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sexta-feira, 30 de julho de 2021

Nas Voragens do Pecado - uma resenha em versos

 1

Martinho Lutero fez a reforma.

Era contra maus hábitos da Igreja.

Muitos franceses seguiram a norma

E a defendiam de forma sobeja.

Porém, a Igreja não se conforma

E quer suas cabeças na bandeja.

 

Catarina de Médicis concorda

E manda sobre eles sua horda!


 2

Era época de grande desgosto

Matavam e diziam: Ora pois!

Era coisa de se esconder o rosto,

De ser lembrado bom tempo depois.

Um macabro 24 de agosto

Em Mil Quinhentos e Setenta e Dois

 

Na França, onde o massacre aconteceu,

Era a noite de São Bartolomeu...

 

 

3 

Lá no nordeste do país vivia

Uma família de gente do bem.

Eram pautados na filantropia

Faziam o bem sem verem a quem

Eram protestantes no dia a dia.

Eles não faziam mal a ninguém,

 

Porém, sua fé custou-lhes a pele:

Eram os Bréthancourt De La Chapelle.


 4

Eram companheiros da realeza.

Afastou-os das armas a doutrina.

Criaram sua prole com nobreza.

Os pais, Carlos Filipe e Carolina,

Os cinco Felipes e uma lindeza,

A todos se previa linda sina.

Era muito feliz a linda Ruth.

Porém, a crença deles repercute…

 

 5

Denunciam ao Capitão da Fé

Que a família era real perigo.

Em dúvida, ele consultou até

A Rainha, o Monsenhor e o amigo.

Porém decidiu ir contra a maré,

A fé cega carregava consigo.

 

Elaborou ultimato em missiva

Para manter sua família viva.


 

 6

À Família lhes deram as opções

De emigrarem à vizinha Alemanha,

Ou interromperem as pregações.

Porém, não cabia em suas entranhas

Ir contra ao que estava em seus corações,

E resolveram enfrentar a sanha.

 

Por precaução, enviaram a filha

Ao refúgio da quase nora Otília.

 


 7

Entretanto, num domingo normal,

Carlos Felipe fazia o sermão,

Ouviu de Narbonne a ordem fatal.

Uma espada varou-lhe o coração.

E todos tiveram destino igual,

Muito sangue espalhado pelo chão.

 

A fé na Reforma selou a sina

Da família de Ruth Carolina.



 8

A menina não pôde acreditar.

E como suportar tamanha dor?

A ela, Otília veio se juntar,

E propôs-lhe vil pacto opressor;

Que lhe tomasse o nome e o lugar,

E empreendesse um plano vingador.

 

Quando Otília morreu, Ruth assumiu,

E em busca de vingança ela partiu!

 


 9

Suas armas seriam seus encantos,

Cabelos, olhos, modos de princesa.

Da inocência vestiria o manto,

Conquistaria o coração da presa.

Ao passar o capitão sacrossanto,

Espalhou-se toda sua beleza! 

 

Pobre Capitão ficou aturdido,

A rosa foi a flecha do Cupido.



10

E retornou ao quartel transtornado. 

E desistiu de seus votos de pronto. 

Enviou seu emissário fardado

A descobrir quem o deixara tonto.

Cumpriu sua missão como acordado,

Na igreja marcaram um encontro.

 

Ruth Chapelle apresentou-se ali:

Otília, irmã de Arthur de Louvigny.


11

Simulando recato tão gentil, 

Pediu audiência com Catarina. 

Narbonne a levou, em paixão febril. 

Ruth viu lá no alto a adrenalina, 

Quando viu desmascarado o ardil. 

Contou da vingança à carnificina.

 

A Rainha virou sua aliada

E combinou o plano da empreitada! 


12

Ruth que armasse algo escandaloso. 

Seria punida de mentirinha. 

Quando nota que o Capitão garboso  

À primeira sacada se encaminha ,

Deslumbra com seu sorriso formoso, 

E o segue pelas sacadas vizinhas.

 

Como segunda flecha do Cupido,

Arremessa-lhe um laço do vestido.


13

Então, Rute se recolhe a convento 

E lhe manda uma carta apaixonada.  

A vil Rainha segue em seu intento

Pois ela sempre foi desconfiada,

De ser Narbonne bastardo rebento, 

Que fora pelo marido enganada.

 

A ser deposta pelo Capitão, 

Resolveu se precaver de antemão.

14

O preceptor falhou segunda vez 

Em mudar a ideia do Capitão. 

Ele inclusive teve a lucidez 

De desconfiar de conspiração, 

Que podia não ser ela, talvez, 

Mas ele estava cego de paixão!

 

Narbonne seguiu firme no caminho. 

Deixou o padre falando sozinho. 

 

15
Em breve, o casamento acontecia 
Para o choque de Gregório e Blandina, 
Ela, que era a dama de companhia, 
Ele, servo da mãe Carolina,
Tentaram convencê-la todo dia, 
Para evitar iminente ruína 

 

Porém, Ruth estava determinada, 
Por Otília, do além, aconselhada. 

 

16
Outrora alegre, doce e angelical 
Tornou-se ríspida e intimorata,  
Uma verdadeira expressão do mal.

Preferia a vingança imediata,

A esperar a via da lei moral,

Estava em firme jornada insensata.

 

Gregório resolveu cessar a espera  

Foi ver Frederico na Baviera. 

 

17

E veio o primeiro baile real 

E Narbonne apresentou sua esposa 

Ela despertou encanto geral

E valsou como linda mariposa. 

Mas não enganou um oficial, 

Que a viu com olhos de raposa.

 

Foi negativo para Ruth o saldo, 

Porque reconheceu-a Reginaldo. 

 

18 
Fora ele o augusto portador 
Daquela carta que era ultimato
Que provocaria aquele terror. 
Testemunhara aquele lindo ato
Da bela menina em seu esplendor.
E na festa desvendou o vil fato:

 

Era inegável sua semelhança.  
Era Ruth e desejava vingança. 
 
19 
Revelou a tramoia em confissão 
Ao Monsenhor, preceptor de Luís,
Considerou contar-lhe de antemão,
Agiu como a um clérigo condiz, 
Disse: "Desista da conspiração!
Será melhor que saia do país."

 

Mas para surpresa do Monsenhor,
Ela disse: "Luís tem o meu amor!" 

20 
Só que àquela altura, naquele dia,
Sabia que chegara Frederico
Oferecendo chance de alforria
Rumo a um futuro seguro e rico, 
De amor, compaixão e sabedoria,
Ambiente sacrossanto e pudico.  

 

Ruth aceitou mas pediu que esperasse! 
Já estava em sua mente o desenlace.

 

21 
Enviou carta denúncia à Rainha
Acusando Luís de ser patrono 
De artimanha nada comezinha 
Para garantir seu lugar no trono.
Tirariam espada da bainha
Contra o Rei de direito Carlos IX.

 

Revelaria à Rainha de fato
Os perpetradores do infame ato.

 

22 
E que esperasse visita noturna,
Viria em busca dela o Capitão.
Ruth, em sua maquinação soturna, 
Entregava o algoz de beijada mão.
Catarina que tirasse da urna
A adequada forma de punição.

 

A senha pra consolidar a trama?  
Condessa de Narbonne, a linda dama!

 

23 
De tarde, a bela fera enfrentava
Capitão e Monsenhor e soldado.
Com vil frieza ela dissimulava, 
Mostrando um coração apaixonado.
Reginaldo, feroz, se revoltava,
Propôs a prisão dela, transtornado. 

 

Mas o Capitão caiu na esparrela...  
Não conseguia mais viver sem ela!


24 
Trancou-a em prisão particular. 
Queria tornar Ruth sua escrava

Mas ela sabia como escapar,

No espírito de Otília se inspirava.
Ela disse a Luís que confessar 
Iria tirar do passado a trava.

 

Então, viu a luz no fim do caminho,
Pois o Capitão caiu direitinho...

25 
Então, de roupas simples se vestiu. 
E foram disfarçados à Igreja

Como sempre pérfida, ela assumiu

Uma postura humilde e benfazeja. 
Quando ao confessionário ele partiu,
Ela colocou no bolo a cereja.

 

Deixou uma carta pré-preparada
Dizendo: Ao Palácio fui convocada!


26 
Saindo da cabine, o Capitão
Não encontrou a falsa penitente.

Entrou em modo de consternação

E recebeu a notícia premente, 
E logo partiu, sem hesitação,
Para o Palácio, porém, entrementes,

 

Dirigia-se à Alemanha carruagem
Com Ruth e Frederico na bagagem.


27  

Catarina perguntou: "A que veio?" 
"Condessa de Narbonne vim buscar!" 
À senha, vem sua Guarda, sem freio. 
Luís, em vão, tentou pelejar, 
Mas não adiantou o esperneio.
E o levaram a terrível lugar:

 

Um calabouço úmido e apertado.
Não teria mais ninguém a seu lado.

 

28  

Passaram dias e meses e anos,
Quando, por fim, um guarda lhe falou.   
Luís a ele apresentou seus planos
De liberdade e logo se frustrou.
Entrou em depressão e desengano.
Resignou-se e a morte esperou.

 

Esquecido, sem pompas ou clarins,
O Capitão da Fé chegava ao fim.

 

 29  

Se fosse um conto de fadas normal,
Com a fuga da princesa e seu par,   
E o vilão em desgraça sem igual,
Com prazer, seria de se esperar
Um "Felizes pra sempre" no final.
Porém, vida moral é lapidar.

 

Maus atos são punidos com requinte,
Se não for nesta vida, nas seguintes. 
.

  30  

Quando gente adentrou à sua cela,
Não entendeu o que acontecia,   
E pensou estar livre das querelas.
Ele falava, mas ninguém ouvia. 
Procurando a razão do que sentia,
Pensou em Ruth, foi à casa dela.

 

Então viu, cenas de um triste passado,
Que o deixaram bem mais atordoado.
 

  31  

Com Otília volta e meia presente,
Luís seguia em estado oprimido. 
Ela inda vagava constantemente.
Em lembrança do massacre sofrido.
Seguia em sua missão tão demente
De atazanar o agressor aturdido..

 

Depois de um tempo, encontrou uma luz
Que aliviou um pouco sua cruz.


  32  

Como que um ímã o atraiu,
Ao velho solar da carnificina. 
A opressão de Otília reprimiu.
Emanava de lá sã luz divina.
A família trucidada ele viu,
Ainda pregando sua doutrina.

 

Estampando sorriso angelical.
É sua Família Espiritual.

     

33  

Porém, ao mesmo tempo que feliz,
Por ser acarinhado e recebido 
Por uma família que sempre quis,
Mantinha seu pensamento aturdido
Devido a seus atos cruéis e vis,
Trucidando aqueles entes queridos.

 

E passou muitos anos a vagar
À margem daquele sacro lugar.

 

   34  

Um dia enfim houve por bem entrar.
Ciente estava do arrependimento.
Resolveu permitir se perdoar. 
Era hora de acabar o tormento.
E todos passaram a lhe explicar
O que era aquele novo momento.

 

Ele viu que as crianças trucidadas
Foram seus filhos em vidas passadas.

 

35  

E voltando 12 anos atrás,
Desde o dia em que Ruth se evadiu,
Tinha ela remorso contumaz. 
Sempre imergia em estado febril.
Otília nunca a deixava em paz, 
Postura obsessora assumiu.

 

Inclusive a levava esfuziante.
A visitar Luís agonizante.


  36  

Ruth não conseguiu se perdoar,
De não ter perdoado seu algoz.
Frederico presente a lhe ditar
Boas normas pra desatar os nós,
Ensinou: melhor remédio é orar!
Mas era impossibilidade atroz.

 

Não conseguia aceitar o conselho.
Achava-se indigna do Evangelho.

 

  37 

O espírito de Otília era presente.
E a culpava por Luís ter fugido.
Era isso que sua frágil mente
Acreditava ter acontecido.
Em modo de negação permanente
Pensava que não haviam morrido.

 

Ao final de 12 anos de inferno, 
 
Encontrou no além o calor materno.

38  

Era da mãe Carolina a missão.
De orientar os caminhos da filha.
Rumo a uma nova reencarnação
Porém, só aceitou seguir a trilha.
Ao receber uma carta do irmão:
Carlos representaria a família,

 

Acudindo em sua nova vida,
Seria constante luta renhida.

 

39  

E Narbonne logo retornaria
A outra vida a seguir o caminho.
Otília de Louvigny ficaria
Ainda muito tempo presa ao ninho.
De obsessão e vingança em agonia,
Com sua alma em pleno burburinho.

 

É longo o caminho da redenção 
Na procura da plena expiação.

 

40  

Carlos Felipe, o Conde e a Condessa
Seguem firmes na sagrada missão,
Afastando as influências travessas, 
Orientando com sofreguidão,
Onde quer que a sã luta aconteça,
Encaminhando a regeneração.

 

PersistÇencia, disciplina, paixão, 
Segundo a terceira Revelação.

Please Please Me - Lançamento e Recepção

                                                                                                                    Capítulo 36 

Esta é minha saga  

O Universo das Canções dos Beatles


Todos os Capítulos têm acesso neste LINK 


36.1 Cenário e Assuntos do LP, neste LINK

36.2 As 14 Canções do LP, neste LINK

36.3 Capa Lançamento e Recepção

Merece registro a capa do Primeiro LP dos Beatles. 

  • Primeiro por causa do fotógrafo, Angus McBean, considerado legendário no mundo do teatro britânico, chamado por George Martin. A EMI caprichou logo no LP de lançamento dos rapazes! Os Beatles foram chamados ao edifício sede da EMI, em Manchester Square, e orientados a subirem as escadas, Angus orientou que parassem e olhassem para baixo, e ele com maestria venceu o desafio da backlight e tirou a foto. Veja que as canções de chamada são as que saíram como Lado A dos dois compactos lançados dos Beatles.

Pausa para lançamentos fora da Inglaterra.

No Brasil, o lançamento foi esquartejado entre dois LPs (Beatlemania e The Beatles Again) e um compacto duplo, basicamente com as covers. Nos Estados Unidos também apenas em julho de 1963 o LP Introducing The Beatles por um selo pequeno, o Vee Jay, com as mesmas canções, mas que não fez coceira nas paradas americanas. A Capitol, americana, ainda não despertara para o fenômeno, que somente ocorreria em fevereiro de 1964 quando lançou o compacto com I Wanna Hold Your Hand no lado A e I Saw Her Standing (deste LP) no Lado B.

De volta aos lançamentos oficiais.
  • Segundo, porque, seis anos depois, um dos Beatles teve uma brilhante ideia (deve ter sido Paul, que era quem tinha as ideias naquela época). Era o Projeto Get Back, em que recriavam o clima romântico dos primeiros tempos. Nada melhor então que tirar a mesm, com gravações ao vivo em estúdio, sem quase nenhum  overdub. a foto! Chamaram o mesmo fotógrafo, subiram as mesmas escadas e olharam para baixo, e CLICK, registraram seus novos visuais. Pena que, como o Projeto Get Back não foi pra frente, a foto ficou engavetada, e esta capa nunca foi vista oficialmente, mas foi por pouco tempo...
  • Terceiro, porque, três anos depois do final da banda, a EMI lançou uma coletânea sensacional, eram dois LPs, um com os sucessos de 1963 a 1966, outro com os sucessos de 1967 a 1970, e alguém teve a brilhante ideia de tirar aquela foto da gaveta. Ela ilustra, sobre um fundo Azul, o último, e resgataram a foto original para o primeiro, sobre um fundo Vermelho! O lançamento vendeu muuuito, é cultuado até hoje e eles são conhecidos com The Red & Blue Albums.


O LP Please Please Me foi lançado na Inglaterra em 22 de março de 1963, direto para o topo das paradas, aonde ficou durante 30 semanas até perder o lugar para uma banda chamada .... The Beatles. Sim, era o 2º LP da banda, With The Beatles!

UFA!

Agora que comecei com este grau de detalhe, ainda tenho muito trabalho nos próximos 14 capítulos descrevendo os álbuns...

With The Beatles? Sim, para Sempre!!!

                                                                                                                   Capítulo 37 

Esta é minha saga  

O Universo das Canções dos Beatles


Todos os Capítulos têm acesso neste LINK 

Após o grande sucesso do lançamento de Please Please Me, em março de 1963, que seguia firme no topo das paradas, os Beatles se embrenhavam em ritmo alucinante sendo convidados para shows em palcos cada vez mais importantes, e em todas as regiões da Inglaterra e em outros países do Reino Unido, quase todos os dias, plateias cada vez mais enlouquecidas, além de programas de rádio e TV, onde despejavam seu enorme carisma! Cantavam nesses shows também o sucesso From MeTo You que foi lançado em abril, em compacto com Thank You Girl, que também foi ao topo da parada.

Lá pelo meio do ano, a EMI viu o tamanho do fenômeno e mandou recado aos rapazes: Bora voltar pro estúdio pra gravar mais um LP! Isso iniciava uma rotina de lançamento de dois LP's por ano que somente seria interrompida em 1966. Alguém dirá que em 1968 também foi um LP só, mas eu retruco dizendo que era um Álbum Duplo, valia por Dois, isso é o que vale! A produtividade deles era imbatível! Não havia nada parecido com eles!

No começo de julho, gravaram nada menos que She Loves You, aquela do Yeah Yeah Yeah, destinada a ser mais um sucesso, em compacto com I'll Get You, que seria lançado em agosto. Elas não apareceriam no LP em curso. 

O transcorrer daquele ano seria consagrador, e culminaria no fenômeno da Beatlemania, sobre o qual falarei ao final deste capítulo.
 
Voltando ao LP, desta vez, não foi apenas uma sessão insana, aquela que gravou 10 canções (na verdade, 11) num só dia em fevereiro. Foram 7 sessões ao longo de 100 dias, quando gravaram 8 canções autorais, mais 6 covers de artistas americanos, repetindo os quantitativos do primeiro LP. 

Detalhes sobre essas canções mais abaixo...

  1. It Won´t Be Long (Lennon/McCartney)
  2. All I´ve Got to Do (Lennon/McCartney)
  3. All My Loving (Lennon/McCartney)
  4. Don´t Bother Me (Lennon/McCartney)
  5. Little Child (Lennon/McCartney)
  6. Till There Was You (Meredith Willson)
  7. Please Mr.Postman (Dobbins, Garrett, Gorman, Holland, Bateman)
  8. Roll Over Beethoven (Chuck Berry)
  9. Hold Me Tight (Lennon/McCartney)
  10. You Really Got a Hold on Me (Robinson)
  11. I Wanna Be Your Man (Lennon/McCartney)
  12. Devil in Her Heart (Drapkin)
  13. Not a Second Time (Lennon/McCartney)
  14. Money -That´s What I Want (Bradford/Gordy)
Começando novamente pelos covers,  todos faziam parte do set list dos shows que faziam em Liverpool e no Reino Unido naquela época. E vamos fazer a análise na ordem em que aparecem no LP. 

Till There Was You foi composta por Meredith Wilson para o musical da Broadway 'The Music Man' do final da década anterior. É uma canção sem bateria, nem guitarras base ou solo, apenas violões, e bongô, uma balada romântica que Paul fazia questão de cantar para mostrar a versatilidade do grupo. Ela fez parte do set list do teste na gravadora Decca e de shows importantes dos Beatles como, por exemplo, o que fizeram no programa de Ed Sullivan, quando conquistaram a América, onde ele fez questão de apresentar a canção como da trilha do citado musical, que foi sucesso por lá! Ah... esse Paul, sempre antenado! 

Please Mr. Postman era um sucesso mundial e ganhou uma versão espetacular dos Beatles. Era John, em vigoroso vocal principal, que implorava ao carteiro por uma carta de seu amor. Paul e George capricharam no contracanto perfeito e nos u-u-u-u's. Destaque para os magníficos handclaps (palmas), no início e no fim da gravação, tão singelas que resolvi colocar aqui este link para as pessoas se deliciarem numa apresentação ao vivo, em que dublaram a gravação de estúdio! Imperdível! Vale o destaque de que a canção, que foi lançada pelo grupo vocal feminino (mais um!) The Marvelletes, teve inúmeras versões cover, uma delas que ouvi muito, dos Carpenters, 10 anos depois.

Roll Over Beethoven era uma favorita de John, Paul e George, feita por Chuck Berry, guindado por John ao posto de Rei do Rock & Roll. Era um dos compactos que chegaram às docas de Liverpool antes do resto da Europa, e que os três tiraram em suas guitarras, desde 1956, e que eles tocavam sempre, e continuaram a tocar até as turnês de 1964 pelos EUA. Foi George quem deu vocal a esse hino, direcionado ao compositor clássico Beethoven (e Tchaikovski e outros), dizendo pra ele se revirar no túmulo porque o Rock chegou!

"I don't like you but I love you!" Assim começa uma favorita do álbum pra muita gente. Linda balada! John e George fazem um dueto no vocal principal, e Paul faz harmonia em backing. Ela foi gravada na primeira sessão de gravação do LP, em 18 de julho. É de George Martin o magnífico piano da introdução, que volta no meio e no final! You Really Got A Hold On Me foi tocada ao vivo em sessões da BBC, e depois aparece no filme Let It Be, das sessões do Projeto Get Back, de 1969.

Devil in Her Heart não foi grande sucesso, mas atingiu estrelato na voz dos Beatles, mais particularmente na de George, que ganha de novo duas aparições no vocal principal em um álbum Beatles, sendo que a outra foi sua primeira autoral. 

Money era minha preferida aos 7 anos de idade, quando ouvia o Beatles Again, que foi onde saiu por aqui. Versão muito melhor que a original, a voz de John está áspera, as respostas vocais de Paul e George, imbatíveis, só Beatles faziam daquele jeito, E sem se esquecer do perfeito piano de George Martin, cada vez mais ativo nas faixas dos Beatles!

Passemos, então às 'Lennon/McCartney' do álbum, colocando-as na mesma filosofia desta saga, com os assuntos e classes, e tudo o mais.

Percebam a tabela abaixo. 


Mais detalhes sobre a divisão entre Heart & Mind Song, aqui, neste LINK

Traduzindo
  • Todas as 8 falam ao Coração (nenhuma às Mentes)
  • São 5 canções no Assunto Garotas e 3 no Assunto Saudade
  • Das 5 Girl Songs, 3 são de Amor, duas de Paquera
  • As 3 Miss Songs relatam Tristeza, Desprezo e Retorno
With The Beatles é, portanto, um 

100% Heart, 62% Girl, 37% Love Album!

Na tabela abaixo, as evidências, nas letras, do porquê da classificação acima!




Vamos à análise das canções de autoria dos Beatles!!

A numeração da canção obedece à do LP


LADO A

1. It Won´t Be Long  (Return Miss Song by John Lennon)

John anseia: "Toda noite, lágrimas escorrem pelo meu rosto. Todo dia eu não tenho feito nada além de chorar! Não vai demorar, yeah Não vai demorar, yeah  Não vai demorar, yeah , para que eu seja seu"
Saudade no modo "Quero voltar pra ela". Essa quantidade toda de yeah's do refrão foi caso pensado de John. Ele estava animado com os yeah's  de She Loves You (yeah yeah yeah), e queriam produzir mais um sucesso N° 1 com a mesma fórmula. Aproveitou para fazer de novo um jogo de palavras como fizera em Please Please Me, o outro N°1 anterior, juntando na mesma frase uma expressão verbal ("be-long") e um verbo ("belong") com significados diferentes ("demorar"pertencer")! Duas fórmulas de sucesso combinadas não podia dar errado.... mas deu! Quer dizer, não deu porque não houve um compacto com a canção! Começava ali a política de lançarem canções inéditas sem colocá-las em LPs.  Paul contribuiu com letras internas e com arranjos harmônicos, além dos vocais no duelo de yeah's, George, com os backings do middle eight. Apesar de ser a canção de abertura do LP, nunca a tocaram ao vivo, apenas em dublagens em shows de TV.

2. All I´ve Got to Do (Love Girl Song by John Lennon)

John declara: "E quando e-e-e-u, eu quiser te beijar, tudo que tenho que fazer é sussurrar em seu ouvido as palavras que você quer ouvir e eu estarei te beijando!
Imaginem a seguinte cena. Era 11 de setembro, a terceira sessão de gravação do álbum, John chega ao estúdio da Abbey Road e diz parra Paul, George e Ringo: "Camaradas, tenho esta canção aqui, que vocês nunca ouviram, vai servir para encher o nosso álbum!" E, 15 takes depois, ela está pronta, sem necessidade de overdubs ou qualquer outro efeito. Assim foi essa canção, a qual os Beatles se dedicaram, pela primeira e ÚLTIMA vez! Nunca a tocaram em nenhum show, foi pouquíssimo tocada em rádios, se é que foi, nunca lhe deram a menor atenção! E mesmo sendo uma album filler, é uma ótima canção, que nós adoramos! Era John inspirado em Smokey Robinson na melodia, e com letra mais dedicada ao público americano, pois falava em chamar a garota ao telefone, coisa que não fazia parte da juventude, um recurso que ele viria a usar de novo em No Reply, um ano depois.

3. All My Loving  (Love Girl Song by Paul McCartney)

Paul promete: "E enquanto eu estiver fora, escreverei para casa todo dia e mandarei todo meu amor pra você. Todo meu amor, eu mandarei pra você. Todo meu amor, querida, eu serei verdadeiro"
Promessa de cartas diárias a seu amor, Jane Asher, enquanto estiver fora. Era maio de 1963, e ele estava começando um relacionamento com a atriz que conhecera um mês antes, nos camarins do show dos Beatles no Albert Hall! Foi a primeira vez que Paul escreveu primeiro a letra, depois encaixou a melodia. Ponto altíssimo do disco! Na gravação, é Paul quem faz todos os vocais principais, inclusive o do terceiro verso, dobrando sua segunda voz sobre a primeira. Nos shows, naturalmente seria John quem faria a segunda voz, mas não seria possível pois ele estava muitíssimo concentrado  em sua es-pe-ta-cu-lar guitarra base em triplets, aquele tara-rarara-rarara-rararara contínuo e sonoríssimo! Então, era George quem fazia esse papel, muito bem. Isso é que era uma banda. John faz um vocal de apoio, junto com George, mas apenas no refrão, em U-u-u-u-s!!!! George faz um solo de guitarra inesquecível, e Ringo sempre espanando sua bateria, como nínguém! Até deixo aqui este LINK, para poderem apreciar tudo o que foi mencionado! A canção foi tocada durante todo o ano de 1964, com grande sucesso, inclusive foi escolhida para abrir, e dar o tom da primeira aparição no Ed Sullivan Show, em 9 de fevereiro de 1964, a "Noite Que Mudou A América"! John sempre considerou esta canção como uma obra-prima de Paul!

  4. Don't Bother Me  (Sadness Miss Song by George Harrison)

George lamenta: " Desde que ela se foi, eu não quero ninguém pra conversar comigo. Não é a mesma coisa mas eu sou responsável, é fácil de ver. Então vá embora, me deixe sozinho, não me amole"
Primeira canção de George nos Beatles. E vem com uma canção de Saudade, no modo Tristeza, uma das poucas que escapavam àquele estilo 'happy-go-lucky', de garotos felizes e apaixonados. Ela foi feita durante uma turnê em Bournemouth, em que ele mais ficou na cama por estar doente, só saía de lá pra tocar, nos 6 shows.  São apenas os quatro Beatles tocando seus instrumentos usuais (e Ringo também no bongô e John no pandeiro), mas usaram pela primeira vez um equipamento eletrônico, que aparece na guitarra de John, dando um som de trêmulo. Por incrível que possa parecer, ela nunca mais foi tocada pelos Beatles, e nem por George em sua carreira solo, e nem por seus amigos no concerto de despedida, um ano depois de sua morte! Felizmente, ela acabou entrando para a posteridade pois aparece no filme A Hard Day's Night no ano seguinte ao seu lançamento, mas apenas como música incidental, é uma das que toca enquanto os Beatles dançam.

  5. Little Child  (Flirt Girl Song by John Lennon)

John propõe: "Se você quer alguém que te faça feliz, então nos divertiremos quando você for minha. Então vamos lá"
A canção era a chamada work song, mais um album filler, mais de John que de Paul, para Ringo cantar, mas ele não se sentiu bem cantando a letra "I'm so sad and lonely", ele gostava de entrar no clima da canção, e  ele não estava nem triste nem solitário. Foi John, então, que levou o vocal principal dessa canção de paquera simples e direta, até um pouco direta demais com algum apelo sexual. Instrumentos usuais mais um piano de Paul e uma gaita de John! Outra que também não viu a luz do sol de uma apresentação ao vivo!


LADO B

9. Hold Me Tight  (Love Girl Song by Paul McCartney)

Paul pede à garota: "Sinta agora, segure-me forte, diga-me que sou o  eu, e então eu poderia nunca estar sozinho. Então segure-me forte esta noite (esta noite), é você você, você, você, oo"
Olha, prestando atenção mais na letra dessa canção que eu ADORO, poderia muito bem tê-la classificado como Sex Song, "making love" e "alone tonight with you", humm, decerto era, e só não teve problemas com a censura porque não foi muito tocada nas rádios. Hold Me Tight era pra sair no primeiro LP! Ela foi gravada naquela sessão histórica em que gravaram e finalizaram 10 canções em um só dia, o já famoso 11 de fevereiro de 1963.  Pois é, foram 11! Entretanto, foi considerada mais fraca, e foi deixada de lado. Depois, na ânsia  de angariar canções para o novo álbum, lembraram-se dela, só que... não acharam o tape! Ou gravaram por cima! Então, começaram do zero! E foi um primor!! Muitas escolhas magníficas, (i) o começo "It feels so right now..." com o final da ponte, que reaparece mais duas vezes, lá do meio da canção, (ii) a guitarra de George, pulsante, brilhante, o tempo todo, (iii) o duelo pergunta-resposta "Hold (Hold) Me tight (Me tight) Tonight (Tonight)", as palmas o tempo TODO, e (iv) o final desacelerando. Um espetáculo! Era uma daquelas que eu ouvia e repetia e repetia, de meu LP Beatles Again, já mencionado! É uma canção sub-avaliada na minha opinião! Embora tocada nos tempos do Cavern Club, nunca mais foi tocada ao vivo após seu lançamento. Felizmente, alguma justiça lhe foi feita ao ser lembrada para a sequência inicial do filme Across The Universe.

11. I Wanna Be Your Man  (Flirt Girl Song by Paul McCartney)

Ringo se declara à garota: "Quero ser seu amor, garota, quero ser seu homem, amo você como ninguém, quero ser seu homem"
Com a recusa de Ringo em cantar Little Child, John e Paul tinham que arrumar outra para seu baterista, afinal era regra que ele deveria cantar ao menos uma em todo LP, dado seu número crescente de fãs! John teve a ideia do título, Paul fez o resto. E o resto não é muito! A letra TODA está ali em cima! São apenas 10 palavras, repetidas à exaustão!! Simples, simples, simples, e com amplitude vocal reduzida, para Ringo poder cantar tocando bateria, ao vivo! Mais interessante porém, na história dessa canção, é que numa certa tarde, tendo a canção ainda em começo de estruturação, John e Paul caminhavam em Londres (quando eles podiam!) e viram Mick Jaegger e Keith Richards num táxi e pegaram uma carona com eles, sabe, né, aqueles táxis negros, espaçosíssimos, em que se sentam 5 pessoas de frente umas pras outras, com espaço para uma mesinha entre eles, um táxi social, enfim. Conversa vai, conversa vem, Mick pergunta: "Got any songs?", Paul e John se entreolharam, com a mesma ideia, e responderam uníssono: "Yes!", seguiram com eles até o estúdio, finalizaram a canção que era pra Ringo, em 10 minutos, e depois os Rolling Stones a gravaram, constituindo-se em seu primeiro Hit nas paradas inglesas, atingindo o posto N°12. Ringo também gravou, claro, e cantou muitas vezes ao vivo!

 13. Not a Second Time (Disdain MisSong by John Lennon)

John despreza a ex-namorada: "Você está contando a mesma velha história e eu me pergunto para quê! Você me magoou e agora voltou. Não, não, não, não uma segunda vez"
Se há uma canção que parece mais solo que Beatles, essa é Not A Second Time. A música é apenas de John, abandonado pela namorada (Miss Song), mas nem aí para as tentativas de volta (Disdain Class), apenas John canta (inclusive as segundas vozes), quase não se ouve o baixo de Paul, suplantado pelo magnífico piano de George Martin, inclusive no solo, e a guitarra de George está bem escondida. Ringo aparece um pouco mais, principalmente porque a bateria não entra de imediato mas somente ao final do primeiro verso, sonora! A canção teve o mesmo destino de outras 5 autorais do LP (de um total de 8): nunca subiu ao palco. Apenas All My Loving e I Wanna Be Your Man tiveram esse privilégio. A estrutura de acordes da canção era complexa, com sétimas e nonas, além de apresentar heterodoxias na relação entre harmonia e melodia, a ponto de merecer um artigo de um crítico musical do The Times ,um certo Mr. William Mann, um mês após o lançamento, que elevou o trabalho dos 'meninos' a um patamar bem acima dos cabeludos-fazendo-música-barulhenta-enlouquecendo-fãs, que era o que a imprensa estava acostumada a exaltar. Tanto John como Paul referiam-se a esse autor em entrevistas posteriores,  mesmo admitindo que nem percebiam o que faziam. 
Eram apenas gênios, afinal!


Decerto que a última frase poderia encerrar o capítulo, mas ainda falta falar da capa do disco, como usual e da Beatlemania, como prometido!

A capa de With The B
eatles inaugurou uma parceria de sucesso, que duraria até 1965, com Robert Freeman, fotógrafo jornalista do Sunday Times. Com seu trabalho de fotografias de astros do jazz aprovado pelos 4 Beatles, ele foi chamado a Bournemouth, cidade onde faziam 6 shows em agosto (aquele mesmo período em que George Harrison estava doente, citado aqui em cima), e não precisou mais que uma hora para fazer uma foto que foi referência para várias outras bandas!! Beneficiou-se da conjunção de luzes de um corredor escuro com uma luz natural de uma janela, pela direita dos rapazes, e saiu aquela foto maravilhosa, com as faces esquerdas na escuridão. Antes, por causa da necessidade de se adequar a foto a uma capa de disco, posicionou Ringo mais abaixo, até porque, disse ele, era o mais baixo dos quatro mesmo, e havia sido o último a entrar na banda! Aliás, exatamente um ano antes! A ideia original era que a capa fosse apenas a foto, sem palavras ou nomes. A direção da EMI achou que eles não eram famosos o suficiente para tanto...  falta de fé... meses depois quem fez isso foram os Rolling Stones, em seu LP de estreia, e os Beatles perderam a primazia ... só essa! A EMI ficou também inconformada com as expressões sérias e teria vetado a ideia, não fosse a intervenção de George Martin, que bateu o pé!

O LP 'With The Beatles' foi lançado na Inglaterra em 22 de novembro de 1963, direto para o topo das parada, tirando de lá 'Please Please Me', o primeiro LP, e lá ficou por mais 21 semanas, fazendo dos Beatles a primeira banda a conquistar a façanha!

O ano transcorrera de forma maravilhosa para os Beatles, sua fama era crescente, exponencial, um fenômeno que foi denominado Beatlemania pelos jornais, após eventos inimagináveis de  histeria coletiva após um show no London Palladium em 13 de outubro, num frenesi incontrolável, que até ameaçou a integridade física dos rapazes.

E o ano não terminaria com o lançamento de 'With The Beatles'. Apenas seis dias depois, em 29 de novembro, viria ao mundo a canção que abriria as portas da America para os Beatles: I Want To Hold Your Hand, num compacto simples com This Boy na Lado B.

O mundo estava prestes a testemunhar um feito: uma banda de rock parando o aeroporto de New York. O ano de 1964 seria o ano auge da Beatlemania!

UFA! 
MENOS UM!