segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O Casamento do Rio com o Mar

Cristo Redentor 

Completou 95 anos hoje

Hora de republicar meu conto!! 


O Casamento do Rio com o Mar

Fotos tirada em março de 2011


É que de vez em quando
Cristo fica com saudades do céu 
e traz as nuvens pra perto de si, 
e não vê por alguns momentos 
o maravilhoso cenário que eu descrevo aqui,
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Está no Aurélio,
rio (s.m.):    porção de água ... que deságua no mar.
.... e, em sua versão carioca, ....
mar (s.m.):   porção de água ... que deságua feliz no Rio.
O Mar veio morar no Rio!
Na verdade, o Rio se casou com o Mar. Foi amor à primeira vista, ou melhor, amor à primeira lambida, das verdes línguas do mar sobre as amarelas areias do Rio. O namoro foi rapidinho: Papai-do-Céu e Mamãe-Natureza deram logo a benção. E os noivos foram logo para o altar. Sol e montanha foram os padrinhos. Uma nuvenzinha trouxe as alianças. A marcha nupcial foi bossa nova. Convidadas, as estrelas compareceram, porém ficaram escondidas além do azul do céu. Os demais mares do mundo, se tinham algo contra, calaram-se para sempre. Um senhor de pedra foi o juiz de paz. O verde, o vento e o calor foram testemunhas. A festa dura até hoje.
Quem celebrou foi o Cristo!
Cristo: estátua de pedra cercada de beleza por todos os lados.
Os filhos vieram logo. O menino do Rio, calor que provoca arrepio; a garota do Rio, num doce balanço a caminho do mar; a gente do Rio, que não gosta de dias nublados nem de sinais fechados, mas gosta de quem gosta deste céu, deste mar.
Cristo acompanhava de longe a vida do casal que consagrou. Num belo dia, cansou-se da calmaria do céu, resolveu conferir mais de perto, e disse: 
“Pai, fui!” 
Veio morar aqui, no Rio. Desfalcou a Santíssima Trindade e veio conviver com a Belíssima Trindade: sol, mar e montanha. O corretor caprichou no imóvel: andar alto, varandão, sol da manhã, vistão, mar e verde. O Rio dispensou fiador e cobra pouco do inquilino ilustre: apenas doses diárias de bênçãos.
Ao lá chegar, o novo morador escolheu bem a posição de seu repouso eterno! Dia e noite, alimenta-se da beleza ao seu redor. Começa o dia de frente para o sol nascente ofuscando-lhe os olhos. Desvia-os para a esquerda, vê a imensidão da zona norte, com pouco mar, mas muita vida. Vê o Maior do Mundo e lembra-se do som das grandes torcidas. Depois, o grande aeroporto, a receber viajantes ansiosos pela beleza carioca; sobre o mar da baía, a grande ponte, trazendo do lado de lá, os que vêm ganhar a vida do lado de cá. Pelo meio da manhã, observa, no centro da cidade, pujantes edifícios onde antes havia morros e verde. Entre os edifícios, a santa casa do Pai, no Rio, enorme cone de concreto e vitrais, obedecendo à imaginação do arquiteto. Depois, percebe aonde foi parar aquela terra toda dos antigos morros, no grande Aterro: em um breve momento de traição, o Rio invadiu o mar com um singelo aeroporto e uma espetacular via expressa, que embelezam a paisagem. Motivo justo, resultado perfeito, traição perdoada. Delicia-se com os planejados jardins, obra de um genial paisagista apaixonado. Além dos jardins, admira as praias da baía, gulosas mordidas do mar e suas ondas. Com o sol já a pino, encontra barcos, lanchas e iates atracados numa enseada de sonho. Ao fundo da enseada, interrompe a jornada para admirar, irrompendo do mar, duas gigantescas corcovas de pedra, a guardar a entrada da baía. Adiante, ora por alguns irmãos já em sua Eterna Morada, batizada com o nome de quem o batizou há quase 2000 anos. Após a prece, deleita-se com a beleza da princesinha do mar, larga, imponente! Mar, que em sua imensidão azul, segue banhando outras praias, mais estreitas, porém igualmente belas, que ele tenta ver, de soslaio, mas é um pouco atrapalhado por alguns edifícios. Do lado de cá dos edifícios, vislumbra, já no meio da tarde, a lagoa....
Pausa para exaltação!
lagoa (s.f.): braço de mar no coração apaixonado do Rio.
Em uma de suas viagens pelo mundo, como prova de seu amor pelo Rio, o Mar deixou aqui um braço. O Rio chamou-o de Lagoa. Escalou Vieira e Delfim para receber suas águas e designou Epitácio e Borges como seus protetores permanentes, que dela tomam conta, em um abraço eterno. Suas águas marinhas testemunham os filhos da terra caminhando, correndo, patinando, pedalando pelas vias que a abraçam, saciando a sede com doce líquido sorvido de cocos verdes cortados por insanos golpes. Por vezes, a calmaria de suas salgadas águas marinhas é levemente incomodada por simpáticas cosquinhas, fruto de pedalinhos enamorados. Todos alimentam o espírito com o inebriante visual de montanha e céu. Todos param, no final do dia, para apreciar o sol se pondo para dormir, no aconchego dos dois irmãos, ou em outro ponto do sinuoso contorno das montanhas.
Fim da exaltação!
Vem o fim da tarde e o Cristo não vê, mas ouve, cantos de louvor entoados por fiéis, na capela a seus pés, no varandão. Chega a noite, com ela a luz que o ilumina.  Recomeça sua jornada visual, pela mesma zona sem mar, agora um mar de luzes. Verifica a hora pelo relógio da estação de trem. Do aeroporto e da ponte, vê as pistas iluminadas. Acompanha o trajeto do aterro, guiado pelos enormes postes de luz e pára, extasiado, nas grandes corcovas, agora um espetáculo luminoso por trás da enseada. Segue seu caminho, vê o topo do maior hotel da praia das calçadas famosas. O mar, agora, é uma imensidão negra, ao fundo. Lembra-se dos fogos de artifício que todo ano atraem milhões àquela praia, muitos deles para lançar oferendas à Rainha das Águas, deusa do mar, na esperança de um novo ano melhor. Ele perdoa o sincretismo, pois sabe que a fé tem espaço para muitas crenças. Termina seu caminho noturno com o mesmo êxtase diurno, a lagoa, agora, uma massa negra contornada pelo abraço iluminado de seus guarda-costas.
Findo o dia inteiro de contemplação, ele tem sempre a certeza de que a união que abençoou é perfeita. A convivência é pacífica, divórcio nem pensar, serão felizes para sempre, o Rio e o Mar.

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UM TOUR 360 GRAUS PELA CIDADE MARAVILHOSA!!

domingo, 11 de outubro de 2026

Eu Sou O Espetáculo - No Céu


São 15 anos sem José Vasconcellos.
Minha homenagem ao maior dos humoristas brasileiros,
rivalizando com Chico Anysio. Jô Soares só um pouco abaixo.

A nova guarda vai ter que remar muito para desbancar um dos três..


Quando eu era criança, havia vários LPs disponíveis em casa para se tocar na vitrola.

Sei que tem gente que não a menor ideia do que seja, nem LP, muito menos vitrola, mas seguimos.

Minhas memórias ressaltam, além dos LPs dos Beatles, claro, três que eu ouvia e ouvia de novo e de novo e de novo até gastar a agulha ... que muita gente também não sabe o que é...

Um, era o Bolero de Ravel, com aquele crescendo irresistível de instrumentos de orquestra, em melodia maravilhosamente repetitiva.

Outro, era o Time Out de Dave Brubeck, com as históricas canções Take Five e Blue Rondo A La Turk.

O terceiro, não era de música, era de humor, e se chamava 'Eu Sou o Espetáculo'.

O Humorista era José Vasconcellos.

Muito antes dessa febre que temos hoje de comediantes em pé, eram poucos os que seguravam uma plateia por duas horas apenas no gogó, e com seus textos, e com sua interpretação, sozinhos no palco, sem cenário, sem produção apurada, sem muita música.

José Vasconcellos foi o pioneiro.... e depois veio Dercy Gonçalves, desbocada. Logo depois, Chico Anysio, Jô Soares e Costinha, este último, aliás, nem precisava falar nada, bastava chegar e ficar parado, e fazer 'Uau'...

Naquele disco, eram 50 minutos de gargalhadas garantidas. Impagáveis as imitações de locutores famosos da época, de atores notáveis de todas as nacionalidades, narradores de futebol de todos os cantos (o esférico choca-se contra a muldura), um deles, claro, que era gago (a-pi-pi-ta o j-u-u-u-u-iz ... a bo-bo-la tá cum o-o-o-o e-e- jááá num tááá mais com ele ---- gooooooool). Impagável a história do italiano que foi com o filho numa partida de futebol sem ter a menor ideia do que se tratava. Lembro -me até hoje, de muitos momentos... sem jamais esquecer da história do casal de velhinhos no hotel às escuras tentando apagar a velhinha, digo, a veLinha. E tinha a inesquecível lembrança da Rádio Jornal de Recife: "Pernambuco falando para o muuuundo"


Depois de muito sucesso, e impressionado com o mundo de fantasia de Walt Disney, investiu todos os seus recursos na Vasconcelândia, que intencionava repetir  em São Paulo o sucesso que conheceu na California. Sem qualquer apoio, o projeto foi um fracasso e ele quase foi à falência.


Recuperou-se com seu talento e fez muito sucesso na TV, principalmente como o gago Rui Barbosa sa-Silva da Escolinha do Professor Raimundo.


Afastou-se da TV devido ao mal de Alzheimer que o acometeu no começo do milênio, e faleceu no último 11 de outubro, vítima de parada cardíaca. 


Homenagens de todo o canto, e até no Twitter, reverenciado pelos comediantes em pé de hoje, que beberam na fonte de Vasconcellos, teve no Programa do Jô um excelente momento revivido, o episódio do Coronel Melo Maluco pegando um táxi a caminho do Aeroporto Santos Dumont.


Impagável!!! Sempre de pé, com domínio absoluto, preenchendo todos os cantos do palco, ele conta como o Coronel sofreu no trajeto ao Aeroporto e o que ele fez, como retribuição ao pobre motorista.


Esse é pra ver muitas vezes!!!




Se o seu firewall deixou um quadro branco acima, 
leve o link abaixo pra casa e divirta-se

São quase oito minutos, dos quais não se pode perder um segundo sequer.

Obrigado, Zé!!!

Homerix Um Pouco Mais Triste Ventura

s

sábado, 10 de outubro de 2026

O privilégio de servir

Publicação de 9 de dezembro de 2019.
Neste momento estamos em meio à campanha para doações para 2026
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Neste domingo, participei de uma experiência abençoada. 

Eu e Neusa participamos de uma caravana a Piraí, aqui no interior do Estado do Rio, logo ali após a subida da Serra das Araras. Nosso carro estava cheio de sacolas para meninos. Um segundo carro, com Guilherme e Ângela, tinha sacolas para meninas.

Ao chegarmos ao portal de Piraí, lá pelas 10 da manhã, lá estavam nossos condutores, Coité, Dayse e seu pai, parceiros moradores da região, que nos levariam aos locais de entrega de felicidade, além de Romilda e esposo, que vieram de Resende, especialmente para compor a caravana, que subiu a três veículos. Sem eles, nada do que viria, seria possível! Saímos pela estrada pelo asfalto, mas não entramos pela cidade, e de repente estávamos em estradas de terra. Que bom que estava um dia lindo, senão seria difícil ficar se desvencilhando de lama. 


Daí, não vimos mais asfalto até o início da noite, quando só então, demos o processo por encerrado, sem tempo de experimentar o charme do local, com quase todas as 110 sacolas entregues. Voltamos ao asfalto, só então parando para 'almoçar', no último restaurante antes da serra. Depois, mais duas horas de viagem e entrega das caravaneiras acompanhantes em seus endereços, e chegar em casa às 10 da noite, e desabar no sofá, um dia que começara às 7:30, quando saímos de casa rumo ao ponto de encontro, na Seara de Amor e Luz, na Rua da Passagem, para abastecermos os carros, fazermos a prece de encaminhamento e sairmos para a luta.


E Madureira, Acari, Ramos e Jardim Gramacho, no Rio
Outras 10 caravanas saíram rumo a pontos selecionados (algumas já foram no sábado), seja na capital, em comunidades como Ramos, Acari, Jardim Gramacho, Madureira, e também no estado do Rio, como a 'nossa' Piraí, Governador Portela, Seropédica, e alguns mais longínquos, como Araruama, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio e Resende! Nossa caravana, a de Piraí, encaixava-se perfeitamente no objetivo original do 'Natal nas Estradas', que era sair sem destino em estradas vicinais em busca de oportunidades de fazer caridade. 

A maioria das outras caravanas já tinha destinos definidos (um ou dois em cada lugar), selecionados por um trabalho prévio, em instituições, em ONGs, em comunidades, com agentes locais, normalmente pastores ou padres, ou líderes comunitários, que pesquisaram antes o número de crianças, que gênero, que idade, que condição, então as sacolas já iam com nome da criança e nome da mãe, e elas eram chamadas a um ponto de encontro, ou no templo ou num galpão, e então se fazia a entrega. 

A nossa caravana era diferente, ela não tinha endereços definidos, então nossa chegada era surpresa absoluta, ninguém era avisado. A caravana de Governador Portela também era em estradas. Nosso objetivo era 'catar criança' pelas estradas, e nossa felicidade ao encontrá-las, imensa! Após a chegada a Piraí, foram oito horas de poeira, identificação de 'oportunidade', que podia ser uma criança, ou grupo de crianças, o que provocava êxtase nos caravaneiros, ou mesmo uma casa ao longe com roupa de criança estendida no varal, e aí começava a rotina de parar o carro, descer e perguntar: 'Ó de casa!!',  'Tem criança aí?', 'Que idade?', 'Tem grávida?', 'Apareçam aqui!', e quando chegavam, começava a busca pela sacola correta, menino/menina/idade, a felicidade ao encontrar, entregar, testemunhar a felicidade, abraçar, se emocionar, registrar, uma rotina abençoada... 

Romilda, o faro
A admirar-se o faro da parceira Romilda que, de repente, saía do carro, no meio do nada, sem razão aparente, mas logo depois vislumbrava-se uma porteira, uma ponte, um buraco aonde havia uma casa, às vezes de pau-a-pique, escondida do mato da estrada, de onde aparecia uma mãe, com uma criança a tiracolo. Quase invariavelmente, as crianças vinham acompanhadas de cachorros, muitos cachorros, esses,sim, invariavelmente, muito magros. 


Vivi - Neusa - Cláudia
Entre uma parada e outra foi que ouvi de uma das nossas caravaneiras o título deste texto. A jovem e brilhante palestrante Vivi, em meio à celebração por mais uma entrega bem sucedida e sorrisos auferidos de crianças e parentes, ela lembrou, emocionada: 
'É isso que Chico Xavier 
nos ensinou a experimentar, 
o privilégio de servir!', 
ao que uma lágrima desceu de meus olhos. Tanto ela como a outra companheira Cláudia são experientes em ações do tipo, já participaram de ajudas a moradores de rua, e outras do gênero, muito amor no coração.

Jurema, Nazaré, Odiléa,
Yvelize e Neusa
Não se pode esquecer nisso tudo o extenuante trabalho da equipe do 'Natal nas Estradas', uma das muitas sessões da Seara destinadas à caridade, que é organizadora desses eventos, já há muitos anos, hoje com um grupo de cinco voluntárias (e algumas agregadas, vez por outra), que passam a maior parte do ano na coleta e organização de doações, mobilização de amigos, separação dos itens por idade e gênero, e identificação de necessidades, e se responsabilizavam pela compra do que estava faltando, tudo para ficar prontinho para o grande dia!!! 

Cada sacola continha uma roupa completa (short ou saia ou conjunto, cueca ou calcinha, camiseta, vestido e um calçado), classificado por idade (1 a 10 anos),  brinquedo (bola, de capão ou plástico, carrinho, boneca, boneco, jogos) balas, bolacha (ou biscoito?), e um kit de higiene (pasta e escova de dentes, sabonete, pente). Nas sacolas de bebês, a serem entregues às grávidas, fraldas, cueiros, roupinhas de bebês, kit de higiene, mamadeira e outros itens. Eram 5 sacolas de 1 a 10 anos para meninos, outras 5 para meninas, e 10 para bebês. Foi desta última categoria que mais sobraram sacolas, e mais umas poucas das idades menores, o que denota que estão chegando menos crianças neste mundão, se bem que uma delas tinha uma criança no colo e levava em seu ventre o décimo filho, ai, ai ai.... 
















Bem, mesmo assim, as sacolas não entregues de nossa aventura (muito poucas) ficaram com os nossos guias da região, que se comprometeram a reorganizar as que haviam sido desmembradas para atender a necessidades específicas de alguma criança, e distribuí-las até o Natal. 

Acresça-se que os amigos  também trouxeram presentes no porta-malas, embrulhadinhos com capricho, que muito serviram mais para o final do dia, quando às vezes tinha criança mas não tinha a sacola apropriada ao gênero e idade! 

Além de estarem municiados com frutas, sanduíches, salgados, água (com gás, eeeehh!!) e outras coisas que ajudaram a enganar nossa fome!!! Não podíamos desperdiçar uma hora para voltar ao asfalto e almoçar... isso refletiria em 15 sacolas a menos de felicidade!

Poxa, que dia foi esse?! 

Nem fiquei triste em perder o melhor jogo do meu time no campeonato, onde carimbamos a faixa do campeão com um sonoro 4x0 ... mas pude ouvir, e vibrar, no rádio do carro!! Vai, Santooooos!!! Foi mais um motivo para complementar a felicidade de um dos melhores dias de minha vida!!! 

Senti-me com um Papai Noel, nossos carros como trenós, os cavalos do motor como as renas, os anõezinhos fabricantes de brinquedos como as voluntárias alimentadoras das sacolas, no setor da Seara não à toa conhecido como 
Fábrica de Felicidade 

Uma verdadeira bênção!

OUÇA e LEIA - O Historiador do Submarino - A Chegada em Luanda


Começou em 15 de setembro de 2026, uma coluna mensal de 

O Historiador Naval do Submarino Angolano.

Ao fim, há uma lista com os episódios ja apresentados!

Já vamos pra 2ª coluna, como chegaram os primeiros sons dos Beatles em Angola!

Os sons da chegada em Luanda

Clique no Play Verdinho para ouvir


E leia o texto aqui !!!!


Chegada a Luanda

Entra Sgt.Pepper Instrumental, com mash up de Agora Vou Ser Feliz

Olá, saudações a todos companheiros ouvintes da LAC (Luanda Antena Comercial). 

Cá estou de novo, Joaquim Correia, marujo do Submarino ANgolano, que vos fala desde Lisboa. Sou Historiador mas viajo em águas menos profundas. Mas, vejam lá, dei um salto no tempo e acabei de chegar no navio Príncipe Perfeito ao Porto de Luanda. 


Entra Serenata a Luanda com Eleutério Sanches 

Corre o ano de 1965 e está um calor húmido a que não estava nada habituado. No barco viajamos eu e os meus pais, a minha avó acompanhada da Maria Augusta, rapariguita lá da Aldeia que quis conhecer o mundo, o Lorde, companheiro de quatro patas, muita mobilia e, claro, os poucos discos dos Beatles que já possuo. Foi uma mudança e peras.

Este salto geográfico aconteceu porque meu pai foi trabalhar para a Universidade de Luanda e fomos viver para a Rua Padre Antonio Vieira, agora Rua Comandante Tona, no Bairro Alvalade, perto da Igreja da Sagrada Família, em frente ao Hospital Militar. Rapidamente fiz amigos, como o Jaime Mendo e o Chico, que inda agora se mantém firmes, me contaram das grandiosas farras no liceu Salvador Correia e no Aeroclube, para além de grandes festas nos clubes de bairro como a Casa Branca no Bairro Santa Rosa, e dos convívios em casas particulares. Também me falaram na Tamar, mas essa era uma “boite” principalmente frequentada por mais velhos… bem, mas essas e outras cenas ficarão para as próximas crónicas.

Entra Beatles no Shea Stadium em Nova Iorque 

Entra Twist and Shout com The Beatl

Lembro-me que junho de 1964, os Beatles tinham dado um concerto em Hong Kong, cerca de um ano antes de tocarem para a imensa e inédita plateia de cerca de 55.600 pessoas, no Shea Stadium em Nova Iorque, em agosto de 1965. Esta atuação ficou marcada na minha memória, pois tive dela conhecimento durante a viagem, em pleno alto mar, num filme que acompanhava umas rodadas de Bingo na sala de jogos do Príncipe Perfeito. 

Entra Bingo com Gasoline

Sentado ao lado do meu pai, que até ganhou 500 escudos, eu deslumbrei-me com a vivacidade, criatividade e atrevimento da banda. Foi acontecimento decisivo para me tornar modesto colecionador da banda.

Entra HELP com The Beatles

Luanda já vibrava com os Beatles. Os seus discos chegaram a Angola na segunda metade da década de 1960, importados diretamente de Portugal ou de Espanha, embora saiba de amigos que compraram discos na África do Sul. Os LPs e EPs eram vendidos nas diversas lojas de discos locais, principalmente na Valentim de Carvalho (na baixa da cidade) ou na Discoteca Bonzão, na Avenida dos Combatentes, mas eu descobri uma pequena loja na Vila Alice, perto de minha casa. 

Entra Ticket To Ride com The Beatles

O Rádio Clube de Angola (RCA) teve um papel fundamental na divulgação da música pop-rock durante os anos 60, transmitindo temas que estavam no topo das tabelas internacionais.

Entra Yesterday com The Beatles

Bem, confesso que sinto vontade de lembrar alguns nomes que demonstram a enorme influência dos Beatles também nas outras colónias portuguesas, mas não me atrevo a tal, por existirem marujos muito mas dentro da matéria que eu. Todavia a leitura da obra recentemente publicada "Voz de Cabo-Verde - A História de um Povo?”, da autoria de David Santos da Fresco, leva-me a referir o grupo Voz de Cabo Verde, a quem chamavam de Beatles Cabo-Verdianos.

Entra In The Past com Voz de Cabo Verde 

Quanto ao Brasil, há pouco tempo descobri os nordestinos Beatles Cordel, que apresentam “um espetáculo ambientado em um cenário que mistura realidade e fantasia, onde os 'Beatles do sertão' dividem o palco com Seu Quité, um poeta matuto de tempos longínquos que é arrebatado por esse som estrangeiro”. Vale a pena conhecer.

Entra Seu Quité com Beatles Cordel  e She Loves You

Vivi muitos anos no Oriente, também podia aterrar em Goa, onde Remo Fernandez e os seus Beat 4, bem reflectiam a mistura entre a cultura goesa (mestiçagem luso-indiana) e a beatlemania, designadamente quando da visita dos músicos à India para a profundar Meditação Transcendental, na década de 60. 

Entra Jam - Sem título - Remo Fernandes com os Solar Punch 

Também podia “dar um salto” a Macau, onde logo desde princípios dos anos 60 diversas bandas se reclamaram representantes da beatlemania, merecendo especial realce os Thunders, que chegaram a gravar diversos discos em Hong Kong. 

Entra Macau com Thunder

Mas não resisto, vou contar uma história pouco conhecida. Como sabem, ele actuaram em Hong Kong em Junho de 1964, e algo inesperado terá acontecido, como me contou Ray Cordeiro, natural de Macau mas a trabalhar como DJ em Hong Kong, que por diversas vezes entrevistou os músicos durante a sua passagem pelo território então sob soberania inglesa.

A propósito: o concerto não contou com o baterista Ringo Star, doente com uma amigdalite grave e que foi substituído por Jimmie Nicol, que ficou conhecido como o o Beatle de 13 dias, por ter sido o baterista que substituiu Ringo Starr durante 13 dias, entre 3 e 15 de junho de 1964: dia 3 Ringo fica doente, dia 4 de junho em Copenhagen, 5 e 6 de junho na Holanda, para além de 9 de junho em Hong Kong e 12 e 13 de junho em Adelaide, Austrália.

Entra Chegada da Holanda e partida para Hong Kong - Entrevistas em Macau 

Mas voltemos à tal história.

Estavam marcados dois concertos, 9 e 10 de junho, mas o promotor local colocou os bilhetes à venda por 75 dólares de Hong Kong, o que equivalia ao salário de uma semana inteira de um trabalhador local, preço exorbitante que  levou a que os concertos não esgotassem, acontecimento raríssimo no auge da Beatlemania. Para não deixar a sala vazia, o promotor acabou por oferecer centenas de bilhetes aos militares do exército britânico destacados na região, concentrando os dos concertos para o dia 9 de junho. Paul McCartney recordou mais tarde que o público parecia uma "audiência caqui" (a cor das fardas militares) e que o ambiente foi invulgarmente calmo e contido”. Exaustos da viagem desde Amesterdão e desanimados com a fraca receção local, os Beatles passaram o dia 10 de junho a descansar no President Hotel, gravando apenas uma breve entrevista no aeroporto de Kai Tak antes de voarem para a Austrália.

Entra This Boy - Beatles (ao vivo em Melbourne, Austrália) 

Já se faz tarde, vou-me recolher à cabine, mas já estou com saudades de toda a marujada que nos acompanha de tantas as partes do mundo. Até lá, vou passar pelo Jardim dos Polvos - Octopus's Garden, pode ser que nosso companheiro Ringo ande por lá!

E pronto, um abraço desde Lisboa (mas com a memória em Luanda), conto convosco para a próxima crónica.

Entra Luanda - Eleutério Sanches

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DEMAIS HISTÓRIAS DO HISTORIADOR NAVAL

Coluna 1: Como conheci os Beatles, aqui, neste Link

Coluna 2: Os sons da chegada em Luanda, este aqui


Currículo do Historiador!!


O perfil do nosso Historiador Naval Joaquim Augusto Pinheiro Correia conta-nos que é nascido em Coimbra a 7 de Abril de 1951, este homem é um verdadeiro andarilho da cultura! 
Estudou em Portugal e em Angola, rumando depois para Macau, onde residiu onze anos e leccionou na Universidade de Macau, ponto de partida para desbravar o Oriente. Investigador incansável e apaixonado pela música, o Historiador Naval Joaquim defende sem rodeios que "o futuro é mestiço nas cores, nos sons, nas palavras e no pensamento". E a sua obra reflecte exactamente essa mistura! Escreveu sobre jazz e os ritmos de Angola em «Angola Blues» e contou a história do baterista afro/funk Beto Kalulu, levou a sua pesquisa sonora até Goa, à Indonésia ao Tibete e a outros lugares do Oriente e do mundo! 
Em 1990 fez parte da equipa do II Raide Macau - Lisboa, que ligou por terra estes dois lugares onde a lusofonia está presente, juntando em três Mitsubishi Pageros dez aventureiros russos, chineses, portugueses e macaenses, atravessando toda a China e a então URRS (atravessaram a fronteira chinesa a cantar “Back in the USSR). Desta expedição, foi realizado o filme “50 Dias na Estrada”, o livro “Passagem para Ocidente pela Nova Rota da Seda” e a banda desenhada “Da China a Portugal Pela Rota Proibida”, além da edição virtual de diversos temas musicais. 
É colaborador assíduo do Jornal Oregioes, além de publicar textos em diversas outras publicações periódicas ou monográficas. Acredita que a colaboração entre todos os povos do mundo é a resposta para tempos conturbados, como os de agora, e essa é mais uma razão para ter muito gosto em fazer parte da tripulação do Submarino Angolano, a quem deseja longas e fantásticas viagens. “And our friends are all aboard , Many more of them live next door”



O Casamento do Rio com o Mar

Cristo Redentor  Completou 95  anos hoje Hora de republicar meu conto!!  O Casamento do Rio com o Mar Fotos tirada em março de 2011...