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quinta-feira, 2 de março de 2017

O Casamento do Rio com o Mar

Uma nova colega minha declarou não conhecer o Corcovado ... 
mas como???
Passei a ela este texto, para ela conhecer um pouco mais ....


O Casamento do Rio com o Mar

Foto tirada em março de 2011


É que de vez em quando
Cristo fica com saudades do céu 
e traz as nuvens pra perto de si, 
e não vê por alguns momentos 
o maravilhoso cenário que eu descrevo aqui,
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Está no Aurélio,
rio (s.m.):    porção de água ... que deságua no mar.
.... e, em sua versão carioca, ....
mar (s.m.):   porção de água ... que deságua feliz no Rio.
O mar veio morar no Rio!
Na verdade, o Rio se casou com o mar. Foi amor à primeira vista, ou melhor, amor à primeira lambida, das verdes línguas do mar sobre as amarelas areias do Rio. O namoro foi rapidinho: papai-do-céu e mamãe-natureza deram logo a benção. E os noivos foram logo para o altar. Sol e montanha foram os padrinhos. Uma nuvenzinha trouxe as alianças. A marcha nupcial foi bossa nova. Convidadas, as estrelas compareceram, porém ficaram escondidas além do azul do céu. Os demais mares do mundo, se tinham algo contra, calaram-se para sempre. Um senhor de pedra foi o juiz de paz. O vento e o calor foram testemunhas. A festa dura até hoje.
Quem celebrou foi o Cristo!
Cristo: estátua de pedra cercada de beleza por todos os lados.
Os filhos vieram logo. O menino do Rio, calor que provoca arrepio; a garota do Rio, num doce balanço a caminho do mar; a gente do Rio, que não gosta de dias nublados nem de sinais fechados, mas gosta de quem gosta deste céu, deste mar.
Cristo acompanhava de longe a vida do casal que consagrou. Num belo dia, cansou-se da calmaria do céu, resolveu conferir mais de perto, e disse: “Pai, fui!” Veio morar aqui, no Rio. Desfalcou a Santíssima Trindade e veio conviver com a Belíssima Trindade: sol, mar e montanha. O corretor caprichou no imóvel: andar alto, varandão, sol da manhã, vistão, mar e verde. O Rio dispensou fiador e cobra pouco do inquilino ilustre: apenas doses diárias de bençãos.
Ao lá chegar, o novo morador escolheu bem a posição de seu repouso eterno! Dia e noite, alimenta-se da beleza ao seu redor. Começa o dia de frente para o sol nascente ofuscando-lhe os olhos. Desvia-os para a esquerda, vê a imensidão da zona norte, com pouco mar, mas muita vida. Vê o maior do mundo e lembra-se do som das grandes torcidas. Depois, o grande aeroporto, a receber viajantes ansiosos pela beleza carioca; sobre o mar da baía, a grande ponte, trazendo do lado de lá, os que vêm ganhar a vida do lado de cá. Pelo meio da manhã, observa, no centro da cidade, pujantes edifícios onde antes havia morros e verde. Entre os edifícios, a santa casa do Pai, no Rio, enorme cone de concreto e vitrais, obedecendo à imaginação do arquiteto. Depois, percebe aonde foi parar aquela terra toda dos antigos morros: em um breve momento de traição, o Rio invadiu o mar com um singelo aeroporto e uma espetacular via expressa, que embelezam a paisagem. Motivo justo, resultado perfeito, traição perdoada. Delicia-se com os planejados jardins, obra de um genial paisagista apaixonado. Além dos jardins, admira as praias da baía, gulosas mordidas do mar e suas ondas. Com o sol já a pino, encontra barcos, lanchas e iates atracados numa enseada de sonho. Ao fundo da enseada, interrompe a jornada para admirar, irrompendo do mar, duas gigantescas corcovas de pedra, a guardar a entrada da baía. Adiante, ora por alguns irmãos já em sua eterna morada, batizada com o nome de quem o batizou há quase 2000 anos. Após a prece, deleita-se com a beleza da princesinha do mar, larga, imponente! Mar, que em sua imensidão azul, segue banhando outras praias, mais estreitas, porém igualmente belas, que ele tenta ver, de soslaio, mas é um pouco atrapalhado por alguns edifícios. Do lado de cá dos edifícios, vislumbra, já no meio da tarde, a lagoa....
Pausa para exaltação!
lagoa (s.f.): braço de mar no coração apaixonado do Rio.
Em uma de suas viagens pelo mundo, como prova de seu amor pelo Rio, o mar deixou aqui um braço. O Rio chamou-o de lagoa. Escalou Vieira e Delfim para receber suas águas e designou Epitácio e Borges como seus protetores permanentes, que dela tomam conta, em um abraço eterno. Suas águas marinhas testemunham os filhos da terra caminhando, correndo, patinando, pedalando pelas vias que a abraçam, saciando a sede com doce líqüido sorvido de cocos verdes cortados por insanos golpes. Por vezes, a calmaria de suas salgadas águas marinhas é levemente incomodada por simpáticas cosquinhas, fruto de pedalinhos enamorados. Todos alimentam o espírito com o inebriante visual de montanha e céu. Todos param, no final do dia, para apreciar o sol se pondo para dormir, no aconchego dos dois irmãos, ou em outro ponto do sinuoso contorno das montanhas.
Fim da exaltação!
Vem o fim da tarde e o Cristo não vê, mas ouve, cantos de louvor entoados por fiéis, na capela a seus pés, no varandão. Chega a noite, com ela a luz que o ilumina.  Recomeça sua jornada visual, pela mesma zona sem mar, agora um mar de luzes. Verifica a hora pelo relógio da estação de trem. Do aeroporto e da ponte, vê as pistas iluminadas. Acompanha o trajeto do aterro, guiado pelos enormes postes de luz e pára, extasiado, nas grandes corcovas, agora um espetáculo luminoso por trás da enseada. Segue seu caminho, vê o topo do maior hotel da praia das calçadas famosas. O mar, agora, é uma imensidão negra, ao fundo. Lembra-se dos fogos de artifício que todo ano atraem milhões àquela praia, muitos deles para lançar oferendas à rainha das águas, deusa do mar, na esperança de um novo ano melhor. Ele perdoa o sincretismo, pois sabe que a fé tem espaço para muitas crenças. Termina seu caminho noturno com o mesmo êxtase diurno, a lagoa, agora, uma massa negra contornada pelo abraço iluminado de seus guarda-costas.
Findo o dia inteiro de contemplação, ele tem sempre a certeza de que a união que abençoou é perfeita. A convivência é pacífica, divórcio nem pensar, serão felizes para sempre, o Rio e o mar.

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UM TOUR 360 GRAUS PELA CIDADE MARAVILHOSA!!

36 comentários:

  1. Caro Homero,

    Como sou Carioca da Gema e apaixonado por esta Cidade Maravilhosa, principalmente pelo mar, só tenho elogios a fazer a quem escreve um texto demonstrando tanto entusiasmo por esta cidade que, apesar de seus governantes, políticos e de parte de sua população (há muitos anos, infelizmente), consegue se superar e sobreviver tão bela e simpática.

    Apenas uma ressalva: Num texto tão bonito sobre o Rio você (mesmo sem ser culpado por ser paulista) escrever que carioca não gosta de FARÓIS (???!!!) fechados... Talvez esta tenha sido a "justa causa" da não seleção do trabalho!

    Parabéns e abraços,

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  2. Prezado Homero,

    Parabéns. Conseguistes em duas folhas de papel o feito, quase impossível, de condensar uma "mirada" bastante detalhada das belezas de nossa cidade querida.

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  3. Parabéns pelo texto Homero, eu que me tornei carioca de coração me emocionei com o conto.

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  4. Homeroooo!!!!

    Eu AMMEEIIII!!! É lindo, é poético, é romântico é apaixonado...enfim...é a CARA DO RIO!!

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  5. Amigo Homero,

    Li, gostei e dou nota 10. Sem correções. Só quem é do Rio pode entender toda a beleza da cidade que você conseguiu retratar tão bem no texto.

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  6. Eu nao conhecia esse seu lado poeta. Muito bom, nao deve nada as belas e famosas cronicas cantando o Rio publicadas por poetas cariocas de nascimento ou de coracao como Cabral de Melo Neto e outros.

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  7. Homero, lindo texto! Você conseguiu, com palavras, passar imagens que são únicas! Essa nossa cidade realmente é encantadora!

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  8. Não conhecia esta ode maravilhosa, ao Rio de Janeiro, orquestradae letrada por um dos Paulistas mais cariocas. Se o juri, que desconheço a composição, senão o melhor premio, daria uma menção megahonrosa...
    Nós seus seguidores fanáticos ou não devemos nos rebelar!!!!!!!!
    Paulus

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  9. Homero, o romantismo do seu texto me emociona desde a primeira vez que o li, anos atrás. Eu, porção de rio (Iguaçu) que agora deságua feliz no 'mar do Rio', carioca de coração de me tornei, também contemplo feliz esse casamento abençoado!

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  10. Que texto meu irmão.Cronica, poesia, ode tudo junto, emoção,carinho,respeito e saudade, tudo misturado. Puro sangue Ventura meu mano.
    A arteria literária da familia, que começou com Grotão do Itapanhaú do pai, com o Sagasseia do filho mais velho e menos criativo, com a Arma Escarlate da Renatinha e com os teus textos blogueiros com essa qualidade e com esse coração.

    Você me emociona Merão

    "Mano véio"

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  11. Reeditando meu comentário de 02 de Março ... a verdadeira ode à cidade maravilhosa...orquestrada pelo Paulista mais carioca que existe, e merece, repito e friso bem a MEGAMENÇÃO HONROSA ... E uma comenda de "carioca honorário" e tudo que nosso presidente ganhou, ao longo de sua carreira presidencial... você merece em dobro.
    Paulus

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  12. Lindo, muito lindo este seu texto quase visual. Poético e emocionante. Parabéns! Como carioca agradeço este presente.

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  13. Lindo texto. Somente quem viveu 17 anos no Rio entende bem e se emociona também.

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  14. Lindo texto, Homerix.

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  15. Muito bom Homerix, você é um grande escritor.
    bjs,
    Terezinha Santos

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  16. Regina Célia Mansur13 de outubro de 2011 22:51

    Oi Homero, tudo bem?
    Muito bom o seu "recado", uma pena q hoje o dia tenha sido nublado, né? Minha irmã morava em Salvador e agora está de mudança para o Rio, então estou sempre informada do tempo.
    Vai morar no Recreio. logo mais.
    Parabéns mais uma vez, pelos seus contos, que não aumentam nenhum ponto. Tudo é verdade, pois o Rio é demais!!! abraços

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  17. Este comentário foi removido pelo autor.

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  18. Foi uma forma bem criativa e enigmática de falar do Cemitério São João Batista... Gostei!

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  19. Adorei, Homero!
    Sensível, poético. Um hino de amor ao Rio!
    Parabéns!

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  20. TUDO ÉPOCA DE UTI TENTANDO O TEMPO PASSAR....
    SNIF! SNIF!
    PARABÉNS "POETA" MANEIRO

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  21. Você "adotou" o Rio como sua cidade...

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  22. Sua narrração é poética, escrita com sentimentos profundos que passam pelas coronárias.
    bjs,
    Terezinha Santos

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  23. Lindo texto !!! Eu, sendo uma baiana, outra carioca adotada, assino embaixo dessa viagem pela "urbe estupenda".

    Definição de lagoa é perfeita, com seu formato em coração. E adorei o quarteto: Delfim, Vieira, Borges e Epitácio. Parecem até 4 velhos amigos bronzeados de cabelos brancos e que tomam chope na praia. risos

    Esse post foi republicado hoje dia 20/jan/12? Era maior? É que alguns comentários tem datas mais antigas e mencionam faróis, cemitério e não encontrei menção no texto.

    e uma correção:
    Hoje é dia do padroeiro do Rio, protetor dessa cidade tão maravilhosa - São Sebastião. O aniversário mesmo é no dia 1o de março.

    abs
    Anne

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  24. Estelito vicente dos Santos20 de janeiro de 2012 15:28

    Parabéns a você e ao Rio de Janeiro.CIDADE MARAVILHOSA CHEIA DE ENCANTOS MIL.Somos todos brasileiros adoramos nossas raízes parabéns.

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  25. Sensácional....eu que acabei de chegar desta CIDADE MARAVILHOSA,pude repassar cd cantinho citado em verso e prosa.....belíssima homenagem...PARABÉNS!!!!

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  26. SENSACIONAL,HOMERO!
    Você descreveu o Rio de Janeiro COM MUITA CRIATIVIDADE !
    AMEI...
    Sucesso sempre.
    Erica

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  27. Caro Homerix,

    Espetacular o seu texto, tanto que me provocou uma imensa vontade de acordar esta manhã no Rio. Mas fica para 1o de março...

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  28. Rio de Janeiro, el agua
    es tu bandera,
    agita tus colores,
    sopla y suena el el viento,
    ciudad,
    náyade negra,
    de claridad sin fin,
    de hirviente sombra,
    de piedra con espuma
    es tu tejido,
    el lúcido abalance
    el encendido ramo
    de tus ojos.
    ...Oh Belleza,
    oh, ciudadela
    de piel forforecente,
    granada,
    de carne azul, oh diosa,
    tatuada en sucesivas
    Olas de ágata negra,
    de tu desnuda estatua,
    de tu hamaca marina,
    el azul movimiento de tus pies arenosos,
    sale un aroma de jazmín mojado
    por el sudor, un ácido
    relente
    de cafetales y de fruterías
    y poco a poco bajo tu diadema,
    entre la duplicada maravilla
    de tus senos,
    entre cúpula y cúpula
    de tu naturaleza
    asoma el diente de la desventura,
    la cancerosa cola
    de la miseria humana,
    en los cerros leprosos,
    el racimo inclemente
    de las vidas...

    Pablo Neruda

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  29. O maior sacrificio para quem nasceu e/ou viveu a maior parte da vida nesta cidade e ficar longe do mar. Estamos, a familia toda, fora ha 5 anos e da ultima vez que estive no Rio, do quarto do hotel dava para ver uma nesguinha de mar ali no Arpoador. Era como se fosse um palco de adoracao. As vezes, ficavamos eu e minha mulher sentados no quarto do hotel so olhando/admirando a nesguinha de mar. Do restaurante do hotel tinhamos uma vista melhor da praia de copacabana, o que tambem fazia com que o cafe da manha fosse mais longo do que o normal. Olhar a praia, o mar as montanhas, era extasiante, quase que 'dando um barato'.
    Fico feliz por este reconhecimento da natureza da minha cidade, mas o que estamos fazendo com ela e por ela? as favelas cada vez se espalhando e se estabelecendo mais e mais, a sujeira nas ruas que nem uma Super COMLURB pode dar conta, o transito de carros que deveriamos chamar de outra coisa porque por mais das vezes ficamos eh parado e nao em transito.
    Abs
    Carlos Moreira

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  30. Homero, o teu texto é simplesmente sensacional. O Rio merece e agradece.

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  31. Esqueci de assinar. Armando.

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  32. Homerix... carioca que sou!!! o que é um estado de espírito.Exalta-me e orgulho-me de ver nas suas palavras , o que, seguramente não saberia dizer!!!

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  33. Salmo 19: 1-4 diz assim: Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras até os confins do mundo bjkas Flavia Leal

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  34. Ao desaguar no mar, o Rio absorve o sal necessário à relação.

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  35. Bela poesia em prosa, amigo Homerix. Por falar em prosa, soube estes dias que a J.K. Rowling (que criou o Harry Potter à imagem do Hugo Escarlate...) escreveu o primeiro livro da saga na cidade do Porto, onde morava. Pois, pois, aqui na "terrinha"...

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