-

sábado, 25 de julho de 2020

Chaos and Creation in the Backyard

Chaos and Creation in the Backyard - WikipediaEm 2005, depois de um recesso para dedicar-se à gravidez de Heather e aos primeiros meses da vida de Beatrice, Paul McCartney dedicou-se ao  lançamento de Chaos and Creation in the Backyard, seu 20° álbum solo, que ora passo a descrever, brevemente.  Desta vez, a aventura de tocar tudo veio acompanhada de muita musicalidade e inspiração. O álbum é generoso: são 13 canções, todas de autoria de Paul. O disco inteiro foi bem recebido pela crítica e vai bem com o público, saindo facilmente da rotina beatlemaníaca do oba-saiu-mais-um-disco-de-Paul-e-vou-comprar-mesmo-que-seja-uma-droga!

Paul caprichou! Convidou para produzir o disco Nigel Godrich, o produtor do Radiohead, banda inglesa cuja principal obra, o álbum “Ok Computer!”, foi considerado, em pesquisa de 1995, o melhor disco dos últimos 100 anos!!!!! Claro que foi beneficiado pela memória curta (ou falta de memória ou respeito) da galerinha mais jovem, que respondeu à pesquisa. Comprei o disco na época para verificar quem tinha batido “Abbey Road“, “Sgt. Peppers...“, “The Wall“, “The Dark Side of the Moon“, “Led Zeppelin III“, só pra ficar restrito a uns poucos. Resultado: comprei o disco na época, ouvi e joguei no lixo, de imediato! Mais por indignação do que por isenta crítica. Não dava nem para pensar em comparação! Hoje, 10 anos depois, admiro o grupo, resgatado que fui por meu filho: os caras são muito bons! Só que, se você ouvir “Ok Computer!” quando estiver meio ‘down’, corre o risco de entrar em depressão: algumas canções são de chegar às lágrimas. Mas, ainda assim, looonge de ser comparado aos citados e a uns tantos outros. Por coincidência, um dos discos da caixinha que recebi via Internet é justamente “Ok Computer!”, encomendado por meu filho para resgatar um ‘erro’ meu do passado.

Nos instrumentos, Paul toca baixo elétrico, violão, guitarra, guitarra de 12 cordas, bateria, piano, teclado, sintetizador, órgão, e alguns artefatos de percussão simples como pandeiro, címbalos, gongos, sinos tubulares, maracas e triângulo. Toca ainda outros instrumentos que eu nem sei do que se trata, tipo, ‘autoharp’, ‘flugelhorn’, ‘melodica’, ‘floor tom’, ‘mass vibrachimes’, ‘cello’ (não acredito que seja o tradicional violoncelo clássico, só vendo para crer!) que só vendo o DVD vou descobrir do que se trata. Tudo com muita competência! Ele não foi tão auto-suficiente como em “McCartney” e “McCarteny 2”: desta vez, para o bem da musicalidade, ele agregou especialistas em instrumentos que não domina, talvez por influência de Nigel. Em ”Jenny Wren”, sobre a qual escrevo mais adiante, ele convida um tocador de ‘duduk’, instrumento do qual eu nunca ouvira falar, que complementa muito bem a leveza da canção. Parece um instrumento de sopro, cujo som se assemelha a uma voz humana. Em ”English Tea” e outras seis canções, ele complementa com um ‘string ensemble’, ou um quarteto de cordas, com violino, viola, violoncelo e baixo, coisa que eu sempre gostei de ouvir, mas admiro muito mais hoje, por ter um violinista na família e ver a dificuldade de se tocar esses instrumentos. Aliás, cordas e rock é uma mistura que foi inaugurada por ele mesmo, Paul, quarenta anos atrás quando lançou “Yesterday”, que tinha um arranjo de cordas feito por George Martin, o quinto Beatle. Outras canções levam um naipe de metais e, em uma delas, bongôs, coisa que ele não se arrisca a tocar.

Das 13 canções, apenas duas são rock’n roll, as demais, baladas ou ritmos mais suaves. O disco não padece daquele mal de que é preciso ouvi-lo várias vezes para aprender a gostar. Aqui, pelo menos seis das canções ‘te pegam’ de imediato. Além disso, as letras são muito boas, a veia poética de Paul está em muito boa forma.  A canção mais trabalhada até o momento, que também foi lançada em single, é ”Jenny Wren”, aclamada pela crítica como a nova ”Blackbird”. Para quem não se lembra, ”Blackbird” é canção lançada no álbum duplo “The Beatles”, em 1968, onde Paul é acompanhado apenas do violão que toca, considerada uma obra-prima por crítica e público. Naquele disco, Paul lançou outras duas baladas, ”Mother Nature’s Son” e ”I Will”, reverenciadas pelos beatlemaníacos. A versatilidade de Paul naquele magnífico album é marcante, pois, ao lado de tantas baladas, e mais um magnífico vaudeville “Honey Pie”, Paul gravou “Helter Skelter”, considerada por muitos a primeira canção ‘heavy metal’! “Blackbird” era um recado/homenagem às garotas negras (a juventude inglesa chamava as garotas de “birds”, carinhosamente): incitava-as a alçarem vôo próprio (‘you’ve been only waiting for this momento to be free, blackbird, fly’), amparadas pelo movimento de emancipação dos negros, que ocorria do outro lado do Atlântico. Aqui, conta a batalha de Jenny Wren para superar uma desilusão amorosa. Apesar de o próprio Paul considerar ”Jenny Wren”, como ‘Filha de Blackbird’, noto no dedilhado do violão mais similaridade com “Julia”, canção que John Lennon gravou naquele mesmo Álbum Branco (como ficou conhecido popularmente “The Beatles”), em homenagem a sua mãe.

Outra balada muito bem recebida foi ”English Tea”, alegre, bem ao estilo bem-humorado de Paul, que conta um convite/cortejo a uma garota ‘Would you care to sit with me, for a cup of English tea’. Musicalmente, lembra um pouco “For No One”, sucesso do álbum “Revolver“, de 1966. Em “A Certain Softness”, “This Never Happened Before” e ”How Kind Of You”, declarações de amor a Heather, nesta última dizendo ‘I thought I would never find a someone quite as kind of you’ (após tantos anos dedicados a Linda). Em “Follow Me”, ele agradece: ‘You lift up my spirits, you shine on my soul, whenever I am empty, you make me feel whole’. No lado rock, a principal é ”Fine Line”, bem animada, onde consta parte do título do CD (‘There is a fine line between chaos and creation....’), expondo sua veia filosófica. Noto um valor conferido a amizades: em diferentes canções há várias menções a ‘friends’ ou ‘friendship’ como em “Riding to Vanity Fair” e, em “Too Much Rain”, aconselha um amigo a dar a volta por cima com ‘Laugh when your eyes are burning, smile when your heart is filled with pain, sigh as you brush away your sorrow’. Sem dúvida, vale a pena conferir!

Se me permitem, uma ilação sobre a capa e o título! Na capa, aparece Paul, com seus 20 anos, tocando um violão em meio a varais cheios de roupa em um quintal. A referência ao caos é evidente, não há nada mais caótico que um monte de roupas de diferentes cores, assentadas sem regra sobre varais entrelaçados idem. E a criação, também: sempre que se tem um instrumento à mão, você está criando, ainda que esteja tocando uma música de outra pessoa, sempre é um toque pessoal que se dá. A menção ao quintal também pode ser explicada em “Promise To You Girl”,  que diz: ‘... in the backyard of my life, time to sweep the fallen leaves away ...’, com ‘backyard’ tendo o sentido de passado, de olhar para trás, ‘varrer as folhas’ e avaliar toda uma vida de caos e criação. Profundo, não? A foto foi tirada por seu irmão Mike no quintal da casa, em Liverpool, em 1962, alguns meses antes de os Beatles lançarem “Love Me Do” e iniciarem sua carreira. Paul e Mike viviam naquela casa com o pai James, um vendedor de algodão que, nas horas vagas, era um instrumentista de uma banda de jazz, e certamente foi uma fonte de inspiração para a musicalidade de Paul. A mãe, Mary, uma enfermeira do serviço público, falecera seis anos antes, vítima de câncer de mama. Paul rendeu-lhe homenagem em “Let It Be”, dizendo invocar sua presença em momentos difíceis (‘... Mother Mary comes to me, speaking words of wisdom ...’). Sempre correu o rumor de que a citada Mary referia-se a Marijuana, porém, não acredito que Paul iria brincar com o nome da própria mãe.

Um comentário: