-

domingo, 6 de novembro de 2011

A Arma Escarlate - Lutas da Autora - Manual do Colonizado


Nesse tempo de lançamento do livro  
de Renata Ventura, abro espaço aqui para uma das lutas da autora. Suas lutas são perenes ou foram brevemente interrompidas por sua dedicação às peripécias de Hugo Escarlate entre seu mundo mágico e o mundo real de sua favela: o combate à colonização cultural do brasileiro, a defesa do ensino de valores morais nas escolas e a disseminação do Esperanto.

Inspirou-me a escrever este post um artigo do Globo de hoje, no caderno Boa Chance, chamado 'Do You Speak Portuguese', assim mesmo, em inglês. Sua sub-manchete dizia: 'Quando o uso de expressões em inglês no trabalho esbarra no exagero'. Nem precisei ler o artigo (que depois li) para lembrar-me da primeira luta mencionada, e da Monografia que Renata fez para seu curso de graduação em Comunicação. Seu nome: 100% Off - O Manual do Colonizado. Foi em 2006. Nela, Renata descreve, com humor e ironia, o comportamento subserviente do brasileiro com relação ao que vem de fora, mais especificamente ,do Império de plantão, o Grande Irmão do Norte.

Já a havia mencionado em outros posts meus (Personal Velox, Beach Soccer?!?), mas agora, com o tremendo destaque ao tema em jornal de grande circulação, resolvi divulgar sua Introdução (apenas a introdução, em princípio) em meu blog. E fá-lo-ei em partes, pois leitor de blog é meio preguiçoso....

Aqui, transcrevo o primeiro trecho da introdução da monografia
-->
INTRODUÇÃO

            Desde seu “descobrimento”, o Brasil é assolado por uma doença séria, cujos sintomas são a baixa auto-estima e o menosprezo por tudo o que seja nacional. Ela ataca boa parte da população e é causada, principalmente, pela mania que o brasileiro tem de só gostar do que vem de fora. É a síndrome do colonizado.

            Não é a admiração pelo estrangeiro que é prejudicial, mas sim a imitação gratuita de uma outra cultura por achá-la superior à sua. Este comportamento, que nasce no início da dominação portuguesa, passa pela colonização cultural francesa e vem até a nova colonização perpetrada pela indústria cultural americana, leva não só a um menosprezo esnobe por tudo o que seja diferente da cultura da “metrópole” (a cultura dominante), como também a uma consequência ainda mais preocupante: o brasileiro, principalmente a elite pensante, passa a interpretar os problemas, as características e os comportamentos do Brasil através dos olhos de um outro país que julgam ser mais desenvolvido. Interpretação esta que leva a conclusões errôneas sobre a cultura brasileira, por se basear em estereótipos criados por estrangeiros e não em observações e estudos profundos sobre o país. Enquanto isso, a população se vangloria por falar palavras estrangeiras, rechaça as culturas regionais e tudo o que possa parecer “inferior” aos olhos de um estrangeiro, imita seu modo de vestir, de falar, de portar-se e, por que não, de pensar.
A visão de um colonizado se fixa em um só ponto de referência, sempre estrangeiro, que limita seu pensamento e sua maneira de ver o mundo e o próprio país em que nasceu e vive. O colonizado passa a reconhecer na metrópole escolhida, a única possibilidade de se desenvolver e evoluir.
Uma descolonização do Brasil se faz necessária quando se constata a falta de respeito que o brasileiro tem por sua própria cultura. Falta esta causada por uma mentalidade que o transforma, e sempre o transformou, em mera marionete; papagaio desorientado que imita até mesmo os hábitos mais prejudiciais à saúde, em nome de uma superioridade ilusória que é sempre buscada no exterior. É preciso que o brasileiro se liberte desta ilusão para poder finalmente olhar-se no espelho e se reconhecer como um ser pensante, conhecedor e mestre de si mesmo.
___________________

Opiniões?

Bem, nos links a seguir, as demais partes:
-->

A Segunda

A Terceira e última


Abraço
Homerix Levemente Colonizado Ventura

7 comentários:

  1. Homero, o seu levemente colonizado foi a deixa para o meu comentário. Nem tanto ao mar nem tanto a terra. Nem o estrangeirismo exagerado, nem a xenofobia. A evolução cultural é sempre fruto de uma abertura ao que é bom e novo, de onde quer que venha. Um dos nossos brasileiros mais importantes, na minha opinião o nosso maior compositor, obviamente teve influencias do mestre Villa Lobos, mas também foi influenciado pelos grandes da música americana, como Gershwin e Berlin. Julgo o Lenine um dos expoentes dos nossos compositores atuais, e a sua qualidade é estar aberto a tudo que se passa no mundo, e aí mistura xote, samba, rock, reggae, ....
    E a língua? Tirando os exageros, geralmente associados a uma postura arrogante, sua evolução é fruto de uma apropriação ou transformação de termos estrangeiros, alguns até sem paralelo. Me veio na cabeça agora, como se fala chip em português?
    E mais, a colonização já foi muito mais ligada ao poder econômico do que é hoje. A internet quebrou esse paradigma. Ainda bem.
    Armando Bulgarow

    ResponderExcluir
  2. Claro, caro Bulgarow, perfeitamente de acordo e mesmo Renata, e o próprio artigo do Globo hoje são da mesma linha: nem tanto pra lá ou pra cá. Há que se ter um meio termo.

    Agora mesmo, na Petrobras, é um tal de outlook pra lá, outlook pra cá, sem ninguém parar pra pensar se tem uma palavra que substitua, por exemplo, projeção. Agora estão criando uma Gerência que vai cuidar só disso, e quero ver se s pessoa será o(a) Gerente de Outlook!!

    Certos termos de informática são mesmo impossíveis de se trocar, mas na linha de Recursos humanos, não é necessário a toda hora usar assessemnt, turnover, prospect, core business, coach, e outras tantas. E chega-se até em siglas, como IPO, FYI (esta última tem oma ótima tradução, além do lógico PSI, que é o POC, dos mineiros - Pra Ocê Cunhecê)

    Em sua monografia, Renata critica como a barra da Tijuca virou sucursal de Miami, passa por lá....

    Colonialismo puro e barato!!!

    Aliás, eu vou incluir um quarto capítulo (leia os outros dois publicados) com um tipo Melhores Momentos da monografia itself (hehehe).

    Enfim, como sempre, a virtude está no meio!!

    Grande abraço e obrigado pelo comentário!!!

    ResponderExcluir
  3. Só esqueci de mencionar o nome do Tom Jobim quando falei do nosso melhor compositor, mas acho que é quase uma unaminidade.
    Valeu. Lerei os outros capítulos.
    Armando Bulgarow

    ResponderExcluir
  4. 59.209... gosto muito de muito (9)... e gostei do inteligente pensar dos dois pensantes, o Armando Bulgarow e Homerix...
    A síndrome do colonizado é um fato, acho eu universal, até certo ponto respeitador... as nomenclaturas, palavras, maneirismos, são muito deles, como vocês citaram... e tem muitas linguagens, que incorporamos, link, gap, e vamos mais.
    Parabéns aos dois..
    Paulus

    ResponderExcluir
  5. Esse tipo de fenômeno que criou a expressão "Estoy me olvidando de mi Gallego", no sentindo de estou me desfazendo do meu passado vergonhoso. Isso mesmo, a cultura galega foi dizimada pelo império hispânico de uma maneira vil, fazendo o povo conquistado crer que era inferior. Os seus costumes ancestrais são quase lendas esquecidas, e sua língua, antes rica irmã da língua portuguesa, hoje soa como um portunhol de muambeiro. :-(

    ResponderExcluir
  6. Primeiro ponto:
    "Nem tanto ao mar nem tanto a terra. Nem o estrangeirismo exagerado, nem a xenofobia".
    Oswald de Andrade já propunha uma boa solução para isso, com sua antropofagia. O Tropicalismo reverberou o modernismo através da música. Essa é uma boa saída.
    Segundo ponto:
    Homerix, vc poderia anexar a monografia da Renata em seu blog, para podermos ler toda ela?

    ResponderExcluir
  7. "Interpretação esta que leva a conclusões errôneas sobre a cultura brasileira, por se basear em estereótipos criados por estrangeiros e não em observações e estudos profundos sobre o país."

    Mais que isso! Essa interpretação se baseia nos nossos estereótipos dos estereótipos que os gringos fazem de nós! É uma dupla filtragem. Diferente de outras filtragens, essas são tipo poluidor...

    ResponderExcluir