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sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Beatles For Sale For Me For You For Ever

                                                                                                                  Capítulo 39 

Esta é minha saga  

O Universo das Canções dos Beatles


Todos os Capítulos têm acesso neste LINK 

O ano de 1964 vinha sendo ainda mais fenomenal que 1963, quando surgiu a Beatlemania. Os Beatles conquistaram a América em fevereiro, em março viraram atores de um filme de sucesso mundial, gravaram seu terceiro LP, todo com canções próprias, e fizeram uma turnê Mundial, chegando à Austrália e Nova Zelândia, e até deu tempo de tirarem férias, de 30 dias, como todo bom trabalhador! 

O segundo semestre começou frenético como terminou o primeiro, com excursão pelo Reino Unido e Suécia,  e logo voltaram ao estúdio já com vistas ao lançamento do  LP, que seria chamado "Beatles For Sale", objeto do presente capítulo! O nome decerto tinha a ver com o extraordinário sucesso de vendas, de tudo em que metiam a mão: música, cinema, merchandising. Eles estavam, efetivamente,  'A Venda'.

Após as duas primeiras sessões, logo partiram para a primeira grande excursão pelos Estados Unidos e Canadá, de 32 dias. Na volta, mais seis sessões, nos intervalos entre programas de Rádio e TV, e em meio a mais uma excursão pelas ilhas britânicas! Com esse ritmo todo, ficou difícil repetirem o feito de "A Hard Day's Night", e produziram 'apenas' 10 novas canções, todas Lennon/McCartney, sendo oito delas lançadas no LP, e duas em compacto, ambos lançamentos de grande sucesso, indo ao topo das paradas! 

As outras seis canções de "Beatles For Sale" novamente foram tiradas da extensa lista de covers a que estavam acostumados a tocar nos palcos de Liverpool e Hamburgo. Desta vez, entretanto, vieram com pesos pesados do Rock, como Chuck Berry, Carl Perkins, Little Richards e Buddy Holly, seus favoritos.

Nota-se, no estilo das novas canções da dupla, uma maior tendência a assuntos menos pueris, uma mudança decerto influenciada pelo encontro que tiveram com Bob Dylan, em agosto, por quem tinham grande admiração! Em contrapartida, aquele encontro também marcou o bardo americano, que reconheceu que os Beatles haviam mudado o cenário da música, e a partir de então, passou a cantar mais mensagens para a juventude, e a ter uma banda de rock pra chamar de sua, The Band, que também teve uma história própria respeitada. Bob Dylan também apresentou aos Beatles uma outra coisa, que teve alguma influência, eu diria, sobre o processo de criação de canções, e sobre a qual falarei daqui a dois capítulos! 

Musicalmente, o estilo foi bastante orientado pelo country/folk americano. Naquelas sessões de gravação, George Martin começou a perceber que podia dar asas aos rapazes, que já se mostravam mais acostumados ao estúdio, e iniciavam a palpitar mais sobre os arranjos, e a arriscar mais instrumentos, e a dar idéias nas mixagens, e tal, ou seja, começou a valer aquela política de que  "se eles pensaram nisso, deve ter algum valor, mesmo que a princípio pareça estranho". Em outras palavras, o maestro captou o toque de Midas dos Beatles!

Finalmente, vamos às canções do LP! 

Detalhes sobre essas canções mais abaixo. 
As covers em vermelho...
  1. No Reply
  2. I´m a Loser
  3. Baby´s in Black
  4. Rock and Roll Music
  5. I´ll Follow the Sun
  6. Mr. Moonlight
  7. Kansas City/Hey, Hey, Hey, Hey
  8. Eight Days a Week
  9. Words of Love
  10. Honey Don´t
  11. Every Little Thing
  12. I Don´t Want to Spoil the Party
  13. What You´re Doing
  14. Everybody´s Trying to Be My Baby


Primeiramente, para manter a tradição, vou começar pela breve análise das canções Covers de outros artistas.

Rock And Roll Music era um clássico de Chuck Berry, que John considerava o Rei do Rock. "Não me venha com jambo, mambo, tango, o que eu quero ouvir é Rock And Roll".  Desde 1959, ele tocava essa canção em shows, então não foi difícil escolhê-la para o álbum. E também não foi difícil gravá-la! Relembrando a histórica gravação de Twist And Shout, John não precisou de mais que UM TAKE para finalizar o trabalho, de uma também histórica sessão de 9 horas de duração, em que gravaram outras SETE canções, sendo SEIS delas aproveitadas no álbum, uma eficiência impressionante. Era a penúltima sessão em que se dedicaram a "Beatles For Sale", no profícuo 18 de outubro de 1964. John e George Martin acrescentaram piano posteriormente! Ela é a primeira Cover do LP, na posição 4 do Lado A. Eles tocaram a canção na BBC, na TV e em vários shows até 1966, último ano das apresentações ao vivo.

Mr. Moonlight? Eu disse ali em cima que os Beatles trouxeram pesos pesados do Rock, e citei quatro nomes. Pois bem, esta é a quinta! E a exceção! Seu autor é Roy Lee Johnson, você conhece? Nem eu! Quem a lançou foi um tal Dr. Feelgood, você conhece? Nem eu! Estou mais para Feelbad! Fraquinha, na minha opinião, mas eles sempre fazem do limão uma limonada. Finalizada na enorme sessão de 18 de outubro,  John manda muito bem, abre a canção com um grito primal, tem uma harmonia vocal tripla magnífica, Paul toca um órgão Hammond, Ringo inova num tambor africano, então dá pra engolir. O que não me conformo é saber que, para colocar Mr. Moonlight, eles engavetaram uma muito melhor, gravada quatro dias antes, chamada Leave My Kitten Alone, ouça bem neste LINK, mas prepare-se para balançar na cadeira!! Rock da melhor qualidade, incomparavelmente superior à escolhida, em verdade uma música caipira, letrinha breeeega, como pode ser conferido neste trecho da versão brasileira: "- Senhor Luar, olhe pra mim!..."!! Se há uma escolha que eu reprovo dos Beatles, é essa! Infelizmente, ela é a sexta canção, do Lado A do LP!

Kansas City/Hey, Hey, Hey, Hey é um medley já cantado assim pelo autor da segunda, Pennyman, o real nome de Ricardinho, ou Little Richard. A primeira do medley é da dupla Lieber/Stoller. Favorita de Paul, eles a cantavam desde 1962, quando conheceram o roqueiro pianista americano e se tornaram seus amigos.  Após uma parada de sua performance em shows, ela foi revivida na excursão aos EUA, justamente em Kansas City, onde foi devidamente aclamada, e foi então considerada para sair no novo LP. Foi a vez de Paul entregar seu ONE-TAKE-Song e no mesmo vigoroso 18 de outubro em que John entregara sua Rock And Roll Music. Até gravaram mais um take, mas ficaram com o primeiro, com perfeitas harmonias de John e George, e ao qual foram acrescidas palmas, dos quatro, e o piano de George Martin. Ela é a sétima canção, fechando o Lado A do LP!

Words Of Love está na posição 2 do Lado B do LP e é uma fundamental homenagem a seu autor Buddy Holly, genial líder dos Crickets, que morrera num desastre de avião aos 19 anos, em 3 de fevereiro de 1959, conhecido como O Dia Em Que A Música Morreu, sobre o qual falo, neste LINK. Os Beatles reverenciavam Holly, desde sempre, tanto que é dele o primeiro registro em gravação de John, Paul e George, ainda no Quarrymen, em 1958, a canção That'll Be The Day, tendo no Lado B uma canção de Paul chamada In Spite Of All he Danger. Foi ótimo que os Beatles optaram por esta canção de Holly, menos conhecida que a já citada, ou que Peggy Sue, ou ainda Maybe Baby, dando a possibilidade ao grande público conhecer mais a fundo o lindo poema,  ,"Deixe-me ouvir você dizer as palavras que eu quero ouvir, querida, quando você está perto, umm, umm, palavras de amor que você sussurra, suave e sincera, querida, e amo", rimando lindamene em inglês.  Assim como as outras três covers até agora, Words Of Love foi também gravada na já antológica Sessão Mamute de 18 de outubro. Gajos em seus instrumentos usuais, e vocal triplo imbatível de John/Paul no lead vocal e George na harmonia. Eles a promoveram ao vivo na BBC.

Honey Don't abre o reinado de Carl Perkins em "Beatles For Sale", logo a seguir, na posição 3 do Lado B do LP. Ela era o Lado B de Blue Suede Shows, compacto lançado em 1956. Na  voz de Ringo, Perkins quer conhecer melhor sua 'Honey', um dos mais famosos qualificativos de 'Amorzinho' na língua inglesa. Ele é o único autor a ter duas canções gravadas pelos Beatles num único álbum! E foi a oportunidade para Ringo brilhar! Era John quem cantava a canção nos shows em Liverpool e Hamburgo, mas ele considerou que o range vocal de Ringo estava OK para ela, e a partir de então, foi o baterista quem a cantou ao vivo, nos shows subsequentes. Ela foi gravada na última sessão de gravação do LP, em 28 de outubro, 

Everybody´s Trying to Be My Baby fecha "Beatles For Sale" e consolida Carl Perkins como campeão com a segunda canção no LP. George a canta, como fazia nos primórdios e voltou a fazer após o lançamento, na BBC, na TV e nos shows de 1965. A letra reflete o que acontecia com cada um dos quatro Beatles à época, todas queriam ficar com eles! George era o maior admirador do guitarrista americano, em quem se inspirou para seu próprio estilo na guitarra. Ela foi gravada na mesma sessão em que John e Paul gravaram suas ONE-TAKE-Songs, e George não ficou atrás: apenas um take foi necessário para a conclusão da faixa, com John no violão e os demais em seus instrumentos usuais (acho que já escrevi isso!).

Agora vamos às originais!

Em termos de divisão John / Paul, há um equilíbrio total, sendo quatro de cada um. 

Antes das canções, eis o nosso já tradicional quadro de Grupos, Assuntos e Classes. Vejam que este álbum também tem uma Mind Song. As demais sete autorais são do Grupo Heart Songs.

Percebam a tabela abaixo. 


Mais detalhes sobre a divisão entre Heart & Mind Song, aqui, neste LINK

Traduzindo
  • São 7 canções que falam ao Coração e uma à Mente
  • São 4 canções no Assunto Garotas e 3 no Assunto Saudadee
  • Das 4 Girl Songs, 2 são de Amor, e duas de DR
  • As Miss Songs relatam Desespero, Retorno e Triseza
Beatles For Sale é, portanto, um 

88% Heart, 50% Girl, 50% Love & DtR Album!

Na tabela abaixo, as evidências, nas letras, do porquê da classificação acima!





Vamos à análise das canções de autoria dos Beatles!!

A estrutura é sempre
  1. Número de ordem da canção no álbum
  2. Nome da canção
  3. Assunto e Classe da canção (com LINK para outras da mesma Classe)
  4. Autor da canção

LADO A

 1. No Reply  (Return Miss Song by John Lennon)

John grita: 'Quase morri, quase morri, porque você andava de mãos dadas com outro homem no meu lugar. Se eu fosse você, eu perceberia que eu amo você mais do que qualquer outro cara'
D
enota também desespero com a garota evitando encontrá-lo, mas como ele tenta convencê-la a voltar ("and I'll forgive the lies"), deixei como Return Song. Simplesmente amo essa canção! Apesar de ter uma estrutura relativamente simples, de verso-verso-ponte-verso, a qualidade dos ritmos e a dramaticidade da letra elevam-na a um alto estágio! Acho geniais as mudanças de ritmo, começando com uma espécie de bossa nova, dá uma quebra nos gritos 'I saw the light', 'I nearly died', 'No reply', notáveis as batidas sincopadas de Ringo nos pratos também ali, depois volta a bossa nova, e, na ponte, 'If I were you...', vem com uma batida firme de rock, acompanhada por palmas. Uma canção só de violões e um baixo sem muito floreio, mas com um vocal rouco de John fenomenal, e Paul nas harmonias agudas, nos gritos e em toda a ponte! Uma pena que nunca tenham-na tocado ao vivo!!

2. I'm A Loser  (Help Self Song by John Lennon)

John grita: 'O que eu fiz para merecer esse destino? Eu percebi que deixei isso muito tarde. E é verdade, o orgulho sempre ca uma queda. Estou te dizendo isso para você abrir o olho. Sou um perdedor, e eu perdi alguém que estava perto de mim, sou um perdedor, e eu não sou o que pareço ser!' Em que pese esse desespero todo ser porque ele perdeu uma menina, centrei-me na dúvida interna do autor, se está chorando não por ela, mas por ele (Is it for her or myself that I cry?), punindo-se por ser tão orgulhoso! É uma auto-análise, então, é uma Self Song, ele pede ajuda aos amigos para ele melhore. Paul a considera parte de uma tríade de 'cry for help songs' de John, junto com a própria HELP!, que viria no disco seguinte, e Nowhere Man (de "Rubber Soul", que  por ser falada na terceira pessoa, eu a classifiquei como Story Song)as três escritas um período de um ano. Pontos notáveis, o vocal impressionante de John, especialmente atingindo seus mais baixos tons seis vezes durante a canção, e em seis palavras diferentes, sim, segue a política de não repetirem letras. O baixo de Paul é magnífico, o pandeiro de Ringo no refrão, fundamental no volume da mensagem, e a guitarra de George A LA Carl Perkins. Ela foi uma favorita dos shows, com John e Paul dividindo o microfone no 'Looooser' e levantando a galera no refrão. Muito simpática também era a gaita que John, A LA Bob Dylan, tocava acoplada ao violão. A canção tinha força pra ser lançada em um compacto, e seria, se o mesmo John não aparecesse dias depois com nada menos que I Feel Fine, gente, fico até emocionado! Naquele ano, John seguia realmente dominante na dupla..   

3. Baby's In Black  (Dispair Miss Song by John Lennon)

John clama: 'Eu penso nela mas ela só pensa nele e apesar de ser só um impulso, ela pensa nele. Ah, quanto tempo vai levar pra ela perceber o erro que cometeu?'  
John não se conforma que sua garota está vestindo preto, porque ele sabe que assim, ela está pensando no antigo namorado... ô sina! Ok, a canção é daquelas tipo fifty/fifty entre John e Paul, mas eu a atribuo a John, primeiro por causa do jogo de palavras ('Black' - 'Blue', duas cores, porém com significados figurados), vocês devem se lembrar de "Please PLEASE Me like I PLEASE you", e "It won't BE LONG till I BE LONG to you", uma recorrência de John. 
Astrid e Stuart
Além disso, havia uma suspeita de que a garota em questão fosse Astrid Kircherr, a fotógrafa alemã, namorada de Stuart Sutcliffe, ex-companheiro de banda que morreu em Hamburgo, de aneurisma cerebral. Então, o "dressed in black" era pelo luto, e John tinha uma quedinha por ela, "but she was allways in black, thinking of him!".  Seu ritmo é uma novidade, deliberadamente uma valsa - Pum pa pa Pum pa pa. A principal contribuição de Paul seria na ponte ("Oh how long will it take till she sees the mistake she has made?") e, claro, na constante harmonia alta com o grave de John ao longo de toda a canção! Ela foi a primeira canção gravada para o "Beatles For Sale" ainda em agosto, antes mesmo da excursão aos Estados Unidos. Foi tocada inúmeras vezes ao vivo, até o último concerto, no Candlestick Park, San Francisco, agosto de 1966, e uma das apresentações foi lançada como Lado B do single Real Love, do Projeto Anthology. 

5. I´ll Follow the Sun   (DtR Girl Song by Paul McCartney)

Paul aconselha: 'Um dia você vai descobrir que fui emboramas amanhã poderá chover então vou seguir o sol. Algum dia, saberá que fui o único, mas amanhã poderá chover então vou seguir o sol"
Esta é canção que Paul escreveu muito antes dos Beatles, e que estava guardada em algum lugar de sua memória. Ela foi ressuscitada para encher o álbum, mas foi bem além disso. Por exemplo, era a Lennon/Cartney preferida de George Martin naquele álbum. Aliás, ele, como sempre, teve papel fundamental no arranjo final, sugerindo além de outras coisas, o magnífico backing vocal descendente de John, na ponte ("And now the time has come so my love I must go, and though I lose a friend in the end you will know, oh"). Não só sugeriu, como escreveu e ensinou John a cantá-lo. A guitarra de George faz um solo simples, repetindo a melodia, mas com slides interessantes! E Ringo fez a percussão batendo com as mãos nas suas pernas!!! Ela foi tocada ao vivo apenas uma vez, num programa de rádio na BBC.



LADO B

8. Eight Days a Week   (Love Girl Song by Paul McCartney)

Paul declara: 'Eu amo você todos os dias, garota, sempre na minha mente. Uma coisa que eu posso dizer, garota, eu amo você o tempo todo! Abrace-me, me ame, abrace me, me ame. Eu não tenho nada além de amor, querida, oito dias da semana'
Sabe quem deu a inspiração para a canção? Foi um motorista! Paul estava sem poder dirigir por ter perdido a carteira, e teve um transporte arranjado pela EMI para levá-lo à casa de John e, no trajeto, perguntou ao motorista: "How's life?" e o cara respondeu "Pretty fine! Working eight days a week!!". Ele nunca havia ouvido a expressão, achou-a perfeita e, ao chegar, Paul disse a John: "I've got a title for our new song!", e começaram a compô-la! Na verdade, deve-se admitir que o título é a parte mais forte da letra, preenchida com clichês de holdme's e loveme's, mas maravilhosamente bem colocados e que ficam grudados na nossa mente. John sempre desconsiderou a canção porque ele já estava no mood de escrever letras mais densas! A canção foi trabalhada muitas horas no estúdio, embatucaram um pouco para definir o início, que acabou num inédito fade-in  com a introdução da ótima guitarra de George e o baixo de Paul repetindo numa nota só, saindo do zero até chegar ao volume ótimo para a entrada triunfal de John "Oo, I need your love, babe, Guess you know it's true". Sensacional! Como também são 'um estouro' as palmas todo o tempo e dobradas no "Hold Me pa-pa Love Me pa-pa". Notável também o trabalho de equipe nos backing vocals de Paul e de George em momentos diferentes da canção: de Paul, nos agudos "Hold Me! Love Me!", (apenas a partir do segundo verso) e de George na ponte "Eight days a week, I lo-o-ove you, eight days a week is not enough to show I care". Magnífico, tão magnífico que, apesar de ser apenas uma canção de álbum no Reino Unido, preterida que foi pela estupenda I Feel Fine para o efeito de lançamento em compacto, Eight Days A Week acabou sendo lançada nos EUA para subir ao topo da parada, tendo I Don't Want To Spoil The Party no Lado B. Pra finalizar, sua posição no álbum: com o recurso do fade-in, nada mais natural que colocá-la para abrir o Lado B de "Beatles For Sale". Ironia interessante foi que o nome da canção foi escolhido por Ron Howard como título de seu sensacional documentário sobre o insano ritmo da excursão americana (LINK), apesar de ela nunca ter sido tocada em NENHUM show ao vivo! Por outro lado, não há dúvida de que o nome foi absolutamente apropriado ao tema, afinal, os Beatles estavam envolvidos na excursão 'oito dias por semana'!!

11. Every Little Thing   (Love Girl Song by Paul McCartney)

Paul declara: 'E você sabe que as coisas que ela faz ela faz para mim, uh! Quando estou com ela, eu me sinto feliz só de saber que ela me ama. Sim, eu sei que ela me ama agora
Aqui vou inverter o esquema: falo primeiro da parte musical! E por causa de UM instrumento: os Tímpanos! Não sabem o que é? E se eu disser TAMBORES DE ORQUESTRA com notas definidas. Aí, ok, né?! E é uma outra inversão porque os tímpanos foram introduzidos em over-dub posterior, e esse tipo de informação eu normalmente deixo por último. E por que eu dou essa importância toda a um simples tambor? Bom, primeiro eu peço que ouçam a canção e me digam se não é aquele som que reverbera, ali, duplo,  ton-don, em notas diferentes, no meio do refrão, que ficam na sua cabeça? Como aqueles tímpanos insanos na clássica de Strauss, claro, na introdução de Assim Falava Zarathustr, a gente não se esquece. E há que se destacar que é o primeiro instrumento 'de orquestra' que aparece na carreira beatle, e quiçá na história do rock, mas isto eu não posso garantir! No álbum seguinte, as cordas entrariam triunfais, em Yesterday, e depois em Eleanor Rigby, mas até ali, nunca. Além disso, foi um instrumento de orquestra tocado POR um Beatle! Ufa, é muita ode a um instrumento, não?
Bem, seguimos na música: aqui, quem toca a guitarra solo, é John, e ela aparece com destaque, na introdução, no solo, e na finalização. George fica no violão, Paul no baixo e Ringo na bateria (além do ton-don). Paul também toca os baixos de piano juntamente com os ton-don's do Ringo nos tímpanos. O vocal principal parece-me de John, mas os registros dizem que ele e Paul cantaram juntos! Paul, com certeza, pega a harmonia aguda no refrão.
A canção é mais de Paul que de John, ele se lembra de tê-la esquadrinhado na casa da namorada Jane Asher, onde morava, junto com os pais dela... ai esse Paul... querendo economizar uns trocados. E preza muito as 'things she does for him'. E como ele, bem como seus colegas de banda, não eram lá muito fiéis com suas parceiras, ele admite: "Yes I know I'm a lucky guy!" Muito sortudo!

 12. I Don´t Want to Spoil the Party   (Sadness Miss Song by John Lennon)

John lamenta: 'Embora nesta noite ela tenha me deixado triste, eu ainda a amo. Se eu achá-la, ficarei feliz. Eu ainda a amo. Eu não quero estragar a festa, então vou embora. Eu não quero mostrar a minha decepção'
Esta  seria uma canção feita para Ringo cantar, só que não! O estilo country rock era adequado a Ringo, mas a letra acabou ficando muito mais introspectiva, triste, e Ringo tinha o astral mais pro alto e não estava pra ficar lamentando que a garota não veio à festa, ou saiu sem avisar, não se sabe bem! Então, foi John quem a cantou, em lead, com participação em harmonia de George e Paul nos versos e de Paul nos agudos da ponte, onde está o título e o drama da letra, como ocorrera em No Reply. John está ao violão, George na guitarra solo, Paul no baixo, e Ringo na bateria, mas ele acrescenta posteriormente um pandeiro na ponte, contribuindo para o ritmo forte do drama!

 13. What You´re Doing    (DtR Girl Song by Paul McCartney)

Paul questiona: 'Por favor, pare de mentir, você me fez chorar, garota. Por que seria demais lhe perguntar o que você está fazendo comigo?'
Nada como uma DR! É Paul reclamando da amada, que mente pra ele e o faz chorar (seria Jane?). Não coaduna muito com a época, porque ele e os amigos não podiam reclamar nada de suas parceiras, porque da parte deles era uma sacanagem só, ai se as paredes daqueles quartos de hotel das excursões falassem... Paul capricha nas rimas ricas irregulares, rimando "what you're doing" com "feeling blue'n lonely" e "got me running'" com "there's no fun in it", como ele faria em You Won't See Me e Hey Jude em anos posteriores.
A canção demorou três sessões de gravação para ser concluída, sendo que na terceira, decidiram começar do zero. O principal problema foi acertar a introdução. Paul queria que a introdução soasse como as americanas, popularizadas pelos Girl GroupsO resultado, entretanto, mostra que valeu a pena. Ela começa com a bateria de Ringo, sozinha durante quatro tempos, em batida incomum, e entra o riff de guitarra de George, com o violão de John, e só então começam os quatro juntos, já com a bateria regular, Paul no vocal principal, com John e George na harmonia vocal, eforçando apenas as primeiras sílabas dos versos ("Look", "I'm", "You've", "Please", "And"), inclusive com direito a um erro, muito interessante, e com os tradicionais e deliciosos oooooo's. Eles voltam ao reforço harmônico nos três últimos 'me's da canção. Na sessão solo de guitarra, Paul acrescenta um piano insano. A conclusão, inovadora, repete a batida inicial de Ringo, sozinha, mas depois ainda retornam a guitarra e o piano em fade-out

Terminadas as sessões, as mixagens, chegou a hora da capa. Para o efeito, e para não se mexer em time que está ganhando,  chamaram de novo Robert Freeman, responsável pelas duas últimas capas, ele os levou ao Hyde Park, agasalhados pelo frio de outono, orientou que não sorrissem, o que combinava com o 'mood' das canções, e tirou  fotos,  desta vez coloridas, colocaram numa capa com o nome do álbum pequenininho, para desespero da chefia da EMI. A novidade maior foi a primeira capa sanduíche (gatefold sleeve) que repetiriam algumas vezes, com fotos da banda em atuação e montagem com artistas de Hollywood, alguns deles que conheceram durante a excursão aos Estados Unidos. 


"Beatles For Sale"
foi lançado em 3 de dezembro de 1964 e foi direto para o topo , como todos os LPs dos Beatles (bem entendido, eu me refiro aos LPs lançados como LPs, com oito ou mais canções autorais, o que exclui o EP de "Magical Mistery Tour", que somente depois virou LP e o "Yellow Submarine", com a trilha sonora do filme, que tinha apenas quatro canções novas). Diferentemente dos três anteriores, o LP ficou 'apenas' 11 semanas no topo, e elas não foram consecutivas, pois foi uma boa briga com o segundo álbum dos Rolling Stones, que tomou o lugar dele duas vezes. O compacto lançado no mesmo dia do LP, com as canções I Feel Fine e She's A Woman, canções gravadas em sessões do álbum, também foi para topo, mas falarei delas no capítulo dedicado ao álbum Past Masters #1.

Para terminar, não poderia deixar de registrar as proféticas palavras de Derek Taylor, assessor de imprensa dos Beatles, nas notas de capa, quando disse:

Há uma história inestimável entre essas capas. Quando, em uma geração ou mais, uma criança radioativa fumante de charuto, fazendo um piquenique em Saturno, perguntar a você sobre o que foram os Beatles, não tente explicar tudo sobre o cabelo comprido e os gritos! Basta tocar algumas faixas desse álbum e ele provavelmente entenderá. As crianças do AD 2000 extrairão da música a mesma sensação de bem-estar e calor que fazemos hoje.

Ele somente se enganou na tecnologia e no 'Anno Domini 2000'.

Já estamos 20 anos além, ainda não estamos em Saturno mas com relação aos Beatles, segue sendo assim!


4 comentários:

  1. Homerix,

    Impressionante a extraordinária riqueza das suas postagens, sobretudo sobre os Beatles. Alcance digno de um PhD no assunto. Parabéns!

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  2. Um LP muito interessante onde a personalidade da dupla LM fica bem explicitada. A profética frase de Derek Taylor resume bem o momento da banda. Mais uma vez, excelente postagem

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  3. John cada vez mais autêntico e confessional. Imagine uma Beatles song, dois anos antes, começando com "Sou um perdedor e não sou o que pareço ser"...
    John também mostra seu lado possessivo em "No replay", onde espia pela janela a mulher amada com outro. Mas, magnânimo, a perdoaria se ela voltasse...
    John disse que essa canção era o "Silhouttes" dele. Só que, na Silhouttes, o traído vê apenas sombras, mas John espia pela janela...
    Também gosto muito de No replay.
    Detalhe: "alguém" atendeu o telefonema e disse que a garota não estava em casa. Ele foi conferir...

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  4. PhD em Beatles, com certeza!!!

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