, não eram três refrões? Sim, mas o principal deles  ("Make love all day long...") é repetido após um verso instrumental. A outra parte da regra informal dos autorqualidade das rimas, está presente, gloriosamente: TODAS elas são ricas, não vou listar aqui, mas pode verificar. Ah, vou listar, sim, mas tudo seguidinho, "fast-past-can-man-short-bought-long-songs-round-ground-you-to", isso sem contar com o "me-see", entre versos!


O grande charme da canção, claro, são os instrumentos indianos! E a cítara é o grande astro. George a toca na introdução, mas um outro citarista entra em campo ao longo da canção, afinal George não era o virtuose no instrumento para tocar daquele jeito. Seu ponto alto é o riff de 7 notas, que introduz cada verso, e é repetido 3 vezes em cada refrão. Ela segue ativa ao longo de toda a canção em improvisos. A percussão é fornecida por uma tabla, que foi microfonada bem de pertinho por Geoff Emmerick, o produtor de campo que assumiu a batuta em Revolver, enquanto George Martin ficava na salinha do aquário, supervi
sionando tudo de cima! Os instrumentistas indianos ficaram estupefatos com o resultado, nunca visto!! O som que se ouve ao longo de toda a canção, numa mesma nota, zumbida (drone sound) sem parar, grave, é produzida por um tambura. 
Entretanto, há a presença de um instrumento ocidental: é George, com sua guitarra alterada pelo pedal de volume (Tone Bender), que Paul havia usado no baixo em Think For Yourself, de Rubber Soul. Você percebe o som quatro vezes em cada refrão, sempre na mesma nota. Foi a terceira vez que eu falei em "mesma nota" nesta análise, com tambura, com guitarra e com voz!  
A canção foi muito bem recebida pela crítica e pelos doutos da contracultura da época, e considerada revolucionária. Era a quarta em quatro canções instigantes do instigante Revolver!  Nem precisa dizer que nunca foi tocada ao vivo, mas ela volta, linda, no filme Yellow Submarine, introduzindo o próprio George Harrison, cabelos ao vento! Ouça aqui, neste LINK, como saiu no filme.

domingo, 17 de janeiro de 2021

O relacionamento de uma escritora com seu personagem

Há quase 10 anos, Renata Ventura lançava seu primeiro livro, A Arma Escarlate, e dizia:

A NOTA DA AUTORA:
Em uma entrevista com J.K. Rowling, autora da série Harry Potter, um fã norte-americano lhe perguntou se ela algum dia escreveria um livro sobre uma escola de bruxaria nos Estados Unidos. Ela respondeu que não, 
… mas fique à vontade para escrever o seu.” 
Sentindo-me autorizada pela própria Sra. Rowling, resolvi aceitar o desafio: Como seria uma escola de bruxaria no Brasil? Especificamente para este primeiro livro, como seria uma escola de bruxaria no Rio de Janeiro? 
Certamente não tão completa, nem tão perfeita, quanto uma escola britânica. Talvez ocorressem algumas falcatruas aqui, outras maracutaias ali… certamente trabalhariam nela alguns professores geniais, porém mal pagos. Com certeza não seria em um castelo. Faltaria verba para tanto. Mas, quem sabe, dentro de uma montanha. Há centenas no Rio de Janeiro. Algumas bem famosas. 
Como um bom brasileiro, Hugo, meu personagem principal, também não seria tão certinho quanto Harry. Nem tão ingênuo a respeito das realidades duras da vida. Órfão? Não. Filho de mãe solteira e pai sumido; como tantos que moram nas comunidades pobres da Cidade Maravilhosa. Esperto, arisco, inseguro, amedrontado até, mas se fingindo de forte, para sobreviver. 
Essa era a ideia básica, mas que depois cresceu e tomou uma proporção muito maior do que eu jamais imaginara. Os personagens foram ganhando vida própria, personalidade… até saírem completamente de meu controle. 
Às vezes, ao longo da escrita, eu chegava a me surpreender com algumas de suas reações; completamente alheias ao que eu havia planejado, mas que combinavam perfeitamente com quem eles eram.
Até que chegou um dia em que eu, morrendo de rir do absurdo que eu mesma acabara de escrever, parei tudo e liguei para um de meus melhores  amigos, perguntando: “E agora, o que eu faço? Como tiro Hugo dessa enrascada em que ele acabou de se meter por causa da língua afiada dele?"
Meu amigo, confuso, perguntou: “Você não pode simplesmente mudar o que ele disse?” 
Não! Não posso! Ele não responderia de nenhuma outra forma.” 
Ué, por que não?
 

Porque ele é o Hugo! E o Hugo é indomável.

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Hoje, 3 livros e 2.000 páginas depois, veja como está o relacionamento dela com seu protagonista Hugo Escarlate!


“Estou apaixonada pelo Hugo! Sério! Finalmente! Já estava gostando cada vez mais dele ao longo dos livros, ao longo do caminho que eu ia descobrindo ser o caminho dele, vendo o crescimento de meu protagonista, as mudanças em seu olhar do mundo, em seu entendimento de si próprio, as características escondidas da personalidade dele, que eu e ele íamos descobrindo juntos, à medida que ele amadurecia... Porque é isso: mesmo eu, como autora, vou descobrindo meu personagem! Vou descobrindo a força dele na mesma medida em que ele próprio vai se descobrindo, e estou achando isso lindo; estou achando ELE lindo.

Eu me lembro que, no início, quando lancei "A Arma Escarlate", eu costumava brincar, nas entrevistas, que "ainda bem" que eu não conhecia pessoalmente alguém como Hugo (me referindo ao temperamento dele no início da série kkk). Hoje sei que, mesmo eu, naquele tempo, não o conhecia inteiramente; ainda estava aprendendo a descobrir quem ele era. Hoje, estou apaixonada pelo Hugo de agora e igualmente apaixonada pelo Hugo que estava lá no primeiro livro, aprendendo a ser bruxo, descobrindo suas raízes, descobrindo a si mesmo, e estou apaixonada pela jornada pessoal que ele está fazendo.

Quero muito terminar de contá-la a vocês. O mais depressa possível! 

Faltam dois livros...”

Na foto, ela com sua obra!




I'm Only Sleeping, deix-eu quieto!

  Esta canção é a 3ª do Lado A do álbum Revolver 

a história do álbum, cenário, assuntos e canções, aqui neste LINK

É uma de 3 canções sobre Si Mesmos na Classe Corpo

as demais 2 canções do mesmo Assunto e Classe, aqui, neste LINK


3. I'm Only Sleeping (Body Self  Song by John Lennon)

John boceja "Por favor, não me acorde, não me sacode, me deixa aonde estou, estou apenas dormindo!"  

Ponha-se no lugar de um fã dos Beatles em agosto de 1966, já oito meses sem um LP deles, aí você recebe o Revolver, espanta-se com a capa, retira a bolacha cuidadosamente, e bota pra tocar. Primeiro, você se surpreende ouvindo a voz de George, abrindo pela primeira vez um LP dos Beatles, e com uma letra ferina, depois ouve a voz de Paul numa canção em que clama pelos solitários, mas na qual nenhum dos Beatles toca nada, e finalmente ouve a voz ácida, mas desta vez preguiçosa de John, pedindo que o deixem em paz, que ele só quer dormir, coloca-se na situação dele, porque dormir é mesmo ótimo, e tal, e de repente você ouve um som esquisito, parecendo um zumbido de abelha, porém melódico, e segue na letra, e tal e na hora que entraria um solo de guitarra, lá vem mais zumbidos, mas você gosta do que ouve, é intrigante, se pergunta: “Que diabos é isso?!”. Eu respondo à pergunta mais adiante! 

Primeiro, o ambiente em que ela foi criada. John era o mais sonolento dos Beatles, e podia ficar horas assistindo TV, vendo a vida passar, olhando pro teto esperando o soninho chegar, e tal, além de tudo, por morar no subúrbio, demorava a chegar de volta da City à noite, e dormia até tarde. Paul, que morava na cidade, não tinha aquele contratempo, e normalmente era quem o acordava no dia seguinte para trabalhar. Tantas vezes foi repetida essa situação, ainda mais naquele longo tempo em que não fizeram qualquer show, que passava muito tempo em casa, que o inspirou a botar em música aquele estado de espírito e de corpo! E nasceu I’m Only Sleeping, vejam os rabiscos de sua criação, escritos no verso de uma carta cobrança de uma conta de 12 libras, folha esta que hoje está nas mãos de um colecionador que pagou meio milhão de dólares por ela... E ele expressou bem tudo aquilo na letra, inclusive o “lying there staring at the ceiling, waiting for a sleepy feeling...”, perdoando-lhe desde já a rima pobre, substantivo com substantivo. Este era o teor do  verso. No 1°  verso, ele apresentava ao mundo do rock o verbo 'bocejar' em “I’m still  yauning” (e olha eu bocejando aqui), em rima rica com “Wake up in the morning”. Depois, vem o 1°  refrão, pedindo pra que não mexam nele e apresentando o nome da canção. O 2°  verso vem com duas rimas pobres, "crazy" com "lazy" e "need" com "speed", ok, vá lá, segue perdoado, inda mais porque ali naquele "speed" e naquele "need" aparecem pela primeira vez aqueles zumbidos.  Lembra que eu qualifiquei o refrão com um 'primeiro'? Foi porque inventividade era a marca dos Beatles, e John nos oferece um 2°  refrão, com uma letra diferente, "Please don't spoil my day, I'm miles away..." olha a rima rica aí de volta. Agora, vem a ponte "Keeping an eye on the world going by my window, taking my time", e sua rima rica interna, "eye" com "by". O 3° verso começa, com aquele papo do teto e do soninho, mas a letra para no meio e entra aquela profusão de zumbidos melódicos, sobre os quais, como disse, falarei mais adiante. Depois, a canção termina com a repetição da ponte, depois do  verso e, finalmente, do  refrão e mais zumbidos em profusão no final!

I’m Only Sleeping tomou quatro sessões de gravação, sendo a base gravada no primeiro dia, com John e George em violões, Paul no baixo, e Ringo na bateria. Note a importância do baixo, nas paradas introdutórias do 2° verso, e depois, estendido, das pontes, com direito a marcação com estalar de dedos na primeira, sabe-se lá de quem, perceba bem, e, na parada para a 2ª ponte, note um bocejo de verdade, era Paul comandado por John, dizem que dá pra ouvir, bem ao fundo,  John dizendo: “Yawn, Paul!”. Numa segunda sessão, canta seu lead, eles tentam um vibrafone, que não foi adiante! Na quarta sessão, vieram os acréscimos vocais, John dobra sua voz em dois trechos nos primeiros versos “float downstream”, e “there’s no need”, que Paul responde, repetindo as duas frases. E vêm Paul e George com os uuuu’s nos refrões (variando de um pra outro), e finalmente harmonizando com John nas pontes! Ah, sim, eles também harmonizam no “sleeping” dos refrões! Ih, pulei a terceira sessão! Mas foi de propósito!
Foi na terceira sessão que foi  introduzido o misterioso zumbido acima mencionado. George havia gravado seu solo de guitarra, só que o operador do gravador, sem querer, acionou-o para trás na hora da gravação. Quando percebeu, e reproduziu o resultado no sentido correto, apareceram aqueles zumbidos, e os Beatles ficaram mais que intrigados, excitados, e pediram ao Maestro: ‘Podemos aproveitar isso?”. George Martin disse: “Tudo o que seu mestre mandar!”. Claro que não foram essas palavras, mas o ‘mestre’, figurativo, eram os próprios Beatles, e já corria a política na gravadora de aproveitar e acatar e tentar tudo o que passava na cabeça dos gênios, cientes que estavam do toque de Midas ali instalado. Só que, claro, o som era intrigante, mas não se encaixava perfeitamente na melodia. Então, George, o Harrison, voltou no dia seguinte, para uma sessão só dele, para acertar o efeito desejado. E não foi fácil! Foram quase 6 horas de sessão, no processo de tentativa e erro, toca/grava/reproduz/concentra/ouve-como-soa/gosta/não-gosta/anota/corrige/de-volta-ao-Passo-1 e, em cada tentativa, havia o esforço físico do operador de movimentar-se as pesadas fitas pra lá e pra cá, finalmente chegando-se às duas peças, a do solo no 3°verso, e a final em fade-out. Só que Paul, sempre curioso, apareceu lá e também fez suas tentativas, digamos que foram as duas que se materializaram no 2° verso, acima mencionadas, disso não se tem certeza, mas assim o determino!
O som se encaixava perfeitamente ao tom psicodélico do momento, eles o usariam algumas vezes, em Tomorrow Never Knows e Strawbery Fields Forever, por exemplo, e influenciaram artistas da época, que materializaram a técnica em algumas canções, como Jimmy Hendrix, The Byrds, The Who, T-Rex, ou mais adiante no progressivo do King Crimson, ou mais ‘recente’, R.E.M e Red Hot CP, e, claro, Oasis, que se achavam os Novos Beatles, mas jamais foram, ou serão!
Pode continuar dorminode sossegado, querido John!

 


REVOL ....VER igual a REVOL .... UÇÃO

                                                                                Capítulo 42 


De minha saga  

O Universo das Canções dos Beatles


Todos os Capítulos têm acesso neste LINK 

E agora, onde estamos na história dos Beatles?

Estamos em 3 de dezembro de 1965! 

Que não se perca a conta!!!               
Em pouco mais de 3 anos de carreira, exatamente 1.155 dias desde Love Me Do, lançaram 96 canções, sendo 72 autorais e 24 covers, filmaram dois Longas Metragens, A Hard Day's Night e HELP!, fizeram 520 shows, sendo 367 no Reino Unido, 88 na Europa Continental, 48 na América, 16 na Austrália e 1 na Ásia, ganharam 4 títulos de Membros do Império Britânico, lançaram 11 compactos e um EP de inéditas, e 7 LPs, Please Please Me (LINK)With The Beatles (LINK) A Hard Day's Night (LINK)Beatles For Sale (LINK)HELP! (LINK) e Rubber Soul (LINK), todos chegando ao primeiro lugar (com exceção do primeiro compacto). 
UFA!!!               

O último LP, justamente, que chegou ao mundo na data em que estamos, ou seja, 3 de dezembro de 1965, para ótima recepção de crítica e público, conforme descrito no final do Capítulo 41.

E aí começa o caminho os Beatles para chegarem ao álbum seguinte, mais conhecido como REVOLVER.

Aqueles adultos, como eles finalmente se sentiam, segundo disse Paul, após criarem Rubber Soul, mas ainda em seus 22 a 25 anos, já chegavam a um ponto de estrelato em que já não se submetiam a 100% das oportunidades de show. Por exemplo, naquele mesmo dia, começaram uma pequena excursão de 10 dias (mas 2 shows por dia) pelo Reino Unido, padrão, mas se recusaram a fazer os shows de Natal como ocorrera nos dois anos anteriores. E o que eram esses Christmas Concerts? Eram de 18 a 20 shows, em Londres, todos os dias, com folga apenas no dia de Natal, mas não na véspera, nem no último dia do ano, nem no primeiro do ano seguinte, onde eles abriam, com duas ou três canções, deixavam o palco para outros artistas da época, voltavam pelo meio do show, fantasiados, faziam sketches cômicos, de baixa qualidade, pouco ensaiados, mas de muuuito sucesso, satisfazendo as 100 mil pessoas que neles compareciam, em cada temporada, e voltavam ao final, com seus ternos, para fazerem mais três ou quatro canções. Foram dois Natais, 1963 e 1964. Os shows de 1965 foram anunciados, mas dessa vez, não! Eles já estavam ricos o suficiente para escolherem onde e quando tocarem. As famílias deles, penhoradamente, agradeceram.

Com a folga de Natal, George se animou e noivou com Pattie Boyd, com quem se casou em janeiro de 1966.  John e Ringo viviam em mansões, em Weybridge, na grande Londres, com suas esposas (Cynthia e Maurreen) e filhos (Julian e Zak). Apenas Paul era o solteiro do grupo, ainda em seu namoro com a atriz Jane Asher, com direito a moradia. Paul sempre otimizando os gastos, desde jovem!

Nesse meio tempo, e até março, George, John e Paul já estavam no processo de composições para o novo LP, que começaram a ser gravadas em 6 de abril, a primeira de 32 sessões de gravação, que se estenderam, por dois meses e meio, o que se constituiu num recorde da carreira até então. Ali, eles gravaram as 14 canções e mais duas lançadas em compacto (Paperback Writer e Rain), um período profícuo, em inventividade e inovação, que entraria para a história da música! 


Eles interromperam brevemente esse período para participarem e serem premiados no Empire Pool em Wembley, evento tradicional da New Music Express, na noite de 1° de maio, e que viria a se constituir na ÚLTIMA aparição dos Beatles na Inglaterra para público pago, e eram mais de 10 mil fãs enlouquecidos.  O show tinha os maiorais da época, como Rolling Stones, The Who, Dusty Springfield, Yardbirds, Roy Orbison, Stevie Winwood, Cliff Richard, the Shadows, Herman’s Hermits, nunca antes reunidos. Os Beatles estavam num visual cool, com blusas em gola rolê, e John marcou presença tocando com óculos escuros. O set list, fenomenal, teve  I Feel Fine, Nowhere Man, Day Tripper, If I Needed Someone e I’m Down.

Findas as gravações, de volta à estrada. As excursões voltaram no final de junho, com seis shows na Alemanha e uma excursão à Ásia, com cinco shows em Tokyo e dois em Manila, Filipinas. Só que esses dois países do Oriente deram dor de cabeça!!

Estavam eles a caminho de Tóquio, quando souberam de uma revolta que se formava porque iriam se apresentar no Budokan Hall, um templo dedicado até então, apenas e tão somente a lutas de Sumô e outras artes marciais veneradas pelo povo japonês. 
Isto posto, ao chegarem, foram blindados com um cerco de 35 mil policiais para garantir-lhes a integridade física e levá-los ao Hotel Hilton, onde ficariam sem mostrar a cara até a hora do show. Para passar o tempo (e sem sinal de internet), o empresário disponibilizou-lhes uma cartolina, tintas e pincéis, e então John, Paul, George e Ringo fizeram seus desenhos a partir dos cantos de uma mesma mesa de centro, em direção à base de um abajur que estava sobre a cartolina. Eles só saíam para ir ao show e voltavam, e logo voltavam a pintar! No último dia, Epstein levantou o abajur e estava pronta a primeira e única obra de arte assinada pelos quatro Beatles. Vejam como eles eram abençoados: ao se levantar o abajur, abriu-se o único espaço disponível na tela para assinat
uras. E virou uma preciosidade! Brian a presenteou para o presidente do Fã Clube da cidade, que a guardou, e lá ficou por muitos anos, até que alguém a descobriu e fez um bom dinheiro com  ela, que foi passando de mão em mão. O último colecionador que a arrematou desembolsou perto de 3 milhões de reais por ela.

Entretanto, aquela tensão toda, que até acabou em arte, foi fichinha perto da que teriam em Manila. Após os dois shows no mesmo 4 de julho, os Beatles teriam se recusado a comparecer a um jantar com Imelda Marcos, a primeira dama dos 5 mil sapatos. Eles garantem que não sabiam! O fato é que ela considerou aquilo uma afronta, anunciou-a em rede nacional, a polícia retirou a proteção que lhes dava, foram sob chuva de vaias ao longo do caminho do aeroporto, conseguiram embarcar, mas não Brian Epstein e o faz-tudo Mal Evans, o gigante gentil, que chegou a temer pela vida, recomendando aos rapazes: “Digam à minha esposa que eu a amo!”. Epstein só conseguiu embarcar quando devolveu todo o dinheiro ganho pelos shows. Ufa!

Pra completar uma tríade, vem John com suas opiniões ferinas. Uma delas, gerada naquele período entre álbuns, acabou tendo consequências logo no início da vida do álbum seguinte, ora analisado. Vocês devem se lembrar de Maurreen Cleave, que mencionei como uma das suspeitas de ter inspirado John em Norwegiam Wood, pois bem, ela foi uma das precursoras do jornalismo musical. Patrocinada pelo Evening Standard, ela acompanhara os Beatles uma primeira excursão aos EUA, e fez, em fevereiro, entrevistas individuais com os rapazes. De John, ele obteve a seguinte declaração:
O cristianismo irá acabar. Vai encolher e sumir. Eu não preciso discutir sobre isso; estou certo e serei provado certo. Somos mais populares que Jesus agora; eu não sei qual acabará antes – o rock 'n' roll ou o cristianismo. Jesus era bom, mas seus discípulos eram cabeças-duras e ordinários. Eles distorcem isso, e é o que estraga tudo pra mim.

Polêmico, né? Bem, na sociedade britânica da época, já com a mente um pouco aberta a mudanças de comportamento, a Swinging London começando, Summer of Love se aproximando, as palavras de Lennon foram adequadas ao ambiente de vanguarda e causaram pouco ou nenhum impacto. Já no EUA, uma sociedade conservadora ao extremo, causaram uma pequena hecatombe, mas foi somente quatro meses depois, quando Revolver já havia sido lançado, então, sobre esse evento, eu falarei no último sub-capítulo deste 42°capítulo de minha saga, quando comentarei sobre Recepção e Legado da revolucionária bolacha de vinil!

O período entre os dois notáveis  álbuns acentuou uma tendência que já vinha ocorrendo no binômio Dias De Show versus Dias De Estúdio, na carreira dos Beatles: cada vez menos faziam shows, cada vez mais passavam no estúdio, que se constituía cada vez mais em sua segunda casa, substituindo os quartos de hotéis dos tempos da Beatlemania!



Colocado em termos percentuais, em relação ao tempo decorrido entre lançamentos dos álbuns, os Beatles passaram 90% do tempo na estrada, até o lançamento de With The Beatles, passando a 50% até lançarem Beatles For Sale, ficaram em 20% no interstício até HELP! e, daí por diante, uma média de 10% do tempo, até lançarem Sgt. Pepper's,  após o qual, nunca mais!

Finalmente, se Rubber Soul foi considerado o 'Pot Album', devido aos efeitos da marijuana nas mentes dos compositores (veja neste LINK), Revolver subiu um degrau além na alucinogenia, e foi considerado o 'Acid Album'. Eu contarei essas histórias ao longo deste capítulo, quando esmiuçar  as influências das canções correspondentes, mas antes, na tabulação dos assuntos das letras das canções, que virá a seguir!

Aqui começava mais uma aventura Beatle, 
mais um degrau rumo ao topo, 
mais um estágio do foguete, 
em busca de novos sons, 
novas técnicas, 
novas harmonizações, 
audaciosamente indo
onde nenhuma banda jamais esteve!  


Vamos às canções do LP  'Revolver'

São 14 canções originais dos Beatles, assim como "Rubber Soul", de 1965. O quantitativo era mais ou menos um padrão, um número mágico. "Please Please Me" e "With The Beatles" de 1963, "Beatles For Sale" de 1964, e "HELP!" de 1965 também tinham 14 canções, só que os três primeiros tinham 6 canções cover cada um, e o último, duas. "A Hard Day's Night", de 1964, tinha 13, todas originais todas Lennon/McCartney, número que seria apenas batido em "The Beatles" de 1968, que teria 25 canções da dupla.

Detalhes sobre essas canções mais abaixo. .

  1. Taxman (George Harrison)
  2. Eleanor Rigby
  3. I´m Only Sleeping
  4. Love You To (George Harrison)
  5. Here, There and Everywhere
  6. Yellow Submarine
  7. She Said She Said
  8. Good Day Sunshine
  9. And Your Bird Can Sing
  10. For No One
  11. Doctor Robert
  12. I Want to Tell You (George Harrison)
  13. Got to Get You Into My Life
  14. Tomorrow Never Knows
  • As canções sem notação do autor são da dupla Lennon/McCartney!

  • Aqui, Paul ultrapassa John: das 11 da dupla, ele foi o principal idealizador em 6!! 

    Vejam que este álbum é o primeiro em que as Mind Songs suplantam as Heart Songs, batendo-as de 9 a 5, um protagonismo que jamais abandonariam até o fim da carreira! 


    Percebam a tabela abaixo. 



    Mais detalhes sobre a divisão entre Heart & Mind Songs, aqui, neste LINK

    Traduzindo
    • São 9 canções que falam à Mente  e 5 ao Coração
    • São 3 canções inspiradas em Drogas, 3 canções de Discurso, em 2 contavam histórias, e em 1, o autor falava sobre si, em verdade, sobre seu corpo
    • As 3 canções Discurso têm representantes nas 3 Classes: Pessoa, Grupo e Mundo, uma em cada Classe
    • As 2 canções História têm representantes de 2 Classes: Solidão e Conto
    • Finalmente, são 4 canções sobre Garotas (2 de Amor, 1 DR e 1 Paquera) e 1 Canção de Saudade, na classe Tristeza
    Revolver éportanto, um 

    64% Mind,
    29% Girl, 
    14% Love Album!

    Note duas coisas:
    • O Assunto Girl ainda impera, mesmo num Álbum Mind, porque conta com 4 canções, contra 3 de Speech, 3 de Acid, 2 de Story e 1 de Miss;
    • A Classe Love ainda leva a distinção, por ser a única com duas entradas. Revolver é um poço de diversidade: as demais 12 canções aparecem em 12 Classes diferentes!!

    As autorias estão assim divididas!

    • Aqui, Paul ultrapassa John: das 11 da dupla, ele foi o principal idealizador em 6!! 
    • É a primeira vez que George tem 3 canções de sua autoria
    • E vejam que o assunto Acid Songs é inaugurado em grande estilo, com a presença de 3 canções, sendo duas de John (nas Classes História e Viagem) e uma de Paul, na Classe Pessoal).
    • George já mostra por que seria o campeão proporcional das Speech Songs: Duas das três canções de Discurso são dele, sendo uma falando a um Grupo e outra falando ao Mundo. O outro Discurso é de John, falando a uma Pessoa!
    • Paul também mostra por que é o campeão das historinhas: duas de suas seis canções são Story Songs, uma sobre Solidão e a outra é um Conto!
    • A única Self Song do álbum é, claro, de John, o campeão quando se trata de falar sobre si mesmo. E aqui, ele vem com uma canção que fala sobre o seu corpo, cansado, sonolento.
    • O Assunto Saudade está presente, na voz de Paul, cantando com Tristeza, para ninguém!
    • E, finalmente, o Assunto Garota ainda segue firme, com 4 presenças, duas de Paul, na Classe Amor, uma de George, na Classe Paquera, e uma de John, na Classe DR.


    Na tabela abaixo, as evidências, nas letras, do porquê da classificação acima!





    Agora, as análises das 14 canções de "Revolver"  

    por enquanto, apenas duas prontas!

    1. Taxman   Group Speech Song by George Harrison)

    O Taxman diz: "Deixe me dizer a você como isso vai ser: é 1 para você, 19 para mim. Porque eu sou o homem dos impostos, sim, eu sou o homem dos impostos. Se 5% lhe parecer pouco, fique agradecido por eu não pegar tudo"  
    O desabafo de George coloca voz no Leão Inglês 
    fazendo um Discurso aos contribuintes de alta renda (o Grupo alvo), deixando claro como funcionava a coisa. Os Beatles pagavam impostos na mais alta alíquota do IRIF (Imposto de Renda do Inglês Físico), que era nada menos que 95%. A grita era justa, não!? Sim,
     e tão bem humorada, e musicalmente rica ficou, que deu a George pela primeira e única vez, a distinção de abrir um disco dos Beatles! John declarou, e não foi contestado por George, que o ajudou em algumas linhas, mas jamais saberemos em quais. Os dois devem estar confabulando sobre isso lá em cima. O fato é que o humor ferino das letras combina tanto para George como para John. O que se tem certo é que o 1°, o 2° e o 4° versos, bem como a conclusão, devem ser de George, pois estavam de alguma forma no manuscrito original. O 3° verso e a magnífica ponte podem ter o dedo de John. A música termina com uma pérola, que assegura que nem morrendo se escapa dos impostos: "Now my advice for those who die: declare the pennies on your eyes." (penny é a menor sub-divisão da libra esterlina). E a conclusão é definitiva "I'm the taxman, and you're working for no one but me". São quatro versos diferentes, sem repetição de letras, mantendo a tradição Beatle, bem como as rimas ricas, em sua maioria: além do par "die" com "eyes" já mostrado, os versos apresentam "be" com "me", "small" com "all" e "for" com "more". Já na ponte, as rimas são pobres, pois são quatro substantivos, afinal são quatro 'coisas' que são objeto da sanha impositiva do Taxman, que garante que vai taxar "Street, Seat, Feet, Heat". Nada menos que brilhante! 
    Musicalmente, George ficou orgulhoso por ter uma música sua burilada durante TRÊS sessões de gravação. Nada sobrou da primeira, mas a base foi gravada na segunda sessão, com George na guitarra base, Paul no baixo, notável, bastante inventivo, e Ringo na bateria, feroz, como se pode reparar logo antes de todos os 'Cause I'm the Taxman'.  John ficou apenas olhando e ouvindo. E na terceira sessão, vieram os overdubs. George acresceu alguns riffs de sua guitarra (mas não o solo, voltaremos a ele mais adiante!), Ringo acrescentou pandeiro, a partir do  2° verso, variando a percussão entre triplets e trepidação constante, e adicionando também um sempre bem-vindo cowbell (adoro!), a partir do 2°  'Cause I'm the Taxman'.  John, agora sim, acrescentou .... nada! Pois é, isso acontecia de vez em quando com nosso adorado líder da banda, mormente em canções do George, de vez em quando ele não tocava nada. Entretanto, ele aparece muito bem nos fundamentais vocais de apoio, juntamente com Paul, primeiramente em todos os "Yeah I'm the Taxman", depois intercalando as frases do 3° verso com "Ah-ah, Mr. Wilson." e "Ah-ah, Mr. Heath." em falsetto, e as do 4° verso, com dois "Taxmaaaan"s. Inventividade, diversidade, perfeição! E, na ponte, John e Paul estabelecem quatro duelos, abrindo as frases ("If you drive a car, try to sit, get too cold, take a walk"), com George terminando-as ("I'll tax the street, your seat, the heat, your feet"). Eu já usei o adjetivo 'brilhante'? Não tem problema, uso de novo! Brilhante!!! Puxa, ia me esquecendo de ressaltar o cínico, demente, engraçado contador de Paul, que abre a canção, o "one-two-three-four-one-two", com sons e falas ao fundo, e com direito até a uma tosse! 
    Finalizando o quesito overdub desta análise, tem o solo de guitarra, um dos mais famosos solos de guitarra dos Beatles, em uma canção de George Harrison,  que era o guitarrista-solo dos Beatles, numa canção composta pelo guitarrista-solo dos Beatles, com a enorme distinção de abrir um LP dos Beatles, única vez que aconteceu na história dos Beatles, um solo de guitarra que foi executado por ... Paul McCartney!!!! Oooooh!! Paul já fizera o papel de guitarrista-solo em algumas oportunidades, mas sempre em canções compostas por ele mesmo. Ocorre que George realmente não estava inspirado naquele dia, tentou, tentou, tentou, os outros olhando, olha a pressão, por algumas horas ele tentou, constrangido, até que seu xará George Martin olhou pra Paul, com aquele olhar de ‘Resolve isso pra nós?’, e Paul olhou de volta, com um olhar de ‘Pódexá, chefe!’. Martin chamou George num canto e anunciou ao estúdio que Paul iria tentar o solo, George recebeu serenamente, e saiu do estúdio. Paul pegou a guitarra, e em poucas tentativas concebeu aquela pérola, de difícil execução, selvagem, feroz, com aquele pulo uma oitava pra cima, inda mais repetido, deixando todos boquiabertos. Tão bom ficou que Martin resolveu repeti-lo no final, em fade-out. Em entrevista posterior, George diz que ficou feliz por Paul ter feito aquele solo para ele, mantendo a ideia de um som indiano. Ele se referia àquela descendente entre os dois saltos de oitava. 
    Um fato que eu vou contar aqui pela primeira vez, mas que se repetirá em todas as outras 13 canções: nenhuma canção de Revolver foi tocada ao vivo pelos Beatles!!! Sim, calma, houve sim uma canção gravada naquelas 32 sessões que viu a luz do palco: era Paperback Writer, mas ela foi lançada em compacto, não no LP. Dela, falarei quando destrinchar o álbum Past Masters #2, que será o derradeiro capítulo desta Saga! Felizmente, entretanto, George nos brindou com uma execução de Taxman, ao vivo, em 1991, seu último show, em Tokyo, numa versão estendida, de quatro minutos, quando nos presenteou com um verso adicional, chamando Boris Yeltsin e Mr. Bush, e uma segunda letra para a ponte, como que dizendo que ele podia, sim, produzir humor, além de John, suspeito de tê-lo ajudado na letra. Veja: “If you get a head, I’ll tax your hat, If you get a pet, I’ll tax your cat, If you wipe your feet, I’ll tax the mat, If you’re overweight, I’ll tax your fat." Muito bom!  E o famoso solo guitarra, desta vez, ele .... também não tocou.... É que em sua banda naquela ocasião, ele tinha um guitarrista chamado Eric Clapton, que o executou brilhantemente, aliás, duas vezes, um pouco diferente, mas com com o salto de oitava, e bastante estendido! Deixo aqui, neste LINK.


    2. Eleanor Rigby   Alone Story Song by Paul McCartney)

    Paul conta "Eleanor Rigby morreu na igreja e foi enterrada, só, ela e seu nome. Padre McKenzie batendo a poeira das mãos enquanto deixa a tumba. Todos os solitários, de onde vem, aonde eles pertencem!"  

    Escolhi este trecho, dos versos 5 e 6, porque conclui a história dos dois personagens, juntos na canção, mas solitários em seus corações, apresentados anteriormente, em um par de versos cada um. Entre a apresentação e a conclusão, vem o brado, na ponte:
    'Aaah, look at all the lonely people!' 
    Lindimais!!! Paul sempre foi um bom menino e diz que perambulava pelas ruas de Liverpool abordando as pessoas solitárias e ouvindo o que elas tinham a dizer, sobre suas vidas, sobre suas experiências de guerra, enfim, achava que fazia uma boa ação e gostava disso. Eleanor Rigby é a transfiguração de seus bons atos em uma canção, alertando o mundo para que não se esqueçam das pessoas solitárias. Ademais, é a primeira canção de Paul em que ele fala sobre outras pessoas, que não ele e seu par romântico.
    Há rumores de que os dois personagens existiram de verdade, talvez um registro num hospital do nome dela, ou uma tumba de um certo Padre McKenzie, e até mesmo de uma Eleanor Rigby, mas Paul sempre disse que os nomes haviam saído de sua mente, absolutamente fictícios, tanto que, originalmente, o Father era McCartney, mas ele desistiu porque poderiam pensar que se referia a seu pai, que era um sujeito feliz, não combinava, então pegou a lista telefônica (lembram?), foi à página do Mc e escolheu McKenzie, simples assim! Eleanor seria um nome que ele gostou desde que conheceu uma atriz homônima, no filme HELP!, aliás, com quem havia tido um caso (ah, pobre Jane Asher), e Rigby seria o nome de uma loja que existia em frente a um teatro onde Jane atuava. Os dois juntos combinavam na métrica, pronto, decidido! Tenha existido ou não uma Miss ou Mrs. Rigby, a coisa pode ter chegado de maneira subliminar a Paul, e tal, o único fato é que hoje existe uma estátua de Eleanor Rigby em Liverpool, muuuito visitada (quer dizer, era, no tempo em que havia turismo no planeta). O interessante é que pode ter sido uma das poucas canções em que houve participação dos quatro Beatles em sua composição. Após a ideia original de Paul e algumas sugestões de John, todos estiveram num jantar na casa deste último e se reuniram para trocar ideias sobre a canção, quando George (Harrison) teria sugerido o brado da ponte em destaque ali em cima, e Ringo, a frase sobre as meias e o sermão do padre. E estava presente também um amigo de John, que teria dado uns palpites. Eu uso sempre o futuro do pretérito nessas descrições, porque tudo são, rumores, hipóteses, com várias versões, enfim ... O fato é que a letra é pungente e brilhante. 
    Após usar a ponte da canção como introdução sobre pessoas solitárias, um 1° verso apresenta Eleanor Rigby, solitária, e termina com uma conclusão de quatro sílabas poéticas "lives in a dream", que rima ricamente com "been", e um 2° verso complementa sua solidão, sempre olhando pela janela, maquiada, e conclui com mais quatro sílabas "who is it for", rimando ricamente com "door". A estrutura Declaração + Conclusão com quatro sílabas + Rima rica se repete mais quatro vezes até o final! Veja o 3° verso, que apresenta Father Mckenzie, escrevendo um sermão que ninguém vai ouvir, e concluindo "no one comes near", rimando ricamente com "hear", e o 4° verso complementa sua solidão, cozendo meias de noite, e concluindo com "what does he care?", que rima ricamente com "there". Depois, vem o refrão com questões no estilo Globo Repórter: "Todos os solitários, de onde vêm, aonde pertencem?". Não perca a conta, caminhando para o final: um 5° verso conta o destino de Eleanor, morta, ela e seu nome, e conclui “nobody came!”, que rima ricamente com “name”, e um 6° verso, final, para Father Mckenzie, limpando suas mãos após encomendar a alma da pobre mulher, concluindo com “no one was saved!”, que rima ricamente com “grave”. Quer poesia mais genial que essa? E ainda embalado por um arranjo de cordas im-pe-cá-vel!

    Desde sempre, ficara claro que um arranjo de cordas seria o acompanhamento único da canção, os outros Beatles nem chegaram a gravar uma base, como aconteceu com Yesterday, no ano anterior. George Martin compôs o arranjo de cordas, em ritmo staccato (ao invés do legato, usado no arranjo daquela canção), para dois quartetos de corda, portanto, quatro violinos, duas violas e dois violoncelos. Os instrumentistas ficaram tensos, porque Geoff Emmerick, o jovem produtor que assumira a cadeira, encasquetou com a ideia de posicionar microfones bem próximos aos instrumentos, eles não gostaram nada disso, estavam acostumados aos microfones elevados, captando o som ambiente, e a cada take eles se afastavam dos microfones, até que George Martin desceu da salinha e acabou com a brincadeira. É difícil implementar mudanças!! Resistências eclodem! 
    E vamos ao arranjo! O movimento staccato está presente do começo ao fim, é aquele em que os arcos encostam breve, mas firme e repetidamente nas cordas (no legato, o arco passeia suavemente em notas contínuas pelas cordas). A canção abre com a ponte,  de dois violinos, as duas violas e os dois violoncelos em staccato, enquanto os outros dois violinos em legato em nota única ao longo do canto, e ao final de cada frase, aqueles violinos entram em movimento de serra, atacando-as na metade do tempo. Essa ponte se repete ao final do verso 4.  Note o clima como cresce em cada verso: no verso 1, apenas todos em staccato normal; no verso 2, os violinos serram as cordas em dupla velocidade; no primeiro refrão, violinos voltam ao tempo normal, em staccato, enquanto as violas choram em legato melódico descendente ao fundo; no verso 3 os violoncelos deixam o staccato e entram em legato crescente, e no 4, entram violas; então, volta o refrão com o mesmo acompanhamento do primeiro, mas na segunda 'pergunta', os violinos gemem; e, nos versos 5 e 6, após a segunda ponte, parece que estamos num filme de suspense, no momento em que se vai descobrir o culpado, aahh, cansei de descrever um a um, sintam apenas, os instrumentos em serra, e a profusão de violinos e violas, mas perceba como os violoncelos acompanham a melodia cantada por Paul, em “wiping the dirt form his hands as he walks from the grave”. Coisa arrepiante!
    O vocal solitário é de Paul, sendo que no refrão (aquele trecho A La Globo Repórter), o vocal é dobrado artificialmente, com o auxílio luxuoso de um ADT (Artificial Double Tracking), equipamento que fora recentemente criado na EMI, sob encomenda de John, cansado que estava de dobrar seus vocais, cantando por cima de sua própria voz. Note como o som da voz de Paul fica mais denso! John, aliás, junto a George, faz o vocal de apoio, apenas nas duas vezes em que a ponte é cantada, na introdução e após o verso 4. Eles não voltam no final. Há rumores de que foi George Martin quem sugeriu a Paul que voltasse, dias depois para apor sua voz, juntando o refrão às perguntas 'All the lonely people, where do they all come from?' e 'All the lonely people, where do they all belong?', onde então se ouvem ‘dois Pauls’ cantando, o que trouxe um efeito sensacional ao vocal de finalização da canção.

    Claro que a canção nunca foi tocada ao vivo pelos Beatles, que aliás nunca a tocaram nem em estúdio. Felizmente, com a chegada daqueles teclados que mimetizam instrumentos de cordas, Paul começou a tocá-la, com todo o direito de compositor que  era, a partir de 1990. Ela foi lançada em compacto, como duplo Lado A com Yellow Submarine. E falando em Yellow Submarine, a canção dez parte do filme! Veja aqui, o clip, neste LINK, preste atenção nos arranjo orquestral! 

    3. I'm Only Sleeping (Body Self  Song by John Lennon)

    John boceja "Por favor, não me acorde, não me sacode, me deixa aonde estou, estou apenas dormindo!"  

    Ponha-se no lugar de um fã dos Beatles em agosto de 1966, já oito meses sem um LP deles, aí você recebe o Revolver, espanta-se com a capa, retira a bolacha cuidadosamente, e bota pra tocar. Primeiro, você se surpreende ouvindo a voz de George, abrindo pela primeira vez um LP dos Beatles, e com uma letra ferina, depois ouve a voz de Paul numa canção em que clama pelos solitários, mas na qual nenhum dos Beatles toca nada, e finalmente ouve a voz ácida, mas desta vez preguiçosa de John, pedindo que o deixem em paz, que ele só quer dormir, coloca-se na situação dele, porque dormir é mesmo ótimo, e tal, e de repente você ouve um som esquisito, parecendo um zumbido de abelha, porém melódico, e segue na letra, e tal e na hora que entraria um solo de guitarra, lá vem mais zumbidos, mas você gosta do que ouve, é intrigante, se pergunta: “Que diabos é isso?!”. Eu respondo à pergunta mais adiante! 

    Primeiro, o ambiente em que ela foi criada. John era o mais sonolento dos Beatles, e podia ficar horas assistindo TV, vendo a vida passar, olhando pro teto esperando o soninho chegar, e tal, além de tudo, por morar no subúrbio, demorava a chegar de volta da City à noite, e dormia até tarde. Paul, que morava na cidade, não tinha aquele contratempo, e normalmente era quem o acordava no dia seguinte para trabalhar. Tantas vezes foi repetida essa situação, ainda mais naquele longo tempo em que não fizeram qualquer show, que passava muito tempo em casa, que o inspirou a botar em música aquele estado de espírito e de corpo! E nasceu I’m Only Sleeping, vejam os rabiscos de sua criação, escritos no verso de uma carta cobrança de uma conta de 12 libras, folha esta que hoje está nas mãos de um colecionador que pagou meio milhão de dólares por ela... E ele expressou bem tudo aquilo na letra, inclusive o “lying there staring at the ceiling, waiting for a sleepy feeling...”, perdoando-lhe desde já a rima pobre, substantivo com substantivo. Este era o teor do  verso. No 1°  verso, ele apresentava ao mundo do rock o verbo 'bocejar' em “I’m still  yauning” (e olha eu bocejando aqui), em rima rica com “Wake up in the morning”. Depois, vem o 1°  refrão, pedindo pra que não mexam nele e apresentando o nome da canção. O 2°  verso vem com duas rimas pobres, "crazy" com "lazy" e "need" com "speed", ok, vá lá, segue perdoado, inda mais porque ali naquele "speed" e naquele "need" aparecem pela primeira vez aqueles zumbidos.  Lembra que eu qualifiquei o refrão com um 'primeiro'? Foi porque inventividade era a marca dos Beatles, e John nos oferece um 2°  refrão, com uma letra diferente, "Please don't spoil my day, I'm miles away..." olha a rima rica aí de volta. Agora, vem a ponte "Keeping an eye on the world going by my window, taking my time", e sua rima rica interna, "eye" com "by". O 3° verso começa, com aquele papo do teto e do soninho, mas a letra para no meio e entra aquela profusão de zumbidos melódicos, sobre os quais, como disse, falarei mais adiante. Depois, a canção termina com a repetição da ponte, depois do  verso e, finalmente, do  refrão e mais zumbidos em profusão no final!

    I’m Only Sleeping tomou quatro sessões de gravação, sendo a base gravada no primeiro dia, com John e George em violões, Paul no baixo, e Ringo na bateria. Note a importância do baixo, nas paradas introdutórias do 2° verso, e depois, estendido, das pontes, com direito a marcação com estalar de dedos na primeira, sabe-se lá de quem, perceba bem, e, na parada para a 2ª ponte, note um bocejo de verdade, era Paul comandado por John, dizem que dá pra ouvir, bem ao fundo,  John dizendo: “Yawn, Paul!”. Numa segunda sessão, canta seu lead, eles tentam um vibrafone, que não foi adiante! Na quarta sessão, vieram os acréscimos vocais, John dobra sua voz em dois trechos nos primeiros versos “float downstream”, e “there’s no need”, que Paul responde, repetindo as duas frases. E vêm Paul e George com os uuuu’s nos refrões (variando de um pra outro), e finalmente harmonizando com John nas pontes! Ah, sim, eles também harmonizam no “sleeping” dos refrões! Ih, pulei a terceira sessão! Mas foi de propósito!
    Foi na terceira sessão que foi  introduzido o misterioso zumbido acima mencionado. George havia gravado seu solo de guitarra, só que o operador do gravador, sem querer, acionou-o para trás na hora da gravação. Quando percebeu, e reproduziu o resultado no sentido correto, apareceram aqueles zumbidos, e os Beatles ficaram mais que intrigados, excitados, e pediram ao Maestro: ‘Podemos aproveitar isso?”. George Martin disse: “Tudo o que seu mestre mandar!”. Claro que não foram essas palavras, mas o ‘mestre’, figurativo, eram os próprios Beatles, e já corria a política na gravadora de aproveitar e acatar e tentar tudo o que passava na cabeça dos gênios, cientes que estavam do toque de Midas ali instalado. Só que, claro, o som era intrigante, mas não se encaixava perfeitamente na melodia. Então, George, o Harrison, voltou no dia seguinte, para uma sessão só dele, para acertar o efeito desejado. E não foi fácil! Foram quase 6 horas de sessão, no processo de tentativa e erro, toca/grava/reproduz/concentra/ouve-como-soa/gosta/não-gosta/anota/corrige/de-volta-ao-Passo-1 e, em cada tentativa, havia o esforço físico do operador de movimentar-se as pesadas fitas pra lá e pra cá, finalmente chegando-se às duas peças, a do solo no 3°verso, e a final em fade-out. Só que Paul, sempre curioso, apareceu lá e também fez suas tentativas, digamos que foram as duas que se materializaram no 2° verso, acima mencionadas, disso não se tem certeza, mas assim o determino!
    O som se encaixava perfeitamente ao tom psicodélico do momento, eles o usariam algumas vezes, em Tomorrow Never Knows e Strawbery Fields Forever, por exemplo, e influenciaram artistas da época, que materializaram a técnica em algumas canções, como Jimmy Hendrix, The Byrds, The Who, T-Rex, ou mais adiante no progressivo do King Crimson, ou mais ‘recente’, R.E.M e Red Hot CP, e, claro, Oasis, que se achavam os Novos Beatles, mas jamais foram, ou serão!
    Pode continuar dorminode sossegado, querido John!

    4. Love You To   World Speech Song by George Harrison)

    George prega: "A vida é tão curta, uma nova não pode ser comprada, e o que você tem significa tanto pra mim. Faça amor o dia todo! Faça amor cantando canções"
    Ora, ora, seu George Harrison estava com tudo mesmo. Abre pela primeira vez um álbum Beatles (Taxman), depois ouve Paul (Eleanor Rigby) e John (I'm Only Sleeping) apresentarem seus trabalhos, e logo emplaca sua segunda canção em um Lado A de um LP Beatle, outra primeira vez, e que seria a única! E ainda por cima, não deixa nenhum dos seus companheiros tocarem nada: "Fiquem aí ouvindo!". E eu acrescentaria "... e viajando em minha mensagem!".   Como eu disse, os outros Beatles quase não têm vez, as estrelas são os instrumentos indianos (cítara, tabla e tambura) na canção, bem, em verdade, Ringo toca um pandeiro! E Paul faz um backing vocal! A linha é tênue entre considerá-la uma World Speech Song, ou uma Love Song, porque ele fala 'I'll make love to you if you want me to', mas eu prefiro a outra interpretação devido à imersão que George fazia na cultura indiana, de interesses mais planetários, sugerindo que pratique o amor, no sentido amplo, na mesma linha de John fez em Rubber Soul, na canção The Word. No último verso, o alerta é pra tomar tenência, porque podem "screw you in the ground", e complementa com "They'll fill you in with their sins you'll see". Fique atento!
    George segue firme na regra Beatle: tente não repetir letra! E ele vem com três versos diferentes, intercalados com três refrões diferentes,  o que é absolutamente inédito!!! O apoio vocal de Paul, como sempre é no agudo, mas o diferente é que consta apenas de uma nota na sílaba final de cada refrão, três vezes um "me" e uma vez um "see", ao que nem pronuncia as consoantes "m" e"s", apenas a vogal "e", enquanto George faz a mesma sílaba, mas em melismas, variando as notas seis vezes. Como assim, três mais um igual a quatro, não eram três refrões? Sim, mas o principal deles  ("Make love all day long...") é repetido após um verso instrumental. A outra parte da regra informal dos autorqualidade das rimas, está presente, gloriosamente: TODAS elas são ricas, não vou listar aqui, mas pode verificar. Ah, vou listar, sim, mas tudo seguidinho, "fast-past-can-man-short-bought-long-songs-round-ground-you-to", isso sem contar com o "me-see", entre versos!


    O grande charme da canção, claro, são os instrumentos indianos! E a cítara é o grande astro. George a toca na introdução, mas um outro citarista entra em campo ao longo da canção, afinal George não era o virtuose no instrumento para tocar daquele jeito. Seu ponto alto é o riff de 7 notas, que introduz cada verso, e é repetido 3 vezes em cada refrão. Ela segue ativa ao longo de toda a canção em improvisos. A percussão é fornecida por uma tabla, que foi microfonada bem de pertinho por Geoff Emmerick, o produtor de campo que assumiu a batuta em Revolver, enquanto George Martin ficava na salinha do aquário, supervi
    sionando tudo de cima! Os instrumentistas indianos ficaram estupefatos com o resultado, nunca visto!! O som que se ouve ao longo de toda a canção, numa mesma nota, zumbida (drone sound) sem parar, grave, é produzida por um tambura. 
    Entretanto, há a presença de um instrumento ocidental: é George, com sua guitarra alterada pelo pedal de volume (Tone Bender), que Paul havia usado no baixo em Think For Yourself, de Rubber Soul. Você percebe o som quatro vezes em cada refrão, sempre na mesma nota. Foi a terceira vez que eu falei em "mesma nota" nesta análise, com tambura, com guitarra e com voz!  
    A canção foi muito bem recebida pela crítica e pelos doutos da contracultura da época, e considerada revolucionária. Era a quarta em quatro canções instigantes do instigante Revolver!  Nem precisa dizer que nunca foi tocada ao vivo, mas ela volta, linda, no filme Yellow Submarine, introduzindo o próprio George Harrison, cabelos ao vento! Ouça aqui, neste LINK, como saiu no filme.
    1. A recepção e o legado de"Revolver", aqui, neste LINK.