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domingo, 6 de novembro de 2011

Manual do Colonizado - de Renata Ventura #3

Aqui, a última parte da Introdução ao 100% Off - O Manual do Colonizado - monografia de Renata Ventura - 2006.

A primeira, neste link: 



A segunda, neste link:


A terceira (e última), transcrita aqui: 
 
          O século XIX no Brasil não só pode ser definido como “um século de francofonia por excelência (BASTOS, 2002: 3)” como também um século de colonização por excelência, mesmo que esta colonização não viesse mais de Portugal, sua antiga e logo esquecida Metrópole. Naquele momento, “nossa culuta absorveu tudo ou quase tudo o que se produzia na França (BASTOS, 2002: 3).” Enquanto o povo brasileiro era excluído, nas bibliotecas, nos teatros e no palácio do imperador discutiam-se modos, políticas, interpretações e soluções francesas para problemas ilusórios de um país que eles não conheciam de verdade.
          Fazia sucesso então o Jornal das Famílias, periódico que ensinava às moças e rapazes da época regras de comportamento. Publicava “receitas e regras de savoir-vivre (BASTOS, 2002: 4)”, lições de etiqueta européias; ensinava como se portar, como viver, como falar e enchia de vento a mente das mulheres brasileiras com contos e novelas inocentes e vazias de conteúdo. Ponto curioso: o Jornal da Família fora criado por um francês chamado B.L. Garnier, que vira no Brasil uma oportunidade de expansão editorial! O mercado editorial francês conseguia lucrar com venda de livros e revistas em uma sociedade com 86% de analfabetos. Havia algo de podre no Império do Brasil..... Talvez fosse o queijo francês.
          Jô Soares, em seu livro 'O Xangô de Baker Street', expressa com maestria os costumes daquele época ingênua e inocente, em toda sua incoerência. Em 350 páginas, brinda o leitor com momentos de puro absurdo ao descrever com sutileza as situações riséveis por que tinham que passar os brasileiros, ainda tão euroc~entricos e colonizados (1).
      No camarim, sentaram-se nos móveis novos que decoravam a saleta. Todos estavam impecavelmente vestidos, com seus uniformes e trajes de gala. Podia-se ter a impressão de estarem eles instalados em algum salon de Paris, não fosse as rodelas de suor presentes em todas as axilas (SOARES, 1995: 16).

            O brasileiro era um povo que queria ser outro povo, vivendo em um país que queria ser outro país. Felizmente, os brasileiros aprenderam muito de lá para cá. Deixaram de ser aqueles papagaios ridículos de antigamente.
                Hoje são modernos, falam inglês.

 


(1) A vida da elite brasileira era bajular os franceses, como os cortesãos de antigamente, que faziam absurdos para serem notados pelo Rei. Para Erasmo de Rotterdam, “Não há escravidão mais vil, mais repulsiva, mais desprezável (ROTTERDAM, 1509: 92)” do que aquela de um cortesão. “Para eles, a maior felicidade consiste em ter a honra de falar ao rei, de chamá-lo de Senhor e Mestre absoluto, de fazer-lhe um breve e estudado cumprimento, de poder prodigalizar-lhe os títulos faustosos de Vossa Majestade, Vossa Alteza Real, Vossa Serenidade, etc., etc. (ROTTERDAM, 1509: 93).”
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Bem, isso tudo foi só a introdução... quem sabe um dia publique-se a monografia toda... bem quem sabe antes, eu publique alguns trechos, hehehe


Abraço

Homerix Very Proud Ventura

3 comentários:

  1. Adorei! Esse sim é minha praia ou como todo colinizado quexse preze diria " right up my alley"! -bia

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  2. Terrivel teclar com ipad na deitada! - bia

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  3. Homerix, vc poderia anexar a monografia da Renata em seu blog, para podermos ler toda ela?

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