18. I'll Get You (by John Lennon)
John se declara 'Eu penso em você noite e dia. Eu preciso de você e é verdade, quando penso em você, eu posso dizer que eu nunca, nunca, nunca, nunca fico triste. Então eu estou lhe dizendo, minha amiga, que eu vou conquistá-la, eu vou conquistá-la no final. Sim, eu vou conquistá-la, eu vou conquistá-la no final'
Quando veio a missão de fazer o próximo compacto após o lançamento do 1º LP, eles estavam numa parada em casa, em meio a mais uma excursão pela Inglaterra, quando ainda moravam em Liverpool. I'll Get You foi a primeira que veio à cabeça de John. Foi em sua casa em Menlove Avenue, onde morava com sua Tia Mimi, que ele e Paul a começaram e finalizaram em menos de três horas de trabalho. Foram dois versos, sendo o primeiro repetido após uma ponte, tradicional estrutura 'aaba', sem refrão. No Verso 1, ele começa incitando a imaginação da garota em como seria bom ela ficar com ele, "Imagine I'm in love with you..." e termina mostrando aquela confiança em seu taco, no magnífico "...Yes I will, I'll get you in the end. Oh Yeah Oh Yeah". O Verso 2 tem o mesmo final, confiante, mas antes ele abre seu coração, dizendo "I think about you night and day..." e que, com ela, ele jamais seria triste de novo. Finalmente a ponte, aquelas sensacionais três frases em acordes descendentes "Well, there's gonna be a time, when I'm gonna change your mind, so you might as well resign yourself to me, oh yeah", ele mostra a confiança de novo e aconselha que ela desista de resistir ao seu charme. A canção seria a Lado A do lançamento até que chegou a arrasa-quarteirões She Loves You.
Pausa para uma estrutura alternativa.
Eu vou aqui propor uma estrutura um pouco diferente, acho que ela é uma canção um pouco mais complexa. Eu enxergo, dentro de cada verso original, na verdade, um verso menor, uma sub-ponte e um refrão, veja se não. Minha estrutura alternativa seria 'abcabcdabc'. A sub-ponte (b) seria apenas a 5ª frase de cada verso original, que tem uma melodia diferente "It's not like me to pretend" e "So I'm telling you my friend" fazendo a ligação para a peça seguinte. E o resto de cada verso original, pra mim, seria um refrão (c), veja: "But (that) I'll get you, I'll get you in the end, yes I will, I'll get you in the end, oh yeah, oh yeah". Não tem uma tremenda cara de refrão? Ah, mas isso é só uma ilação deste analista. Somente para finalizar, nessa nova estrutura, o 'd' da estrutura alternativa seria a verdadeira ponte da estrutura original.
Fim da estrutura alternativa.
Seja qual fora a real estrutura, eu queria dar um destaque para a tal sup-ponte, como eu a defini, até mesmo porque o próprio Paul, que parece ter sido seu autor, pois fez propaganda do acorde menor que ele usa, no caso, o La Menor (Am) ali quando se ouve "to preTEND" e no "you my FRIEND", quando o usual seria um acorde maior, no caso, o La Maior (A). Além disso, no arranjo, ele estimula a que as guitarras pulsem firme em staccato, o que tem um efeito fantástico nos shows ao vivo, vejam, ou melhor, ouçam como as garotas recebem, histéricas, os começos daquelas duas frases, neste LINK, gravado em um programa de TV e felizmente recuperado e revelado oficialmente no Anthology 1.
Antes de passar à gravação, mais umas poucas considerações sobre a letra. Rimas que seriam ricas (não todas) em português, "day-say", "true-you-blue","pretend-end-friend", "time-mind"... ou seria "time-mine"? O porquê da interrogação? Note as duas primeiras frases da ponte. Para rimar com "be a time" da 1ª frase, a 2ª vem "change your mind", só que a ponte é toda cantada em harmonia tripla John-Paul-George, e um deles troca para "make you mine". Dado o cronograma apertado, eles não voltaram para corrigir o erro, que foi percebido ao menos por uma fã que escreveu à EMI, solicitando que corrigissem o erro, e recebeu de volta uma carta de desculpas. Interessante que o "mine or mind" rima internamente com o verbo da "resign" 3ª frase que, aliás, apresenta mais uma outra rima 'entre quatro paredes', perceba: "So you might as WELL resign YOURSELF to me, oh yeah". Eu acho essas coisas geniais! Para completar esse papo de letras, eu dou destaque a uma rima métrica, se é que posso chamar assim, entre a 4ª frase do Verso 1 com a 4ª frase do Verso 2. Uma diz "many, many, many times before" a outra "I'm never, never, never, never blue", ambas a mesma palavra, três ou quatro vezes. Eu acho essas coisas geniais! (acho que já disse isso...).
Bem, pensando bem, foi bom evoluir um pouco no assunto 'letra' porque no assunto 'gravação' temos pouco a falar. Ela foi gravada no mesmo dia que She Loves You, e já sabemos que não há registro sobre os detalhes da gravação naquele dia, parece que baixou um buraco negro naquele 1º de julho em Abbey Road. Sabe-se apenas que ela foi gravada na sessão noturna, após uma tarde dedicada ao Lado A do compacto. Sabe-se que foram duas horas de tentativas, Sabe-se que ela era conhecida como Get You In The End. Sabe-se do vocal principal de John e das harmonias perfeitas, primeiro de Paul em pontos selecionados dos versos, e de Paul e George na ponte, com certeza com o dedo mágico de George Martin os orientando. Sabe-se, porque se ouve, que John gravou a gaita que acompanha os versos (não a ponte) posteriormente (porque seria impossível cantar e tocar gaita ao mesmo tempo), mas não se tem noção se foi no mesmo dia ou em outro dia. Mas não se sabe se houve evolução no arranjo ou se ela chegou já pronta. Tampouco se sabe quando as deliciosas palmas foram gravadas. Não se sabe dos erros, nem de brincadeiras, nem de falhas ao longo do processo, coisas que nós gostamos tanto de saber. Enfim... 
O compacto, tendo She Loves You como carro-chefe, foi lançado em 23 de agosto e fez tremendo sucesso, como falei, vendeu 1,3 milhão de cópias na Inglaterra, em 6 meses no Top 20 das paradas. Interessante é que nos EUA, ainda antes de a Beatlemania chegar lá, seu lançamento inicial foi um fracasso. Coisas dos americanos... Deixo aqui o LINK do YouTube com a gravação original, onde poderão apreciar a gaita de John, as palmas de todos, e notar os detalhes de letras e acordes que ressaltei no texto!
ENJOY
Como dito aqui em cima, o compacto vendeu inéditas 1,3 milhão de cópias, feito só desbancado 14 anos depois com Mull of Kintire, da carreira solo de Paul!!
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Transcorria, à época deste último lançamento, em 23 de agosto, a excursão de verão, sobre a qual já falamos, e que iria até 15 de setembro. Destaques de rádio e TV adicionais desse período final dessa excursão sob o sol foram,
i. a filmagem do documentário The Mersey Sound, da BBC TV, do qual participaram, sob a luz do Sol de Southport, na costa oeste da Inglaterra, de 27 a 30 de agosto, enquanto brilhavam em shows noturnos, e
ii. mais uma participação no Saturday Club na Rábio BBC num sábado (claro!), 7 de setembro, onde, além de tocarem cinco canções, cantaram, os quatro, um Happy Birthday To You ao programa, uma gravação que usava sempre para saudar os aniversários dos amigos, ouçam aqui, neste LINK, prática que interrompi já há alguns anos, notarão pelas datas dos comentários de agradecimento...
Ah, sim, mais um destaque: em 10 de setembro, a menos de um mês de completarem um ano do lançamento de seu primeiro compacto, John e Paul representaram os Beatles num almoço no chiquérrimo Savoy Hotel, para receberem o prêmio de Melhor Grupo Vocal do Ano, do aguardadíssimo Variety Club Showbiz Awards, uma espécie de Oscar Britânico do Show Business, celebrando cinema, TV, teatro, música popular e clássica. Seria o primeiro de uma série...
Na época da estrada, tão certo como o outono segue o verão, terminada a excursão de verão, começaria a excursão de outono... Brian Epstein não lhes dava muito descanso! Mas antes, um merecido período de 12 dias de férias. George, ainda sem namorada, pegou o irmão Peter e foram visitar a irmã Louise em Illinois, Estados Unidos. Paul e Ringo foram com as respectivas namoradas Jane Asher e Maureen Cox para a Grécia. E John, finalmente levou Cynthia à lua de mel, em Paris, onde ficaram hospedados no George V Hotel, dos milionários, que os Beatles já eram! Cynthia contou que lá encontraram Astrid Kircherr, fotógrafa dos tempos de Hamburgo, agora viúva de Stuart Sutcliffe, por quem John devia ser caidinho, como se desconfiou em Baby's In Black, entendedores entenderão...
A excursão começou em outro país, mas ainda no Reino Unido, com 3 shows na Escócia, a partir de 5 de outubro, um deles em Kircaldy, o da duquesa de CryBaby Cry, entendedores entenderão. Depois de mais 4 shows na Inglaterra, viria uma temporada de 5 shows em 5 dias na Suécia, a primeira no exterior contratada na esteira de seu sucesso, cada vez mais arrebatador. Sim, houvera duas temporadas em Hamburgo, já como Beatles, mas mas tratavam-se de resquícios contratuais antigos.
Mas pera aí, antes de seguir com a excursão, volto àquele breve período na Inglaterra, mais especificamente a parada em Londres, pois um dos show aconteceu no celebradíssimo London Palladium. Não se pode deixar passar aquele domingo, 13 de outubro, em branco. Foi após aquele show, que foi transmitido para todo o Reino Unido pela Alpha TV (ATV), que a fama crescente, exponencial, dos Beatles, causou eventos inimagináveis de histeria coletiva, que chegou até a ameaçar a integridade física dos rapazes, um verdadeiro fenômeno, que acabou ganhando um nome, da imprensa Britânica.
Ele foi denominado Beatlemania
Os Beatles eram a principal atração da noite, e tocaram apenas quatro músicas, From Me To You, I'll Get You, She Loves You e Twist And Shout, mas ninguém falou delas, ou das outras bandas que tocaram no evento. Uma audiência de 15 milhões de pessoas viu ao vivo o fenômeno. O barulho era tanto que John mandou as garotas se calarem, para gáudio da audiência mais velha! Todos os jornais deram 1ª página ao evento, e noticiaram o frenesi incontrolável dos fãs, desde antes do show e seguiu durante e depois, quase que eles não conseguiram sair ilesos. A saída do Palladium foi complicada a ponto de Ringo ficar desorientado e entrar enganado no carro da polícia! E um dos jornais cunhou o termo, que traduziu perfeitamente o fenômeno. Aquela sisuda ilha britânica estava com Mania de Beatles. Logo, logo, seria o mundo todo...
Outra amostra do sucesso foi o famoso Royal Variety Performance Show, de 4 de novembro, tradicional show anual no Prince of Whales Theatre, em que a Realeza recebe os mais destacados nomes do Show Business, com gravação de TV (naquele ano era a BBC, que revezava com a ITV) para posterior transmissão ao vivo para toda a Inglaterra. Presentes a Rainha Mãe e a Princesa Margareth. Os Beatles eram a 7ª atração da noite, mas entraram dispostos a causar.
Terminada a 6ª atração, cortinas se fecham, um breve período passa, e então se ouve um som esperado, uma banda entoa acordes juntamente com vozes dizendo
Da-ra-rein Da-ra-rein Dein-Da
Da-ra-rein Da-ra-rein Dein-Da
If there's anything that you want
If there's anything I could do
e as cortinas se abrem e aparecem The Beatles
Just call on me and I'll send it along
With love from me to you
As cabeças da comportada plateia balançam, mas não mais que isso, pois o público era seleto, e não era a histeria que estavam acostumados a presenciar. Ao final da canção, eles quebram o protocolo, movendo os dois microfones para a frente do palco, colocando-os bem próximos ao povo que já dominavam, e cantam She Loves You, o sucesso Nº1 naquele momento, Yeah Yeah Yeah Yeaaaaah. Após o demorado aplauso, Paul faz uma piadinha dizendo ser Sophie Tucker seu grupo americano favorito e entoam uma canção ainda inédita, que sairia 17 dias depois no 2º LP, With The Beatles, a linda balada Till There Was You, para acalmar os corações, ao final da qual, John e Paul retornam os microfones aos locais originais, e John ajeita o seu, e diz, com um sorriso sarcástico:
For our last number I’d like to ask your help.
The people in the cheaper seats clap your hands.
And the rest of you, if you’d just rattle your jewellery.
We'd like to sing a song called ‘Twist And Shout’.
E olha para a banda e as guitarras
tchan tchan tchan tchan - tchan tchan tchan
tcha-ran-tchan-ran
tchan tchan tchan tchan - tchan tchan tchan
... e aparece a voz áspera de John berrando
'ousheikirolbeeibenau'
... e Paul e George respondendo, juntos no outro microfone
‘sheikirolbeeeibé'
... volta John com
‘tuistendshaaaut’
... e Paul/George com
‘tuistendshaut'
... e John completa
‘camoncamoncamoncamonbeibenaaau’
... e Ringo firme na bateria
... e por aí foi até o final, quando os quatro, sob aplausos desenfreados, fazem reverências à plateia e ao camarote real, e fecham-se as cortinas novamente, e não se falará de outra coisa nos jornais do dia seguinte senão do show dos Beatles e, especialmente, da crítica social de John, que podem conferir aqui, neste LINK.
E enquanto tudo aquilo acontecia em que interrompiam a excursão de shows pelo país (e até Europa) para as aparições de Rádio (4) e TV (5), eles voltavam aos estúdios da EMI para mais 6 sessões de gravação do novo LP, sendo 3 em setembro e outras 3 em outubro, além da sessão de julho durante o verão, gravando 8 canções autorais, sendo 7 novas e uma remanescente de Please Please Me, mais 6 covers de artistas americanos, repetindo os quantitativos do primeiro LP.
O LP With The Beatles foi lançado em 22 de novembro de 1963. Havendo já sido lançadas 16 canções (1 LP e 3 Compactos), a numeração começa em 19.
E vamos às canções! Encontrarão agora a análise das letra, das músicas, de suas estruturas, e de sua gravação!
19. It Won´t Be Long (Lennon/McCartney)
John anseia: "Toda noite, lágrimas escorrem pelo meu rosto. Todo dia eu não tenho feito nada além de chorar! Não vai demorar, yeah Não vai demorar, yeah Não vai demorar, yeah , para que eu seja seu"
Saudade no modo "Quero voltar pra ela". Essa quantidade toda de yeah's do refrão foi caso pensado de John. Ele estava animado com os yeah's de She Loves You (yeah yeah yeah), e queriam produzir mais um sucesso Nº1 com a mesma fórmula. Aproveitou para fazer de novo um jogo de palavras como fizera em Please Please Me, o outro N°1 anterior, juntando na mesma frase uma expressão verbal ("be-long") e um verbo ("belong") com significados diferentes ("demorar" e "pertencer")! Duas fórmulas de sucesso combinadas não podia dar errado.... mas deu! Quer dizer, não deu porque não houve um compacto com a canção! Sabe por quê? Porque eles apareceram com outra para o posto, fraquinha, chamada I Want To Hold Your Hand... Começava ali a política de lançarem canções inéditas sem colocá-las em LPs. Paul contribuiu com letras internas e com arranjos harmônicos, além dos vocais no duelo de yeah's, e com os backing vocals da ponte ("Since you left me, I'm so alone, now you're coming, you're coming on home)".
Uma ponte não existe sem versos, certo? Claro que eles estão lá, mas nesta canção, novidade, quem começa é o refrão, ou o coro, com o título da canção e aquele duelo sensacional de "yeah yeah yeah's" em que John se mostra otimista quanto ao retorno de seu amor. São três versos, bem curtos, de apenas sete compassos e cada um com letra diferente do outro, seguindo na política dos Beatles de composição. No 1º, John diz que está sozinho enquanto todo mundo se diverte, no 2º, segue em sua tristeza dizendo que não faz outra coisa senão chorar, mas depois que ele diz, na ponte, que ela voltou pra casa, no 3º Verso ele já está todo felizão e diz que nunca mais vão se separar, que lindo!
A canção foi a 1ª original a ser gravada para o LP With The Beatles na 2ª sessão de gravação para o efeito, em 30 de julho de 1963, um dia muito produtivo, em que trabalharam em outras cinco canções do LP. Foram 10 takes pela manhã, que foram desconsiderados, e de noite, outros sete foram executados, com todos em seus instrumentos usuais, e com John e Paul entregando seus perfeitos vocais, e finalmente mais seis vezes apenas com George tentando acertar os floreios descendentes em sua guitarra, após cada frase dos versos. O que se ouve até hoje é o Take 17 com os floreios do Take 21, mas então já com o vocal dobrado de John, o popular double tracking, procedimento usado aqui pela primeira vez.
A canção não saiu em compacto, mas sua força em ritmo a levou ao posto de abrir o LP, que foi lançado em 4 de dezembro de 1963. Apesar disso, os Beatles nunca a tocaram ao vivo, apenas em uma dublagem para o Ready Steady Go, na TV inglesa. Deixo aqui então, o original, neste LINK. Note como terminam a canção com John em falsete em tripla harmonia com Paul e George, no "Yoooou", em acorde dissonante, como haviam acabado de fazer, em "She loves you yeah yeah yeah yeeaah
20. All I´ve Got to Do (Lennon/McCartney)
John declara: "E quando e-e-e-u, eu quiser te beijar, tudo que tenho que fazer é sussurrar em seu ouvido as palavras que você quer ouvir e eu estarei te beijando!
Imaginem a seguinte cena. Era 11 de setembro, a terceira sessão de gravação do álbum, John chega ao estúdio da Abbey Road e diz parra Paul, George e Ringo: "Camaradas, tenho esta canção aqui, que vocês nunca ouviram, e ela vai servir para encher o nosso álbum!" E, 15 takes depois, ela está pronta, com apenas um overdub da guitarra de George, e mais nada. Assim foi essa canção, a qual os Beatles se dedicaram, pela primeira e ÚLTIMA vez! Nunca a tocaram em nenhum show, foi pouquíssimo tocada em rádios, se é que foi, nunca lhe deram a menor atenção! E mesmo sendo uma album filler, é uma ótima canção, que nós adoramos! Era John inspirado em Smokey Robinson na melodia, e com letra mais dedicada ao público americano, pois falava em chamar a garota ao telefone, coisa que nunca fez parte da sua juventude, um recurso que ele viria a usar de novo em No Reply, um ano depois.
O papo do telefone vem logo no 1º verso, John diz que sempre que quer ter a garota a seu lado, tudo o que tem a fazer é ligar!! No Verso 2, vem aquele papo de sussurrar as palavras certas no ouvido dela. Em ambos os versos, Paul faz harmonia vocal aguda no título da canção "All I've gotta do-oooo". Ali também note-se uma interessante mudança de ritmo, começando com uma batida sincopada, e passando ao rock balada, na 2ª parte, valeu, Ringo! Aí, vem o refrão, aumenta o clima, John diz que o mesmo vale pra ela, que sempre quiser, é só ligar, com a companhia de Paul e George em ótimas harmonias "aaaaaah, you've just gotta call on me". No verso final, que não e o final (veremos!), há um mix entre os dizeres dos Versos 1 e 2, e então repete-se o ótimo refrão, e finalmente (aqui, a explicação do 'veremos!'), a conclusão é com a melodia dos versos, mas apenas murmurada, sem letra, desaparecendo no horizonte, em fade-out. Charmoso! Ouça-a aqui, neste LINK.
21. All My Loving (Lennon/McCartney)
Paul promete: "E enquanto eu estiver fora, escreverei para casa todo dia e mandarei todo meu amor pra você. Todo meu amor, eu mandarei pra você. Todo meu amor, querida, eu serei verdadeiro"
Promessa de cartas diárias a seu amor, Jane Asher, enquanto estiver fora. Era maio de 1963, e ele estava começando um relacionamento com a atriz que conhecera um mês antes, nos camarins do show dos Beatles no Albert Hall! Foi a primeira vez que Paul escreveu primeiro a letra, depois encaixou a melodia. Ponto altíssimo do disco! A estrutura da canção difere um pouco da que vinha utilizando, um refrão após dois versos, depois mais um refrão e uma ponte apenas solada, sem letra, com estrutura de acordes diferente dos versos. Depois, repete-se o Verso 1, e finaliza com um refrão modificado.
A gravação foi feita num ocupadíssimo 30 de julho de 1963, em que trabalharam em outras cinco canções do LP With The Beatles. Era a 2ª sessão para o 2º álbum da banda! Ela finalizou o dia, já de noite, e foram 11 takes, com a já famosa combinação John-Paul-George-Ringo com base-baixo-solo-bateria. E Paul cantou ao vivo em todos eles seu vocal principal. Os Takes 12 a 14 foram para Paul dobrar seu vocal nos Versos 1 e 2, e para harmonizar consigo mesmo no Verso 3. Nos shows, naturalmente seria John quem faria a segunda voz, mas não seria possível pois ele estava muitíssimo concentrado em sua es-pe-ta-cu-lar guitarra base em triplets, aquele tarara-tarara-tarara-tarara contínuo e sonoríssimo! Então, era George quem fazia esse papel, muito bem. Aliás, ele fazia o vocal principal e Paul entrava com a terça. Isso é que era uma banda. John faz um vocal de apoio, junto com George, mas apenas no refrão, em U-u-u-u-s!!!! George faz um solo de guitarra inesquecível na ponte, e Ringo sempre espanando sua bateria, como ninguém! Até deixo aqui este LINK, para poderem apreciar tudo o que foi mencionado (ver foto abaixo)!
A canção foi tocada durante todo o ano de 1964, com grande sucesso, inclusive foi escolhida para abrir, e dar o tom da primeira aparição no Ed Sullivan Show, em 9 de fevereiro de 1964, a "Noite Que Mudou A América"! John sempre considerou esta canção como uma obra-prima de Paul!
Deixo também aqui um momento muito importante em minha vida: quando ouvi All My Loving ao vivo, pela primeira vez, claro, não com os Beatles, mas com Paul McCartney. Era 2002, eu estava em Houston, e fui ver um show dele no Compaq Center, uma parada de sua Back In The US Tour. Felizmente, existe um vídeo dessa performance, em meio a imagens das reações da plateia... Quer saber como eu me sentia? Note a imagem de um sujeito de cavanhaque, totalmente emocionado, com lágrimas nos olhos.... era assim que eu estava! Neste LINK.
Para finalizar mesmo, não posso deixar de registrar como a ouvimos aqui no Brasil, em versão de Renato Barros (e seus Blue Caps), chamada Feche Os Olhos. Esqueça as particularidades do BlueCap Translator e curta muito como eram aqueles tempos por aqui. Neste LINK.
22. Don´t Bother Me (George Harrison)
George lamenta: " Desde que ela se foi, eu não quero ninguém pra conversar comigo. Não é a mesma coisa mas eu sou responsável, é fácil de ver. Então vá embora, me deixe sozinho, não me amole"
Primeira canção de George nos Beatles. E veio no modo GGG, Greta Garbo George, "I want to be alone!" Era uma canção de Saudade, na classe Tristeza, uma das poucas que escapavam àquele estilo 'happy-go-lucky', de garotos felizes e apaixonados daquele início de carreira. Ela foi feita durante uma turnê em Bournemouth, em que ele mais ficou na cama por estar doente (foto), só saía de lá pra tocar, nos 6 shows. Ele passou esse climão pra letra. E mesmo sendo sua primeira, já usou o padrão Beatle de composição: fazer mais de um verso com letras diferentes. Aqui foram logo três. No 1º, ele quer ficar só e admite a culpa por seu estado. No 2º Verso, ele não pode crer que está só, que não é justo, e tal, mas quer continuar só. Então vem a ponte, com melodia diferente, onde declara que não será mais o mesmo, e que aquela garota é a certa pra ele. No Verso 3, ele confirma seu desejo: não quer ver ninguém até que ela volte! Então vem um verso quase todo instrumental, com a guitarra do autor e a finalização repetindo a repulsa final do Verso 2. Depois, mais uma ponte, igual, e a finalização com um "Não me amole!" do titulo da canção repetido várias vezes em fade out.
A 1ª tentativa para a 1ª canção de George foi feita na 3ª sessão de gravação para o 2º LP dos Beatles teve 4 takes em 11 de setembro de 1963, apenas os 4 Beatles tocando seus 4 instrumentos usuais, mas tantos números ordinais e cardinais não serviram pra nada! Minto! John estava em sua guitarra base, sim, mas introduziu um toque diferente, um trêmulo, constituindo-se na 1ª vez em que um equipamento eletrônico foi usado na carreira dos Beatles! Decidiram começar do zero, mas numeraram a 1ª tentativa como Take 10, sabe-se lá por quê. E ela foi quase perfeita, já com vocal e solo de George, mas decidiram colocar aquela parada (Beatles break) logo após a introdução. Mais 3 Takes e o Take 14, que na verdade era o 9º, ah, chega de números, foi a base para overdubs. George dobrou seu vocal, com umas poucas falhas, afinal era a 1ª vez que fazia, e aí resolveram abrir a sala de instrumentos de percussão da EMI: Paul pegou duas claves e Ringo, um bongô árabe. Os Takes 15 a 19 foram executados, sendo o primeiro deles considerado final!
Por incrível que possa parecer, Don't Bother Me nunca mais foi tocada pelos Beatles, e nem por George em sua carreira solo, e nem por seus amigos no concerto de despedida, um ano depois de sua morte! Felizmente, ela acabou entrando para a posteridade, pois aparece no filme A Hard Day's Night no ano seguinte ao seu lançamento, mas apenas como música incidental, é uma das que toca enquanto os Beatles dançam, é a 2ª, neste LINK.
23. Little Child (Lennon/McCartney)
John propõe: "Se você quer alguém que te faça feliz, então nos divertiremos quando você for minha. Então vamos lá"
A canção era considerada como mais uma canção de trabalho, apenas um album filler, mais de John que de Paul, para Ringo cantar, mas ele não se sentiu bem cantando a letra "I'm so sad and lonely", ele gostava de entrar no clima da canção, e ele não estava nem triste nem solitário. Foi John, então, que levou o vocal principal dessa canção de paquera simples e direta, até um pouco direta demais com algum apelo sexual. Instrumentos usuais mais um piano de Paul e uma gaita de John! Outra que também não viu a luz do sol de uma apresentação ao vivo! Pra um breve resumo, estaria bom, né? Mas a canção merece um pouco mais de detalhe!
"Paquera um pouco direta demais com algum apelo sexual"? Talvez sim, talvez não, mas leva jeito, pois "I'll make you feel so fine" e o "have some fun" e o "Come on Come on Come on!" trazem essa conotação, e o "Little child" sempre lembra a menor idade da moça, e tal, meio perigoso isso... Aqui, os versos não variam de letra, são sempre como na imagem ao lado, delicioso, que é repetido três vezes, entremeados dor duas pontes, aí sim, com letras diferentes, e mais um solo instrumental, com uma estrutura de acordes diferente tanto dos versos como das pontes! Riqueza considerável! Mas aí já invadi o campo do próximo parágrafo.
Ali em cima, no resumo, eu falei muito sem cerimônia "mais um piano de Paul mais uma gaita de John"... Nããão! Tinha que ter sido mais enfático, porque foi um MAGNÍFICO piano de Paul, pela primeira vez assumindo o instrumento, que o maestro Martin havia tocado em outras canções, e uma ESPETACULAR gaita de John, que perpassa TODA a canção, em todos os versos e pontes. Mas antes vamos à base. Ela foi gravada primeiro em dois takes no dia 11 de setembro, e mais cinco no dia seguinte, quando então passaram aos overdubs. A gaita de John levou outros seis takes para se chegar àquela sensação, começando pela introdução solo de quatro compassos, as respostas nos versos, o acompanhamento nas pontes, a seção solo em 12 compassos, tudo perfeito. Paul acertou tudo em duas vezes, e tão bem, que foi colocado alto na mixagem e quase não se ouve o próprio baixo de Paul. Fizeram a conta, né, estamos no Take 15. Eles se juntam de novo para mais três performances, com John tocando sua gaita na seção solo, que ficou tão estupenda na 3ª vez, que foi escolhida para ser colocada por sobre aquele Take 15 do piano de Paul, e essa combinação é o que ouvimos na versão final, operação feita no dia 30. John e Paul ainda retornaram três dias depois para acertarem seus vocais, John dobrando o dele no principal e Paul agregando a linda harmonia em "I'm so sad and lonely". Mesmo tão especial, Little Child nunca viu a luz do sol de um palco, não foi nem tentada na BBC. Então, não tenho outro jeito senão deixar aqui o LINK original.
24. Till There Was You (by Meredith Wilson )
A canção foi composta para o musical da Broadway 'The Music Man' do final da década anterior. Gravada por muitos, inclusive nossas conhecidas Shirley Jones e Peggy Lee, sendo a versão desta última a base utilizada por Paul para sua performance. A importância dela na carreira dos Beatles, poucos sabem, é transcendental. Brian Epstein a selecionou para o teste na gravadora Decca, para mostrar a versatilidade dos rapazes. Após serem recusados pelo gênio de plantão, Brian levou a fita daquela sessão para outras gravadoras, inclusive a EMI, onde um tal de George Martin mostrou interesse especial justamente por ela. Não foi à toa que resolveram oficializá-la no catálogo Beatle, com sua gravação para o 2º LP. E foi logo no 1º dia de gravação para o efeito, no dia 18 de julho de 1963, ali realizando três takes, ainda com Ringo em sua bateria! Já nos cinco takes seguintes, no dia 30, George Martin usou sua prerrogativa de produtor e entregou dois atabaques para Ringo tocar, deixando de lado a bateria naquela canção. Todos tocaram ao vivo, Paul cantou ao vivo e nada mais foi necessário,. A canção estava pronta! E foi a primeira cover a aparecer no LP! Destaque merecido!
Era uma balada romântica que Paul fazia questão de cantar para mostrar a versatilidade do grupo. Ela fez parte de shows importantes dos Beatles, como a apresentação para a realeza britânica no final de 1963, e o que fizeram no programa de Ed Sullivan, quando conquistaram a América no início de 1964, nas duas ocasiões fazendo questão de apresentar a canção como da trilha do citado musical, que foi sucesso nos dois países! Ah... esse Paul, sempre antenado! O vídeo que deixo aqui, neste LINK, foi o do show real, vejam que gracinha o vocal de Paul, o magnífico solo de guitarra de George e notem ao fundo, o hi hat (chimbal) da bateria de Ringo. Vale lembrar também de uma versão brasileira, de Beto Guedes da canção, que fez muito sucesso aqui (LINK)
25. Please Mr. Postman (by Dobbins, Garrett, Gorman, Holland, Bateman )
A canção já era um sucesso mundial e ganhou uma versão espetacular dos Beatles. Os quatro autores aí de cima a fizeram para um grupo vocal feminino, uma referência para os Beatles, The Marvelettes! Tudo foi gravado na 2ª sessão de With The Beatles. Foram apenas sete takes, todos tocando e cantando ao vivo, sendo que só nos finais foi adotada aquela sensacional parada no final somente acompanhada por palmas, que vieram em mais dois takes, de overdubs posteriores, juntamente com o vocal dobrado de John.
Aliás, John apresentou um vigoroso vocal principal, que implorava ao carteiro por uma carta de seu amor. Paul e George capricharam na harmonia vocal, tanto no contracanto perfeito nos refrões, que imploram ao carteiro, como nos u-u-u-u's acompanhando John nos versos, que contam a história. Destaque para os magníficos handclaps (palmas), na introdução, enquanto chama o carteiro, e nas paradas das cordas do fim da gravação, tão singelas que resolvi colocar aqui este LINK para as pessoas se deliciarem numa apresentação ao vivo, em que dublaram a gravação de estúdio! Imperdível! Vale o destaque de que a canção teve a letra modificada para a perspectiva masculina, e teve inúmeras versões cover, uma delas que ouvi muito, dos Carpenters, 10 anos depois.
26. Roll Over Beethoven (by Chuck Berry)
Uma favorita de John, Paul e George, feita pelo compositor americano guindado por John ao posto de Rei do Rock & Roll. Era um dos compactos que chegaram às docas de Liverpool antes do resto da Europa, e que os três tiraram em suas guitarras, desde 1956, e que eles tocavam sempre, e continuaram a tocar até as turnês de 1964 pelos EUA. Foi George quem deu vocal a esse hino, direcionado ao compositor clássico Beethoven (e Tchaikovski e outros), dizendo pra ele se revirar no túmulo porque o Rock chegou! Aliás, foi uma de três faixas de With The Beatles que têm George como Lead Singer, sendo uma delas sua primeira autoral.
O clássico de Chuck Berry foi gravado rapidamente, primeiramente ao vivo, em cinco takes, com todos tocando, e George cantando ao vivo, na 2ª sessão de gravação para o álbum, em 30 de julho de 1963, depois, mais dois takes de overdubs, para melhoras na guitarra e no vocal de George, e um final de mixagem, entre melhores momentos de takes anteriores, total de 8!!! Veja como George era inspirado ao cantar Chuck Berry e realizar excelente solos em sua guitarra, seguro... neste LINK.
27. Hold Me Tight (Lennon/McCartney)
Paul pede à garota: "Sinta agora, segure-me forte, diga-me que sou o único e então eu poderia nunca estar sozinho. Então, segure-me forte esta noite (esta noite), é você você, você, você, oo"
Olha, prestando atenção mais na letra dessa canção que eu ADORO, poderia muito bem tê-la classificado como Sex Song, "making love" e "alone tonight with you", humm, decerto era, e só não teve problemas com a censura porque não foi muito tocada nas rádios. Hold Me Tight era pra sair no primeiro LP, Please Please Me! Ela foi gravada naquela sessão histórica em que gravaram e finalizaram 10 canções em um só dia, o já famoso 11 de fevereiro de 1963. Pois é, foram 11! Entretanto, apesar de finalizada, considerada pronta após 13 takes, ela foi considerada mais fraca, e deixada de lado. Na imagem, encontrei a Recording Sheet da prova de que Hold Me Tight foi gravada no mesmo dia que outras canções do 1º LP dos Beatles. Oito meses depois, na ânsia de angariar canções para o novo álbum, lembraram-se dela, só que... não acharam o tape! Ou gravaram por cima! Então, começaram do zero! E foi um primor!!
A canção é de Paul com pouquíssima participação de John. Muitas escolhas magníficas,
- o começo "It feels so right now..." com o final da ponte, que reaparece mais duas vezes, lá do meio da canção,
- a guitarra de George, pulsante, brilhante, o tempo todo,
- o duelo pergunta-resposta, com Paul chamando e George/John atendendo "Hold (Hold) Me tight (Me tight) Tonight (Tonight)" nos versos,
- a brilhante transição do final do 2º verso com o começo da ponte, ambas peças estruturais compartilhando um mesmo compasso na palavra "YOU", perceba: "It's you, you, you, you, you, YOU don't know what it means to hold you tight",
- as palmas o tempo TODO,
- as harmonias vocais quase em toda a canção,
- o final desacelerando, inédito.
Sete pontos! Um número mágico para uma canção idem. Um espetáculo! Era uma daquelas que eu ouvia e repetia e repetia, em meu LP Beatles Again, já mencionado! É uma canção injustamente subavaliada na minha opinião!
A sessão em que a Fênix ressuscitou das cinzas foi em 12 de setembro, a 4ª sessão de gravação para o 2º LP, With The Beatles. Apesar de terem passados 13 takes, lá em fevereiro, o primeiro da sessão foi numerado 20! Daí até o Take 23, considerado base, seriam 4 vezes, né, só que não.... em vários deles se falou "Ah esse não valeu!", porque houve um erro de vocal ali, um de bateria ali, uma guitarra acolá e voltava-se à mesma numeração, um pouco de indisciplina foi verificado. Então, começou uma série de 6 takes até acertarem as palmas e vocais adicionais Um erro que acabou ficando foi John dizendo "so" ao invés de "now", após o "It feels so nice...". O que se houve no disco é uma combinação dos Takes 26 e 29.
Embora tocada nos tempos do Cavern Club, nunca mais foi tocada ao vivo após seu lançamento. Felizmente, alguma justiça lhe foi feita ao ser lembrada para a sequência inicial do filme Across The Universe. Deixo com vocês um trabalho impressionante de um iteliano Frudua, que faz incríveis pesquisas de harmonias vocais nos Beatles. Vale a pena ver todos eles. Aqui neste LINK, ele destrincha Hold Me Tight.
28. You Really Got a Hold on Me (by Robinson)
"I don't like you but I love you!" Assim começa uma favorita do álbum pra muita gente. Linda balada!
Surpreendentemente, é George quem faz harmonia com John, enquanto Paul entra esporadicamente. O Robinson do título é de Smokey Robinson, um favorito de John, em quem ele se inspirou em muitas de suas canções. Em homenagem a essa idolatria, deixo aqui um LINK com e sua banda backing vocal The Miracles.
Ela foi a 1ª canção gravada na 1ª sessão de gravação do LP, em 18 de julho. Foram 7 takes iniciais, com o auxílio luxuoso de George Martin ao piano, já na base, como se fosse um membro da banda, na introdução, que volta no meio e no final! Depois, foram mais 4 takes para reforço do riff final de guitarra e, particularmente, dos "baby"s, que John quis melhorar! You Really Got A Hold On Me foi tocada ao vivo em sessões da BBC, e depois aparece no filme Let It Be, das sessões do Projeto Get Back, de 1969.
29. I Wanna Be Your Man (Lennon/McCartney)
Ringo se declara à garota: "Quero ser seu amor, garota, quero ser seu homem, amo você como ninguém, quero ser seu homem"
Com a recusa de Ringo em cantar Little Child, John e Paul tinham que arrumar outra para seu baterista, afinal era regra que ele deveria cantar ao menos uma em todo LP, dado seu número crescente de fãs! John teve a ideia do título, Paul fez o resto. E o resto não é muito! A letra quase toda está ali em cima! Simples, simples, simples, e com amplitude vocal reduzida, para Ringo poder cantar tocando bateria, ao vivo! Mais interessante, porém, na história dessa canção, é que numa certa tarde, de 10 de setembro de 1963, tendo a canção ainda em começo de estruturação, John e Paul caminhavam em Londres (quando eles podiam!) e viram Mick Jaegger e Keith Richards num táxi e pegaram uma carona com eles, sabe, né, aqueles táxis negros, espaçosíssimos, em que se sentam 5 pessoas de frente umas pras outras, com espaço para uma mesinha entre eles, um táxi social, enfim. Conversa vai, conversa vem, Mick pergunta: "Got any songs?", Paul e John se entreolharam, com a mesma ideia, e responderam uníssono: "Yes!", seguiram com eles até o estúdio, finalizaram a canção, em 10 minutos, quando John fez o título e colocou como refrão, e depois os Rolling Stones a gravaram, constituindo-se em seu primeiro Hit nas paradas inglesas, atingindo o posto N°12. Fui buscar a imagem desse compacto, especialmente para mostrar a gravadora, conhecem? Sim, Decca, a mesma que recusou The Beatles em janeiro de 1962. Felizmente, para o visionário gerente de plantão, um raio caiu duas vezes no mesmo lugar e ele pôde salvar sua biografia!
A letra toda tem apenas 17 palavras, em sua totalidade, "I-wanna-be-your-lover-baby-man-love-you-like-no-other-can-tell-me-let-understand" distribuídas em uma estrutura verso-refrão-verso-refrão, tão curta, mesmo assim, com letras diferentes nos versos! No 1º, Ringo paquera a garota indo direto ao ponto: "Quero ser seu homem!" e apresentando suas credenciais "Ninguém a amará como eu!". No 2º Verso, implora que ela diga que o ama, ele precisa entender! O Verso 3, após o solo instrumental, repete o Verso 1. Simples assim! Para agregar ao cardápio de curiosidades Beatle, I Wanna Be Your Man, é a 4ª em menor número de palavras do cancioneiro da banda, perdendo apenas Wild Honey Pie, com 5, The End com 11, e I Want You, com 15 palavras. Bem, caso se desconsidere Wild Honey Pie como canção, I Wanna Be Your Man leva Medalha de Bronze, subindo ao pódio da modalidade!!
No dia seguinte àquele encontro com os Stones, os Beatles fizeram um take da canção, e partiram para outras canções, retornando no Dia 12, onde fizeram mais seis takes, todos em seus instrumentos e com Ringo cantando ao vivo! John e Paul também harmonizaram com Ringo nos refrães e ficaram doidos durante o solo de George, gritando e brincando! No final do mês, George Martin acrescentou um órgão Hammond, em seis tentativas, e aos três dias de outubro, Ringo apareceu para mais duas, uma dobrando seu vocal e outra acrescentando chocalho! Era o Take 13, final!
I Wanna Be Your Man sucedeu Boys, nas apresentações ao vivo da banda com Ringo no vocal, sendo a primeira de cinco canções Lennon/McCartney que cantaria ao longo da carreira, e Ringo cantou-a muita vezes para delírio de suas muitas fãs, uma delas inclusive no histórico show no Washington Colliseum, na semana da conquista da América! Queria deixar uma delas aqui pra vocês mas não achei imagens, então deixo esta aqui, dele, aos 70 anos, e tocando sua bateria com sua All Star Band! Neste LINK.
30. Devil in Her Heart (by Drapkin)
Se as quatro covers até aqui foram sucesso na América, este não foi o caso de Devil In Her Heart. Canção obscura, de um selo obscuro, não chegou às paradas nem nos Estados Unidos, muito menos na Inglaterra. Mas encantou aos Beatles. Sendo mais uma composição feita para mulheres cantarem (inclusive seu nome falava em His Heart), eles adaptaram a letra para a perspectiva masculina. Tocaram-na em shows, e inclusive na BBC, após o que resolveram que era uma boa opção para seu 2º álbum! E foi! E somente então a canção chegou ao estrelato, com que seu autor nunca sonhou! E foi George quem a vocalizou, constituindo-se na sua 3ª aparição no LP, coisa que só se repetiria em Revolver, dois anos depois. Ela foi gravada na 1º sessão de gravação do LP, em 18 de julho de 1963. Executaram-na três vezes, ao vivo, com vocais, principal e de apoio, perfeitos. Em mais 3 takes, aperfeiçoaram partes da guitarra, dobraram o vocal de George e Ringo acrescentou um chocalho. Aqui, neste LINK, o som original.
31. Not a Second Time (Lennon/McCartney)
John despreza a ex-namorada: "Você está contando a mesma velha história e eu me pergunto para quê! Você me magoou e agora voltou. Não, não, não, não uma segunda vez"
Se há uma canção que parece mais solo que Beatles, essa é Not A Second Time. A música é apenas de John, abandonado pela namorada (portanto, uma Miss Song), mas nem aí para as tentativas de volta (Disdain Class), apenas John canta, quase não se ouve o baixo de Paul, suplantado pelo magnífico piano de George Martin, inclusive na seção solo, e a guitarra de George está bem escondida. Ringo aparece um pouco mais, principalmente porque a bateria não entra de imediato mas somente ao final do primeiro verso, bem sonora!
"A estrutura de acordes da canção era complexa, com as tônicas maiores em sétimas e nonas, além de apresentar heterodoxias na relação entre harmonia e melodia, mudanças de tom peculiares, tão naturais na cadência eólica de Not A Second Time", dizia um artigo de um crítico musical do tradicionalíssimo The Times, um certo Mr. William Mann, um mês após o lançamento, que elevou o trabalho dos 'meninos' a um nível bem acima dos cabeludos-fazendo-música-barulhenta-enlouquecendo-fãs, que era o que a imprensa estava acostumada a exaltar. Para se ter uma ideia, comparou seu trabalho a Mahler! Tanto John como Paul referiam-se a esse autor em entrevistas posteriores, mesmo admitindo que nem percebiam o que faziam.
Eram apenas gênios, afinal!
Mas olha, eu fui buscar os acordes da canção para ilustrar as tais sétimas e nonas levantadas pelo artigo, mas não encontrei, apenas os acordes maiores usuais, tendo apenas um Ré com 7ª para quebrar a onda. Decerto, os Beatles têm em seu catálogo canções muito mais complexas que esta, mas enfim, o artigo foi importante para elevar a impressão que os Beatles despertavam na imprensa a um 'outro patamar', para usar uma expressão moderna. A própria Ask Me Why, do 1º LP, esta sim, tem uma profusão de acordes bem complexos. Também, a tal da cadência eólica levantada pelo especialista, não consigo entender ou captar, aliás, John morreu sem saber também, mas morreu feliz com o artigo. Neste LINK, está o artigo todo, inclusive transcrito, muito bom, em que ele fala de outra meia-dúzia de canções, vale a leitura!
Em termos estruturais, é um simples verso-verso-ponte, depois uma ponte instrumental (com o piano de Martin entoando a melodia), e repetem-se as três peças iniciais, e vem a conclusão. Os dois versos são curtos (apenas sete compassos) e letras diferentes, o 1º está com John sem saber por que chora por ela, no 2º, ele percebe que ela mudou de ideia, mas ele, não. E na ponte, que está todinha ali no caput, ele diz: "Aqui não, bebê!! De novo, não!!".
A criação em estúdio de Not A Second Time, entretanto, foi bastante simples e rápida! Foram apenas cinco takes, em 11 de setembro, com a banda em seus instrumentos tradicionais. Depois, mais quatro somente com o piano de George Martin e a dobra de vocal de John em momentos selecionados! Como outras cinco originais de With The Beatles, a canção nunca foi tocada ao vivo. Conheça-a, ou lembre-se dela, aqui, neste LINK.
32. Money - That´s What I Want (by Bradford/Gordy)
Money era minha preferida aos 7 anos de idade, quando ouvia o Beatles Again, que foi o LP onde saiu por aqui. Versão muito melhor que a original e muuuuito melhor ainda que a versão que os Rolling Stones fizeram dela, a voz de John está áspera, as respostas vocais de Paul e George, imbatíveis, só Beatles faziam daquele jeito, E sem se esquecer do perfeito piano de George Martin, cada vez mais ativo nas faixas dos Beatles! Na voz de Barret Strong, a canção foi o 1º sucesso da Motown Records, fundada por um de seus compositores Berry Gordy.
A canção fez parte do famoso teste da Decca que foi recusado pelo cara que disse que grupos de guitarra estavam com dias contados .. só que o contador passa dos 22.000 e crescendo! Ouvindo hoje, dá pra perceber como o grupo cresceu em pouco tempo, pois a versão da virada do ano de 1962 é muitos pontos inferior à que se materializou nos estúdios da EMI ano e meio depois!
Começaram a gravá-la logo na 1ª sessão do LP With The Beatles, dia 18 de julho, foram 6 takes, todos juntos, inclusive vocais, principal e duelos, e com George Martin ao piano, desde sempre, aliás, ele fez mais um take sozinho ao piano. Numa 2ª sessão, 12 dias depois, somente ele ao piano em mais 7 takes, que acabaram não sendo utilizados. Então o que se ouve hoje é o resultado do 1º dia, sensacional, dando um final ao álbum sem nada deixar a dever ao final do 1º álbum, Please Please Me, com a indefectível Twist And Shout, mais um espetacular desempenho de John Lennon e seus pares. Neste LINK, um raro desempenho deles ao vivo, desta canção, onde já podemos notar o destaque da bateria de Ringo, no alto, Paul e George com suas guitarras lado a lado apontando para a plateia, porque Paul é canhoto, muito mágico, dividindo um microfone, no "That's what I want", e John soltando sua voz, e o encanto das meninas com o som e a imagem dos rapazes. O único defeito é que não está lá, claro, o piano de George Martin.
A capa do álbum 'With The Beatles' inaugurou uma parceria de sucesso, que duraria até 1965, com Robert Freeman, fotógrafo jornalista do Sunday Times. Com seu trabalho de fotografias de astros do jazz aprovado pelos 4 Beatles, ele foi chamado a Bournemouth, cidade onde faziam 6 shows em agosto (aquele mesmo período em que George Harrison estava doente, citado aqui em cima na análise de Don't Bother Me), e não precisou mais que uma hora para fazer uma foto que foi referência para várias outras bandas!! Beneficiou-se da conjunção de luzes de um corredor escuro com uma luz natural de uma janela, pela direita dos rapazes, e saiu aquela foto maravilhosa, com as faces esquerdas na escuridão. Antes, por causa da necessidade de se adequar a foto a uma capa de disco, posicionou Ringo mais abaixo, até porque, disse ele, era o mais baixo dos quatro mesmo, e havia sido o último a entrar na banda! Aliás, exatamente um ano antes! A ideia original era que a capa fosse apenas a foto, sem palavras ou nomes. A direção da EMI achou que eles não eram famosos o suficiente para tanto... falta de fé... meses depois, quem fez isso foram os Rolling Stones, em seu LP de estreia, e os Beatles perderam a primazia ... só essa! A EMI ficou também inconformada com as expressões sérias e teria vetado a ideia, não fosse a intervenção firme de George Martin, que bateu o pé!
'With The Beatles' foi direto para o topo das parada, tirando de lá 'Please Please Me', o primeiro LP, e lá ficou por mais 21 semanas, fazendo dos Beatles a primeira banda a conquistar a façanha!
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Agora, vamos passear pelos últimos 40 dias do ano de 1963, a partir daquele dia, do lançamento de 'With The Beatles', o 2º LP.
Eles estavam em meio à excursão de outono, e assim seguiram, mas deram outra parada para participar de mais um Scene at 6:30 na Granada TV, e logo chegou o dia 29, quando foi lançado o 5º Compacto, com nada menos que I Wanna Hold Your Hand, com This Boy no Lado B! E o que aconteceu? Com os Beatles, nada, seguiam em sua excursão pelo Reino Unido, mas o compacto subiu como um foguete na parada e foi ao 1º lugar, desbancando quem? Uma banda chamada The Beatles, que estava lá com She Loves You, desde agosto. E então aconteceu uma situação como nunca dantes e jamais repetida por outra banda: The Beatles ocupavam o 1º e o 2º lugar na parada dos compactos e, também, o 1º e o 2º lugar na parada dos LPs, porque With The Beatles havia desbancado Please Please Me. Era sucesso ou não era? Sem dúvida, mas, do outro lado do Atlântico, nada acontecia... Mas foi justamente a canção recentemente lançada que seria o veículo para o fenômeno que aconteceria no ano seguinte. Mas ano seguinte é papo para o ano seguinte. Voltemos a 1963.
I Wanna Hold Your Hand e This Boy já haviam sido gravadas em 17 de outubro, numa mesma sessão em que gravaram You Really Got A Hold On Me, e também uma mensagem de Natal em disco flexível 45 rpm que seria remetida em dezembro exclusivamente para os membros cadastrados no Fã-Clube Oficial, que se alastrava por toda a Inglaterra. Essa prática foi mantida até o último Natal da banda, em 1969. Nela, cada Beatle exercitava seu carisma, em mensagem de agradecimento, com muito humor, comentando feitos do ano e desejando bom ano novo. Quem tiver curiosidade, tenho aqui o link com todas elas. A de 1963 ocupa os cinco primeiros minutos, neste LINK.
Em seguida, encontrem as análises das canções do novo compacto, sua composição, gravação, instrumentação, harmonias, estrutura, e decerto alguma oportunidade de ouvi-las. E como já estão acostumados, a numeração adotada nesta fase é a sequencial, desde o 1ª lançada, Love Me Do. As novas ganharam então os números 33 e 34, com apenas 13 meses de carreira.
Como a canção 33 foi a responsável pelo 1º Nº 1 nas paradas dos Estados Unidos, encontrarão em sua análise fatos que aconteceram já em 1964. Com certeza, repeti-los-ei no dia-a-dia daquele ano.
33. I Want To Hold Your Hand (by Lennon/McCartney)
John se declara 'Oh, sim eu direi algo a você, eu acho que você entenderá quando eu disser: Eu quero segurar a sua mão! Eu quero segurar a sua mão! Eu quero segurar a sua mão!'
Uma letra singela, um desejo simples, um pleito comum, cujo objetivo maior era segurar a mão de uma garota, envolto em uma canção pulsante foi o veículo para catapultar The Beatles ao Olimpo do entretenimento. Precisou mais de um ano de carreira bem sucedida do outro lado do oceano para que aquele 'fenômeno social' acontecesse em terras do novo mundo. Foi assim que uma garota de 15 anos definiu o que acontecia, quando expressou seu espanto a uma rádio de Washington, numa carta súplica para que tocassem Beatles. A canção que ela ouvira foi She Loves You. O DJ que a leu, pediu que uma aeromoça trouxesse a novidade da Inglaterra para que pudesse exibi-la, mas o que a moça trouxe foi I Wanna Hold Your Hand, ele a colocou no ar e a coisa começou a acontecer, quase um mês antes da chegada oficial daquele som prevista pela Capitol. Era 17 de dezembro de 1963, outras rádios fariam cópias em fita para serem reproduzidas ao redor do pais. A Capitol tentou bloquear judicialmente essas iniciativas que pipocavam pelo continental país, ninguém ligou e a febre já estava instalada até que finalmente ela decidiu antecipar o lançamento, para 26 de dezembro, quando quase todas as rádios populares já tocavam clandestinamente a canção. Seu Lado B era I Saw Here Standing There. A procura era tanta que eles tiveram que contratar fábricas de discos adicionais para atender à demanda, que chegaria rapidamente aos 7 dígitos.
Quase um mês depois, no dia 24 de janeiro, os Beatles receberam a notícia da chegada de I Wanna Hold Your Hand ao topo de uma das principais paradas de sucessos americanas, e celebraram com uma guerra de travesseiros, e com um jantar de gala no Hotel George V em Paris, onde estavam hospedados durante 19 dias para dois shows diários no famoso Olympia. Finalmente, estava dado o sinal verde que eles mesmos se impuseram para atravessar o Atlântico. Só queriam desembarcar nos Estados Unidos quando fossem o Nº1.
Quando o desembarque aconteceu, em 7 de fevereiro de 1964, em New York, com uma multidão aglomerada no Aeroporto John Kennedy, as vendas estavam a caminho dos 2 milhões de cópias. Dois dias depois, a América sentou-se em frente à TV para assistir ao Ed Sullivan Show na edição mais famosa de sua história. Mais 10 dias nos EUA, com shows no Carnegie Hall (para nunca mais), no Washington Collyseum (1º show em um ginásio de esportes), e mais um Ed Sullivan em Miami, sendo tratados como reis que já eram (e um encontro com outro Rei, Cassius Clay no dia 18), eles estavam de volta a Londres, e um mês depois, I Wanna Hold You Hand já havia vendido 3,4 milhões de cópias só na ex-colônia ultramarina, cifra que subiria para incríveis 5 milhões ao longo dos meses seguintes. Era muito para quatro rapazes de 22 a 24 anos de idade.
Bem, vocês notaram que desvirtuei de minha estrutura regular de análise. Normalmente, esse papo de vendas só viria ao final do post, após, detalhes da composição, quem escreveu o quê, qual a estrutura da canção, como foi a gravação, e tal. Foi porque, neste caso, o mais relevante de tudo foi essa reação que a canção provocou, ponto de mutação na carreira deles. Enfim, voltemos ao reme-reme.
Buscava-se uma canção para o 5º compacto dos Beatles, e, claro, a encomenda foi dada à sua dupla fenomenal. Paul e John se reuniram no porão da casa da namorada do primeiro, aliás onde ele moraria nos próximos 4 anos, a convite dos pais dela. O objetivo deles era claro: buscar um som que agradasse aos americanos, que era o próximo mercado alvo da banda! Parece que conseguiram, né? Após duas horas, estavam elaborados alguns versos, com letra bem assim, assim, pareando "tell you something" com "say that something", conviremos que não foi nada muito brilhante, não é mesmo? O começo, com o "Oh, Yeah", seguia a linha das últimas duas canções, She Loves You e I'll Get You, que usaram a interjeição bem americana com grande sucesso. A ponte que vem a seguir tem a ótima repetição de frases, que fica na cabeça, e que pega, e que leva ao 3º grito que leva meninas à loucura, o famoso "I get hiiiiigh". Oooops, não é isso? Não... mas isso foi o que Bob Dylan achava que era, quando apresentou a maconha aos rapazes em 28 de agosto de 1964, e pensou que eles já a conheciam por causa do canto, que na verdade era 'I can't hide, I can't hide, I can't hiiiide'. Pra quem não sabe, "I get high" era gíria para 'Eu fico doidão!"
A gravação foi feita integralmente no dia 17 de outubro de 1963. Após duas horas de ensaio, inauguraram o equipamento de gravação de 4 canais em 17 takes, dando adeus ao de dois canais usado nas primeiras gravações. Fora uma concessão da direção da EMI, que reservava o equipamento melhor para gravações de orquestras, só que aquele grupo de jovens estava ganhando mais dinheiro para a gravadora do que muitas gerações de instrumentistas clássicos... A confiança de John era imensa, tanto que chamou George Martin lá da sala de controle: "Prepare-se para conhecer nosso novo Nº1"! Mas acho que nem ele imaginava que seria verdade também nas plagas americanas. Logo nos primeiros takes, eles decidiram abrir a canção com aquele final de ponte, das três frases repetidas, apenas nos instrumentos, o que se mostrou uma ótima decisão. Todos tocaram e cantaram juntos em todas as 17 vezes. Paul cantou em unisom com John, fazendo a harmonia aguda nos primeiros "hand' de cada verso, e também na totalidade ponte. John dobrou seu vocal por cima do Take 17, bem como as palmas foram acrescentadas por todos os quatro que se tornariam Reis na América 100 dias depois.
A canção foi muuuuito tocada ao vivo durante seu primeiro ano de vida. Claro que foi destaque no Ed Sullivan Show, LINK que deixo aqui, e notarão também nos EUA se faz caquinha, pois o microfone de John estava praticamente desligado e quase que somente se ouve a voz de Paul! O compacto original na Inglaterra vinha com This Boy no Lado B, e vendeu 1,25 milhão de cópias, somente perdendo para o compacto anterior, She Loves You e I'll Get You.
No Brasil, a canção saiu no LP Beatlemania e num compacto simples tendo nada menos que She Loves You no Lado B, ambos em 1964. Na década seguinte, essas duas canções foram homenageadas pelo grande Belchior que termina sua linda canção Medo de Avião, se não conhece, ouça aqui neste LINK, se já conhece, ouça de novo, e arrepie-se, e quem sabe, chore, como eu, ao ouvi-la de novo...
34. This Boy (by John Lennon)
John aconselha: 'Aquele menino levou meu amor, embora ele se arrependerá algum dia, Mas este menino quer você de volta. Aquele menino não é bom para você, embora ele possa te querer também. Este menino quer você de volta'
This Boy, também de 1963, é John aconselhando a moça de como ela não deve ficar com AQUELE rapaz que a vai fazer chorar, mas, sim com ESTE que a quer de volta pois é feliz só por amá-la. Bem, se ESTE rapaz é ele mesmo, não sei, e nesse caso, a canção seria na Classe Paquera mas, de qualquer forma, ele seque atuando como Cupido, mesmo que seja dele mesmo!! Aliás, a primeira linha do primeiro verso, 'That boy took my love away' estabelece que a garota dele foi embora com outro, pobre rapaz, então, eu poderia afixar a canção no Assunto Saudade, na Classe Retorno, também sem problemas, mas como ele passa o resto da letra tentando convencê-la a ficar com ESTE rapaz, mantenho-a como uma Cupid Song. Até porque mudar tudo agora ia dar um trabaaalho....
Bem, seja de que assunto for, trata-se da primeira balada que os Beatles fizeram, primeira no ritmo de valsa, mais especificamente no tempo 6/8, mostrando a versatilidade da banda, e quem teve a ideia foi, incrivelmente John, bem mais afeto ao bom rock'n roll. John chama a autoria da canção para ele em entrevistas posteriores dizendo ter-se inspirado em Smokey Robinsson, mas Paul garante que foi mais uma daquelas tête-a-tête (eye-ball to eye-ball, como eles gostavam de dizer) em quartos de hotel, cada um sentado de frente pro outro em suas camas de solteiro (twin beds). A ideia da harmonia tripla sempre esteve presente, claro que ainda dupla naquele quarto de hotel, mas depois chamaram o companheiro George para ensaiá-la e, claro, o outro George, o Martin, para dar aquele retoque final em estúdio. Olha, pode ser que outros grupos vocais tenham harmonias melhores, mas considerando que This Band ainda compunha e tocava e brilhava em todos os campos, não tenho duvida de que é mais completa conjunção de talentos de todos os tempos.
A estrutura da canção é a mais-que-comum verso-verso-ponte-verso, sem refrão, cada um dos quatro componentes tem 16 compassos, a batida nas cordas é aquela Pã-pararara- pã-pã-pã. Para acompanhar a contagem dos compassos, fixe o número em cada 1º Pã, você vai ver que depois que chegar ao 16, a canção muda de verso, ou vai pra ponte, e note que internamente, você conta até 6 em cada compasso, por isso o tempo é 6/8, estou aprendendo junto com vocês essa coisa de compasso e tempo musical.
Na letra, John conversa com a garota tentando convencê-la a voltar. No Verso 1 ele reclama ter perdido seu amor e avisa a ela que o outro vai se arrepender, e que ele a quer de volta. Esta última linha é repetida nos Versos 2 e 3. Mas entre esses últimos tem uma ponte, uma espetacular ponte, eu a chamaria de a Golden Gate dos Beatles, porque John entrega um desempenho ímpar e aí é John mesmo, pois deliga-se a magnífica harmonia tripla dos dois primeiros versos, e ele chora, só, acompanhado dos murmúrios de seus companheiros em harmonia dupla...
Oh, and this boy .... Would be happy
Just to love you .... But oh, my-y-y-y
That boy ... Won't be happy
'Til he's seen you cry-y-y-y
Fiz questão de aumentar a fonte da ponte do my-y-y-y e do cry-y-y-y porque a emoção dele (e a nossa) vai aos píncaros, nesses trechos só ele mesmo, solo, chorando pra ela voltar, magnífico! Logo depois, volta a harmonia tripla em um 3º verso, desta vez com uma rima tripla pain-same-again.
A gravação em Abbey Road foi feita em 17 de outubro de 1963, no mesmo dia que I Wanna Hold You Hand, e durou incrivelmente poucos 60 minutos, em 15 takes, já no novíssimo gravador de quatro canais, com que foram presenteados pela direção da casa, pois seria prerrogativa das gravações clássicas.
Lembrar que a canção, só instrumental sem a letra, foi creditada como Ringo's Song no primeiro filme dos Beatles, Os Reis do Iê Iê Iê, de 1964 e acompanha o querido baterista numa longa e famosa cena. Admire aqui, neste LINK, o talento de Ringo, ou ainda, se quiser apreciar o talento de George Martin, deixo aqui o arranjo, só em áudio LINK.
Porém, o maior destaque são mesmo os vocais em harmonia tripla John/Paul/George ao longo de toda a canção, ou no contraponto para John, ou acompanhando-o em hummmmms, no solo da ponte, majestoso. Deixo aqui ESTE VÍDEO, dos 3 gênios no show de Ed Sullivan em Miami, 16 de fevereiro de 1964, em que dividem um microfone único. Imperdível e emocionante! Note que desligam-se os berros das garotas, todos prestando enorme atenção, inclusive a linda menina que aparece no final. É daquele show, também que tirei o still para ilustrar este post..

Com todo esse sucesso, os Beatles seguiam em sua excursão de outono, e deram uma parada em 2 de dezembro para gravarem uma espetacular participação no programa dos comediantes Morecambe e Wise. Foi uma mostra da extensão do talento dos quatro fabulosos para o campo da atuação, da comédia, entrando totalmente no clima do programa, com direito a uma execução de mais uma canção, a tradicional Moonlight Bay, lá do começo do século, muito divertido. Deles, eles cantaram os dois lados do compacto recente, além de All My Loving, que haviam lançado no LP With The Beatles. Incrivelmente, o programa somente foi ao ar em março de 1964. Felizmente, tivemos acesso oficial a seu áudio no Projeto Anthology, de 1993, mas o vídeo ainda existe e deixo aqui, neste LINK. Abrem com This Boy, apenas Ringo aparecendo, tocando só no chimbal, os demais na sombra, e depois John com seu lead vocal, mas sempre acompanhado de Paul e George em magnífica harmonia tripla, a segunda melhor da carreira deles em minha opinião (Because é imbatível, mas nunca foi tocada ao vivo). Emendam com All My Loving, com a diferença de sempre quando a tocavam ao vivo: vejam que é George quem faz a harmonia com Paul no verso de volta do solo de guitarra, pois John, que a faz na gravação, está muito ocupado, fazendo sua espetacular sequência de triplets na guitarra, prestando uma atenção danada, notem! Paul até mesmo ressaltou isso no recente documentário McCartney 123. E após um breve aparição dos comediantes, vem o arrasa-quarteirões I Wanna Hold Your Hand, com Paul e John cantando em uníssono nos versos e em harmonia na ponte! Depois, vem o famosíssimo diálogo dos comediantes com os Beatles, ou melhor, com John Paul George e.... Bongo!! E então trocam de roupa para cantarem o clássico! Muito bom!!
No dia 7 do último mês de 1963 foi deveras especial, em Liverpool, onde comandaram um Juke Box Jury, da BBC TV, em que julgavam as canções pretendentes a serem hits. E, logo após, brindaram a audiência com um fenomenal show, que traduz o clima da Beatlemania, os gritos, as faces, o encanto das 2.500 meninas (e meninos também), todos fãs cadastrados, acompanhando o fenomenal desempenho dos rapazes. Um extrato de 30 minutos do show foi ao ar no mesmo dia em rede nacional, horário nobre, num programa que foi chamado It's The Beatles. Um extrato desse extrato deixo neste LINK,
E com todas essa paradas para aparecer em rádio e TV, gravar, lançar discos e brilhar, terminava em 14 de dezembro a excursão de outono no Reino Unido, com 38 shows, que começara lá em 1º de novembro, com direito a tirar onda com a Realeza! Um descanso de 7 dias foi ocupado com mais aparições em rádio (mais um Saturday Club) e TV (mais um Thank You Lucky Stars).
Outro grande destaque foi um especial de duas horas que comandaram na BBC (rádio), gravado no dia 18 e transmitido no Boxing Day (26). Claro que eram a principal atração, cantaram nove canções ao vivo, sendo que uma delas teve a letra modificada: From Me To You, pois trocaram os tempos dos pronomes do singular para o plural ("I" para "we", "me" para "us)", que virou From Us To You, que inclusive tornou-se o nome do programa (era pra ser Beatle Time) e teve um sucesso tão grande que sua fórmula e nome foram repetidas outras quatro vezes. Vale o registro desse áudio, aqui neste LINK.

Claro que Brian Epstein não deixava os meninos descansarem por muito tempo e dessa vez, verdadeiramente tirou-lhes o couro. Já em outubro, ele vislumbrara uma fonte de dinheiro durante as festas de fim de ano. Vendeu 100 mil ingressos para 30 shows num mesmo teatro, o Finsbury Park Astoria, de 21 de dezembro de 1963 a 11 de janeiro de 1964, portanto, dois shows por dia na maioria das vezes, inclusive no 1º do ano!! Dias de folga? Apenas 2, um deles o dia de Natal, que bonzinho era Brian! E cada show consistia em duas entradas dos Beatles, fechando cada uma com 4 e 5 canções respectivamente, mas não ficavam só nisso, eles participavam de sketches cômicos, envergando trajes diferentes, que se não eram brilhantes, faziam muito sucesso. Essa prática se repetiria nos dois anos seguintes!!
Como chave de ouro para este glorioso ano de 1963 na vida dos Beatles. Entretanto, 1964 seria ainda mais glorioso! Começaremos a descrevê-los em breve. para o momento hora de atualizar os quantitativos de uma carreira espetacular.
NÚMEROS DOS BEATLES
Até 31 de dezembro de 1962
Compactos: 5
Álbuns: 2
Canções Originais: 20
Canções Cover: 14
Sessões de gravação: 12
Shows no Reino Unido: 299
Shows na Europa (afora UK): 29
Aparições em Rádio: 32
Aparições em TV: 24
Beatles casados: 1
Namoradas Oficiais: 2
Filhos Beatle: 1
Eu juro que qualquer hora eu vou dar
um formato melhor a essa plêiade de números