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quinta-feira, 4 de março de 2021

Penny Lane - A rua da infância

Esta canção foi lançada em compacto, em fevereiro de 1967

Esta canção é a 3ª do Lado B do LP Magical Mystery Tour 

a história do álbum, cenário, assuntos e canções, aqui neste LINK

É uma de 8 canções contando uma história sobre o próprio autor

as demais 7 canções de mesmo Assunto e  Classe, neste LINK

Atenção, canções com títulos em vermelho 

são links que levam a análises sobre elas.

9. Penny Lane (Self Story Song by Paul McCartney)

Paul se lembra: "E o banqueiro nunca usa uma capa na chuva. Muito estranho! Penny Lane está nos meus ouvidos e nos meus olhos, lá sob o céu azul do subúrbio, eu sento, e enquanto isso, em Penny lane há um bombeiro com uma ampulheta"

A química entre a maior parceria da história estava em alta no final de 1966. Os Beatles estavam em estúdio desde o segundo semestre daquele ano, após desistirem das excursões. Eles produziam aquele que seria  o maior disco da história do rock, Sgt. Pepper's. E eles já viam que o LP não sairia até meados do ano seguinte. Era preciso manter a chama acesa. A EMI precisava lançar um compacto e encomendou, claro, as canções a John e Paul, sua fenomenal dupla autoral. Cada um apresentou a sua. AS DUAS falavam de Liverpool!!!


 AS DUAS remetiam a lembranças da infância de cada um.  John veio com Strawberry Fields Forever, Paul veio com Penny Lane! John e Paul usavam o hub de ônibus para pegar ônibus para qualquer lugar da cidade. Enquanto Paul aguardava John, ele anotava as coisas que via, a linda enfermeira vendendo flores que sonhava ser atriz, o bombeiro, o barbeiro que guardava as fotos de seus cortes, e seu cliente banqueiro que não se importava com a chuva, memórias de infância e adolescência. Um que outro personagem foi criado para dar uma cena para o local, mas os locais realmente existem, ou existiam, "around the shelter in the middle of a roundabout ... ou talvez não exatamente em Penny Lane, por exemplo, o quartel dos bombeiros (fire estation) era um pouco mais distante, mas foi 'trazido' para Penny Lane para compor o cenário, do "fireman with an hourglass .... He likes to keep his fire engine clean, it's a clean machine". Permitido, não? E se permitiam também uma piadinha de duplo sentido, no "A four of fish and finger pies", do segundo refrão, que estava ali inocentemente para rimar uma das vezes com "Penny lane is in my ears and in my eyes", e até lembra uma porção de peixe frito custando 4 'pence', mas em verdade queriam usar a expressão "finger pie", que era uma gíria sexual, que garotas não diziam! A melodia era de Paul, bem como os primeiros versos, mas John ajudou numa memória aqui, outra ali, mais especificamente no terceiro verso, sobre o bombeiro e seu limpo carro. Falando em 'versos', a estrutura da canção era verso-verso-refrão 3 vezes, sendo o 4° verso, instrumental. Os cinco versos letrados têm letras todas diferentes, e até mesmo nos refrões há uma variação, pois o 1° refrão diz a famosa referência ao suburbano céu azul "There beneath the blue suburban skies", o 2° refrão vem com aquela frase de duplo sentido. A criatividade dos Beatles sempre colocada à prova. As rimas, ótimas, se fosse em português, seriam todas ricas nos versos "go-hello", "rain-strange", "clean-machine", "play-away ". Nos refrões, as pobres "skies-eyes-pies". Absolutamente perdoadas!

Vamos à parte musical. A base foi Paul nisso, John naquilo, George naquilo outro e Ringo na  bateria? NADA DISSO! Pela primeira vez, os Beatles fugiriam do tradicional esquema de base mais overdubs. Isso porque Paul, o autor, queria que Penny Lane soasse como Pet Sounds dos Beach Boys, que ele andava ouvindo muito. Geoff Emmerick entendeu o recado e passou a gravar um instrumento por vez, um em cada faixa da fita (eram quatro, lembrem-se), conferindo uma pureza nunca vista, sem vazamentos. Então, no glorioso 29 de dezembro de 1966, o que se viu foi 3 Beatles olhando Paul tocar 3 pianos, um de cada tipo (normal, elétrico e honky-tonky) e também um harmônio, e tudo com uma noção de tempo impressionante, que até dispensou um auxílio de Ringo, que seria normal, no chimbal (hit-hat), Paul era fenomenal. Dia seguinte, redução das 4 faixas para uma outra fita, onde se gravaram o vocal principal de Paul, e a harmonização de John, que se ouve nas segundas frases dos refrões. E foram pra casa, e só voltaram no ano seguinte, no mesmo dia em meu aniversário, o décimo 4 de janeiro de minha vida, quando John gravou mais um piano, e George, uma guitarra, e Paul fez outro lead vocal,  que ele não gostou e gravou outro no dia seguinte! E só no dia 6, a normalidade voltou, e Paul tocou seu baixo, John sua guitarra base, George sua guitarra solo, e Ringo sua bateria! E ainda não satisfeitos com o número de pianos da canção, John e George Martin gravaram mais dois, não perca a conta, já são 6 os pianos de Penny Lane! No fim de semana que se seguiu, todos descansaram, menos George Martin, que, instruído por ordens claras de Paul, fez variados arranjos orquestrais. No dia 9, vieram 4 flautistas e dois trompetistas e gravaram suas partes, e o dia seguinte apenas viu Ringo gravar sinos, na parte dos bombeiros. Mais dois dias e vieram outros instrumentistas com seus trompetes (2), oboés (2), 1 corne inglês (um oboé mais grave) e um contrabaixo, que tocava apenas uma nota, e ficou horas fazendo isso, com o maior prazer!

Porém, a cereja do bolo, o 'pièce de résistance', o toque magistral, veio uma semana depois, quando adentrou ao estúdio David Mason, um trompetista especificamente contratado sob sugestão de Paul, trazendo seu conjunto de trompetes. Paul o ouvira tocar num musical na BBC (TV), e pensou: "Quero aquilo em Penny Lane!". George Martin disse: "Seu desejo é uma ordem, amado mestre!", quer dizer, não foi bem assim, mas quase! Tudo o que um Beatle queria era providenciado. Paul solfejou a melodia, Martin escreveu a pauta e Mason entrou para a história! Dentre os 9 trompetes que Mason trouxe, Paul e Martin escolheram o Piccolo, afinado em Si Bemol, justamente o mais agudo, e o competentíssimo instrumentista deu o seu show, sua arte é ouvida ao longo da canção mas, em especial, na sessão solo, que termina com aquele inacreditável agudo! Recebeu o equivalente a 4.000 reais por aquela noite, e até o fim da vida, em que pese ter tocado nas melhores orquestras, ele foi celebrado por seu desempenho naquele longínquo e frio 17 de janeiro de 1967. 

A música ganhou um vídeo promocional, assim como a companheira do outro Lado A do compacto, onde causou espécie o fato de os Beatles parecerem mais velhos, todos de bigode! Vejam aqui, neste LINK. A repercussão do compacto foi enorme pela crítica, porém não o suficiente para atingirem o primeiro lugar nas paradas, coisa que não acontecia desde 1962. Contribuiu para isso o protocolo para compactos com Duplo Lado A, onde o tatal de vendas tinha que ser dividido por 2, porque eram duas músicas, então o real Número 2 passou a Número 1. George Martin admite que lançá-las juntas foi um erro: se cada uma delas fosse lançada em separado, cada uma tendo, no Lado B uma canção menor de Sgt. Pepper's, as duas atingiriam o Número 1, com certeza. Voltando aos vídeos, deixo aqui, com vocês, claro, não podia deixar vocês sem verem Penny Lane, tocada ao vivo, por The Analogues, com direito a sino, flautas, trompetes e especialmente o piccolo, tocados à perfeição!!


9 comentários:

  1. Quanta emoção ao ver sua cuidadosa análise de uma música unânime como Penny Lane.
    Chego a me sentir transportada para os locais, quase posso ver as flores e a barbearia, o bombeiro e o banqueiro... Que êxtase! Muito obrigada!
    Denise

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  2. Além da do Analoggues, tem a interpretação do Elvis Costello, muito legal!

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  5. Tejipió is in my Ears and in my eyes...

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  6. Era uma rua! Então, *Penny Lane* era uma rua, em Liverpool. Nunca poderia imaginar, não fosse nossa enciclopédia Beatles!
    E era lá, no ponto do ônibus da Penny Lane, enquanto Paul esperava por John, ia anotando o que via em volta, a enfermeira que vendia flores, o barbeiro, aguardando o banqueiro, etc. Nunca poderia imaginar, sempre pensei que fosse uma de suas garotas.

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  7. Maravilha de texto! Uma preciosidade! Parabéns!

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  8. Que protocolo mais besta. Significa apenas que não se sabe ao certo. Saiba do disco com dois lado A, mas desconhecia o protocolo. Ele invalida qualquer parada de sucessos. Além disso fiquei sabendo que na parada, creio que da Melody Maker, o disco foi considerado primeiro lugar.
    Olha, para mim não combina arte com paradas, ou cartazes de popularidade como dizia meu querido Miguel Carlos da BBC. Isso é comércio. É vendas. Nada a ver com a beleza das músicas.

    E George Martin se enganou completamente. Não seria possível encontrar música menor dos Beatles. Tudo que faziam era lado A.

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  9. Clássico!!! Mas bem enigmática...

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