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terça-feira, 29 de junho de 2021

Paperback Writer, Não volto mais!

Esta é a 3ª canção da coletânea Past Masters #2, 15º Álbum Oficial dos Beatles

a história do álbum, assuntos e canções, aqui neste LINK

É uma de 9 canções com Contos 

                                        as demais 8 canções de mesmo Assunto e Classe, neste LINK

Atenção, canções com títulos em vermelho 

são links que levam a análises sobre elas.

3. Paperback Writer (Tale Story Song by Paul McCartney)

Paul conta: "Prezado senhor ou senhora, vocês podem ler o meu livro? Levei anos para escrevê-lo, vocês não vão dar uma olhada? É baseado num livro escrito por um homem de nome Lear. E como preciso de trabalho eu quero ser um escritor de romances"
 
Aaaahh, como Paul captou, há mais de 50 anos, o drama de milhares de escritores tentando achar seu lugar ao sol... Aaaahh como eu me identifico com esse drama... Quem me conhece sabe por quê. Bem, Paperback é como são designados em inglês aqueles livros de bolso, com letras bem pequenas e que ficam amarrotados ao final. Note que o romance escrito pelo cara que quer ser escritor é sobre um sujeito que trabalha em jornal, tem uma mulher que não o entende e tem um filho que quer ser escritor, está fechado o loop. No terceiro verso, tem mais um motivo pra minha identificação.

 It's a thousand pages, give or take a few. I'll be writing more in a week or two

I can make it longer if you like the style

I can change it 'round, but I want to be a paperback writer

Conheço uma escritora muito querida que adora escrever livros grandes, pena que ela não leva 'a week or two', talvez 'a year or two' seria mais apropriado. Ela mora aqui em casa. Aliás, eu posso até imaginar minha filha escrevendo a carta que Paul elaborou em seu esboço, afinal aquele "Dear Sir or Madam" que inicia a canção é típico de uma carta a um destinatário editor, que ele não sabe se é homem ou mulher.   
 
Alguns Paperback Writer facts: 
  • A canção foi a última da carreira Beatle a ser tocada em shows pagos. A qualificação é necessária porque houve aquele show lá na cobertura do edifício da Apple, em 30 de janeiro de 1969, que ninguém pagou. Nenhuma outra canção lançada posteriormente a Paperback Writer foi tocada para um público pagante; 
  • A canção foi promovida por filmes promocionais, que são considerados pioneiros do vídeo-clipe; 
  • A ideia veio de um artigo de jornal que Paul leu, na casa de John, que ajudou em partes da letra;
  • Coincidiu com a sugestão de uma tia dele (Aunt Lil) que o desafiou a escrever algo que não fosse uma canção de amor, então foi aí a origem do gatilho para Paul se tornar o maior Storyteller da banda, o que geraria outras 15 pérolas do cancioneiro Beatle;  
  • É considerada a melhor linha de baixo de Paul até então, aliás, nota-se que ele está bem ocupado com seus dedos, com floreios mil. Associa-se uma inovação na gravação de um engenheiro de som que atrelou um loudspeaker, pela primeira vez, ao amplificador dedicado ao baixo;
  • Note que, o verso todo é acompanhado por acorde único; 
  • Note o duelo vocal em contraponto, ressaltado por George Martin como a primeira vez que isso ocorria... sempre os Beatles pioneiros;
  • Foi lançada como Lado A de um compacto que tinha a maravilhosa Rain, de John, no Lado B. Foi Número 1 nos EUA, sendo apenas desbancada por Frank Sinatra com a linda Strangers in the Night;
  • Acho que chega de Paperback Writer facts? 
Não, uma canção dessas requer um pouco mais de detalhes!! Tudo até aqui foi o que escrevi enquanto listava as canções que contavam historinhas, 9 ao todo na carreira dos Beatles, sendo 7 de autoria de Paul, na primeira parte de minha Saga, quando eu nem sonhava em entrar em tantos detalhes como tenho feito em minhas análises. Por exemplo, se eu traduzi o Verso 1 no caput, descrevi o Verso 2 em seguida e transcrevi o Verso 3 logo depois, não tem por que deixar o Verso 4 enciumado, é ou não é? Recapitulando, no 1º ele se apresenta, no 2º ele dá a sinopse do livro, no 3º ele diz que pode escrever mais, e finalmente no 4º ele até cede os direitos do livro em troca de uma oportunidade, veja:  
If you really like it, you can have the right,
You can make a million for you overnight
If you must return it, you can send here
But I need a break, 
and I want to be a paperback writer. 

Apesar de a concepção da letra ser de Paul, a sessão de trabalho na casa de John começou sem a música, então dá-se a entender que John teve maior contribuição nesse quesito, além de uma que outra ajuda no primeiro. Isso combina com a ideia de John de fazer canções com um acorde só, e pouca variação. Ele havia feito Tomorrow Never Knows assim, e mesmo George havia oferecido nesse mesmo tema, Love You To, pois era uma coisa que acontecia na música indiana que inspirara-o em sua obra. 
 
A gravação ocorreu ao longo de duas sessões, em 13 e 14 de abril de 1966, tendo no 1º dia se acertado a base e alguns overdubs, e o 2º com os restantes necessários a transformá-la no sucesso que foi. A base tinha Paul na guitarra solo distorcida, John na guitarra rítmica, George no baixo e Ringo na bateria. Nos overdubs, Paul e George voltaram a seus instrumentos habituais, com o primeiro inovando em sua linha de baixo de maneira incrível, mas George não mexendo nos riffs de Paul tão característicos da canção. Ringo acrescentou um pandeiro, mas não precisou mudar nada de sua bateria, que estava perfeita. O mais notável acréscimo entretanto, foi o vocal. Claro, o vocal principal de Paul, firme como sempre, mas as harmonias espetaculares de John e George foram objeto de, não um, mas três overdubs, baseado no desejo original de Paul, mas exaustivamente ensaiados com o maestro George Martin, causando aquela coisa maravilhosa a capella que se ouve na introdução da canção, cheia de falsetes e categoria, e também entre os versos 2 e 3, e também na conclusão, além dos falsetes durante os versos cantados por Paul. Muito trabalho, mas que valeu muito a pena! Deixo aqui o vídeo promocional, em que eles dublam, nem sempre perfeitamente, neste LINK. 
 
A razão de eu acrescer um 'Não volto mais' ao título desta análise foi porque esse foi o título da versão que Renato Barros fez para a canção Beatle e gravou com seus Blue Caps. Aqui, o maior versionista dos Beatles no Brasil ligou de novo o seu Blue Cap Translator e produziu mais uma letra que não tem nada a ver com a original, inclusive é uma canção de amor, coisa que o autor Paul justamente evitou de fazer. Mas em seu valor, ouça no LINK. Renato em entrevistas admitiu que era impossível reproduzir vocais e desempenhos da gravação dos Beatles.

2 comentários:

  1. Os livros longos realmente são complicados gostei muito do que li, da escritura aí

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  2. Amo o vocal. Amo o som do baixo. Amo a música. O que mais lembro é de certa noite vindo do Recife de carro com o rádio ligado. Começa a tocar Paperback Writer. Meu pai, folclorista, sem dar muita bola para os Beatles ( mas até me presenteava com seus discos e cantava o princpio de Help fazendo gracinha) resolve perguntar quem estava cantando...porque estava achando bonito demais parecendo a Marujada. Olha, vindo de meu pai era um grande elogio. Ele amava a Marujada de Montes Claros. Ficou surpreso ao saber que eram os Beatles cantando. Em seguida o rádio virou o disco e tocou Rain. E meu pai saiu com algo assim, embora não me lembre com certeza das suas palavras. "Não me diga que são os Beatles. Mesmo que ouvir a Folia de Reis." Ao saber que eram os Beatles de novo disse:"Pois agora estou achando que preciso ouvir mais os Beatles."

    Muitos anos depois dois compositores daqui da Terra sonharam com um lugar meio Pasargada que se chamaria London Moc. E fizeram uma música com este nome onde fala na Marujada dançando em Abbey Road. Um deles, o Paulão Oliveira ( meu primo) queria um trecho de Paperback Writer no meio por também achar que a música lembrava a Marujada. Mas acabaram gravando a música sem o arranjo talvez para evitar problemas, não sei o motivo. O outro compositor, que é também o interprete se chama Tino Gomes. Tem no You tube.

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