Esta é mais uma edição do Papo do Contramestre,
a conversar sobre The Beatles, suas canções, suas vidas
quadro do programa Submarino Angolano,
da Rádio LAC, Luanda Antena Comercial, 95,5 FM
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PRA OUVIR O QUE VEM A SEGUIR!
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Olá, amigos do Submarino Angolano!!!
Aqui é Homero Ventura, directo do Brasil
Seguimos a acompanhar o que
aconteceu há 60 anos na vida dos Beatles…
Entra Drive My Car
Coloque-se em Abbey Road, na tarde de 16 de outubro de
1965.
Seria o 3º dia de gravações para o que viria a ser o 6º
álbum da banda, Rubber Soul.
Na sessão anterior, Drive My Car
havia vindo ao mundo. Ela abriria o novo LP.
Hoje o dia ia começar com uma canção 90% de Lennon, que não sairia no LP. Era tão boa que merecia sair em single. Ela sairia no 1º Single Duplo Lado A da carreira dos Beatles, junto com We Can Work It Out.
Entra We Can Work It OutAliás, aquele single pode ser considerado como o 1º Double A Side da história da música, a ser denominado desse jeito na hora do lançamento.
Entra Don't Be Cruel com Elvis Presley
Sim, houve outros singles que foram considerados como Duplo Lado A, porém apenas após o lançamento, devido ao desempenho surpreendente nas rádios do Lado B, que normalmente é mais obscuro…
Entra Hound Dog com Elvis Presley
o próprio Elvis Presley teve um, que tinha Hound Dog como Lado B de Don’t Be Cruel.
Todavia um single lançado OFICIALMENTE como Duplo Lado A,
foi mais um pioneirismo dos Beatles!
Após esses prolegômenos entretânticos, vamos aos
finalmentes!!!
Day
Tripper (by John Lennon)
Paul conta: "Tenho uma boa razão para pegar o caminho mais fácil. Tenho uma boa razão para pegar o caminho mais fácil, agora. Ela era uma viajante diurna, bilhete só de ida, yeah! Demorei tanto para descobrir e eu descobri"
A canção é de John, com pequena participação de Paul. Entretanto é Paul quem começa cantando a canção, na primeira metade do verso, com John assumindo na parte final, que até poderia ser considerado como um refrão.
Só que não, trata-se da conclusão da mensagem do verso. Mas
mesmo assim, vamos nos referir a essa parte como refrão a partir daqui!!!
A mesma construção se repete nos outros dois versos, todos com letras diferentes,
entremeados os dois últimos por uma ponte sem letra, sim, entre os Versos 2 e
3. São 12 compassos estonteantes, mas aguardem que darei o destaque devido mais
adiante!
Antes, uma linha geral sobre a letra, a mensagem da canção.
Nitidamente se fala de um interesse apenas sexual, que é
uma provocadora, que só faz programas de uma noite ("She
only plays one night stands"), talvez pagos, ou não. Paul
mencionou também que a idéia era de viajante de um dia só, a Day Tripper,
levava à imagem de uma garota comum, aventureira, sem mucha plata pra fazer
viagens longas, com hospedagem, e tal!!
E há também uma conotação com drogas pois a tal 'trip' com ''one-way ticket' significaria uma viagem sem volta, com bilhete só de ida ''one-way ticket yeah') também, uma multiplicidade de significados!
E, pra corroborar aquela ideia de sexo, conto pra vocês
que "She's a big teaser" era, na verdade, "She's
a PRICK teaser", ou seja, em vez de 'grande provocadora",
seria "provocadora de pênis", ahh esse John, danadinho... Ele
trocou especificamente para que fosse executada pela titia, a BBC, como a
tradicional rádio britânica era
carinhosamente referida entre os músicos!
Claro que em minha versão de Day Tripper, eu deixei esse
sentido real de fora, mas dei um jeito de explicar como foi!!
She's a big teaser, she took me half the way
there … Provocadora, fiquei largado no chão
She's a big teaser, she took me half the way there now… Sem compromisso, logo me deixou na mão, sim
She was a day tripper, one way ticket yeah… Era
ave-entureira, só pra me atentar
It took me so long to find out, and I found out…
Eu demorei a descobrir, mas
enfim, concluí
Tipo assim “me excitou e foi-se embora”!!! Danadinha!!!
Não sei se notaram mas fui além dos Beatles: eles repetem a primeira linha, eu não, eu criei uma segunda linha diferente…. Eu tinha que colocar que a garota deixou John “na mão”… sim … a expressão tem múltiplos significados….
Entram barulhos de grilos
Entretanto, mais que a letra, o mais impressionante dessa
canção é a música.
O espetacular riff de entrada, dura apenas dois
compassos, com11 notas,
Mi - Fa# - Sol# - Si - Mi - Re - Si - Fa# - Sol - La - Re
- Mi.
O riff é criação de John, o compositor principal da canção, mas a execução perfeita é de George. Ele é repetido à exaustão ao longo de toda a canção, acompanha as mudanças de acorde, e só é interrompido quando começa a seção 'refrão' de cada um dos versos. Aliás, repetido à exaustão coisa nenhuma, aquele riff poderia continuar Forever. Eu poderia passar meus últimos momentos nesta vida a ouvir esse riff, em loop!!!
A entrada é antológica, em 10 compassos, nos dois
primeiros apenas a guitarra de George,
Entra a guitarra de George
nos dois seguintes entra o baixo de Paul,
Entra o baixo de Paul
os dois a seguir junta-se a guitarra rítmica de John, e também seu pandeiro (que vem em overdubs)
Entra a guitarra de John com Pandeiros
e a partir do 7º compasso entra a bateria integral de
Ringo, num crescendo instrumental sensacional.
Entra Ringo e o vocal de Paul...
Essa ideia de ir entrando instrumentos pouco a pouco já havia sido usada em clássico, em jazz, e até timidamente na Motown, mas fazer em 4 estágios, e esperar 10 compassos para somente então entrar a voz, aaah isso foi novidade no Rock…. Depois dos Beatles muitos repetiram… aliás, os próprios Beatles em Rocky Raccoon, 3 anos depois,
Entra Rocky Raccoon com The Beatles
e eu me lembro bem de Smoke on The Water, com Deep
Purple, já na década seguinte.
Entra Smoke on The Water com Deep Purple
Roger Glover até declarou que fizeram com clara inspiração em Day Tripper-
Voltando, então, ao nosso objecto, só então depois de
todos aqueles compassos, Paul entra cantando no tom da canção, em Mi, por 4
compassos em variações do tom da canção, apenas ele nos dois primeiros
Entra Paul
Got
a good reason
com John harmonizando com ele lindamente nos dois últimos,
Entra John
For taking the easy way out
depois Paul volta sozinho, mas agora, 4 semitons acima,
em La,
Got
a good reason
, com John harmonizando novamente logo depois
For taking the easy way out, now
Os versos seguintes vêm com letras diferentes, mas a mesma configuração vocal, entre John e Paul.
No “refrão”, num terceiro acorde, John pega o lead e Paul
e George fazem o Backing
Entra George
"She was a day
tripper"
A one way ticket, yeah
It took me so long
To find out, and I found out
Nessa seção, George muda a batida com tocadas a cada um dos tempos do compasso,
e Paul entra numa sequência de subidas e descidas com seu
baixo até o final do verso.
O baixo de Paul no “refrão”
Note ali o pandeiro nervoso de John anunciando um segundo
verso no mesmo esquema.
O pandeiro de John
Terminado o 2º Verso, os próximos 12 compassos se
constituem num clímax da canção, ainda que não seja seu final, mas o coração
vai lá no alto, o que em meu blog até mereceu um parágrafo de destaque absoluto:
uma ponte sem letra mas harmonizada vocalmente, de forma estonteante, com John
e Paul dando show.
Nos primeiros 6 compassos há três vezes o riff de
guitarra aumentado de Mi para Si, portanto num tom superior ao normal, já
começando a tensão, acompanhado do prato de Ringo martelado em cada tempo, e
notas em escadinha da guitarra de George,
Os seis primeiros compassos só com guitarra e bateria
e nos últimos seis compassos, Paul e John harmonizam
um crescente vocal, tipo aquele do Twist and Shout de dois anos antes, em 5
notas, mas este foi ainda mais longe, com uma nota por compasso, começando em Re
– depois Mi - Fa - Sol - La – terminando no Si…. Ufa só faltou o Dó…. O
Crescendo vocal termina em mais pandeiros e pratos, de John e Ringo, tudo por
sobre um solo de guitarra de George (que veio em overdubs, claro), tudo
fenomenal, tensão lá no alto, coração saindo pela boca.
Os seis últimos compassos com vocais de John e Paul
Ufa. Aí vem o alívio, sabe, tipo depois de um orgasmo, com
a volta do riff de George a seu tom natural em Mi, acompanhado de um pandeiro exorcizante de John,
tudo muito bem encaixado em apenas 20 segundos
alucinantes.
Ufa…
Bem, depois dessa saraivada de emoções vem o verso 3 e o “refrão” desse último verso vem com letra diferente, apenas na 2ª frase, o que até provocou um erro interessante de John…. Ele tinha que cantar, como Paul canta
Paul
Sunday driver yeah
Mas só que John já vinha acostumado a falar
One-way ticket yeah
Nos dois primeiros refrões
E cantou o One
do One-way
Mas percebeu imediatamente e completou
One-day driver, yeah… (apenas a voz de John
hahahaha… claro que eles
perceberam o erro mas resolveram deixar!!!
E teve o esplendoroso o detalhe do falsete de John no
"it took me so-o-long".
Finalmente, repete-se a introdução com os riffs de
George agora com Paul e John e George harmonizando em "Day tripper...
day tripper yeah" em fade-out até o final!
Eu já disse 'fenomenal'? Sim? Então, digo de novo.
Fenomenal!
Entram ensaios no estúdio
Tudo isso foi feito em 8,5 horas do dia 16 de outubro, terceiro dia de gravações para Rubber Soul, mas a metade desse tempo foi gasta em discussões sobre o arranjo, e quando ligaram os gravadores, tudo já estava decidido quanto à estrutura da canção e o que fariam na ponte instrumental.
Seguem ensaios no estúdio
Interessante é que
estavam presentes no estúdio duas meias-irmãs de John, e uma delas, que levava
o nome da mãe deles, Júlia, declarou que achou incrível como eles passaram
tanto tempo, umas 3 horas, segundo ela, discutindo e
ensaiando isso e aquilo, e de repente, quando apertaram o botão REC, a coisa
sai como que por milagre.
Foram necessários 3 takes até que saiu tudo
perfeito,
O Take 1 quebrou no meio. Dá pra ouvir o Ringo antes falando: "really rock it this time". E George erra uma nota do riff no compasso 9 - esse erro até ficou audível na mixagem original.
Entra Take 1 base só instrumentos
O Take 2 quebrou também. Nessa versão o George tenta um
dedilhado rápido repetido na segunda metade do segundo verso, depois de
"day tripper" e "ticket, yeah", que foi abandonado.
Entra Take 2 base só instrumentos com ponte estendida
E aí partiram
para os overdubs, dos vocais e das guitarras e do pandeiro, conforme já
antes descrito.
Após as mixagens naturais, fizeram as gravações para um programa de TV, A Música de Lennon/McCartney.
Entra The Music of Lennon/McCartney na Granada TV
Aparecem 6 lindas Go-Go Girls de minissaia dançando meio coreografadas durante a introdução, em seus primeiros 6 ou 7 compassos depois elas partem céleres pra direita e passam por trás dos Beatles exatamente quando Paul começa a cantar. Ficou bem plástico!!!
Entra Day Tripper na Granada TV
Mas notem como os rapazes estão assim meio sem graça, cantando de mentirinha, e o Ringo até dá uma erradinha na dublagem hehehe.
Depois houve 3 vídeos promocionais, filmados em
novembro no famoso Twickenham Studios,
sim, o famoso já utilizado nos dois primeiros filmes e que voltaria à cena em
Get Back. Foi em novembro de 1965. A
ideia era poupar ida às TVs, eles mandariam o filme. Foi o embrião do
videoclipe - o George depois brincou que eles inventaram a MTV. E não deixa de
ter razão!!
Finaliza Day Tripper na Granada TV
Day Tripper foi lançada no dia 3 de dezembro de 1965 num
compacto Duplo Lado A, o primeiro de uma série deles dos Beatles, este
juntamente com We Can Work It Out, direto para os topos das paradas da
Inglaterra, mas nos Estados Unidos, topou no 5º lugar, vê se pode!
Day Tripper foi tocada ao vivo nas excursões que se seguiram, ou seja, a última na Inglaterra, em dezembro, a última 'mundial' (que incluía as perigosas, no Japão e nas Filipinas), em junho/julho de 1966 e a última excursão da carreira em agosto. E ela estava presente no último concerto ao vivo dos Beatles, em Candlestick Park, 26 de agosto em São Francisco! Foram exatas 43 vezes!!
Entra Day Tripper no Candlestick Park, notem como o clímax da ponte está bem ruinzinho
Já Paul McCartney demorou a tocá-la em sua carreira solo porque era uma "canção de John", mas depois que a tocou
em 2009, não parou mais… foram perto de 180 vezes, até aqui, setembro de 2026,
e eu estive presente na primeira vez que a tocou no Brasil, em 2010! O
Comandante também viu!!
Bem, esse 1º lugar inglês
possibilitou que ambas fossem para a coletânea oficial chamada apenas 1,
de 2000, e ali eu ri muito, quando vi, no encarte do CD, COMO as canções saíram
em vários países, a maioria mantendo o título original, Brasil, por exemplo,
mas na Argentina eles traduziam!
Day Tripper saiu como Vacación por Un Día, justamente a
explicação que Paul deu, como falei lá no início!! E, agora sentem-se para gargalhar… We Can
Work It Out saiu como “Podemos Solucionarlo”. Verdadeira pândega!!!
Day Tripper saiu pela primeira vez em LP, sem contar a
salada americana da Capitol, no final de 1966 na coletânea A Collection of
Beatles Oldies (But Goldies), que foi o disco que lançaram para cumprir a
necessidade contratual de lançarem dois álbuns por ano.
Em 73, Day Tripper saiu no grande sucesso que ficou
conhecido como Álbum Vermelho, aquela coletânea temporal Beatles 1962-1966
E claro, saiu no Past Masters, Volume Two - em1988 abrindo o álbum!!!
Enfim, venham conhecer essa aventureira de uma noite só
que deixou John Lennon na mão!!
Entra Day Tripper original na íntegra

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