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domingo, 21 de fevereiro de 2021

Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band - Divisor de águas na história da música

                                                   Capítulo 43 


De minha saga  

O Universo das Canções dos Beatles


Todos os Capítulos têm acesso neste LINK 

E segue a história dos Beatles

Estamos em 3 de agosto de 1966! 

E seguem crescendo os números!!!               
Em menos de 4  anos de carreira, lançaram 112 canções, sendo 88 autorais e 24 de outros atores, filmaram dois Longas Metragens de sucesso mundial, A Hard Day's Night e HELP!, fizeram 552 shows, sendo 386 no Reino Unido, 94 na Europa Continental, 48 na América, 16 na Austrália e 8 na Ásia, ganharam 4 títulos de Membros do Império Britânico, lançaram 12 compactos e um EP de inéditas, e 7 LPs, Please Please Me (LINK)With The Beatles (LINK) A Hard Day's Night (LINK)Beatles For Sale (LINK)HELP! (LINK), Rubber Soul (LINK), e Revolver (LINK), todos chegando ao primeiro lugar (com exceção do primeiro compacto). 
Um espanto!!!               

O último LP viu a luz do dia na data em que estamos, ou seja, 3 de agosto de 1966, mas não foi exatamente um céu de brigadeiro que o esperava, havia um cumulus nimbus lá no poente, dos lados da América, ameaçador. A tempestade veio! Antes, uma ressalva: Revolver foi um sucesso, vendeu muito, e foi o mais elogiado pela crítica, que o considerou revolucionário, tudo como Dantes no quartel de Abrantes. Quase! Abrantes sofreu com a  verborragia excessiva do principal membro da banda, aquele papo de 'mais populares que Cristo' não pegou nada bem na conservadora sociedade americana, especialmente no meio-oeste. E onde eles estavam no começo desse período? Fazendo shows justamente nos Estados Unidos, alguns deles em estados do meio-oeste! Pra quê, né!

Um preocupante número de rádios americanas baniu o som dos Beatles de suas transmissões. John deu explicações, foram bem recebidas, mas em seguida embarcou em outra controvérsia, declarando ser contra a Guerra do Vietnam. Em Toronto, ele saudou os americanos que atravessavam a fronteira para escaparem da convocação obrigatória e, na volta a New York, os outros três Beatles desandaram a repudiar também a guerra, que tinha 90% de apoio da população naquele momento. Enquanto isso, Birmingham, Alabama promoveu fogueiras de seus discos em queimas públicas.

Todos os shows da turnê foram em estádios a céu aberto, esse era o novo normal dos Beatles. Dezenas de milhares de ingressos colocados à venda, mas pela primeira vez menos de 100%. Um dos organizadores teve prejuízo, pois o cachê era fixo! Um bonde da imprensa acompanhava os Beatles em todos os deslocamentos, e testemunho a tensão constante daqueles momentos. Havia ameças de morte aos rapazes, a Ku-Klux-Klan jurou-os de morte, eles levavam duas horas para saírem dos estádios, um pesado destacamento policial os protegia, foi um verdadeiro horror. Ademais, o som dos estádios nunca foi apropriado para shows de rock, eles não se ouviam, enfim.

Foi a pá-de-cal para consolidar uma decisão que vinha sendo discutida. No voo de volta de volta, de San Francisco a New York de onde partiriam imediatamente para Londres, aquele bonde de imprensa que os acompanhava ouviu de George as palavras definitivas, que já 'traduzi' no final do capítulo sobre Revolver, mas aqui coloco como foi no original, em inglês.
“That’s it. I’m not a Beatle anymore.”
Pessoal da imprensa se assustou, mas o que havia terminado era aquela Persona Beatle de shows, acompanhados por histeria. Era o fim da Beatlemania! Ademais, o som que produziam não era mais afeto a apenas duas guitarras, baixo e bateria.Tanto que aquela conturbada excursão não viu a cor (ou o som) de NENHUMA das canções de Revolver. O mais próximo foi a colocação de Paperback Writer, que foi gravada nas sessões do álbum, e lançada em maio, juntamente com Rain, sobre as quais falarei no último capítulo desta Saga, sobre o LP Past Masters #2. Então, não havia sentido em seguir apresentando canções antigas, caso decidissem continuar. 

A imprensa achou que era o fim da banda, até porque o contrato com a EMI havia expirado, não havia notícias de que outro viria, e notaram que cada um foi prum canto, literalmente!! Não havia necessidade de produzir os costumeiros trabalhos de final de ano, e então eles sumiram! Eram mais que milionários. E o que fizeram os quatro gênios? Todos (ou quase todos) viveram experiências que mudariam suas vidas (ou não)... 

George Harrison... 


...foi, junto com a esposa Pattie, para a Índia, e lá ficou por seis semanas. Logo que foram 'descobertos', registraram-se como Sr. e Sra. Sam Wells!! Imergiu na cultura indiana, aprendeu cítara com Ravi Shankar, e por causa dela, que se toca sentado no chão, teve dores horríveis e aprendeu Ioga, e lá se foram as dores. No final, passou dias divinos numa casa flutuante num lago em Kashmir, no alto do Himalaia. Nunca mais foi o mesmo! Voltou encantado! E ainda deu ao mundo as primeiras selfies de famosos de que se tem notícia!! 

John Lennon... 

cortou o cabelo e partiu filmar na Alemanha e na Espanha, How I Won The War, de Richard Lester, que dirigira os Beatles em seus dois filmes. Em Almeria, ele escreveu os primeiros acordes e letras de mais uma obra-prima, Strawbery Fields Forever! Na volta, começou a perambular pela cidade e num 9 de novembro entrou numa galeria de arte, aonde expunha seus trabalhos uma artista japonesa radicada em New York. Encantou-se!

Paul McCartney...

... se emburacou na cultura londrina, a Swinging London estava bombando, e ele era figurinha fácil de tudo que era show de vanguarda, teatros do East End, exposições especiais, vernissages. Mais importante que aquilo tudo, entretanto, foi uma viagem para a África, onde fez um Safari no Quênia, e no voo da volta teve uma epifania, com os potes de Sal e Pimenta de sua refeição de bordo, que viria a ser a semente para o próximo trabalho deles! Outra coisa que abriu seus horizontes mentais foi que sucumbiu à peer pressure dos três amigos, e teve sua primeira viagem alucinógena com LSD, ainda que bem menos que John, mas que o colocou no mesmo nível mental, entendendo o que se passava na cabeça seu parceiro. Falavam agora a mesma língua. 

Ringo Starr...

... ficou em casa curtindo com a família!

Voltando ao voo de volta do Quênia mencionado, o 'S' de 'Sal' e o 'P' de 'Pimenta' (Pepper em inglês) parece que brilharam, piscaram na mente de Paul, ele manteve Pepper na cabeça, e imaginou fosse o nome de uma pessoa e que o 'S' fosse a patente militar 'Sergeant', e que o Sargento Pimenta fosse o líder de banda militar no estilo Eduardiano, do começo do Século XX, e ficou com essa ideia na cabeça para uma nova canção. A ideia de que os liderados seriam associados do Clube dos Corações Solitários veio somente depois!! E foi bem depois, lá pra frente, quando a nova canção começou a ser gravada,já em 1967, que veio a expansão do conceito e a proposta de Paul de que na verdade os Lonely Hearts seriam os alter-egos dos próprios Beatles, com liberdade para criar e variar os estilos e técnicas de performance, e eles é quem tocariam as canções do álbum, em seus trajes. Entre a imersão de Paul na noite londrina, ampliando os horizontes de sua mente e o lançamento do produto final, foram quase nove meses, portanto, como que uma gestação, da Mãe Música, cujo parto revelou  um filho genial e revolucionário.

Num glorioso 24 de novembro de 1966, os Beatles entraram em estúdio para gravar a canção que Lennon criou na Espanha. Ela não entraria no álbum, assim como Penny Lane, que começou em seguida. Aquela seria a primeira de 57 sessões de gravação que seriam dedicadas à conclusão da obra, um número jamais antes experimentado, nem pelos Beatles, nem por ninguém, e ao longo de quase 6 meses, um tempo igualmente jamais antes dedicado a apenas um disco, nem pelos beatles nem por nenhuma outra banda.  Foram 700 Horas de gravação, bem mais que as 9 horas e 15 minutos que levaram pra gravar o primeiro álbum deles, apenas quatro anos antes... Considerado o primeiro álbum de Art Rock da história, precursor do Rock Progressivo, o criador da Era dos Álbuns, que, mais que um conjunto de músicas, carregavam um conceito. "Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band" seria o primeiro Concept Album da história.


Eram 13 as canções 'paridas':
  1. Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band
  2. With a Little Help From My Friends
  3. Lucy in the Sky with Diamonds
  4. Getting Better
  5. Fixing a Hole
  6. She´s Leaving Home
  7. Being For the Benefit of Mr. Kite
  8. Within You Without You (George Harrison)
  9. When I´m 64
  10. Lovely Rita
  11. Good Morning Good Morning
  12. Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band - Reprise
  13. A Day in the Life.. 

  • As canções sem notação do autor são da dupla Lennon/McCartney!

  • O álbum segue a tendência, que jamais seria abandonada, de ser predominantemente de Mind Songs que, aqui, suplantam de longe as Heart Songs, batendo-as inapelavelmente por 10 a 3, o segundo maior de todos os placares da contenda (em Rubber Soul havia sido 11 a 3!

    Percebam a tabela abaixo. 



    Mais detalhes sobre a divisão entre Heart & Mind Songs, aqui, neste LINK

    Traduzindo...

    São 3 Canções que falam ao Coração
    • As 3 são sobre Garotas 
      • 1 em cada Classe: DR, Paquera e Amor
    São 10 canções que falam à Mente
    • São 4 canções que têm algum tipo de Discurso
      • 3 para um Grupo e 1 para o Mundo
    • São 3 canções em que o autor falava sobre si,  
      • 2 pedindo Socorro e a outra fala sobre sua mente
    • São 2 canções em que contam Histórias,  
      • 1 sobre Solidão e 1 sobre Si mesmo
    • Uma canção que fala sobre Drogas, na Classe História

    Sgt Pepper's éportanto, no trinômio Grupo / Assunto / Classe, um

    77% Mind,
    31% Speech, 
    23% Group Album!
    Esse baixo índice de Heart Songs (23%) consolida o amadurecimento dos compositores. Vejam esse histórico!

    No começo, mais romântico, só se fala sobre Garotas (Girl ou Miss Songs) nos dois primeiros álbuns, então timidamente os assuntos mais 'cabeça' vão aflorando, tímida, mas crescentemente nos três álbuns seguintes até que chega a vida adulta, conforme Paul declarou. A partir de Rubber Soul, a predominância vira-se, brusca e definitivamente, para as canções  com assuntos mais sérios, vejam a tendência consolidada nos últimos dois álbuns!

    Em termos de autoria, as canções estão assim divididas!

    • Aqui, Paul consolida a posíção tomada a John em Revolver. Lá, foi por uma cabeça, 6 a 5, mas aqui, foi de carreirinha, das 12 da dupla, Paul foi o principal idealizador em 8!!
    • Paul carregou sozinho a bandeira das Girl Songs: ele é o autor de todas as 3!
    • A única Acid Song é  de John;
    • Paul participa dos 3 Assuntos do Sistema S: duas Self, uma Story, e duas Speech, mas há que se notar que as duas são partes de uma só;
    • John também contribui firme no Sistema com uma em cada S; 
    • A única de George é um Speech para o Mundo
    • A criatividade de Ringo ainda hibernava...

    Na tabela abaixo, as evidências, nas letras, do porquê da classificação acima!







    Agora, as análises das 13 canções de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band"  

    por enquanto, apenas duas prontas!

    1. Sgt. Pepper's Lonely Hearts CB (Group Speech Song by McCartney)

    Paul apresenta"Somos a banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta! Esperamos que vocês gostem do show! Somos a banda do Sargento Pimenta e seus Corações Solitários! Sentem-se e deixem a noite passar!"  
    A ideia de tudo veio numa viagem de avião, de Nairobi a Londres, na época em que as refeições eram servidas com requinte. Paul estava com Mal Evans, o roadie gigante que o acompanhava como guarda-costas,  e fixou os olhos nos recipientes de sal e pimenta, com suas letras iniciais, S e P, e daí veio a vontade de fazer a canção sobre o Sargento Pimenta e sua banda, do começo do século. Os 'Corações Solitários' vieram depois. Há rumores de que Mal Evans teria importante participação em vários trechos da letra, e chegou-se a cogitar em se declarar a canção como uma Lennon/McCartney/Evans, logo descartada, com o OK do último, que amava os amigos. E a presença de Lennon foi apenas por causa do histórico acordo de parceria, pois não há registro de nenhuma contribuição dele na letra! Seja como for, trata-se de uma pérola inovadora, sob vários aspectos. Em termos de estrutura, por exemplo, veja que trata-se de uma escadinha de subida até o Refrão no topo, e depois descendo até o final, como se percorresse um pódio de 7 lugares. Imagine!!!
    ____
    O 1° degrau é uma introdução de sons em que se percebe os músicos da famosa banda afinando seus instrumentos e a plateia se acomodando em seus assentos (ih, rimei!),
    No 2° degrau, entra a banda em um 1° Verso de boas-vindas, longo, de 7 frases! 
    It was twenty years ago today 
    Sgt Pepper told the band to play.
    Thei've been going in and out of style
    But they're guaranteed to raise a smile
    3° degrau é uma Ponte, instrumental, durante a qual a plateia
    reage, gostando do que vê, com satisfação e risadas.
    O 4° degrau é o topo, com um Refrão em que eles se apresentam 
    We're Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band
    We hope you will enjoy the show...
    5° degrau, já descendo do topo, é uma 2ª Ponte, 
    com a Pepper Band encantada com seu público 
    It's wonderful to be here. It's certainly a thrill.
    You're such a lovely audience.
    We'd like to take you home with us, we'd love to take you home
    6° degrau é o 2° Verso, final, com a banda lamentando o final da canção
    mas apresentando a próxima atração (rimei de novo!), que termina com
    So let me introduce to you
    The one and only Billy Shears
    And Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band
    O 7° e último degrau,  outra sessão instrumental, preparando a próxima canção a ser cantada pelo astro Billy Shears, que na verdade será nosso querido Ringo Starr, cantando With a Little Help From My Friends. Nada menos que genial! 
    ____
    Mas, não para por aí!
    As rimas merecem um capítulo à parte, em quatro aspectos.

    1.     Em primeiro lugar, as desejadas rimas ricas estão lá, "today" com "play", "show" com "know", "song" com "along", "show" com "go".

    2.     Tem UMA rima pobre no 1° Verso, “style” com “smile”, dois substantivos. Caco Antibes diria "Tenho horror a (rima) pobre!" Mas tem um aspecto que perdoa a ocorrência: o profundo significado da frase! Veja bem,  eles se apresentam como uma banda que varia os estilos (“in and out of style”) mas que garantem que provocarão um sorriso (“raise a smile”), e nós, beatlemaníacos, sabemos que aquela banda era um alter-ego dos Beatles, que foram mestres em apresentar canções com estilos diversos, fato que nós recebíamos com um largo sorriso. Até então, já nos brindaram com baladas, rocks, rythm&blues, valsas, clássicos, ska, música infantil, e naquele álbum ainda viriam vaudeville e circo e mais música oriental. Os sorrisos perdoam a pobreza da rima.

    3.     A Ponte cantada não tem NENHUMA rima, o que por si só já é um espanto.

    4.     E, finalmente, Paul inaugura a ‘rima transcontinental’, quer dizer, nem sei como se chamaria o que ele inventou, não sei se já existia. Veja bem, no verso final, ele precisava de um nome para o ‘astro’ da banda que se apresentaria na canção seguinte. E ele escolheu Billy Shears, para emparelhar com “years”!! “Years” ?!! Mas aonde está “years”?? Procure bem, ela está lááá no 1° Verso, lááá no começo da escadinha, do verdadeiro pódio que é a estrutura da canção. Beeem distante, portanto eu a batizei de "transcontinental". Se aquilo não for genial, não sei mais o que é! Olha, acho que é até mais que isso! Vejam minha ilustração! Nem bem nasceu e eu já a rebatizo de Rima Interplanetária!


    Ai Ai Ai, essa história de analisar as rimas chegou a um limite... Prometo me conter nas próximas análises! Vamos à música! A canção título, que abre o LP, foi apenas a 5ª a ser atacada em estúdio, cerca de 70 dias e 23 sessões após a inaugural. Strawberry Fields Forever e Penny Lane foram as que tomaram a maioria das sessões até então, e seriam lançadas em compacto.  Também gravaram uma velha canção de Paul, When I'm 64, feita anos antes em homenagem a seu pai, e também a novíssima A Day In The Life, que acabaria sendo útil para a canção objeto desta análise. Naquele 1° de fevereiro de 1967, os presentes à sessão viram que havia um retorno ao bom rock'n roll na faixa título, como se estivéssemos nos primeiros tempos da banda. E testemunharam a primeira vez em que Paul pediu para tocar a guitarra de ritmo, na faixa base instrumental, pois ele sabia exatamente o que queria para a canção. Então comece a anotar:
    Paul tocou a guitarra de ritmo
    John aceitou numa boa e foi para o baixo, apesar de não ter nenhuma intimidade com o instrumento. Sabedor dessa incompatibilidade, Geoff Emmerick reservou um canal para o baixo de John (lembrem-se, eram apenas 4 canais), para possibilitar posterior gravação por cima, sem ruídos. George na guitarra solo, e Ringo na bateria completaram a base. O baixo de John durou até o final daquela mesma sessão, quando Paul gravou sua linha de baixo. Então siga anotando: 
    Paul tocou a guitarra baixo
    Próxima sessão, dia 2, foi dedicada aos vocais, primeiro o estonteante principal de Paul, depois ele, John e George harmonizando na ponte e no refrão e depois, mais 3 vozes entraram na equação do refrão: Ringo, e os roadies Mal Evans e Neil Apsinal este, como Mal, também companheiro dos tempos de Liverpool! No dia 3 ..... de março (sim, um mês, e 6 canções depois) os Beatles reataram o relacionamento com a canção, convocando músicos com suas trompas, sem saberem o que iriam tocar. Ao chegarem, viram que não havia pautas escritas, sim, mais uma vez se viu Paul solfejar o queria para a Ponte instrumental que seguia o 1° Verso e antecedia o Refrão, e também as quatro notas descendentes no meio deste último, após o "...and let the evening go", e o acompanhamento na 2ª Ponte, cantada, e o breve instrumental do final. Dispensados os músicos, as atenções foram voltadas para a guitarra solo. George não conseguia entregar satisfatoriamente, e Paul assumiu e gravou as notáveis partes solo de guitarra da canção, anotou? 
    Paul tocou a guitarra solo
    George aceitou numa boa (já escrevi isso?). Pois é, pela primeira e única vez na carreira dos Beatle, Paul foi o responsável pelas três guitarras da banda. Nada como ser o dono da ideia, o dono da canção, o dono do conceito! E este último veio três dias depois. Ainda não se tinha ideia da ordem das canções e algo ocorreu a Paul, 'Por que não pegar o clima de um show ao vivo, e usar a canção como apresentação das demais?". Então, foram atrás das gravações da orquestra de A Day In The Life, para a introdução descrita, e fuçaram os bancos de sons da EMI para agregar à canção aquelas magníficas reações do público, de risos e aplausos, que se ouvem ao longo da canção! Estava terminado mais um clássico dos Beatles!
    Os Beatles já não tocavam ao vivo desde 29 de agosto de 1966, e não o fariam durante 30 meses, quando fizeram sua última aparição. E a partir de Revolver, nenhuma canção dos Beatles viu as luzes da ribalta, tocada pelos Beatles. Paul McCartney, entretanto, satisfez nossos desejos de ver e ouvir algumas daquelas canções, uma delas esta Sgt. Pepper's, em inúmeras ocasiões. Optei, porém, por deixar aqui com vocês, um cover, mas um cover espetacular! Eles se chamam The Beatles Analogues, isso mesmo, nome justíssimo: eles reproduzem à perfeição os arranjos originais, com o auxílio luxuoso de instrumentos de orquestra. Eles traziam violinos e violoncelos e harpa e metais conforme estava nas fichas técnicas e em nossos ouvidos e corações. Em específico, este vídeo mostra a grandiosidade do esquema necessário para reproduzir maravilhas, e uma razão por que nossos ídolos pararam de fazer ao vivo. Naquela época, era inconcebível. Então, apresento a vocês, 'As Trompas de Sgt. Pepper's', neste LINK.
    Sit back and let the evening go!

    2. With a Little Help From My Friends (Help Self Song by McCartney)

    Ringo clama: "Empreste-me suas orelhas e eu cantarei uma canção para você, e eu tentarei não cantar fora de tom. Oh, eu consigo com uma pequena ajuda de meus amigos, eu me levanto com uma pequena ajuda de meus amigos, tentarei com uma pequena ajuda de meus amigos"  
    Vimos que Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band termina com a Pepper Band anunciando seu maior astro, Billy Shears. Desde sempre, havia a intenção de que ele seria o alter ego de nosso querido Ringo, que teria aí sua oportunidade de brilhar, com uma canção só para si no novo álbum. Só que o tempo ia passando, os prazos iam reduzindo, e nada da canção sair! Até que tomaram uma atitude. Em 28 de março, Paul foi a Weybridge (casa de John), no dia seguinte, John foi a St.John's Wood (casa de Paul), e se dedicaram ao efeito! A ideia de basear-se a canção em Ringo recebendo a ajuda de amigos, era de Paul, aliás tudo a ver, porque Ringo precisava da ajuda de John e Paul para poder cantar nos discos de sua banda. E o processo foi bastante interativo, como há muito não se via, era Paul fazendo uma pergunta e John respondendo e vice-versa. A canção, aliás, deve ser um recorde Guinness no quesito 'Pontos de Interrogação em Canções Pop', talvez disputando com Blowing In The Wind' de Bob Dylan. Vejam que interessante!

    No Verso 1, temos um solitário Billy fazendo perguntas ao vento! 

    What would you think if I sang out of tune?

    Would you stand up and walk out on me?    

    .....  mas ninguém responde e ele propõe

      Lend me your ears and I'll sing you a song

    And I'll try not to sing out of key

    E note como se aplica ao cantor de verdade, o Ringo, sabidamente sem o alcance vocal de seus companheiros de banda. John e Paul buscavam um tom que se adequasse a sua voz. Então, Billy até se desculpa, dizendo que tentará não cantar fora do tom! 

    E vem o Refrão 

    Oh I get by...hm I get high ...hm Gonna try with a little help from my friends

    No Verso 2,  Billy pede conselhos e é respondido. Voltando agora aos reais cantores, temos

    Ringo perguntando                           e .....                          

    John, Paul, George respondendo, com perguntas

    What do I do when my love is away?

    (Does it worry you to be alone?)

    How do I feel by the end of the day?

    (Are you sad because you're on your own?)

    E mais uma vez vem o Refrão, igual!

    Na ponte, que vem a seguir, invertem-se os papéis e os amigos perguntam se ele precisa de alguém, se podia qualquer pessoa, e Billy se desmancha dizendo que precisava de alguém para amar. Tocante!!!

    No Verso 3,  os amigos seguem na sessão de análise do pobre rapaz,

    John, Paul, George perguntando                           e .....                          

    Ringo respondendo

     

    Would you believe in a love at first sight?

    Yes I'm certain that it happens all the time

    What do you see when you turn out the light?

    I can't tell you, but I know it's mine

    E mais uma vez vem o Refrão, igual! E mais uma vez vem a Ponte, (quase) igual! E finalmente o Refrão, igual, mas com repetição épica da primeira frase! Não é à toa que a canção é a preferida do público de Ringo, sempre sad and lonely, precisando da ajuda dos amigos!!!

    Agora, vamos à contagem!!! São 10 Pontos de Interrogação!! Sem contar as repetições, somente perguntas diferentes. Pra confirmar o recorde, fui verificar o clássico do bardo: são 3 versos, cada um com 3 perguntas, portanto 9 perguntas, todas com a mesma resposta. Daí, 9 Pontos de Interrogação! Os Beatles bateram Bob Dylan.

    Sessão de 29 de março de 1967
    As duas sessões de escrita, nas casas de John e Paul, foram insuficientes para terminar a letra. Chegando a hora marcada para irem para o estúdio, eles caminharam os poucos metros que separavam a casa de Paul do local de trabalho, já de noite e foram gravar. Terminaram a letra lá mesmo. A base foi feita por Paul ao piano, George na guitarra, Ringo na bateria, George Martin num órgão Hammond, logo no início (que se liga com a primeira canção), e John no cowbell. Infelizmente, pouco se ouve do instrumento, cujo som eu adoro, na versão final. Depois de 10 takes, que deixaram Ringo exausto, era já madrugada do dia seguinte, e ele deu sinais de que ia embora, subindo as escadas, mas Paul e os demais não deixaram e o chamaram para incluir o o seu vocal. Ele voltou e surpreendeu, cantando ao microfone, e Paul, John e George completando o quadrado ao redor do equipamento, incentivando o cantor e dando-lhes dicas pra não errar a letra. Dessa forma, ele cantou suas partes, em todo o Verso 1, nas perguntas do Verso 2, nas respostas do Verso 3 e da Ponte, e nos Refrões, deixando o espaço para os complementos dos amigos em overdubs posteriores. Ele teve um pouco de dificuldade na nota final ("friends") uma oitava acima das notas anteriores ("with a little help from my"). Chegou a desanimar, pedindo que os técnicos fizessem aqueles truques de velocidade nas fitas, mas os 3 amigos foram decisivos nas dicas para atingir a performance, e ele enfim conseguiu, para gáudio e aplausos de todos, que brindaram com whisky e Coca (Cola, bem explicado). Eram 5:45 da manhã! 

    Eram dias intensos. Dormiram pouco e passaram manhã e tarde na sessão de fotos da capa do LP, e às 7 da noite estavam de volta ao estúdio. John, Paul e George cantaram em uníssono as respostas do Verso 2, as perguntas do Verso 3 e Ponte, e o vocal de apoio nos Refrões. Ringo adicionou o pandeiro dos Refrões, George, duas partes de guitarra, base e solo, e à essa altura já eram 3 da madrugada do dia seguinte, e ainda faltava um overdub fundamental: o baixo de Paul, porque até então ele só tocara o piano. No começo, os amigos ainda ficaram acompanhando, mas moravam longe e foram embora. Paul estava determinado a fazer uma de seus melhores sequências de baixo, e até se 'mudou' com seu baixo para a sala de controle, para controlar melhor seu desempenho! Ele terminou já com a luz do dia e se foi para casa, no outro quarteirão, e os técnicos seguiram até 7:30 com os detalhes finais. Estava pronta a canção de Ringo Starr em Sgt. Pepper's. 

    Deixo aqui, como ilustração, o vídeo da celebração de 50 anos da invasão da America. Fixem-se nos 5 primeiros minutos (mas podem seguir até o final). Tem Paul cantando Sgt.Peppers, ao final apresentando Ringo nesta canção, como apareceu ao mundo no LP, com direito às trompas da primeira e ao baixo da segunda. Aqui, neste LINK. Note como Paul dá tanta atenção ao baixo, de difícil execução, olhando a toda hora para o instrumento, que ele nem canta suas partes no vocal.

    3. Lucy In The Sky With Diamonds (Story Acid Song by John Lennon)

    John conta: 'Flores de celofane amarelas e verdes elevadas sobre a sua cabeça. Procure pela garota com o sol em seus olhos e ela se foi... Lucy no céu com diamantes ... Lucy no céu com diamantes... Lucy no céu com diamantes''. 

    Julian, em seus 4 aninhos, mostrou a seu pai um desenho que fez para sua amiguinha, e disse:
    'It's Lucy ... in the Sky ... with Diamonds'
    Só que o pai de Julian se chamava John Lennon e ele disse para si: 'Isso dá samba!'  Ele garante que não viu essas três  letras com o destaque que eu dei, mas o fato é que fez uma letra psicodélica, colorida, com citações que só com a mente alterada sairiam, coisas como 'homens a cavalo de pau comendo torta de marshmallow', 'táxis-jornal aparecendo na praia', 'céus de marmelada', 'gravatas de espelho', e claro, 'a garota com olhos vidrados' ('caleidoscope eyes'), que é como ficam os olhos da pessoa com LSD nas ideias. Diz John que as imagens de Alice no País das Maravilhas vieram muito fortes em sua mente, as obras de Lewis Carroll afinal eram salpicadas de imagens que se encaixavam perfeitamente naqueles tempos psicodélicos. Curiosidades: (1) A menina Lucy O'Donnel morreu cedo, com Lupus, aos 46 anos; (2) o desenho de Julian está com David Gilmour, guitarrista do Pink Floys, que o arrematou em um leilão por uma pequena fortuna. 
    Bem, a contribuição de Paul na letra foram as frases das duas pontes, que apresentam os refrões: 'Cellophane flowers' e 'Newspaper taxis'. Tenha ou não a canção sido inspirada em drogas, a canção é linda, maravilhosa! A começar pelo riff de abertura num órgão Lowery tocado por Paul, que só tem o defeito ser tão curto, mas fica marcado de muito tempo em nossas mentes. A voz de John está especialmente trabalhada para conceder um clima etéreo. George confere um clima indiano ao arranjo, e não se esqueça de se arrepiar com a batida de Ringo anunciando o refrão e com a linha de baixo espetacular de Paul!! E mesmo com tudo isso, John ainda achou que a canção não teve o arranjo adequado!!
    Uma palavrinha sobre a estrutura e tempos da canção. Acho que no manual de estrutura musical se aprende que uma canção padrão teria repetições do trinômio verso-ponte-refrão nessa ordem: num verso, a apresentação de um tema, numa ponte, uma evolução para o clímax, e o refrão explodindo em nossas ideias. Todas as canções têm versos, mas nem todas têm pontes, outras não têm refrões. Se fosse se imaginar um ritmo, uma valsa se aplicaria, imagine: Pum-Pa-Pa, Pum-Pa-Pa, VERso-PONte-reFRÃO, VERso-PONte-reFRÃO. LITSWD é bem assim, básica na estrutura. Aqui, John e Paul se preocuparam em colocar o feijão com arroz: são três vezes o trinômio, ou quase, porque na última viagem, eles pulam o rio, desprezando a ponte, vão direto da margem do verso à margem do refrão. E, falando em valsa, é assim o tempo dos versos e pontes, um compasso 3 por 4, imagine de novo o Pum-Pa-Pa, Pum-Pa-Pa, e acompanhe comigo o primeiro verso, marcadinho: "PIC-ture-your, SELF-in-a, BOAT-on-a, RI-ver-with, TAN-ge-rine, TREES- -in, MAR-ma-lade, SKIES" e segue "SOME-bo-dy, CALLS-you-you, AN-swer-quite, SLOW-ly-a, GIRL-with-ka, LEI-dos-cope, EYES"! Gostei da brincadeira de 'traduzir' o tempo na letra, mas paro por aqui! Passei a mensagem? Note que o baixo de Paul é tocado nas primeiras sílabas das tríades, aqui ressaltadas em maiúsculas! O tempo em 3 por 4 segue nas pontes, mas depois que a bateria de Ringo anuncia o refrão, num Pum Pum Pum inesquecível, ele fica mais rápido e passa a um compasso 4x4. Outra coisa notável é a variação no tom: LA nos versos, SI Bemol nas pontes e SOL nos refrões. Intrincada estrutura melódica!
    A gravação tomou 24 horas de estúdio (apenas, se comparado a algumas outras canções do LP), ao longo de 3 dias. A base tinha John num guia vocal e com chocalho, Ringo na bateria, George num violão, George Martin num piano e Paul num magnífico teclado Lowery, que se ouve na introdução, solo, e nos versos, ao fundo da voz de John, e que você não sabe se é um cravo, ou uma harpa, ou uma guitarra, na verdade, foi uma mistura disso tudo que Paul criou, provocando um som sensacional. O guia vocal de John tinha os versos em apenas uma nota. O vocal definitivo, com as variações melódicas que conhecemos, veio num dia posterior, bem como Paul harmonizando nos refrões, lá no alto, como sempre, e John dobrando seu vocal em partes selecionadas (veja na frase dos "kaleidoscope eyes").  George trouxe um tambura (instrumento indiano que eu gostaria de ter em casa, como decoração, é impressionante), que provoca aquele som de zumbido (drone) durante os versos, pena que quase desapareceu na versão final. Mas se ouve muito bem a guitarra dele dobrando os vocais de John nas pontes, e ao longo da canção, distorcida, através de um alto-falante Leslie, que já fora usado em Tomorrow Never Knows. Aliás, a voz de John também passou pela geringonça. Ficou maravilhosa! Importantes foram os efeitos de eco colocados entre versos e pontes, perceba, como dá um climão etéreo perfeito! Não se deve deixar de destacar uma das melhores linhas de baixo de Paul, preste atenção, especialmente nos refrões, gosto muito. Sua atuação no baixo, mais o teclado Lowery, fazem de Paul o principal destaque instrumentista da canção!

    Aqui, vale o mesmo das canções anteriores. Não deixe de conhecer, ou relembrar, a espetacular versão que fez da canção o grande Elton John. Ele contou que queria gravar algo do amigo, e John reclamou que ninguém ainda se havia lembrado de Lucy! Elton aceitou! Que bom! A versão é longa, mais de 6 minutos, com um riff de entrada longo (que ótimo!) e, após uma rendição obediente à original, permite-se mudanças de ritmo, e mudanças de melodia que só acresceram ao conjunto. E até hoje eu me lembro do grito: 'Lucy, oh oh oh Lucy' paralelo ao refrão! Conheçam ou relembrem aqui, neste LINK.


    4. Getting Better (DtR Girl Song by Paul McCartney)

    Paul se abre: 'Estava acostumado a ser um rapaz mau, escondia minha cabeça na areia, você me deu a dica, eu ouvi finalmente, estou fazendo o melhor que eu posso''. 
    Eis uma clássica canção Lennon/McCartney. De uma ideia de Paul, uma frase que virara piada interna três anos antes (dita pelo baterista substituto Jimmy Nicol), ele criou a melodia, o refrão otimista e uma ideia para os versos, e aí vem John com as partes mais sombrias. Interpretei como se fosse um homem fazendo uma DR com seu passado, em que era mau com as namoradas, mas que está melhorando ("I'm doing the best that I can"). John admitiu ser dele o 3° verso ("I used to be cruel to my woman, I beat her and kept her apart from the thing that she loved"), e como se arrepende de ter sido assim. Cynthia, sua primeira esposa, entretanto, diz que foi apenas uma vez, ainda namorada, ela deu um gelo nele, e nunca mais ocorreu. As reminiscências sobre professores, Paul diz que vieram dos dois, ("The teachers who taught weren't cool .... feeling me up with 'your' rules"), mas sabedor da fama de bom menino de Paul e de garoto problema ("angry young man") de John, com sua vida de abandono, tenho quase a certeza que partiram deste último. Então, deixo para Paul  apenas a ideia otimista "It's getting better all the time ... since you've been mine"). Mais sobre quem está falando o quê virá na análise musical,  de vozes e instrumentos, mais abaixo.
    Agora, eu termino com a análise das rimas, que eu deixei um pouco de lado em análises recentes. Os dois primeiros versos são constituídos de cinco frases, no emparelhamento rimado AABBA, veja,  no 1° verso tem AAA "school-cool-rules" / BB "down-round" e, no 2° verso tem AAA "man-sand-can" / BB "word-heard", todas rimas ricas, exceto "homem" com "areia", que são dois substantivos. Um estribilho segue cada verso "I have to admit it's getting better"), com a rima rica "...all the time" com"...you've been mine". E vem o refrão "It's getting better all the time" sem espaço para rimas. O 3° verso será melhor comentado na parte musical, porque é estonteante, e é também intrigante porque modifica a melodia e é falado em duas frases, cada uma delas seguidinha, e ele não tem qualquer rima!
    As sessões de Getting Better foram cheias, de situações. A primeira sessão, por exemplo, estava marcada para as 7 da noite, mas o primeiro Beatle a chegar foi Ringo, às 11, e a coisa começou à 1 da madrugada, os técnicos que esperem os astros chegarem quando quiserem!! Mesmo assim, ensaiaram, e saiu a primeira base, com Paul em guia vocal, e numa pianeta (elétrica), John um baixo distorcido, George na guitarra, Ringo na bateria, e George Martin tocando direto nas cordas do piano. A segunda sessão teve o produtor Geoff Emmerick de volta, para gáudio de todos,  com Ringo colocando mais bateria, pois não ficou feliz com a base, que o engenheiro de plantão gravara na primeira sessão, e teve um cravo de George Martin, e teve um espetacular tambura de George, no Verso 3, absolutamente encaixado e apropriado ao clima sombrio da letra, que fala de homens que batem em mulheres. Tambura é aquele instrumento de cordas indiano, com um bojo enorme, que eu certamente teria, ao menos como decoração, ih, acho que já falei isso, mas repito! Numa sessão posterior, Ringo acrescentou um sensacional atabaque no mesmo verso. Ouça e se arrepie!! No final da noite, assim como na canção anterior, Paul ficou sozinho no estúdio, dedicado a mais uma espetacular linha de baixo, cheia de glissandos decrescentes no riff, muito elegante! E Emmerick ampliou o efeito do som ampliando o eco, usando o banheiro como caixa de ressonância! A mágica terminou às 4 da matina. A terceira sessão veio somente 10 dias depois, e foi um desastre!
    Pausa para fofoca! Os vocais seriam a atração da noite, Ringo nem estava presente, mas as harmonias não se encaixavam, tão atípico para os Beatles aquilo era. John estava desfocado, não se sentia bem. George Martin, preocupado, levou-o para tomar um ar fresco no terraço dos estúdios, terceiro andar, e deixou-o lá vendo as estrelas. Ao notarem a ausência do amigo, entretanto, Paul e George ficaram sabendo da ação de Martin. Próxima cena é Paul e George arremetendo em desabalada carreira escadas acima, os roadies Mal Evans e Neil Aspinal logo atrás. Ao chegarem, viram John na beira do parapeito, olhando para as estrelas, quase caindo, agarraram-no e trouxeram-no de volta, são e salvo! Ele estava em plena viagem alucinógena, LSD na mente! Decerto, não fora uma correta decisão deixá-lo lá, Martin ingenuamente não percebera seu estado. Claro que a sessão foi encerrada, Paul levou John até sua casa ali do lado, e embarcou também num ácido, para fazer companhia ao amigo. Grande companheiro! Posteriormente, John contou que tomara o comprimido errado, era pra ser um estimulante para deixá-lo acordado. Fim da fofoca!
    Bem, apagada aquela terceira sessão da memória no quesito musical, a quarta e última sessão veio dois dias depois. Ringo gravou seu atabaque, Paul harmonizou uma guitarra espelhando a batida de George, mas em outra nota, e os vocais vieram em todo o seu esplendor!  Coloque então o seu fone de ouvido, e viaje comigo, no bom sentido! Volte tantas vezes for necessário para perceber os detalhes!
    Note a abertura com as duas guitarras, uma em FA, outra em SOL (um lindo som dissonante que se ouvirá até o final acompanhando estribilhos e refrões), pa-pa-pa-pa-para-pa-pa-para, e vêm as três vozes Beatle em harmonia "It's getting better all the time", e vem Ringo em batida de marcha, e Paul no seu baixo, glissando, e cantando o verso 1, "I used to get mad in my school" (mas imagine que é o garoto problema John contando), e ouça as vozes de John e George em falsetto contestando "No, I can't complain!(mas imagine que é o bom menino Paul dizendo que não era bem assim), e note a bateria firme e especialmente o chimbal de Ringo, neste verso e nos seguintes; e vem o primeiro refrão, com o otimista Paul "I have to admit it's getting better, it's getting better all the time" e o pessimista John (junto com George, em falsetto) contestando "it can’t get no worse" duas vezes; e vem o verso 2, com Paul naquele linguajar de índio, ou Tarzan, "Me used to be angry young man, Me hiding me head in the sand..." e note ali a chegada das palmas, de todos, e da pianeta, de Paul, e do baixo, de Paul, em uma levada arrojada; e vem mais um refrão igual, e um estribilho com duplo "It's getting better all the time", desta vez seguido por John e George dizendo "Better, Better, Beeeetter" nas duas vezes; e nesse momento, toda a atenção, e controle a emoção para a chegada do tambura, uma viagem zumbida para apimentar a declaração sombria do verso 3, com Paul, John e George em harmonia expressando a confissão de John "I used to be cruel to my woman, I beat her...", acompanhado de palmas e de um perfeito atabaque de Ringo que, aliás, pontua até o final; e mais um refrão e mais dois estribilhos duplos, e um final com os três cantando "Getting so much better all the time" e aquele acorde de guitarra dupla dissonante  pa-pa-pa-pa-para-pa-pa-para.... acompanhado do atabaque seguindo até o infinito. E não se esqueça de tentar perceber ainda, um cravo de George Martin, um baixo distorcido de John, e ainda uma guitarra deste último, que ainda constam da ficha técnica. Ufa! É qualidade demais!!   
    Paul fez o favor, em sua carreira solo, de corrigir o pecado de os Beatles nunca mais terem tocado ao vivo, e nos brindar com exibições de Getting Better, em suas excursões de 2002 e 2003, nos EUA, México e Japão, e depois em Moscow e em outras cidades privilegiadas. E eu tive o privilégio de assistir a um dos shows, em Houston, saiba mais aqui, neste LINK. E, para ilustrar, com imagem (ruinzinha) e som (razoável), peguei este vídeo AQUI pra vocês (note a fã animada traduzindo a letra para os surdos).
    Para finalizar, eu tenho aqui outra interpretação para o título da canção. A notar pela qualidade, inovação, evolução, revolução, especialmente nos álbuns Rubber Soul, depois  Revolver, e então Sgt. Pepper's, eles próprios, The Beatles estavam sempre...

    GETTING BETTER ALL THE TIME 


    5. Fixing A Hole (Mind Self Song by Paul McCartney)

    Paul pensa: 'Estou consertando um buraco por onde a chuva cai, e impede minha mente de vagar. Aonde ela irá?''. 
    E quando ele pensa ele se lembra de múltiplas coisas, inclusive nas garotas que tentam invadir sua casa, e depois se auto-afirma, dizendo que está certo, esteja ou não certo, e mais pro final diz que vem gastando mais tempo em coisas que não eram importantes antes. Reflexões, nada mais que isso! Uma pessoa pensando sobre sua vida, o que tem que consertar, o que tem que combater, apenas isso. A canção é uma das oito que saíram da ideia de Paul no álbum que saiu da ideia dele. Como expressão 'fix a hole' era o mesmo que  'aplicar uma injeção', diziam que a canção era uma alusão a heroína, droga injetável. Cá entre nós, era um saco isso, hein?
    Mal Evans a ver navios
    Na própria canção, ele fala em "painting my room in the colourful way", pronto, imagem inspirada por LSD, ou "I get high with a little help from my friends", pronto, amigos fornecedores de droga,
     ou "I'd like to turn you on", a canção é banida por incitação a drogas. Cacete! Gente chata! Querendo encontrar pelo em ovo! Paul nunca entrou nessa onda, mas admitiu que a maconha foi inspiradora de algumas reflexões. Aliás, quando Paul realmente falou sobre a danada, ninguém percebeu, precisou ele confessar em uma entrevista muito tempo depois, que Got To Get You Into My Life era sobre maconha. Truco, imprensa especializada! Rumores diziam que o roadie Mal Evans teria parte na letra, mas ficou mais uma vez a ver navios...
    A estrutura é padrão, após uma introdução comum lindo cravo em staccato e o chimbal de Ringo, vem Verso 1-Verso 2-Ponte 1-Verso 3-Verso 4-Ponte 2-Verso 5, além de um meio-Verso 1 modificado no final. Afora o Verso 4, ocupado por um solo de guitarra, os demais são cantados com letras diferentes, na preferência padrão Beatle.  Nessa linha, apesar de as duas pontes dizerem a mesma coisa, elas têm letras diferentes, atestando a capacidade do letrista. Primeiro note que são introduzidas por um Beatle Break (sem instrumentos) nas duas palavras iniciais "And it", depois percebam que vêm em tom diferente dos versos (em FA), e elas começam iguais ("...really doesn't matter if I'm wrong, I'm right, where I belong I'm right, where I belong"), depois Paul as canta lá no alto, quase em uma nota só, mas seguem com letras diferentes em cada uma, pra reclamar das pessoas que insistem em invadir a casa do compositor. Paul disse que chegou a convidar uma ou outra a conhecer a casa, mas desistiu da prática educada quando começo a repetir-se o hábito de, no dia seguinte, irem com suas mães aos jornais para declarar o noivado... Para concluir a sessão letra, faltava a consideração sobre as rimas. Aqui, é fácil: não ocorre NENHUMA rima, e ainda assim, é tão rica!
    Musicalmente, houve  uma novidade logística. Os estúdios da EMI não estavam disponíveis quando os Beatles se decidiram a gravá-la e lá se fora eles para o Regent Studios, onde os Rolling Stones gravaram seus primeiros trabalhos. A base teve configuração também ímpar: Paul usou um cravo, Ringo, sua bateria, John ficou no baixo e George tocou .... chocalho!! Pra completar a novidade, Paul cantou na base, ao invés de deixá-la para os overdubs, prática abandonada desde Revolver. Note que a bateria de Ringo começa apenas com o chimbal no Verso 1, entrando firme nos versos e pontes subsequentes. A segunda sessão, já de volta a Abbey Road, e sob o comando de Geoff Emmerick que fora proibido de trabalhar naquele outro estúdio concorrente, empregado que era da EMI. George Martin pôde, pois não era mais empregado! Os acréscimos constaram de Paul dobrando seu vocal em partes selecionadas (em todos aqueles que lembram uma canção do Velho Oeste, "where it will go", "there I will go" e "and I still go" com falsetto na palavra final, e também nas pontes),  George grava sua ótima guitarra solo, com direito a sessão-solo no Verso 4, e John e George apenas acrescentam vocais em U-U's na Ponte 2 e no Verso 5. Note que não há harmonização vocal, pois trata-se de uma Self Song, então apenas o compositor canta as falas da canção. É mais ou menos uma política! 
    A canção teve a 'honra' de ser referenciada, nem que fosse ironicamente, por John, em Glass Onion, um ano depois. E, na ausência de Beatles tocando ao vivo, deixo aqui três versões:

      1. Neste LINKPaul ao piano, num tom abaixo do original
      2. Neste LINKPaul e banda, com direito a Linda no chocalho
      3. Neste LINKThe Beatles Analogues, com direito a cravo e arranjo idêntico

    ENJOY!

    6. She´s Leaving Home  (Alone Story Song by Paul McCartney)

    Paul conta: 'Ela desce a escada para a cozinha contendo o choro com o lenço no nariz, silenciosamente girando a chave da porta dos fundos, com os pés fora, ela está livre!'. 
    Escolhi este trecho por causa do efeito sonoro que Paul consegue propiciar, rimando não finais de versos, mas sons internos, vejam: 
     She goes downstairs to the kitchen clutching her hankerchief
    Eu ressaltei em preto o meu ponto, o som em destaque, o 'tch', inclusive o terceiro, não tem o 't', mas o som é como se tivesse.  Eu acho lindo isso, uma poesia nos detalhes. Isso me ressaltou desde criança, com meus 9 anos de idade, quando ouvi, e fui procurar na letra, afinal era o primeiro disco da história a ter um encarte com letras. Ele havia usado o efeito de rimas internas em You Won't See Me (link), dois anos antes, já ressaltei aqui em um capítulo anterior, enfim... mas o que interessa  é a linda balada, com a história tocante, de pais, na verdade, a mãe, que percebe que a filha foi embora, e leu numa carta de despedida as razões para aquela decisão, que ela não pôde explicar pessoalmente. Se alguém tem dúvida se esta é uma canção sobre solidão, ressalto uma frase que aparece duas vezes nos versos:
                       She's leaving home after living alone for so many years. 

    A inspiração veio de uma matéria de capa do Daily Mirror, sobre uma garota de 17 anos que saíra de casa para fugir com o namorado, e os pais diziam não entender por quê, afinal "We gave her everything money could buy!" ou algo assim, mas foi desse jeito que se materializou na letra. Todo o resto saiu da cabeça de Paul (e de John nos lamentos dos pais), inclusive a profissão do namorado, que não era vendedor de carros (motor trade), mas sim, um croupier. Só que, depois se soube, pela própria Melanie Coe (a garota, que até escreveu um livro), que o rapaz havia, sim, trabalhado no mercado de automóveis, mas Paul NÃO SABIA DISSO!!! Eram ou não eram mágicos os Beatles? 

    Então, vamos às configurações estruturais. Nos Versos 1 e 2, Paul conta como ela sai de casa. Os Versos 3 e 4 contam como a mãe descobre que ela se foi, é o clímax da emoção. O Verso 5 conta pra onde a menina foi! Entre os 3 grupos acima, há 2 refrões,  e ao final, com a constatação título, "She is leaving home", e com as lamentações dos pais! Contaram? São 6 peças estruturais, com letras diferentes, entre versos e entre refrões. Rimas? Nos versos, todas ricas: "door-more", "key-free", "there-stairs""thoughtlessly-me""made-trade". Nos refrões, nenhuma, aliás, quem se importa com rima, nesses momentos poéticos de per si?
    Já a ideia do acompanhamento de orquestra foi do autor Paul, nenhum Beatle toca na canção! Quando Paul tem uma ideia e a quer ver pronta, ele atropela qualquer um: ele encomendou o arranjo de cordas a George Martin, como era o padrão, só que ele estava com outros compromissos, e pediu uns dias. Paul não teve dúvidas e pediu outro maestro à EMI para o arranjo, um certo Mike Leander. Martin ficou magoadíssimo, mas produziu e dirigiu os músicos na gravação. Eles eram quatro violinos, duas violas, dois violoncelos, um contrabaixo E uma harpa. E por que eu coloquei um E maiúsculo? Porque a harpa abre a canção de uma forma lírica, sensacional, E por ser UMA harpista, a PRIMEIRA mulher a aparecer numa canção Beatle!! 
    Pausa para uma digressão pessoal. Tenho um especial carinho pelo instrumento, porque Harpa é com H, e eu tenho uma lembrança de minha infância profunda, quando aprendia a ler, e a página do H na minha cartilha dizia: "Homero toca Harpa, Homero é Harpista"! Bem, a profecia não se concretizou, mas o carinho ficou, inda mais por conta de um fato que me contou meu filho músico, em verdade uma piada interna entre os harpistas: "Nossa vida é assim: 90% do tempo afinando o instrumento, e 10% tocando-o desafinado!" Claro que é um exagero, mas denota-se a dificuldade de se afinar suas mais de 40 cordas. Fim da digressão pessoal. 
    O ritmo é valsa (compasso 3/4). Como disse, a harpa, linda, está na introdução, com efeito de eco, e segue na base, sem eco, em pizzicato, ao longo de toda a canção, parando em alguns momentos, especialmente nos refrões. Ao fim da primeira frase, entram as violas, e quando Paul canta as duas últimas frases do verso, até "she hoped would say more", os violinos modulam. No Verso 2, violoncelos fazem o papel das violas, que voltam na metade final do verso, com os violinos e violoncelos enriquecendo o clima. No Refrão 1, a harpa silencia e são só cordas e aros (dos vocais sensacionais, falo em seguida), com o destaque para três notas de violinos em stacccato, anunciando a volta dos versos... tin tin tin Father snores as his wife gets into her dressing gown... e todos os instrumentistas encamtam, mas aqui eu tenho que destacar o máximo do drama e suspense, note, no Verso 4, quando a mãe chora: Sempre choro...
     She breaks down and cries to her husband: Daddy, our baby is gone!
    ... e entram os violinos, majestosos, em staccato urgente, Extra, Extra ....
    Why would she treat us so thoughtlessly? How could she do this to me?
    Tão lindo que resolvi fazer um áudio clipe pra vocês, neste LINK
    Os arranjos instrumentais seguem lindos, tocantes, sempre variando conforme o clima, mas agora, dedico-me aos vocais. O jogo de vocais é de chorar (e eu choro mesmo). Acresça-se o clima que foi criado em estúdio. Após as gravações da orquestra, sobraram apenas dois dos quatro canais de gravação na fita. Temerosos de que algo tivesse que ser gravado posteriormente, decidiram gravar as duas vozes num canal só. Então, a coisa tinha que ser perfeita. Reduziram a iluminação do estúdo a UMA lâmpada, Paul e John se sentaram em banquinhos altos, um de frente para o outro, um microfone entre eles. E produziram a maravilha! Não sem tensões, por causa do detalhismo de Paul, mas saiu perfeito. Paul vem nos versos com sua doce voz, contando a triste história e, quando entra o refrão, ele começa, dobrado e em falsetto, 'Sheeeee' e John entra, em vocal também dobrado, com um lamento dos pais ("demos nossa vida a ela"), e Paul volta 'is leaviiing', e John lamenta, pelos pais ("nos sacrificamos"), e Paul conclui 'hoooome' e os pais (John de novo) concluem com mais um lamento ("demos a ela tudo o que o dinheiro pode comprar"), e volta Paul ao modo 'verso' mas com emoção dobrada, explicando "Ela está saindo de casa depois de viver sozinha por tantos anos!", enquanto ao fundo, os pais, na voz de John, acenam, tristes: "Bye! Bye!" Difícil ver algo mais tocante que isso na história da música. O refrão e a emoção se repetem duas vezes e, em cada uma, os lamentos são diferentes, o que mostra a riqueza da letra! E foi de John a ideia de fazer assim, ponto e contraponto, e dele também são os lamentos, muitos deles que ouviu de sua Tia Mimi quando adolescente. Parabéns, John!
    Pausa para uma curiosidade. Do outro lado do Atlântico, fazia sucesso uma banda chamada The Beach Boys, que tentava disputar com os Beatles, em inovação na música. Seu líder era Brian Wilson. Desde Rubber Soul, eles vinham intercalando LPs notáveis com os Beatles, o mais famoso deles sendo Pet Sounds (1966), pra mim a anos-luz de distância, mas a disputa era boa. Paul ficou amigo de Brian, se frequentavam. Ainda antes de Sgt. Peppers ser lançado, ele fez questão de atravessar o Atlântico, e depois o continente, até a California, pra mostrar 'algumas' novidades. Numa delas,  ao piano, mostrou She's Leaving Home para ele e a esposa. Os dois choraram, copiosamente! Conta-se que Brian, após o lançamento e Sgt. Pepper's, declarou-se incapaz de seguir na disputa, e entrou em depressão! Fim da curiosidade. 
    Deu pra perceber que esta é minha canção preferida em Sgt. Pepper's? Não? Saibam que é! E, abençoado que sou, eu estava num um show Paul McCartney, em 2002, já embasbacado com o que vinha ouvindo, os olhos já marejados, quando ouço o som de uma harpa... gritei pra minha esposa e filhos: "Nacredito! She's Leaving Home!!!" Ele nunca havia tocado a canção ao vivo!!! Resolveu fazê-lo naquela excursão Back To The US. Eu estava em Houston! Foi um desbunde! Claro que não era uma harpa de verdade, mas o milagroso teclado de Wix Wickens, que acompanhava Paul desde 1989, e até então e até hoje. Deixo aqui o LINK pra essa exibição. Note que Paul até toca algumas notas no baixo, mas é só pra não ficar sem segurar nada, ele se sente nu! E note como ele interpreta, com sua mão esquerda.Tocante!

    Deixo também este LINK, com a performance da melhor banda cover do mundo, The Beatles Analogues. Vocês vão entender o porquê do nome. Eles fazem IGUAL ao arranjo original, com apenas 5 das 9 cordas com arco, mas com direito à minha querida HARPA, do Homero que não foi Harpista!


    7. Being For the Benefit of Mr. Kite  (Group Speech Song by John Lennon)

    John convoca: "Em honra do Sr. Kite, haverá hoje à noite um show de acrobacia. Os Hendersons estarão todos lá, vindos do parque de diversões de Pablo Fanque, mas que número!"
    John teve a ideia de um cartaz do Século XIX, Era Vitoriana, anunciando as atrações, conforme colocou na canção! Paul disse que a canção se fez sozinha, estão lá os malabaristas, equilibristas, o cavalo dançarino, os trapezistas, os engulidores de fogo, etc. Modificaram pouca do que estava no cartaz, por exemplo, o cavalo não se chamava Henry, e inverteram a ordem das atrações, e tal, mas está tudo lá. E alteraram os nomes dos astros principais conforme as necessidades de rima e métrica. Então, quando era pra rimar com "night" usavam o nome "Mr.Kite", mas quando era pra rimar com "saturday", usavam a abreviatura "Mr. K"; Quando "Mr. Henderson" ia atrapalhar a métrica, usaram "Mr. H". Simples assim!
    A estrutura da canção prescindiu de pontes ou refrões, são apenas versos, contando a convocação para assistirem ao espetáculo circense. São 5 versos, sendo dois deles instrumentais! 
    A canção é de John porque ele comprou o cartaz, durante uma filmagem em Kent, ele colocou o cartaz numa parede de sua casa, ele namorou o cartaz e disse: 'Isso dá samba!", e escreveu as primeiras linhas, e teve a ideia da melodia. Mas Paul contribuiu bastante, e eu até posso deduzir aonde, na estrutura de rimas, especialmente nas 4 primeiras linhas de cada um dos longos 3 versos cantados, de 7 linhas cada! Pense em You Won't See Me, que veio antes, e em Hey Jude, que veio depois, e veja se não há aquela engenhosidade de rimar sílabas finais de uma linha com uma sílaba interna da linha seguinte! Ficou complicado? Melhor desenhar, né? Veja abaixo:
     
    Eu acho isso genial! Note que das 9 rimas assinaladas, apenas "sound-ground", substantivos, e "demonstrate-undertale", verbos, são pobres, as demais 7 são ricas. Rimas estão ausentes no final das 3 últimas linhas de cada verso,  PORÉM, note que elas aparecem DENTRO da última linha de cada um. Senão, vejamos, assinaladas em preto aumentado: 
    1. In this way Mr. K will challenge the world!
    2. And of course Henry the Horse dances the waltz! 
    3. And tonight Mr. Kite is topping the bill! 
    E falando em "Henry, the Horse" vem à tona, de novo a minha amada Letra H. Gosto dela, sabe por quê, né... Interessante ela aparecer importante em duas canções seguidinhas, em destaque (veja em  She's Leaving Home). Aqui, Henry, com H, é o nome do cavalo, que é Horse em inglês, outro H, mas o que me contaram é que tanto Henry como Horse eram apelidos, disfarçados, de outra coisa que começa com a Letra H, Heroína, não o feminino de Herói, mas a droga Heroína, injetável, então expressões como "I'm on Henry"ou "I'm riding a Horse" eram entendidas como se as pessoas estivessem numa viagem alucinógena provocada pela Heroína. Aí, você junta Henry com Horse, numa canção dos Beatles, e, HELL!!! Critica-se a canção por ser alusão a drogas!!! Gente procurava pelo em ovo, como eu disse em Fixing A Hole! É até contraproducente, porque 95% da população que nem tinha ideia dos apelidos acaba por conhecer e de repente fica com vontade de cavalgar também. Gente burra!
    Já que falamos em Horse, lembro que ele aparece na última frase do Verso 2, na frase acima, que diz que "E claro, Henry, o cavalo, dança uma valsa", e na canção, ele introduz realmente uma valsa, o primeiro Verso Instrumental inteiro é uma valsa, compasso 3/4, é uma boa deixa pra falar da estonteante parte musical desta análise, mas pra não colocar o carro na frente dos bois (isto aqui está virando uma fazenda...), começo pela base! Ela é feita por George Martin no harmômio, (sim, o Maestro também participa de uma base), Paul no baixo, Ringo na bateria, John no vocal (sim, mais uma vez retornando aos velhos tempos) e George no chocalho (sim, sua guitarra ficou descansando, e descansaria até o final desta canção!). O clima de circo nos versos foi garantido por Ringo, uma rufada de suspense na caixa (trrrr) e chimbal e tambor (tchii-pum, tchiii-pum) e, no primeiro verso instrumental, a espetacular mudança para ritmo de valsa (pa-pa-pum, pa-pa-pum), e de volta ao original no terceiro verso cantado e no verso final. Brilhante!
    Decerto, For The Benefit Of Mr. Kite é uma das mais complexas canções do álbum, e da história Beatle. John quis que ela soasse como um parque de diversões daquele século, queria 'sentir o cheiro da poeira do chão', Isso gerou uma espetacular sequência de overdubs inéditos, inovativos, cheios de trucagem. Começa com John e George tocando gaitas enormes na abertura e em outros momentos de mudança de acorde. Quando entre a valsa, no primeiro verso instrumental, John queria uma dança colorida, um verdadeiro redemoinho de sons, necessário ao efeito de circo, mas George Martin chamou John num canto e confessou que não tinha habilidade no teclado para tocar naquela velocidade, então propôs que John tocasse a base num Hammomd, porém na metade da velocidade, e em uma oitava abaixo, enquanto ele fazia o mesmo no seu elaborado dedilhado em outro órgão, depois, na edição, dobrariam a velocidade! Martin já havia feito o mesmo para dar o som de cravo ao piano em In My Life. Ficou perfeito! E veio Paul com uma guitarra fantástica na metade focinal do verso, note!! E vieram as harmonias vocais de Paul e George, nas 3 frases destacadas acima, que terminam os três versos.  
    Entretanto, faltava AQUELE som, que John queria. George Martin até tentou comprar, ou alugar um órgão a vapor, da época, ou um Calíope novo, mas que tivesses aqueles tubos, românticos, do passado! Não conseguiu, nem um nem outro. Partiu pra solução caseira. Pensou-se em usar gravações de estúdio de instrumento, eles as tinham aos montes, mas não podiam simplesmente usá-las, pois seria identificadas! E veio A ideia! Chamou o produtor Geoff Emmerick e travou-se o seguinte diálogo, e tomaram-se as providências correspondentes. 

    Nem precisa dizer que John e os demais Beatles amaram o resultado, e o mundo da música se espantou, mais uma vez, com a genialidade do Maestro. O som é bem ouvido  no verso instrumental final, em diversos pontos! Preste atenção!
    Tanto Paul fica tranquilo em declarar que a canção é uma co-autoria que ele resolveu tocá-la, ao vivo eu suas últimas excursões, veja aqui neste LINK

    8. Within You Without You  (World Speech Song by George Harrison)

    George aconselha: "Tente perceber está tudo dentro de si mesmo, ninguém mais pode fazer você mudar. E veja que você é realmente muito pequeno, e a vida flui dentro de você, e sem você"
    Segunda incursão a fundo de George na música indiana, a outra fora Love You To, em Revolver, além é claro de outras participações daqueles intrigantes instrumentos orientais, como a cítara em Norwegian Wood, "a primeira cítara, a gente nunca esquece", ou a tambura em Getting Better trazendo aquele clima sinistro para a hora em que se fala que o autor batia em sua mulher, affff. Porém, ali eram participações puntuais. Aqui, como na anterior citada, ele vai a fundo naquele intrigante som. Decerto foi fruto das seis semanas que passou na Índia, no intervalo entre Revolver e Sgt. Pepper's, quando imergiu na cultura indiana, e religião, e filosofia, aprendendo a tocar cítara com o mestre Ravi Shankar, e praticando yoga para educar a coluna para suportar a dor nas costas por ter que tocar cítara sentado no chão... 
    Foi a única participação autoral dele no disco! Desta vez, não há nadinha dos demais Beatles, apenas músicos indianos, que provocaram uma sessão inusitada em Abbey Road, com tapetes no chão para os músicos, luz baixa, motivos indianos nas paredes e muito incenso! John esteve lá só para assistir. Em verdade, naquele ano, George  estava mesmo desinteressado no universo criado por Paul para  o disco, e atuou quase como um músico contratado! Voltando ao cerne indiano, além da cítara e tambura, que George tocou, havia um tocador de tabla, outro de swarmandal, uma espécie de harpa indiana e, fundamental para o efeito, dois dilrubas, um mix de violino e violoncelo indiano, tocado com arco, que acompanha a voz de George ao longo de toda a canção. Foi difícil o ensaio até se chegar à segurança de que poderiam começar a gravação. Os instrumentistas profissionais, não existia esse negócio de viver de música indiana, antes de George Harrison. Os músicos eram padeiro, motoristas, faxineiros, que trabalhavam de dia e tocavam de noite! George é considerado um herói nacional da música indiana, jamais antes havia se dado tamanho destaque à cultura indiana como naquele Summer of Love de 1967. Ah, sim, George Martin compôs arranjo de violinos e violoncelos ocidentais,  que entram no segundo verso, seguem  na sessão instrumental, e em breves entradas até o final. Foi grande a dificuldade de colocar músicos ocidentais tocando música oriental, indo muito além das 12 notas  tradicionais (vejam, no piano, as 7 notas cheias e brancas, ivory, e as 5 intermediárias, os bemóis e sustenidos negros, ebony). Foi fundamental para o sucesso a orientação do George Beatle ao George Maestro, perfeito link entre as duas culturas.  Aliás, esta foi a última sessão de gravação de Sgt. Peppers's, e foi sem a presença de nenhum outro Beatle. Paul, por exemplo, estava a 8 h de diferença de fuso horário, na Califórnia, fazendo Brian Wilson (dos Beach Boys) chorar, como contei na análise de She's Leaving Home. E o dia seguiu cansativo, com George adicionando toques de cítara na sessão instrumental, e muito importante, o seu vocal solo, cuja voz cansada de um dia atarefado encaixou perfeitamente no clima da séria canção, cheia de mensagens para o mundo.
    Falei  em 'verso', e 'sessão instrumental', e 'mensagens', vamos à estrutura da canção. São 3 versos e dois refrões, todos diferentes entre si, nas letras, com o requinte de que a melodia do Verso 1 nunca mais repetida, pois os Versos 2 e 3 vêm com alteração na melodia, afinal, George é um Beatle. Uma breve passagem pela origem da canção: foi num retiro na casa do amigo Klaus Voorman (baixista alemão que fez a ilustração da capa de Revolver) em que os dois casais e amigo passaram longas horas conversando sobre a filosofia que George aprendera naquele período indiano, após as quais George se sentou a um harmônio, e quatro palavras vieram à mente, acompanhadas de quatro notas: "We were talking...", que era realmente o que eles vinham fazendo, mas ficou nisso! De volta à casa, começou a escrever o resto, mas o título veio num telefonema de sua cunhada, que lera em um livro de um autor indiano: "Life goes on within you and without you", Sempre achei intrigante o título, porque Within não é antônimo de Without, que seria With, sendo Out o verdadeiro antônimo da palavra. E foi isso que fez Jenny ligar para George.  
    No Verso 1, "falávamos das pessoas que se escondem em ilusões, que é melhor que descubram a verdade, antes que seja tarde, antes de morrerem". No segundo verso, com melodia igual mas que se altera no final, indo lá no alto, entra o amor "que todos deveríamos compartilhar", finalizando com a principal mensagem da canção "com nosso amor, podemos salvar o mundo!". Vem o primeiro refrão, onde ele chama as pessoas a "perceberem que tudo está ao seu alcance, sem a ajuda de ninguém", finalizando com o título da canção "veja que você é realmente muito pequeno, e a vida flui dentro de você e sem você". O Verso 3, com melodia igual ao 2, ele alerta as "pessoas que ganham o mundo e perdem suas almas, elas não sabem, elas não podem ver", talvez num recado aos próprios companheiros), e conclui inquirindo "Você é uma delas?". No refrão final, ele conclama  todos a buscarem a paz na mente, que tudo está ao nosso alcance. George estava verdadeiramente elevado, espiritualmente. Não é à toa que dizem que John era a Mente dos Beatles, Paul era o Corpo, George era a Alma, e Ringo era o Baterista! Perdoem-me a piada. Rimas! Sim, três, uma em cada verso, "all" com "wall, " share" com "there", "cold" com "soul". Nenhuma rima nos refrões. No need! 
    Bem, os Beatles não tocavam mais nada ao vivo e, se tocassem, jamais tocariam Within You Without You, evidentemente! Felizmente, hoje existem The Beatles Analogues, e eles não recusaram o desafio. Aprenderam a tocar cítara, dilruba, e swarmandal, chamaram um tocador de tabla e mandarm ver, ao vivo, sensacional. Apenas o tambura, que é aquele som de drone (zumbido) ao fundo de toda a canção foi eletrônico, ao menos não vi sua presença no palco. E ainda chamaram um violoncelo e dois violinos para o acompanhamento ocidental. Obrigado, Analogues, vocês são demais!! 
    Para terminar, a maior mensagem ao mundo, no idioma!

     With our love, we could save the world!

    9. When I´m 64   (Love Girl Song by Paul McCartney)

    Paul pergunta: 'Quando eu ficar mais velho, perdendo meus cabelos, muitos anos adiante, você ainda irá me mandar presentes no dia dos namorados, saudações no aniversário, garrafa de vinho?"
    Esta foi a segunda canção a ser gravada  nas sessões para Sgt. Pepper's, ainda em 1966, mas como a primeira, Strawberry Fields Forever, foi lançada apenas em compacto, When I'm Sixty Four foi a primeiro 'nova' canção do álbum. As aspas que coloquei é porque ela não tinha nada de 'nova'! Paul a tinha feito aos 16 (ou 14) anos de idade, em homenagem ao pai, que era trompetista amador, mas como precisavam produzir material novo, ele foi buscar a composição no fundo do baú. Além disso, por ser no estilo vaudeville, dos anos 1920, se encaixava perfeitamente no clima da banda do Sargento  Pimenta, que era ambientada no começo do século, ideia que Paul tivera um mês antes, naquele voo de volta do Quênia.
    Outro ótimo encaixe foi a escolha da idade, lembre-se, ela foi feita 10 anos aontes do lançamento: o pai se aposentaria aos 65 anos, mas ele escolheu 64, porque havia mais rimas para "four" do que para "five", e essa escolha acabou, por coincidência, coadunando-se perfeitamente com a idade do velho pai. À
    quela altura, da gravação, ninguém imaginava que eles gastariam quase seis meses gravando o álbum, que acabou sendo lançado apenas em junho de 1967 e veja a coincidência: Jim McCartney completaria 64 anos naquele mesmo 1967 e apenas um mês depois. Beatles magic? Como se diz em inglês, 'Perfect fit!'. Um belo presente de aniversário! Idas e vindas em declarações sobra a contribuição de John na composição, foram de algumas palavras a nenhuma, seja como for, é uma pura Paul McCartney!
    E vejamos por que a classifiquei como uma Love/Girl Song. É um casal, jovem ou não tão jovem assim,  fazendo planos para o futuro, checando se um vai cuidar do outro ("will you still feed me"), se ainda irão se sentir enamorados ("Valentine birthday greetings", e indo até a fase de avós ("grandchildren on your knee"), e de perda de condições físicas ("when you light has gone"). Admira-se que um jovem de 16 (ou 14 anos) pudesse ter essa sensibilidade. Mas ele sempre foi Paul McCartney, não é mesmo? E por que essa questão de idade? É que o próprio Paul foi incerto ao contar a história, uma vez dizia que foi já na ápoca de John (16 anos), noutra vez dizia que foi antes de o rock chegar a Liverpool (14 anos), daí ele tê-la feito naquele estilo, seja qual for, uma composição precoce para a idade. A estrutura é simples, verso-ponte-verso-ponte-verso. Talvez na época da criação seriam apenas os versos, e as pontes podem ter vindo posteriormente, com compositor mais maduro. Os três versos têm letras diferentes, assim como as duas pontes, entre si, Beatles Law, assim como as rimas, ricas em profusão, "door-more-evermore-four", "Valentine-wine", "save-Dave", "say-away", "weed-feed", "too-you", e uma nem tão abastada assim, como "fireside-ride", permitido...
    Musicalmente, aparece seu outro grande apelo, chegarei a ele logo adiante. A base, foi feita, por John na guitarra(??), Paul no Baixo, e Ringo no chimbal e bumbo. Logo depois, Paul gravou um piano, e Ringo, uma caixa, só na escova. Dois dias depois, apenas Paul foi ao estúdio e fez seu vocal base, note os 'erres' acentuados em "gRandchildren on youR knees" e encante-se com o "Uh" no fim, apresentando o último solo! Nesse mesmo dia, Paul percebeu que a guitarra de John, apesar de bem tocada, talvez não fosse o som que ele gostaria de ouvir numa canção dos anos 20, quando não havia guitarras elétricas. Doze dias depois, todos ao trabalho, com George e John fazendo vocal de apoio (Uuh's) na primeira ponte e harmonizando na segunda ("We shall scrimp and save"), aliás, o verbo "scrimp" (pechinchar) entra facilmente aquela lista de palavras-não-usuais-em-canções-pop, que se avoluma desde o início da carreira. No mesmo dia, Ringo acrescentou deliciosos sinos tubulares, que seriam de grande destaque na versão final. E Paul discutiu com George Martin sobre arranjo, dizendo que faltava algo para dar o clima de anos 20 à canção, ao que o Maestro retrucou: "Por que não clarinetes?". Bingo! Martin escreveu as pautas e trouxe, dois dias depois, um clarinetista baixo (incrível para marcar o ritmo!) e dois sopranos e fizeram aquela maravilha que se ouve na versão final, logo na abertura, com direito a Beatle break (segundos sem som nenhum), e depois fazendo segunda-voz,  ou contrapontos ao vocal, ou ainda só nos acordes, e finalizando a canção, solo. A guitarra de John parece que foi pro espaço, daí aquele duplo ponto de interrogação ali em cima! Ouve-se Paul, no baixo e no piano, Ringo, no chimbal, na caixa, e nos sinos tubulares, e os clarinetistas! John e George? Apenas nos vocais! Numa decisão final, antes da masterização, Paul pediu que acelerassem a fita o equivalente a uma mudança de meio tom, e então a canção, toda gravada em Dó, saiu em Ré Bemol. Motivo da manobra? Para tornar sua voz mais aguda, mais parecida com a que tinha quando adolescente, época em que fez a canção! Gênio!  Estava pronta a primeira McCartney Vaudeville Song na época dos Beatles. As outras seriam Your Mother Should Know,  Honey Pie  e Maxwell's Silver Hammer, nos dois anos subsequentes! AMO TODAS ELAAAAS!!!
    Ao vivo, pelos Beatles? Nunca! Ao menos, somos contemporâneos de seus análogos! Vejam que preciosidade esta performance da banda The Analogues! Todas os clarinetes e os sinos estão lá, note como o clarinete baixo parece um pequeno saxofone, perceba o trabalho das escovas na caixa da bateria, e a marcação do ritmo com o chimbal, aquele prato de pé! Note como o guitarrista está lá só pra cantar!  De aplaudir de pé! Neste LINK! Note que o 'Paul' também faz o 'erre' acentuado e o 'Hu' final! Perfeito! 
    Termino esta análise com um fato infeliz, tipo coisas da vida. Desde pequeno lembrem-se, eu ouço esta canção desde os meus 9 anos de idade,  eu pensava que ia ser legal ver Paul chegando a seus 64 anos ao lado de sua esposa, em uma excursão chamada 'Now I'm 64' e sairia pelo mundo com ela a seu lado encantando as plateias. Ele se casou com Linda, e ela ficou 10, depois 20 anos com ele, tiveram 3 filhos, mas não chegou aos 30, ela morreu de câncer. Ele tinha 57 anos, e eu pensei: tomara que se case novamente! E ele se casou, com Heather Mills, uma ativista antibombas, coxa, que lhe deu até uma filha, Beatrice! Mas, ela era meio doidinha, separou-se, levou 50 milhões de dólares com ela, e Paul ficou sozinho, aos 63 anos de idade! Caramba, bateu na trave. E ele passou seus 64 anos sem viajar para a Isle of Wight com sua companheira!


    10. Lovely Rita   (Flirt Girl Song by Paul McCartney)

    Paul paquera: 'Querida Rita, agente de trânsito, posso perguntar discretamente? Quando você estará livre para tomar um chá comigo?"
    Existiu uma Rita? Pode ser que sim, mas o nome era parecido. Existia uma agente de trânsito na região onde Paul morava, St. John's Wood, que se chamava Meta Davies. Ela teria dado uma multa a ele, que teria conversado com ela. Agente de trânsito na Inglaterra é Traffic Warden, mas nos US é Meter Maid. O som de "meter" é "mita", que é boa rima para "Meta" e para "Rita", que foi o nome escolhido para a canção. Outra coisa, "Maid" tem uma leve conotação sexual. Pronto, então Paul paquera Rita, querendo tomar um chá com ela, e talvez um pouco mais que isso! E parece que consegue, pelos sons que se ouvem no final da canção!! O tom de humor da canção também foi premeditado para acrescer ao leque de humores de Sgt. Pepper's, um verdadeiro caldeirão!
    Ele montou a receita desse cozido com três refrões, onde ele 'canta' a agente, entremeados por dois versos, onde ele conta sobre os fatos de seu relacionamento, todas as cinco peças da estrutura com letras diferentes entre si (Check Beatles Rules). No Refrão 1, ele diz que vai rebocar seu coração ("tow your heart away"), o que é genial porque 'rebocar' é uma das ações comandadas pela profissão dela; no Refrão 2, ele a convida para o chá, discretamente "When you are free to take some tea with me?"; no Refrão 3, ele já não pode viver sem ela ("Where would I be without you?"). No Verso 1, ele flagra Rita no ato ("Filling in a ticket in her little white book"), e comenta como seu quepe e traje a fazem parecer mais velha, Made her look a little like a military man; No Verso 2, contas as ações da paquera, Took her out and tried to win her, chamou pra jantar, levou-a pra casa, e quase conseguiu o intento ("Took her home and nearly made it"), mas na música, como eu disse, parece que chegou lá! Rimas Ricas? Claro, além da composição interna em uma frase, com o título "meter-Rita", já mencionada, tem "older-shoulder". Porém, as rimas mais notáveis estão nos versos, são duas rimas que rimam palavras com locuções de palavras. A primeira é apenas toante, porque há letras diferentes, mas o som é rimado: "discreetly" com "with me". A outra é perfeitíssima: "win her" com "dinner". Genial ou não?
    Lovely Rita levou 5 sessões para ser concretizada. A base foi Paul no piano, John e George em violões (um no começo do braço outro no fim, lá no alto) e Ringo na bateria. Cinco momentos de overdubs posteriores foram especiais:
    1. A linha de baixo de Paul: foi a primeira vez em que Paul ficou só no estúdio, de madrugada, após os companheiros irem embora, com dois ou três técnicos à sua disposição, podendo dedicar-se a fundo. E ela é veramente speciale. Geoff Emmerick, o produtor, aproveitou para inovar na captação do som, aproveitando a solidão do baixista no meio do estúdio;
    2. A sessão solo: Como George não conseguia acertar sua guitarra para a sessão, Paul deixou a decisão para Emmerick, que sugeriu um piano, foi desafiado a ele mesmo tocá-lo, mas não sentiu confiança no taco, e a função acabou caindo de novo nos dedos experientes de George Martin, que entregou um espetacular solo, a la Velho Oeste. Emmerick se arrependeu da arregada até o fim de sua vida!
    3. Os Vocais: Paul queria fazer backing vocals ao estilo dos Beach Boys. Críticos acham que realmente lembraram, eu não posso analisar, porque não os conheço bem, aliás, perdoem-me, "Pet Sounds", seu disco mais famoso, não me encanta, sorryyyy. Para mim, são os perfeitos vocais dos Beatles de sempre mesmo aparecem no final do segundo refrão, e seguem nos refrões até o final!
    4. Sons e narizes: além do chocalho simulado por Paul com a boca (chick-chick-chick) na segunda metade dos versos, John acrescentou respirações na sessão final, que lembram o ritmo e momentos de relações sexuais, chegando até ao clímax, inclusive acompanhado pelo piano;
    5. Instrumento heterodoxo: os sons similares a uma trompa, que se ouvem em pontos variados (após "between us", "mlitary man"), são proporcionados por pente e papel higiênico!!! Sim, dobre uma folha papel sobre um pente e sopre a melodia desejada por sobre o conjunto, acresça eco e outros efeitos criados por Emmerick, e terá o divertido som que se ouve na canção. Ah, esses Beatles, sempre inovando! Todos os quatro apresentaram suas contribuições ao inusitado 'instrumento', que até tem um nome: Kazoo!
    Ao vivo? Nunca, claro! Que bom que quando a canção é de Paul, há uma chance de que ele a tenha tocado ao vivo na carreira solo. Procurei e achei!! Veja aqui neste LINK, e note o excepcional baterista Abe Laboriel Jr fazendo backing vocals e alguns dos sons. Adorei o final estendido e dobrado! Dá pra ver que realmente eles queriam dizer aquilo, com aquelas respirações ao final.
    Claro que, com um instrumento tão incomum tocado pelos Beatles, eu não poderia deixar de ir procurar seus análogos, para ver se eles reproduziram também o pente com papel higiênico, e ... BINGO!!! The Analogues trazem, inclusive, kazoo's. Entretanto, veja que o som está longe da qualidade alcançada em estúdio!! Neste LINK!
    Enjoy!! 

     11. Good Morning Good Morning  (Self Help Song by John Lennon)

    John reclama: 'Pessoas correndo em volta, são cinco horas. Por toda parte na cidade está escurecendo. Cada um que você vê está cheio de vida. É hora do chá e de encontrar a esposa''. 
    Disfarçado na letra aparentemente jogada, está um John Lennon frustrado com a vida de casado. Ele vê o amigo Paul, livre leve solto, passeando pela cena londrina, participando da vanguarda que surgia, e ele como marido, que tem que voltar pra casa, pra mulher e filho, e ver TV, e os comerciais de Corn Flakes, de onde tira o título da canção. Ele vê que "Everyone you see is full of life" mas ele fica preso porque "It's time for tea and meet the wife", aliás, Meet The Wife era um programa que  ele via na TV, imerso naquele monótono dia a dia, num tempo sem shows, sem viagens, sem programas de auditório, sem entrevistas, apenas do estúdio pra casa, da casa pro estúdio. Depois ele se resigna, "Go to a show you hope she goes... I've got nothing to say but it's O.K. Good Morning Good Morning Good Morning". Típica Help Self Song!

    Usei o adjetivo 'jogada' ali de cima foi porque John disse que Good Morning Good Morning era uma das que ele considerava lixo. Nada disso! Aliás, muito longe disso! Além do claro pedido de socorro, a estrutura dela obedece à regra informal de não se repetir letras em versos subsequentes. A última vez em que isso aconteceu foi Do You Want To Know A Secret, lá de 1963, pode conferir.  
    Mas John acrescentou um requinte nas rimas que não vi em nenhuma canção dele ou de qualquer Beatle. Refiro-me às rimas dentro dos limites de uma linha! Resolvi desenhar o primeiro verso, em que John meio que se coloca em estado terminal, nada a fazer pra salvar sua vida, onde houve uma profusão delas!  
     
    Veja que em cada linha há uma rima interna, portanto são quatro, mais a rima de final de frase. E apenas "life-wife" não é rica! E o show continuou: no Verso 2, John faz o que George fez em Within You Without You, fez um verso de comprimento diferente, sendo que aqui, é mais curto que os demais, tem apenas duas frases. Curto, porém suficiente para dar uma mostra de sua angústia: vai para o trabalho sem vontade de trabalhar, e volta pra casa sem vontade de ir pra casa. E entrega mais uma rima interna, "roam-home", e uma de final, "down-town", ambas ricas. Vem a primeira ponte, em que declara vários motivos de sua solidão, com duas rimas ricas, das quais destaco esta, que considero a melhor de toda a canção: "there's nothing doing" com "it's like a ruin". O Verso 3 volta à estrutura normal, de quatro frases, para contar que havia momentos de alívio da solidão, onde ele sorria e se sentia legal, e nele John entrega mais três rimas internas (deixou escapar uma, se tivesse me perguntado, eu tinha uma boa pra ele, mas eu estava a 6 mil milhas de distância e tinha apenas 9 aninhos, era só trocar "take a walk" por "take a ride", e aí rimava com "now you decide", hehehe), sendo duas novas, "while-smile" e "changed-same", e o verso termina com a mesma última frase do Verso 1, e que é o moto da canção "I've got nothing to say but it's OK". 
    Ok Ok rimar clock com dark foi apelação 
    Na ponte que vem a seguir, a última, é onde ele mostra aquela inveja contada no caput desta análise, e ela merece mais um desenho, pois é mais uma profusão de rimas, internas, mas agora cruzadas, entre linhas, veja que legal!
    O Verso 4 (final), também é longo, também termina com o moto da canção, seu significado é mais otimista, e entrega três novas rimas dentro de frases: a primeira é "time" com "I'm", genial, mas acho que Paul já havia usado, falha-me a memória agora onde foi; a segunda é "skirts", ou seja, as saias das meninas que ele olha, que rima com "flirt", que é o que ele vai fazer, paquerá-las; e a terceira, ele rima "go to a show" com "I hope she goes", e aqui eu acho que ele volta a resignar-se, com Cynthia sendo "she", que não desejaria sair com ele, mantendo-o naquela vida caseira. Pode ser! Verso e canção terminam com o moto "I've got nothing to say but it's OK". Bem, fez as contas, né, QUATRO versos e DUAS pontes, todas diferentes entre si! Rico, riquíssimo!!  
    O show segue na parte musical, também muito rica, e que começa com uma base inusitada: é John na guitarra de ritmo, Ringo na bateria, George no pandeiro (e aquele seria o único instrumento que ele tocaria na canção) e Paul, também na bateria (!!), mais especificamente, de pé, tocando o tambor vertical. Paul assumiu essa posição porque o tempo da canção era complicadíssimo para Ringo acertar: para se ter uma ideia, só no primeiro verso há a conjunção de 3 tempos, 3/4, 4/4, e 5/4, um ouvido educado perceberá, o meu não é, mas assim li, assim transmito a vocês! Numa segunda sessão, oito dias depois,  Paul acrescentou sua linha de baixo e John, seu vocal principal, e daí ficaram 25 dias sem se dedicar à canção, porque John não se decidia em qual instrumentação queria acrescentar. Foi no glorioso 13 de março de 1967 que chegaram ao estúdio os 'metaleiros' da Sounds Incorporated, uma banda amiga dos Beatles de longa data. Entenda-se por metaleiros, os tocadores de metais, instrumentos metálicos de sopro, e foram saxofones (3), trompetes (2) e uma trompa, já nossos conhecidos, os dois primeiros utilizados em Got to Get You Into My Life, e a última em For No One. Uma curiosidade sobre a sessão, é que passaram horas papeando sobre reminiscências, e também ouviram, em primeira mão, o que já estava sendo gravado em Sgt. Peppers, e ficaram simplesmente embasbaca dos. Quando foram educadamente chamados ao trabalho, receberam as partituras que George Martin havia criado a partir das instruções de John ao piano, e passaram outras horas gravando a parte mais marcante da canção, ouça se não!! E também está assim tão potente porque os técnicos estavam sob pressão de John que queria um som diferente de tudo o que se ouvira anteriormente. Microfonagem próxima, compressão de som, ADT, tudo o que estava ali disponível foi usado! Para ótimo efeito! Um desejo Beatle era uma ordem!! Entretanto, mais 14 dias se passaram até a sessão final, que teve um novo vocal principal de John, os vocais de apoio de Paul (sem George), e uma pesada guitarra solo de ... Paul! Sim, mais uma vez, Paul assumia o papel de George, que, como já dissemos, estava meio desestimulado! Mas não foi só isso! John não queria simplesmente terminar a canção, precisava mais novidade. Como o título lembrasse um acordar estrepitoso, ele se lembrou do canto de um galo, e também quis outros animais, de fazenda, ou até da selva, mais ou menos obedecendo à cadeia alimentar,  e então vieram, na ordem, galo, aves, gato, cachorro, carneiro, leão, elefante, cães caçando raposas e cavalos galopando, finalizando com uma galinha, tudo ao som de seguidos Good Mornings. Sugiro fortemente que se ouça com fone de ouvido, aliás sempre sugiro, para notar o movimento da matilha e cavalos por sua mente, do ouvido direito ao esquerdo!! E, para finalizar a dedicação em estúdio, a marca registrada do álbum Sgt. Pepper's, com seu final mesclando com o início da próxima canção, no caso, a despedida da banda, a reprise da canção título do álbum, com letra um pouco alterada.
    E, claro, como já estamos acostumados, nossos salvadores, The Analogues, apresentam-nos como seria Good Morning Good Morning com os recursos de hoje! Aqui, neste LINK!


    12. Sgt. Pepper's LHCB - Reprise (Group Speech Song by McCartney)

    Os 4 Beatles se despedem: "Somos a banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta! Esperamos que tenham gostado do show! Somos a banda do Sargento Pimenta e seus Corações Solitários! Pedimos desculpa, mas é hora de ir embora"  
    Um dos roadies dos Beatles, Mal Evans, testemunhara a concepção da  ideia da canção/álbum Sgt.Pepper's, inclusive há rumores de ter contribuído na letra da canção; o outro roadie, também amigo dos velhos tempos, Neil Aspinall, deu a ideia de terminar o álbum conceitual da banda alter ego dos Beatles, com a mesma canção, com letra modificada, afinal era Paul quem tomava o microfone nos shows,  desculpando-se de que iam tocar a última canção e perguntando se o público havia gostado. Afinal, o que eles haviam feito era um show, retratado em um disco. Requeria despedida! Paul gostou, e escreveu. E John gostou. E assim se fez! Escreveu dois versos, com a melodia do refrão da canção original, se não se lembra de sua estrutura, recorra à análise que fiz dela, aqui, neste LINK. Criativamente, Paul rima, no Verso 1, com as mesmas palavras daquele refrão original, somente modificando o contexto de seu uso. Seria uma rima paupérrima, rimando uma palavra com ela mesma, se não fosse o contexto, o que a deixa rica!! Note: 

     Lá era: We hope you will enjoy the show... 

    Aqui é: We hope you have enjoyed the show... 

    Lá era: Sit back and let the evening go... 

    Aqui é: We're sorry but it's time to go...
     
    Então, se naquela canção, ele havia inventado a rima 'interplanetária' (veja lá na análise), entre dois versos separados, posso chamar esta rima de 'galáctica', entre duas canções. no No Verso 2, ele agradece à plateia e lamenta o final do show:  

    We'd like to thank you once again 
     
    Sgt. Pepper's one and only Lonely Heart's Club Band

    It's getting very near the end

    Resolvi transcrever o verso inteiro aqui por doi motivos: primeiro para ressaltar a rima rica "again" com "end", e como ele rima com "Band"; segundo, por causa da expressão que ressaltei em preto. Além da  genial sonoridade dobrada do "only Lonely", a expressão destacada em preto quer dizer "primeira e única". Paul a escreveu  pensando no conceito, afinal era a primeira e única vez que a Banda do Sargento Pimenta apareceu no universo. O que ele não sabia, ao escrever, é que suceder-se-ia uma série de 'primeiras vezes'. Senão, vejamos: 
    • 1ª vez (n) que eles vão projeto Sgt.Pepper's) que eles vao trabalhar num sábado. A ideia da canção veio tarde no processo, tudo já estava terminado, todas as canções do álbum estavam gravadas, em processo de edição, finalização, masterização. No dia 3 de abril, Paul viajaria para os Estados Unidos, tudo marcado, para encontrar sua namorada Jane Asher, que fazia longa temporada com sua peça de teatro, há 3 meses não a via. Sobrou uma data: 1° de abril de 1967. Haviam decidido que fins de semana eram sagrados, para relaxar e recalibrar-se. E 1° de abri era um sábado e eles já foram, e eles estavam muito animados!!! Iam terminar o álbum de suas vidas!!
    • 1ª vez em que gravaram, a banda toda, sozinhos, no Estúdio 1, o maior da casa, pois os outros estavam ocupados por outras bandas que haviam reservado os estúdios menores. Gigantesco, era cavernoso, o estúdio causou dificuldades para Geoff Emmerick acertar o som, evitando o eco natural de um ambiente tão grande. Ele construiu com telas, como que uma cabana ao redor deles, colocou os amplificadores perto da bateria para minimizar o vazamento de som, e colocou os quatro para tocarem um olhando pro outro
      Como é que não tiraram foto dissooo? Foi necessário o qualificador 'sozinhos' porque já haviam gravado ali, mas junto a uma orquestra, tipo de configuração, aliás, para a qual o enorme estúdio fora criado, em A Day In The Life;
    • 1ª vez na história em que, num álbum de rock, a canção de abertura volta para terminá-lo, ou melhor, para anunciar o seu final;
    • 1ª vez em que os Beatles se utilizavam do recurso de repetir uma melodia apenas modificando seu tom! É um recurso que normalmente se usa para romper a monotonia de ouvir versos repetidos inúmeras vezes. Os Beatles nunca necessitaram, dessa manobra, suas letras quase nunca se repetiam. George usaria essa técnica em seu primeiro grande sucesso solo My Sweet Lord. Aqui, reparem que quando vai terminando o Verso 1, antes do 4° "Sgt. Pepper's Lonely", a canção sobe um tom inteiro, de FA Maior para SOL Maior. E aqui, não é apenas para 'quebra monotonia', era para aumentar o clímax de fechamento de um grande show; 
    • 1ª vez  (em muito tempo) que eles gravam uma canção em um único dia! A base foi Paul ao piano (com um vocal de guia), John na guitarra base, George na guitarra solo, Ringo na bateria. Os overdubs foram Paul, no baixo, Ringo no pandeiro e no chocalho, os efeitos de auditório e os vocais, mas os vocais merecem mais um verbete na linha do 'primeira vez';
    • 1ª  vez em que os quatro Beatles cantam numa mesma canção! John, Paul, George e Ringo cantam a totalidade da canção. Repetiriam, em Flying e e Carry That Weight

     

    Ai, ai, ai, é muita novidade pra uma canção de fechamento de 100 segundos!
    Mas eles eram THE BEATLES!


    13. A Day in The Life (Self Story Song by John Lennon)

    John conta: "Eu li as notícias hoje, caramba, sobre um sortudo que conseguiu a nota. E apesar de as notícias serem tristes, eu tive que rir. Eu vi a foto!"
    E assim foi, e também o político se matou dentro do carro, a cidade inglesa cheia de buracos, e o exército inglês que ganhou uma guerra, algumas notícias de jornal que John leu, e o filme que John viu,  que viraram uma canção sensacional. O refrão "I'd love to turn you on" foi considerado uma ode às drogas (e era!), o que causou o banimento inicial da canção nas rádios, mas logo passou. Paul admitiu que aquela era mesmo uma 'drug song', aliás, disse que Sgt. Pepper's era um 'drug album'. Mesmo assim, prefiro manter a canção nesta categoria, de story song. Na parte em que Paul canta 'Woke up, got out the bed, dragged a comb across my head...', eram também reminiscências da adolescência, como fizera em Penny Lane, porém, também uma história em 1ª Pessoa, afinal depois ele diz: ("I noticed I was late!"). Justificada minha classificação, vamos à história!

     

    As sessões de Sgt.Pepper's começaram em novembro de 1966, logo após os quase três meses de recesso em que os Beatles tiveram pós-decisão de não fazerem mais shows, como contei no começo deste capítulo (LINK)! As duas primeiras canções atacadas eram obras-primas, Penny Lane e Strawbery Fields Forever, que levaram quase mês e meio para ficarem completas, e seriam lançadas em single. Portanto, obedecendo à convenção do condomínio Beatle, instalada após HELP!, não seriam lançadas em álbum. A que veio em seguida ou quase concomitantemente, era uma canção antiga de Paul, que foi revivida, When I'm Sixty Four. Portanto, chegávamos a quase dois meses e nada de aparecer uma composição nova ao efeito. E quando veio, foi outra obra-prima, esta que ora analiso, e que foi tão estupenda que decidiram: Esta vai fechar o álbum!

     

    Começou com uma ideia de John, que leu um jornal, pegou o violão e cantarolou o Verso 1, retratado no caput desta análise. Levou o que tinha a Paul, e os dois fizeram juntos o Verso 2, do cara que "blew his mind out in a car" e termina com "Nobody was really sure if he was from the House of Lords". E John se lembrou do filme que ele filmara recentemente, baseado num livro dele mesmo, How I Won The War, sobre uma guerra e fez o Verso 3, que conta "The English Army had just won the war" e termina com "But I just had to look, having read the book". Sim, o verso terminaria com o livro de John, mas Paul tira da cartola um elemento importantíssimo da viagem que a canção estava se transformando, e acrescenta uma singela linha ao Verso 3, que muitos consideram um refrão, que dizia "I'd love to turn you on". Ah, como essas sete palavrinhas deram problema! Elas causaram o banimento da canção das rádios, como falei ali em cima, mas mais do que isso, e para o lado da genialidade, introduzem a verdadeira viagem que seria a ponte instrumental, sobre a qual falarei mais embaixo. A seguir, veio um complemento, de Paul, que não se pode chamar de Ponte, pois não leva a lugar nenhum, conta outra história, nada relacionada aos versos, melodia e ritmo diferentes, mas que encaixa perfeitamente. Vou chamá-la de Desvio! Nele, Paul acorda, se penteia, desce, bebe um café, percebe-se atrasado, pega casaco, chapéu, e ônibus, sobe, dá uma tragada, alguém fala e ele viaja num sonho alucinógeno.... sim, era uma "drug song". Aí entra uma linda Ponte, em que John parece que acompanha o sonho de Paul, em um tocante vocal, sem letra, apenas uma, um lamentoso "Aaaaa", maravilhoso, e ao seu final, ele mesmo segue para o Verso 4, de sua autoria, aquele do "4 thousand holes in Blackburn Lancashire", contados um a um, e aqui, deu bloqueio no letrista, que não conseguia 'fill in the blank' na frase "...holes it takes to _ _ _ _ the Albert Hall", nada demais, ele externou sua dúvida, e um amigo deles, presente, chamado Terry Dooran, disse, displicentemente: "Fill, ué!". O verso termina na mesma problemática frase, com o desejo de 'ligar' as pessoas, que, por sua vez, leva a uma segunda execução da ponte instrumental, a mesma da primeira, ao cabo da qual vem um estrondoso final em MI, sobre o qual falarei na parte musical, que começa agora!!

     

    Antes de consubstanciar a complexidade da canção, passo pelo tradicional papo sobre as rimas, que são uma em cada verso, todas ricas (1-"laugh-photograph", 2-"before-Lords", 3-"look-book", 4-"all-Hall"),  mais duas no Desvio ("bad-head", "hat-flat"), além de uma interna, como Paul adora fazer "smoke-spoke". E falando em compassos, a quantidade de tempos (time signature) a canção era uma plêiade: Verso 1 - 20, Verso 2 - 18, Verso 3 - 19, Ponte Instrumental-24, Desvio-23, Ponte 2 - 20, Verso 4 - 19, Ponte Final -24.

     

    Foram necessárias 6 sessões de gravação para A Day In The Life, a primeira delas em 19 de janeiro de 1967, dia que ficou marcado na memória de George Martin e Geoff Emmerick, produtores. Era John no violão, Paul no Piano, Ringo num atabaque e George no chocalho, lembre-se bem deste último. Mas o mais importante da sessão foi que John cantou, e como cantou John naquele dia!! Posso imaginar os quatro Beatles no chão do estúdio, enquanto Martin e Emmerick se entreolhavam na sala de controle (o aquário), perguntando-se: "O que é aquilo?". Em entrevistas posteriores, ambos afirmaram que John havia se superado naquele vocal, que causava "arrepios na espinha", ou "os pelos em minha nuca se eriçavam", o estúdio parecia voar alto na sua voz, devidamente assessorada por um eco fantástico. E aquele foi apenas o Take 1, e houve o Take 2 e o 3 e o 4, em que John, cada um ia superando o anterior! Bem, aqueles eram os 4 versos, todos cantados por John. Note ao ouvir (com fones de ouvidos, claro) que, do início do Verso 1 ao final do Verso 3, John vai passeando por sua mente, da direita para a esquerda!  Eles trabalharam também o Desvio, criado por Paul, só que Ringo passou à caixa da bateria, e Paul nada cantou, estava muito ocupado no piano. Nesta sessão, também, Paul apresentou a ideia de uma sessão instrumental entre o Verso 3 de John e o seu Desvio, e que pensou que teria a duração de 24 compassos, mas ninguém ainda sabia como. Para deixarem o espaço certo de fita, Paul ficou tocando no piano uma nota só, e colocou Mal Evans, o faz-tudo dos Beatles, para contar a cada 4 tecladas (o compasso era 4x4), e Mal foi ta-ta-ta-1-ta-ta-ta-2-ta-ta-ta-3-ta-ta-ta-4-....-ta-ta-ta-13-ta-ta-ta-14-....-ta-ta-ta-23-ta-ta-ta-24, ao fim do qual programou um despertador pra tocar! Esse despertador sobreviveria na versão final, afinal, Paul entra cantando "Woke up, got out the bed". Terminada a sessão, de madrugada, três trilhas estavam ocupadas com a voz de John para posterior seleção dos melhores momentos...

     

    ...o que foi feito logo no dia seguinte, abrindo a sessão, que teve também Paul fazendo sua linha de baixo, e teve Ringo, em sua bateria, e teve John dobrando seus vocais naquela espécie de refrão das 7 palavrinhas fatídicas, e teve Paul gravando seu vocal no Desvio (e todo mundo se espantou com a coincidência do despertador com o "Woke up"), que só não foi aproveitado porque ele errou a letra e soltou um "shit", e teve George tentando uma guitarra no final do Verso 1. Você ouve a guitarra na gravação final? Nem eu...  

     

    A Sessão 3 teve o vocal final de Paul no Desvio, e também a respiração rápida de John, e o sensacional e enorme melisma da segunda Ponte, com John entoando como que um mantra,  Aaaaaaa, passeando por sua mente em sonho (lembre-se que Paul havia "entered into a dream", da esquerda para a direita (ouça com fones de ouvido), cujo efeito seria ainda aumentado por orquestra, posteriormente. Paul melhorou sua linha de baixo, e Ringo foi convencido por Paul a inserir viradas de bateria usando os tom-tom's,  o que acabou se constituindo em seu melhor desempenho até então, superando Rain e Tomorrow Never Knows. Foi a última sessão em que Beatles tocaram algo, exceto Paul, que tocaria.... uma baqueta de Maestro!! Para tanto, darei destaque ao próximo parágrafo 
    Entre os momentos John (terminando o Verso 3) e Paul (começando o Desvio), há um revolucionário crescendo de orquestra, ideia de John, que explicou o desafio a George Martin, ou de Paul, que estava imerso em movimentos de vanguarda, e teria conversado com John, entenda-se como quiser. O desejo era que parecesse o fim do mundo. John queria uma orquestra sinfônica, de 90 músicos,  Martin reclamou do custo e Ringo veio com a ideia salvadora: "Contratem metade dos músicos e façam-nos tocar duas vezes!". George Martin escreveu uma pauta para cada instrumento com a seguinte regra: a nota mais grave possível no começo da pauta, e a nota mais aguda possível no mesmo instrumento lá no final do compasso 24, e praticamente uma linha reta de notas entre as duas, com a sugestão de ritmo pianíssimo no começo e fortíssimo no final.  Uma semana depois, 41 músicos invadiram o Estúdio 1, o maior deles, em trajes de gala, sugestão de Paul, que queria uma efeméride, os técnicos também a rigor, os Beatles e amigos (Mick, Keith e Brian dos  Rolling Stones, Graham Nash, Donovan) em trajes psicodélicos. John trouxe enfeites de festa a fantasia, narizes de palhaço, chapéus, perucas, gravatas, para que todos usassem. O gigante Mal passeou pelos músicos para que escolhessem seus aparatos, e eles até que usaram, não sei se por se sentirem pressionados pelo tamanho do provedor! E aqueles músicos  eram, apenas, os melhores da cena londrina! Depois, Paul e George Martin aproximaram cada um dos músicos explicando a pauta.

    Paul subiu no púlpito, repetiu as instruções gerais de tocarem seus violinos, violas, contrabaixos e sopros, do mais grave ao mais agudo, improvisando livremente no movimento, em 24 compassos e os regeu! Fizeram 4 takes, e todos foram somados,  um por cima do outro, então graças à simples ideia de Ringo, o desejado efeito de 90 músicos, foi quase dobrado: o som resultante era de 164 instrumentos! Após a segunda entrada de John, o crescendo é repetido.
    Como Grand Finale, Paul veio com uma ótima ideia de fazer um mantra em Mi Maior  com as vozes dos amigos presentes na sessão. Todos toparam, fizeram quatro takes, porque os três primeiros terminaram em risadas. A ideia foi posta de lado! E veio a ideia dos pianos:  numa quinta sessão de gravação, dois pianos de cauda foram trazidos ao estúdio e ocupados por John e Mal Evans (Geoge Harrrison não apareceu), Paul e Ringo dividiram um terceiro piano, vertical, e também George Martin num harmônio. Todos ficaram em pé, para aumentar a pressão na tecla,  e tocaram, em uníssono, um acorde Mi Maior. Foram quatro vezes. A última durou 59 segundos, mas a terceira, que durou 53 segundos, foi escolhida. O movimento é considerado um dos melhores acordes finais de música da história, sempre eles...  Pra completar, John insere ali, depois daquilo tudo, uns sons ininteligíveis, captados da audiência daquela sessão orquestral, e tocados em reverso, aos quais os fãs insistiram em atribuir mensagens ocultas. A canção é a última do disco! Impossível seria ter qualquer coisa após aquele final retumbante e apoteótico!

     

    Finalmente, a última sessão teve Paul adicionando um piano! Ah, sim, naquilo tudo, a participação de George Harrison, alheio, com a mente na cultura indiana, foi tocar .... um chocalho!

     

    Ao vivo? Claro que recorreremos aos extraordinários The Analogues. Veja que espetáculo! Claro que não contrataram 164 instrumentistas, nem mesmo 41, mas resolveram a situação. Começam tocando os versos, muuuito bem, com o pianista fazendo a voz de John, muuuito parecida, o baterista imitando Ringo no detalhe, e chegando na hora, os 10 instrumentistas clássicos no palco são ajudados por outras dezenas num telão! O efeito é ótimo! Eu chorei aqui, e ri desenfreadamante! São geniais. Note o detalhe do 'Paul', quando entra o acorde final, pede silêncio, nada de aplausos, para reproduzir os 53 segundos, mas não teve jeito, aos 40 segundos, irrompem-se aplausos. E eles merecem. Viajem com ele, aqui, neste LINK!

    ESTAVA TERMINADO 

    O ÁLBUM MAIS IMPORTANTE 

    DA HISTÓRIA DA MÚSICA!


    A seguir, capa, lançamento, recepção e legado de Sgt. Pepper's

    ________________________________

    Acho que cabe um breve retrospecto, a partir do lançamento de Revolver
    • Os Beatles se encheram das turnês de shows e se recolheram
    • O último show foi em San Francisco, em 26 de agosto de 1966
    • George foi pra Índia aprender a tocar cítara com Ravi Shankar
    • Paul fez uma trilha sonora de um filme, Family Way, com George Martin
    • John fez um filme, How I Won The War, e conheceu Yoko Ono
    • Ringo ficou com Maurreen e o pequeno Zak
    • Todos compuseram canções (bem ... quase todos)
    • No almoço de um voo, Paul McCartney olhou para os potinhos de Sal e Pimenta (Salt and Pepper) e teve uma ideia... S e P ... e aí ele 'viajou'...
    • Voltaram aos estúdios da Abbey Road em 24 de novembro de 1966
    • Já tinham parte do material para o 8º LP da carreira
    • Só em janeiro de 1967 veio a ideia de fazer um álbum conceitual
    • Ficaram gravando até 21 de abril de 1967 
    • Foram 700 horas de de gravação
    • A imprensa achava que eles tinham acabado, pela falta de notícias
    • Eles não perderam por esperar,,,


    E, num belo dia desses montes de dias, Paul começou a ter uma ideia sobre a capa, trouxe uma foto velha do pai dele em frente a uma família numerosa, contrataram um certo Peter Blake, e sua esposa 
    Jann Haworth, renomados diretores de arte, a coisa evoluiu para colocar um monte de gente por trás dos quatro, e depois para imagens de gente famosa. Eles seriam os fãs da banda

    Eis um diálogo que ocorreu, quando Paul expôs a ideia.... 

    George Martin:        "But, Paul, they will sue us!"
    Paul McCartney:     "No, George, they will love us!" 
    (o verbo "to sue", em inglês, é "processar"

    John pensou em Jesus, e Hitler, alguém deve ter dito: "Ô John, lá vem você de novo arrumar confusão pra gente com Jesus?". E Hitler, cá entre nós, ideia de jerico! Ele acabou sugerindo o ex-Beatle Stuart Sutcliffe, Aldous Huxley, Edgard Allen Poe e outros. E Paul colocou Stockhausen, William Burroughs, Marlon Brando, Fred Astaire, e outros.  George incluiu quatro gurus indianos (na época, ele só pensava 'naquilo'). E Ringo sugeriu... ninguém, estava apenas feliz com aquilo tudo. E o artista Peter Blake trouxe W.C. Fields, Tony Curtis, Shirley Temple e outros. E lá estavam Marilyn Monroe, Karl Marx, Marlene Dietrich, Carl Jung, O Gordo e o Magro, Einstein, Bob Dylan, Dylan Thomas, Fred Astaire, Bernard Shaw, H.G.Wells, Sonny Liston, Bette Davis, Lewis Carrol, Johnny Weissmuller e ainda mais outros. Todos esses 'outros' são nomes que não conheço! Um total de 71 figuras,  sendo 57 fotografias, aparecem em volta daquele tambor com o nome da banda cercado de flores e inúmeros objetos, que incluía até um aparelho de TV. E escolheram as famosas roupas coloridas de cetim, de instrumentistas de banda da Era Edwardiana, até que chegou o dia 30 de março, quando tiraram um monte de fotos, uma delas ali em cima, e buscaram os bonecos de cera deles  mesmos na época da Beatlemania emprestados por Madamme Tussaud, e Peter Blake e esposa montaram aquela colagem toda e o fotógrafo  Michael Cooper tirou um monte de fotos e foi escolhida a famosa foto da capa. Custo da brincadeira?Só 3.000 pounds, equivalente hoje a 340 mil reais!!!

    Duas curiosidades sobre os escolhidos:
    • Um certo ator americano, de nome Leo Gorcey exigiu US$ 400 para liberar sua imagem. Foi desconvidado!! Deve ter se arrependido! Ou não?
    • A grande atriz Mae West aceitou participar, depois desistiu, perguntando: Por que eu, logo eu, faria parte de um Clube de Corações Solitários? Então, os 4 Beatles escreveram uma carta pedindo para ela reconsiderar. Ela aceitou. E está lá!!!
    Paul de costas = está morto? Papo pra outro post
    Só que não ficaram só nisso, resolveram que seria uma capa dupla e que incluiriam um encarte com decalques de distintivos e bigodes, e mais uma foto maravilhosa multicolorida dos quatro Beatles na capa sanduíche (dupla) aberta, visualmente perfeito mas, muito mais que isso, PELA PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA DA MÚSICA, publicaram as letras das canções!!!! 

    Pausa para recordação: 
    Fiquei maravilhado quando abri, nos meus 9 ou 10 aninhos (não lembro bem QUANDO chegou o disco no Brasil, se eu já havia completado 10 anos), e vi que poderia acompanhar as músicas com as letras!!! Foi isso que alavancou meu aprendizado de inglês a partir de então!!!!

    Recentemente, fiquei sabendo que essa ideia foi de John, por causa de um professor espanhol que foi atrás dele quando filmava em Almería, e pediu, porque facilitaria as aulas de inglês que ele dava pros seus aluninhos, sem as letras, ele tinha que 'tirar' de ouvido, e às vezes errava, olha que legal!! Houve um filme, muito legal sobre esse encontro, espanhol, "Vivir es Facil Con Ojos Cerrados", traduzido do inglês "Living Is Easy with eyes closed", que vem a ser a primeira frase da canção Strawberry Fields Forever,  que John Lennon fez no trailer de filmagem de seu filme How I Won The War.

    É legal ou não é?

    Pausa pra um fenômeno:
    Nos 10 meses que separaram os lançamentos de Revolver e Sg.Pepper's, um fenômeno surgiu do outro lado do Atlântico. Assim como os Beatles, eles eram quatro, eram músicos, eram atores, eram engraçados, eram carismáticos. Assim como os Beatles, eles tinham o nome de um animal com uma letra trocada. O 'e' que saiu dos Beetles expulsou o 'y' e eles viraram The Monkees! Era uma banda artificial, sim, mas conquistaram o mundo. Ficaram 3 anos na TV americana, toparam as paradas durante 31 semanas, na ausência de Beatles! O contador de vendas de discos deles passou de 60 milhões, ao longo das décadas! Eu não perdia um episódio do seriado! Os Beatles gostavam muito deles. 

    Em 19 de maio de 1967, Brian Epstein recebeu amigos e imprensa selecionada em sua casa para a festa de lançamento. Veja que John estava especialmente animado, hehehe. 

    Uma semana depois, em 26 de maio de 1967, o mundo se espantou e parou para ouvir Sgt. Pepper's. Londres, ou melhor, a Inglaterra parecei que era uma gigantesca vitrola! Era o som que se ouvia nas casas,  pelas ruas, pelos bares, pelos restaurantes, as rádios tocavam não uma ou duas músicas, mas o LP inteiro, seguidamente! 

    Nos EUA, não foi diferente, o álbum chegou lá apenas no dia 2 de junho, mas as músicas chegaram antes. O lançamento de Sgt. Pepper's é comparado à comoção daquele 9 de fevereiro de 1964, quando conquistaram a América, no show de Ed Sullivan, e até mesmo da trágica notícia da morte de Lennon, 13 anos depois, no sentido de que todo mundo sabia o que estava fazendo quando ouviu Sgt. Pepper's.

    Afina, era muita novidade, era um álbum que:  
    (links disponíveis em cada uma das características!)
    Cortesia de Renato Quaresma
    Era o primeiro LP a ser considerado um Álbum Conceitual, e para deixar bem clara essa concepção, o mais inventivo estúdio da Terra inventou um novo processo de gravação no vinil. Quem teve o privilégio de ter o LP Sgt. Pepper's teve o espanto de não conseguir escolher a canção que queria escutar: a bolacha não tinha sulco entre as canções, era uma coisa só. O álbum tinha que ser ouvido por inteiro. Como um bom álbum conceitual! Genial!

    Vamos ao que aconteceu após o lançamento!
    • Um divisor de águas: a música era uma antes e outra depois de SPLHCB 
    • Pulou direto ao topo de todas as listas de melhores discos de todos os tempos
    • Brian Wilson, o líder dos Beach Boys, e declarada inspiração para Paul McCartney, entrou em depressão... não seria capaz de superar a obra-prima
    • Ganhou Grammy de "Melhor Arte de Capa"
    • Ganhou Grammy de "Melhor Engenharia de Som Não Clássico"
    • Ganhou Grammy de "Melhor Álbum Contemporâneo" e
    • Ganhou Grammy de "Melhor Álbum do Ano", o primeiro de um álbum de Rock
    • Ficou 27 semanas no topo da parada britânica
    • E no mesmo posto nos Estados Unidos durante 15 semanas
    • Foi o disco mais vendido da década de 1960
    • Nota máxima da crítica em 98 de 100 veículos, mas o que se lembra são esses 2% que falaram mal, disseram-no pretensioso e prejudicial ao rock. Mesmo aquele crítico admitiu que A Day In The Life era uma obra-prima!
    • Carro-chefe da Vanguarda
    • Símbolo do Flower Power
    • Trilha sonora do Summer of Love
    • Prenúncio da renascença da Música
    • "Gênios comparados a Mozart"
    • The bridge between popular music and high art 
    • The most important and influential rock and roll album ever
    • The most ambitious and most successful record album ever issued
    • "Bizarre, wonderful, perverse, beautiful, exciting, provocative, exasperating, compassionate, mocking,unique, clever, and stunning" foram alguns dos adjetivos encontrados nas reportagens em inglês 
    • Mais de 35 milhões de cópias vendidas, até hoje lembrado como um marco indiscutível!!!! 
    Acho que chega, né???

    O próximo alvo..... Magical Mistery Tour, o álbum

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