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quinta-feira, 10 de junho de 2021

She Loves You Yeah Yeah Yeah

Esta é a 4ª canção da coletânea Past Masters #1, 14º Álbum Oficial dos Beatles

a história do álbum, assuntos e canções, aqui neste LINK

É uma de 4 canções sobre Garotas, no papel de Cupido

                                        as demais 3 canções de mesmo Assunto e Classe, neste LINK

Atenção, canções com títulos em vermelho 

são links que levam a análises sobre elas.

4. She Loves You (Cupid Girl Song by Lennon/McCartney)

John e Paul alertam 'Ela te ama, sim, sim, sim. Você pensa que perdeu seu amor? Bem, eu a vi ontem. É em você que ela pensa. E me disse o que te dizer. Ela diz que te ama, e você sabe que isso não pode ser ruim. Sim, ela te ama e você sabe que deveira estar feliz. UUUUU' 
 
She Loves You é uma tradicional Lennon/McCartney de 1963, Lado A de compacto N°1 instantâneo, que encantou as meninas com o Uuuuuuh e as cabeças tremendo dos rapazes, mas encantou também o público masculino, vejam só ESTE VÍDEO, com a torcida do Liverpool, com 100% de  marmanjos cantando em uníssono a canção, em 1964. 
 
As linhas até aqui foram as mesmas que usei quando apresentei as Cupid Girl Songs, num dos capítulos iniciais de minha saga. Eu sigo impressionado com o vídeo que anexei, ainda mais porque acabei de fazer a análise de Thank You Girl, e com a alegria de homens entoando inteirinha a canção que ora analiso, vi que o título daquela canção poderia muito bem ser expandido para Thank You Boy. Também os homens amavam os Beatles. 
 
She Loves You foi a primeira obra-prima dos Beatles, na 11ª canção autoral apresentada ao mundo. Seu ritmo alucinante, seu brado inconfundível Yeah Yeah Yeah ecoando até hoje, sua bateria marcante, seus acordes inovadores, e as cabeleiras balançando, permanecem indeléveis nas memórias dos fãs e até de não-fãs. Os números alcançados por suas vendas permaneceram imbatíveis até que um dos seus compositores o bateu quase 15 anos depois, explicando: o compacto liderado por She Loves You vendeu 1,3 milhão de cópias no Reino Unido, imbatível até que Paul McCartney, em carreira solo, vendeu 2 milhões de cópias com sua Mull of Kintire em 1977. Interessante que seu desempenho não foi suficiente para desbancar From Me To You do título de canção com mais semanas no topo, que ficou sozinha, com 7 semanas, até ganhar a companhia de Hello Goodbye, quatro anos depois. She Loves You teve apenas 6, e em dois períodos, respectivamente de 4 e 2 semanas cada um, a competição estava mais acirrada. A quantidade espantosa de bolachinhas vendidas foi por conta da longevidade de sua presença nas paradas, com 6 meses no Top 20.                                                                                                                                      
Com o acúmulo de excursões, shows, apresentações em rádio e TV, por conta da fama que vinha junto com dois compactos e um álbum Nº 1 nas paradas, as composições daquele tempo foram muitas delas feitas na estrada. She Loves You começou com uma ideia de Paul numa viagem de ônibus, quando gostou da ideia de 'mudar de pessoa', todas as composições deles vinham usando a primeira e segunda pessoas, I, You, Me, e estava na hora de passarem para a terceira pessoa e veio o She .... Loves You. Chegados da viagem, enquanto aguardavam o show em Newcastle, sentaram-se em suas camas num quarto de hotel, um de frente pro outro, John complementou com o Yeah Yeah Yeah , e estava pronto o refrão, aliás, foi a primeira vez em que usavam essa peça estrutural em suas canções, até então eram apenas versos e pontes. Ali no tête-a-tête, foram desenvolvendo os versos, contando como o autor dava uma de cupido com o amigo, dizendo que a ex-namorada ainda pensava nele e o amava (Verso 1), e que apesar de ferida e quase ter perdido a cabeça, sabia que ele era um cara legal, e queria dar uma segunda chance (Verso 2) e que ele tinha que deixar de ser orgulhoso e ir lá 'apologyze to her' (Verso 3). Àquela altura de sua vida como compositores, já estava em curso a política de não repetição de letras, que abandonaram em Do You Want To Know A Secret. 
 
Cinco dias depois das camas no hotel, e dois após uma reunião de finalização na casa de Paul em Liverpool, os Beatles adentraram aos estúdios de Abbey Road para gravar as duas canções do compacto, num 1º de junho. Infelizmente, os registros de sua gravação foram perdidos, então não esperem deste escriba os detalhes de número de takes, completos ou abortados, e quem errou o quê, quando, e mesmo se eles tocaram tudo ao vivo como vinham fazendo, ou se fizeram uma base e gravaram os vocais depois. Geoff Emmerick escreveu em seu livro Here There and Everywhere que ocorreu esta última opção, mas há controvérsias porque eles vinha utilizando a primeira até então. O que dá pra afirmar é que nunca os sorrisos dos técnicos estiveram tão presentes ao longo de toda a sessão, todos orgulhosos pelo que ouviram naquela sessão. George Martin e todos ficaram intrigados com 6ª de Sol (Mi), que George entoava no 4º Yeah da introdução, complementando John na terça (Si) e Paul na quinta (Ré), acorde repetido na conclusão. Martin garantiu que já ouvira aquilo em um certo grupo vocal, mas decerto foi a primeira vez em um grupo de rock'n roll. 
 
Era o crescimento musical dos Beatles, patente a cada movimento... a começar pela batida sincopada da bateria de Ringo, triplo tom-tom nos compassos pares da introdução/refrão (ele repetiria o movimento em Ticket To Ride dois anos depois). Note-se a descida de uma oitava no mesmo verso, 'she says she loves YOU....' terminando lá no alto, e despencando no 'and you know it can be bad', e logo George emenda as notas do 'Yeah Yeah Yeah' na guitarra. Ao longo da canção John e Paul cantam em unisom, mas com precisas harmonias em pontos selecionados, especialmente nas palavras finais de algumas linhas ('thinking OF - your LOVE - be BAD - her SO - she KNOWS - to YOU - you TOO') nos pontos de rima aliás, adoro esta última. George se junta nos refrões e com aquela nota sinistra no final dele, e também harmoniza nas frases pares dos versos. E encante-se com as batidas 1-2-3 de Ringo no 'love like that' introduzindo 3 Beatles Breaks sensacionais. 
 
Não é preciso dizer que She Loves You foi muuuito tocada ao vivo. Deixo aqui, como registro, a performance no show de Ed Sullivan em 9 de fevereiro de 1964, quando The Beatles conquistaram a América. Neste LINK. E é um still desse vídeo a imagem que deixo, também é do show, com aquela configuração simétrica de Paul e George, somente possível porque Paul é canhoto. Eu rio sempre nos momentos em que els balançam as cabeças, e as garotas vão à loucura. E choro...

11 comentários:

  1. Foi a primeira música que ouvi dos Beatles, em 1964
    Aloprei
    Tinha 13 anos

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  2. Boas lembranças. Creio que praticamente todos aqui eram bem novos mas aquele son ficou marcado nos corações e mentes

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  3. Essa música já é incrível sem a análise do Homero. Com a análise, faltam palavras para descrever o sentimento que toma conta dos pensamentos e me faz viajar na história dos nossos Fab4.
    Obrigada mais uma vez por esse presente maravilhoso!
    Denise

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  4. Muito bacana, sempre que leio algo relacionado aos Beatles, me lembro do amigo usuário de cocaína, Grande Marvyn, que Deus lhe abençoe

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  5. Simplesmente incrível! Eu mesmo sou aprendiz quando o assunto é The Beatles. Artigo bem elaborado! Parabéns!

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  6. Eta beleza. Mas saiu no Brasil como lado B. Pelo menos em 1964 foi assim. I want to hold your hands no lado A. Eu bem me lembro quando a ouvi pela primeira vez. Foi no dia 27 de maio de 1964. Eu tinha escutado I want to hold your hands já diversas vezes desde o início de maio. Mas nas rádios que eu ouvia não tocavam She loves you. Eis então que estou em Belo Horizonte passando uma tarde na casa de uma prima. Ela me disse que estava promovendo uma festinha naquela noite e que teria de ir até a casa de uma vizinha buscar um disco para a festa. Eu gostaria de ir com ela? Claro que sim. Nisso duas amigas dela chegaram e lá fomos nos quatro pela rua. E então ouvimos... She loves you yeah yeah yeah. ( Primeiro ouvimos a bateria, claro. Amo aquele início com a bateria). Naquele momento todas elas gritaram: ' Os Beatles!" E começaram a dançar na rua. Foi estranho porque parecia que eu a conhecia. Eu cantei junto. Sabia a melodia. Mas juro que foi a primeira vez que a ouvi. ( Este fenômeno aconteceu também com diversas outras músicas deles. Eu já as conhecia de algum sonho, talvez).
    Soube então que era este o disco que a prima ia buscar. Voltamos com ele. A festa que preparavam era para lançar uma dança que tinham inventado para ser dançada apenas ao som dos Beatles! Eram todos Beatlemaníacas! Todas bem mais novas que eu. Eu tinha 14 anos. Elas tinham 12 e 13 anos. Minha prima tinha 11 anos.
    Enfim, foi a primeira vez que vi o compacto. I want to hold your hand no lado A e She loves you no lado B. Eu fiquei ali sentada vendo as meninas dançando para a festa de lançamento da dança! Bacaninha. Uma delas pegou a capa e veio me mostrar. E disse..." Bonito demais, não é?" George Harrison. Eu concordei! Só tinha visto uma outra foto deles antes e não tinha visto beleza neles, embora tenha adorado o jeito deles. Mas naquela tarde achei todos maravilhosos. Eles não tinham mudado. Eu tinha mudado. Estava vendo agora beleza de outra forma,ninguém precisava ser Alain Delon para ser lindo. O carisma contava.
    E amei a capa. falo sobre isso no próximo bloco porque aqui não caberia.

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  7. A capa. Assim que vi a foto senti algo por dentro muito especial. Senti que não eram apenas cantores. Estavam abrindo nossas mentes. A primeira lição foi não se fixar apenas na beleza física tradicional. ( Devia ter citado outro nome acima, e não Alain Delon, porque o francês é exceção...é uma beleza artística em rosto humano e precisa ser reverenciada rs rs rs). Mas eu tinha acabado de ver que um carinha podia ter nariz grandão ou caído para baixo, que poderia ter olhos com as beiras viradas para baixo, que poderia ter duzentos mil dentes na boca...que seria lindo mesmo assim e talvez exatamente por isso. Foi uma abertura. E olhando a capa vi que nos convidavam para largar os preconceitos, as ideias antigas que nos aprisionavam, para pularmos com eles para um nível alto...Sem medo porque estariam segurando em nossas mãos. "Eles querem segurar nas nossas mãos", pensei. É um convite irrecusável. Um novo mundo está chegando. A foto mostra todos no ar...E abaixo algumas ruínas...aquilo que deveríamos deixar para trás. Foi minha análise daquela capa.
    Nunca comprei o compacto porque ganhei o LP com as duas músicas. Devia ter comprado por causa da capa.
    Muitos anos depois fiquei pensando que era eu imaginando coisas. Não queriam dizer aquilo...provavelmente não. ( Mas foi o que me tinha feito ficar realmente fâ). Recentemente vi que faleceu a fotógrafa daquela capa. Veio artigo sobre ela com sua explicação. Tinha levado os Beatles para um mine site...um lugar em ruínas que tinha sido bombardeado na segunda guerra...restos de algo trágico e inaceitável. E eles estavam acima daquilo. Trazendo outro pensar. Pois então...eu tinha sentido algo bem parecido com o que a fotografa tinha imaginado. Passou lindamente bem pois senti daqui de Minas Gerais. Era o que queria dizer e com o consentimento deles! Concordaram com a mensagem. Pois sempre digo que sempre foram mais que músicos. Muito mais.

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  8. Podia jurar que li algo sobre bossa nova no seu texto. Li ontem. Ou foi sobre outra música? Não, foi aqui mesmo porque é em She loves que podemos ouvir uma dissonância. Bom, talvez tenha em outra também. Para mim tinha sido aqui. E comentaria sobre isso. Comento mesmo assim. Vi uma entrevista de Paul onde ele fala sobre seu ouvido atento, ali nos sessenta, a um certo som dissonante que vinha do Brasil. Claro que se referia à bossa Nova. John tinha o disco de João Gilberto e Stan Getz. Ele só falou isso na entrevista, mas podemos ouvir a influência na música Step Inside Love que Cilla Black gravou. É bossa nova. A versão dele, o demo, ainda parece mais.
    E como não pensar em "Desafinado" ouvindo "With a little help from my friends?" Nâo o som, mas o tema. What would you think if I sang out of tune would you stand up and walk out of me. Se você disser que eu desafino amor, sabia que isso em mim provaca imensa dor...

    As cabecinhas se balançando ao som de uuuu...Inesquecível. Obrigada por se lembrar também. E polos links!

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    1. Não sabia que John tinha ouvido Bossa Nova!!! Obrigado por isso e pelas lembranças. Eu já tinha 16 anos e começava a arranhar o violão. Depois de ouvir Beatles... quis uma guitarra. Naquele mesmo ano entrei para um conjunto "de rock", na Escola de Cadetes de Barbacena.
      Por algum tempo cuidei do som do nosso Cassino. Tinha dois toca-discos, mixáveis. E dois LPs Deles! O primeiro (caras sombreadas) e Os reis do Ié ié ié. Quase furei os discos de tanto tocar.
      Saí da vida militar um ano depois, mas o amor pelos caras só aumenta...

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    2. O último Ié! da canção é uma dissonância típica de bossa nova. Creio que Homero destrinchou o acorde.

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  9. Auro, na entrevista que deram em 1965 para a Play Boy ele comenteou sobre o disco de João Gilberto. Fez piada, penso porque estavam sendo tratados como jovens sem muito conhecimento. O tipo de pergunta que faziam...como se não soubessem nada mais do que rock. Talvez por isso John se fez de bobo dizendo que tinha recebido de presente um disco de Stan Getz com um mexicano chamado Iguana, ou algo parecido. Claro que sabia que se tratava de um brasileiro chamado João Gilberto. No entanto Paul parece ter recebido mais influência. Step Inside Love é bossa nova pura. E foi ele quem falou sobre os acordes brasileiros que ele ouvia. E estilo até na batida. Blue Bird é bem mpb. Tem uma outra chamada Distraction. No demo Rude vemos uma das suas músicas em ritmo de samba tradicional. A entrevista da Playboy é imperdível. Tiram o maior sarro nos reporteres que pareciam achar que eles não tinham inteligência.

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