-

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Nowhere Man, uma chave virada!

 Esta é a 4ª canção do Lado A do álbum Rubber Soul, 

a história do álbum, cenário, assuntos e canções, aqui neste LINK

É uma de 4 canções com Histórias Solitárias, dos Beatles, 

as demais 3 canções do mesmo Assunto e Classe, aqui, neste LINK


4. Nowhere Man  (Alone Story Song by John Lennon)       

John conta: 'Ele é realmente o homem de nenhures, sentado em sua terra de nenhures,  fazendo todos os seus planos de nenhures para ninguém. Não tem um ponto de vista, não sabe aonde vai, ele não é um pouco como eu e você?' (desculpem a estranha palavra, mas é a melhor expressão para “nowhere”, assim como ninguém é a tradução de “nobody”)
Se alguém tivesse alguma dúvida se esta era uma canção sobre solidão, bastaria esta tradução da primeira frase para assim concluir. E a coisa continua, pois essa pessoa não tem qualquer opinião, não sabe para onde vai, e aí vem a questão que leva para o estado da mente de John, seu criador: 
 
         'Isn't he a bit like you or me?'

Em verdade, o 'nowhere man' é John, sentindo-se só. Ele já pedira socorro, no mesmo ano, em HELP!, e já vinha se achando um perdedor, desde 1964  (I'm A Loser, de "Beales For Sale", se bem que, nesta, era mais uma desilusão amorosa). Aqui, ele confirma essa tendência de autocomiseração, mesmo com seu alter ego retrucando. 'Ô cara, me ouve, você não sabe o que está perdendo, o mundo está a seus pés!', tentando trazer ele mesmo de volta ao chão, afinal, ele e seus companheiros estão no topo do mundo, alguém tinha dúvida disso? John disse em entrevista que era uma canção sobre ele mesmo, feita após uma noite insone com a preocupação de produzir algo de valor, o que ele só conseguiu com a luz do sol. E, cá entre nós, que imenso valor, hein?!! Que música linda!! Era a primeira canção Beatle que não fazia qualquer referência a relacionamentos. Mesmo em HELP! e a A Hard Day’s Night, outras Self Songs de John, havia alguém, um ‘you’ do outro sexo, “I need YOU like I’ve never done before” e “…feeling YOU holding me tight, tight, yeah”, respectivamente. Era tipo uma página virada, uma semente do que John viria a se tornar, um analista da mente, um mensageiro para o mundo, a partir dali, ele teria um ‘ponto de vista’, como ele acusava o ‘nowhere man’ de não ter, ele encorajava seu outro eu e, por que não, todas as outras pessoas, a saírem de uma vida sem objetivo!

Paul confirmou ser canção de John, tipo 99%, e se ele fez alguma coisa foi na finalização do primeiro verso, em:
John – “Making all his nowhere plans...” 
 Paul– “...for nobody         
A gravação tomou dois dias, sendo todo o esforço do primeiro jogado fora e, no segundo, foram nove horas ininterruptas de dedicação, esqueça-se do tempo em que, nesse mesmo período, eles gravavam 10 canções (Please Please Me). A base (lembre-se do novo estilo de gravação) tinha John ao violão, Paul no baixo e Ringo na bateria, então além de ser ‘voiceless’ era também ‘Georgeless’. Nosso guitarrista solo acrescenta sua guitarra em overdubs posteriores e, na sessão solo, que não era ‘solo’, ele vinha juntamente com John, os dois em uníssono, e em guitarras idênticas, inclusive na cor.

O ponto alto, eu diria melhor, ponto altíssimo, da canção é o vocal! A canção abre numa harmonia vocal tripla, John-Paul-George cada um numa voz, a capella, sem qualquer instrumento, que entra apenas na última frase do primeiro verso. Se tiverem um ouvido apurado, perceberão uma pequeníssima mudança no tom quando a banda entra. É compreensível, afinal, imaginem, um olha pro outro, e alguém, provavelmente John, faz aquele movimento silencioso com a cabeça (1-2-3-vai!), e os três entram, cada um em sua voz: “He's a real nowhere man, sitting in his nowhere land”. A harmonia tripla segue no verso seguinte, e também no terceiro, após a ponte, ambos com letras diferentes do primeiro (lembre-se da política de não repetição), e aí vem a primeira ponte. Aqui, John faz a melodia (“Nowhere man, please listen, you don't know what you're missing”) em voz dobrada, e Paul e George o acompanham com no “Uh-la-la-la” delicioso. Depois, segue mais um verso (claro, de volta a harmonia tripla) repetindo o segundo, e mais uma ponte, com letra diferente da primeira (ai, quanta qualidade!), e a canção fecha com o quinto verso, concluindo com o mesmo anúncio do primeiro verso, e com direito a uma finalização repetida, duas vezes) da última frase, aquela do 1% de Paul que, inclusive, vai num agudo brilhante, na derradeira declamação. Lindo de-mais!

Desta vez, e surpreendentemente, eles decidiram cantá-la nas três  turnês seguintes ao lançamento (UK, World, US), e que seriam as últimas da carreira. Decerto, performances, que certamente eram as melhores possíveis, dadas as condições, que devem ter contribuído para a decisão de pararem com aquilo tudo. Eles não se ouviam, com a tremenda histeria que as fãs provocavam, como é que poderiam desempenhar da forma que eles queriam? Vejam neste LINK, uma apresentação ao vivo da canção, notem a contagem de John, Ringo em seu tablado acima, George e Paul dividindo o microfone, e notem que é uma versão reduzida: eles não cantam o terceiro verso, nem a segunda ponte. 

A canção também fez parte, três anos depois de seu lançamento, do filme Yellow Submarine, com direito a um personagem da animação inspirada na letra! Recomendo a cena, sen-sa-cio-nal, aqui, neste LINK.

 


 

3 comentários:

  1. Iluminado sempre. Qualquer poema do John te invoca pra reflexão. Foi um enviado e acredito nisso

    ResponderExcluir
  2. Quando ouvi Nowhere man, duas coisas chamaram minha atenção:
    - a entrada com vocal à capela. Os Beatles sempre harmonizaram muito bem. Mesmo George cumpre seu papel, como se vê na apresentação ao vivo. A volta do "Ulalalala" do disco anterior, com o destaque para o "Ulalalalala..." que prepara a entrada do solo.
    - o solo! Praticamente arpejado nos acordes da música, me encantou pelo super agudo. Agora sei, pelo livro do Geoff Emerick, que os Beatles queriam explodir os limites do agudo da guitarra, contrariando os padrões ortodoxos da gravadora. A mesma ousadia que estavam fazendo com o som do baixo do Paul, que chegaria aos píncaros (😲) no disco seguinte.
    O solo do Nowhere man tem sonoridade inédita e agressivva e termina - paradoxalmente - com a delicadíssima nota que se tem encostando levemente o minguinho na 7ª corda Mi, 12ª casa, e palhetando para se obter o *plim* de um sininnho.
    E tudo isso sem contar a letra intrigante que você muito bem analisa: John manda às favas os clichês: "a partir de agora eu falo do que eu quiser e como eu quiser falar!"

    ResponderExcluir
  3. Obrigado. Um delicioso e excelente presente de natal. gratidão e força sempre.

    ResponderExcluir