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sábado, 16 de janeiro de 2021

Eleanor Rigby - Panteão da Solidão

 Esta canção é a 2ª do Lado A do álbum Revolver 

a história do álbum, cenário, assuntos e canções, aqui neste LINK

É uma de 5 canções que contam Histórias sobre Solidão

as demais 4 canções do mesmo Assunto e Classe, aqui, neste LINK


2. Eleanor Rigby   Alone Story Song by Paul McCartney)

Paul conta "Eleanor Rigby morreu na igreja e foi enterrada, só, ela e seu nome. Padre McKenzie batendo a poeira das mãos enquanto deixa a tumba. Todos os solitários, de onde vem, aonde eles pertencem!"  

Escolhi este trecho, dos versos 5 e 6, porque conclui a história dos dois personagens, juntos na canção, mas solitários em seus corações, apresentados anteriormente, em um par de versos cada um. Entre a apresentação e a conclusão, vem o brado, na ponte:
'Aaah, look at all the lonely people!' 
Lindimais!!! Paul sempre foi um bom menino e diz que perambulava pelas ruas de Liverpool abordando as pessoas solitárias e ouvindo o que elas tinham a dizer, sobre suas vidas, sobre suas experiências de guerra, enfim, achava que fazia uma boa ação e gostava disso. Eleanor Rigby é a transfiguração de seus bons atos em uma canção, alertando o mundo para que não se esqueçam das pessoas solitárias. Ademais, é a primeira canção de Paul em que ele fala sobre outras pessoas, que não ele e seu par romântico.
Há rumores de que os dois personagens existiram de verdade, talvez um registro num hospital do nome dela, ou uma tumba de um certo Padre McKenzie, e até mesmo de uma Eleanor Rigby, mas Paul sempre disse que os nomes haviam saído de sua mente, absolutamente fictícios, tanto que, originalmente, o Father era McCartney, mas ele desistiu porque poderiam pensar que se referia a seu pai, que era um sujeito feliz, não combinava, então pegou a lista telefônica (lembram?), foi à página do Mc e escolheu McKenzie, simples assim! Eleanor seria um nome que ele gostou desde que conheceu uma atriz homônima, no filme HELP!, aliás, com quem havia tido um caso (ah, pobre Jane Asher), e Rigby seria o nome de uma loja que existia em frente a um teatro onde Jane atuava. Os dois juntos combinavam na métrica, pronto, decidido! Tenha existido ou não uma Miss ou Mrs. Rigby, a coisa pode ter chegado de maneira subliminar a Paul, e tal, o único fato é que hoje existe uma estátua de Eleanor Rigby em Liverpool, muuuito visitada (quer dizer, era, no tempo em que havia turismo no planeta). O interessante é que pode ter sido uma das poucas canções em que houve participação dos quatro Beatles em sua composição. Após a ideia original de Paul e algumas sugestões de John, todos estiveram num jantar na casa deste último e se reuniram para trocar ideias sobre a canção, quando George (Harrison) teria sugerido o brado da ponte em destaque ali em cima, e Ringo, a frase sobre as meias e o sermão do padre. E estava presente também um amigo de John, que teria dado uns palpites. Eu uso sempre o futuro do pretérito nessas descrições, porque tudo são, rumores, hipóteses, com várias versões, enfim ... O fato é que a letra é pungente e brilhante. 
Após usar a ponte da canção como introdução sobre pessoas solitárias, um 1° verso apresenta Eleanor Rigby, solitária, e termina com uma conclusão de quatro sílabas poéticas "lives in a dream", que rima ricamente com "been", e um 2° verso complementa sua solidão, sempre olhando pela janela, maquiada, e conclui com mais quatro sílabas "who is it for", rimando ricamente com "door". A estrutura Declaração + Conclusão com quatro sílabas + Rima rica se repete mais quatro vezes até o final! Veja o 3° verso, que apresenta Father Mckenzie, escrevendo um sermão que ninguém vai ouvir, e concluindo "no one comes near", rimando ricamente com "hear", e o 4° verso complementa sua solidão, cozendo meias de noite, e concluindo com "what does he care?", que rima ricamente com "there". Depois, vem o refrão com questões no estilo Globo Repórter: "Todos os solitários, de onde vêm, aonde pertencem?". Não perca a conta, caminhando para o final: um 5° verso conta o destino de Eleanor, morta, ela e seu nome, e conclui “nobody came!”, que rima ricamente com “name”, e um 6° verso, final, para Father Mckenzie, limpando suas mãos após encomendar a alma da pobre mulher, concluindo com “no one was saved!”, que rima ricamente com “grave”. Quer poesia mais genial que essa? E ainda embalado por um arranjo de cordas im-pe-cá-vel!

Desde sempre, ficara claro que um arranjo de cordas seria o acompanhamento único da canção, os outros Beatles nem chegaram a gravar uma base, como aconteceu com Yesterday, no ano anterior. George Martin compôs o arranjo de cordas, em ritmo staccato (ao invés do legato, usado no arranjo daquela canção), para dois quartetos de corda, portanto, quatro violinos, duas violas e dois violoncelos. Os instrumentistas ficaram tensos, porque Geoff Emmerick, o jovem produtor que assumira a cadeira, encasquetou com a ideia de posicionar microfones bem próximos aos instrumentos, eles não gostaram nada disso, estavam acostumados aos microfones elevados, captando o som ambiente, e a cada take eles se afastavam dos microfones, até que George Martin desceu da salinha e acabou com a brincadeira. É difícil implementar mudanças!! Resistências eclodem! 
E vamos ao arranjo! O movimento staccato está presente do começo ao fim, é aquele em que os arcos encostam breve, mas firme e repetidamente nas cordas (no legato, o arco passeia suavemente em notas contínuas pelas cordas). A canção abre com a ponte,  de dois violinos, as duas violas e os dois violoncelos em staccato, enquanto os outros dois violinos em legato em nota única ao longo do canto, e ao final de cada frase, aqueles violinos entram em movimento de serra, atacando-as na metade do tempo. Essa ponte se repete ao final do verso 4.  Note o clima como cresce em cada verso: no verso 1, apenas todos em staccato normal; no verso 2, os violinos serram as cordas em dupla velocidade; no primeiro refrão, violinos voltam ao tempo normal, em staccato, enquanto as violas choram em legato melódico descendente ao fundo; no verso 3 os violoncelos deixam o staccato e entram em legato crescente, e no 4, entram violas; então, volta o refrão com o mesmo acompanhamento do primeiro, mas na segunda 'pergunta', os violinos gemem; e, nos versos 5 e 6, após a segunda ponte, parece que estamos num filme de suspense, no momento em que se vai descobrir o culpado, aahh, cansei de descrever um a um, sintam apenas, os instrumentos em serra, e a profusão de violinos e violas, mas perceba como os violoncelos acompanham a melodia cantada por Paul, em “wiping the dirt form his hands as he walks from the grave”. Coisa arrepiante!
O vocal solitário é de Paul, sendo que no refrão (aquele trecho A La Globo Repórter), o vocal é dobrado artificialmente, com o auxílio luxuoso de um ADT (Artificial Double Tracking), equipamento que fora recentemente criado na EMI, sob encomenda de John, cansado que estava de dobrar seus vocais, cantando por cima de sua própria voz. Note como o som da voz de Paul fica mais denso! John, aliás, junto a George, faz o vocal de apoio, apenas nas duas vezes em que a ponte é cantada, na introdução e após o verso 4. Eles não voltam no final. Há rumores de que foi George Martin quem sugeriu a Paul que voltasse, dias depois para apor sua voz, juntando o refrão às perguntas 'All the lonely people, where do they all come from?' e 'All the lonely people, where do they all belong?', onde então se ouvem ‘dois Pauls’ cantando, o que trouxe um efeito sensacional ao vocal de finalização da canção.

Claro que a canção nunca foi tocada ao vivo pelos Beatles, que aliás nunca a tocaram nem em estúdio. Felizmente, com a chegada daqueles teclados que mimetizam instrumentos de cordas, Paul começou a tocá-la, com todo o direito de compositor que  era, a partir de 1990. Ela foi lançada em compacto, como duplo Lado A com Yellow Submarinee. E falando em Yellow Submarine, a canção dez parte do filme! Veja aqui, o clip, neste LINK, preste atenção nos arranjo orquestral! 

9 comentários:

  1. Deu vontade de ler mais...
    Acabou abruptamente
    Fantástico texto 👏

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  2. Nunca parei para perceber o lirismo desta letra....
    Obrigado 👏👏👏🎻🎼

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  3. Excelente! O texto, assim como a canção começa com uma ponte e vai crescendo até terminar abruptamente, nos deixando uma sensação de quero mais!

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  4. Realmente, outra forma de “ ver” a estória.uma descrição que nos faz fazer parte da canção
    Fantástico

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  5. O mais amplo e detalhado comentário que você já fez. Detalhes espalhados em várias fontes e bem alinhavados, com observações pessoais sempre ricas.
    O lance da microfonagem dos metais é genial! Emerick e Martin atenderam ao Paul, que desejava cordas "iradas" e não bregas.
    Sobre a E. Rigby de Liverpool: sei que tem um túmulo com nome dela, do qual Paul afirma não ter nada a ver com a canção. Provavelmente, como você escreveu, a paquera com a atriz Eleanor, no roteiro do Help, rendeu mais que o esperado... Fizeram estátua depois?
    Sempre vi essa canção como "não Beatle", mas soube depois (e você detalhou) que a letra final - fantástica - teve pitacos do grupo. Assim, passa a ser uma Beatle song diferente...

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  6. Ouço e admiro esta música desde minha juventude, mas nunca tinha percebido estes detalhes maravilhosos e surpreendentes. Sabe-se lá quantas coisas estou deixando por ai sem serem notadas. Parabéns Homerix !

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  7. Excelente analise e de quebra nos brinda com uma aula sobre arranjos de cordas. Fenomenal!

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  8. Tive o privilégio de conhecer a estátua de Eleanor e a tumba do father Mackenzie, que por sinal fica bem perto do portão de Strawberry Fields. Desnecessário dizer o quanto tudo isso é marcante pra um megalomaníaco, certo?
    Quando acabar a pandemia está nos planos dar um novo pulo em Liverpool, com a graça de Deus.
    Sérgio Soeiro

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