| 1964 |
| 1975 |
Graças à sua existência e abrangência, e à dedicação e mobilização de alguns, estou tendo oportunidade de reviver um passado que parecia distante: minha educação básica, do princípio ao fim no Colégio Santista, tradicional instituição marista da minha cidade, Santos, fundado em 1904.
A coisa começou com a publicação no mural de um colega, de uma foto daqueles tempos, e foi crescendo aos poucos, em princípio, com os poucos amigos daquele colega convidando como amigos outros que conhecia, de outras turmas. Mas tudo se organizou mesmo quando alguém descobriu que se podia formar um grupo aberto no Facebook. Daí, foi, e tem sido, uma febre. E foi, e tem sido, um tal de pessoas puxarem pela memória, e testarem se outros que não viam há 35 ou 40 anos e só se lembravam do nome, estavam já cadastrados, e se não estivessem, era um tal de chamar: "Entra no Facebook você também!". Viramos todos garotos propaganda da rede social de Mr. Zuckerberg.
Quando escrevi este texto em 2011, estávamos prestes a celebrar o 1.000º inscrito .... e a 300ª foto. Como é legal relembrar os cabelos que usávamos, as calças boca-de-sino e os paletós xadrez das festas. Mas o mais legal e tocante são as memórias que aquelas fotos suscitam, as lembranças dos professores e os irmãos maristas que nos educaram e nos formaram bons cidadãos. Muitos que já se foram, e uns poucos que ainda estão conosco. Irmãos e professores que levaram a sério o lema do beato Marcelino Champagnat, o fundador da ordem marista: "Educar é formar bons cristãos e virtuosos cidadãos; para educar uma criança é preciso amá-la" Toda escola, adaptando ou eliminando a menção religiosa, deveria se pautar por essas palavras. O Santista fez isso com a gente, direitinho.
Sendo um colégio religioso, era rígido o suficiente para prover valores morais firmes a seus alunos, com educação séria, o que o tornava muito concorrido, e fazia as famílias da cidade fazerem grande esforço para matricularem seus filhos e mantê-los lá. Famílias que pressionaram muito para que o privilégio da boa educação fosse estendido ao sexo oposto. Em 1970, o colégio adaptou-se aos tempos modernos e admitiu a presença feminina, após 65 anos como um tradicional colégio de meninos! Eu estava lá nessa transição revolucionária. Recebemos, ao que me lembre, muito bem, as meninas no nosso convívio.
Lá passei 12 ótimos anos de minha vida, Primário, Ginásio e Científico, como assim era chamado, bem mais romântico que hoje. E foram 12 anos (o normal seriam 11), de 1964 a 1975, pois não tive idade para fazer o exame de Admissão ao Ginasial, e tive que fazer o 5º Ano, coisa que tinha naquela época. É que entrei no 1º ano do Primário com tenros 6 aninhos, veja que coisa fofa lá em cima, à esquerda (HeHeHe). Que saudade da lancheirinha! O ponto alto da hora do lanche, que hora tão feliz, era desenroscar aquela garrafa de plástico e tomar aquele suquinho de qualquer coisa com leve gosto de plástico, e desembrulhar o papel alumínio, para comer aquele misto-frio (ou sanduíche de atum) maravilhoso!! Mais tarde, quando aposentei a lancheirinha, a corrida pelo enorme pátio para ver quem chegava na frente, na fila da lanchonete. E tinha a banda, que disputava e ganhava de outras escolas, com evoluções memoráveis. E tinha os desfiles de 6 de setembro, em que marchávamos ao som da banda marcial, com impecáveis fardas brancas e quepes. Em alguns anos eu até ia à frente, empunhando uma espada maneiríssima, como se diz hoje. E tinha a rotina de perfilar ante bandeiras e cantar o Hino do Brasil e, sim, o Hino Do Colégio, três estrofes das quais a segunda me lembro até hoje, inteirinha. Muito legal!
Ter feito o 5º ano certamente frustrou aos meus pais, pois viram seu filho perder um ano em sua evolução escolar, profissional, de forma irrecuperável. Frustrou a mim, pois perdi a convivência com amigos queridos, especialmente o Magalhães, grande sujeito, que já se foi, que era com quem mais brincava, com quem mais competia pelo 1º lugar, perdendo eu sempre. Mas agora, olhando por um amplo espectro, não fosse assim, e eu não teria conhecido o Cid e o Zé Marques, meus colegas de Científico, com quem eu jogava sueca, na garagem da casa do primeiro, e não teria conhecido a Neusa, aos 20 anos de idade, sua vizinha, que de vez em quando se juntava a nós (ela também estudou no Santista, mas só nos anos de Científico, e na turma de Medicina, eu na de Engenharia). E ela não teria sido a minha 1ª namorada, e não teríamos nos casado, e eu não estaria feliz com ela até hoje, e com nossos queridos filhos Renata e Felipe.
Enfim, assim é o destino!!!
Felizmente, quando a conheci, já não ostentava a cabeleira da foto da direita, que usei em meu último ano no Colégio Santista. Ela me diz hoje que se tivesse me conhecido daquele jeito, teria pensado mal de mim, e nem teria percebido o meu sorriso, que a conquistou (palavras dela...). A cabeleira foi trocada pela careca de calouro, aos 18 anos, quando fui um dos 6 santistas a entrar na Escola Poltécnica da USP. Essa configuração hexagonal repetiu-se outras duas vezes em minha vida: fui um dos 6 politécnicos a entrar como estagiário na Petrobras, e um dos 6 estagiários a se formarem engenheiros de petróleo designados para a área internacional da empresa.
Tudo o que consegui começou naqueles 12 anos de ensino básico e virtuoso, seguiu com estudo e dedicação, claro que associado a oportunidade e sorte. Mas aquela base está presente em cada ato meu como cidadão, que prezo muito, e que consegui, junto com Neusa, passar a meus filhos.
Infelizmente, essa ventura (!) não está mais disponível às famílias santistas. O Colégio Santista, berço de tanta gente importante e conceituada, não existe mais! A mãe dele (como a piada) subiu no telhado quando, em 1987, os maristas se mudaram, e a administração mudou de mãos. A educação começou a ter uma tendência mais socialista e esquerdizante, e os pais foram, naturalmente, tirando seus filhos da escola. Nos tempos áureos, chegou a ter 1800 alunos. Foi minguando, minguando, até que, em 2009, tinha pouco mais de 400, e foi estatizada pela prefeitura. Dizem eles que continuarão as tradições da escola, mas acho difícil, sem os valores da causa marista.
Publicando este post no Dia dos Pais, saúdo a todos os que auxiliaram na formação do cidadão que sou, mas devo declarar também que o pai que sou, foi devido à educação que tive, que o pai que tive pôde proporcionar a mim, mantendo-me, em todo meu ensino básico, no tradicional Colégio Santista.
