Mostrando postagens com marcador Houston. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Houston. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Será que estava escrito?


Homerix em Áudio

Clique no Play Verdinho para ouvir


O que se segue abaixo
______________________

Será que estava escrito?

Passou mais um 4 de agosto.
Completou 48 anos!!
Pensei no Day After! 
Como terei eu acordado naquela manhã de 5 de agosto de 1978?

Teria dormido bem?

Quase certo que sim, porque dormir mal não faz parte de meu ser.

Mas decerto que devo ter pensado na noite anterior, a do primeiro beijo, na Boate Terraço da Ilha Porchat, para onde eu tinha tomado a coragem de convidar Neusa, sabe-se lá como, depois de conhecê-la melhor um ano antes, na casa do Cid, seu vizinho da João Guerra, onde jogávamos Sueca, um delicioso jogo de baralho em duplas. Não a conhecera ali, pois ela já estava no radar há alguns anos, quando a via com seu namorado de então, no Colégio Santista.

Será que eu sabia que seria um namoro firme? 

Era meu primeiro namoro... será que eu ia acertar assim logo de cara e encontrar a mulher de minha vida? Até então, minha perspectiva era a de um futuro solitário, com um belo cachorro a meu lado... era mesmo!

Era um namoro de fins-de-semana, pois eu cursava a Escola Politécnica da USP, em São Paulo, onde morava numa República com outros cinco santistas, então aquelas noites paulistanas eram sempre de expectativa pelo fim das aulas de sexta-feira, quando pegaria meu Passat pra descer a Serra do Mar, as famosas curvas da Estrada de Santos, após as quais eu invariavelmente estacioná-lo-ia na João Guerra para vê-la, só indo pra minha casa tarde da noite. E sábado e domingo, íamos à praia, coisa que eu nunca fazia, mesmo morando em frente! Uma das muuuitas coisas que ela me ensinou a gostar.... quer dizer .... carnaval ela não conseguiu ... mas eu ia sempre com ela nos bailes do Atlético.

Será que passava por meus pensamentos que aqueles encontros de fins-de-semana passariam a ser mensais, depois da formatura, quando morei um ano em Salvador, mudando de profissão (de Engenheiro Civil a Engenheiro de Petróleo), e quando a saudade era suportada por longas e diárias cartas, onde eu contava detalhes de meu dia-a-dia baiano, incluindo aqueles longos fins-de-semana sem ela? 

O namoro suportaria isso?

Hoje é 7 de agosto!

A resposta?

Parecia que sim, afinal, tornamo-nos noivos, num daqueles retornos mensais, também num agosto, e a um ano da grande data de nossas vidas, quando ela adentrou, maravilhosa, a nave central da Basílica Maior de Santo Antônio do Embaré, a principal igreja de Santos (na verdade, a igreja se chama Basílica Menor, mas mudou de patamar, depois da passagem dela)!!

Lá se vão 44 anos!

E, logo após a lua-de-mel, no Sul, viria uma grande mudança! Eu ia tirar a grande alegria da casa de Dona Mira e Seu Antônio, para morar a 500 km dali, e eles ficariam sem ela, cuidando do Carlinhos, meu querido e especial cunhado. Será que isso estava em meu subconsciente naquele 5 de agosto? 

Será que isso daria certo?

Deu, sim, voltávamos frequentemente a Santos, e muitas vezes, buscávamos todos para ficarem com a gente aqui no Rio, era uma festa, especialmente após a chegada de Renata, e depois de Felipe... pena que vovô Antônio aproveitou pouco tempo do sonhado neto. E então, vieram Dona Mira e Carlinhos morar perto da gente, no mesmo prédio, três andares abaixo, depois mudamos para três andares acima, e veio a proposta para mudarmos para oito mil quilômetros dali. 

Será que isso teria a mínima chance de funcionar?

Funcionou, fomos, e voltamos 4 anos depois, e ano seguinte estávamos os seis juntos num mesmo teto, mais um tempo passou, e se foi o querido Carlinhos, e outro tempo depois, nossa querida Dona Mira, e ficamos, aposentados, e junto com filhos e Luna e Apollo, curtindo essa vida, bem felizes.

Tudo deu certo! 

... agora, com algumas atualizações...
  • O filho saiu de casa...
  • Voltei a trabalhar...
  • Apollo se foi, lindo!
  • A filha também se foi!
  • E levou Luna com ela!

Mas decerto que nem de longe imaginava tudo isso aquele universitário de 20 anos, um dia depois de encontrar o amor de sua vida!!

Decerto que não...

domingo, 4 de janeiro de 2026

Mais um 4 de Janeiro


EDIÇÃO 19
Renovando meu post 'reprogressivo'  que faço desde 2008.

Nesta edição, o Labirinto do Homerix já tem 58 portas!

As chaves para abri-las estão em Vermelho!

à disposição do leitor CCT - Curioso e Com Tempo!

Obrigado pela atenção!

AGORA NO PROJETO HOMERIX EM ÁUDIO
_________________________________
HOMERIX EM ÁUDIO - MAIS UM 4 DE JANEIRO
EDIÇÃO 19

Nos últimos 365 dias, virei até rapper
Há 1 ano estive a divulgar Joana D'Arc
 Há 2 anos, voltei a trabalhar e vi Paul no Maracanã
  há 3 anos, eu era um súdito triste, mas orgulhoso 
   há 4 anos, minha voz cruza o Atlântico toda semana
    há 5 anos, escrevo Saga sobre as canções dos Beatles 
     há 6, fiz o 1º cruzeiro 
      há 7, minha pensão é surrupiada
       há 8, sou 'avô' (de gatos)
        há 9, estou aposentado
         há 10, se foi meu irmão
          há 11, estou no Whatsapp
           há 12, surgiu a Baleia
            há 13, cantei em público
             há 14, sou pai de escritora
              há 15, tenho blog 
               há 16, surgiu o Los Bife
                há 17, perdemos um anjo.

Há 18 anos, comemorei centenário
 há 19, senti o Jato Turco 
   há 21, virei gerente
    há 22, voltei da América
há 23, vi She's Leaving Home ao vivo 
 há 24, visitei as Torres Gêmeas
  há 25, cantei em em rádio americana ao vivo ´
    há 26 sou pai de violinista
           há 27, fui pra América.

Há 28 anos, ganhei prêmio nacional
 há 29 anos, escrevo
  há 31, sei muito sobre Beatles
    há 33, restamos 6
    há 34, conheci Liverpool
      há 35, vi Paul McCartney bater recorde
       há 36, não procrio
        há 37, sou planilheiro
         há 38, viajo.

Há 39 anos, sou órfão
 há 40, pai
  há 43, marido
   há 44, petroleiro
    há 45, engenheiro
     há 47, namorado
      há 50, politécnico.

Há 51 anos, minha mãe se foi
  há 53, conheci James Bond;
   há 55, vi a maior das Copas
     há 57, sou Trekker
     há 58, vidrei na MPB
      há 59, entrevistei Pelé
       há 60, vi Pelé jogar
        há 61, ouvi Beatles
         há 62, sou marista.
EM 1958

Há 63 anos, li;   
há 64, nadei;   
há 66, falei;   
há 67, andei;   
há 68, nasci.    

Neste exato dia!





E há 18 anos, foi um marco!!!

    
5.0
  meio século
   fifty/fifty?
    half & half?
     segundo tempo?
      topo da ladeira?
       metade do caminho?
        contagem regressiva?
       o caminho de volta?
      o começo do fim?
     o fim do começo?
    a caminho do pó?
   velocidade zero?
  pressão mínima?
 cinqüentinha
Lá fui eu!

Fui!



Era pessimista ou otimista?
Pelo IBGE, me faltava meio ano!!
A expectativa de vida era de 50,5 anos em 1958!
Acabava de entrar na contagem regressiva ...
183 dias para o fim!!!
Então, tô no lucro 17,5 anos!!
E, como eu disse, vou sair dos “ENTA” ...
e chegar aos 100 anos!!
Se Deus permitir, como agora, 
com saúde, e no seio da família!!

Trabalhando? Difícil!

Escrevendo? Com certeza! 

SE o alemão deixar!!!

sábado, 4 de janeiro de 2025

Entre 6... desde a Politécnica

Aspectos da minha vida durante quase 25 anos estiveram relacionados ao Número 6, verdadeiras coincidências.. será?

As Cardinais:

  1. Éramos 6 santistas que entramos juntos na Poli, em 1976
  2. Éramos 6 santistas que moramos numa república, de 1976 a 1980
  3. Éramos 6 Engenheiros Civis da Poli que entramos na Petrobras em 1981
  4. Éramos 6 numa república na Bahia no primeiros 3 meses da Petrobras
  5. Éramos 6 escolhidos para vir trabalhar na Braspetro no Rio de Janeiro em 1982
  6. Éramos 6 os membros da família, que se mudou pra Houston, em 1999

E vamos parar em 6, as coincidências cardinais

E vamos às demais coincidências.

As Ordinais:

  1. Fui o 98º na nota do vestibular da MAPOFEI de 1975, dentre 600 a entrar na Poli, portanto 1 entre 6, dentro do primeiro 1/6
  2. Fui o 34º na nota da Engenharia Civil da Poli ao final da faculdade em 1980, dentre 200 formados, portanto 1 entre 6, dentro do primeiro 1/6
  3. Fui o 33º na nota do concurso da Petrobras, dentre 200 engenheiros estagiários contratados, portanto 1 entre 6, dentro do primeiro 1/6
  4. Fui o 17º na nota final do estágio, dentre 100 Engenheiros de Produção, portanto 1 entre 6 dentro do primeiro 1/6

Ou seja,  estive sempre no 1º sextil das classificações.

(Quartil eu sei que existe.... mas sextil não confirmei!!)



Não, não foram 6 as coincidências ordinais, aí já seria demais, né...


Mas 6+4  igual a 10, um bom número, não é mesmo, para atestar a importância do numeral 6 em minha vida! Sabe o que isso quer dizer,

NADA, ABSOLUTAMENTE NADA

MAS É LEGAL!!

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Exílio Americano - O agradecimento

Há exatos 25 anos, eu embarcava numa missão inconcebível 
Quase um ano depois, eu escrevi esta carta a quem a proporcionou.
_____________________________

Houston, 4 de abril de 1999

Olá, Camargo

Finalmente, correspondo-me! Não que esteja tranqüilo e com tempo de sobra. Há muito ainda a ser feito mas, devagarinho, chego lá. Mas, isto não vem ao caso! Deu vontade de escrever a você! Afinal, era o mínimo que lhe devia, como amigo que sou. E se por isso não fosse, teria que escrever ao menos para agradecer-lhe mais uma vez por minha indicação ao meu presente cargo. A arriscada indicação de um não especialista para uma função de ponta no exterior mostrou um reconhecimento ao meu trabalho, que se por um lado eu sabia que você tinha, e já havia tido provas dele, por outro lado não esperava que chegasse a esse ponto. Tenho certeza que João teve papel importante nesse jogo. Tenho muito a agradecer a vocês, para o resto de minha vida, aliás, não só eu como minha família.

Já que demorei tanto, agora vai uma mensagem imensa, me perdoe. Sugiro imprimir e ler depois, com calma. Sei que não tenho tanta intimidade para contar tudo isto para você, mas acho que é uma boa oportunidade para você saber como anda minha vida por aqui, no lado pessoal. No lado profissional, acho que você deve estar sendo informado pelos instrumentos devidos, pelo menos assim espero. Eu costumo respeitar hierarquias e por isso não tenho entrado em contato com você diretamente, não há necessidade. Estou muito contente com esta oportunidade no exterior, com o bom relacionamento que tenho com meu gerente geral, que valoriza meu trabalho e contribui para meu aperfeiçoamento, com toda sua experiência gerencial.

Aproveito esta mensagem também para cumprimentá-lo pelo pioneiro cargo de Diretor da Área Internacional da Petrobras. Não o cumprimentei antes, pois penso que há outros níveis a fazê-lo primeiro. Imagino como anda sua cabeça nestes tempos de mudança. Tanto a ser feito, tantas almas a orientar, tantas idéias a implantar, tantos grupos a coordenar e tão pouco tempo. Sei dos que temem que a agilidade da Braspetro seja emperrada pelo gigantismo do Sistema Petrobras. Porém, sou dos que preferem acreditar que tal agilidade será, ao invés disso, impregnada no Sistema. Mas, como disse acima, esta é uma mensagem pessoal (por isso estou mandando para seu email) daí, paro o assunto profissional por aqui.

Uso esta oportunidade para oferecer também o meu email pessoal para você se corresponder sempre que quiser jogar conversa fora ou ainda se precisar de algum favor dos States, não se avexe! 

É usventura@cs.com : você percebe o sentido duplo do us:
‘US’ de todos nós, os Ventura e ‘US’ de Ventura nos US.
Como estão você e sua família? Fale para a Laura que ainda não tomei cafezinho tão gostoso como aquele que ela me ofereceu em 1994 em minha primeira visita a sua casa, em Londres. E Aninha como está? Ela é a única da qual me lembro o nome, compartilhou o jantar conosco, com sua simpatia. Seus outros filhos eu mal vi, não fixei os nomes, adolescentes que eram. Como estão todos? A experiência internacional trouxe frutos para as vidas pessoais de seus filhos? Se puder, dê-me um feedback a esse respeito.

A família Ventura vai muito bem, obrigado. Antes da chegada, um pouco das preliminares. Você se lembra quando me convidou para esta expatriação, como hesitei. Não por receio profissional, pois apesar de nunca ter atuado na área financeira, gostava de mexer com números e achava que daria conta do recado. Sempre quisera uma missão permanente no exterior, mas nunca achei que haveria oportunidade para mim, pois eu ficara no meio do caminho entre um engenheiro, que ocuparia a gerência de operações e um economista ou contador que ocuparia a gerência financeira de uma unidade no exterior. O problema era a situação familiar, que comprometia: Neusa tinha um irmão excepcional, 5 anos mais velho que ela, que era cuidado pela mãe já em idade avançada e totalmente dependente da filha. Tanto tinha certeza da impossibilidade que, quando recebi o seu convite, disse que as chances seriam poucas, devido àquela situação. Surpresa absoluta, quando cheguei em casa e falei à Neusa sobre a oportunidade, ela, que sempre recusara a hipótese de sair do Brasil por causa daquilo tudo, pensou 2 minutos e disse: Tudo Bem! 

Minha filha Renata, 14 anos na época, em princípio negou, mas logo entrou na onda. Felipe, com 11, coitado, pouco podia opinar. Minha sogra, dona Zulmira, teve uma resistência enorme, como esperávamos e era mais do que natural para nossa envoltória particular. Seu grande temor era a viagem, 10 horas até Miami, 3 horas de espera no aeroporto mais 2 de Miami a Houston. Os meses entre o aceite do convite e a viagem foram um verdadeiro suplício. Recorremos até mesmo a aconselhamento espiritual que, felizmente, recomendou a mudança.

Neusa pediu licença do emprego na Justiça do Trabalho, preparamos as papeladas para transferência das crianças, e viemos. Aliás, vim antes, e corri o risco de escolher a casa sozinho, pois tudo tinha que estar preparado para a chegada d’A Grande Família. Não poderia fazer como os outros expatriados, que vêm com a esposa e a escolha é conjunta.

         Começo meu relato pela viagem. Os temores de minha sogra não se confirmaram, como todos sempre lhe diziam, e ela teimava em não acreditar. Deu tudo certo na viagem, afora o trabalho normal, de transferi-lo no muque de cadeira em cadeira, e que já esperávamos, meu cunhado ficou ótimo o tempo todo. O tempo de espera em Miami foi todo tomado no balcão da Continental com o check-in de meus 14 volumes, incluindo duas cadeiras de rodas e patient lifter - um aparelho que usamos para transportar meu cunhado da cadeira para a cama e vice-versa. Éramos 7, foi uma verdadeira invasão! O pessoal da VARIG achou que era arriscado fazer o encaminhamento normal, dado o volume indecente de bagagem. Contratei um negão enorme, que conseguiu colocar tudo empilhado num carrinho só e lá fomos nós por aqueles terminais afora… às vezes, caía uma mala lá de cima … parecia a Família Buscapé!

Ao chegarmos em Houston, havia uma comitiva nos esperando, outros gerentes expatriados e um local administrativo. Eram tantas as malas e volumes, e tanta gente ajudando, que acabamos trazendo mais uma, que estava perdida lá na esteira, parecida com uma das nossas. O incrível é que a mala tinha identificação e o dono morava na mesma rua minha, Kimberley Lane, a uns três quarteirões de casa. Depois de um contato com a Continental que sugeriu que eu levasse a mala de volta para o aeroporto (longe pra cachorro!) para evitar que eu fosse processado pelo dono, resolvi arriscar e telefonar para o sujeito (tinha até telefone no cartão!). A sorte é que o cara era um inglês boa gente que ficou feliz da vida: “Pelo menos uma, eu consegui recuperar!”, ele disse.

Moramos numa casa boa, de dois andares. Os quatro mais velhos ficam em baixo, os 3 mais novos em cima. Tem um game-room, para o qual imediatamente compramos uma mesa de Ping-Pong. O proprietário aceitou que eu fizesse reforma no banheiro para que pudéssemos dar banho em meu cunhado. Aqui, o normal é banheira e, fora dela, não há ralo, de modos que não seria possível manter o mesmo esquema de banhá-lo na privada, com uma ducha. A água não ia escorrer. O dono ficou sensibilizado com a situação e aceitou. Lá se foram 2.700 dólares!

Como percebeu, éramos 7, pois trouxemos, como você sabe, a nossa empregada para aliviar a carga de Neusa e de minha sogra com o cuidado da casa e do meu cunhado. Foram 3 meses de convivência nada pacífica, pois seu gênio era terrível, apesar de que nada temos a reclamar do serviço e do carinho com que tratou meu cunhado. Tentamos mudá-la, mas foi impossível. Foi uma decisão conjunta e ela pediu as contas, mesmo com 500 dólares por mês. Fora a passagem, né! Total: 2.500 dólares. Como eu já tinha falado a você, minha vinda para cá tinha VPL negativo, pois Neusa tinha um belo salário por aí, que parou de receber. Os motivos não-monetários, no entanto, e ainda bem, pesaram mais em nossa decisão.

Sei que já conhece Houston, mesmo assim, aqui vai uma breve descrição, você pode mostrar a seus filhos, que não tiveram a emoção de conhecer a 'vibrante' metrópole. Apesar de estar localizada em um paralelo do Hemisfério Norte correspondente a Porto Alegre, no Hemisfério Sul, aqui faz mais calor que aí. Ainda não passamos o verão aqui, mas dizem que é causticante. O que salva é que tudo tem refrigeração e calefação, casas, lojas, carros, cinemas, restaurantes.  No frio, chega algumas vezes a 0 ºC, mas não é nada demais. Aquilo tudo que se vê na TV sobre neve, nevascas, carros soterrados, tempestades, furacões, é tudo mentira, computação gráfica! Brincadeirinha! É mentira para Houston! Tudo isso acontece em outras cidades mais ao Norte. E, na verdade, nada disso faz falta, muito menos os furacões. Já houve por aqui, o último há 15 anos. A cidade é plana, plana, plana, ai, que sono! Para quem está acostumado com o Rio de Janeiro com todos aqueles morros e florestas, isto aqui é uma verdadeira monotonia. A maior elevação da cidade, fora os altos edifícios, é no ápice de um enorme viaduto, magnífico entroncamento de duas Highways, como só os americanos sabem fazer. A cidade é em 95% do espaço ocupada por casas, sobrados e muitas … muitas árvores. Os prédios de apartamentos têm 3 andares, no máximo. No centro da cidade, o Downtown, estão os maravilhosos edifícios das grandes empresas da cidade. Há um com 100 andares, que é fora de Downtown, e eles fazem questão de ressaltar: o maior do mundo fora de Downtown! Ele tinham que ter um 'Maior do Mundo'!

A falta de belezas naturais faz com que as atrações se limitem ao que o homem construiu. Tem a NASA, o Museu de História Natural, o Museu de Belas Artes, Parques de Águas, Parques de Diversões, Zoológico e cinemas. Meu Deus, como tem cinemas por aqui! De todos os tamanhos, para todos os gostos. Deve ter mais de 500 salas, agrupadas ou isoladas, 30 aqui, num shopping, 20 ali num centro empresarial, outras 25 acolá isoladas no meio do nada. Ô pessoal para gostar de filme, aliás, círculo no qual nos incluímos com orgulho. São apenas 4 milhões de habitantes, apesar de ser a 4ª maior cidade dos USA. Pela falta de prédios de apartamentos, no entanto, a extensão territorial é imensa.  Todas as distâncias são enormes. E, por conta destas distâncias, tem outra coisa que tem muito por aqui: carro! A média é quase de 1 carro por pessoa e olha que tem que contar nesta média as pessoas como menos de 15, que não podem dirigir e as maiores de 80, que não devem, mas o fazem. Querem saber outra coisa que tem muito por aqui? Mexicano! Dizem que 30% da população de Houston vem do México. Não sei se vocês sabem, mas estas terras aqui eram mexicanas e foram tomadas no tapa - muitas guerras e mortos. Os mexicanos acreditam que este é um movimento de retomada, lenta, mas agressiva: os mexicanos têm, em média 4 filhos por família … os americanos, 2. É só fazer as contas. Há bairros inteiros com mexicanos  .. e outros, menos numerosos, de orientais, de todos os países da Ásia. Há ruas em que o nome está em inglês e em ideogramas, aqueles sinais dos orientais.

Neusa logo se adaptou aos lugares de compras (supermercados) e já anda por toda a Houston que interessa à manutenção da casa. Aliás, ao contrário de mim, Neusa passou de primeira no exame escrito de motorista, eu tive que fazer 2ª época … pasme! Temos uma pequena comunidade petrobrasileira  ….. as mulheres se encontram de vez em quando. Neusa chegou a começar um curso de inglês numa Igreja aqui perto. Só que já estava no final do ano. Começaria em janeiro novamente. Agora, sem empregada, está dificultando bastante já que ela está tendo que cuidar do irmão e da casa, claro que com a ajuda da mãe. Deus nos proteja para que continuem firmes e com colunas vertebrais fortes.

Minha sogra adaptou-se muito bem. Gostou muito da casa. Está 100% do tempo em contato com a filha, coisa que não tinha no Brasil. Recebe de vez em quando a visita de esposas dos outros expatriados. De modos que se sente em casa!  Isso sem contar a Globo Internacional, que chegou junto com a gente, um Fator Crítico de Sucesso para esta missão. Usamos o living room como quarto para ela e meu cunhado, afinal era o cômodo que sobrou no andar de baixo. Como o living room tinha apenas um portal, instalei uma porta “bi-fold” para dar-lhes certa intimidade. Claro que após autorização do proprietário, que só pediu que mantivesse o mesmo estilo de uma outra, nas proximidades do portal, meio vazada e branca. Esta porta é uma prova do nível de padronização americano. O vão do portal era de 72”, a altura 83”. Fui ao Home Depot, um local inacreditável de materiais de construção, na esperança de ‘encomendar’ uma porta com estas dimensões. Surpresa absoluta, encontrei uma porta, na verdade duas, que se fecham no meio do vão, exatamente como eu queria (bi-fold, branca, vazada), para atender um vão com exatamente com as dimensões que eu precisava (duas portas de 36” por 82.5”), e a um custo razoável, US$ 90.00 as duas. Depois, foi só uma questão de convencimento por parte da porta. Levou uns dois meses até ela me convencer de que eu era capaz de instalá-la. Ela falava: “Vem …. me instala, seu bobo! Eu sou facinha!” e eu nada, até que num belo domingo de dezembro, tomei coragem e enfrentei, com sucesso, a fera. Trata-se de um dos meus maiores feitos nos States, além, é claro, dos profissionais.

Na escola, foi impressionante: chegamos numa segunda, fiz a matrícula na terça e na quarta-feira, estavam os dois de material na mão (o Felipe, de uniforme!) prontos para começar a nova vida escolar. É claro que ajudou o fato de eu já estar com toda a documentação pronta, atestados de vacina e tudo o mais! Tanto Felipe (na Middle School) quanto Renata (na Highschool) conseguiram entrar em séries adiantadas, como queríamos.

As crianças se adaptaram rapidamente. Renata, que outro dia fez 15 anos, então, já até saiu do ESL, um programa especial – English as a Second Language – que acomoda estudantes que chegam de outros países e não dominam o idioma inglês. Ela começou, então, em janeiro, a ter aulas normais junto com os americanos e outros poucos estrangeiros. Pena que ela perdeu contato com alguns colegas de outros países (Albânia, Rússia, México, Eslováquia, Paquistão) com quem ela gostava de conversar. Tinha até uma menina das Ilhas Maurício, que ficou espantada pela Renata saber do que se tratava, quando lhe contou de onde ela vinha ("Ah, yeah, Mauricio, the islands!", replicou Renata, para reação estupefata da mauriciana, que nunca havia recebido tal reação de um americano). Enfim, ela mesma pediu assim, e os professores acharam que ela estava preparada para a nova etapa. Está bem puxado para ela. Mas já deu para perceber que foi uma decisão acertada: no primeiro período (eles avaliam a cada Six Weeks, por aqui!) ela já teve Straight A’s, ou seja, todas as notas maiores ou iguais a 90. E, espanto dos espantos, a melhor nota de Inglês da turma! E faz umas matérias diferentes do currículo brasileiro, como Speech e IntroBusiness, escolhidas por ela.

Felipe, 11 anos, teve um começo difícil, demorou muuuito pra se adaptar: 3 dias! (HeHeHe). Chegou chorando da escola no primeiro dia, pela dificuldade de encontrar a sala de aula do professor (aqui é o contrário daí, onde o professor encontra a sala de aula do aluno). Uma semana depois, entretanto, um momento que jamais vou esquecer: jogávamos Ping-Pong, e uma bela hora antes de dar um saque, ele apoiou a raquete na mesa e disse: “Sabe, pai, acho que nós vamos ser felizes aqui!” Não preciso dizer que as lágrimas vieram-me aos olhos instantaneamente. Agora, está numa alegria só, é o melhor da classe  …. outro dia recebeu um 100 em Matemática com um tremendo AWESOME! de elogio. Nos dois primeiros períodos, ele entrou na lista dos “All A’s and 2 B’s”, os americanos valorizam muito os bons alunos e sempre preparam este ranking. Neste último, finalmente, vai entrar na lista dos “All A’s”. Só que eu acho que está bem pouco puxado ele estuda muito pouco em casa. Quem sabe quando terminar o ano (em junho) damos uma apertada! Dentre as matérias eletivas que ele escolheu, é o violino que mais lhe está agradando.  Veja bem, ele está aprendendo violino na escola!!! Só nos isteites, mesmo! Pode ser que lhe seja muito útil em sua vida!!!

Como você deve saber, consegui fazer meus filhos gostarem de algumas das coisas que gosto: Beatles, James Bond, Star Trek, Titãs e…  música… principalmente. Logo que assentamos o facho, fomos adqüirir o presente de Natal antecipado: guitarras! Felipe tem uma Fender Cyclone, Made in Mexico e Renata, uma Fender Squier Strat, crafted in China. Cada um com seu amplificador. Não tinha sentido sair gastando fortunas com Gibsons. Se eles realmente evoluírem, quando voltarmos, pensamos no assunto. Os dois estavam tendo aulas de guitarra. O Felipe é bem mais dedicado e acho que vai longe. Já Renata tem facilidade para música (qualquer instrumento!), mas uma preguiça descomunal. Aliás, já saiu até da aula e toca de vez em quando em casa. Também, agora ela está muito sobrecarregada de matérias.

Um pouco tempo depois compramos um belo teclado Yamaha (que eles aqui falam Yamahááá) para todos os tecladistas da família: Neusa, minha sogra, Felipe, de vez em quando Renata (com sua facilidade) e eu com minha teoria dos acordes e nenhuma habilidade. Mais perto do Natal, compramos um violão eletro-acústico Yamahááá, meu presente de Natal. É só pena que eu não tenha tempo para colocar toda esta gente tocando junta. Com a volta da empregada ao Brasil, usamos o quarto dela como estúdio para esses instrumentos.

Era isto, por ora! Espero que não tenha se chateado com tanto papo.

Mais uma vez obrigado e um grande abraço

De Homero, Neusa, Renata, Felipe, D. Zulmira e Carlinhos

E .. conte sempre comigo!

Nós, no Family Room



quarta-feira, 13 de outubro de 2021

História de um Sorriso

Nos primeiros minutos deste 13 de outubro,
celebro os 68 anos de vida do responsável
pela parte mais importante da minha vida!
Mesmo sem sua presença física nos últimos 13 anos,
decerto ele está ainda nos abençoando com sua perene luz.
_________________________
-
TEXTO ORIGINAL DE MAIO DE 2007
EM OUTUBRO DE 2008, CARLINHOS MUDOU DE PLANO
EM JULHO DE 2016, DONA MIRA FOI SE ENCONTRAR COM ELE!!
___________________________

          Outro dia, chegou a minhas mãos uma reportagem sobre um rapaz que ‘corre’ o mundo divulgando sua luta, e que luta, já que nasceu sem os dois braços e sem as duas pernas. Sua peregrinação pelo otimismo é acompanhada por um constante e tocante sorriso.


          Presenciamos um sorriso como aquele todo dia lá em casa, em meu cunhado, com seus inacreditáveis 54 anos de idade. Seu nome, Antônio Carlos, mas só na certidão... pra todo mundo, Carlinhos, nosso querido!

            Seu nível de consciência é de uma criança de dois anos, mas é o suficiente para demonstrar seu estado de espírito. Está, na maior parte do tempo, com um sorriso no rosto. É sua melhor expressão. A fala é limitada: quando estimulado, profere alguns vocábulos que só nós entendemos, dissílabos, raramente tri. Agradece sempre que o ajudamos, faz carinho no cabelo da irmã e da sobrinha, retribuindo o carinho que elas constantemente lhe dão. Conhece a todos nós pelo nome. E também conhece alguns parentes e amigos que deram atenção a ele, ao longo de sua pacata vida. Outro dia, recebemos a visita de três senhoras, uma tia e duas amigas, que ele não via há 15 anos, e ele lembrou-se perfeitamente delas. Não reclama de nada: quando fica sério, sabemos que não está bem, alguma dor o perturba, mas não sabemos onde. Damos aquela medicação tipo medicina familiar, ele volta ao normal e nem sabemos como. Vive naquele mundinho que só ele entende. Não presta atenção em TV, mas acompanha com a cabeça as pessoas que passam à sua frente. Também capta as presenças do outro mundo, notamos pelo seu movimento de defesa, por vezes. Sua única distração é uma bola amarela que ele passa de uma mão à outra em movimentos ritmados, repetitivos: bola na mão direita, bate na barriga, coça o dedo duas vezes, passa para a mão esquerda, bate duas vezes a bola na barriga, coça uma vez o dedo, passa a bola para a mão direita, todo o dia, a vida toda. De vez em quando, muda a série, numa lógica que só ele entende. 
           Quando não está segurando a bola, está segurando o vidro em que urina; fosse outro, jogava o vidro longe .... um santo. Não fosse esta 'educação', minha sogra estaria ainda mais piradinha do que já está. Ele costuma avisar quando vem a vontade (ele mexe lá), porém não é sempre que alguém está olhando para ele, de forma a poder perceber o aviso. De tão cansada de fazer estágio segurando o vidro e esperando a natureza ajudar, minha sogra acabou por conseguir ensiná-lo a segurar o recipiente. É muito chato quando escapa e ele faz suas necessidades no chão, tem que levar pra cama, trocar tudo, lavar ele todo, enfim, não sei como ela agüenta, no alto de seus 84 anos. Acontece, em média, uma vez por dia, apesar de todo o cuidado. Isso sem contar as ocasiões mais, como direi, mal cheirosas: apesar de os pais terem conseguido regular seu intestino e ele só defecar durante a manhã, já sentado ao vaso, e quando estimulado por laxante, de vez em quando escapa e aí, já viu, né?! Felizmente, essas ocasiões são mais raras. A vida dela tem sido essa missão resignada, de fazer tudo por um menino que não consegue fazer nada por si só, banhar-se, alimentar-se. Por muito menos, e já há algumas décadas, outros o teriam deixado aos cuidados de casas especializadas. Bem, fosse assim, e certamente ele não teria chegado à idade que está. Ele chegou até aqui à guisa de muito amor, dedicação, carinho.
        Ele vive aquela vidinha, todo dia, a mesma coisa: da cama para a cadeira de banho, da cadeira de banho para a cama, da cama para a cadeira de rodas, onde passa o tempo em que está acordado, depois, de volta para a cama, sempre com a ajuda do nosso inseparável e fundamental companheiro, o levantador de doentes, em inglês, patient lifter.  Trata-se de um macaco hidráulico bonito, todo cromado, que, em conjunto com alguns assessórios (ganchos e cestas), torna possível a movimentação de incapazes. Graças a ele, pessoas como minha sogra, esposa, filhos e empregadas podem mover um ser inerte de 65 quilos pra lá e pra cá e seguirem suas vidas adiante sem sérios problemas de coluna. Nunca me esqueço que meu sogro sempre fez aquele esforço sozinho, anos a fio, no muque, como diziam, por absoluta ignorância nossa, não sabíamos da existência daquela fenomenal ferramenta. Quis o destino que, na mesma época de sua morte, passou também para o andar de cima o sogro de meu irmão, de quase 90 anos, também imóvel. Caiu a ficha em meu irmão que, em seguida, apresentou-nos à oitava maravilha do mundo, e nós a adquirimos, de imediato. Claro que minha sogra, ainda fragilizada pelo momento de perda, rejeitou o aparelho, dizia que não aprenderia a mexer naquela geringonça, enfim. Hoje, todas as noites, antes de se deitar, dá um beijinho no monstrengo, que viabilizou sua vida (e a nossa) desde a partida de seu companheiro de missão, em 1992. Ela passava então a depender única e exclusivamente de sua única filha.
         Uma situação que ela sempre rezou para que não acontecesse. Não passava pela cabeça dela atrapalhar a vida da filha com aquela configuração familiar de dedicação e sacrifício. Qual nada, depois do desenlace, lá se vão 15 anos, trouxemos os sobreviventes para o Rio e foi tudo sempre muito tranqüilo. Colocamos mãe e irmão em um apartamento no mesmo prédio em que morávamos, após uma pequena reforma no banheiro, de maneira que seguiam suas vidinhas, separados, mas muito próximos. Sempre estávamos juntos, porém, vivíamos sob diferentes tetos. Ela se sentia com uma certa liberdade, comandava sua casa, tinha sua empregada para ajudar e, claro, o criado cromado, mudo e sempre eficiente. Ele só requeria uma manutenção periódica e uma troca de óleo pelo pagamento de seus serviços. Fomos todos ajudados, também, pela excelente saúde de meu cunhado. No máximo, umas crises de gritos, muito poucas e em bem menor freqüência que antes, em sua terra natal. Tudo controlado por uma medicação de fundo, anti-convulsiva, que ele vem tomando desde criança. Seu sorriso sempre estava presente, um sorriso de agradecimento, parece. Claro que estavam os dois amparados por um plano de saúde, ainda bem que nunca precisamos utilizá-lo para o meu cunhado. A única vez em que o fizemos foi para a realização de exames ambulatoriais, que realizamos (resultados normalíssimos, saúde de ferro) à época da grande movimentação de nossas vidas: a mudança para outro país, a terra americana. 
         Eu sempre desejara uma missão permanente no exterior, a empresa em que trabalho oferecia esta possibilidade, porém eu nunca procurara mostrar interesse, devido à minha peculiar situação familiar, com uma configuração que comprometia. Tanto tinha certeza da impossibilidade que, quando recebi o não solicitado e muito inesperado convite, alertei meu diretor de que as chances eram bastante remotas, devido àquela situação. Surpresa absoluta, quando cheguei em casa e falei à minha esposa sobre a oportunidade, ela, que sempre recusara a hipótese de sair do Brasil por causa daquilo tudo, pensou 2 minutos e disse: Vamos nessa! Naquele curto intervalo de tempo, ela vislumbrou uma excelente oportunidade de dar à mãe e ao irmão uma atenção exclusiva, tempo integral, coisa que ela não podia fazer aqui, devido ao trabalho. Além, é claro, dos benefícios para nossos filhos e minha carreira. Os três meses seguintes, de preparação, até a partida, entretanto, foram de batalha inglória de tentar convencer minha sogra de que aquela decisão não era uma loucura. Ela chegou a sugerir que fôssemos, que os deixássemos aqui, amparados, que eles ficaria numa boa! Só nos faltava essa, nunca nos passou pela cabeça a idéia de viver longe deles. O maior temor da velha senhora, além da natural resistência a mudança, compreensível naquelas situação e idade, era a viagem, em si: o menino não vai agüentar, ele vai ficar nervoso, vai se sujar todo, vai ter crises, vai gritar, vai incomodar todo mundo, enfim, tudo o que de ruim poderia acontecer, era líqüido e certo de que aconteceria, em seu raciocínio, fragilizado naquele momento de incerteza. Na verdade, eu dizia que não se peocupasse, que tudo daria certo, mas, lá no fundo, eu estava bem preocupado, sem transparecer, com aquele que viria a ser o dia mais tenso de minha vida.
         Fomos acompanhados por uma pequena comitiva de amigos, na partida. Felizmente, os temores de minha sogra não se confirmaram, como todos sempre lhe diziam. Ainda não havia o vôo direto, sem troca de aeronave, o que facilitaria muito nossa vida. Teríamos que desembarcar em uma escala, esperar por mais de 3 horas, caminhar um bom pedaço para trocar de terminal, e somente então embarcar para o destino final em outra companhia aérea. Deu tudo certo na viagem, fora o trabalho normal, que já esperávamos, meu cunhado ficou ótimo o tempo todo, quase 24 horas, de casa a casa. O tempo de espera na escala foi  bastante movimentado,  começando com a retirada de nossos 14 volumes, incluindo cadeira de rodas e o inseparável patient lifter, além de, nas mãos, outros 10 volumes. Éramos 7 (levamos uma empregada, que não durou muito conosco), foi uma verdadeira invasão! Aconselhados de que era arriscado fazer o despacho normal, automático, de bagagem para o outro terminal, dado o indecente volume, fomos a pé mesmo, carregando tudo para o outro terminal. Contratamos um negão enorme, que conseguiu colocar aquilo tudo empilhado num carrinho só e lá fomos nós por aqueles terminais afora… às vezes, caía uma mala lá de cima … parecíamos a Família Buscapé! Novo embarque, movimentação de meu cunhado da cadeira para a poltrona, no muque, e finalmente, a última perna do vôo. Na chegada ao destino final, uma outra comitiva nos esperava, e com tanta gente pegando mala, acabamos por levar também a mala de outra pessoa que estava lá perdida na esteira. Felizmente tudo acabou se resolvendo. Começava uma vida nova para todos
         Nossa vida americana foi um período especial, no aspecto familiar. Num sobrado grande, instalamos os mais velhos no piso inferior. Não sem antes, claro, de uma reforma básica, feita antes da triunfal chegada, por conta das necessidades de meu cunhado: numa terra sem ralos no banheiro, era impossível banhá-lo sentado ao vaso, como sempre se fazia. Removemos a banheira, transformando-a num box, onde ele foi banhado diariamente sobre uma cadeira de banho. Era a primeira vez em que estávamos todos sob um mesmo teto. Minha sogra sentiu-se mais amparada, recebíamos visitas de outras famílias brasileiras. Ela sentiu-se mais paparicada. E dava para perceber a felicidade de meu cunhado, seu sorriso era mais freqüente, seu olhar mais agradecido, gostava do movimento de entra e sai das crianças, era mais gente lhe dando atenção. Chegou a aprender os nomes de amigas de minha esposa que lhe davam atenção especial. Com muito esforço, ensinamos também que ele estava nos Estados Unidos. Perguntávamos se ele queria voltar para o Rio, ele dizia: “Não”; aonde ele queria ficar? ele dizia: “Aqui”; aonde?, ele respondia: “i-idos”, (tentamos acrescentar o nome do país em que estávamos a seu pequeno vocabulário particular e era assim que ele traduzia). Durante o nosso período americano, ele não teve sequer uma crise, com gritos, daquelas que usualmente tinha no Brasil. Foram quatro anos bem aproveitados. A volta ao Brasil foi bem mais tranqüila, já que não houve troca de aeronaves, ou seja, menos necessidade do muque! Aqui, de volta à terrinha, permanecemos na configuração de antes, juntos, mas separados por 2 andares, mas sentíamos que minha sogra tinha saudades da época em que estivemos todos juntos e, finalmente, agora estamos todos sob o mesmo teto. Meu cunhado continua bem e expressando seus desejos da mesma forma. Perguntamos se ele quer voltar para os Estados Unidos, ele diz: “Não”; aonde ele quer ficar?  ele diz: “Aqui”; aonde? ele responde: “ Rio”. É, na verdade, parece que ele quer mesmo é tranqüilidade, esse negócio de viajar de avião não é lá muito com ele. Do estágio americano, trouxemos um facilitador a mais, a cadeira de banho, que lá usávamos para banhá-lo no box: em um belo momento, caiu a ficha de que poderíamos continuar usando-a. Aqui, ela veste o vaso e o banhamos com a ducha. Economizamos duas utilizações do criado.
         Lembro-me que quando entrei na vida deles, lá se vão 30 anos, eles moravam num sobrado de uma rua tranqüila de bairro em Santos, e eu presenciava o esforço de meu sogro. A casa era antiga, não tinha um grande banheiro no piso inferior, todo o ‘serviço’ de higiene de meu cunhado era feito num pequeno banheiro, sem nenhum espaço para cadeira de rodas: não dava para ‘estacionar’ a cadeira de rodas ao lado do vaso. Meu sogro pegava meu cunhado no muque, fora do banheiro e o arrastava até o vaso. É bem verdade que, à época, ele pesava bem menos, uns 40 ou 45 kilos no máximo, mesmo assim um esforço e tanto. E ele nunca me deixou ajudá-lo: era a missão dele.  Na época, ele já estava aposentado há uns 11 ou 12 anos. Ele dormia num colchão, ao lado da cama do menino, na sala de jantar: naquela época, já estava impossível levá-lo aos quartos superiores. Antes da aposentadoria, quem cuidava do menino era a mãe, para possibilitar o trabalho do pai, que era doqueiro. Isso mesmo, cuidava da casa, da comida e do menino, de vez em quando auxiliada por uma empregada, nem sempre constante, sabemos. Levava-o a médicos, fisioterapeutas, fono-audiólogos, tudo fazia para tentar dar uma vida um pouco mais normal ao filho. Teve até um período em que ele ia a escola. A casa deles era o ponto focal da família, até mesmo da vizinhança. A dificuldade de locomoção de meu cunhado tornava natural a escolha. E minha sogra não deixava por menos, sempre recebia a todos, muito bem servidos. Nos domingos, eram sagradas as reuniões de família, quando as crianças brincavam, as mulheres conversavam e os homens jogavam sueca. Nunca houve um ano sem festa de aniversário das crianças, ou sem festa junina, ou sem a reunião de Natal, com Papai Noel distribuindo presentes, até mesmo para as crianças pobres que para lá acorriam. Eram os momentos de maior alegria de meu cunhado. Até uns 15 ou 16 anos de idade, meu cunhado conseguia até andar, apoiado num carrinho de madeira com rolemã, montado pelo avô, pai de meu sogro, que dedicou o final de sua vida ao garoto, até que a doença o impossibilitou. O outro avô também estimulava muito o menino. Tinha muita paciência e perseverança para tentar ensiná-lo a fazer um pouco mais por si só.  Com todas as limitações que tinha, meu cunhado conseguia até mesmo dar uma volta no quarteirão empurrando o carrinho, acompanhado pela irmã e amigas, ou quem pudesse, ia andando com suas perninhas atrofiadas e fazendo “Piiii”, como se fora um trem em movimento. E xingava os mendigos que passavam! Não por maldade, claro! É que ele, quando estava em casa, ficava olhando a rua, da varanda, com aquele movimento da cabeça pra lá e pra cá, chegava um mendigo pedindo um prato de comida, e parecia que meu cunhado dizia “não” com a cabeça, sem lhe dar atenção. O mendigo então o xingava de várias maneiras, sendo a mais freqüente: “Filho da P _ _ _!” Então, quando andava pela rua e via um maltrapilho, soltava o verbo: “P _ _ _”. E morria de rir! É assim que ele aprendia. Ele era badalado e festejado por toda a vizinhança. Interessante que, embora eu ainda não conhecesse a família naquela época, tenho na mente a imagem do Carlinhos andando, empurrando o carrinho, com aquele jeitinho trôpego. Talvez por ter passado de carro alguma vez por lá, o que é improvável, pois não havia muitos motivos para eu andar por aquelas bandas. Ou, sei lá, talvez minha mente tenha montado inconscientemente a imagem, devido à nossa proximidade e afinidade e aos relatos que ouvi. Talvez Freud explique! 

             Ele conseguia até mesmo se arrastar pela escada até seu quarto, então no andar superior. Contam-me que, no difícil caminho de subida, ele parava em frente a uma imagem de Santa Terezinha que fora pintada por sua mãe e pedia: “a-inha, andá!”, traduzindo, “Santa Terezinha, me faça andar!”. Infelizmente, seu desejo foi ficando cada vez mais difícil de ser atendido: apesar de sempre ter feito fisoterapia, especialmente para as pernas, ele foi crescendo, mais o tronco e os membros superiores do que as pernas, que continuavam atrofiadas, o esforço começou a ser cada vez maior até que um belo dia, parou de vez, e começou sua rotina cadeira-vaso-cama. O que não foi empecilho para seu pai deixar de cumprir, todo santo dia, ou melhor, toda santa noite, uma outra rotina, infalível: depois do jantar, colocava o garoto no fusquinha, e ele ia lá, agarrado à alça de segurança do painel, com seu “Piiii”, num passeio até a praia para visitar seus queridos tios e padrinhos e comer pipoca. Na volta, meu sogro sempre fazia questão de fazer o caminho maior para poder passar pelo único túnel da cidade e ouvir o filho gritar: “Úneu, Úneu!”. Pequenas alegrias de uma vida obstinada. Vida que foi muito modificada por minha chegada, já que tirei daquela casa o maior motivo de alegria da família, a filha tão querida, luz da vida deles, pai, mãe e irmão, sobre quem eram lançadas todas as expectativas, onde se depositavam todos os sonhos. Claro que o casamento da filha fazia parte dos sonhos da mãe, ela sabia que ela sairia de casa um dia. O problema é que eu não só a tirei de casa, mas sim, da cidade, levei-a para uma outra bem longe, a 500 quilômetros daquele peculiar recanto familiar. Senti, ao vê-los pelo espelho do carro, um pouco de remorso. Posso imaginar como foram aqueles primeiros tempos sem ela. Mas, assim é que a vida se configurava, fazer o quê? Fizemos muito para tentar diminuir o sofrimento deles: nossas viagens para fora do Rio sempre foram para visitá-los. Íamos todos os meses passar 2 ou mais dias com eles, conforme deixavam os compromissos (e feriados) de nossos empregos, estava fora de cogitação aproveitar, por exemplo, um feriado prolongado sem bater o ponto em Santos; quando minha esposa tinha mais disponibilidade, ficava lá por mais tempo e eu ia todos os fins-de-semana, de ônibus. Enfim, fazíamos a nossa parte.

                    Em outras ocasiões, fazíamos o inverso: trazíamos todos para o Rio. Ia de carro sozinho num sábado e pegava a estrada de volta no domingo, com sogro, sogra, cunhado e cadeira a tiracolo. Numa dessas viagens, a minha freqüentemente alta velocidade fez com que fôssemos parados por um guarda rodoviário. Assim que eu lhe entreguei os documentos e estava prestes a começar minha ladainha de desculpas, nem foi preciso. Meu cunhado, que vinha a meu lado, começou a falar alto, gritar, berrar, como ele fazia às vezes, eu disse: “Ele é doente!” e o guarda, rapidinho, deu-me os documentos de volta e disse: “Pode ir, doutor!”. Até parece que meu cunhado captou o momento, e sua reação foi proposital pois, logo depois que partimos, pararam os gritos e seguimos viagem como se nada tivesse acontecido. E rindo muito da inteligência do menino-senhor de 33 anos. Meu sogro adorava aqueles períodos no Rio, era sua única oportunidade de sair daquela vidinha pacata e sofrida que tinham. Adorava ir à padaria, ao super-mercado, a pé, conversava com os porteiros, com os guardas de trânsito, simples que era, fez muitas amizades. Nunca ouvi daquela boca de meu sogro, em meus quinze anos de relacionamento, uma reclamação, um lamento, sempre estava alegre e brincalhão, mas sempre buscando forças na espiritualidade para entender e assumir a missão que lhe fora conferida. Espiritualidade que, contam, atuou decisivamente em três ocasiões, em que meu cunhado foi dado como desenganado, esteve a ponto de desencarnar, como dizemos. Muita oração, muito pedido, muita promessa, muita fé, fizeram com que ele continuasse neste plano, nesta visita, nesta encarnação. Seguramente, ainda não era a hora de dar como cumprida sua missão ou a de seus pais e irmã (ou mesmo a minha, que ainda nem estava na vida deles). Sábios são os desígnios do éter, que disseram: continue por aí, há muitos lições a aprender, muitos exemplos a dar, muitos pecados a expiar, quem pode saber? Assim deve ter sido também a decisão superior que não o deixou ser levado, quando tinha 11 meses de idade e foi acometido por uma encefalite. Não foi o suficiente para levá-lo, apenas para deixar as seqüelas com que convivemos até hoje. 

               E vivemos bem, não tenham dúvida! Temos sempre momentos a mais para festejar do que as outras famílias. Temos sempre uma criança em casa, embora já com alguns cabelos brancos, de quem podemos apreciar as façanhas. Como quando a sobrinha chega na frente dele e fica parada, esperando a sua reação, e ele responde com o gesto de ‘Barra Limpa’, coisa da época da Jovem Guarda, aquele sinal de positivo que o Roberto Carlos fazia, com o polegar para cima, é uma festa! Aliás, ele jamais se esquece da Vanderléa. Ou quando damos a ele a bola amarela, para ele poder fazer seus exercícios, olhamos fixamente para ele, como a pedir agradecimento, e ele diz: “Anato!”, isto é, “Obrigado”, é uma festa! Ou quando ele acorda e o colocamos na privada para seu estágio matinal e peguntamos: “Como é que se fala quando acorda?” e ele diz: “A-dia!”, isto é, “Bom dia”, é uma festa! Ou ainda quando a irmã chega e pergunta: ”Quem é o menino mais bonito do mundo?” e ele responde: “Cacaulo!”, que é como ele se refere a si mesmo, e depois “E quem é o Cacaulo?” e ele diz: ”Eeeeu!”, é uma festa! Ou ainda, claro, quando ele urina no vidro ou defeca no vaso, também é uma festa! Por outro lado, dias há, em que entra em seu pequeno mundo e fica mudo, impassível, sem reagir a qualquer estímulo. Sabe-se lá o que se passa em sua mente, que funciona em um estágio incompreensível para nós. Na primeira vez que aquilo aconteceu, durante nosso exílio americano, foi um baixo-astral tremendo, uma tristeza pela casa, pensamos que ele havia desligado,  tememos que nunca mais fôssemos ouvir sua voz. O silêncio durou quase uma semana, mas, felizmente, acabou, e ele voltou de sua catarse, como se nada tivesse acontecido, parece que foi fazer uma viagem astral para reciclar-se. Vez por outra, esses momentos de ausência total se repetem. E, felizmente, até hoje, houve retorno. E sempre agradecemos muito quando ele volta. Como disse, nos alimentamos com suas reações. A casa não é mesma sem aqueles pequenos momentos. Vez por outra, quando ele está bastante inspirado, fazem-no rezar a ‘Mamaria’, antes de deitar, virado para aquela mesma imagem de Santa Terezinha da subida da escada da antiga casa. É mais ou menos assim:

        
“Ave Maria, cheia de ..... “                       e ele:    “Assa”
“O Senhor é con ..... “                              e ele:    “Ôsso”
“Bendito é o fruto do vosso ventre ..... “    e ele:    “Esus”
“Santa Maria, Mãe de ..... “                       e ele:    “Deus”
“Rogai por nós, peca ..... “                        e ele:    “Ôres”
“Agora, e na hora de nossa  ..... “              e ele:    “Óti”
“A ..... “                                                  e ele:    “Mein” 

Depois, o deitam, colocam sua fralda noturna, o viram de lado, que é como ele gosta de pegar no sono, e falam:

          
“Agora, o Cacaulo vai sonhar com quem?”         e ele: “anjinhos!”

E ele fecha os olhos, ainda com o sorriso em seu rosto, ele sim, um verdadeiro anjo aqui na Terra. Até parece que ele está aqui para olhar pela gente.

         Vida longa ao seu sorriso!

-----------------------
Infelizmente, o sorriso se apagou um ano depois....
... um dia antes de completar 55 anos de idade.
Agora ele é um verdadeiro anjo, lá no céu.
Com toda a certeza, ainda olhando por nós!! 

Aqui, uma foto da família atual...

 

OUÇA e LEIA - A porta original da Apple volta ao seu lugar - by Cláudio Teran

É Cláudio Teran quem comanda a Beatles News!! Clique no Play Verdinho para ouvir View on Vocaroo >>   E leia a seguir! _______________...