Renata esteve no Acre a divulgar seus livros,
Eles vêm apresentando um crecimento consistente.
O título deste ensaio, nada original, roubo-o de uma música de Chico César por ser sonoro, e por ser um pouco a expressão da verdade. Não sou um especialista em África, mas posso dizer que aquele é um país que tem futuro. Visitei o Senegal em 2006, a trabalho (claro!). Foi o sexto país africano que visitei, e me deixou boa impressão. Foram somente dois dias em Dakar, portanto, não se espere um diagnóstico vasto e preciso. E calma, o país está longe de ser uma Namíbia, que a colonização alemã deixou mais ou menos em ordem, “limpinho, nem parece África!”, como nosso atual presidente falou ao lá chegar em visita de seu primeiro mandato. Os senegaleses continuam sendo pobres, mas têm alguma perspectiva. Ou seja, não é a melhor coisa do mundo, mas é legal.
O Senegal é aquele país na pontinha mais ocidental da África, e sua capital Dakar, localiza-se bem na tal pontinha, é o ponto africano mais próximo da América do Sul. Ponto estratégico, meio caminho entre este continente e a Europa, Dakar foi por muito tempo utilizada como ponto de reabastecimento em viagens de avião entre os dois continentes. Seu mapa político é muito interessante, pois aparece uma língua mais para o sul, que não é Senegal, e sim outro país, Gâmbia, ao redor do rio do mesmo nome. Se observar-se bem o mapa, o conjunto Senegal / Gâmbia assemelha-se ao rosto de uma velha, de perfil, olhando para o oeste, sendo o nariz a pontinha de Dakar, e o traço da boca, Gâmbia. Interessante que notei isso logo de cara, e falei a meus interlocutores, que acharam o máximo, nunca haviam percebido, nem mesmo os locais. Etnicamente, são exatamente o mesmo povo e falam exatamente a mesma língua nativa, o Uolof, mas por resquícios da colonização, na “boca” fala-se o inglês, no “resto do rosto”, o francês. Aliás, a configuração lingüística desta minha missão foi bastante confusa: acompanhava-me um italiano, num país de língua francesa, com os negócios sendo tratados na língua do petróleo, que é o inglês, que bom, pois não falo a língua do biquinho, mas tentava un peu, com as 17 palavras de meu vocabulário francês, e ainda arriscava de vez em quando um italiano nas conversas com meu camarada, e quando eu não sabia a palavra correta, ia buscar lá no espanhol. Então, uma verdadeira salada!No aeroporto de Dakar, entretanto, você não sente o assédio das pessoas querendo vender algum tipo de serviço. Você passa pela alfândega, direitinho, sem visto (se tiver Passaporte de Serviço), não tem ninguém querendo extorquir dinheiro. Você pede uma informação, o sujeito dá, sem pedir nada em troca, você pega sua mala, não aparece ninguém querendo ajudar, passa a mala num raio-x, portanto sem niguém querendo abrir pra ver “se tem alguma coisa interessante” pra achacar. Ou seja, não tem que ter os famosos “cem dólahh” no bolso, pronto pra facilitar as coisas. Com relação à arquitetura, o terminal de desembarque ainda tem a cara “This is Africa”, meio caído, já o terminal de embarque é todo novo, informatizado, cheio de mármores e luzes, como qualquer outro aeroporto decente. Poderiam ter começado a reforma pelo outro, que já seria um excelente cartão de visitas.
Deveras tranqüilizador, não? No Senegal, a coisa não é tão catastrófica assim, têm incidência apenas em partes do ano, mas, como alerta a nota, é uma endemia. E, se existe a expressão “calor senegalês” é porque certamente, tem épocas do ano em que faz um calor bem propício para a proliferação dos mosquitos.
Quando voltamos à sala, reiterou as desculpas pela interrupção. Enquanto tratávamos de nosso assunto, desfilava uma impressionante sequência de números, contando seus planos para o país. O país estava sendo reconstruído, como percebemos nas ruas. Seu conhecimento de finanças faz com que consiga altas somas de financiamentos externos (citou muitas cifras). O que mais impressionou foi quando disse que estão plantando o futuro, dedicando 40% (!!) do orçamento nacional para educação e 10% (!!) para a saúde. Que tal? Parece até mesmo um certo país de dimensões continentais que conhecemos aqui do outro lado do Atlântico, não? Bem, na verdade, aqui não precisamos disso tudo, temos excelentes resultados nos concursos internacionais de matemática e ciências....
Contou que o Presidente, apesar de seus 82 anos, também tem esse pique, só que vai até as duas da manhã todos os dias. Disse que foram companheiros de luta e juntos ficaram na prisão, por mais de um ano. Disse que sua luta agora é contra o tempo. Diz: “We have a country to run!”. Não admite que se viaje dois dias para ter reunião em um e se retorne somente no dia seguinte: ele viaja de noite, passa o dia em reuniões e volta na noite seguinte. Reuniões em países árabes, aproveita para marcá-las em fins de semana, que são dias normais naqueles países. Quando volta, segue o ritmo normal de trabalho. Não há tempo a perder. Só falta Allah dar uma ajudazinha com o petróleo. E estávamos lá para tentar ser Sua mão. Inshallah!
A explicação para esse movimento todo remonta aos tempos de Abrahão. Aquele profeta existiu antes da separação entre as três grandes religiões monoteístas de hoje: judeus, católicos e muçulmanos veneram Abrahão como um dos pais de sua religião. Diz a lenda que, para testar a fé do profeta, Deus ordenou a Abrahão que sacrificasse seu filho Isaac. O profeta não pensou duas vezes, pegou da espada, levantou-a sobre a cabeça do filho, e quando ia desferir o golpe, um anjo o impediu. Deus considerou prova de fé suficiente, e aceitou o sacrifício de um cordeiro Cada chefe de família repete o gesto de Abrahão, a Sunna, ali mesmo, no meio da rua. Faz parte do ritual a preparação da carne, depois de tirar a pele e os internos, que será dividida em três partes e dada aos pobres, aos parentes e para a própria família ao longo da semana seguinte. Como nem todos têm animais, as últimas semanas antes da festa são tomadas pelo comércio, daí a enormidade de caprinos que invadiu as ruas, vindas do campo, num mercado a céu aberto. Outros países muçulmanos também seguem o costume, Líbia e Paquistão, por exemplo. Pelo que soube, não precisa ser cabra, pode ser ovelha, boi, enfim, pobres sacrificandos!
Que bom que a coisa iria acontecer apenas no dia seguinte, o 17 de novembro.
Enfim, esse era o recado. Claro que o Senegal não é uma Brastemp, mas certamente estava-se traçando o caminho para se tornar. À época...
O feriado religioso é móvel. Neste ano da graça de 2026 foi em maio.
Aquelas autoridades que conheci ficaram por mais 6 anos, e transmitiram
o poder pacificamente ... ou quase!!
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Senegal é considerado o caso mais estável da África Ocidental, mas os últimos 20 anos foram agitados.
Resumo direto 2006-2026:
1. Abdoulaye Wade (2000 - 2012)
Estava no poder desde 2000. No final do segundo mandato, tentou um 3º mandato em 2012, argumentando que a mudança constitucional de 2008 zerava a contagem.Isso gerou os protestos do movimento M23. Muita tensão, mas ele acabou perdendo a eleição.
2. Macky Sall (2012 - 2024) - 12 anos
Chegou com promessa de reduzir mandato de 7 para 5 anos e de não fazer mais que 2 mandatos. Fez a reforma para 5 anos, mas manteve seu primeiro mandato de 7 anos. Período de muito crescimento econômico (PSE - Plan Sénégal Emergent), obras grandes, mas também acusações crescentes de autoritarismo e de prender opositores. O ponto mais crítico foi 2023-2024: o principal opositor, Ousmane Sonko, foi condenado e preso, o que o tirou da disputa. Protestos violentos com dezenas de mortes. Em fevereiro de 2024, Macky tentou adiar a eleição presidencial de 25 de fevereiro para dezembro, o Conselho Constitucional barrou como golpe institucional. Foi o maior crise constitucional da história do país.
3. Bassirou Diomaye Faye (2024 - atual)
Eleição finalmente em 24 de março de 2024. Uma virada histórica: Bassirou Diomaye Faye, braço-direito de Sonko, que tinha saído da cadeia há 10 dias, venceu no 1º turno com 54%. É o presidente mais jovem da história do Senegal (44 anos na época) e o primeiro que nunca tinha tido cargo público antes.A transição foi pacífica: Macky Sall reconheceu a derrota no mesmo dia e entregou o poder em 2 de abril de 2024.Faye nomeou Sonko como Primeiro-Ministro. Desde então governam com discurso de ruptura, soberanismo econômico, auditoria dos contratos de petróleo/gás e renegociação com França.
Então: de 2006 pra cá foram 3 presidentes, 2 alternâncias de poder completas, todas por voto, mesmo com crises fortes em 2011-2012 e 2023-2024. É por isso que o Senegal mantém a fama de exceção democrática na região, onde os vizinhos (Mali, Burkina, Níger, Guiné) todos tiveram golpes militares nesse mesmo período.







