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domingo, 1 de abril de 2012

Nunca antes, nem depois!

AMIGOS, CHEGUEI AO ÁPICE!!!

Escolha os melhores adjetivos para o que vi na última quinta-feira, no Engenhão, e eles serão insuficientes.... seguramente, Roger Waters - The Wall foi o melhor show a que assisti e a que assistirei, contando minha vida pregressa e futura ... não tenho dúvida ... e olha que eu vi Paul McCartney!!! Vocês sabem o que isso significa pra mim!!
Estava com medo da chuva, por causa da recente pneumonia, mas fui liberado pela pneumologista... ela disse que eu não só podia ir, como devia ir, qualquer coisa era melhor que amargura de não fazer uma coisa muito desejada...Arrisquei e me dei bem: não choveu uma gota e cheguei a ver estrelas!! Uma no céu, e várias de êxtase total!

Realmente, seria uma amargura profunda, ter perdido o maior show de todos os tempos.
 
A essência do show é tocar o repertório do disco do Pink Floyd, The Wall, de 1979, que conta a história de um personagem que não conheceu seu pai que morreu na 2a guerra, superprotegido e sufocado pela mãe, maltratado na escola, reprimido de todas as formas, depressivo quando adulto, que vai construindo um muro em volta dele. Muito da própria vida de Roger, e que no filme homônimo de Alan Parker, de 1982, ganhou o codinome Pink. O espetáculo mostra tudo isso..
Quando se entra no estádio se vê o muro, com 'tijolos' de quase um metro de altura e profundidade por quase 2 metros de largura, ou algo assim. A extensão dele é de 130 metros, a altura, de 11 metros. Ele está completo nas extremidades, mas incompleto no meio, aonde fica o palco, e, claro, como não poderia deixar de ser, o enorme telão circular, marca registrada do Pink Floyd.

Quase no final do primeiro ato
Ao longo da primeira parte do show, o muro vai ganhando tijolos, um aqui, dois ali, três juntos acolá, a banda vai desaparecendo atrás do muro que vai crescendo, até que no final do primeiro ato, Roger aparece pra cantar 'Goodbye Cruel World', e desaparece atrás do último tijolo!! Está construído o muro em volta de Roger/Pink. Na volta do intervalo a banda, que não se vê, começa os primeiros acordes de 'Hey You', você sabe, quando 'pink' canta "Hey You, out there on the wall ... can you help me!!!" ... e depois  "Is there anybody out there?" Ou seja, tudo a ver, ele preso dentro do muro, pedindo socorro. E aí vem 'Comfortably Numb' executada ainda detrás do muro, mas com aparições lá em cima, na pele dos dois 'subs' de Gilmour, um para cantar sua parte na música, outro para fazer dois dos mais espetaculares solos da história do rock, à perfeição!!!! Ao longo do segundo ato, parte da banda passa pra frente do palco, Roger fica pra lá e pra cá, em êstase e extasiando, e ao final, o muro é destruído novamente!!
Mas a presença do muro não pára por aí. Ele se torna o maior telão de todos os tempos, e em sua face, a história de The Wall é contada em enorme resolução de trilhões de pixels ao longo de cada um de seus 1200 tijolos. Quem estava ali na frente notou um monte de projetores lançando as imagens perfeitamente concatenadas. Então, cenas do filme The Wall, tão marcantes, fazem parte do show, e com a alta definição, ficam muito mais impressionantes. Aliás, é tanta coisa que acontece no telão que duvido que quem estivesse ali, de pertinho, na Pista Prime, tenha conseguido ver a totalidade do espetáculo.
Pontos altos? Difïcil desfilar duas horas de pontos altos... Vou aqui listar alguns que sobressaíram por gerarem uma dose extra de emoção, de estupefação, de espanto, ou um sorriso agradecido por estar ali, ou mesmo uma gargalhada...

Um só momento de pirotecnia


Na abertura, 'In The Flesh' começa a contar a história de Roger/Pink, passa o clima da Segunda Guerra que matou seu pai. Os fortes acordes iniciais são macados por sucessões de fogos de artifïcio, depois, sons de bombardeio e aviões. A coisa culmina com um avião em miniatura que vem lá do fundo alto do estádio, com muito barulho, dirigido por um cabo, e destrói uns 4 ou 5 tijolos do topo do muro para delirio da platéia!!! Eu estava quase embaixo do cabo, e percebi o momento em que o avião viria, olhei pra tràs e filmei, abaixo...
video

 
Outro tijolo no muro

Não se pode deixar de ressaltar o maior sucesso do disco, 'Antother Brick In The Wall', com a presença de um boneco marionete gigante representando o professor repressor, com olhos brilhantes e a vara com que ameaçava os alunos. Adolescentes da Rocinha chamados ao palco para cantarem, ritmados, 'We Don´t Need No Education...', e para fazer uma admoestação ao professor amedrontado pela reação dos alunos. Eles não decepcionaram na coreografia. Solo de guitarra perfetito, como era de se esperar. Ótimo!

 
Terrorismo de Estado

Roger tem homenageado nesta excursão pessoas dos países que foram vítimas do terrorismo de Estado, como ele diz no show,num breve discurso em português perfeito, em homenagem a Jean Charles de Menezes. Interessante que, como os olhos de Roger são pequenos, como os de Richard Gere, a gente nem percebe que ele está lendo o teleprompter. Aliás, interessante também, é como um sujeito tão esplendorosamente feio na juventude, pode se tornar um senhor charmoso, a ponto de lembrar o galã Richard Gere... Notável, na homenagem, é quando Roger fala: 'Jean Charles de Menezes you are just another brick in the wall', e todo o muro se apaga, com exceção de um tijolo, com a foto do brasileiro morto pela polícia de Londres, confundido com um terrorista. Aliás, apenas Jean Charles e o pai de Roger, Eric Waters, aparecem, com nomes e tempo de vida no telão redondo

No Fucking Way

Em 'Mother', que é desempenhada apenas ao violão por Roger, uma conversa dele com a mãe super-protetora, cantada pelo avatar de Gilmour. Antes, Roger anuncia que mostrará a imagem dele meso 33 anos atrás, cantando a mesma canção em Londres. Emocionante!! Foi aqui nessa música, muito emotiva, com um diálogo tocante, que aconteceu, paradoxalmente, o momento gargalhada do espetáculo. Roger canta: "Mother, should I run for president?" e a galera: Yeeeah!!, logo depois: "Mother, should I trust the government?" e a galera: Noooo!. Melhor que isso é o que acontece no muro/telão, á esquerda. Aparece uma pichada com o 'No Fucking Way!!' acima, mas logo depois, para delírio e gargalhada generalizada, aparece um brasileiríssimo e garrafal: 
'Nem Fudendo!!'

 
Bombas modernas

Em 'Goodbye Blue Sky', em que a amedrontada criança diz
"Look, mommy. There's an airplane up in the sky!" o muro mostra todo o seu esplendor de telão com imagens do filme, de aviões bombardeando as cidades. No show, além das tradicionais bombas com símbolos políticos (suásticas, foice/martelo) e de religiões (cruzes, estrela de David, estrela e o crescente lunar), Roger destila sua crítica às grandes corporações, acrescentando os logos da Shell, da Mercedes Benz, do McDonald's. Imagem forte!!

Lágrimas pelo muro

Em 'Young Lust', o muro mostra dois olhos femininos enormes...... pelo meio da canção, eles começam a chorar lágrimas coloridas .... no quarto final, o muro todo começa a chorar, impressionantes 130 metros de lágrimas.... liiiindo!!

Atrás do muro

Essa já contei ali em cima, com as canções sem  a visão da banda, culminando com a performance em cima do muro.

Imagem de guerra
 

Em 'Run Like Hell', um duelo paranóico, o telão mostra as mesmas imgens do flme EXCETO a impressionante imagem de um helicóptero, em que seu piloto pergunta de deve atirar em suspeitos, no Iraque, ainda na época Bush. Ao receber a ordem, o helicóptero atira e mata todos, para depois se descobrir que as armas eram câmeras, e entre as vítimas estavam dois jornalistas....


O porco

O animal é figura marcada na história de Pink Floyd, desde que o porco inflável que aparece na capa de Animals, junto a uma sub-estação elétrica, caiu, provocando black-out em Londres. Ele reaparece em shows, e não poderia deixar de estar aqui. O dito cujo, enorme, mais de 5 metros de comprimento, começou a flanar por sobre a platéia, lá pela metade do segundo ato, negro, cheio de inscrições contra o governo, contra a corrupção e racismo, e lá perto do fim, ele começou a baixar, baixar, baixar, até que pousou sobre as pessoas a uns 5 metros de onde eu estava. Nâo sei se a descida foi proposital, mas só que quando pousou, não saía mais e foi devidamente esvaziado... como que simbolicamente acabando com as coisas ruins que os escritos levantavam...
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O show continua magnífico, com os marcantes martelos cruzados marchando pelo muro/telão, os impressionates vermes de 'Waiting For The Worms' e o julgamento em 'The Trial', aonde voltam o professor acusando e a mãe defendendo, mas para o veredicto final: culpado!! E, a destruição final, do muro, de parte daquilo que foi construído no primeiro ato... Perfeito!!!

Na saída, sem clima para qualque tipo de bis, afinal aquilo lá foi um teatro, uma ópera, aparecem os membros da banda e os vocalistas, tocando acusticamente, e Roger surpreende com um trompete!!! A platéia solta um estranho 'Olê Olê Olê Rogêêê, Rogêêê', mas que é acompanhado pela banda.
 

Fim de tudo

Mais uma vez 'deixo a arena com as pernas bambas, de cansaço e de emoção', como deixei quando vi 'Dark Side Of The Moon', na Apoteose em 2007, mas desta vez com a certeza de que ... 


'Nunca antes na história deste rock and roll!!' 

parafraseando o ex-presidente, houve um show como este.
E também, qual Olavo Bilac , digo...
'Nunca verás um show como este!!'

Homerix Ainda Embasbacado Ventura

10 comentários:

  1. Homero, permaneço embasbacado, ouvindo seguidamente The Wall no carro.

    Também fui no Dark Side of the Moon.. mas digamos que aquele foi um show excelente.

    The Wall é mais que um show, é uma experiência.

    Abs

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  2. Épico. Como você bem disse, não há palavras que consigam reproduzir o que aconteceu no Engenhão na última quinta-feira. Nem vendo os vídeos no YouTube é possível ter uma dimensão do que é "The Wall Live". Vivi o nirvana lá e entro nele a cada flash de memória que pinta aqui... Som perfeito, imagens perfeitas. Sem a menor sombra de dúvidas foi o show da minha vida, pregressa e futura. Todos os shows daqui pra frente serão, no máximo, muito bons. Porque "The Wall" será para sempre inigualável. Obrigado, Roger Waters! Obrigado, Pink Floyd! Obrigado, Rock n' Roll!

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  3. Homero, vi os dois shows no Rogers Waters no Brasil. Infelizmente, não pude viver essa experiência do The Wall.
    Ainda sim fiquei extasiado com o seu relato. Me transportei para o show, tal a intensidade do seu texto.
    Já disse mil,vezes e repito mais mil vezes: não existe banda melhor do que o Pink Floyd.
    Parabéns três vezes: pelo texto, por ter ido ao show e por estar recuperado da pneumonia.
    Abs. Brust

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  4. Margarida martins3 de abril de 2012 03:40

    Amigo Homero, parabéns pela fântástica discrição deste magnífico show,é sem sombra de dúvida uma das melhores bandas dos nossos tempos,um abraço Margarida Martins.

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  5. Olavo Bilac Lula da Siva...& Homerix...
    Mais importante, é roteiro de assistente atento e detalhista que és!!!! Com esta descrição minuciosa... Barbara Heliodora, de olhos fechados, simplesmente ouvido daria seu comentário e parecer.
    E o que é muito importante, para os achacados e convalescentes, a mensagem de que o prazer e alegria potencializa toda medicação bem ministrada,e cura!!!!
    paulus

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  6. Mesmo o Pink Floyd não sendo lá minha praia, me bateu um arrependimento de não ter ido ao show... Culpa sua, Homero! rsrsrs...

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  7. Prezado Homero

    Como você mencionou logo no início do post o Paul McCartney, decidi fazer este pequeno comentário. Apesar do Pink Floyd também não ser o meu forte, resolvi assistir ao show do Roger Waters, por pura curiosidade.

    É realmente impressionante. Só que a proposta do Roger é totalmente diferente de uma proposta de show do Paul.

    Enquanto um, como em qualquer obra de ficçao científica, optou por ser coadjuvante e transformou os efeitos especiais em protagonista do espetáculo (todos que estavam perto de mim no show ficavam na expectativa do próximo efeito visual, o outro optou por ser ele e o seu repertório os protagonistas.

    Quem assiste a um show do Paul, não consegue desviar os olhos dele, seja diretamente, como é o caso daqueles como eu que acampam na porta do estádio para ficar próximo ao palco, ou aqueles que de longe o assistem através dos telões.

    Acho que se o Paul fizesse um show nos moldes do show do Roger, seus fãs, como eu, iam ficar muito decepcionados.

    Quem assistiu aos shows dos dois entende o que estou querendo dizer.

    Confesso que prefiro disparado a proposta de Paul. McCartney.

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  8. Homero, como já te falei por telefone, não fiquei assim tão fascinado pela experiência.

    O primeiro set foi espetacular, a música obviamente muito boa e a surpresa pela qualidade da projeção e dos efeitos especiais arrebataram a platéia. Tirei fotos e filmei alguns trechos, mas, na última música, a memória da minha câmera se esgotou.

    Passei o intervalo numa atividade frenética de apagar fotos mais antigas, já passadas para o computador, para abrir mais espaço para o que eu esperava de um segundo set fantástico.

    Mas o segundo set veio, as músicas foram passando e, aos poucos, comecei a sentir um pouco de enjôo e fastio daquela super-produção toda.

    Pensei no que tinha me motivado a estar naquele show. Fui porque sou fã do Pink Floyd. Da MÚSICA do Pink Floyd. Da banda sobre a qual já li muitos artigos de revista e internet e alguns livros. Aí vi que não reconhecia o Pink Floyd ali. Lembrei que, no início da carreira, eles tocavam com as luzes do palco apagadas debaixo das projeções de imagens psicodélicas na parede. Era porque, segundo eles, a imagem dos músicos não era importante, o que importava era a música que estava sendo tocada.

    Lembrando disso, que dizer da figura do Roger Waters no palco fazendo caras, bocas, poses e gestos para "interpretar" sua imensa egotrip? Que dizer do "playback" em diversas músicas, até mesmo do "playback" visual em "The Trial" quando ele tentava imitar no palco a imagem pré-gravada projetada no telão? Dá espaço para pensar que, junto com a repaginada do seu visual pessoal, como você mencionou, ele também reviu, para pior, alguns de seus conceitos artísticos. Você imagina o David Gilmour se prestando a este papel?

    Não vou dizer que detestei o show, muito pelo contrário. Só não foi o que eu esperava. Eu fui ver um show de música, não um espetáculo multi-mídia estilo Broadway. Sendo assim, não tem como dizer que foi o melhor show que assisti na vida. Já assisti a vários muito melhores musicalmente.

    Pode ser que eu tenha me enganado, que a proposta era esta mesma e que eu fui com a expectativa errada. O fato é que, mesmo com espaço na câmera, percebi ao final do show que eu não tinha tirado uma única foto do segundo set.

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  9. Putz! Acabo de ser tomado pela mais legítima inveja, acompanhado do mais profundo arrependimento por ter perdido essa.

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  10. Caro Homero, o relato que você fez do show é de uma riqueza de detalhes muito grande. Você conseguiu transportar a minha imaginação para este show. Eu, agora, me arrependo mais ainda de não ter visto este show.
    Mas, entendo também que o David Gilmour não poderia estar ausente neste show, pois para mim ele foi tão importante para o Pink Floyd quanto o Roger Waters.
    Eu concordo com o Renatao Quaresma no que se refere à comparação com o show do Paul Mc Cartney, pois para mim o show dele (Paul) é que é o maior espetáculo da terra.

    Um grande abraço
    José Henrique Danemberg

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