Começou em 15 de setembro de 2026, uma coluna mensal de
O Historiador Naval do Submarino Angolano.
Ao fim, há uma lista com os episódios ja apresentados!
Já vamos pra 2ª coluna, como chegaram os primeiros sons dos Beatles em Angola!
Os sons da chegada em Luanda
Chegada a Luanda
Entra Sgt.Pepper Instrumental, com mash up de Agora Vou Ser Feliz
Olá, saudações a todos companheiros ouvintes da LAC (Luanda Antena Comercial).
Cá estou de novo, Joaquim Correia, marujo do Submarino ANgolano, que vos fala desde Lisboa. Sou Historiador mas viajo em águas menos profundas. Mas, vejam lá, dei um salto no tempo e acabei de chegar no navio Príncipe Perfeito ao Porto de Luanda.
Entra Serenata a Luanda com Eleutério Sanches
Corre o ano de 1965 e está um calor húmido a que não estava nada habituado. No barco viajamos eu e os meus pais, a minha avó acompanhada da Maria Augusta, rapariguita lá da Aldeia que quis conhecer o mundo, o Lorde, companheiro de quatro patas, muita mobilia e, claro, os poucos discos dos Beatles que já possuo. Foi uma mudança e peras.
Este salto geográfico aconteceu porque meu pai foi trabalhar para a Universidade de Luanda e fomos viver para a Rua Padre Antonio Vieira, agora Rua Comandante Tona, no Bairro Alvalade, perto da Igreja da Sagrada Família, em frente ao Hospital Militar. Rapidamente fiz amigos, como o Jaime Mendo e o Chico, que inda agora se mantém firmes, me contaram das grandiosas farras no liceu Salvador Correia e no Aeroclube, para além de grandes festas nos clubes de bairro como a Casa Branca no Bairro Santa Rosa, e dos convívios em casas particulares. Também me falaram na Tamar, mas essa era uma “boite” principalmente frequentada por mais velhos… bem, mas essas e outras cenas ficarão para as próximas crónicas.
Entra Beatles no Shea Stadium em Nova Iorque
Entra Twist and Shout com The Beatl
Lembro-me que junho de 1964, os Beatles tinham dado um concerto em Hong Kong, cerca de um ano antes de tocarem para a imensa e inédita plateia de cerca de 55.600 pessoas, no Shea Stadium em Nova Iorque, em agosto de 1965. Esta atuação ficou marcada na minha memória, pois tive dela conhecimento durante a viagem, em pleno alto mar, num filme que acompanhava umas rodadas de Bingo na sala de jogos do Príncipe Perfeito.
Entra Bingo com Gasoline
Sentado ao lado do meu pai, que até ganhou 500 escudos,
eu deslumbrei-me com a vivacidade, criatividade e atrevimento da banda. Foi
acontecimento decisivo para me tornar modesto colecionador da banda.
Entra HELP com The Beatles
Luanda já vibrava com os Beatles. Os seus discos chegaram a Angola na segunda metade da década de 1960, importados diretamente de Portugal ou de Espanha, embora saiba de amigos que compraram discos na África do Sul. Os LPs e EPs eram vendidos nas diversas lojas de discos locais, principalmente na Valentim de Carvalho (na baixa da cidade) ou na Discoteca Bonzão, na Avenida dos Combatentes, mas eu descobri uma pequena loja na Vila Alice, perto de minha casa.
Entra Ticket To Ride com The Beatles
O Rádio Clube de Angola (RCA) teve um papel fundamental na divulgação da música pop-rock durante os anos 60, transmitindo temas que estavam no topo das tabelas internacionais.
Entra Yesterday com The Beatles
Bem, confesso que sinto vontade de lembrar alguns nomes que demonstram a enorme influência dos Beatles também nas outras colónias portuguesas, mas não me atrevo a tal, por existirem marujos muito mas dentro da matéria que eu. Todavia a leitura da obra recentemente publicada "Voz de Cabo-Verde - A História de um Povo?”, da autoria de David Santos da Fresco, leva-me a referir o grupo Voz de Cabo Verde, a quem chamavam de Beatles Cabo-Verdianos.
Entra In The Past com Voz de Cabo Verde
Entra Seu Quité com Beatles Cordel e She Loves You
Vivi muitos anos no Oriente, também podia aterrar em Goa, onde Remo Fernandez e os seus Beat 4, bem reflectiam a mistura entre a cultura goesa (mestiçagem luso-indiana) e a beatlemania, designadamente quando da visita dos músicos à India para a profundar Meditação Transcendental, na década de 60.
Entra Jam - Sem título - Remo Fernandes com os Solar Punch
Também podia “dar um salto” a Macau, onde logo desde princípios dos anos 60 diversas bandas se reclamaram representantes da beatlemania, merecendo especial realce os Thunders, que chegaram a gravar diversos discos em Hong Kong.
Entra Macau com Thunder
Mas não resisto, vou contar uma história pouco conhecida. Como sabem, ele actuaram em Hong Kong em Junho de 1964, e algo inesperado terá acontecido, como me contou Ray Cordeiro, natural de Macau mas a trabalhar como DJ em Hong Kong, que por diversas vezes entrevistou os músicos durante a sua passagem pelo território então sob soberania inglesa.
A propósito: o concerto não contou com o baterista Ringo
Star, doente com uma amigdalite grave e que foi
substituído por Jimmie Nicol, que ficou conhecido como o o Beatle de 13 dias, por
ter sido o baterista que substituiu Ringo Starr durante 13 dias, entre 3 e 15
de junho de 1964: dia 3 Ringo fica doente, dia 4 de
junho em Copenhagen, 5 e 6 de junho na Holanda, para além de 9 de junho em Hong
Kong e 12 e 13 de junho em Adelaide, Austrália.
Entra Chegada da Holanda e partida para Hong Kong - Entrevistas em Macau
Mas voltemos à tal história.
Estavam marcados dois concertos, 9 e 10 de junho, mas o
promotor local colocou os bilhetes à venda por 75 dólares de Hong Kong, o que
equivalia ao salário de uma semana inteira de um trabalhador local, preço
exorbitante que levou a que os concertos
não esgotassem, acontecimento raríssimo
no auge da Beatlemania. Para não
deixar a sala vazia, o promotor acabou por oferecer centenas de bilhetes aos
militares do exército britânico destacados na região, concentrando os dos
concertos para o dia 9 de junho. Paul McCartney recordou mais tarde que o
público parecia uma "audiência caqui" (a cor das fardas militares) e
que o ambiente foi invulgarmente calmo e contido”. Exaustos da viagem desde
Amesterdão e desanimados com a fraca receção local, os Beatles passaram o dia
10 de junho a descansar no President Hotel, gravando apenas uma breve
entrevista no aeroporto de Kai Tak antes de voarem para a Austrália.
Entra This Boy - Beatles (ao vivo em Melbourne, Austrália)
Já se faz tarde, vou-me recolher à cabine, mas já estou com saudades de toda a marujada que nos acompanha de tantas as partes do mundo. Até lá, vou passar pelo Jardim dos Polvos - Octopus's Garden, pode ser que nosso companheiro Ringo ande por lá!
E pronto, um abraço desde Lisboa (mas com a memória em Luanda), conto convosco para a próxima crónica.Entra Luanda - Eleutério Sanches
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Currículo do Historiador!!
O perfil do nosso Historiador Naval Joaquim Augusto Pinheiro Correia conta-nos que é nascido em Coimbra a 7 de Abril de 1951, este homem é um verdadeiro andarilho da cultura! Estudou em Portugal e em Angola, rumando depois para Macau, onde residiu onze anos inteirinhos e abriu caminho para desbravar o Oriente.
Investigador incansável e apaixonado pela música, o Historiador Naval Joaquim defende sem rodeios que "o futuro é mestiço nas cores, nos sons, nas palavras e no pensamento". E a sua obra reflecte exactamente essa mistura! Escreveu sobre o jazz e os ritmos de Luanda em «Angola Blues» e a história do baterista Beto Kalulu, investigou até as "fumarentas" motorizadas em «Motos de Papel», e levou a sua pesquisa sonora até Goa, à Indonésia e ao Tibete!
Mais recentemente, cruzou a Rota da Seda em Banda Desenhada e continua a assinar crónicas regulares no jornal Cultura: Jornal de Letras e Artes em Angola, entre vários periódicos.
Em suma: um homem de acção e das letras que faz da cultura uma ponte entre povos.
DEMAIS HISTÓRIAS DO HISTORIADOR NAVAL
Coluna 1: Como conheci os Beatles, aqui, neste Link
Coluna 2: Os sons da chegada em Luanda, este aqui


