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sábado, 28 de junho de 2008

AWoL - Ignorância Exterior Explícita


          Não soube, nos contatos que tive, de novas histórias sobre o absoluto desprezo do americano por tudo o que se passa fora da America, apenas comentamos o vídeo que circula hoje na internet com a fabulosa resposta da Miss South Carolina (veja aqui .... ah, os concursos de miss!) e seu impressionante conhecimento de geografia internacional, mais ou menos retratada na figura abaixo:



        Registro aqui algumas experiências de minha filha. 
  1. Uma amiga americana sequer sabia aonde ficava a Inglaterra (!!!);
  2. Outra amiga perguntou se aqui no Brasil as mulheres usavam a burka;
  3. Uma amiga estrangeira, quando se apresentou à minha filha, disse que era de Maurício. Minha filha comentou: "Ah, as ilhas do Índico!!!"  A amiga simplesemente se ajoelhou no chão e disse "Thanks, God!", e disse que ela foi a primeira pessoa, depois de quase seis meses na terra da oportunidade, a não se espantar com o nome de seu país  e, ainda por cima, saber naturalmente tratar-se de uma ilha no Oceano Índico. 
        O máximo em desconhecimento e, aqui sim, misturado com preconceito, foi o caso da menina brasileira, filha de um colega da petrobras, que contestou a professora que afirmara que aqui no Brasil se falava francês, dizendo que, na verdade, falamos português, e recebeu um “Maybe in your tribe!” como resposta, pelo que foi punida exemplarmente pela direção, felizmente, após o protesto veemente do revoltado pai.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

AWoL - Crédito sem Crédito na Praça

         Um dos pilares do modo do viver americano sempre foi o crédito quase ilimitado. O americano médio tem 11 cartões de crédito (uns quatro de instituições de crédito e outros sete das mais variadas lojas!), e vive pendurado em prestações. Compra de carros à vista é uma inexistência absoluta. Na verdade paga-se a perder de vista. Habitação então, nem pensar, os prazos são enormes, 30, 40 anos. Na prática, não existe um americano sem um ou mais carnês, como se chamava aqui. Aliás, pode passar os verbos acima para o tempo pretérito:
Agora era 
"tinha", "vivia", "era", "pagava-se", "existia"! 

De repente, aquele crédito todo perdeu a credibilidade na praça. O irresponsável sistema acabou concedendo crédito demais a quem podia pagar de menos, os tais ‘sub-prime’, e a coisa degringolou. Neguinho começou a não honrar os compromissos, e começou a crise. As coisas vinham mal, até que os Limão Brothers perceberam a coisa azeda, mas o governo não apareceu com um açucarzinho para fazer uma limonada, e ampliou a crise. Importantes bancos de investimento quebraram em série, agências de crédito imobiliário receberam a mão do governo. O outrora poderoso Mr. Greenspan admitiu que errou lá atrás. O crédito sumiu, o pilar ruiu, o juro subiu, pqpariu, entramos em nova fase, desta vez bem mais difícil para aquele mal-acostumado povão. Dizem que tudo isso está sendo uma lição. Galerinha precisava aprender!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

AWoL - O Desperdício sagra

Pude notar que, infelizmente, a consciência ambiental ainda não bateu às portas daquele povo: aquilo ali continua sendo o paraíso do AWoWE, American Way of Wasting Energy. A refrigeração de todos os ambientes, não importa o tamanho, segue presente, o próprio edifício onde estava nosso escritório tem um átrio imenso, um enorme cubo de 12 andares de altura e uma base com área de, digamos, 800 metros quadrados, permanentemente ‘winterized’ (como eles gostam de chamar!), 40 graus lá fora, 25 graus lá dentro, aliás, quando a temperatura lá fora baixa ao Zero grau, dentro permanecem os mesmos 25 graus (será que então eles chamam de ‘summerized’?).
Este é um ponto gritante, pelo volume da refrigeração/calefação, mas o fenômeno se repete nas pequenas coisas: quartos de hotel, por exemplo, têm seus aparelhos sempre ligados, quando você chega estão ligados, e, se você desliga, conscientemente, ao sair, ele milagrosamente estará ligado quando você voltar. Nas casas das pessoas, também, a temperatura é sempre agradável, parece que a galera americana não agüenta sentir um calorzinho no verão ou um friozinho no inverno, jamais usando as facilidades que têm instaladas em casa de maneira racional.
Ainda nas casas, vem o consumo de água: todas as casas têm jardim, a maioria delas tem sistema de irrigação automático, mesmo em tempo de chuva. Então é uma quantidade obscena de água que se esvai todo santo dia. Conselhos do tipo: "Espere a chuva, as plantas não vão morrer! A grama pode até não ficar tão verdinha, mas morrer, não morre. Já viu floresta morrer? Nada, a graminha sofre, fica murchinha, mas volta à vida com a primeira borrifada, logo fica viçosa novamente. Apele para a água só depois de muitos dias de estiagem." jamais seriam aceitos pelo americano médio. E tome-lhe água!
Saindo das casas para as estradas, elas continuavam repletas de SUV´s, os famosos e enormes trucks, mania dos texanos, que bebem um mar de gasolina. Muito interessante ver aqueles gigantes parando num estacionamento, e de dentro saindo a motorista pequeninha, descendo até com dificuldade. do veículo.  Mais recentemente, teve a moda dos Hummers, aqueles paralelepípedos ambulantes horrorosos, de US$ 100.000, que consomem litros por quilômetro. Com preços proibitivos de combustível, eles ficam chorando pelos cantos. Lá, quando o spreços internacionais de petróleo sobem, o consumidor sente na bomba, e no bolso, imediatamente.

Com a volta dos democratas, um pouco influenciados por Al Gore, que não aceitou ser Vice de novo, está havendo o incentivo à economia, programas de troca de energia estão sendo implantados, enfim há uma plolítica, as montadoras estão sendo pressionadas para desenvolvimento de automóveis menos poluentes.
Acreditamos?

segunda-feira, 16 de junho de 2008

AWoL - Ensino extra

Depois do impacto, vem a constatação de que não há economia em currículos disponíveis. Não se pode reclamar da quantidade de matérias oferecidas: entre requeridas e eletivas, dá para escolher dentre um sem-número de opções, chegando ao nível das semi-profissionalizantes, como computação gráfica, culinária ou mesmo cosmética. Se a tendência do aluno é para as artes, as opções são muitas: se a criança está no ensino básico dá até para aprender instrumentos de orquestra, se entrar no ensino médio, já tem que chegar sabendo, mas ali entrando, há uma valorização fenomenal à prática musical, com apresentações periódicas, prêmios, a orquestra da escola disputa com outras do distrito, depois da cidade, depois do estado e vai subindo, afinal é a terra da competição. Bastará apenas acostumar-se a disputar espaço com o coreano, ou mais amplamemente, o oriental ao seu lado, o que não é fácil. Se não gostar de orquestra, e quer seguir música, há as bandas marciais, super bem equipadas.
Continuando no exercício artístico, há as aulas de teatro, na verdade, a bossa são os musicais, e as escolas se esmeram, chegam a montar espetáculos ao nível de uma mini-Broadway. No caso de o adolescente não cantar, ou dançar, ou interpretar bem o suficiente para fazer parte do elenco, pode fazer parte da produção, da iluminação, da sonorização, como contra-regra, enfim há lugar para todos fazerem sua parte, há quadrado para cada um achar o seu. Inclusive os tocadores de instrumentos modernos, tipo guitarras e bateria, podem levar o seu quinhão, acompanhando os musicais, juntamente com uns poucos membros da orquestra da escola. Meu filho tocou violino num edição de Hello Dolly.
 Se mudar de canal, para o exercício físico, o esporte é super incentivado, desde que tenha o rapaz ou a moça um desempenho razoável nas matérias básicas Todos os tipos de esportes são oferecidos, mesmo o futebol de verdade, aquele jogado com os pés, que lá é muito bem desenvolvido no lado feminino, onde são ou foram campeões mundiais. Para as mocinhas, há também uma instituição típica americana, que pode mesmo ser considerado um esporte: elas podem ser ‘cheer-leaders’ E elas treinam muito, são fundamentais no incentivo aos esportes que são praticados nos ginásios, ou até mesmo nos estádios, que são parte constante das escolas, sempre construídas em grandes espaços. Realmente só há o que elogiar. E a exigência de bom desempenho escolar faz com que os atletas não restrinjam o sucesso a seu tempo de esporte, seja amador ou profissional. Durante a universidade há campeonatos seríssimos e muito bem cotados, com transmissões pela TV em nível nacional. E eles só podem passar ao nível profissional se ralaram um tempo na universidade, ao menos essa é a regra. Ao final da universidade, mesmo que não emplaquem em um dos times profissionais, o que os levaria a serem milionários, a educação que tiveram faz com que sigam em outras carreiras, ou mesmo no esporte, como comentaristas bem preparados, e falando corretamente o idioma, coisa que é rara acontecer por estas nossas bandas tupiniquins.

AWoL - Ensino para todos

Conversei com colegas que estavam vivendo suas experiências daquele modo de vida, e pude compartilhar com eles as vividas por mim e por outros colegas que lá estiveram. O sistema de ensino excepcional que atende a todos, sem distinção de nacionalidade, raça, renda ou cor, se bem que neste último quesito, fica claro o preconceito, apesar do direito oferecido. Ocorre a distinção, a começar na classificação ao se fazer a matrícula,. O pior é que  misturam cor da pele com origem, na separação por grupos étnicos, os 'hispanic', os ‘native americans’, os ‘caucasians’, os ‘african americans’. Fica difícil posicionar a nós, humildes brasileiros, que também somos latinos, mas não 'hispanic',  e somos brancos mas não 'caucasians', negros mas não 'african american'. E os brasileiros mulatos, então? A dificuldade é grande e a gente acaba se auto-classificando como 'others'. Depois, tem-se que agüentar as estatísticas de desempenho de seus filhos, separadas pelos mesmos grupos étnicos, fazer o quê.
A escola pública é de ótimo nível, e só vai para a escola particular quem pode pagar, e não gosta do convívio de suas crianças com gente de classes inferiores, ou mesmo, se não quer saber de mistura com gente de outros países. Ressalte-se que todos são bem tratados, venham daonde venham, há até mesmo programas para os recém-chegados que ainda não dominam a língua inglesa, o ESL – English as a Second Language. Meus dois filhos passaram um tempo lá, mas logo saíram para as classes normais.
Colegas recém-chegados passaram pelo desespero inicial da criança, acostumada a ter uma sala da turma onde ela permanece sentada, quietinha, aguardando os professores das diversas matérias, e encontra um esquema exatamente ao contrário, onde os professores é que ficam quietinhois, e as turmas se movimentam em busca da sala do professor da matéria, numa balbúrdia imensa a cada intervalo. Entretanto, a criança acaba logo se acostumando, pois além de usar a agitação da troca de salas para espantar o sono, reconhece logo que, didaticamente, é bastante conveniente o professor dispor de uma sala só para a sua matéria, já pronta com decoração e aparelhagem destinados a aumentar o conteúdo da aula.
 Neste quesito chegada, tive um episódio interessante. Antes da descrição, uma contestação: se você está direito as coisas acontecem direito, e rápido. Cheguei aqui de mala e cuia, com a família, no dia ZERO, matriculei meus filhos no dia UM, e eles foram à escola no dia DOIS. Claro que eu estava com a documentação toda em dia, currículo escolar traduzido oficialmente, atestados de vacina preenchidos, enfim, tudo nos conformes. Bem ,foi assim, fácil, mas na noite do dia DOIS, encontrei meus dois filhos chorando em casa. Eles demoraram muito a se acostumarem: TRÊS dias inteiros. Na tarde do dia CINCO, um sábado, estava com meu filho no game-room (outra instituição americana), jogando ping-pong (numa mesa que foi minha primeira aquisição naquelas terras) quando, logo antes de dar um saque, meu filho apoiou a raquete na mesa e disse: “Sabe, pai, acho que vamos ser felizes aqui!”. Não preciso dizer que os olhos marejaram imediatamente, assim como estão agora, ao escrever estas linhas.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

AWoL - Ensino para Todas as Raças.

Conversei com colegas que estavam vivendo suas experiências daquele modo de vida, e pude compartilhar com eles as vividas por mim e por outros colegas que lá estiveram. O sistema de ensino excepcional que atende a todos, sem distinção de nacionalidade, renda, origem, o raça. Se bem que nestes últimos quesitos, fica claro o preconceito, apesar do direito oferecido. Ocorre a distinção, a começar na classificação ao se fazer a matrícula, em que se procura separar por grupos étnicos, e o problema e que misturam raça com origem. Há os 'hispanic', os 'asian', ‘native americans’ - os índios, os ‘caucasians’, os ‘african-americans’, fica difícil posicionar a nós, humildes brasileiros,   que somos brancos mas não somos do 'cáucaso', somos negros ou mulatos mas não 'african-american', somos nisseis, mas não 'asian'. A dificuldade é grande e tem os que se auto-classificando como 'others'. Depois, tem-se que agüentar as estatísticas de desempenho de seus filhos, separadas pelos mesmos grupos étnicos, fazer o quê.
A escola pública é de ótimo nível, e só vai para a escola particular quem pode pagar, e não gosta do convívio de suas crianças com gente de classes inferiores, ou mesmo, se não quer saber de mistura com gente de outros países. Ressalte-se que todos são bem tratados, venham daonde venham, há até mesmo programas para os recém-chegados que ainda não dominam a língua inglesa, o ESL – English as a Second Language. Como foram os meus filhos, assim que chegaram lá.
Colegas recém-chegados passaram pelo desespero inicial da criança, acostumada a ter uma sala da turma onde permanece aguardando os professores das diversas matérias, e encontra um esquema exatamente ao contrário, com turmas se movimentando em busca da sala do professor da matéria, numa balbúrdia imensa a cada intervalo, mas logo se acostumando, pois além de usar a agitação da troca de salas para espantar o sono, reconhece logo que, didaticamente, é bastante conveniente o professor dispor de uma sala só para a sua matéria, já pronta com cartazes e aparelhagem destinados a aumentar o conteúdo da aula.
Neste quesito chegada, tive um episódio interessante. Antes da descrição, uma constatação: se você está direito, as coisas acontecem direito, e rápido. Cheguei aqui de mala e cuia, com a família, no dia ZERO, matriculei meus filhos no dia UM, e eles foram à escola no dia DOIS. Claro que eu estava com a documentação toda em dia, currículo escolar traduzido oficialmente, atestados de vacina preenchidos, enfim, tudo nos conformes. Bem foi assim, fácil, mas na noite do dia DOIS, encontrei meus dois filhos chorando em casa. Eles demoraram muito a se acostumarem: TRÊS dias inteiros. Na tarde do dia CINCO, um sábado, estava com meu filho no game-room (outra instituição americana), jogando ping-pong (numa mesa que foi minha primeira aquisição naquelas terras, com o primeiro desafio do do-it-yourself ao montá-la) quando, logo antes de dar um saque, meu filho apoiou a raquete na mesa e disse: 
“Sabe, pai, acho que vamos ser felizes aqui!”. 
Não preciso dizer que os olhos marejaram imediatamente, assim como estão agora, ao escrever estas linhas.

AWoL - Ensino Público em todo lugar


Nos EUA, vale o princípio que toda-criança-tem-que-estudar. E eles ficam em cima para que isso ocorra. Não se vê crianças perambulando pela rua. Veja  só um episódio que ocorreu com um amigo. Certo dia, sua filha brincava na rua, pois a mãe havia deixado que ela faltasse à aula para aproveitar os últimos momentos com uma amiguinha que iria embora naquele dia. Uma patrulha parou, pediu que os levasse à casa, onde deram uma lição à mãe: “...criança que não está na escola, tem que ficar dentro de casa, nunca na rua!”. Até parece um país que conhecemos bem! 

Uma coisa interessante é que a criança, se os pais quiserem usar o ensino público, TEM QUE estudar na escola do bairro. Isso resulta num aumento dos aluguéis em regiões que têm escolas melhores. E resulta também que todos os bairros, ou neighborhoods, como eles chamam, têm que ter uma escola, o que só pode ser saudável para a educação no país. E evita que as crianças se submetam a longos períodos de tansporte escolar, diminuindo o custo do mesmo, além do risco de acidentes. Vide o que aconteceu aqui, am 2010, quando uma van ilegal capotou na Linha Vermelha, lotada de crianças. O que estava fazendo a van na Avenida Brasil? Levando crianças de um bairro que não tinha escola decente para outro bairro que supostamente tinha. A norma torna obrigatório o investimento em educação. E causa transtornos para os que não estão acostumados, como nós. 

Veja o que ocorreu com um amigo brasileiro: tendo que mudar-se de sua casa por ela estar afundando (isto mesmo, acontecia muito em Houston!), mudou-se para uma outra muito próxima. Quando foi informar à escola das crianças a mudança de endereço descobriu que a nova casa, apesar de próxima à antiga, já havia passado a jurisdição coberta pela escola, e portanto, das duas uma: ou se mudava de novo, ou mudava as crianças de escola. Não houve conversa, influência, consulado, bispo, papa que demovessem a direção da escola de aplicar a lei, e ele teve que optar pela opção 2, já que a opção 1 demandaria o pagamento de pesada multa de rescisão!

Lei, Lá, é Lei, não tem jeitinho...

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Afagando Afegãos Afogados

Nestes últimos anos, temos sabido mais sobre a história do Afeganistão, aquele sofrido país asiático, do que sobre a nossa própria. Começamos a perceber sua existência em 2001, quando suas cavernas viraram esconderijo de Bin Laden, e tornaram-se o alvo preferido dos caças americanos. Depois, veio "O Caçador de Pipas", espetacular livro de Khaled Hosseini, médico afegão emigrado para os EUA, contando a saga do país ao longo de três décadas, através da visão masculina, de um garoto rico Amir e seu amigo de infância, o pobre e muitas vezes sábio Hassan. Somos apresentados a uma situação inicial de prosperidade, antes da invasão soviética, os anos de atrocidades dos russos e seus rifles Kalishnikov, o financiamento dos americanos para derrubar os soviéticos, enchendo o próprio Bin Laden de armas, depois a expulsão dos soviéticos pelos musharedin, mas ao mesmo tempo a falta de coesão entre quatro grupos rivais, e o estabelecimento de uma guerra civil sem limites; e quando finalmente uma das facções prevalece, quem vem é o Talibã, com as mais rígidas regras muçulmanas da face da Terra.  Neste livro, há um enfoque mais para a legião de refugiados, mais de dois milhões de afegãos, que simplesmente quiseram tentar escapar do massacre, e foram tentar a vida no Paquistão, Irã e uns poucos que foram para os EUA e outros países de primeiro mundo, então o terror no país natal é contado, em boa parte, como um flashback do narrador, que assiste boa parte do que se passa de longe.                 
O autor é brilhante no envolvimento do leitor com sua estória, a gente não consegue parar de ler. O relato é tão pungente que nos faz crer tratar-se de uma autobiografia (será que ele não teve o seu Hassan, na verdade?). O livro foi um enorme sucesso no mundo todo (vendeu 8 milhões de cópias). Eu lia e imaginava as cenas num filme, o filme acabou saindo, eu muito esperei por ele e quando ele foi lançado, eu não assisti. Pode?
À época, já fazia sucesso o segundo livro de Hosseini, "A Cidade do Sol", mais um romance, também contando histórias do seu país, de novo ao longo de 3 décadas, mas, desta vez, sob o ponto de vista de duas mulheres, e sob a ótica de quem ficou, porque quis ou porque não conseguiu fugir. Por este motivo, aparecem mais detalhes sobre o sofrimento da população civil, que era mutilada por minas e bombas, mulheres estupradas na frente dos maridos e filhos antes da execução destes, sumária, pessoas comuns servindo de tiro ao alvo dos atiradores das montanhas, esse era o dia-a-dia do povo afegão. Por se tratar de personagens femininos, fica-se mais envolvido com o livro, afinal, se há uma espécie que sofre com o Afghanistan Way Of Life, é a "ser humana", tratada como inferior, do começo ao fim da vida. O comportamento ocidental era admitido antes das guerras e revoluções, mas a maioria das mulheres submetia-se à rigidez islâmica dos casamentos combinados, namoros furtivos, esposas múltiplas, discriminações, o papel das mulheres, e da falta de liberdade, mas com a chegada dos talibãs, a coisa chegou ao absurdo, já que eram o principal alvo da política radical islâmica.
Para as mulheres, a lista de proibições era extensa, a começar pelo uso de coisas simples como cosméticos, jóias e roupas "atraentes", mas chegando a condutas de comportamento: meninas estavam proibidas de freqüentar escolas, adultas de trabalhar, e de dirigir o olhar a nenhum homem. Só podiam falar quando lhes dirigissem a palavra. Rir em público levava ao espancamento in loco, mesma punição se caminhassem sozinhas, sem o acompanhamento de um macho da família, e claro, portando aquela burqa completa, a da telinha. Unhas pintadas levariam ao decepamento de um dedo da condutora do abuso, e adúlteras seriam apedrejadas até a morte (no estádio de futebol, fiquei sabendo depois). Para todos, homens e mulheres, o ladrão tinham a mão decepada e, na reincidência, um pé. Isso, sem contar as inadmissíveis restrições a qualquer forma de cultura (canto e dança eram proibidos) ou lazer (jogar cartas, xadrez, apostar, soltar pipas, também) ou religião não muçulmana (lembram-se dos Budas gigantes destruídos?). Para os homens, havia a obrigação do uso de turbantes, e a exigência ridícula de cultivar barba comprida "... até pelo menos um punho fechado abaixo do queixo" (pobres imberbes eram espancados diariamente!). As restrições chegavam mesmo a detalhes pueris como: é proibido criar periquitos.
A descrição do sofrimento das personagens principais do livro, Mariam, uma filha bastarda de um rico homem de negócios, e Laila, uma linda menina loira filha de um ex-professor, toca fundo, e faz com que mais uma vez a gente se torne um chain reader, devorando uma página atrás da outra. O livro foi lançado em 2007 e está seguindo a trilha de sucesso de seu antecessor.                                  
Entre os dois romances, passei pela vida real, primeiro pelo relato de uma repórter norueguesa Åsne Seierstad, que conseguiu convencer "O Livreiro de Cabul" a deixar que se hospedasse em sua casa, para experimentar um pouco da vida de uma família afegã, obteve a autorização para contar ao mundo e acabou produzindo um grande livro, best seller desde que foi lançado em 2002. Ela vestiu uma burqa e ganhou a confiança das mulheres, e até mesmo de alguns dos homens da casa, e contou no livro tudo o que viu e ouviu, às vezes usando detalhes sórdidos. Usou nomes falsos para proteger a identidade dos envolvidos, o que, claro, não conseguiu, e acabou provocando a ira do cabeça da família, o verdadeiro livreiro, cujo nome era Shah Muhammad Rais, que se arrependeu profundamente da autorização concedida, processou-a no seu próprio país e disse "Eu Sou o Livreiro de Cabul", indignado, em um outro livro, tentando desmentir algumas das histórias, e reclamar do jeito que ela descreveu outras, enfim, quem mandou confiar em jornalista?                                        
Enfim, quatro obras, cada uma com seu estilo, suas qualidades e defeitos, a afagar (sic) o espírito de um povo afogado (sic) em guerras há décadas, que hoje, pelo menos, está livre dos talibãs (ao menos para alguma coisa, Bush serviu!), mas longe de se tornar um local de vida digna para seu povo! Dificilmente, tantas feridas serão cicatrizadas a curto e médio prazo. Há a necessidade de reconstrução do país, que não é nada brilhante em riquezas naturais, e dependerá muito de ajuda externa. Ao menos, a insistente obra literária serve para que o resto do mundo veja o país com olhos de compaixão. Se fluidos positivos ajudarem de alguma forma, o serviço certamente foi feito.
Aproveito o ensejo para comentar: se você quer ler um livro e aproveitar todos os seus momentos de apreensão, suspense, e ter toda a surpresa que o autor programou para você, não leia a resenha do Wikipedia! Ela entrega tudo! E aí você será limitado apenas a apreciar o estilo, tudo bem, mas não terá extraído todo o prazer possível da boa leitura. Na verdade, estendo minhas restrições até a orelhas: não vou muito pelo antigo ditado que diz que você identifica um bom livro pela sua  orelha (a do livro, claro!). No caso dos livros recomendados, elas não estragam os momentos principais, não revelam os segredos, mas falam sobre certos momentos cruciais, que eu preferiria não ter sabido de antemão.
Acabo minha dica, voltando a falar do Afeganistão, sobre um livro que ainda não li, escrito por uma iraniana, Siba Shakib, cujo título penso resumir bem o que é a vida daquele povo:
Deus veio ao Afeganistão e chorou