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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

She's Leaving Home, de chorar!

Esta é a  canção do Lado A do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band

a história do álbum, cenário, assuntos e canções, aqui neste LINK

É uma de 4 canções com Histórias de Pessoas Solitárias

as demais 3 canções de mesmo Assunto e  Classe, neste LINK

Atenção, canções com títulos em vermelho 

são links que levam a análises sobre elas.

6. She´s Leaving Home  (Alone Story Song by Paul McCartney)

Paul conta: 'Ela desce a escada para a cozinha contendo o choro com o lenço no nariz, silenciosamente girando a chave da porta dos fundos, com os pés fora, ela está livre!'. 
Escolhi este trecho por causa do efeito sonoro que Paul consegue propiciar, rimando não finais de versos, mas sons internos, vejam: 
 She goes downstairs to the kitchen clutching her hankerchief
Eu ressaltei em preto o meu ponto, o som em destaque, o 'tch', inclusive o terceiro, não tem o 't', mas o som é como se tivesse.  Eu acho lindo isso, uma poesia nos detalhes. Isso me ressaltou desde criança, com meus 9 anos de idade, quando ouvi, e fui procurar na letra, afinal era o primeiro disco da história a ter um encarte com letras. Ele havia usado o efeito de rimas internas em You Won't See Me (link), dois anos antes, já ressaltei aqui em um capítulo anterior, enfim... mas o que interessa  é a linda balada, com a história tocante, de pais, na verdade, a mãe, que percebe que a filha foi embora, e leu numa carta de despedida as razões para aquela decisão, que ela não pôde explicar pessoalmente. Se alguém tem dúvida se esta é uma canção sobre solidão, ressalto uma frase que aparece duas vezes nos versos:
                   She's leaving home after living alone for so many years. 

A inspiração veio de uma matéria de capa do Daily Mirror, sobre uma garota de 17 anos que saíra de casa para fugir com o namorado, e os pais diziam não entender por quê, afinal "We gave her everything money could buy!" ou algo assim, mas foi desse jeito que se materializou na letra. Todo o resto saiu da cabeça de Paul (e de John nos lamentos dos pais), inclusive a profissão do namorado, que não era vendedor de carros (motor trade), mas sim, um croupier. Só que, depois se soube, pela própria Melanie Coe (a garota, que até escreveu um livro), que o rapaz havia, sim, trabalhado no mercado de automóveis, mas Paul NÃO SABIA DISSO!!! Eram ou não eram mágicos os Beatles? 

Então, vamos às configurações estruturais. Nos Versos 1 e 2, Paul conta como ela sai de casa. Os Versos 3 e 4 contam como a mãe descobre que ela se foi, é o clímax da emoção. O Verso 5 conta pra onde a menina foi! Entre os 3 grupos acima, há 2 refrões,  e ao final, com a constatação título, "She is leaving home", e com as lamentações dos pais! Contaram? São 6 peças estruturais, com letras diferentes, entre versos e entre refrões. Rimas? Nos versos, todas ricas: "door-more", "key-free", "there-stairs""thoughtlessly-me""made-trade". Nos refrões, nenhuma, aliás, quem se importa com rima, nesses momentos poéticos de per si?
Já a ideia do acompanhamento de orquestra foi do autor Paul, nenhum Beatle toca na canção! Quando Paul tem uma ideia e a quer ver pronta, ele atropela qualquer um: ele encomendou o arranjo de cordas a George Martin, como era o padrão, só que ele estava com outros compromissos, e pediu uns dias. Paul não teve dúvidas e pediu outro maestro à EMI para o arranjo, um certo Mike Leander. Martin ficou magoadíssimo, mas produziu e dirigiu os músicos na gravação. Eles eram quatro violinos, duas violas, dois violoncelos, um contrabaixo E uma harpa. E por que eu coloquei um E maiúsculo? Porque a harpa abre a canção de uma forma lírica, sensacional, E por ser UMA harpista, a PRIMEIRA mulher a aparecer numa canção Beatle!! 
Pausa para uma digressão pessoal. Tenho um especial carinho pelo instrumento, porque Harpa é com H, e eu tenho uma lembrança de minha infância profunda, quando aprendia a ler, e a página do H na minha cartilha dizia: "Homero toca Harpa, Homero é Harpista"! Bem, a profecia não se concretizou, mas o carinho ficou, inda mais por conta de um fato que me contou meu filho músico, em verdade uma piada interna entre os harpistas: "Nossa vida é assim: 90% do tempo afinando o instrumento, e 10% tocando-o desafinado!" Claro que é um exagero, mas denota-se a dificuldade de se afinar suas mais de 40 cordas. Fim da digressão pessoal. 
O ritmo é valsa (compasso 3/4). Como disse, a harpa, linda, está na introdução, com efeito de eco, e segue na base, sem eco, em pizzicato, ao longo de toda a canção, parando em alguns momentos, especialmente nos refrões. Ao fim da primeira frase, entram as violas, e quando Paul canta as duas últimas frases do verso, até "she hoped would say more", os violinos modulam. No Verso 2, violoncelos fazem o papel das violas, que voltam na metade final do verso, com os violinos e violoncelos enriquecendo o clima. No Refrão 1, a harpa silencia e são só cordas e aros (dos vocais sensacionais, falo em seguida), com o destaque para três notas de violinos em stacccato, anunciando a volta dos versos... tin tin tin Father snores as his wife gets into her dressing gown... e todos os instrumentistas encamtam, mas aqui eu tenho que destacar o máximo do drama e suspense, note, no Verso 4, quando a mãe chora: Sempre choro...
 She breaks down and cries to her husband: Daddy, our baby is gone!
... e entram os violinos, majestosos, em staccato urgente, Extra, Extra ....
Why would she treat us so thoughtlessly? How could she do this to me?
Tão lindo que resolvi fazer um áudio clipe pra vocês, neste LINK
Os arranjos instrumentais seguem lindos, tocantes, sempre variando conforme o clima, mas agora, dedico-me aos vocais. O jogo de vocais é de chorar (e eu choro mesmo). Acresça-se o clima que foi criado em estúdio. Após as gravações da orquestra, sobraram apenas dois dos quatro canais de gravação na fita. Temerosos de que algo tivesse que ser gravado posteriormente, decidiram gravar as duas vozes num canal só. Então, a coisa tinha que ser perfeita. Reduziram a iluminação do estúdo a UMA lâmpada, Paul e John se sentaram em banquinhos altos, um de frente para o outro, um microfone entre eles. E produziram a maravilha! Não sem tensões, por causa do detalhismo de Paul, mas saiu perfeito. Paul vem nos versos com sua doce voz, contando a triste história e, quando entra o refrão, ele começa, dobrado e em falsetto, 'Sheeeee' e John entra, em vocal também dobrado, com um lamento dos pais ("demos nossa vida a ela"), e Paul volta 'is leaviiing', e John lamenta, pelos pais ("nos sacrificamos"), e Paul conclui 'hoooome' e os pais (John de novo) concluem com mais um lamento ("demos a ela tudo o que o dinheiro pode comprar"), e volta Paul ao modo 'verso' mas com emoção dobrada, explicando "Ela está saindo de casa depois de viver sozinha por tantos anos!", enquanto ao fundo, os pais, na voz de John, acenam, tristes: "Bye! Bye!" Difícil ver algo mais tocante que isso na história da música. O refrão e a emoção se repetem duas vezes e, em cada uma, os lamentos são diferentes, o que mostra a riqueza da letra! E foi de John a ideia de fazer assim, ponto e contraponto, e dele também são os lamentos, muitos deles que ouviu de sua Tia Mimi quando adolescente. Parabéns, John!
Pausa para uma curiosidade. Do outro lado do Atlântico, fazia sucesso uma banda chamada The Beach Boys, que tentava disputar com os Beatles, em inovação na música. Seu líder era Brian Wilson. Desde Rubber Soul, eles vinham intercalando LPs notáveis com os Beatles, o mais famoso deles sendo Pet Sounds (1966), pra mim a anos-luz de distância, mas a disputa era boa. Paul ficou amigo de Brian, se frequentavam. Ainda antes de Sgt. Peppers ser lançado, ele fez questão de atravessar o Atlântico, e depois o continente, até a California, pra mostrar 'algumas' novidades. Numa delas,  ao piano, mostrou She's Leaving Home para ele e a esposa. Os dois choraram, copiosamente! Conta-se que Brian, após o lançamento e Sgt. Pepper's, declarou-se incapaz de seguir na disputa, e entrou em depressão! Fim da curiosidade. 
Deu pra perceber que esta é minha canção preferida em Sgt. Pepper's? Não? Saibam que é! E, abençoado que sou, eu estava num um show Paul McCartney, em 2002, já embasbacado com o que vinha ouvindo, os olhos já marejados, quando ouço o som de uma harpa... gritei pra minha esposa e filhos: "Nacredito! She's Leaving Home!!!" Ele nunca havia tocado a canção ao vivo!!! Resolveu fazê-lo naquela excursão Back To The US. Eu estava em Houston! Foi um desbunde! Claro que não era uma harpa de verdade, mas o milagroso teclado de Wix Wickens, que acompanhava Paul desde 1989, e até então e até hoje. Deixo aqui o LINK pra essa exibição. Note que Paul até toca algumas notas no baixo, mas é só pra não ficar sem segurar nada, ele se sente nu! E note como ele interpreta, com sua mão esquerda.Tocante!
Deixo também este LINK, com a performance da melhor banda cover do mundo, The Beatles Analogues. Vocês vão entender o porquê do nome. Eles fazem IGUAL ao arranjo original, com apenas 5 das 9 cordas com arco, mas com direito à minha querida HARPA, do Homero que não foi Harpista!

 


8 comentários:

  1. Esse é o seu melhor comentário da saga. Perfeita dosagem de observações técnicas, musicais e afetivas. A canção é incrível, você disse tudo. O "casamento" Paul-poeta & John-poeta, um romântico/dramático e outro romântico/crítico é emocionante.
    O clip de 2002 é um presente! Não tinha visto cantar essa canção... Cantar e interpretar: a olhadinha no relógio para aguardar o encontro é ótima!
    Parabéns!

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  2. Muito triste essa canção. Mais triste ainda é saber que reflete dramas que se desenrolam em vários lares deste vasto mundo.

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  3. Novamente Homero um show de informações e contribuições musicais. Parabéns por compartilhar conosco o maravilhoso conhecimento dos fabulosos e inimitáveis The Beatles.

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  4. Música q será ouvida daqui a 300 anos

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  5. Uma música eterna, para posteridade, sem dúvidas, maravilhosa.

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  6. Li em algum lugar que George Harrison também se encantou pela música. Deu uma entrevista falando sobre a musica.Tinha acabado de gravá-la. Estava maravilhado embora não tivesse participado.
    Seu comentário com tantos ricos detalhes mostra como é importante saber pelo menos um pouco de inglês para entender as músicas. Nenhuma tradução teria o mesmo impacto encontrando palavras com o mesmo som em sequência. Teria de ser mesmo um bom poeta para uma tradução de verdade. Por isso gosto das traduções de Carlos Drummond de Andrade. Como poeta ele fez questão de incluir a poesia também em inglês.
    Mesmo o stepping outside não fica muito bom como "com os pés fora"...Talvez "dano um passo para fora"...Mas eu não sou poeta.
    Enfim, só para acrescentar mais uma coisinha sobre a menina que fugiu de casa. Paul já a conhecia! Ela tinha participado de um show onde os Beatles participaram. Mas quando ele leu a notícia não se tinha percebido que era a mesma moça. Ah, sim...Ela voltou para casa poucos dias depois.
    Olha, eu sei que foi informado que realmente Sgt Pepper's foi o primeiro disco com as letras das músicas. Mas não é verdade. Por volta de 1960 ganhei um disco do Pat Boone chamado Star Dust. Vinha com a letra e ainda com a tradução. Costumo até dizer que Pat Boone foi meu primeiro professor de inglês porque eu decorei todas as músicas e ainda sabendo o significado. Eu tinha dez anos.
    Pode ser que tenha sido assim apenas no Brasil. Afinal veio tradução. Aquele encarte com tradução com certeza não saiu nos Estados Unidos. Mas penso que apenas incluíram a tradução. No original deve ter saído a letra sem tradução. Algo a ser investigado.
    Agradeço pelos links. Vou ver todos.

    Gosto muito quando você coloca suas experiências pessoais. Beatlemania é isso. É sentir como os Beatles entraram nas nossas vidas maravilhosamente. Reconhecer essa participação. Sentir que fazemos parte pois cantavam para nós. E sendo assim temos de compartlhar o que sentimos, as nossas experiências.
    E sim, os Beatles eram mágicos. ( De certa forma ainda são). Parabéns pela beleza de texto.

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  7. Voltando porque vi o video dos Analogues. Rapaz, o que é aquilo? Perfeito. Quem são eles? De onde são?
    E aproveito para falar sobre o Brian Wilson. A notícia que eu tinha, e não sei se procede, é que Paul foi visitá-lo e ele não quis recebe-lo por medo da emoção. Ficou algum tempo dentro do quarto até que o convenceram a sair. E então ficaram muito amigos. Paul considera sua canção God Only Knows como a sua favorita.

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  8. Poderia ter falado das estruturas dessa música, ela parece uma torta com várias camadas !!
    Ótimo texto homerix 👏🏻

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