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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

CeL - This is Africa

Capítulo 17

This is Africa
Este é um mais um Capítulo do Projeto 

Capítulos anteriores:

Intro 1:  A terra do rock
Capítulo 1: CeL - Hyde Park
Capítulo 2: CeL - Abbey Road
Capítulo 3CeL - A Academia, A Visão
Capítulo 4: CeL - O Curso

Capítulo 5: CeL - Albert Hall, Regent, Oxford, Picadilly
Capítulo 6: CeL - Logradouros Project
Capítulo 7: CeL - Animals sem o porco
Capítulo 8: Cel - Beatles Walk
Capítulo 9: CeL - Tate Modern

Capítulo 10: CeL - London Eye
Capítulo 11: CeL - The Famous Square Mile
Capítulo 12: CeL - Mais Beatles Walk
Capítulo 13: CeL - East End - A Brodway Londrina
Capítulo 14: CeL - Farewell Dinner Turma Mini MBA
Capítulo 15: CeL - Australian Pink Floyd
Capítulo 16: CeL - Do Vinho ara a Água
Capítulo 17: CeL - This is Africa


A chegada no Aeroporto Internacional de Lagos foi tranqüila.  O agente lá estava para me receber e abrir os caminhos na imigração. As malas demoraram 20 minutos para chegar (e chegaram!), esperava bem mais, pela experiência dos colegas. Entrei no carro que me levaria ao hotel. Um carro cheio de luzes seguia à frente do meu carro para abrir os caminhos. De vez em quando, o motorista da frente chamava o meu com a mão para ficar mais próximo, não deixando muito espaço entre os carros. Uma certa hora, meu motorista deu uma diminuída, fiquei assustado, pois o carro da frente se afastou, entretanto era apenas uma lombada que ele sabia existir (calma!). Pelas ruas, pobres, sem calçada, muitos nigerianos caminhavam, outros subiam em vãs em péssimo estado apinhadas de gente, deve ser o único meio transporte do povo. Muitos estavam em roupa de festa, aquelas todas coloridas, afinal era sábado. Sinais de trânsito eram ignorados, sempre que possível. Cerca de 25 minutos de viagem, de repente, o comboio entra em uma rua de terra, cheia de buracos, pensei: é o fim. Nada disso, apenas era a rua do Hotel Sofitel. Claro que eu esperava que, ao menos, o hotel ficasse numa rua de asfalto. O prédio, novo, é de 3 andares. A recepção, nada de balcão, apenas uma mesa, dois atendentes. A diária, 300 dólares! O quarto, muito bom. Nem passaram 3 minutos, o telefone tocou, era Samir dando boas-vindas e convidando para jantar em sua casa, dizendo que mandaria a “carruagem” me pegar às 8:00. 

Soneca, banho, 8 em ponto, chegaram, Mr. Venturrrrá. No caminho de 10 minutos, já escuro, notei que iluminação de rua é coisa raríssima. Destacava-se a iluminação exterior de algumas casas. Chamaram-me a atenção 3 “barbearias” em plena atividade noturna, na verdade, uma parede de rua, descoberta,  com uma luz fluorescente, uma cadeira, um barbeiro e um cliente. Diferente! A casa de Samir, bem grande, foi conseguida devido à fusão da Total com a Elf, 2 companhias francesas, daí, dois Gerentes Gerais viraram um, sobrou uma casa. Segundo Samir, era uma oportunidade imperdível, pois, conseguir uma casa em Lagos que já esteja operacional, funcionando, pronta para morar, com gerador gerando, seguranças ‘segurando’, cozinheiro cozinhando, poço de água ‘aguando’, ar condicionado ‘condicionando’, enfim, tem um valor inestimável! Levaria meses para conseguir algo assim. 

Samir tem 2 filhas do primeiro casamento, 20 e 18 anos, que estão no Rio. 
Sua esposa Eliane, advogada da Petrobras em licença, tem 3 filhos do primeiro casamento, um com 12 e dois com 9 anos (menino e menina) que estão aqui com eles, estudando em escola americana. Eliane deu sorte de não ser nigeriana do interior do país: há certas tribos em que, até pouco tempo atrás, quando nasciam gêmeos, um deles era morto, pois “É coisa do demônio!”. Para compensar, faziam uma estatueta parecida com a criança morta pois, de vez em quando, o irmão que fora poupado sentia saudades (!). 



O jantar, muito bom, foi preparado pelo cozinheiro do Benin. No papo, muitas histórias sobre as peripécias de se viver na Nigéria: 

  • o sempre surpreendente (para pior) relacionamento com os provedores de serviço, exemplo, ar condicionado quebrado, eles sempre vem em grupo (meia dúzia), olham daqui, dali, dão umas batidinhas no aparelho, na parede, confabulam entre si no dialeto local e nem sempre resolvem; perguntado sobre o motivo de virem em bando, a resposta é “Help to think, Madám!”; 

  • as dificuldades de se acostumar com o inglês nigeriano, não se incomodam com tempo de verbo, por exemplo, “I go airport” pode significar que vou, que fui, que estou indo, que irei, enfim, isso acontece principalmente com o povão que lida com serviços (o da galera formada é mais correto, um pouco!); 

  • o tempo que demorou para Eliane se impor, mesmo com os empregados, pois mulher e nada é a mesma coisa por aqui: só dão valor para o Master, ou Ogá (senhor, em Iorubá, a língua local). A esta altura, 4 anos por aqui, ela já aprendeu a lidar com todos eles, já respeitam a Madám; 

  • a dificuldade de se acostumar com os modos, exemplo, receberam um nigeriano para um jantar, conversavam, uma bela hora o senhor convidado pediu para Madám deixar o recinto pois precisava conversar a sós com Samir (!), depois, péssimos modos à mesa, derrubando 2 taças de vinho e completando com o palito de ouro que tirou do bolso e usou sem tentar cobrir a boca . 


Samir contou da segurança, da porta de ferro que isola o segundo andar da casa quando se recolhem, do Panic Button em vários locais da casa, a ser acionado quando Samir sentir-se ameaçado, provocando a chegada quase imediata de seguranças israelenses altamente especializados para proteger estrangeiros, enfim, a vida é em estado de alerta constante.

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É proibido um branco sair dirigindo pela cidade, muito inseguro, sempre se vai com motorista local. O trânsito é sempre terrível, ninguém obedece preferência em cruzamentos e por vezes ocorre o entroncamento, um carro impedindo o outro de cruzar, todo mundo pára, e ficam 5 minutos gritando uns com os outros até que aparecem 3 ou 4 negões para desentalar, movendo um carro que bloqueia outro no muque, coisa comum! É considerado o pior trânsito do mundo.



Sobre a história da malária, ele diz que a mensagem de boas vindas ao viajante é toda verdadeira, o tom duro é para deixar o viajante alerta. Na verdade, basta ter cuidado de não estar parado na rua (se for obrigado, melhor andar rápido) ao amanhecer e ao anoitecer, ficar sempre em ambiente refrigerado, enfim, não dar sopa para o azar. Samir já teve, as crianças também, Eliane, não. Segundo ela, dizem que quem foi picada de cobra como ela, tem uma certa imunidade, não comprovada, contou detalhes sobre seu envenenamento quando era criança, em um sítio, assustador, pois parece que o soro antiofídico tem uma chance de 30% de causar choque anafilático (!) daí eles não ficam aplicando a torto e a direito, ficam monitorando o sangue para saber a quantidade de veneno que a víbora injetou na mordida, no caso dela, tinha sido a bolsa toda, demoraram demais a aplicar, chegou a ficar em coma, e correu risco de amputar o pé, caramba! Samir diz que os sintomas da malária são evidentes, um cansaço absoluto que derruba. Um remédio dose cavalar e 24 horas depois, se está pronto pra outra. Eliane diz que o triste é ver a criança doente, caidinha e impressionante ver como a melhora é rápida. Enfim, aguardemos! Comentaram também que o custo de vida aqui é igual ou superior a Londres. Sempre que vão ao Brasil, voltam com todos os direitos de bagagem completos com víveres tupiniquins: feitas as contas, parece que dá para economizar uns trocados consideráveis. Na volta para o hotel, comecei a escrever este o segundo semanário, e o fiz até 4 da manhã.


Acordei às 10 no domingo e fui testar o fitness room do hotel. Pequeno e simples, porém bem equipadinho, duas esteiras, uma bicicleta, um step, alguns pesos e um Gladiator, aquele aparelho que tem múltiplas funcionalidades de musculação. Fiquei somente no step, por 55 minutos, enquanto assistia, pela BBC, a Maratona de Londres (bom ver imagens da cidade, agora com um conhecimento bem maior dela). Destaque absoluto da maratona, a corredora inglesa Paula Radcliffe, uma loira que fracassou miseravelmente na Olimpíada de Atenas, lembro-me como ela desistiu no meio do caminho. Desta vez, não teve pra ninguém, terminou em 2:17 horas, cerca de 5 minutos à frente da segunda colocada, uma romena que ganhara no ano passado. Interessante que vê-la correndo, lembrou-me muito o finlandês voador Emil Zatopek que, nos anos 50, venceu 2 maratonas olímpicas, além de várias provas de 10.000 e 5.000 metros, coisa dificílima em uma mesma competição. Zatopek corria com uma expressão de sofrimento que parecia que ia desabar nos metros seguintes. O mesmo, porém não tão intensivo, se vê na expressão de Radcliffe, que corre meio torta, mexendo a cabeça constantemente. Ao longo da corrida, iam mostrando alguns destaques de sua carreira: vencedora da mesma maratona em 2002 e 2003 e detentora da melhor marca mundial feminina em maratonas, 2:15 e qualquer coisa. Não se pode chamar de recorde mundial (a FIA não deixa), pois os percursos de cada maratona são diferentes uns dos outros. Na maratona masculina, ganhou o queniano de plantão, nenhuma novidade. O tempo foi de 2:08, ou seja, a diferença entre homem e mulher está em menos de 10 minutos: nunca foi assim, agora, Paula Radcliffe veio mudar aquele estado de coisas. Magnífica! 

Ao meio dia, pontualmente conforme combinado no dia anterior, Samir estava lá embaixo para me levar ao tradicional programa brasileiro: churrasco com outros expatriados! O local é o condomínio de Júlio e Terê, onde também moram Nicoletti e Ilei, todos chegaram na mesma época e escolheram o local em conjunto. Não conseguem picanha e outros cortes por aqui, não se pode importar carne, então tem apenas filet mignon, frango e costela de porco, muito bom! Cerveja gelada, caipirinha, dia ensolarado, banho de piscina, papo ótimo, passamos algumas horas bastante agradáveis. Samir disse que estão todos se mudando para um prédio de apartamentos novo, para que todos os expatriados fiquem numa mesma locação. Pena que vão perder aquele local, ponto de referência nos domingos. 

Era isto, não sei se terei tempo para continuar meus diários de bordo, portanto ficarão livres de minhas mensagens. Usarei as próximas noites para fazer um resumo do curso de Londres e também o relatório desta minha estada profissional em Lagos.



Kabôôô.... 



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