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domingo, 6 de setembro de 2015

De Pernas Bambas

Hoje, aniversário de Roger Waters. 72 anos, relembro o momento do primeiro show que vi dele no Brasil.
Conto pra vocês aqui, como foi essa emoção, que me deixou de pernas bambas...

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Data:               23 de março de 2007
Local:              Praça da Apoteose (foi o que lá aconteceu!)
Motivo:            Show de Rock (é pouco para defini-lo)
Título:             The Dark Side Of The Moon
Artista:            Roger Waters
Amigos, eu disse que ia e fui! Fui e me emocionei! Fiquei emocionado e satisfeito, por ter proporcionado a meus filhos um momento mágico! Valeu cada dollar & cent, pound, shilling and pence!!! Foi um excelente retorno à minha presença em meio a multidões, seriamente ameaçada de extinção pelos acontecimentos nefastos ocorridos no (would be) show dos Rolling Stones, em Copacabana. É bem verdade que o principal critério para o meu retorno estava obedecido: o ingresso era bem carinho! De ‘grátis’, nunca mais!
Abrimos o programa com chave de ouro: pegamos um táxi dirigido por um motorista incomum. Ele ouvia U2 em seu CD. Com o andamento da corrida, o meu filho notou que não se tratava de uma compilação (Arrrgh!), e sim de um dos discos de carreira da banda irlandesa, Achtung Baby. Fui conversando com meus filhos e uma bela hora disse a eles: “Já estou até me arrepiando, só de imaginar os acordes iniciais do show!” Eles duvidaram que eu soubesse. Então, eu cantarolei ....
Tchaaaaaaan -- Tchaaaaaaan -- Tchaaan Tchaaaan Tchaaaan Tchaaaaaaan –-
Tchaaaan  Tchaaaan Tchaaaaaaan -- 
                        ... e, imediatamente, o motorista falou: “In The Flesh”, acertando em cheio e, na carne,  o título da música cujos acordes eu entoara. Ante o nosso espanto, ele disse: “Vou fazer mais umas duas ou três corridas e me colocar ao lado da Praça, para poder acompanhar o show!!!”.
                        Foi ou não foi um começo auspicioso? Pra entrar no clima!
                        Depois de ter a emoção de caminhar por toda a Marquês de Sapucaí, única forma de alcançar a praça, lá chegamos, mais ou menos 90 minutos antes do show, e conseguimos nos colocar a uns 20 metros do palco. Deu pra sentir o que estava por vir quando notamos 4 Carvalhões (aqueles guindastes enormes), dois a dois postados por trás das arquibancadas leste e oeste, onde estavam pendurados 4 gigantescos ‘alto’-falantes. Sim, ‘alto’, e não ‘auto’, pois seguramente dali sairia um som extremamente alto. Estava garantido o som surround, marca registrada de Roger. A música de aquecimento era boa, Tom Petty, Bob Dylan e Chuck Berry, de forma que o tempo passou rápido. No telão, uma imagem em altíssima definição mostrava um rádio, na frente dele um copo e uma garrafa de Red Label a meio-pau, em cima dele uma miniatura de um avião da época da segunda guerra e um soldadinho. Dez minutos antes de começar o show, aparece no telão uma fumacinha de cigarro, (a platéia se ouriça!) logo depois uma mão gira o dial (a platéia vibra!) e muda de estação (nesse momento, o som já é o ofical, do show). No meio da canção, a mão chega de novo, serve uma dose de whiskey e procura outra estação e encontra uma canção do Abba, muda rapidamente, encontra outra do Abba, mais uma vez sai de lá para um terceira, e só depois desta, encontra uma em que o dial descansa. Muito engraçado!!!!
Chega a hora, 9:30 em ponto, aparece a banda, depois Roger (a platéia urra!), e, então, os primeiros acordes:
Tchaaaaaaan -- Tchaaaaaaan -- Tchaaan Tchaaaan Tchaaaan Tchaaaaaaan –-
Tchaaaan  Tchaaaan Tchaaaaaaan –
.... batata! Tinha que ser: além dos acordes arrebatadores, perfeitos para uma abertura, a letra dá boas-vindas a quem está no show: “So you thought you might like to go to the show.
A canção é do álbum duplo The Wall79, obra-prima (mais uma) da carreira do Pink Floyd, também idealizada por Roger, onde ele expressa seu inconformismo pela perda de seu pai na segunda guerra, e destila sua ironia em “Mother”, um diálogo com a mãe viúva, que ele felizmente reproduz no show: quando ele pergunta “Mother, should I run for President?”, a platéia responde “Yeah”; depois, “Mother, should I trust the government?”, e a platéia, em uníssono, “No”. Chega, então, a primeira vez que temos a oportunidade de ouvir a voz que nos assombraria uma hora (or so) depois, de uma das cantoras negras do trio vocal de apoio, interpretando a mãe do perturbado menino Roger, ainda na mesma canção.
Depois, uma única concessão ao tempo pre-Dark Side, com “Set The Controls To The Heart of The Sun” de A Saucerful Of Secrets68. Preferia que ele arriscasse mais e tentasse reproduzir no palco a mais abstrata e concreta canção da época,  “Several Species of Small Furry Animals Gathered Together in a Cave and Grooving with a Pict” (Gostaram do título? Precisam ouvir a música!) do álbum duplo Ummagumma69, mas seria pedir demais.
Segue o show e chega a hora de homenagear o amigo Syd Barret, outro fundador do Pink Floyd, morto em 2006, após quase 40 anos escondido num porão, mergulhado em perenes alucinações, fruto indelével das pesadas drogas que tomara em sua juventude, terminando precocemente sua carreira: do álbum Wish You Were Here75, Roger canta a canção título, que a platéia acompanha inteirinha, quase às lágrimas (pelo menos, eu estava!), e “Shine On You Crazy Diamond”, também acompanhada com emoção.
A platéia permite, respeitosa, que Roger entoe duas canções não lá muito famosas, do álbum The Final Cut83, a própria canção-título e “The Fletcher Memorial Home”, que foram acompanhadas apenas pelos mais fanáticos (que eram muitos!). Digo isso, pois o álbum, que foi o último da carreira do Pink Floyd ainda com Roger Waters no grupo, era meio chatinho, e poderia mesmo ser considerado como o primeiro álbum de sua carreira solo, também chatinha (com exceção do álbum mencionado a seguir), já que não há contribuições autorais dos demais membros David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason, que lá estão como meros (e excelentes) instrumentistas. Aliás, o título do álbum foi mais que premonitório.
Da carreira solo, Roger canta, então, a magnífica “Perfect Sense”, do álbum Amused to Death92. Em sua Parte 1, a canção é interpretada por aquela mesma cantora que, apesar de continuar vocalmente perfeita, certamente não poderia estar com um sorriso no rosto ao entoar versos como: “And the Germans killed the Jews, and the Jews killed the Arabs, and the Arabs killed the hostages, and that is the news!”, ou então, o supremo, contumaz e agonizante grito de desespero “Why do I have to keep reading these technical manuals?”. Um claro ponto para melhoria. Na Parte 2, Roger volta com sua voz rouca para entoar, como eu disse uma vez, o ápice de uma letra de Rock em todos os tempos, “Can't you see? It all makes perfect sense, expressed in dollars and cents, pounds, shillings and pence! Can't you see? It all makes perfect sense”. No telão, as imagens de um estádio onde se travará uma desigual batalha entre um submarino nuclear (mencionado na Parte 1) e uma plataforma de petróleo. Toda a potência é despejada nos auto-falantes com um coral gravado entoando o refrão (junto com a platéia, claro!) e, no momento em que os mísseis atingem a indefesa plataforma, clímax magnífico, booom, explosões no palco e ...... fim! Tudo se apaga! A sobre-carga foi demais! Uma interrupção não programada de 15 minutos! Pensei “... tinha que acontecer no Brasil?!” Enquanto a produção se debatia para sanar o problema, Roger, muito simpático, veio ao palco e autografou inúmeras camisas que o público jogava.
Felizmente, tudo se resolveu, Roger voltou, pediu desculpas, fez uma piadinha, jogando a culpa pelo estrago na platéia, que cantara alto demais, e anunciou uma canção nova, “Living in Beirut”. Sabiamente, ele coloca no telão, uma história em quadrinhos e a letra da inédita obra, que de outra forma, não poderia ser admirada, basicamente falando mal de Bush e de Blair (não confundir com ‘A Bruxa de Blair’!). O guitarrista solo nessa hora (uma figurinha carimbada de vários shows de rock) usava um chapéu de cow-boy texano e tirava sons muito diferentes de sua guitarra, que empunhava tal como se fosse uma metralhadora atirando. Bom momento!
A primeira parte do show termina com a movimentada “Sheep” do álbum Animals77, que só tinha animais como títulos de canção, entre eles, o porco. Na época do álbum, para tirar a foto da capa, eles criaram um imenso porco inflável, que aparecia ‘voando’ em frente a uma estação elétrica. Aliás, conta-se que, na ocasião, o artefato acabou se enroscando numa rede de alta tensão, provocando um black-out generalizado em Londres. Bem, para gáudio do público, que se deliciava com a magnífica interpretação de Roger (a canção é bem gritada!), eis que surge, do lado direito do palco, ele póprio, o porco voador, com frases politicamente (in)corretas (“Ordem e Progresso Não, All We Need is Education!”) pintadas em seu corpo cor-de-rosa. Seguro por cabos, ele vai passeando por sobre a platéia e quando a canção acaba, e Roger anuncia o intervalo, ele se desprende e começa a subir, subir, subir, para festa da platéia e desespero dos inúmeros aviões que, propositalmente ou não, passavam por sobre a Sapucaí (foram uns 4 ou 5). Magnífico momento!
O intervalo, ao contrário dos normais, em que nada se faz, teve a atração de ver o porco sumindo, sumindo, sumindo, ao mesmo tempo que, no telão, uma lua ia chegando, chegando, chegando, anunciando a segunda parte do show, que, como prometido, teria a execução, na íntegra, sem mudar uma única vírgula, de The Dark Side Of The Moon73, o disco de maior sucesso de todos os tempos, que permaneceu na parada americana por ininterruptos 14 anos. O Pink Floyd de David Gilmour já havia feito o mesmo no show Pulse93. E assim se fez novamente, desta vez, igualzinho ao original, digo, 99,9% igual. Seguem alguns momentos memoráveis:
·         Time”: Introdução com tic-tac do relógio tocado no baixo de Roger; o esforço do percussionista para reproduzir a bateria elétrica exatamente como no original, prejudicado no final porque ele mesmo era o baterista e tinha que trocar de instrumento no instante mágico em que bate TumTumTum e entra a letra : “Ticking away the moments that make up a dull day...” cantada, literalmente, por todos os presentes, um arrepio só!
·         On the Run”: Instrumental perfeitamente reproduzido, com o bônus de uma su-woofer gigantesca que faz o chão vibrar, quase tremer. Senti-me no Japão!
·         Money” e “Us And Them”, clássicos eternos, com desempenhos de guitarra e saxofone de estrebuchar de tão similares aos originais!
·         A Great Gig On The Sky”: Aqui foi o grande desempenho da cantora negra. O que ela faz, tecnicamente, chama-se ‘vocal improvisation’, na verdade, aqui pode ser chamada o de ‘vocal copiation’, posto que o que se ouviu foi i-d-ê-n-t-i-c-o ao da cantora original, 34 anos atrás. E não vai aqui nenhuma ironia no comentário, pois isto é exatamente o que os fãs querem: cópia perfeita! E acho mesmo que ela cantou até melhor, com mais potência! Aliás, falando em potência, enxergo, ou melhor, ouço esta canção de uma forma que nunca vi descrita em lugar nenhum: trata-se da vocalização da reação feminina de vários momentos de uma relação sexual, começando nos preparativos, depois, a aceleração (acompanhada por um ‘crescendo’ vocal), chegando ao clímax (onde os gritos da cantora são mais lancinantes) e depois a calmaria, o cigarro (pra quem fuma), o ‘foi bom pra você?’, quando os decibéis voltam ao normal, o ritmo fica mais lento, enfim, ouçam agora esta canção com esses ouvidos imaginosos e me digam se tenho um pouco de razão, ou viajei na mayonnaise!
·         Brain Damage” e “Eclipse”, as duas últimas canções do álbum têm a companhia da evolução de um artefato que estava lá em cima, no meio do palco, cuja presença não havíamos notado até o momento em que foi acionado. Só aí apareceu sua verdadeira forma, o famoso prisma  da capa do disco! As quatro arestas do prisma eram formadas por quatro raios laser que se materializavam sobre o gelo seco lançado sobre a parafernália. Depois, um quinto raio simulava a formação das 7 cores do arco-íris, um efeito bem parecido com o da capa. Legal!
Ih! Acho que acabei considerando memoráveis quase todas as canções do disco! Tudo bem, realmente merece.
Bem, depois vem o final falso, quando eles fazem aquela onda toda, dizem que vão embora, agradecem ao público, depois a gente grita, pede para eles voltarem e eles voltam e tocam mais 2 ou 3 canções. Dito e feito. O show termina com 3, ou melhor, 5 canções de The Wall79:
·         The Happiest Days of Our Lives”/ “ Another Brick In The Wall – Part 1&2”: Ele traz ao palco um coral de 15 crianças para cantar o antológico “We don’t need no education  ... Hey teacher, leave them kids alone”. Na verdade, elas fingem que cantam, pois o que sai da caixa é exatamente aquele sotaque inglês do disco! Ao menos, eles fazem uma coreografia, acompanhando com palmas;
·         Vera”/“Bring The Boys Back Home”: Esta última, muito apropriada para o momento de guerra, foi acompanhada no telão por imagens de Bush, imediatamente recebidas por sinais nada educados com o dedo médio em riste, da platéia;
·         Comfortably Numb”, sem palavras.
Cai o Pano! Sem segundo bis, saímos com a alma lavada e as pernas bambas, misto de cansaço e emoção.


Um comentário:

  1. Homoero, na mesma epoca deste inesuqecivel trabalho , tivemos o musico Rick Wakeman, Led Zepellin, Deep Purple, Genesis, Yes e incontaveis exemplos de bandas, misicos exelentes. Pimk Flyd areebentou co esse albumm. Inesuqecivel. Não serah repetido jamis outro igual. E que fez enlouquecer o guitrista David Gilmore no solo de Money... GBellas

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