Minha memorialista preferida nos encanta sempre com histórias de sua cidade... Montes Claros-MG
Agora, o Capitulo 1... o relato segue encantador
RUA DE BAIXO
Capítulo 1
Ano de 1958. Estou sentada na poltrona da sala de jantar lendo meu livro de catecismo, quando chega minha mãe pedindo para eu “dar uma chegada lá em casa”... Querendo dizer, na casa dos meus avós. Mesmo tendo se casado e mudado, a casa da Padre Teixeira continuava sendo a sua casa principal.
Naquele dia, teríamos um almoço especial – um jantarado - com convidados. A sobremesa seria o doce de leite pomadinha feito por vovó Lica, ainda sendo preparado. Com as empregadas atarefadas na cozinha e meus irmãos também ocupados, tinha sobrado para mim a tarefa de buscar o doce. Ai que preguiça. Era longe... Volto os olhos para o livro levando um susto. O texto fala exatamente sobre pecados veniais citando a preguiça como um deles. “Melhor espantar a preguiça agora mesmo.”
Levanto já disposta. Que longe que nada. Capanguinha à tiracolo, sigo até o final da nossa avenida; subo um quarteirão da Governador Valadares; dobro na Dr. Veloso; desço dois quarteirões e chego à Praça Dr. Chaves. Puxa, é longe, sim... A praça é enorme e só no seu final pego a Justino Câmara onde a cidade se transforma. Casas coladas umas às outras.
Até pouco tempo, as ruas eram calçadas com pedras enormes e redondas. No meio, nem pedras havia. Nas chuvas, que lamaçal. Foram calçadas com blokrets no ano anterior para a festa do centenário. A Padre Teixeira recebeu asfalto!
Sigo meu caminho. O sol brilha no céu muito azul. Por razões desconhecidas, sinto-me leve, apesar do calor.
Pronto. Cheguei. Antes de bater, a “porta da rua” é aberta por Lia de saída para algum lugar. - “Ei Ginoca, o que você está fazendo aqui? Não tem festa na sua casa?” - “Vim buscar o doce de leite!”
Lia. Minha prima filha do tio Waldemar. Desde criancinha mora com os avós. Linda como uma estrela de Hollywood. Visual típico da época: óculos escuros, saia justa preta, blusa vermelha e lencinho de “pois” em volta do pescoço. Antes de ganhar a rua, avisa: “Vovó, veja quem está aqui!” Vovó surge no final do corredor, Fatinha ao colo. Fatinha é sua neta, filha da tia Aracy, falecida pouco depois do seu nascimento. Peço a benção adulando a menininha. Pergunta vovó: -“Uai, você? E Joana?” –“Está muito ocupada hoje,” explico.
O doce não estava pronto. Na cozinha, Dinha Preta, à beira do fogão à lenha, mexe o tacho. “Ei Fiinha. Está quase dando ponto...” Ouço o badalar do relógio. Uma hora da tarde. Vem do rádio, ligado na Nacional, a música tema do programa “A Crônica da Cidade”. De repente, aquela badalada, a música, a luminosidade da tarde e o delicioso perfume do jasmim Bogari junto à porta que dá para o quintalzinho, deixam-me comovida. Digo “quintalzinho” porque há dois quintais na casa. Um grandão e outro menor que vai até ao muro junto à rua. Penso em fotografar esse momento ou mesmo filmá-lo para dele nunca me esquecer.
Tomo assento no banco de madeira junto à parede e fico apreciando, achando ser aquela a mais bela cozinha do mundo. Grande, como geralmente são as cozinhas das casas antigas. Meus olhos observam tudo. O armário rústico, o fogão aceso, lenha crepitando. Dinha Preta, com seu pano branco na cabeça segue mexendo o tacho de cobre. Ao lado do fogão está a pia. Muita luz entrando pelas portas e janelas. O cajueiro carregado de cajus amarelos. Ao fundo, o azul impressionante do céu. “Ah, se eu fosse pintora...” penso. Mas um quadro não mostraria o perfume nem o som da voz de César Ladeira dizendo a crônica.
Levanto. Vou até a portinhola olhar todo o quintal. Lá no fundo, junto ao muro, há um jasmineiro que, quando florido, perfuma toda a rua. Dá muitas lagartas, deixando Dinha Preta apavorada. - “Elas vem pra cima de mim fazendo a cão, a cão, a cão...” Imita o caminhar das lagartas com as mãos. Acho a maior graça.
Desço para o quintal. Há duas pinhas já grandes na pinheira. Dou uma paradinha junto à árvore “Cama de Noiva”, cujos frutos se parecem com boizinhos. Se colocarmos pernas de palitos de fósforos neles fazemos uma boiada. Muitas vezes brinco de fazendeira sentada à sua sombra. Não hoje. Sem tempo para isso.
Dirijo-me ao outro quintal. Mangueiras, goiabeiras, mamoeiro, uma latada de chuchu... Que riqueza. Tem ainda a “casinha”. Antes de ser construído o banheiro interno usavam o do quintal, com fossa, como em todas as casas. Usado depois para banhos com água quente pelos raios solares. Arranjo de vovô.
O nome “casinha” não bate bem, pois é uma casa até grande. À direita fica o banheiro e à esquerda um forno de barro. A cisterna ao centro. O cavalo de vovô está tranquilamente ruminando sob a sombra da mangueira. Ele é seu meio de transporte preferido para as idas diárias até sua fazendinha Renascença. Um cavalo lindo, pelo lustroso, considerado amigo do peito. Mas como entrou? Só pode ter passado por dentro da casa para chegar até aqui. Puxa que legal! Eu gostaria de ter visto.
E quem vem lá toda saracoteando? Soraya! Uma cachorra pastora alemã pertencente a meu tio Olimpio, o diabinho, ou dabinha, caçula da família. Ela me ama! Quando tomo assento, coloca a cabeça nas minhas pernas para receber carinho. Hora de brincar um pouco correndo com ela pelo quintal. - “Você com esse seu querer bem”... diz vovó da janela. Pergunto por vovô. - “Na tenda”, diz ela. Preciso ir lá pedir a benção.
Entro na sala de jantar, grande e clara, com duas janelas para o quintal. Muitas portas. Além dessa por onde acabo de passar, tem a da cozinha, a do banheiro, a do quarto dos donos da casa, a do corredor, a do “quarto da rede”, e a do cômodo que dá acesso à casa vizinha. No “quarto da rede”, além da própria, ficam as arcas, sendo uma delas feita por meu bisavô Cassimiro, cheia de tachinhas. É nessas arcas que guardam as roupas de cama e toalhas.
O que mais tem ali? Uma estante com os livros de vovó, geralmente romances e os livros de vovô, a maioria de cunho espiritual. O quarto da rede é também uma biblioteca!
Enfim, todos os caminhos levam até a sala de jantar. Poucos móveis e muito espaço. Mesa grande. Na parede, o belíssimo relógio que badala de meia em meia hora. O lavatório fica ao lado da porta do banheiro. Acima, o filtro de água, marca Fiel. Estou com sede, mas não alcanço a torneira. O jeito é pegar água na talha. Passo pela cristaleira cheia de compoteiras, copos ornamentados com flores, um porta copo de folha de flandres, e até mesmo louças inglesas, estilo chinês, de Xangai. Sobre a cristaleira está o rádio de onde vem, novamente, a música tema do programa de crônicas, indicando seu fim. Lembro de lavar as mãos, pois tinha brincado com Soraya. Dou meia volta. - “Ô minha filha, está faltando toalha...No banheiro tem uma!”
Entro lá dentro. Por muito tempo, esse banheiro foi apenas sala de banho. De banheira. Agora já tem chuveiro, privada, e uma beleza de lavabo de louça no móvel apropriado, com lugar para o jarro esmaltado.
Já de mãos enxutas volto ao pequeno cômodo. Ali, fica a talha com água fresca retirada do filtro. Delícia de água. Meus avós não possuem geladeira, mas a água é sempre fria graças a essa talha. Na tampa, uma toalha de crochet tecida por vovó. Ao lado, uma mesinha com bandeja e copos, sendo um deles exclusivo de vovô, muito bonito, com seu nome. Há duas portas nesse cômodo. A da esquerda vai para o quarto de Dinha Preta. A da direita leva à “cozinha de vovó França”. Com certeza era usada por ela, a minha bisavó, que não conheci. Desço dois degraus. Se seguisse em frente entraria na casa vizinha, sempre habitada por amigos íntimos ou familiares, como Elisa Mendonça, Tia França e Tia Aracy.
Viro à esquerda. Eis aqui a famosa Tenda. É um quarto meio escuro onde meu avô trabalha nas suas diversas funções. Inventa coisas, faz pesquisas, faz música, lê e guarda seus pertences. Aqui estão suas balanças de pesar ouro, sendo uma delas herdada do seu avô Manoel, também ourives como seu pai. Guarda na Tenda a sua clarineta e a caixinha com seringas e agulhas, pois aplica injeções. Tendo sido comerciante, dono da casa Souvenir, sabe como arrumar os objetos nas devidas caixas, de forma a tudo ser encontrado com facilidade. A Tenda é como uma venda, onde achamos lápis, borrachas, lâminas, tachinhas, pregos, e ferramentas como serrotes, martelos, chaves de fenda, facões. Esses últimos ficam presos numa cartolina e pendurados na parede. Organizadíssimo, contorna os objetos com lápis para saber quando algum foi retirado do lugar.
Nessa manhã, porém, ele não está no seu habitual processo criativo. Encontra-se sentado junto à janela onde há claridade. Está lendo um livro. Também daria um quadro a cena que vejo. A rusticidade do ambiente é de uma beleza indescritível. Ele tão bonito! Tão “antigo”...com seus óculos de aros dourados bem fininhos...Usava chapéu quando saía às ruas. Usava colete sob o paletó quando celebrava casamentos, pois entre as muitas atividades que exercia, estava a de Juiz de Paz. Usava relógio de bolso! Quando se sentava de cócoras no quintal picando fumo para seu cigarro de palha, lembrava um matuto. Quando se aprontava, penteando bem os cabelos lisos e ainda pretos parecia um gentleman. Olho para ele lembrando do personagem interpretado por Gary Cooper no filme “Sublime Tentação”, visto há poucos dias. Semelhança no vestuário e também na mansuetude.
–“A benção, vovô”.
– “Deus te abençoe minha neta”.
-“Que livro é esse?”
– “Uma beleza de livro: “A Era de Aquarius”. Diz aqui que chegará um tempo que todo sofrimento terá fim. Haverá harmonia na Terra e todos viverão felizes.”
- “Nossa! Que beleza! E quando será?”
-“Ainda estamos na era de Peixes. A de Aquários só virá depois do ano 2.000.”
-“Ah...vai demorar muito!”, exclamo decepcionada.
Vovô gostava de assuntos diferentes do usual. Espírita Kardecista. Frequentador, como seu pai, do Centro Espírita Canacy. Evitava falar no assunto por ter prometido à esposa, católica, que jamais interferiria nos ensinamentos religiosos dos filhos. De vez em quando, falava alguma coisa fascinante. Como quando disse que voltamos em outro corpo para nova vida. “Quando eu voltar vou nascer na Suíça. Está decidido”. Tenho por mim que foi de lá que ele veio. Vendo vovô fabricando jóias era fácil pensar num relojoeiro suíço tal é o seu esmero e precisão. E como tudo que ele tocava recebia um brilho especial, inclusive as frutas, podemos imaginá-lo também como uma espécie de alquimista. Paixão pela música clássica, ouvinte assíduo do programa “Classe A” da Jornal do Brasil para apreciar Mozart, Beethoven, Debussy... Foi uma vez ao cinema, apenas porque o filme – Fantasia, de Walt Disney – era musical com temas clássicos.
Olho pela janela. Lembro de um desenho visto certa vez na biblioteca do meu pai. Mostra um homem à cavalo bem em frente à Tenda. Vemos a figura de Augusto de Abreu na janela, o pai de vovô Olímpio. Meu bisavô. O cavaleiro, que traz uma pedra na mão, diz assim: “Vigia, seu Augusto. Que pedra é essa?” Seu Augusto, nascido em Rio Manso, município de Diamantina, descendia de portugueses que vieram trabalhar nas minas de ouro e de diamantes. Seu pai, Manoel de Abreu, era ourives e o filho seguiu a mesma profissão tornando-se grande conhecedor de pedras preciosas. Daí o pedido de avaliação. Era uma pepita de ouro! A primeira pepita encontrada em Montes Claros. Dou-me conta, de repente, de estar num lugar histórico!
-“O Senhor já tinha nascido quando aquele homem trouxe a primeira pepita de ouro?”, pergunto. Vovô sorri. Conhece a história, mas não se lembra daquele dia especial. Faço outra pergunta ainda olhando para a rua já pensando no outro bisavô, o pai de vovó Lica.
-“Onde é que vovô Cassimiro morava?”
- “Bem aí na frente. A casa era do seu compadre Etelvino, de Coração de Jesus. Vinha pra cá de vez em quando. Meu sogro queria muito que ele morasse aqui. Aceitou com uma condição: trocar as residências. Pois ele aceitou! Veio morar na Padre Teixeira passando o sobrado no largo da Matriz para seu Etelvino. Isso é que é amizade”.
-“Era aparentado conosco, não era? Casado com Sá Estela”, digo toda feliz por mostrar algum conhecimento. Vovô mexe a cabeça dizendo sim. Eu prossigo.
-“Papai conta que, numa noite, ele teve um pesadelo. Passou mal no sonho. Sá Estela viu que ele estava gemendo e deu nele uma balançada. Sabe o que falou quando acordou? -“ Deus te ajude Sá Estela.” Vovô dá uma risada e continua.
– “Sá Estela tinha um penteado que ficou famoso. Um coque no cocuruto da cabeça”.
Eu sabia, pois minha mãe costumava prender meus cabelos com esse penteado, chamado por ela de: “Coquim de Sá Estela”.
Antes de fazer meu comentário vejo vovó entrando para dizer que o doce está pronto. Hora de ir embora. Já na sala de visitas, ouço a voz de Dinha Preta: - “Ô Sá Lica... E a rapa do tacho? Será que Virgínia espera só mais um pouquinho?” Claro. Pela rapa do tacho eu esperaria até um poucão. Tomo assento no sofá. Sofá? Seria melhor chamá-lo de cadeira dupla. Cabe apenas duas pessoas! As demais cadeiras seguem o mesmo estilo. Nada de forros sobre elas. Simplicidade e excelente qualidade. Cupins jamais atacaram os móveis dessa casa.
Coloco a capanga com o doce na mesa do centro da sala. Uma mesinha de pernas altas, diferente das que geralmente vemos nas salas de visita. Tão bonitinha! Dou uma olhada ao redor. Na entrada, fica o porta chapéus, móvel comprido com espelho, tão bonito quanto os outros. Na parede, uma tela de Lino Oliva mostrando a ponte sobre o Rio Vieira em direção ao bairro Santos Reis. Abaixo do quadro, está a porta do quarto de tio Olimpio, com maçaneta de porcelana branca. Entrei ali apenas uma vez para conhecer meu priminho recém nascido: Júlio César, filho de Tia França. Quarto com poucos móveis, sem tapete, sem luxo. No de vovô, há uma peça de beleza ímpar: o cofre. Grande, com desenhos na porta. Pesado. Ali ele guarda documentos importantes, talvez algum dinheiro, jóias...
O mais chique na sala são as “tulipas” em cores suaves, predominando o verde e o rosa. Há delas também no teto do corredor onde fica a caixa d’água. Do lado oposto ao quarto de tio Olimpio dorme a prima Lia. Seu guarda-roupa tem espelho na porta. De vez em quando entro lá para ler revistas. A meu lado está a outra porta do quarto da rede.
Escuto um barulhinho... é Fatinha que chega se arrastando. Atrás dela está vovó com o doce de rapa. Coloco o pacote na capanga, peço a benção novamente, abro a porta e ganho rua. Pronto. Dei conta do recado. Sigo feliz, saltitante, cantarolando a música da “Crônica da Cidade”, que desde então, torna-se uma espécie de tema musical daquela casa querida: “Tam tam tam taram tam tam, tam tam taran tam tam tam tam taram tam tam...”.