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quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Chegando ao Frederico I

Rio de janeiro, 29 de dezembro de 2005
Caros vizinhos do Frederico I,
Venho, por meio desta, apresentar-me e à minha família, a vocês e à administradora de nosso condomínio, como novos moradores do apartamento 501.
Além de mim, engenheiro, 47 anos, beatlemaníaco, estão comigo: minha esposa Neusa, funcionária pública federal, 47 anos (apesar de aparentar bem menos!); minha filha Renata,  estudante de Jornalismo, 20 anos, cinemaníaca; meu filho Felipe, estudante de Matemática, 17 anos, guitarrista e violinista; minha sogra Zulmira, dona de casa, 82 anos bem vividos; meu cunhado Antônio Carlos (o Carlinhos), deficiente físico e mental, 53 anos, um verdadeiro santo; Juraci, empregada doméstica, 60 anos, que ajuda no trato do Carlinhos e, finalmente, Suzy, empregada doméstica, 22 anos. Como vêem, viemos aumentar consideravelmente o número de habitantes do nosso edifício.
Eu e Neusa somos paulistas, de Santos, e viemos para o Rio de Janeiro há 23 anos, quando nos casamos. Desde então, e até agora recentemente, moramos em um mesmo condomínio, logo ali em Botafogo, que tinha 231 outros vizinhos. Estamos, portanto, achando incrível o que acontece aqui: desde que freqüentamos estes nossos elevadores, há mais ou menos 1 mês entre namoro, negociação, pré-mudança e efetiva morada, não compartilhamos nossos elevadores com nenhum de vocês! Outra coisa interessante: aqui os elevadores chegam e ficam. Bem, acostumar-nos-emos a isto! Não será difícil, claro!
Outra razão para esta carta: um pedido de desculpas! Ontem, ao empreender mais uma de minhas obrigações maritais, a de preencher paredes com enfeites, tive a “felicidade” de perfurar o coração de um Tê, componente de uma coluna de descarga de vaso sanitário, que atendia a todos os apartamentos! Poderia ter sido uma ramificação que só afetasse a mim ou, ao menos, uma coluna menos inportante, porém caprichei e acabei com o fornecimento de água de 80% das tão necessárias privadas! Menos mal que os lavabos continuaram funcionando. Quis a providência que, no exato instante em que perpretei o insano movimento, estava a cerca de 2 metros de mim um bombeiro (ou encanador, como nós, paulistas, muito mais apropriadamente denominamos!), consertando um vazamento no banheiro da suite que eu enfeitava. Foi ele o único ser vivente a ouvir a pouco educada expressão que proferi ao receber o inesperado jato de áqua em minha cara (felizmente, não perfurei a coluna de esgoto!). Depois de identificar o registro que alimentava a coluna, operação que teve a ajuda de nosso prestimoso zelador, começou a empreitada de conserto, que durou quase 5 horas, de sangue, suor e lágrimas … bem, corrigindo, apenas as 2 últimas.
Pelo feito, peço desculpas! Concordo que não foi um perfeito cartão de visitas de nossa chegada à pequena comunidade. Serviu também para que, quando nos visitarem, notarão muito menos quadros e espelhos nas paredes do que o originalmente previsto. Certamente pensarei 5 vezes antes de acionar aquela furadeira novamente!
Enfim, quero aproveitar para oferecer nosso telefone, 2537 2628, e desejar a todos um excelente 2006, com muita saúde, harmonia e, se possível, um condominiozinho um pouquinho mais em conta!
Abraço a todos!
Homero Ventura, família e agregados!

sábado, 3 de dezembro de 2005

Paul is 63 and Rolling

Há uns três meses tenho estado acometido da Síndrome Noticiosa Aguda. Explicando: estou viciado em notícias via FM, enquanto dirigindo meu carro .... música, só entre 19:00 e 20:00 (“Esta é a Voz do Brasil!”). Nas últimas semanas, porém, outro poder se “alevantou”, salvando-me temporariamente do vício: chegou em casa uma caixinha com três CDs, encomendados via internet. O primeiro que ouvi (claro!) foi o novo disco de Paul McCartney, chamado “Chaos and Creation in the Backyard”. Trata-se do 20º disco de estúdio de Sir Paul (sem contar os discos ao vivo) desde que deixou os Beatles, há (pasmem!) 35 anos. Desde então, venho prestando atenção aos detalhes, entendendo as letras, ouvindo e re-ouvindo este que é, sem dúvida, o seu melhor disco em 20 anos. As notícias ficaram para trás, por um momento!
Esta é a terceira vez que Paul se aventura a ser um ‘One-Man-Band’. Isso é para poucos! O primeiro disco solo, McCartney, em 1970, também foi o primeiro deste tipo, em que ele é o único instrumentista, mostrando todo seu talento. Foi até sintomático aquele lançamento, pois, na primeira vez em que canta solo, ele ‘manda um aviso’ aos outros Beatles: ‘Não preciso de vocês!’. Nem deles, nem de ninguém: tocou, além do baixo elétrico (sua especialidade), guitarra, bateria e piano. Aqui, cabe um esclarecimento: tocar tudo não significa tudo ao mesmo tempo! Primeiro grava-se uma base com a música toda, com piano ou guitarra, com voz ou não, depois se vai acrescentado um a um os instrumentos que faltam. Recurso disponível com a tecnologia de estúdio.
Entretanto, aquela não foi a primeira vez em que tocou algo diferente do que o seu querido baixo Hoffner (só se ficarmos no instrumentos de cordas). Em 1969, ainda Beatle, quando estava de férias, John apareceu à porta de Paul, que morava perto de Abbey Road, e disse: ‘Vamos para o estúdio!’ Ele havia acabado de compor uma ode a sua lua de mel com Yoko Ono, “The Ballad of John and Yoko”, e não queria deixar de registrar. Como George e Ringo também estavam de férias, porém, fora da Inglaterra, resolveram tudo eles mesmos: John além de ser o guitarrista-base, como sempre, fez também o papel de George, tocando a guitarra solo, e Paul, normalmente só baixista, fez também o papel de Ringo, tocando bateria. Num dos momentos da gravação, John, tocando guitarra, perguntou a Paul, tocando bateria: “All right, Ringo?” E Paul respondeu: “Yeah: George!” A brincadeira foi lançada em compacto e foi um grande sucesso, como sempre! Os outros dois Beatles não gostaram muito, mas, afinal, ganharam sem trabalhar!
Claro que, depois daquela primeira aventura super solo, ele montou algumas bandas até fixar um novo grupo, Wings, e saiu fazendo shows pelo mundo. Seus maiores sucessos no início da década foram “Another Day”, “Maybe I’m Amazed” e “Live and Let Die”, esta última, tema do sétimo filme de James Bond. Fato interessante do começo desta fase é que, sem fazer shows ao vivo há mais de cinco anos, desde o último show dos Beatles, em Candlestick Park, San Francisco, em 1966, ele estava inseguro quanto à sua capacidade no palco. Então, começou a tocar, de graça, e sem aviso, nas universidades dos Estados Unidos, assim quase que batendo à porta dos reitores das escolas e se oferecendo: ‘Podem abrigar um show de uma banda que está começando?’. Dá para imaginar o furor que eram aquelas incertas!
Aliás, incerto foi também o começo da nova banda, mas ela acabou se firmando com alguns bons discos, o melhor deles, ”Band on the Run”. A fase Wings foi marcada também pela prisão de Paul, em Tokyo, por porte de maconha. O acontecimento proporcionou as únicas 24 horas seguidas em que ficou sem a companhia de Linda, sua mulher desde 1968 até 1997, quando morreu de câncer, sem dúvida, uma bonita história de amor. Já a cannabis também foi companheira de Paul durante uns bons 15 anos! Ele foi o último dos Beatles a embarcar na onda daquela juventude, no meio da década de 60. Muitos ingleses nunca se esquecem de sua declaração na TV, admitindo o consumo, com aquela carinha de anjo: não viu necessidade de mentir. Ele não foi tão fundo nas drogas como John, mas acabou por adotar a maconha como inspiradora mental. Até fez uma de suas canções com letra dedicada ao hábito, “Got To Get You Into My Life”, do disco ”Revolver”, de 1966. Sabiam? Notem bem a letra: parece que ele agradece por ter encontrado alguém que mudou sua vida mas, na verdade, esse ‘alguém’ é a marijuana! Releiam a letra com mais atenção: ele começa com ‘I was alone, I took a ride, I didn’t know what I would find there. Another road where maybe I could see another kind of mind there!’, e termina perguntando ‘What are you doing to my life?’. Só entendi isso quando li relato dele mesmo no livro “Many Years From Now”, de sua autoria.
Quando Wings terminou, ele lançou o 2º disco tocando tudo, em 1980, ”McCartney II”. Só que, naquela oportunidade, usou e abusou da música eletrônica, moda na época, e acabou produzindo um disco estranho, que tinha pérolas como “Temporary Secretary”, que ele teve a coragem de lançar em ‘single’. Mesmo assim, ainda conseguiu um hit, com “Coming Up”. Durante a década de 1980, ele lançou discos como Paul McCartney, simplesmente, sem montar uma banda fixa. Foram alguns bons discos com algum sucesso comercial, dos quais meus favoritos são “Pipes of Peace”, “London Town” e “Tug of War”. Fez interessantes parcerias com Michael Jackson (“The Girl Is Mine” e “Say, Say, Say”) e Stevie Wonder (“Ebony and Ivory”) que foram grande sucesso. Sozinho, marcou um grande hit com o compacto “Mull of Kintire”, homenagem ao local de sua casa de campo na Escócia, que vendeu, só na Inglaterra, mais de 3 milhões de cópias, um recorde do Guinness. A canção, linda, é marcada por uma sinfonia de 100 gaitas de fole. No final da década, resolveu fazer uma excursão mundial, preenchendo mais da metade do repertório do show com canções suas da época Beatle. Antes, a concessão era de uma ou duas, apenas. Foi um delírio, sucesso absoluto, e lhe rendeu mais uma inscrição no Guinness, recorde até hoje não superado: reuniu, em recinto pago, o maior público para um artista solo, em outras palavras, 183.000 pessoas, no Maracanã, em abril de 1990. E eu era uma delas, claro!
Na década de 90, uns poucos discos, entre eles o “Unplugged – The Official Bootleg”: Paul foi o primeiro a gravar, em disco, o show acústico ao vivo promovido pela MTV, que começara em 1989. Ele quis evitar a gravação pirata (‘bootleg’) que sempre acontecia com os outros artistas convidados, mostrando, mais uma vez, seu tino comercial! Fez outra excursão mundial, em 1993: ele esteve no Brasil, em São Paulo e Curitiba, e eu não pude ir devido a compromisso profissional, ‘shit’! O fato mais marcante da década, entretanto, foi o câncer e a morte de Linda, sua companheira de quase 30 anos, em 1997, mãe de seus três filhos até então, mais um ente querido levado pela terrível doença. Treze meses de luto depois, veio o flerte com Heather Mills, modelo-loira-ativista-anti-minas-nomeada-para-o-Nobel, namoro, casamento e, finalmente, sua última filha, Beatrice, hoje com dois anos de idade. A volta ao trabalho foi em 2000, com um disco chamado ”Run Devil Run”, que tinha apenas três inéditas McCartney (uma delas, a música título) e era puro Rock & Roll. Marcante foi a banda que ele amealhou. Qual outro artista poderia dar-se ao luxo de ‘contratar’ um baterista como Ian Paice, do Deep Purple ou, mais ainda, tirar da aposentadoria de seis anos o lendário David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd? Outra marca do retorno à vida artística, foi a gravação do DVD ao vivo no Cavern Club, ou melhor, na réplica da birosca onde começara sua carreira, mais de 40 anos antes, tocando muitas das canções do disco.
O relacionamento com Heather foi inspirador de muitas das canções de seu disco ”Driving Rain”, de 2001, de relativo sucesso. Junto com ele, a excursão “Back To US”, dedicada apenas aos Estados Unidos. No título, uma brincadeira com um dos grandes sucessos da era beatle, “Back To USSR”. Quase 30 cidades americanas foram visitadas, shows em ginásios de basketball, todos lotados. Felizmente, uma delas foi Houston, onde morava, e eu tive o privilégio de assistir. Imediatamente, desbancou “In The Flesh”, de Roger Waters, do posto de ”Melhor-Show-Que-Eu-Já-Assisti!”, não só pelas canções, mas também pela cuidadosa (e audaciosa) produção, banda impecável e, principalmente, pelo carisma de Paul, extremamente simpático, conversando muito com a platéia, contando muitas histórias divertidas. Uma verdadeira benção! Minha família e os felizardos houstonianos tivemos o privilégio de ouvir algumas canções beatle que jamais haviam sido executadas em público, com destaque absoluto para “She’s Leaving Home”, balada magnífica presente em ”Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, de 1967. Jamais ela poderia ser cantada ao vivo, naquela época. Infelizmente, esta canção não está presente nem no CD nem no DVD que reproduzem o show, o que somente reforça o caráter de exclusividade da audição ao vivo. Obrigado, Paul! No DVD, com excelente edição, é mostrada a grandiosidade da excursão pelos Estados Unidos, com todo o equipamento sendo transportado de cidade a cidade por seis gigantescos ‘eighteen wheelers’, como os americanos gostam de denominar aquelas enormes jamantas de cinco eixos e 18 rodas (daí, o nome). Nas imagens da platéia, entrecortadas com imagens do show propriamente dito, alguns dos melhores momentos são retratados: a presença de estrelas como Michael Douglas e Jack Nicholson sorrindo como crianças, a mescla de jovens, velhos e outros nem tanto, acompanhando as letras das canções e, no momento mais tocante, um quase cinqüentão (como eu), ouvindo calado os acordes de “All My Loving” com os olhos marejados, as lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos, não se sabe se recordando o passado perdido, ou emocionado e agradecido por estar presenciando um show do maior artista vivo deste planeta.
Depois de um recesso para dedicar-se à gravidez de Heather e aos primeiros meses da vida de Beatrice, dedicou-se ao presente lançamento, que ora passo a descrever, brevemente.  Desta vez, a aventura de tocar tudo veio acompanhada de muita musicalidade e inspiração. “Chaos and Creation in the Backyard” é generoso: são 13 canções, todas de autoria de Paul. O disco inteiro foi bem recebido pela crítica e vai bem com o público, saindo facilmente da rotina beatlemaníaca do oba-saiu-mais-um-disco-de-Paul-e-vou-comprar-mesmo-que-seja-uma-droga!

Paul caprichou! Convidou para produzir o disco Nigel Godrich, o produtor do Radiohead, banda inglesa cuja principal obra, o álbum “Ok Computer!”, foi considerado, em pesquisa de 1995, o melhor disco dos últimos 100 anos!!!!! Claro que foi beneficiado pela memória curta (ou falta de memória ou respeito) da galerinha mais jovem, que respondeu à pesquisa. Comprei o disco na época para verificar quem tinha batido “Abbey Road“, “Sgt. Peppers...“, “The Wall“, “The Dark Side of the Moon“, “Led Zeppelin III“, só pra ficar restrito a uns poucos. Resultado: comprei o disco na época, ouvi e joguei no lixo, de imediato! Mais por indignação do que por isenta crítica. Não dava nem para pensar em comparação! Hoje, 10 anos depois, admiro o grupo, resgatado que fui por meu filho: os caras são muito bons! Só que, se você ouvir “Ok Computer!” quando estiver meio ‘down’, corre o risco de entrar em depressão: algumas canções são de chegar às lágrimas. Mas, ainda assim, looonge de ser comparado aos citados e a uns tantos outros. Por coincidência, um dos discos da caixinha que recebi via Internet é justamente “Ok Computer!”, encomendado por meu filho para resgatar um ‘erro’ meu do passado.
Nos instrumentos, Paul toca baixo elétrico, violão, guitarra, guitarra de 12 cordas, bateria, piano, teclado, sintetizador, órgão, e alguns artefatos de percussão simples como pandeiro, címbalos, gongos, sinos tubulares, maracas e triângulo. Toca ainda outros instrumentos que eu nem sei do que se trata, tipo, ‘autoharp’, ‘flugelhorn’, ‘melodica’, ‘floor tom’, ‘mass vibrachimes’, ‘cello’ (não acredito que seja o tradicional violoncelo clássico, só vendo para crer!) que só vendo o DVD vou descobrir do que se trata. Tudo com muita competência! Ele não foi tão auto-suficiente como em “McCartney” e “McCarteny 2”: desta vez, para o bem da musicalidade, ele agregou especialistas em instrumentos que não domina, talvez por influência de Nigel. Em ”Jenny Wren”, sobre a qual escrevo mais adiante, ele convida um tocador de ‘duduk’, instrumento do qual eu nunca ouvira falar, que complementa muito bem a leveza da canção. Parece um instrumento de sopro, cujo som se assemelha a uma voz humana. Em ”English Tea” e outras seis canções, ele complementa com um ‘string ensemble’, ou um quarteto de cordas, com violino, viola, violoncelo e baixo, coisa que eu sempre gostei de ouvir, mas admiro muito mais hoje, por ter um violinista na família e ver a dificuldade de se tocar esses instrumentos. Aliás, cordas e rock é uma mistura que foi inaugurada por ele mesmo, Paul, quarenta anos atrás quando lançou “Yesterday”, que tinha um arranjo de cordas feito por George Martin, o quinto Beatle. Outras canções levam um naipe de metais e, em uma delas, bongôs, coisa que ele não se arrisca a tocar.
Das 13 canções, apenas duas são rock’n roll, as demais, baladas ou ritmos mais suaves. O disco não padece daquele mal de que é preciso ouvi-lo várias vezes para aprender a gostar. Aqui, pelo menos seis das canções ‘te pegam’ de imediato. Além disso, as letras são muito boas, a veia poética de Paul está em muito boa forma.  A canção mais trabalhada até o momento, que também foi lançada em single, é ”Jenny Wren”, aclamada pela crítica como a nova ”Blackbird”. Para quem não se lembra, ”Blackbird” é canção lançada no álbum duplo “The Beatles”, em 1968, onde Paul é acompanhado apenas do violão que toca, considerada uma obra-prima por crítica e público. Naquele disco, Paul lançou outras duas baladas, ”Mother Nature’s Son” e ”I Will”, reverenciadas pelos beatlemaníacos. A versatilidade de Paul naquele magnífico album é marcante, pois, ao lado de tantas baladas, e mais um magnífico vaudeville “Honey Pie”, Paul gravou “Helter Skelter”, considerada por muitos a primeira canção ‘heavy metal’! “Blackbird” era um recado/homenagem às garotas negras (a juventude inglesa chamava as garotas de “birds”, carinhosamente): incitava-as a alçarem vôo próprio (‘you’ve been only waiting for this momento to be free, blackbird, fly’), amparadas pelo movimento de emancipação dos negros, que ocorria do outro lado do Atlântico. Aqui, conta a batalha de Jenny Wren para superar uma desilusão amorosa. Apesar de o próprio Paul considerar ”Jenny Wren”, como ‘Filha de Blackbird’, noto no dedilhado do violão mais similaridade com “Julia”, canção que John Lennon gravou naquele mesmo Álbum Branco (como ficou conhecido popularmente “The Beatles”), em homenagem a sua mãe.
Outra balada muito bem recebida foi ”English Tea”, alegre, bem ao estilo bem-humorado de Paul, que conta um convite/cortejo a uma garota ‘Would you care to sit with me, for a cup of English tea’. Musicalmente, lembra um pouco “For No One”, sucesso do álbum “Revolver“, de 1966. Em “A Certain Softness”, “This Never Happened Before” e ”How Kind Of You”, declarações de amor a Heather, nesta última dizendo ‘I thought I would never find a someone quite as kind of you’ (após tantos anos dedicados a Linda). Em “Follow Me”, ele agradece: ‘You lift up my spirits, you shine on my soul, whenever I am empty, you make me feel whole’. No lado rock, a principal é ”Fine Line”, bem animada, onde consta parte do título do CD (‘There is a fine line between chaos and creation....’), expondo sua veia filosófica. Noto um valor conferido a amizades: em diferentes canções há várias menções a ‘friends’ ou ‘friendship’ como em “Riding to Vanity Fair” e, em “Too Much Rain”, aconselha um amigo a dar a volta por cima com ‘Laugh when your eyes are burning, smile when your heart is filled with pain, sigh as you brush away your sorrow’. Sem dúvida, vale a pena conferir!
Se me permitem, uma ilação sobre a capa e o título! Na capa, aparece Paul, com seus 20 anos, tocando um violão em meio a varais cheios de roupa em um quintal. A referência ao caos é evidente, não há nada mais caótico que um monte de roupas de diferentes cores, assentadas sem regra sobre varais entrelaçados idem. E a criação, também: sempre que se tem um instrumento à mão, você está criando, ainda que esteja tocando uma música de outra pessoa, sempre é um toque pessoal que se dá. A menção ao quintal também pode ser explicada em “Promise To You Girl”,  que diz: ‘... in the backyard of my life, time to sweep the fallen leaves away ...’, com ‘backyard’ tendo o sentido de passado, de olhar para trás, ‘varrer as folhas’ e avaliar toda uma vida de caos e criação. Profundo, não? A foto foi tirada por seu irmão Mike no quintal da casa, em Liverpool, em 1962, alguns meses antes de os Beatles lançarem “Love Me Do” e iniciarem sua carreira. Paul e Mike viviam naquela casa com o pai James, um vendedor de algodão que, nas horas vagas, era um instrumentista de uma banda de jazz, e certamente foi uma fonte de inspiração para a musicalidade de Paul. A mãe, Mary, uma enfermeira do serviço público, falecera seis anos antes, vítima de câncer de mama. Paul rendeu-lhe homenagem em “Let It Be”, dizendo invocar sua presença em momentos difíceis (‘... Mother Mary comes to me, speaking words of wisdom ...’). Sempre correu o rumor de que a citada Mary referia-se a Marijuana, porém, não acredito que Paul iria brincar com o nome da própria mãe.
O disco está sendo levado na mais nova excursão de Paul, “US”, novamente somente para olhos, ouvidos e corações americanos. A patuléia ignara do ‘resto do mundo’ terá que esperar pelo DVD. Bem, claro que, no palco, ele está acompanhado de vários instrumentistas, não dá para reproduzir a mágica de estúdio. O nome da excursão é, novamente, um magnífico duplo sentido com o nome do país US (United States) e a idéia de compartilhamento ‘Us’ (Nós), em contraponto a ‘Me’ (Eu), garantindo que, no palco, não está sozinho, como no disco, ou ainda, dando uma idéia de união entre ele e o público que o ouve. Mais uma vez, Paul é partícipe de um “Pela primeira vez ...”: em uma das ‘performances’ do show, Paul e sua banda acordaram os astronautas da Estação Espacial Internacional pela primeira vez com uma performance ao vivo. Normalmente, os astronautas são acordados por música gravada. As canções escolhidas foram “English Tea” e “Good Day Sunshine”, esta última de ”Revolver”, muito apropriada para quem está acordando com a luz do sol batendo firme nos olhos, como nenhum outro ser humano pode apreciar. Vi a cena: lá no alto, dois astronautas, um americano, que dava piruetas de felicidade, em gravidade zero, ao lado de um soviético que parecia não estar lá muito bem entendendo o que se passava.
Bem, como já visto, Paul adora nomear suas excursões de maneira inteligente. A do ano que vem, como eu previra há anos atrás em conversas com amigos, deverá se chamar “Now I’m 64, clara alusão ao grande sucesso “When I’m 64”, uma canção ao estilo vaudeville lançada em ”Sgt.Peppers...”, em que ele se imagina velho, caído, temeroso se ainda teria a companhia de sua amada, numa situação de futuro então muuuuito distante: ‘Will you still need me, will you still feed me, when I’m sixty-four?’. Em 18 de junho de 2006, ele completará 64 anos e, se tudo correr como planeja, ainda estará muito ativo, rodando, desta vez, pelo mundo, encantando a galera. Felizmente, o Brasil está em seus planos!
O título deste artigo foi inspirado em uma coincidência tripla. O segundo disco que ouvi da encomenda foi o novo lançamento de outros sessentões, que também estão ainda ‘Rolling’: os Stones. Profético foi Mick Jagger ao nomear a banda, lá no início da década de 60, baseado em uma passagem de um grande sucesso de blues que dizia: ‘Rolling stones gather no moss’, traduzindo, ‘Pedras que rolam não criam limo.’. E eles vêm seguindo aquela máxima há mais de 40 anos: para não criar limo eles seguem na estrada, nunca ‘disbanded’, como fizeram os Beatles, Pink Floyd e tantas outras bandas de rock, continuam fazendo shows pelo mundo. Quando morreu um importante membro, Brian Jones, substituiram-no e seguiram adiante, ao contrário de Led Zeppelin, que encerrou a carreira quando morreu o baterista John ‘Bonzo’ Bonham. Enfim, seguem fazendo seu rock’n roll. Se bem que, no caso deles, já entrou na categoria ‘Rug’n Roll’. Dá pra notar a idade deles, mas só nas faces: no palco, a energia, principalmente de Mick, é contagiante. A máxima deles é bem direta, já admitiram: se dá para seguir faturando, por que não? A segunda parte da coincidência também é porque eles também produziram o melhor disco deles em muito tempo! Não sou especialista na carreira deles, mas garanto ser o melhor dos últimos cinco que ouvi. São 16 canções (foram até mais generosos que Paul), todas de autoria Jagger/Richards, umas poucas baladas e muito rock, blues e ritmos dançantes. Uma última parte da coincidência fica por conta do título do disco: “A Bigger Bang”, portanto, como no disco de Paul, falando em ‘Criação’.
Bem, comecei este papo, vejam bem, apenas para recomendar o novo disco de Paul, acabei falando sobre sua carreira solo, e terminei, vejam só, mudando até de artista! A sorte de vocês é que ainda não ouvi o terceiro disco, o último dos Titãs, outros que admiro muito e que caminham a passos largos para se tornarem dinossauros do rock.
Abraço!

sábado, 5 de novembro de 2005

Quinta-feira 2: Halloween e Jogos Mortais

         A semana começou com a Globo emplacando na Tela Quente, em homenagem ao feriado tipicamente americano, o filme “Halloween 13”, ou “7”, ou “9 e meio”, sei lá. Não havia planejado perder meu fim de noite com um filmezinho de terror B, já que rolava no SporTV o ‘Bem Amigos’, o programa de toda segunda que sempre prende a atenção dos amantes do esporte,  apesar do comando irritante do Galvão Bueno. Só que, numa passeada do indefectível controle-remoto, vejo a marcante máscara de Michael Myers colada ao rosto de Jamie Lee Curtis, ambos pendurados, Michael aparentemente morto, enforcado. Jamie tenta tirar-lhe a máscara, para conferir, ao que ele ‘ressuscita’ pela 72 vez e enfia o facão que ainda segurava, nas costas da pobre heroína. Prestes a morrer, ela beija a boca da máscara e diz: “See you in hell” e despenca, morta, de algo como 10 metros.
Era, pelo horário, a cena inicial do filme. Jamie Lee havia sido a heroína do primeiro filme da série, uns 20 anos atrás. A cena foi plástica, interessante e resolvi continuar. Bad move. O resto do do filme foi uma repetição do mesmo esquema dos anteriores: adolescentes invadem casa escura, desdenham do perigo, e vão sendo implacavelmente eliminados, degolados, esmagados, perfurados pelo implacável vilão, um a um. O único ponto bom do filme é a expressão do psicopata nato Myers, por mais que pareça estranho admirar uma expressão em um personagem de máscara. Parece brincadeira, mas dá para se notar o prazer do assassino com o sofrimento da vítima, observando-a morrer, dando aquela inclinadinha na cabeça, sem expressar nenhum som. Acho que é esse o encanto do filme, talvez o fato que tenha mantido a franquia viva por tanto tempo.
“Sexta-Feira 13” segue na mesma linha: psicopata-mudo-aniquila-jovens-ingênuos-de-forma-sangrenta. Neste caso, o psicopata Jason Voorhees nasce normal mas se torna maníaco (nature x nurture). Teve várias sequências, cada vez mais sangrentas e menos interessantes. Depois, “Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado”, mesma fórmula, porém menos sucesso. “Pânico”, idem, porém caminhando um pouco mais para o lado do humor. Um pouco diferente, mas com grande sucesso, e muitas seqüências foi “A Hora do Pesadelo”: o feioso vilão Freddy Kruger vem dos pesadelos juvenis e aniqüila-jovens-ingênuos-de-forma-sangrenta.
“Quinta-feira 2” não é nenhum novo filme de terror, apenas é o dia em que vi, pela primeira vez na tela grande, um filme da nova sensação do terror “Jogos Mortais III”. Vi os dois primeiros na tela pequena, aproveitando uma maratona do Telecine, que mostrou os 2 primeiros em carreirinha, numa noite de sábado, e eu gravara em vídeo. O milênio virou e parece que a imaginação dos cineastas do terror melhorou bastante.  Vi os 2 filmes sem desgrudar os olhos, sem sair de cima.
O título em inglês, “Saw”, tem sentido duplo, já que remete a “serra”, um instrumento que aparece logo no começo do primeiro filme, mas também a “JigSaw”, alcunha com que a polícia nomeia o vilão, devido aos engendrados quebra-cabeças que o vilão apresenta. Se quiserem, um terceiro sentido pode ser aplicado: as vítimas viam (“saw”), não vêem mais nada depois do filme! Os ambientes são sempre escuros e lúgubres. As vítimas aparecem já presas em simples correntes ou em sofisticadas armadilhas, sem saber absolutamente como foram parar ali. Encontram pequenos gravadores ao seu alcance, ou aparelhos de TV que repentinamente ligam. Em ambos os meios, seja por voz, ou pela imagem de uma máscara aterrorizante, há uma mensagem do vilão, propondo um jogo à vítima, mais ou menos sempre com a mesma mensagem, em voz disfarçada: “Hello John Doe, você está ferrado, mas pode se safar dessa, se sofrer ‘um pouquinho’. Você não deu valor à dádiva da vida, mas eu lhe dou a chance de se redimir. Let The Game Begin!” Este último, o mote presente em todas as mensagens. Portanto, aqui, as vítimas não são jovens inocentes, mas adultos com algum tipo de culpa no cartório.
O que se segue, são momentos ainda mais tensos, dá pra sentir o desespero dos pobres tentando seguir as regras do jogo para escapar da armadilha. Algumas explicações aparecem em flashback (e só então vemos um pouco de luz do sol, bem pouquinho!). Há policiais tentando decifrar o misterioso quebra-cabeça. No primeiro, o obstinado é vivido por Danny Glover, o único ator de renome de toda a série. Ele devia ter seguido o mote de seu personagem em “Máquina Mortífera”: “I’m too old for this shit”. Pobre Danny, fica difícil enfrentar um vilão que não se vê e que parece conhecer profundamente a alma humana. E, interessante, um vilão que não mata suas vítimas. Elas se matam por si só, ou se matam entre si, como acontece no segundo filme. No segundo, o filho do policial investigador é uma das potenciais vítimas, deixando o cara doidinho. Neste, como direi, episódio, o vilão mostra sua cara e trava com o infeliz policial diálogos chocantes.
Não há momentos de alívio, ou ‘comic reliefs’, como dizem os cinéfilos. Muito menos um ‘sex relief’, como acontecia, invariavelmente, na fórmula tradicional, em que potenciais vítimas têm alguns momentos de alegria, se entrelaçando e aparecendo alguma parte feminina de relance. Aqui, é a técnica ’no relief’ 100% do tempo. Você não dá um sorriso, a face fica tensa o tempo todo, vez por outra você fecha os olhos, solta pequenos murmúrios de espanto, não acreditando a que é que o/a pobre está se submetendo lá na tela. A tensão só termina no “The End”. E mesmo assim, você não se levanta imediatamente, fica pensando, tentando entender aquilo que se passou.
Acresça-se ao clima, roteiros bem armados, coerentes, que sempre reservam uma surpresa aterrorizante e surpreendente (sem temer a redundância, dado o nível de inesperado da coisa) para o cinespectador. Pena que não dá para contar, senão perde a graça! Dá apenas para garantir que é d-e-m-a-i-s! O interessante é que algumas aparentes incongruências de um filme são explicadas nos filmes seguintes. Apesar de não ser essencial, é recomendável que se os veja na sequência natural. E, de preferência, sem a presença da cara metade. A não ser que ela seja forte e absolutamente resistente a susto e sangue. Deu pra ver na fila do cinema que a recomendação é naturalmente atendida: de 44 pessoas de uma amostragem que fiz, contei apenas 9 mulheres. Vi grupos de jovens, alguns poucos casais e vários solitários, como eu.
Está disponível, para empréstimo, a fita com os 2 primeiros. A qualidade não é a melhor possível, já que tive que usar a velocidade menor de gravação. Acho mesmo que a melhor opção seria alugar o DVD, já que se pode ter a melhor visão do estrago todo, na visão wide-screen, e no som digital, de preferência dolby, para que sintam um pouco, somente um pouquinho, do singelo ambiente.

segunda-feira, 25 de julho de 2005

Copa del Rey

A caminho de África, tivemos que passar en España para obter o visto da Guiné Equatorial, uma das poucas ex-colônias espanholas no continente. Então, tivemos que gastar um sábado em Madrid, que lástima! Após a obtenção do visto, fizemos um tour naqueles ônibus de dois andares, sem teto no segundo, em que íamos parando nos pontos de interesse, conforme a nossa vontade, pegando o ônibus seguinte e assim íamos. Sobre pontos turísticos, destaco apenas um, em homenagem a um de meus ídolos de infância, inspirado na obra de Monteiro Lobato: fiz questão de tirar uma foto ao lado do monumento a Dom Quixote de La Mancha, empunhando uma lança imaginária, tal qual fazia o louco que tentava derrotar moinhos de vento, cavalgando Rocinante, acompanhado de seu fiel e resignado escudeiro Sancho Pança.  Coincidência feliz, celebra-se este ano 400 anos do lançamento da genial obra de Cervantes. Outra coincidência interessante do ponto de vista, digamos visual, é que naquele exato dia ocorria o movimento “Desnudos ante el tráfico, justicia en las calles". Bastante pitoresco, eu diria, observar centenas de jovens completamente nus, em cima de bicicletas e patins, que protestavam por uma maior consciência dos motoristas com os transeuntes não motorizados, uma redução do número de carros e um maior uso do transporte coletivo.
Pudemos observar que a cidade estava invadida por verdes e vermelhos. Os primeiros, torcedores do Bétis, de Sevilha, os últimos, torcedores do Osasuña. Os times disputariam, naquela noite, o título da Copa Del Rey, o equivalente espanhol da nossa Copa do Brasil. O jogo seria realizado no Estádio Vicente Calderón, do Atlético de Madrid. Lá, como aqui, ocorrem as zebras, daí não vermos um Real ou um Barcelona disputando o título (vide Flamengo e Fluminense!).  O Osasuña, inclusive, nem está na Premierleague (lembram-se de Santo André e Paulista?)! Pudemos perceber a paixão dos espanhóis pelo futebol, diria até, mais barulhenta que a nossa. Conversamos com torcedores, fomos entrando no clima, começamos a achar que seria um bom programa para a noite, entretanto, fomos alertados da “quase” impossibilidade: dos 55.000 ingressos, 25.000 foram destinados a Sevilha, 15.000 para Osasuña e 15.000 nem foram colocados à venda, pois estavam destinados a convidados e autoridades espanholas, afinal, não são todos os jogos que têm a presença do Rei de España. A notícia foi suficiente para desanimar os outros integrantes da nossa comitiva  ......   menos eu! O “quase” foi suficiente para deixar acesa a chama! O jogo era às 21:00, porém, como tínhamos reunião com o representante da embaixada, acabei somente ficando livre às 20:40, mesmo assim, fui! À 21:10, estava na bilheteria do estádio, que confirmou o temor inicial: “No hay boletos”. Entretanto, vendo minha cara de decepção, o “boletero” disse-me para tentar o portão de entrada. Fui à mais próxima borboleta e perguntei (perguntar não ofende!): “Hay boletos?”. O sujeito olhou para um lado, para o outro e disse, em voz baixa; “Si, tengo, pero le custará 100 Euros!”. Sabia que o bilhete custava 60 Euros e retruquei: “Ochenta!” e, ele disse: “Ok, pero de una vuelta y vuelva  preparado!” Entendi que queria o dinheiro na mão para passar-me o ingresso. Assim fiz, assim obtive a permissão para entrar. Vejam o ingresso:

Subi as escadarias e cheguei ao “Vomitorio 39” (é assim que eles chamam os setores da arquibancada em anfiteatro) com 20 minutos de jogo. Por sorte, aquele “vomitorio” e muitos outros ao lado dele, estavam ocupados por torcedores do Bétis, time pelo qual decidira torcer, devido à presença de Ricardo Oliveira, Edu e Marcos Assunção. Entretanto, claro que meu lugar, lá longe, já estava ocupado por um simpático torcedor de camisa verde, assim como todos os demais. A pequena escadaria da arquibancada já estava tomada, então, resignei-me a assistir ao jogo em pé, não seria a primeira vez. O jogo foi bom, teve bons momentos, Ricardo Oliveira fez gol, mas o melhor foi a torcida, aliás, as duas. O momento mais emocionante foi a hora em que o Bétis marcou o segundo gol e a torcida que mais gritou foi a do Osasuña, para não dejar la pelota caer. Ao final, vitória do Bétis, 2x1. Os dois times subiram ao camarote real e o capitão do Bétis recebeu a Copa del Rey, de las reales manos Del Rey.

Posso garantir que valeu cada momento e cada gota de suor!

Acho mesmo que poderia aproveitar o marketing Credicard para descrever:
·         Ingresso na mão de cambista .........                               80,00 Euros
·         Metrô 10 viagens     ..........................                                  5,60 Euros
·         Coca Cola       ......................................                                 2,50 Euros
·         Assistir a uma final de Copa pela primeira vez, assistir a um jogo na Espanha pela primeira vez, sentar em um vomitório, perceber que cambista tem em todas as línguas, presenciar duas torcidas cantando 100% do tempo, ser abraçado por torcedores enlouquecidos que nem te conhecem, assistir a uma prorrogação pela primeira vez, estar presente em um mesmo recinto que um Rei ............                                                          
                                                  Não tem preço!!!!

segunda-feira, 25 de abril de 2005

This Is Africa

Ainda com as palavras do meu amigo da Nigéria .....

“Se, por acaso, você não tiver sido encontrado (por um agente da empresa) depois de passar pelo check-out de bagagens, não saia do aeroporto em hipótese alguma. Da mesma forma, nem pense em pegar um táxi, pois correrá risco de vida (sic).”

“A malária é uma doença endêmica na África, e pode se manifestar em duas formas: malária recorrente, tipo amazônica, e malária do sangue, conhecida como malária cerebral. A malária cerebral é a mais comum na Nigéria, e pode matar, por hemorragia no cérebro, em até 72 horas.”
.... na cabeça, terminou o vôo.

         Mas a chegada no Aeroporto Internacional de Lagos foi tranqüila.  O agente lá estava para me receber e abrir os caminhos na imigração. As malas demoraram 20 minutos para chegar (e chegaram!), esperava bem mais, pela experiência dos colegas. Entrei no carro que me levaria ao hotel. Um carro cheio de luzes seguia à frente do meu carro para abrir os caminhos. De vez em quando, o motorista da frente chamava o meu com a mão para ficar mais próximo, não deixando muito espaço entre os carros. Uma certa hora, meu motorista deu uma diminuída, fiquei assustado, pois o carro da frente se afastou, entretanto era apenas uma lombada que ele sabia existir (calma!). Pelas ruas, pobres, sem calçada, muitos nigerianos caminhavam, outros subiam em vãs em péssimo estado apinhadas de gente, deve ser o único meio transporte do povo. Muitos estavam em roupa de festa, aquelas todas coloridas, afinal era sábado. Sinais de trânsito eram ignorados, sempre que possível. Cerca de 25 minutos de viagem, de repente, o comboio entra em uma rua de terra, cheia de buracos, pensei: é o fim. Nada disso, apenas era a rua do Hotel Sofitel. Claro que eu esperava que, ao menos, o hotel ficasse numa rua de asfalto. O prédio, novo, é de 3 andares. A recepção, nada de balcão, apenas uma mesa, dois atendentes. A diária, 300 dólares! O quarto, muito bom. Nem passaram 3 minutos, o telefone tocou, era Samir dando boas-vindas e convidando para jantar em sua casa, dizendo que mandaria a “carruagem” me pegar às 8:00. Soneca, banho, 8 em ponto, chegaram, Mr. Venturrrrá. No caminho de 10 minutos, já escuro, notei que iluminação de rua é coisa raríssima. Destacava-se a iluminação exterior de algumas casas. Chamaram-me a atenção 3 “barbearias” em plena atividade noturna, na verdade, uma parede de rua, descoberta,  com uma luz fluorescente, uma cadeira, um barbeiro e um cliente. Diferente! A casa de Samir, bem grande, foi conseguida devido à fusão da Total com a Elf, 2 companhias francesas, daí, 2 Gerentes Gerais viraram 1, sobrou uma casa. Segundo Samir, era uma oportunidade imperdível, pois, conseguir uma casa em Lagos que já esteja operacional, funcionando, pronta para morar, com gerador gerando, seguranças ‘segurando’, cozinheiro cozinhando, poço de água ‘aguando’, ar condicionado ‘condicionando’, enfim, tem um valor inestimável! Levaria meses para conseguir algo assim. Samir tem 2 filhas do primeiro casamento, 20 e 18 anos, que estão no Rio. Sua esposa Eliane, advogada da Petrobras em licença, tem 3 filhos do primeiro casamento, um com 12 e dois com 9 anos (menino e menina) que estão aqui com eles, estudando em escola americana. Eliane deu sorte de não ser nigeriana do interior do país: há certas tribos em que, até pouco tempo atrás, quando nasciam gêmeos, um deles era morto, pois “É coisa do demônio!”. Para compensar, faziam uma estatueta parecida com a criança morta pois, de vez em quando, o irmão que fora poupado sentia saudades (!). Bem, o jantar, muito bom, foi preparado pelo cozinheiro do Benin. No papo, muitas histórias sobre as peripécias de se viver na Nigéria: i. o sempre surpreendente (para pior) relacionamento com os provedores de serviço, exemplo, ar condicionado quebrado, eles sempre vem em grupo (meia dúzia), olham daqui, dali, dão umas batidinhas no aparelho, na parede, confabulam entre si no dialeto local e nem sempre resolvem; perguntado sobre o motivo de virem em bando, a resposta é “Help to think, madám!”; ii. as dificuldades de se acostumar com o inglês nigeriano, não se incomodam com tempo de verbo, por exemplo, “I go airport” pode significar que vou, que fui, que estou indo, que irei, enfim, isso acontece principalmente com o povão que lida com serviços (o da galera formada é mais correto, um pouco!); iii. o tempo que demorou para Eliane se impor, mesmo com os empregados, pois mulher e nada é a mesma coisa por aqui: só dão valor para o Master, ou Ogá (senhor, em Iorubá, o dialeto daqui). A esta altura, 4 anos por aqui, ela já aprendeu a lidar com todos eles, já respeitam a Madám; iv. a dificuldade de se acostumar com os modos, exemplo, receberam um nigeriano para um jantar, conversavam, uma bela hora o senhor convidado pediu para Madám deixar o recinto pois precisava conversar a sós com Samir (!), depois, péssimos modos à mesa, derrubando 2 taças de vinho e completando com o palito de ouro que tirou do bolso e usou sem tentar cobrir a boca . Samir contou da segurança, da porta de ferro que isola o segundo andar da casa quando se recolhem, do Panic Button em vários locais da casa, a ser acionado quando Samir sentir-se ameaçado, provocando a chegada quase imediata de seguranças israelenses altamente especializados para proteger estrangeiros, enfim, a vida é em estado de alerta constante. Sobre a história da malária, ele diz que a mensagem de boas vindas ao viajante é toda verdadeira, o tom duro é para deixar o viajante alerta. Na verdade, basta ter cuidado de não estar parado na rua (se for obrigado, melhor andar rápido) ao amanhecer e ao anoitecer, ficar sempre em ambiente refrigerado, enfim, não dar sopa para o azar. Samir já teve, as crianças também, Eliane, não. Segundo ela, dizem que quem foi picada de cobra como ela, tem uma certa imunidade, não comprovada, contou detalhes sobre seu envenenamento quando era criança, em um sítio, assustador, pois parece que o soro antiofídico tem uma chance de 30% de causar choque anafilático (!) daí eles não ficam aplicando a torto e a direito, ficam monitorando o sangue para saber a quantidade de veneno que a víbora injetou na mordida, no caso dela, tinha sido a bolsa toda, demoraram demais a aplicar, chegou a ficar em coma, e correu risco de amputar o pé, caramba! Samir diz que os sintomas da malária são evidentes, um cansaço absoluto que derruba. Um remédio dose cavalar e 24 horas depois, se está pronto pra outra. Eliane diz que o triste é ver a criança doente, caidinha e impressionante ver como a melhora é rápida. Enfim, aguardemos! Comentaram também que o custo de vida aqui é igual ou superior a Londres. Sempre que vão ao Brasil, voltam com todos os direitos de bagagem completos com víveres tupiniquins: feitas as contas, parece que dá para economizar uns trocados consideráveis. Na volta para o hotel, comecei a escrever este o segundo semanário, e o fiz até 4 da manhã.
Acordei às 10 no domingo e fui testar o fitness room do hotel. Pequeno e simples, porém bem equipadinho, duas esteiras, uma bicicleta, um step, alguns pesos e um Gladiator, aquele aparelho que tem múltiplas funcionalidades de musculação. Fiquei somente no step, por 55 minutos, enquanto assistia, pela BBC, a Maratona de Londres (bom ver imagens da cidade, agora com um conhecimento bem maior dela). Destaque absoluto da maratona, a corredora inglesa Paula Radcliffe, uma loira que fracassou miseravelmente na Olimpíada de Atenas, lembro-me como ela desistiu no meio do caminho. Desta vez, não teve pra ninguém, terminou em 2:17 horas, cerca de 5 minutos à frente da segunda colocada, uma romena que ganhara no ano passado. Interessante que vê-la correndo, lembrou-me muito o finlandês voador Emil Zatopek que, nos anos 50, venceu 2 maratonas olímpicas, além de várias provas de 10.000 e 5.000 metros, coisa dificílima em uma mesma competição. Zatopek corria com uma expressão de sofrimento que parecia que ia desabar nos metros seguintes. O mesmo, porém não tão intensivo, se vê na expressão de Radcliffe, que corre meio torta, mexendo a cabeça constantemente. Ao longo da corrida, iam mostrando alguns destaques de sua carreira: vencedora da mesma maratona em 2002 e 2003 e detentora da melhor marca mundial feminina em maratonas, 2:15 e qualquer coisa. Não se pode chamar de recorde mundial (a FIA não deixa), pois os percursos de cada maratona são diferentes uns dos outros. Na maratona masculina, ganhou o queniano de plantão, nenhuma novidade. O tempo foi de 2:08, ou seja, a diferença entre homem e mulher está em menos de 10 minutos: nunca foi assim, agora, Paula Radcliffe veio mudar aquele estado de coisas. Magnífica! Bem, ao meio dia, pontualmente conforme combinado no dia anterior, Samir estava lá embaixo para me levar ao tradicional programa brasileiro: churrasco com outros expatriados! O local é o condomínio de Júlio e Terê, onde também moram Nicoletti e Ilei, todos chegaram na mesma época e escolheram o local em conjunto. Não conseguem picanha e outros cortes por aqui, não se pode importar carne, então tem apenas filet mignon, frango e costela de porco, muito bom! Cerveja gelada, caipirinha, dia ensolarado, banho de piscina, papo ótimo, passamos algumas horas bastante agradáveis. Samir disse que estão todos se mudando para um prédio de apartamentos novo, para que todos os expatriados fiquem numa mesma locação. Pena que vão perder aquele local, ponto de referência nos domingos.
Bem, era isto, não sei se terei tempo para continuar meus diários de bordo, portanto ficarão livres de minhas mensagens. Usarei as próximas noites para fazer um resumo do curso de Londres e também o relatório desta minha estada profissional em Lagos.

quarta-feira, 20 de abril de 2005

Mãos Vazias, Mente Iluminada (11-15.04.2005)

Este é o relato da segunda semana da viagem, última em Londres. Saí de lá com as mãos vazias e com a mente iluminada. Mãos vazias por ser impraticável comprar qualquer coisa naquela terra: pode-se se dizer que, muitas vezes, algo que custa 10 reais no Brasil (talvez um pouco mais) pode ser encontrado por 10 dólares nos EUA, por 10 Euros na Europa continental e por 10 libras na Inglaterra, com os evidentes impactos cambiais que isso acarreta, já que 10 libras valem 15 euros que valem 20 dólares que valem 53 reais. Mente iluminada, pois, além das informações, técnicas e conselhos angariados durante o curso em si, as caminhadas da primeira semana e as incursões noturnas da segunda semana deixaram lembranças indeléveis em minha memória. Ao final, relato dos primeiros momentos nigerianos, que certamente, também ficarão na memória.
A Life in the Teatre
Na segunda-feira, cansado que estava do fim de semana de andarilho, nada fiz além da já tradicional rotina aquática e aproveitei para elaborar 90% do primeiro semanário. Já havia pesquisado como estava o movimento de Mary Poppins, e ficara frustrado por saber que não havia mais ingressos baratos para terça e quarta-feira, únicas noites que teria disponível. Decidi, então, tentar ficar à porta do teatro na própria terça-feira, aguardando um “return ticket”. Ao final do curso, na terça-feira, parti para o East End de Londres. Aquela região é povoada por teatros: são mais de 40, não é à toa que também é conhecida como Theatreland. Bem, desci do ônibus em Picadilly e caminhei pela Shaftesbury Avenue em direção ao Prince Edwards Theatre, quando vi uma foto enorme de Patrick Stewart: ele estava em cartaz no Apollo Theatre com a peça A Life in the Theatre, que estava em seus últimos dias. Não poderia perder a oportunidade de apreciar a qualidade daquele ator shakespeareano que tanto admirava, desde sua brilhante atuação como o capitão Jean Luc Picard, de Jornada nas Estrelas - Nova Geração. Mudei os planos: segui adiante e consegui comprar um ingresso barato para ver Mary Poppins na quarta-feira: o que ocorre é que eles não colocam 100% dos ingressos à venda pela internet e nos pontos de venda, deixando uns poucos para os pouco previdentes que preferem comprar ingressos na hora. A restrição é que o “cheap ticket”, de 15 pounds, que comprei, era com “restricted view”, segundo o bilheteiro. Voltei ao Apollo e comprei um ingresso um pouco mais caro, 20 pounds, afinal, o ator era a motivação para minha presença ali e eu queria vê-lo um pouco mais de perto, o que não era um problema, com relação a Mary Poppins. Bem a peça, que já estava em cartaz há 2 anos, foi ótima: somente Patrick Stewart e um jovem americano Joshua Jackson. Interessante um comentário presente no folheto: “It is now proved: American actors can act!”. Versa sobre o relacionamento entre dois atores, um em começo de carreira e o outro veterano que inveja constantemente a jovialidade do primeiro em variadas situações e cenários, sempre com a visão de cochia, permeada com momentos de muito humor e também emoção. Perfeito! Mas, claro que não foi a mesma emoção experimentaria no dia seguinte.

Mary Poppins
O filme, de que tanto gostei na infância, foi transformado em musical. Achei que não teria grandes emoções, pois, afinal, já sabia a história de cor e salteado. Ledo engano! Bem, primeiro a boa surpresa de que a tal de “restricted view” nada mais era do que ter que assistir a peça de lado e debruçado sobre a murada do balcão nobre; nada demais, vi perfeitamente 95% do cenário e no mesmo nível de quem havia pago 30 pounds. A casa estava lotada! Depois, o musical é 10, 100, 1000!! A atriz principal se parece com Julie Andrews, o ator principal se parece com Dick van Dyke, tem as mesmas pernas enormes e desengonçadas. Todos cantam muito bem, inclusive o casal de crianças. As coreografias são magníficas. Os efeitos de mágica de Mary Poppins são perfeitos, quase os mesmos do cinema, claro, com as limitações de palco: Mary Popppins voa, faz aparecer “lamp floors” e plantas decorativas de dentro de sua maleta, sobe deslizando pelo corrimão da escada, faz bolos aparecerem do nada, enfim, diversão garantida! E as canções, A Spoonful of Sugar, Chim Chimney, Supercalifragilistiexpialidocious, Practically Perfect,  são maravilhosas, recordo tão bem desde menino. As execuções delas, com a coreografia de mais de 20 atores bailarinos, são de chorar! E chorei mesmo, a cada final de canção, a cada momento terno, de cair lágrimas (sou um bobão!). Um casal de jovens do meu lado até percebeu. Não precisa dizer que valeu cada pound pago. Além disso, no final, numa espécie de bis, eles repetem o final de Supercalifragilistiexpialidocious (adoro escrever esta palavra!), o momento mais arrebatador do espetáculo. Sem dúvida, vai para a Broadway e vai ficar 10, 20 anos em cartaz. Sempre haverá crianças para admirar um espetáculo como esse ….. e adultos que ainda não cresceram também!

Farewell Dinner
Não, não se trata de mais uma peça de teatro ou musical. Foi o jantar de despedida, oferecido pelos organizadores, num hotel próximo ao local do curso. Foram quase todos, foi muito divertido. Ali, ficamos sabendo que o colega da Geórgia é primeiro irmão, ou seja, irmão do presidente do país dele. Bem que eu sabia que já havia ouvido o sobrenome dele, Saakashvili. Ele vai se casar em setembro e disse que vai convidar a todos nós, e um dos colegas nigerianos prometeu que estará lá. Comentamos vários aspectos que fomos conhecendo uns sobre os outros ao longo dos 10 dias: sobre a colega do Egito, que entrou na universidade com 16 anos e se formou com 19; o colega da Escócia, que vai para o Egito e já morou 10 anos na Itália; a colega do Canadá, que está na Líbia e leva o marido a tiracolo, pois o trabalho dele é investir, o que pode fazer de qualquer lugar do mundo; a informação do colega da Croácia de que o país dele é belíssimo para o turismo e tem mais de 1000 ilhas (pensei que essas coisas só aconteciam no Oceano Índico em países como Filipinas e Indonésia!), do colega do Canadá que mora na Tanzânia e é casado com uma tanzaniana (encontrara os 2 na escada rolante do metrô, no sábado); do colega da Holanda que é casado com uma descendente de indonésios, país de colonização holandesa. Em conversa com nosso professor galês sobre humor inglês, ele aproveitou para dar um exemplo de como a comunicação corporal é importante: Mr. Bean não abre a boca e é sucesso absoluto no mundo todo. Comentei sobre minha admiração por Monty Piton e ele recomendou que comprasse um DVD de uma série de TV, chamada “Yes, Minister!”, que sarcasticamente, critica de maneira brilhante o governo britânico. Pena que o sistema de cor britânico impede absolutamente que eu aceite o conselho: nada de vídeo deve ser comprado na Inglaterra, com a intenção de ser visto no Brasil, aprendera isto há muito tempo. Falando em governo, ele comentou que se decepcionou muito com Tony Blair por um aspecto que nós, de fora, não sabemos: os membros da Câmara dos lordes tinham seu posto garantido por hereditariedade, o que vai totalmente contra qualquer princípio democrático. Blair prometera brigar para acabar com isso. E cumpriu: agora, os membros são indicados por ele!!! Bem democrático, não? Na saída, a caminho do hotel, o colega da Escócia comentou que ia fazer naquele momento uma coisa que não gosta nem um pouco: despedir um engenheiro! Disse que havia dado todas as chances e mensagens possíveis para reverter a situação, porém ele não mudou de comportamento. Iria fazê-lo à distância e àquela hora, por recomendação dos advogados da empresa dele, de maneira a possibilitar que, assim que ele souber, já estejam cortados todos os vínculos, de forma a proteger as informações da empresa, evitando possível sabotagem. Essa é realmente uma experiência que nós, da Petrobras, não temos. 

The Australian Pink Floyd Show
Como havia dito, encerraria minha estada em Londres com chave de ouro. Agora, qualifico um pouco mais: ouro 24 quilates! O local não poderia ser mais propício, o Albert Hall, de magnífica arquitetura vitoriana, em homenagem a Albert, marido da Rainha Vitória, que reinou durante o período da revolução industrial. Interessante que a casa estava com mais de 50% de lugares vagos até 7:55 e, em 5 minutos, encheu completamente. O lugar em que eu estava, de preço médio, era ao lado da platéia, porém, as cadeiras são giratórias, portanto, não fiquei nem com torcicolo! O show, nada mais que uma banda cover de Pink Floyd, que anda pelo mundo tocando Pink Floyd, porém com o detalhe de que os instrumentistas são absolutamente perfeitos, magníficos e os vocalistas são especiais: os que cantam as partes originalmente de David Gilmour (são 2) têm a voz  muitíssimo parecida, já o que canta as partes de Roger Waters, apesar do timbre parecido, não tem a mesma potência. Os solos de guitarra são i-d-ê-n-t-i-c-o-s aos originais, o saxofonista toca e-x-a-t-a-m-e-n-t-e igual ao que se ouve nos discos. No telão, redondo, marca registrada (com patente e tudo) pelo Pink Floyd, passam videos muito parecidos com os originais, com o detalhe bem humorado da inclusão da figura do canguru australiano, exemplo, as cabeças dos martelos marchantes de “The Wall” são cangurus correndo, o homem pegando fogo de “Wish You Were Here” aperta a mão de um canguru, quem voa entre as chaminés de Battersea Power Station de “Animals” é um canguru, ao invés de um porco, enfim, por aí vai. As canções, na ordem, foram: “In The Flesh”, “Learn To Fly”, “Astronomy Domine”, “Money”, “Us And Them”, “Why Don’t You Talk With Me”, “Echoes”, “Shine On You Crazy Diamond”, “Welcome To The Machine”, “Hey You”, ”Time”, “A Great Gig In The Sky”, “Have A Cigar”, “High Hopes”, “One Of These Days”, “The Happiest day Of Our Lives”/”Another Brick In The Wall”, “Comfortably Numb”, e, no bis, “Wish You Were Here” e “Run Like Hell”. (Ufa! Claro que anotei durante o show!). Ponto fraco: nem uma canção de “Animals” ou “Atom Heart Mother”, esperava ouvir “Sheep” e “Summer of 68”, porém, perdôo-os. Pontos altos: a platéia estava adorando tudo, mas, a primeira vez em que veio abaixo, e aplaudiu de pé, foi com o desempenho da cantora “backing vocal” em “A Great Gig In The Sky”, perfeito, i-g-u-a-l-z-i-n-h-o ao ouvido em “Dark Side Of The Moon”, com a mesma energia, coisa que nem os shows da banda original haviam conseguido, ao menos os que eu ouvi em vídeo. A loira, realmente, arrebentou! Depois, durante “One Of These Days”, o apoio inflou um enorme canguru sorridente de borracha, da altura do palco e, quando a música começa no ritmo batido, eles fazem o canguru dançar no ritmo, a platéia adorou! Depois, os solos finais, a-r-r-e-b-a-t-a-d-o-r-e-s, de “Comfortably Numb”, a platéia berrava, melhor dizendo, urrava de satisfação, nem parecia aquele grupo de respeitáveis senhores (e algumas senhoras) cinquentões, comportadamente sentados em seus acentos, balançando as cabecinhas e acompanhando as músicas durante o show. Foi, seguramente, o bis mais pedido, gritado, que eu já ouvi! Interessante foi notar que eles não fizeram a apresentação individual de cada um dos membros do show, mas acho que entendo: eles certamente acham que se perderia a magia, é melhor deixar todos pensando que ouviram o desempenho dos membros da banda original. Comentei no intervalo com um senhor que eles devem pagar um royalty altíssimo ao Pink Floyd para poderem sair pelo mundo faturando com o material de altíssima qualidade que eles tão suadamente elaboraram durante mais de 20 anos, algo em torno de 80% e ele respondeu que havia lido que, na verdade, o número era ainda maior, era 90%! Chego agora até a entender porque o Pink Floyd nunca mais gravou um disco, desde 1993, nunca mais fez um show, desde 1994, pra quê? Basta ficarem instalados confortavelmente em seus palácios, levando a vida de milionários que são e faturando alto com esta banda viajando pelo mundo. Enfim, Chave De Ouro!!!!! Na volta pra o hotel, fiz um caminho diferente para poder passar em frente aos museus de Kensington, o Victoria & Albert, o de História Natural e o de Ciência e Tecnologia, que não deu para visitar, afinal não dá para agarrar o mundo com as mãos.

Do Vinho para a Água
Novamente, não se trata de mais um show ou espetáculo, apenas o sentimento de quem parte de Londres para ir para Lagos (ao menos, a inicial é a mesma!). Acordei às 3:45 da manhã para pegar um táxi para o Aeroporto de Heathrow. Não poderia pegar o metrô como fiz na chegada, pois estava fechado. A segunda opção mais barata seria um táxi até Paddington e um trem expresso até o aeroporto, que custaria cerca de 25 pounds, porém, o primeiro expresso sairia somente às 5:15, insuficiente para a hora do vôo, 7:05. Então, “vou de táxi, cê sabe, tava morrendo de saudade!”, como já dizia a sábia Angélica. E, na verdade, estava mesmo, não havia ainda usado este tradicional meio de transporte londrino nesta minha passagem por lá. Infelizmente, porém, também está acontecendo a modernização: little by little, os antigos táxis pretos, de formas arredondadas, estão sendo substituídos por modelos mais modernos, aquilinos, cada vez mais coloridos, que lástima! Os táxis vinham mantendo sua tradicional forma desde a segunda guerra. A fábrica continuava produzindo novinhos em folha, 0 km com o mesmo charmoso formato. Os táxis novos, como o que peguei, ainda continuam com aquela magnífica cabine, confortável para 5 passageiros sentados de frente uns para os outros, com muito espaço para malas entre eles, o motorista isolado por acrílico grosso. A corrida foi de 50 pounds, + 6 de “handling fee” por ter que pagar com cartão de crédito, pois não tinha pounds suficientes. Adorei a expressão que o motorista falou quando foi bem sucedido na obtenção do recibo de cartão de crédito com aquele aparelhinho manual: “It came lovely!” . E finalizou com o tradicional: “Thank you very much, indeed!”. É legal como eles indeedeiam o thankyouverymuch na Inglaterra, isto não acontece nos USA. Bem, na primeira perna do vôo, tirei o atraso do sono, 100 minutos até Frankfurt: nem senti o avião decolar, nem vi o serviço de bordo passar. Na segunda perna, para Lagos, aproveitei para ler as últimas 100 páginas de meu querido livro “Londres, o Romance”, só parando para comer e beber. Depois, farei um comentário sobre este magnífico livro. Um dos episódios que mais gostei no vôo foi o das Suffragette Ladies (Mulheres pelo Voto), que brigavam pelo direito de voto feminino no fim do Século XIX, começo do Século XX. Cansadas de tentarem convencer parlamentares e realeza pela palavra e pela abordagem educada, da injustiça que era deixarem as mulheres de fora do processo democrático, estas bravas mulheres partiram literalmente para a porrada, quebrando vitrines de loja, fazendo barulho. A repressão foi forte: elas eram presas, na prisão faziam greve de fome e eram alimentadas à força por tubos enfiados por suas gargantas. Houve mesmo mortes, uma delas, atropelada por cavalos reais. Houve uma passeata memorável em 1911, com mais de 7 quilômetros de mulheres pacificamente bradando por seus direitos mas só conseguiram seu ideal por um singelo motivo: falta de homem! Isso mesmo! Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), homens ingleses estavam no continente europeu, guerreando, morriam aos borbotões, poucos ficaram para fazer o serviço normalmente masculino. As mulheres pegaram no pesado, trabalhando de motoristas, de atendentes, em fábricas de munição, em estradas de ferro e, finalmente, o governo reconheceu seu valor em 1917. Bem, acabado o livro, preenchi os formulários de imigração e me lembrei da mensagem padrão que recebi, assim como todos os viajantes da empresa para a Nigéria e a li novamente, para saber as instruções de chegada. É de autoria do Samir, nosso Gerente Geral e, entre outros conselhos, diz: “Se, por acaso, você não tiver sido encontrado (por um agente da empresa) depois de passar pelo check-out de bagagens, não saia do aeroporto em hipótese alguma. Da mesma forma, nem pense em pegar um táxi, pois correrá risco de vida (sic).” Depois, uma declaração deveras tranqüilizadora: “A malária é uma doença endêmica na África, e pode se manifestar em duas formas: malária recorrente, tipo amazônica, e malária do sangue, conhecida como malária cerebral. A malária cerebral é a mais comum na Nigéria, e pode matar, por hemorragia no cérebro, em até 72 horas.” Nada mal, o avião já estava em procedimento de descida e nada mais poderia fazer, senão rezar!

quarta-feira, 13 de abril de 2005

Semanário de Bordo (4-10 .04.2005)

Depois do promissor domingo, veio uma semana bem interessante, very much indeed!
Segunda-feira:
Começou pela primeira visita “de trabalho” ao The Peak, o clube de ginástica do Carlton Tower, o “sister hotel” de que falei antes. Como ela é no 9o andar, tem uma vista fantástica da cidade, que, não sei se sabem, é basicamente constituída por prédios de 3 a 5 andares. Naquela visita de reconhecimento de campo que fizera no domingo, esqueci de mencionar, tive uma visão: sabe quando, em alguns filmes, uma pessoa ou um grupo estão numa cena aparentemente sem importância, quando de repente encontram um local que os deixa boquiabertos, aparece aquela musiquinha de suspense, depois a câmera muda lentamente para mostrar o que eles tinham visto? A única cena que me lembro no momento é de um filme chamado “Deu a Louca no Mundo”, lá nos anos 60s, em que muitos procuram um tesouro, estão quase desistindo quando percebem que estão bem perto, embaixo de palmeiras em forma de W, que eles tanto procuravam. Aconteceu comigo, olhava a paisagem quando a visão parou numa miragem: uma fábrica enorme, com 4 enormes chaminés.  Me toquei imediatamente: era a mesma fábrica que aparece na capa do LP “Animals” de Pink Floyd, com um porco inflável gigantesco voando entre as chaminés. Planejei imediatamente uma visita ao local. Coisa de maníaco bobo! Bem, voltando ao que interessa, a academia é de luxo, o vestiário é confortável, os armários são de madeira, já vem com chave, que é liberada com o depósito de 1 libra, que se recupera quando se vai embora. As duchas, individuais, têm shampoo, condicionador e sabonete líquido à vontade, depois, secador de cabelo, creme de barbear e até gel para cabelo. Ah, e tem sauna a vapor. Quanto à ginástica, os equipamentos de aeróbica têm TV, que eu assisto com fone de ouvido fornecido por eles, nada mal!  O bebedouro oferece água normal e, pasmem, água com gás (sparkling), pra quem gosta, como eu, uma maravilha! Bem, o local do curso é a cerca de 300 metros do hotel. Lá conheci Patrícia, organizadora do curso, simpaticíssima portuguesa com certeza, com quem já havia falado ao telefone, o pá! Está aqui há 4 anos, e adora o “Brasil”, como não “podria” deixar de ser. A turma, como sempre acontece na indústria do petróleo é global: 3 da Nigéria, 1 (uma) do Egito, 2 da Indonésia, 1 da Holanda (que trabalha em Mônaco), 1 da Escócia (que está se mudando para o Egito), 1 (uma) da Áustria, 1 (uma) do Canadá (que trabalha na Líbia), 1 da França (que trabalha na Tanzânia), 1 da Arábia Saudita, 1 da Croácia, 1 da Geórgia (o país, não o estado americano), 1 da África do Sul e, euzinho aqui, único representante das Américas. E, parece, faltaram 2 da China que não conseguiram visto. O professor que comanda o curso é do País de Gales (portanto, Inglês é seu segundo idioma, palavras dele), a organizadora do evento é de Portugal, enfim, estou em meio a uma salada cosmopolita. Aliás, combinando com a própria Londres, um poço de diferentes povos, encontra-se aqui gente de todos, eu disse todos, os pontos do planeta, a cidade é famosa por isto. No começo do curso, o professor pediu que todos se apresentassem, como era de se esperar, porém inovou na forma e pediu que as pessoas, em pares, se apresentassem uma à outra e esta última faria a descrição do outro. Meu colega era um nigeriano da Chevron, que é pastor pentecostal e, coincidência, conhece e gosta muito do Julio Gontijo, com quem trabalha no projeto Agbami, operado pela companhia dele. O mais interessante da apresentação foi que o professor pediu que todos finalizassem com “3 facts and 1 lie” sobre o colega: os demais tentariam adivinhar qual das 4 era uma mentira. A minha foi sem dúvida a mais interessante. Meu colega disse que eu: i. era beatlemaníaco, ii. era especialista em James Bond, iii. havia perdido 20 kilos nos últimos 6 meses e iv. detestava futebol. Colocado ao plenário, veio a primeira opinião: He is not a beatlemaniac! E eu, Yes, I am! Depois, um segundo: He is not a 007 expert! E eu, Yes, I am! Depois, um terceiro: He has not lost 20 Kilos! E eu Yes, I lost! Pois é, preferiram duvidar de minhas manias e de meu slimming. Na certa, pensaram que um brasileiro detestar futebol era tão impossível que eu não colocaria como mentira por ser muito evidente! Não vou me estender sobre o curso aqui, que será objeto de outra mensagem, tipo relatório, que farei posteriormente. Após o primeiro dia, voltei para o hotel e fiquei em contatos com o Brasil tentando, primeiro, fazer meu telefone funcionar para fazer ligação, pois até aquele momento só estava recebendo. Depois, o computador: o hotel cobra 0,55 libra por minuto pelo acesso a internet de banda larga. Tentei fazer, remotamente, com que meu computador ficasse capacitado a “baixar” as mensagens de um correio, de forma a minimizar o tempo conectado. Não consegui economizar este dinheiro para a empresa. Paciência! Bem, às 8 da noite, voltei ao Carlton Hotel, desta vez para conhecer a parte aquática que ofereciam, que eles chamam de Water Garden. Comecei com uma visita ao “Steam Room”, na verdade, uma sauna a vapor, com o triplo de área de uma sauna normal: dá para ficar caminhando lá dentro. Depois, a piscina ..... estonteante! Acreditem, se quiserem: ela é toda, eu disse, toda, ou seja, piso, paredes e contornos, de aço inoxidável! Azulejo é coisa de pobre! É muito agradável de se nadar: mesmo dividindo a raia, você pode esbarrar na parede que não se machuca, pode não perceber o final da raia, que a borda é arredondada, lisa como aço. A profundidade é de 1,4 metros, o comprimento, de 25 metros, portanto, semi-olímpica! Além disso, parece que a água nem tem cloro, ao menos não se sente o cheiro, entretanto é limpíssima, os olhos ficam abertos o tempo todo e não ficam irritados. Bem, como se tudo isto não bastasse, a banheira jacuzzi é super agradável: fiquei lendo meu livro, até que um funcionário avisou que estava fechando. Enfim, ruim, não?
Terça-feira:
Não consegui acordar em tempo, portanto, pulei a ginástica. Ao final do curso, houve um jantar oferecido pelos organizadores, num Pub da Brompton Road, em que serviram Fish and Chips, o tradicional prato inglês, acompanhado por um Pint de cerveja, claro, e finalizado por uma “apple pie”.  Programa agradável que terminou quase 9 da noite. Daí, só deu para fazer sauna e piscina (mesmo porque a jacuzzi estava em manutenção).
Quarta-feira:
Primeira noite sem programação ou problemas, resolvi fazer aquilo que mais gosto em Londres: caminhar! Deixei o material no hotel, peguei o casaco e parti para a luta. Comecei por Knightsbridge, local do antigo escritório da Petrobras UK. O interessante é que o Bertani teve que se mudar de lá, acho que em 1999, pois iriam construir outro prédio: e ainda não terminou! Seguindo meu caminho, peguei a Kensington Road, para passar em frente ao Albert Hall, vocês sabem, aquele teatro onde cabem 4.000 buracos, como conta a canção beatle “A Day in the Life” (“I read the news, today, Oh Boy!    Four thousand holes in Blackburn, Lancashire!    And though the holes was rather small, they had to count them all!    Now, they know how many holes it takes to fill the Albert Hall!”. Ao chegar, parei para ver o que estava correndo: entre concertos, peças de teatro e outros, achei um que me saltou aos olhos: The Australian Pink Floyd Show, Arena Tour 05. (A must see for all fans!). Chequei as datas e confirmei: London, Royal Albert Hall, April 15th! It represents every facet of Pink Flowd ‘s long and diverse carrer! Caramba, estou mesmo com sorte: no primeiro dia da missão em Londres, vi o último dia do Abbey Road Film festival, com direito a pisar no Estúdio 2 e , no último dia da missão,  vou ver a única apresentação deste grupo que, segundo consta, abalou a América com duas Mammooth Tour no ano passado. Bem, é pagar pra ver! Aliás, já paguei: 22,5 libras! Uma pechincha: o Albert Hall é outro ponto obrigatório pra quem gosta de música. Já estive lá há 15 anos, assistindo a um show de Eric Clapton. Depois, o caminho foi: Hyde Park, Bayswater Road, Oxford Street (compras, com  charme, só pra quem pode!), Regent Street (passei em frente à Hamley’s, aquela loja chique de brinquedos mas nem dei bola, as crianças já passaram da idade), Piccadily Circus, ainda sob a luz do dia (nem por isto, sem os queridos letreiros), onde parei na Virgin Records, para checar preço de CDs: impossível, o preço é de 16 a 20 pounds (R$90 a R$120), tô fora! Nestas locações, inaugurei o estilo de fotografar a mim mesmo, olhando para a paisagem desejada. Assim o fiz por não encontrar pessoas confiáveis o suficiente para entregar minha querida câmera. Depois, caminho da roça, voltei por Piccadily Street, ao largo do Green Park, Knightsbridge e casa. Um caminho quadrilátero de 7 a 8 km, 2:30 horas, com paradas.  Na chegada ao hotel, repeti a rotina noturna, sauna/piscina/jacuzzi/ correio/cama.
Quinta-feira:
Ao final do dia, resolvi adotar a mesma rotina triste: uma longa caminhada para relaxar do curso, uma sauna para relaxar da caminhada, uma nadada para refrescar da sauna, uma hidro-massagem para relaxar da piscina, lendo meu livro, vida dura. A caminhada começou com aquele meu desejo de conhecer a fábrica da capa do Pink Floyd, lembra. Perguntei ao concierge de plantão no hotel, que me explicou que na verdade, não era uma fábrica mas uma central elétrica desativada, a Battersea Power Station. Quando disse a ele o motivo pelo qual queria conhecer a dita cuja, ele contou que participou da filmagem de The Wall, era o garoto (ou um dos) que marcha para o moedor de gente cantando “We don’t need no education ...”. Enfim, um astro(!!!!). Como o tempo estava ameaçador, fui de tênis (para preservar os sapatos) e pedi um guarda-chuva do hotel, que me foi cedido. A Power Station é ao lado da ponte de Chelsea sobre o Tâmisa (a partir de agora vou me referir ao rio com seu nome em inglês, Thames). No caminho, que comecei pela Sloane Street, comecei um projeto que tinha em mente, de anotar todos os logradouros que existem em Londres. Aí no Brasil, só existem ruas, avenidas e praças, que me lembre. Aqui, tem mais 17 variedades, só no que deu para achar em minhas caminhadas: além de street, avenue e square, como aí, tem lane, place, row, court, gore, mews, yard, terrace, walk, close, gate, road, crescent, way. Fui tirando fotos pelo caminho. Ao longo de minhas caminhadas, e depois de dicas diversas, fui entendendo que a variação nos nomes tem suas razões: Avenue, que é muito raro, aplica-se a ruas grandes, porém a maioria das ruas largas e importantes é Street, Road ou Lane (coisa de inglês); Crescent se aplica a ruas em curva, portanto lembrando o formato da Lua, quando em quarto-crescente (bonito, não); Terrace é praça, assim como Square e Place (se bem também há rua com Place !!) mas se aplica a área que antigamente foi o terraço da casa de algum nobre, antes de ser loteado aos pobres mortais; Mews quer dizer cavalariça, então, naquela localidade moravam os cavalos e carruagens da realeza (inclua-se os nobres), juntamente com os cavalariços, que tratavam (muito bem!) dos cavalos. O interessante é que, hoje em dia, quem mora em uma Mews, pode dizer que está muito bem, pois são geralmente ruas fechadas, tranqüilas, e as casas têm garagem, onde ficavam as carruagens de antigamente: garagem é coisa raríssima para um londrino. Bem, chega de cultura urbana londrina, por hora! Ao final da Sloane Street, cheguei à rua que dá acesso à Chelsea Bridge. Na ponte, tirei fotos de longe e consegui alguém que me fizesse aparecer na foto. A caminho da central elétrica passei por um lançamento imobiliário de apartamentos de luxo, que me contaram ser caríssimos, com um estilo modernoso, com paredes todas em vidro ou em cores fortes: acho que alguns ingleses estão um pouquinho cansados de tradição. O acesso à central elétrica é justamente no canteiro de obras do lançamento imobiliário. Como o local está abandonado, só tirei a foto da central, sem minha presença, não havia a quem pedir: acho que a foto está bem parecida com a da capa do CD. Fiquei sabendo que a central não pode ser demolida, pois ela é Great Listed, algo equivalente ao “tombado pelo patrimônio histórico” daí. Aliás, aqui eles levam isto muito a sério: como querem preservar o estilo arquitetônico das casas, principalmente o vitoriano, mais recente, deixam que se reforme qualquer coisa dentro das casas, desde que seja mantida a fachada. Ah, e mais interessante, não deixam que se coloque ar-condicionado, a não ser que seja de um jeito que não apareça nadinha pra fora. Ainda bem que é em Londres e o calor não é tão forte. Aliás, estava bem frio na minha caminhada, pois voltei beirando o Thames e seus ventos cortantes. Pra piorar, começou a chuva que estava ameaçando, aí ficou tudo gelado mesmo. Passei Grosvenor Road, Milbank, chegando às Casas do Parlamento e Big Ben. Comecei o caminho de volta e para me aquecer, e também matar a fome, parei no McDonald’s da Victoria Street, aproveitando para checar o Big Mac Factor: a ‘promoção’ do Big Mac, assim como a do Quarter Pounder, custa 3,35 pounds ou, R$ 19,00 (nem me lembro quanto está aí!). Bem, voltei pelas ruas internas de Belgravia, admirando a arquitetura vitoriana impecável das residências. Acho que andei um pouco menos que na quarta-feira.
Sexta-feira:
Já saí do hotel de manhã armado com meu computador, pois o plano era ir ao escritório da Petrobras Europe Limited (PEL), para obter apoio de informática e conseguir sucesso naquele meu plano de economizar alguns trocados para a empresa. A PEL faz aqui na Europa, o que o Departamento de Trading faz na PAI. Antes, o Bertani era o Gerente Geral e comandava aqui a Petrobras UK, que foi vendida. Bem, na saída do curso, caminhei até Knightsbridge. Como estava com o computador e o professor recomendou que não caminhássemos por aí nesta situação (não sei por que!), resolvi fazer uma das coisas que mais gosto em Londres: andar de ônibus. Entretanto, logo percebi que as coisas estão mudando: pouco a pouco, os charmosos ônibus vermelhos, de dois andares, com o modelo que vinha sendo mantido desde os anos 1940’s estão sendo substituídos por modernos modelos, ainda vermelhos e de 2 andares, porém sem um centésimo do charme que aquelas viaturas carregavam. Uma pena! Outra coisa lamentável: os ônibus novos têm porta! Os antigos eram abertos, a gente subia numa plataforma, se agarrava em um corrimão e escolhia o lugar de sentar. Quer mais uma coisa lamentável? Não tem mais cobrador, aquele simpático senhor que carregava uma maquininha pendurada no pescoço. Ele andava pelos corredores, aparecia na frente do passageiro cobrava a tarifa, rodava uma pequena manivela da maquininha e produzia o bilhete. Quer coisa mais charmosa que isso? Agora, os passageiros compram o bilhete em frias máquinas instaladas nos pontos de ônibus. Tenha dó! A passagem está custando 1,2 pounds (quase 7 reais) e dá direito a andar por uma hora, podendo mudar de linha quantas vezes for necessário para chegar a seu destino. Não achei nos ônibus modernos aquele alerta fundamental para os viajantes: Remember, you are in London! We drive on the left! When you cross the street, look right, look left, look everywhere! que adorava ler nos ônibus antigos. Desci na Oxford Street para fazer um segundo câmbio de mais 200 dólares. Aconselhado pelos londrinos fui ao subsolo da Marks & Spencer, uma loja de departamentos e consegui, desta vez, 103 pounds. No escritório da PEL, fui recebido pelo Gerente Geral, o Antônio José que, aliás, trabalhou um ano na PAI, tendo sido substituído pelo Ricardo Peixoto. Infelizmente, a pessoa que poderia resolver meu problema de informática está de férias e o substituo, um gajo de Lisboa, não tinha os poderes necessários. Conversei um pouco e vim-me embora, também de ônibus. Fiz minha primeira compra num supermercado bem pertinho do hotel, chamado Waitrose: foram 11 pounds (R$63) por 1 litro de leite reforçado, 200 g de queijo, 200 g de mortadela (que, em inglês, chama-se mortadela), uma garrafa de 500 ml de Dr. Pepper (é, conseguiu cruzar o Atlântico) e uma barra de 200 g de chocolate Cadbury’s (delicioso). Notaram as unidades? Apesar de usarem milhas, jardas, pés e libras, no supermercado, os ingleses adotam as unidades normais.  Na chegada ao hotel, tirei uma soneca e depois procedi àquela mesma desagradável rotina aquática noturna. Depois, comecei a escrever esta mensagem.
Sábado:
Ao longo da semana, o pessoal do curso foi dando umas dicas de passeios. Uma delas me atraiu bastante: London Walks. São mais de 30 passeios de 2 a 3 horas, conduzidos por um guia, especializado no assunto em questão. Os interessados se encontram com o guia em alguma estação de metrô em determinados dia e hora, pagam 5,5 pounds e partem para o passeio. Os temas geralmente cobrem variados aspectos da riquíssima história de Londres, ou pontos turísticos atuais ou ainda rotas de entretenimento famosas. Claro que me atraíram dois Walks em especial, em que se passeia por pontos relativos à passagem dos Beatles pela capital inglesa. Naquele sábado, acordei um pouco tarde e não pude fazer minha ginástica. Parti então direto para o metrô e comprei o Day Travel Card, que custa 4,7 pounds (R$26) e dá direito a múltiplas entradas durante aquele dia, tanto em metrô como em ônibus. É a opção mais econômica para turista curioso, como eu. Bem, para vosso registro, a passagem simples de metrô custa 2,0 pounds (R$11, bem carinha, comparada com os R$2 daí). Fui para Marilebone Station e lá estava Richard Porter, que tem o título de “Beatles Brain of Britain” devido a seu expertise, cercado de umas 15 pessoas, de 8 a 70 anos de idade (a senhora mais velha sempre atrasava nossa caminhada). Começamos pela própria estação de Marilebone, que também é de trem. É lá que os Beatles filmaram as cenas de abertura de “A Hard Day’s Night”, reconheci perfeitamente a rua lateral em que eles aparecem fugindo das fãs e o local em que Paul aparece disfarçado, sentado num banco junto com seu “tio”. Depois, uma parada em frente ao cartório onde Paul e Linda se casaram em 1969 (foto acima), com o relato interessante de que os dois tiveram que entrar pelos fundos, ao lado dos latões de lixo (bem romântico!) devido à verdadeira passeata de fãs que protestavam por ver acabarem-se as chances de se casarem com Paul. Em 1981, também Ringo e Barbara Bach (tremenda bond girl) lá se casaram, momento marcante também pois foi a primeira vez que 3 Beatles se encontravam num mesmo evento público depois da separação (Paul e George estiveram lá, John havia morrido 4 meses antes). Depois, uma parada bem interessante, em 34 Montagu Square (ao lado), apartamento de Ringo, onde ele morou com sua primeira esposa Maureen, entre 1965 e 1966; depois, por um tempo, Paul utilizou o porão (basement) como estúdio onde trabalhava algumas de suas músicas como, por exemplo, Eleanor Rigby; depois, muito surpreendentemente, lá morou Jimi Hendrix quando chegou de New York; para finalizar, lá habitaram John e Yoko, antes de se casarem e lá tiraram a famosa foto, nus, da capa do controvertido álbum “Two Virgins”. A seguir, nova parada em 94 Baker Street, local da famosa Apple Shop, loja de quinquilharias psicodélicas que os Beatles abriram em 1968, quando criaram o famoso selo Apple. Claro que, agora, sem a magnífica pintura que tomava toda a parede do edifício de 3 andares. Próxima parada, 57 Wimpole Street (ao lado), residência de 4 andares dos Asher, onde morava sua namorada Jane. Não só por isso, mas porque, numa certa noite de 1963, Paul visitava Jane, mas perdeu o último trem (na época, ele ainda podia pegar trens!) e o pai de Jane gentilmente convidou-o para passar a noite e assim ele fez pelos próximos 2 anos e meio, inclusive quando Jane viajava com sua companhia de teatro pelo interior da Inglaterra (folgado, não?). Lá, ele recebia freqüentemente a visita de John e compunham algumas músicas no basement, onde o pai de Jane dava aulas de música. Foi lá também que Paul sonhou com a melodia de “Yesterday”. Ainda em Wimpole Street, Richard nos levou a conhecer a saída secreta de Paul, quando queria sair sem ser incomodado pelas fãs que rotineiramente faziam plantão no número 57. Próximo ponto, 4-6 Blandford Street, locação de filmagem de “Help”, claro que, agora, totalmente diferente da época, sem muito interesse, não fosse pelo fato de que a cena, ambientada com motivos indianos, estimulou George a conhecer a cítara, e depois Ravi Shankar, e depois a cultura indiana que tanto influenciou e mudou sua vida. Para finalizar o passeio, uma visita a Abbey Road, onde já estivera, porém nunca é demais. Aproveitei para tirar algumas fotos que faltaram no último domingo, como nos degraus de entrada do estúdio e de algumas inscrições na mureta. Disse Richard que aquela mureta tem que ser pintada de 3 em 3 meses, para dar oportunidade para todos os fãs aporem suas mensagens de amor aos Beatles. Eu já havia notado que todas as mensagens que vira no domingo eram datadas de janeiro de 2005 em diante. O muro já está cheio, hora de pintar novamente. Bem na estação de St.John’s Wood, dei uma parada no Abbey Road Cafe para tomar um chocolate (estava frio!!!). Comprei o livro de Richard “Guide to the Beatles London” (que viria a ser decisivo para o final de domingo) e comprei um pouco de merchandising oficial, como não podia deixar de ser! Logo depois chegou o próprio Richard, que me autografou o livro e ficou conversando um pouco sobre as lembranças do passado. Interessante ainda, no café, fui atendido por 2 moças que, depois que chegou o gerente, começaram a falar com ele em português. Pois é, eram brasileiras! Estão aqui há um ano e pouco aprendendo inglês e disseram que o que tem mais aqui é brasileiro. Logo depois eles começaram com “Seu Homero” pra cá, “Seu Homero” pra lá enquanto eu estava pagando a conta e eu não estava entendendo nada já que não havia dado meu nome a elas, quando percebi que se dirigiam ao gerente, Seu Omero (sem H mesmo), um italiano que fala português de Portugal que conhece muito o Brasil e tem até mesmo uma propriedade em Santa Catarina. Mundo pequeno! Finalizado o passeio Beatle, acatei uma sugestão de Patrícia. Peguei o metrô para a estação Southwark, Jubilee Line. Interessante notar que, primeiro, a Jubilee é uma linha relativamente nova (não tem 100 anos como a maioria), daí os trens serem mais modernos e confortáveis; depois, que algumas estações ao sul do Thames, como a de Southwark também são bastante modernas, e as plataformas dispõem de uma linha de portas entre os passageiros que vão embarcar e os trens, que ficam isolados, aumentando muito a segurança. Por esta modernização não fico chateado, pois as estações antigas e os trens antigos das linhas mais antigas ainda lá estarão por muito tempo. Bem, cultura urbana à parte, caminhei até a Tate Modern (acima), a galeria de arte moderna mais famosa da cidade. Não estava muito animado com o passeio, pois não sou lá muito fã, porém fora alertado que o local é especial, além de propiciar um bom ponto de observação, por ser um edifício razoavelmente alto. E, depois, de graça, até injeção: em Londres, todos os Museus são “di grátis”, a cidade já passou daquela idade de ter que explorar turista. Apenas se paga pelas exposições especiais, dentro deles. O prédio da Tate Modern, na verdade, é uma outra central elétrica abandonada, portanto, cheio de charme. Fui direto ao 7o andar, onde fica a lanchonete, onde não gastei nenhum centavo e aproveitei para ver a vista. Primeiro, mais evidente, a magnífica catedral de Saint Paul.  Tinha muita vontade de conhecê-la (e o fiz depois), pois a ela está dedicado um capítulo inteirinho de meu livrão Londres: O Romance, os mais de 30 anos de obra (1675-1708) de sua última reconstrução, as manobras do arquiteto, Sir Christopher Wren, para esconder o caráter evidentemente ‘papista’ da construção. Na época, a igreja inglesa já se havia afastado de Roma e, entretanto, St. Paul lembra muito a catedral de São Pedro, principalmente em sua cúpula. Ainda no mesmo andar tirei umas fotos da Millenium Bridge, construída especialmente para virada do milênio, apenas para pedestres, que foi inaugurada com toda a pompa e circunstância na data prevista e ..... fechada no mesmo dia! Pasmem, no passeio inaugural, com a ponte cheia de gente, bateu aquele mesmo vento no Thames que mencionei acima e a ponte começou a balançar, balançar, enfim, pânico geral, felizmente, ninguém se machucou, a ponte foi evacuada e fechada para balanço (hi, hi, hi) ou melhor, reforma, por 18 meses, para corrigir evidentes falhas estruturais!!!! Junte-se a este fiasco aquele imenso parque de exposições que também foi criado para a virada do milênio, The Dome, à beira do Thames, que hoje se encontra às moscas e que serviu tão somente para James Bond cair sobre, nas cenas de abertura de “Tomorrow Never Dies”. Também, quem manda celebrar o milênio errado? Tudo foi inaugurado em dezembro de 1999! Bem, comecei a descer pelos andares de galerias, em meio a algumas esquisitices modernas, porém algumas obras bastante interessantes, principalmente de meu ídolo Salvador Dali, de Magritte, Miró, uma exposição de cartazes da época da Revolução Russa. Entretanto, o que mais me chamou a atenção foi um móvel, localizado no centro de uma sala, cheio de gavetas e portas que as pessoas estavam abrindo. Pensei, caramba, tanta recomendação para não tocar nas obras de arte e os guardas não estão nem aí para aquela profanação explícita! Depois entendi, trata-se da obra de um “artista” americano que passou anos nas margens do Thames escavando as “praias” e catando tudo que encontrava. Ele e uma equipe de catadores, que depois classificaram, ordenaram todos os achados e dispuseram nas gavetas e compartimentos do enorme armário. Muito interessante! Inacreditável o que se acha no rio: jóias, louças, cartas, armas, roupas, só vendo! Ainda mais interessante para mim, foi que, no dia anterior, começara a ler um capítulo do meu livrão em que Lucy, uma garota pobre ajuda um tio na difícil tarefa de manobra um barco pelas águas então lamacentas do Thames, em meio ao fog londrino, recolhendo tudo que encontravam, procurando algo de valor, exultando quando achavam um cadáver, principalmente com os bolsos cheios de moedas. Era uma profissão como outra qualquer na época de Dickens, começo do século XIX, claro que vista com muito maus olhos. Certamente, o artista se inspirou nela. Na saída da galeira, um enorme galpão (ao lado), da altura dos 7 andares do prédio, foi deixado totalmente vazio, sem nenhuma construção, portanto um enorme espaço aberto, com uma acústica especial, em que posicionaram enormes alto-falantes, mais de 15 de cada lado, cada um “tocando” um som diferente, de gente gritando, falando, discursando, de animais, de sons da natureza, que se vai ouvindo à medida que se caminha. Muuuuuito legal! Enfim, taí um museu de arte moderna legal! Logo após, cruzei a Wabbling Bridge, como ficou conhecida a Millenium Bridge (Wabble=Balançar), aliás antes, comprei um cachorro quente de galinha, que estava sendo vendido por um italiano de rua (chique, não?), pois a fome bateu. Quando ia chegando à ponte, vi um mendigo, jovem, barbudo, mas bem apessoado, sentado com aquela placa “Homeless, Hungry, Help”. Comi o sanduíche até a metade (era grandão) e ofereci a ele o resto, ao que ele respondeu: “No, sir, thank you very much indeed”!!! Ora, ora, tá com fome ou não tá? Segui em frente e comi o resto do sanduíche, que estava delicioso! Bem, sobrevivi à passagem pela ponte, apesar do frio. Na verdade, quando cheguei à metade da ponte e olhei para trás para fotografar a Tate Modern, notei uma pequena construção branca à direita e lembrei que havia esquecido uma foto importante. Voltei e fotografei o Globe Theatre, reconstrução de um teatro da época de Shakespeare. Há uma exposição, uma excursão guiada, porém não estava nos meus planos. Atravessei a ponte novamente e fui a caminho da catedral de St. Paul. À entrada, notei um daqueles queridos ônibus vermelhos (dos antigos) parado, com uma imensa fita amarrada! Fui chegando perto e notei que em seu interior pessoas seguravam taças de champanhe; mais perto, notei que estavam vestidas a rigor. Desconfiei que se tratava de um casamento e confirmei com o simpático motorista. Os noivos Jemma & Jane já haviam casado e estavam prontos para ir para a festa, de ônibus, com um seleto grupo de convidados. Quer coisa mais charmosa do que andar de ônibus londrino no dia de seu casamento? Para meu deleite, o fotógrafo pediu que todos saíssem para tirarem fotos na escadaria da igreja. Além dele, tiraram fotos também eu e uma dezena de outros turistas desocupados que assistiam a tudo. E com direito a Beija, Beija, Beija, Beija e tudo o mais (na verdade, Kiss her, Kiss her, Kiss her, Kiss her!), no que fomos prontamente atendidos. Na catedral, também há visitação interna, cobrada, não fui, tirei uma foto lá dentro (depois outros foram reprimidos por fazê-lo), li algumas inscrições, fiquei um tempinho lá e saí. Tomei um ônibus até a Ponte de Londres. A ponte não é nada demais, porém fiz questão de ir até lá por merecer um capítulo inteiro do livrão. Claro que é um pouco decepcionante, pois, certamente, foi reconstruída mais de uma vez desde a época descrita no livro, de 1357 a 1422, quando ela era a única ponte sobre o Thames e havia gente morando sobre ela, gente de bem, como um dos 12 edis da cidade (equivalente a sub-prefeito). Fui caminhando rio abaixo até poder fotografar a Torre de Londres e a Tower Bridge. Claro que a Torre merecia outra visita minha, apesar de lá já ter estado em duas ocasiões, já que trata-se de outro capítulo inteiro do livrão, que conta a época de sua construção, em 1078, por William I, o Conquistador normando. Mas, fica para uma próxima. Sobre a Tower Bridge, o interessante é que ela é toda charmosa, marcante, por ser levadiça, porém não vejo utilidade para esta última capacidade, já que a próxima ponte, a de Londres, somente dá passagem àqueles barcos de turismo. Tenho que perguntar a alguém sobre isto. Depois, o tube (como é popularmente conhecido o metrô) na estação London Bridge, mesma linha Jubilee até a estação Waterloo. Quando lá cheguei, fui até a famosa Ponte de Waterloo, onde Napoleão perdeu a guerra para os ingleses e lembrei que já passei por esta época no livrão e não houve quase menção ao ocorrido, apesar de dar-se algum destaque ao Duque de Wellington, o vencedor da batalha, por outros motivos. De lá, breve caminhada até o London Eye (da BA – British Airways), uma gigantesca roda gigante, creio que com 100 m de altura, em que no lugar das cadeirinhas, há bolhas de vidro (acrílico, penso), acho que 30 delas, elípticas, em que cabem umas 30 pessoas confortavelmente em pé para ver a passagem. A roda nunca pára, está sempre a uma velocidade constante de mais ou menos 0,5 metro por segundo e as pessoas vão embarcando e desembarcando, sem problemas, mesmo as velhinhas. A viagem dura uns 35 minutos. Lentamente se vai vislumbrando o horizonte londrino, uma cidade praticamente plana (não chega a ser uma Houston), com duas pequenas elevações, nada dramáticas. É de lá que se tem a melhor vista do Parlamento e do Big Ben, tirei fotos ótimas (espero). No final, uma visita a Trafalgar Square, de ônibus e uma volta a Westminster para ver as luzes sobre o parlamento e Big Ben. E, fim do dia, cheguei às 9 no hotel, dei uma lida no correio, escrevi mais um pouco da presente mensagem e caí na cama ... afinal foram 11 horas de caminhada, interrompidas apenas nos breves momentos de transporte e refeição.  
Domingo:
Acordei mais cedo para fazer ginástica e também a cobertura fotográfica do parque aquático. Devido à minha recente paixão pelo magnífico livro que estou lendo, cometi a heresia de não fazer o outro London Walk com motivo beatle, também guiado por Richard Porter. O motivo: no mesmo horário ia rolar a caminhada “The Famous Square Mile: 2,000 years of history”. Prometia passear por lugares marcantes da história da antiga Londres, que já foi cercada por muros e tinha uma área de mais ou menos uma milha quadrada. Era justo, não? Bem, fui para Monument Hill Station e lá estava o guia, Graham, um simpático velhinho que, infelizmente falava muito rápido: não entendi metade de suas piadas e, pior, de suas explicações sobre os lugares em que passeávamos. Foi interessante, sem dúvida, pois caminhamos por intrincadas ruas que eu jamais entraria se estivesse só. Ocorre que vimos poucas construções de época: no máximo, uma torre de pedra de 400 anos, uma casa de 500 anos, enfim tudo muito recente. Explica-se, a Londres anciã cercada por muralhas sofreu um devastador incêndio no ano da graça de 1665 e foi completamente destruída, pudera, era toda de madeira, como costuma fazer um certo país moderno lá das Américas. E foi totalmente reconstruída. Depois, as duas guerras mundiais, principalmente a segunda, quando os alemães foram implacáveis com a cidade, principal alvo da Luftwaffe. E Londres foi novamente reconstruída. É até mesmo de se admirar que a Catedral de St.Paul tenha sobrevivido intacta, proteção divina (não papal). Uma das paradas interessantes da caminhada é numa igreja cujo teto caiu, mas as paredes resistiram ao bombardeio e assim foi tudo mantido, dentro, agora é um jardim. Assim, depois de tantas construções e reconstruções, o mais legal do passeio foi passar por perto de moderníssimos edifícios da City Londrina, bancos, seguradoras, etc. Destaque para os prédios de 2 seguradoras (ao lado), uma suíça, que parece um ovo gigantesco, todo de vidro e do Lloyd’s, que parece, por fora, uma refinaria do futuro. No ponto mais antigo da caminhada, conseguiram preservar a fundação de um antigo templo da época da dominação romana, no século I. Neste ponto, aconteceu o primeiro (e último, espero!) acidente da viagem. A querida câmera caiu de minha mão sem dar aviso! Sorte que consegui amortecer a queda com o pé, mesmo assim ela foi rolando por cerca de um metro e meio! Gelei, mas logo que a peguei, testei todas as funções e tudo estava funcionando! Ufa! Diagnóstico: rompeu-se justamente o cordãozinho original em que eu a levava, enrolado no pulso, sem explicação. Passado o susto, continuei e finalizei a caminhada. Fui a Picadilly Circus e procurei a Savile Row, rua internacionalmente conhecida por produzir alguns dos mais caros ternos do mundo o que, para mim, pouco interessava. Interessava-me tão somente, o número 3 daquela rua (abaixo), endereço dos Estúdios da Apple, de 1968 a 1972, onde foram gravadas as canções do álbum beatle “Let It Be’. Não só o álbum, mas também o filme “Let it Be”. Mais que isso, no teto daquele edifício de 4 andares, em 31 de janeiro de 1969, os Beatles fizeram sua última apresentação ao vivo, depois de quase 3 anos de trabalho exclusivamente de estúdio, e que veio a se tornar a última cena do filme. Claro que não se pôde chamar de concerto, pois o público que os via, eram apenas os componentes da equipe técnica e quem os ouvia, sem ver, eram os transeuntes das vizinhança, que vieram atraídos pelo som, que atraiu também os policiais da delegacia localizada a 150 metros dali e que acabaram por negociar, amigavelmente, o fim do “show” após brilhante performance de 6 músicas, que John finalizou com ironia: “Espero que tenhamos passado no teste!”. Bem, aproveitando que estava com Day Travel Card do metrô, fui até a estação Warwick, linha Bakerloo, ver do que se tratava a tal de Little Venice, um dos London Walks oferecidos. Bota “Little” nisso: trata-se, na verdade, de uma conjunção de 3 canais, que formam um laguinho, que aproveitaram para fazer um “point”, com barquinhos estilizados, bastante bucólico e pitoresco. O próximo ponto de interesse meu foi conhecer o Seven Dials, sobre o qual li no livrão. Para isto me desloquei até a estação Coventry Garden, local onde encontrei a maior concentração de pessoas, turistas ou moradores, que encontrei até aqui: o Coventry Garden é uma grande feira de antiguidades (e modernidades e curiosidades) com várias atrações de rua, vários barzinhos e restaurantes, que estava apinhada de gente. O lugar que eu queria conhecer, ninguém conhecia, salvou-me o agente de turismo que está lá para isso: o Seven Dials é, na verdade, uma confluência de 7 pequenas ruas, com tráfego de carros, imagine a confusão. No centro da pequena praça, um monumento que mostrava no topo um relógio de sol estranhíssimo, com 7 faces, cada uma voltada para uma rua, cada uma com um “Dial”, diferente. Na citação do livro, o Seven Dials era um local muito pobre e perigoso, onde viviam verdureiros e limpadores de chaminés, lembram-se de Mary Poppins? Aliás, falando nisto, fui até o teatro onde está passando o musical Mary Poppins, um dos grandes sucessos do momento, ali pertinho, o Prince Edward Theatre. Já sabia que os ingressos mais baratos estavam esgotados mas fui lá tentar: nada feito, bilheteria fechada. Entretanto, decidi que tentaria, no próprio dia do espetáculo, pegar algum “return ticket”. Ao longo de minha peregrinação naquele domingo, vim folheando o livro que havia comprado, London Beatles e resolvi que ia fazer eu mesmo a caminhada que havia perdido de manhã. Comecei por 1 Soho Square (a minutos do teatro onde estava), onde fica o escritório de da produtora de Paul, a MPL: o interessante do ponto foi ver a praça, não muito grande, cheia de gente esparramada aproveitando o restinho de sol da tarde. Londrino não desperdiça momentos ensolarados de maneira alguma. Depois, 17 St.Annes Court, local do Trident Studios, onde gravaram Hey Jude e outras 5 canções, aproveitando-se da aparelhagem de som, mais moderna que a de Abbey Road. Depois, um ponto que absolutamente nunca havia ouvido sobre: um banheiro público em Broadwick Street (ao lado) onde John fez uma aparição num pequeno sketch cômico com Dudley Moore, em 1966. Aproveitei para esvaziar a bexiga, desta vez com o tempero especial de que, com certeza, John também passou por ali! Seguindo as instruções, passei por Carnaby Street, onde os artistas (Beatles, The Who, Stones, Hendrix) faziam suas compras da moda, o local era o centro da Swinging London. Depois, 8 Argyll Street, local do London Palladium, teatro importante por marcar o início do termo Beatlemania, quando a imprensa percebeu a histeria dos fãs, após um show em outubro de 1963. Depois, alguns pontos de menor interesse, até que Richard orienta: ... vire à esquerda, em Picadilly Circus, pare em frente à Tower Records, olhe na direção da estátua de Eros e perceba ao fundo o sinal do “Prince of Whales Theatre”! Não parece instrução de mapa do tesouro? Achei muito legal, o estilo. Na certa, ele achou que não valia à pena atravessar o conturbado Circus somente para ver o teatro, onde os Beatles fizeram uma apresentação histórica, em noite de gala, novembro de 1963, em que estavam presentes a mãe e a irmã da rainha, na qual John fez aquele famoso apelo: “For the next number I would like to ask for your help. Will those in the cheaper seats clap your hands? The rest of you just rattle your jewelry!E atacou de Twist and Shout, inesquecível! Depois, London Pavillion (acima), onde aconteceram as premières dos filmes beatle! E Jermyn Street, onde John&Paul encontraram Mick&Keith dos Stones e lhes entregaram o primeiro sucesso: “I Wanna be Your Man”. Depois, mais alguns pontos sem interesse, até chegar a Masons Yard, ao qual se chega por uma passagem quase secreta, onde, no número 6 havia um pub, The Soctch of St. James onde havia uma mesa permanentemente reservada para os Beatles (ao lado), com plaquinha e tudo e, no número 9, a antiga Indica Arts Gallery (hoje os nomes são outros). Nesta galeria a artista japonesa Yoko Ono fazia uma vernissage de sua obra em novembro de 1966 e John foi fazer uma visita especial, levado pelo proprietário da galeria. Foi deveras emocionante ver o local onde começou o fim dos Beatles. Paradoxalmente, minha última parada neste estafante dia foi justamente para conhecer um ponto fundamental para o início da carreira dos Beatles: 363 Oxford Street, antigo endereço da HMV shop (de discos), o local onde Brian Epstein conheceu Syd Coleman, que o apresentou a George Martin em fevereiro de 1962 e o resto é história. Apesar de a HMV ter deixado o endereço, conseguiu registrar para sempre o fato, com uma placa azul, que explica o ocorrido, em frente à qual, tirei a última foto antes de acabar a bateria da câmera. Voltei para o hotel para descarregar livro e papelada e partir para o último London Walk, o Old Chelsea Pub Walk. O que me atraiu no passeio não foi a possibilidade de visitar Pubs, mas alguns endereços que me atraíram. O local de encontro era a Sloane Square station, a cerca de 300 metros do hotel. Lá estava Mary, a guia, que, paradoxalmente, não bebe, porem é excelente guia, tem bom humor e sabe contar as histórias necessárias. Chelsea é o 4o local mais caro da cidade, atrás de Mayfair, Belgrave e Knightsbridge. Dá pra ver pelos prédios e ruas, muito bem cuidados. Foi neste passeio que soube sobre o significado dos Mews. Em frente a Royal Avenue, ela disse que, provavelmente ali morou o personagem James Bond. Andamos bastante, paramos em 2 Pubs, para mim uma perda de tempo, porém bebi um Pint de cerveja quente ... , por aqui eles bebem a cerveja na temperatura do ambiente, ainda bem que não é o calor daí. Quando chegamos a Cheine Walk, à beira do Thames, ela mostrou a casa onde morou Keith Richards, o guitarista dos Rolling Stones, segundo Mary, um Pharmaceutic Specialist (HeHeHe). Um pouco mais adiante, próximo à ponte de Chelsea, vimos a casa de outro Stone, (e stoned) Mick Jagger e, vizinha à dele, de nossa querida Julie Andrews (um casal que não combina nada!), o que me deixou com mais vontade de assistir ao musical Mary Poppins, sonho que, neste momento, final de quarta-feira, 13,  já realizei. Quando chegamos ao terceiro pub, apenas poucos ficaram e caminhei de volta ao Hotel. Nesta ciranda de caminhadas, aproveitei para observar mais um aspecto urbano de Londres, a numeração das casas. Em sua maioria, ela é seqüencial, ou seja, a rua começa com a casa 1, depois vem a casa 2, depois a 3, quando chega no final, a numeração passa para o outro lado e vem de volta, casa 123, depois 124, depois 125, e assim por diante. Interessante é que quando chega um prédio no número 100, com 24 apartamentos, por exemplo, a numeração pula para 124. Lá dentro do prédio, a numeração continua seqüencial, 100, 101, 102. Mas, não é sempre assim: há outras ruas com lado par e lado ímpar, porém não andam de 2 em dois, como em Santos, nem é por distância como aí. Enfim, só inglês entende. E, claro, não existe número 13, como nos USA.