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quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Homem de La Mancha

Sonhar mais um sonho impossível
Vencer o inimigo cruel

E a gente se arrepia!!
Não deixem de ver 'O Homem de la Mancha', 
Teatro Bradesco, Village Mall, Rio de Janeiro

Eu conheci Don Quixote ainda criança, quando ele visitou o Sítio do Picapau Amarelo, na eterna obra de Monteiro Lobato! Depois, na década de 1970, a peça 'O Homem de La Mancha' fez enorme sucesso, tendo Paulo Autran no papel do Cavaleiro da Triste Figura, Bibi Ferreira como Dulcineia e Grande Otelo como Sancho Pança. Era uma 'tradução' de grande sucesso na Broadway, com a Inquisição julgando a loucura senil do personagem

Recentemente, na reedição em São Paulo, em 2014, Miguel Falabella mudou o contexto. Agora, estão todos num hospício do Rio de Janeiro, onde o próprio Miguel de Cervantes é internado, e para se defender da acusação de loucura, interpreta o próprio Don Quixote em uma peça com os seus companheiros de internação.

Agora, a mesma montagem chega ao Rio! No elenco, excelentes artistas, desconhecidos do público de TV, mas mestres nos musicais, todos os protagonistas com carreiras espetaculares!

Espero que nossa abalada cidade dê ao espetáculo o devido público que ele merece, e que mude essa triste situação, já que nem 10% dos musicais que São Pulo promove chegam aqui, enfim!


Está perfeito!!

!

quarta-feira, 4 de julho de 2018

A guerra não tem rosto de mulher - Leitura indispensável

  • Muito se fala dos 6 milhões de judeus mortos pelos nazistas na 2ª Guerra...
  • muito pouco sobre os 20 milhões de soviéticos que tiveram mesmo destino...
  • e não apenas soldados, mas milhões de civis ...
  • e não apenas soldados homens, mas milhares de soldados mulheres ...
  • e não apenas mulheres na retaguarda, mas na linha de frente
  • uma história desconhecida e impressionante

Na segunda perna de meu embrenhamento pela experiência Nobel, li o livro com o instigante título acima, da mesma Svetlana Aleksiévith, ganhadora em 2015. A primeira experiência foi o livro sobre Tchernóbil, que analisei neste post.

Aqui, a jornalista escritora segue investigando o passado, desta vez 45 anos antes, (quando a Alemanha invadiu a Rússia na Segunda Guerra Mundial), sob um aspecto jamais antes contado, e surpreendente!

Nenhum filme contou uma guerra sob esse ângulo, anteriormente (que eu pense).... e digo que após esta corajosa e custosa iniciativa, certamente Hollywood se interessaria de primeira, SÓ QUE não vai, porque se trata da histórias de mulheres russas, ou melhor, soviéticas!

Sim, mulheres, mais de UM MILHÃO DE MULHERES, foram pra guerra, em sua vastíssima maioria, VOLUNTÁRIAS, morreram aos borbotões, mas muitas sobreviveram e foram condecoradas com as mais variadas e importantes Ordens de Mérito, inclusive com a maior delas, a Estrela Vermelha.

E aí, você dirá, 
sim, a gente sempre vê em filmes, as enfermeirinhas, sempre com aquele quepezinho branco milimetricamente posicionado em suas lindas cabeças, com as vestes imaculadamente branquinhas, sempre atendendo aos feridos, com algumas ataduras nas cabeças, e uns braços enfaixados, enfim, sempre se enamorando de um deles no final, sim, há mulheres na guerra, claro
Não, amigo, não é dessa guerra que Svetlana nos conta. Ela foi atrás de centenas que sobreviveram, e se abriram para contar suas histórias, todas já idosas, afinal, elas tinham de 16 (isso mesmo!) a 20 anos de idade em 1941, podem fazer as contas...

E elas não eram apenas enfermeiras (e mesmo estas nem um pouco como sempre as vimos). Mesmo se ficarmos no âmbito dos serviços de retaguarda, elas eram cozinheiras, lavadeiras, passadeiras, criptógrafas, costureiras, telefonistas, comunicadoras, engenheiras, construtoras, cada uma tem sua história. Claro, estavam lá as médicas cirurgiãs que salvavam centenas de feridos que nem um poucos se assemelhavam com as ataduras e as faixas do cinema, costurando o que sobrou das pernas e braços amputados, e órgãos perfurados por balas ou destruídos por estilhaços, em ambientes banhados de sangue, tanto sangue que as roupas se tingiam de vermelho, e depois secavam e endureciam e ficavam muito pesadas. E as enfermeiras que não ficavam só do ladinho dos feridos em camas, sempre com palavras de conforto que se não curavam o corpo, aliviavam o espírito, mas que iam busca-los caídos em campo de batalha, ainda sob fogo cruzado, carregando seres humanos com quase o dobro de peso delas, arrastando as macas improvisadas em que os colocavam. Muitas delas foram condecoradas de acordo com o número de feridos que salvaram, até 10, até 50, até 100, tinha várias com mais de 150 salvamentos.

Isso também seria comum. O problema, e o inesperado da coisa, é que elas foram
soldados de infantaria, que iam para frente com suas baionetas acopladas a fuzis que eram maiores que elas, franco-atiradoras, isso mesmo, que ficavam enterradas, matando cirurgicamente os invasores (a da foto ao lado matou 59, foi condecorada, deram baixa a ela, mas ela quis voltar à linha de frente e foi morta, em outra função), ou mesmo operadoras de metralhadora giratória, que se esqueceram de quantos alemães mataram, pilotos de avião que bombardeavam postos alemães sem nunca verem quem haviam matado, sem esquecer das partisans, da resistência, que fugiam das cidades invadidas pelos alemães para depois lutar de esconderijos nas florestas vicinais, passando fome, se arriscando como mensageiras. Muitas delas ascenderam a postos de comando, como sargentas, tenentas, comandantas (para usar sufixos recentemente inventados por aqui). Isso pra não esquecer das tanquistas pilotando enormes tanques, das sapadoras (??!!), sim, aquelas especialistas em percorrer campos minados para desarmar minas colocadas pelo invasor alemão, aliás, essas que ficaram até depois da guerra terminar, em 9 de maio de 1945, quando os alemães capitularam, depois da chegada dos soviéticos a Berlim, para limpar o solo pátrio.

Aqui, um pouco sobre o último adjetivo parágrafo anterior, reside o motivo pelo qual essa guerra era diferente da guerra, vamos dizer, dos Estados Unidos, e porque não se vê mulheres combatendo nos filmes de Hollywood. Ninguém estava lá invadindo a terra deles, eles se engajaram na guerra que se desenrolava em outro continente, não fazia sentido nenhum enviar mulheres para o trabalho sujo. Já na Rússia, na Ucrânia, no Kazaquistão, na Letônia, na Lituânia, no Tajiquistão, em Minsk, na Bielo-Rússia e outras repúblicas socialistas soviéticas, os alemães invadiram suas terras, e vinham tomando as cidades, violentos, queimando, arrasando, torturando, minando os terrenos, estuprando, enforcando, metralhando mulheres e crianças, coisa de estilo medieval mesmo (... os soviéticos não ficaram atrás e revidaram quando chegaram à Alemanha.. há relatos de dois milhões de alemãs estupradas...)

Komsomol member, be a Hero of the Great Patriotic War
Então, as mulheres sentiram a necessidade de se engajar, de não deixar o trabalho só para seus homens, e não ficar apenas na retaguarda. E muitas tinham dentro de si, o sentido de pátria, que a filosofia comunistas imputava, atendiam ao apelo da Great Patriotic War, mesmo sem serem convocadas. Todos criam que o esquema de governo era o melhor para eles, nem todos sabiam dos métodos que Stálin utilizava para garantir o apoio que tinha, dizimando e deportando dissidentes para a Sibéria, e se sabiam, não acreditavam. Muitas mulheres que deram a cara por um ideal. Teve depoimento de mulher com filho pequeno e outro na barriga que abortou, para não colocar filho no mundo em guerra, deixou o outro com a mãe e foi para a frente da batalha.

O livro, então, é feito de depoimentos em série, muitos deles me levaram facilmente às lágrimas, mormente aqueles que falam das perdas, das mutilações, dos assassinatos, dos crimes de guerra. E descreviam também as dificuldades logísticas, e até de vestuário, pois o exército não estava preparado para vestir tantas mulheres, as botas eram 3 ou 4 números maior, o que acabava com os pés da moças em longas caminhadas, não havia calcinhas no começo da guerra, levou mais de ano para trazerem, usavam cuecas, as calças tinham que ser amarradas na cintura, ficava tudo folgado nas ‘irmãs’, nas ‘irmãzinhas’, que é como os homens as chamavam invariavelmente, depois de um período de desconfiança, mostraram seu valor. Além disso, havia as dificuldades inerentes ao estado feminino, sem absorventes, o sangue escorria nas caminhadas, o constrangimento era enorme, e havia relatos que até o fluxo mensal era interrompido, o corpo se encarregava de adequar o funcionamento às circunstâncias. Claro, tem o capítulo dos amores, muitos escondidos, e o pós-guerra, como elas voltavam à vida civil e muitas eram discriminadas, pelas próprias mulheres que ficaram, acusadas de terem estado lá para servir aos homens, olha, uma pancada atrás da outra.

Só sei que, no próximo desfile da Vitória, estarei atento para ver se vejo algumas daquelas heroínas, com mais de 90 anos, usando com orgulho as comendas que receberam. Admirável!

Pensei em reproduzir aqui um dos depoimentos delas, mas difícil escolher entre centenas, tantos marcantes, selecionei então um dos poucos, senão único, depoimento masculino....


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Martinho da Vila - Uma Discobiografia

Quem me conhece, sabe que sou roqueiro e avesso à péssima música que anda por aí.

Sertanejo, Axé e Pagode nem pensar!

Já um bom samba, tradicional, partido alto,  eu me amarro.

E claro que quanto mais antigo, melhor, né?

O artista deste post eu admiro desde criança, desde 'O Pequeno Burguês' (Particular, ela é particular ...) que ele lançou em seu primeiro disco, lá em 1969 e que eu canto de cor até hoje. Se você vir a set list daquele LP, você vai se espantar com quantos sucesso que estão em voga até hoje, Casa de Bamba (nome do LP), Pra que Dinheiro, Quem é do Mar não Enjoa, aliás, nesta última, tem um trecho que, caso fosse adotado pela macharia, reduziria muito o número de feminicídios registrados.

'Homem que é homem não chora (não, não chora) 
Quando a mulher vai embora, vai embora

Já pensou? Se ela quer ir embora, deixa ela ir embora e segue sua vida!!!

Soube muito mais sobre ele, lendo o livro recomendado aqui. Um capítulo pra cada um de seus álbuns, dando destaque a trechos de letras, alguns detalhes da produção, da recepção que os discos tinham (da estreia com 300 mil cópias, chegando ao mais de milhão, passando o Rei em alguns anos), as parcerias de décadas, com o produtor Rildo Hora e o artista Elifas Andreato, responsável por quase todas as usas inventivas capas.

Eles sempre foi ativo, seja compondo, ou lançando novos compositores (mais de 40 álbuns), divulgando a lusofonia, fazendo enredo de carnaval (venceu 2), escrevendo (mais de 10 livros) e por que não, fazendo filhos, sim, ele tem 8 filhos, de três esposas (duas hoje na categoria 'Ex-Amor, gostaria que tu soooubesse, o quanto que eu sooofriii, ao ter que me afastar de ti ...')

Impressionante carreira!

Foi boa leitura!!

terça-feira, 12 de junho de 2018

New look - novo alter ego?


Nas vizinhanças de me tornar sessentão, deixei florescer a barba, que veio bem branca.

Ao divulgar o new look nas redes sociais provoquei variadas comparações, desde Papai Noel a Hemingway, passando desgraçadamente pelo Nove Dedos.

Mais recentemente, um amigo que não via há muito soltou: 'Kiéisso, Papai Smurf?

Eu nem me lembrava, fui à rede e vi que realmente, há semelhanças...








=








Brincadeiras à parte, o que me deixou satisfeito foi um comentário que uma amiga minha do Facebook fez:

"Aí meu amigo, você é mesmo um cara legal, 
protetor e orgulhoso da prole igual ao Papai Smurf"

_________________________________

Fiquei mesmo, emocionado!!

Não me importo de maneira alguma em assumir esse alter ego!!

Um outro disse, ao ver a foto no Face:

Caraca Homero Ventura, como diz a minha mãe:

"Se você não existisse, precisava ser inventado"

terça-feira, 5 de junho de 2018

Baleia!!! Todas as versões ... em um só lugar

A Baleia tem um modo autoral intrigante, surpreendente, envolvente, que está registrado em dois CDs sensacionais!
E tem um lado cover espetacular, que exercita em shows e também a convite de autores notáveis em projetos especiais!
Este lado cover está aqui, agora, num só endereço!

"(Quase) Todas as Versões Que Tocamos Até Hoje 
Enfim Em Um Só Lugar"

Em todas as plataformas de streaming!
Tem Cícero, Dorival Caimmy, Rodrigo Amarante, Tune Yards e Animal Colective em gravações ao vivo .
Tem Vinicius de Morais e Milton Nascimento em estúdio para projetos especiais. E teria também Renato Russo, mas não autorizaram (daí, o quase!)
Que tal???


segunda-feira, 4 de junho de 2018

A Origem - Dan Brown


Robert Langdom é convidado por um ex-aluno ao Museu Guggenheim de Bilbao, aonde ele iria fazer revelações surpreendentes sobre a origem e o futuro da humanidade, só que, bem, só lendo!!

Quando li os dois primeiros livros de Dan Brown, “O Código da Vinci” e “Anjos e Demônios” notei semelhanças no estilo, que resolvi enumerar, identificando 25 ocorrências que ocorriam (!) em ambos os livros. Vejam aqui, neste post, mas sigam as instruções

Resolvi testar cada uma delas neste último exemplar da obra de Brown

Vejam como foi a minha!

1.       Robert Langdom é acordado abruptamente e pedem que viaje;
NÃO: Aqui ele já está no local
2.       Ele somente se convence que deve ir após ver uma chocante foto;
NÃO: Aqui, ele vai por livre e espontânea vontade
3.       É levado a um local onde aconteceu um assassinato;
NÃO: Langdom testemunha o assassinato
4.       O sujeito que o chamou é absolutamente seco e antipático;
NÃO: O assassinado chamou Langdom
5.       O morto é um homem idoso;
NÃO: Ele é mais jovem que Langdom
6.       O morto é um sábio;
SIIIIM
7.       O morto tem no corpo pistas sobre o crime;
NÃO: nada disso
8.       O assassino é um brutamontes que agüenta muito sofrimento;
SIIIIM
9.      O assassino não conhece seu mentor e se comunica com ele por telefone;
SIIIIM
10.    O morto tem uma descendente direta que fala inglês com sotaque latino;
NÃO: Há uma bela, mas não é descendente
11.     A descendente chega logo depois ao local do crime;
NÃO: A bela está no local do crime
12.     A descendente é uma esperta e linda especialista que ajuda decisivamente na investigação;
NÃO: Ela não é especialista ... mas ajuda na investigação
13.    A ação se passa em dois países europeus;
NÃO: É apenas um país
14.    Há uma seita misteriosa por trás de tudo;
SIIIIM ... bem .... ao longo da trama, é!
15.    A igreja católica é o pano de fundo;
SIIIIM ... parece que é
16.    Há uma miríade de códigos e mensagens cifradas;
SIIIIM .. senão não seria Langdom
17.    A investigação leva a uma profusão de visitas a igrejas e tumbas;
SIIIIM... de certa forma
18.    Tudo acontece em mais ou menos 24 horas;
SIIIIM
19.    Ninguém pára nem para tomar um cafezinho;
NÃO: Aqui, se come um lanchinho no avião
20.    Outros velhinhos são assassinados;
NÃO: Há outros assassinatos, mas não são velhinhos
21.    A polícia não resolve nada;
SIIIIM
22.     O assassino é assassinado;
SIIIIM
23.   O mentor da trama toda é parte do time que está ajudando na investigação;
SIIIIM
24.   Robert Langdom se apaixona pela descendente;
SIIIIM ... mas, nem pensar!!!!
25.   Mr. Langdom não come ninguém, no máximo descola um beijinho!
SIIIIM (está não podia deixar de ser!!!)

Então, vejamos, em verdade, tivemos um SIIIIM em quase metade das situações.... o que não deixa de ser uma fidelidade ao estilo. As mais importantes estão lá, o ritmo “24 Horas”, a presença de uma bela e inteligente mulher, o assassinato, a Igreja, os códigos, e o mentor participante, enfim... este é Dan Brown!

Desta vez, entretanto, e até por conhecer a linha do escritor, eu descobri que o mentor realmente era quem foi, o que não tirou absolutamente o ritmo feroz em que li o livro.... só não terminei em dois dias, porque o li apenas enquanto fazia minha sagrada bicicleta ergométrica, a única atividade física que meu joelho permite. Então, foram 7 dias!

Já ouvi dizer que o cinema, e provavelmente Ron Howard e certamente Tom Hanks já devem estar confabulando para mais um filme .... que eu verei, muito mais que certamente!!

E está claro também que terei que finalmente voltar à Espanha, desta vez para conhecer Barcelona, e Bilbao.

Fiquei muito feliz em saber que o último ponto é notado por outras pessoas. Digo isso pois foi alvo de uma pergunta específica de Pedro Bial ao escritor, em pessoa, numa magnífica entrevista (aqui) que passou há duas semanas na Globo (Parabéns, Bial!). A resposta de Dan Brown foi justamente o seu próprio estilo, afinal "há assassinatos, a coisa se desenvolve em poucas horas, e não há clima para 'intercourses' desse tipo, ao menos é assim com os americanos" hehehehe

quinta-feira, 24 de maio de 2018

A Revolta de Atlas

Num belo dia, eis que um amigo vê no meu Facebook a lista dos últimos livros que eu lera:
Confúcio - O mundo que ele criou
Rita Lee - Uma Autobiografia
The Prize - The Epic Quest for Oil, Money and Power
Jornada nas Estelas - O guia da Saga
Caminho de Santiago
Lava Jato

E num comentário, o jovem amigo pernambucano André, com quem conversei algumas vezes, ainda na ativa, escreveu simplesmente, num comentário, "A Revolta de Altas", mesmo sem eu haver pedido sugestão.

Já ouvira falar do nome do livro, mas nada sobre o conteúdo, mas preferi não buscar, apenas encomendei, confiando cegamente na indicação. E qual não foi a surpresa ao recebê-lo: um tijolo, de 1.215 páginas! Vixe!! Comecei o desafio uns 40 dias atrás, sempre no meu local de leitura, a bicicleta ergométrica... Emagreci uns dois quilos e engordei minha admiração pela escritora Ayn Rand, russa, nascida em 1905, país para onde nunca mais voltou depois de radicar-se aos 20 anos nos Estados Unidos, tendo vivido na pele o começo do stalinismo. Pronto, estava plantada a semente para sua escrita. 'Atlas Shrugged' é seu último romance, lançado em 1957, e é considerado o segundo livro mais influente da história americana, só perdendo para a Bíblia (!!!). Seus 5 romances já venderam 30 milhões de exemplares, sendo 12 desses milhões devidos a Atlas. Depois, passou a publicar tratados (sem o mesmo sucesso) sobre a teoria que defende, o objetivismo, em absoluto contraponto ao coletivismo, defendido pelo socialismo, do qual foi opositora ferrenha.

Num mundo em que o planeta é salpicado por Repúblicas Populares, os Estados Unidos ainda tentam se agarrar aos ditames da produção, da capacidade, da realização, da mente criativa, mas sinais do governo já implantado rumam para a defesa da necessidade sobre a capacidade, da usurpação da propriedade, em nome dos mais necessitados, do compartilhamento do lucro com os menos favorecidos de mente criativa, do humanismo exacerbado. 

Num belo momento, uma a uma daquelas mentes produtivas começam a sumir da convivência das pessoas, sem deixar vestígios para onde foram, não sem antes destruir o que podiam de suas propriedades, para deixar o mínimo possíveis aos sabotadores. Segundo estes, o dinheiro é a origem de todo o mal ... claro que se concentrado na mão de uns poucos privilegiados. O livro vai caminhando para descobrir-se para onde foram, e para onde foi o país nas mãos dos usurpadores...

Ayn Rand faz questão de destinar as melhores compleições e atributos físicos aos heróis do bem, o dono da siderúrgica inovadora, a vice-presidente da ferrovia moderna, o magnata do cobre mundial, o pirata que sabota as iniciativas dos governos 'populares', o inventor que ... (ih, não posso sobre ele se não é spoiler), e até mesmo o professor de alguns deles que ainda se mantém fiel ao progresso comandado por mentes inventivas, todos altos, fortes, loiros e belos, deixando aos sabotadores e aos agentes do governo os quilos a mais, os cabelos a menos, as barbas por fazer e as bocas murchas. Feio, né, mas passa a mensagem, fazer o quê?

Ela adora longos discursos. Um que me impressionou no começo foi o do dono do Cobre, na página 428, que rebate em uma festa aquele argumento sobre o o malefício do dinheiro de lição sobre o que é a produção, o valor dos homens que produzem, de que tudo o que se tem é porque aqueles homens foram empreendedores e produziram para o benefício de todos, desde que justamente remunerados, de exaltação àquele país, aonde se cunhou a expressão 'fazer dinheiro' ao invés de 'ganhar dinheiro' comumente utilizada alhures, que eu achei genial. Li em português, mas logo lembrei do 'make money' que é muito ouvido em filmes, mas a cujo significado nunca me ativera. O contraponto ao 'ganhar' dinheiro é absolutamente apropriado pois o 'ganhar' tem um conotação de prêmio sem mérito e o 'fazer' é porque fez por merecê-lo. Super legal! Bem, esta resposta durou apenas 5 páginas, e eu digo 'apenas' porque lá pro final (página 1.051, exatamente) vem um discurso de 64 páginas, que eu não vou falar de quem é, porque é spoiler. Assim que acabei de lê-lo, após dois dias, fui procurar e achei, na internet, a transcrição vocal, num áudio de três horas, fôlego digno de Fidel Castro!!!

O ritmo da escrita é contagiante, as cenas são visuais (você enxerga o que acontece!) as conquistas são emocionantes, as sabotagens são revoltantes, os diálogos são bem montados, em especial aqueles entre os de lá e os de cá, pontuados por respostas lacônicas e diretas destes contra argumentos e insinuações vis daqueles.

Ela é um pouco exagerada em seu retrato do socialismo? É, admito, mas não dá para não identificar as semelhanças com o que vemos no mundo de hoje, o desprezo à produção, o sindicalismo nefasto, o combate às mentes produtivas, a truculência com a oposição, decerto que notei no livro muito do que ocorre na Venezuela, por exemplo. E muito mais...

Isto tudo posto, trata-se, portanto, de um dos melhores livros que li.

Obrigado, André!!!