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sábado, 4 de fevereiro de 2017

O dia em que a música morreu

Ontem, 58 anos atrás!!!!

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Muito provavelmente, o título acima lhe cause alguma curiosidade, não mais que isso. O que será que o autor vai querer dizer com isso?
Talvez, ao traduzi-lo para o inglês, e a coisa virar ‘The Day The Music Died’, você revirará sua memória profunda, se tiver idade suficiente para isso, e lembrar-se-á de uma canção da década de 70.
Se você tiver uma memória acima da média e algum conhecimento musical, lembrará que o trecho é parte de um grande sucesso de um certo Don McLean, chamado ‘American Pie’, e até lembrará um pouco da letra 
‘But something touched me deep inside
The day the music died
So bye-bye, Miss American Pie
Drove my chevy to the levee,  But the levee was dry
And the good old boys were drinking whiskey and rye
Singing, this’ll be the day that I die
this’ll be the day that I die'
Ok, ok, você já está de bem com Alzheimer, aliás, bem distante do alemão. E tem conhecimento musical, tudo bem, mas, você realmente sabe o que Don McLean quis dizer com aquela ‘alguma coisa que tocou fundo em seu ser’? Sabe?  Muito bem!!!! Passou no teste, e seu conhecimento musical, e mais ainda da história do rock’n roll, é muito acima da média!! É certo que saber a qual acontecimento Don McLean concedeu a distinção de ser culpado pelo assassinato, ou pela morte súbita, da música, pode ser tachado de cultura inútil, pode não lhe acrescentar muita coisa. Entretanto, se você não tem a menor idéia do que se trata, acho que agora tem, no mínimo, uma ponta de curiosidade por saber, não tem?
Se me permite, eu conto pra você!!!
O tal dia é 3 de fevereiro de 1959: faz, pois, quase 50 anos que a música morreu, segundo o ‘historiador’ Mclean. Portanto, é motivo para mais um daqueles ‘entaniversários’, como eu defini em artigo recente. Nas primeiras horas daquele dia, um pequeno avião, que partira havia poucos minutos de uma cidade do Estado de Iowa, para outra no Estado de Dakota do Norte, mais precisamente Fargo (todas localidades americanas), espatifou-se no chão, matando o piloto e seus três passageiros: um certo Ritchie Valens, um certo Buddy Holly e um certo Big Bopper, os dois primeiros cantores de sucesso na época, o último, um DJ bem famoso que também gravou algumas canções. Qual deles, você acharia merecedor da alcunha? Provavelmente, Big Bopper seria obscuro demais, eu mesmo não o conhecia até saber da história do verdadeiro culpado, mas talvez você pudesse apontar o dedo para Ritchie Valens, caso lembrasse que aquele venezuelano era o cantor da eterna ‘La Bamba’. Mas você erraria! A cumplicidade desses dois foi importante, mas o verdadeiro ‘matador’ se chamava Buddy Holly.
Aquele americano nascido em Lubbock, Texas, tinha então meros 22 anos de idade, e havia começado a fazer sucesso pouco mais de um ano antes. Muito prematura sua partida deste plano. Porém, o pouco que deixou foi o suficiente para influenciar muita gente boa pelo mundo do rock. E ele o fazia muito simplistamente. Sua banda, The Crickets, tinha uma composição minimalista: guitarra, que ele mesmo tocava, um contrabaixo daqueles grandes, enormes, e bateria. Ele era também o vocalista e o compositor de todas as músicas. As marcas que deixou foram, porém, maximalistas, se é que existe o termo.
O mundo da música sofreu, mas muita gente boa usou algumas lições do astro que fora embora tão inesperadamente. The Beatles, mais especificamente, John Lennon e Paul McCartney, reconhecem ter baseado um certo número de suas canções no estilo simples, ao mesmo tempo arrojado de Buddy Holly. Simples, pelo número de acordes das canções, três, no máximo quatro acordes eram suficientes para dar o recado; arrojado, pelas variações de ritmo no meio da canção, pela bateria às vezes difícil de ser copiada, pelas harmonias vocais, pelos arranjos em piano e violino (que ele também tocava bem!), pelas letras bem elaboradas, e, finalmente, pelo ‘soluço’ vocal, figura que Buddy usava para ressaltar o centro de sua idéia. O ‘hiccup’ era sua marca registrada, assim como os óculos de aro grosso tipo ‘nerd’, inseparáveis, míope em alto grau que era.
Para se ter uma idéia da influência de Holly, o nome da mais famosa banda de todos os tempos nasceu de uma homenagem à banda dele, The Crickets, ou ‘Os Grilos’. John pensou nisso quando sugeriu The Beetles, ou ‘Os Besouros’, para logo depois trocar o segundo ‘e’ por ‘a’, num jogo vocal, um duplo sentido com o termo ‘beat’, que significa batida. Buddy Holly, entretanto, já estava presente na história beatle, antes mesmo do termo nascer: na primeira vez em que John, Paul, George Harrison e Pete Best (o então baterista) entraram em algo parecido com um estúdio, para gravar algo parecido com um disco, o fizeram com ‘That’ll Be The Day’, um dos maiores sucessos de Holly. Era um acetato de baixa qualidade, cujo Lado B tinha uma composição de Paul e George, chamada ‘In Spite Of All The Danger’, a única McCartney/Harrison da história, que, entretanto, nunca viu a luz de uma gravação oficial.
Felizmente, eles registraram sua admiração por Buddy Holly em disco de verdade, com um cover de ‘Words of Love’, uma balada em que puderam mostrar toda a magnífica harmonia vocal com 3 vozes, que eles faziam tão bem, no disco ‘Beatles For Sale, de 1964.
Antes deles, no mesmo ano, os Rolling Stones também prestaram sua homenagem a Buddy, e se deram muito bem: gravaram a ótima ‘Not Fade Away’ em compacto, o que veio a se constituir em enorme sucesso da banda, então iniciando, afinal foi o primeiro disco deles a atingir o número 3 da parada britânica. Ela é cantada (e dançada) por Mick Jagger e seus jurássicos companheiros de ruga’n roll ainda hoje.
O culto a Buddy Holly rendeu produções em Holywood. Primeiro, com um filme sobre sua história, que recebeu alguns Oscars musicais, e uma indicação a melhor ator para Gary Busey, que encarnou o quatro-olhos de forma magistral, parecia estar possuído pelo seu espírito. Depois, o grande Coppola dirigiu Kathleen Turner e Nicolas Cage em ‘Peggy Sue Got Married’, que rendeu a ela outra indicação ao Oscar. ‘Peggy Sue’ foi um grande sucesso de Buddy, e teve até continuação com outra canção ‘Peggy Sue Got Married’, e a história dela foi inspiração para o filme
Mais importante ainda, rendeu um super musical, Buddy – The Buddy Holly Story, que ficou em cartaz por longos 13 anos, direto, no West End (a Broadway de Londres), além de uns outros tantos na Broadway (o West End de New York) e em outras cidades americanas, sempre com lotações esgotadas. Quando eu o assisti, em Londres, lá no balcão super superior, o lugar mais baratinho disponível, achei interessante um cartaz que dizia, aos espectadores do setor, algo como: “Fineza vibrar com comedimento, pois tememos que a estrutura do balcão onde você se encontra não agüente o ritmo dos movimentos que certamente você vai querer realizar. Pular, por favor, jamais!” Logo depois, eu senti na pele o motivo do anúncio. O teatro vinha abaixo. Um sucesso fenomenal.
Contabilizando os royalties daqueles grandes sucessos, estava ninguém menos que Sir Paul McCartney, ele mesmo, que de tanto gostar de Buddy Holly, comprara os direitos sobre suas composições, em 1976. Gostou tanto daquela decisão que sugeriu ao amigo Michael Jackson que fizesse algo do gênero. Michael, ainda lúcido à época, aceitou o conselho do amigo e comprou os direitos sobre as canções de um certo grupo inglês, razoavelmente conhecido ... The Beatles!

4 comentários:

  1. Muito bacana. O que soava como o fim era só o começo de uma sonora mudança comportamental na História do homem. Em tempos bicudos, quando questionamos se continuaremos dirigindo good old chevies, esta lição roqueira é alentadora.

    Abraço

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  2. Você sabia?

    1) O avião caiu devido a uma tempestade de neve

    2) A banda se chamava "The Crickets" porque em suas primeiras gravações usaram um estúdio improvisado na casa de um deles (do Buddy, imagino) e, depois de passar a noite tocando e gravando perceberam que ao final de todas músicas dava pra ouvir o barulho dos grilos que "grilavam" no quintal da casa. Já aumentei o volume do meu cd no final de algumas músicas e comprovei.

    3) A frase "This will be the day that I die", da música do Don McLean é inspirada na famosa "That will be the day"

    4) Não tive o prazer de ver o musical, mas vi o filme

    Abs

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  3. Caro Homero,

    Aquela linda "Vincent" é a minha preferida do Don McLean. Ele deveria ter uns 10 anos em 1959. Do desastre do avião, pensava que só o mala Ritchie Valens "La Bamba" era a vítima conhecida.

    Qual o fator principal p/ o amadurecimento tão rápido dos Beatles do rock básico (1964) para canções mais elaboradas (1967) ? Eis a questão.

    Abraço

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  4. Horerix,

    A última entrevista de Raul Seixas foi no Jô Soares, e pode ser vista no youtube. Nesta entrevista ele fala que para ele o rock morreu em 1959. Eu achei que ele se referia à mudança de estilo do Elvis(1). Será que ele estava se referindo a esse acidente? O que ocorreu em 1959 que foi tão importante para o rock a ponto de Raul ter dito o que disse?
    (1) Lennon dizia que Elvis havia morrido quando ele entrara no exército.

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