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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Aonde o Vento Faz a Curva

Onde o Judas perdeu as botas.
No cafundó do Judas.
Pra lá de Marrakesh.
No calcanhar do Judas. 
Pra lá de caixa-prego.
No cu da perua, do mundo, e, como não poderia deixar de ser, do Judas.

Todas expressões, frases feitas que denotam um lugar muito distante. Aliás, noto a frequência da presença de Judas, com certeza o Iscariotes, não o Santo Tadeu, acho que deve ser porque queremos distância de potenciais traidores e ‘muy amigos’. Interessante é imaginar um Judas com botas para perder, no tempo dos apóstolos, logo eles que andavam de sandálias. E onde será o seu cafundó? Na imaginação popular, acabou sobrando até mesmo para o fiofó da pobre perua.

Marrakesh é um lugar existente, é geograficamente imaginável, mas é meio vago, e tem muita terra mais pro oriente. Agora, sobre a expressão do título,  já sei exatamente onde é, e não é assim tão longe, aliás, é logo ali: Avenida República do Chile com Rua do Lavradio, centro do Rio de Janeiro, esquina nordeste, aonde fica o Edifício Metropolitan.

É impressionante como aquilo ali venta! Especialmente, aquela esquininha do citado edifício. Pode estar um dia bonito, tranquilo, a 200, até mesmo 100 metros daquele ponto, que quando se vai aproximando dele, já se sente a movimentação do ar, ela vai aumentando, até que chega ao ápice naquelas exatas coordenadas. Há dias em que é o terror dos penteados e das meninas de saia, proporcionando a algumas, o seu ‘Momento Marilyn Monroe’. Quando chove, então, é divertido observar o efeito nos guarda-chuvas (nem tão engraçado assim quando é você a vítima), mormente quando está fazendo uso de um daqueles de alta qualidade a 5 ‘real’. Vendidos pelo mesmo sujeito que vendia balinhas ou distribuía panfletos outro dia, não se sabe de onde tira aquelas preciosidades quando começam a cair as primeiríssimas gotas... talvez um bueiro secreto, ou algo assim.

O fato é que venta pra dedéu! Tenho cá minha teoria de que o vento é parte do protesto da natureza contra a ação do homem, que tirou um morro inteiro dali, e agora incomoda com as armas que tem, aproveitando um espaço novo, outrora não existente; se bem que não deve estar tão brava assim, pois se estivesse mesmo, mandava uns terremotozinhos de leve, de 4 ou 5 graus na Escala Richter. E talvez assim não seja, pois reconhece que a mão do homem acabou proporcionando uma espetacular solução viária e urbana.

Pois é, poucos cariocas sabem que aquilo ali era um morro no final da década de 1950, o Morro de Santo Antônio. Mais especificamente, poucos petroleiros sabem que a sua pomposa Sede, aquele magnífico edifício cheio de buracos (ainda hoje uma maravilha arquitetônica, 40 anos depois de sua concepção), só está ali, pois o governador Lacerda decidiu mexer com a natureza, em prol da otimização do espaço urbano. Não sei se foi dele a idéia, mas foi ele quem a materializou.

E olha que foi uma boa idéia, os naturebas que me desculpem. Tirando aquela terra e rocha toda dali, ele criou imensa área urbana, no centro da cidade, onde ora estão, não só a Petrobras, mas os outros dois vértices do outrora conhecido como  Triângulo das Bermudas (em sua versão econômica), por onde desaparecia o dinheiro brasileiro (maldade!), o BNDES e o antigo BNH, também a moderna e nova Catedral da cidade, belíssima, (por dentro, é de cair o queixo!) completando um Quadrado Mágico de respeito, um CIEP e  três modernos edifícios comerciais.

Melhor que isso, entretanto, inventou duas avenidas ‘republicanas’, a do Chile e a do Paraguai, que equacionaram, como mágica, o trânsito da região. Vocês podem imaginar como seria, hoje, o trânsito, se tivéssemos um morro pitorescamente colocado ali? Dele, deixaram apenas a elevação onde se encontra o Convento de Santo Antônio. Deve ter sido esta a condição que o Santo impôs ao Governador, na época da negociação: tudo bem, mas não desapropria minha casa!

E pra onde foi aquela terra toda, caríssimos e pouco curiosos vizinhos cariocas? Nunca notaram que a arquitetura daquela região do Centro, com prédios de arquitetura arrojada, é deveras destoante de tudo o que a circunda, com prédios velhos e carcomidos? E também nunca se perguntaram por que aquela magnífica via expressa que muitos usam todos os dias a caminho do trabalho, margeando a enseada de Botafogo, depois a Praia do Flamengo, depois a Praia do Russel, distraindo-se com a estonteante visão do Pão de Açúcar, chama-se ‘Aterro’? Pois é, aquela massa toda do finado Morro de Santo Antônio está lá, roubando um pouco do espaço marinho, mas proporcionando uma espetacular solução viária, viabilizando o trânsito de uma maneira definitiva. Para completar a maravilha, o genial paisagista Burle Marx, plantou aqueles magníficos jardins que fazem a festa da visão e dos fins-de-semana dos que querem escapar um pouco da selva de pedra, curtindo um pouco de natureza.

A idéia, apesar de genial, não é original. A solução de aplainar morros criando áreas urbanas é utilizada há séculos, e já havia acontecido na nossa amada, querida e maravilhosa Rio de Janeiro. No começo do século passado, a região do Centro hoje conhecida como Castelo, na verdade, era o Morro do Castelo, que hoje sumiu do mapa, foi usada na década de 20 para criar espaço para parques e avenidas, e parte dele vem fazendo a festa dos usuários da ponte aérea, que não precisam se deslocar até o cafundó do Judas, e utilizam o charmosíssimo e estrategicamente posicionado Aeroporto Santos Dumont.

Aos que sabiam disso tudo, que me desculpem a ironia aplicada, mas tenho certeza da grande maioria ignorante (porque ignoram o fato). Desde que eu descobri essas coisas, comentei com algumas dezenas de colegas cariocas, e a proporção foi de 1 pra 10.

Se eu estiver enganado, que me provem, que dou a mão à palmatória!

Nossa! Palmatória? O que é isso? Isso é do tempo do Morro do Castelo!

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O Casamento do Rio com o Mar

Mais uma visita da minha terra
que vem visitar uma da maravilhas do mundo
Hora de republicar!!!


O Casamento do Rio com o Mar

Foto tirada em março de 2011


É que de vez em quando
Cristo fica com saudades do céu 
e traz as nuvens pra perto de si, 
e não vê por alguns momentos 
o maravilhoso cenário que eu descrevo aqui,
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Está no Aurélio,
rio (s.m.):    porção de água ... que deságua no mar.
.... e, em sua versão carioca, ....
mar (s.m.):   porção de água ... que deságua feliz no Rio.
O mar veio morar no Rio!
Na verdade, o Rio se casou com o mar. Foi amor à primeira vista, ou melhor, amor à primeira lambida, das verdes línguas do mar sobre as amarelas areias do Rio. O namoro foi rapidinho: papai-do-céu e mamãe-natureza deram logo a benção. E os noivos foram logo para o altar. Sol e montanha foram os padrinhos. Uma nuvenzinha trouxe as alianças. A marcha nupcial foi bossa nova. Convidadas, as estrelas compareceram, porém ficaram escondidas além do azul do céu. Os demais mares do mundo, se tinham algo contra, calaram-se para sempre. Um senhor de pedra foi o juiz de paz. O vento e o calor foram testemunhas. A festa dura até hoje.
Quem celebrou foi o Cristo!
Cristo: estátua de pedra cercada de beleza por todos os lados.
Os filhos vieram logo. O menino do Rio, calor que provoca arrepio; a garota do Rio, num doce balanço a caminho do mar; a gente do Rio, que não gosta de dias nublados nem de sinais fechados, mas gosta de quem gosta deste céu, deste mar.
Cristo acompanhava de longe a vida do casal que consagrou. Num belo dia, cansou-se da calmaria do céu, resolveu conferir mais de perto, e disse: “Pai, fui!” Veio morar aqui, no Rio. Desfalcou a Santíssima Trindade e veio conviver com a Belíssima Trindade: sol, mar e montanha. O corretor caprichou no imóvel: andar alto, varandão, sol da manhã, vistão, mar e verde. O Rio dispensou fiador e cobra pouco do inquilino ilustre: apenas doses diárias de bençãos.
Ao lá chegar, o novo morador escolheu bem a posição de seu repouso eterno! Dia e noite, alimenta-se da beleza ao seu redor. Começa o dia de frente para o sol nascente ofuscando-lhe os olhos. Desvia-os para a esquerda, vê a imensidão da zona norte, com pouco mar, mas muita vida. Vê o maior do mundo e lembra-se do som das grandes torcidas. Depois, o grande aeroporto, a receber viajantes ansiosos pela beleza carioca; sobre o mar da baía, a grande ponte, trazendo do lado de lá, os que vêm ganhar a vida do lado de cá. Pelo meio da manhã, observa, no centro da cidade, pujantes edifícios onde antes havia morros e verde. Entre os edifícios, a santa casa do Pai, no Rio, enorme cone de concreto e vitrais, obedecendo à imaginação do arquiteto. Depois, percebe aonde foi parar aquela terra toda dos antigos morros: em um breve momento de traição, o Rio invadiu o mar com um singelo aeroporto e uma espetacular via expressa, que embelezam a paisagem. Motivo justo, resultado perfeito, traição perdoada. Delicia-se com os planejados jardins, obra de um genial paisagista apaixonado. Além dos jardins, admira as praias da baía, gulosas mordidas do mar e suas ondas. Com o sol já a pino, encontra barcos, lanchas e iates atracados numa enseada de sonho. Ao fundo da enseada, interrompe a jornada para admirar, irrompendo do mar, duas gigantescas corcovas de pedra, a guardar a entrada da baía. Adiante, ora por alguns irmãos já em sua eterna morada, batizada com o nome de quem o batizou há quase 2000 anos. Após a prece, deleita-se com a beleza da princesinha do mar, larga, imponente! Mar, que em sua imensidão azul, segue banhando outras praias, mais estreitas, porém igualmente belas, que ele tenta ver, de soslaio, mas é um pouco atrapalhado por alguns edifícios. Do lado de cá dos edifícios, vislumbra, já no meio da tarde, a lagoa....
Pausa para exaltação!
lagoa (s.f.): braço de mar no coração apaixonado do Rio.
Em uma de suas viagens pelo mundo, como prova de seu amor pelo Rio, o mar deixou aqui um braço. O Rio chamou-o de lagoa. Escalou Vieira e Delfim para receber suas águas e designou Epitácio e Borges como seus protetores permanentes, que dela tomam conta, em um abraço eterno. Suas águas marinhas testemunham os filhos da terra caminhando, correndo, patinando, pedalando pelas vias que a abraçam, saciando a sede com doce líqüido sorvido de cocos verdes cortados por insanos golpes. Por vezes, a calmaria de suas salgadas águas marinhas é levemente incomodada por simpáticas cosquinhas, fruto de pedalinhos enamorados. Todos alimentam o espírito com o inebriante visual de montanha e céu. Todos param, no final do dia, para apreciar o sol se pondo para dormir, no aconchego dos dois irmãos, ou em outro ponto do sinuoso contorno das montanhas.
Fim da exaltação!
Vem o fim da tarde e o Cristo não vê, mas ouve, cantos de louvor entoados por fiéis, na capela a seus pés, no varandão. Chega a noite, com ela a luz que o ilumina.  Recomeça sua jornada visual, pela mesma zona sem mar, agora um mar de luzes. Verifica a hora pelo relógio da estação de trem. Do aeroporto e da ponte, vê as pistas iluminadas. Acompanha o trajeto do aterro, guiado pelos enormes postes de luz e pára, extasiado, nas grandes corcovas, agora um espetáculo luminoso por trás da enseada. Segue seu caminho, vê o topo do maior hotel da praia das calçadas famosas. O mar, agora, é uma imensidão negra, ao fundo. Lembra-se dos fogos de artifício que todo ano atraem milhões àquela praia, muitos deles para lançar oferendas à rainha das águas, deusa do mar, na esperança de um novo ano melhor. Ele perdoa o sincretismo, pois sabe que a fé tem espaço para muitas crenças. Termina seu caminho noturno com o mesmo êxtase diurno, a lagoa, agora, uma massa negra contornada pelo abraço iluminado de seus guarda-costas.
Findo o dia inteiro de contemplação, ele tem sempre a certeza de que a união que abençoou é perfeita. A convivência é pacífica, divórcio nem pensar, serão felizes para sempre, o Rio e o mar.

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UM TOUR 360 GRAUS PELA CIDADE MARAVILHOSA!!

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Dia do Fico


Meu 9 de janeiro foi tão cheio de emoções

que me esqueci de celebrar o Dia do Fico.
Acrescento então UMA linha:
FICO EMOCIONADO


Ficar: verbo de ligação

Fico acabrunhado por estar um ano mais velho
Fico aliviado por ainda faltarem muitos deles
Fico orgulhoso de ter filhos artistas
Fico ansioso pelas incertezas do futuro
Fico horrorizado com a morte sem razão
Fico torpe com a maldade das pessoas

Fico animado com as ações do Juiz Moro
Fico na expectativa do 24 de janeiro
Fico enojado com o aroma calabresa da política
Fico engasgado com a saúde jogada às traças
Fico de nariz torcido com a inação dos governantes
Fico à mercê da insegurança das ruas
Fico de bem com a certeza de que sairei ileso  
            Fico triste pelo fim das festas
            Fico feliz pela volta da batalha
Ficar: verbo transitivo indireto

Fico com a impressão de que há algo de podre
Fico com a disposição de seguir a vida adiante
Fico com a esperança de que tudo dará certo

Ficar: verbo intransitivo

Fico!
Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, 
diga ao povo que ....
Disse D. Pedro I, Imperador do Brasil, no mesmo 9 de janeiro, há 195 anos, quando decidiu permanecer no país, para poder pular muuuito a cerca da leopoldina princesa com a marquesa, na estrada velha de Santos, a bordo de carruagens nada discretas, e, alguns meses depois, antes que um aventureiro lançasse mão, preferir a independência à morte, sem uma gota de sangue, como tudo o que aconteceu sempre antes neste país, razão da impunidade sem limites de hoje em dia, com um povo fraco, resignado, que tem como lema: 



É assim mesmo! 
De que adianta reclamar, esbravejar, lutar?


Melhor ficar quietinho no meu canto,
Melhor tomar conta do meu!!!'


Ô povinho!!!


Enfim. de qualquer maneira,

Fico em paz!

Homerix Ficando Ventura