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terça-feira, 8 de setembro de 2015

Kirk e Spock – Como tudo começou

Hoje, 49 anos depois do primeiro episódio de Jornada nas Estrelas
na TV americana, republico este texto, escrito em 2009, que traz um resumo do fenômeno

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Vem aí o 11º filme da série Jornada nas Estrelas.
Depois de seis longas com a tripulação original e quatro com a Nova Geração, o filme que estréia nesta sexta-feira mostra como foi o começo das carreiras espaciais dos dois principais nomes de toda a história dos que foram, audaciosamente, onde nenhum homem jamais esteve, em busca de novos mundos, novas vidas, novas civilizações, numa missão prevista para durar cinco anos, e que já passou dos quarenta: Capitão Kirk e Sr. Spock.
Há 43 anos, o mundo conheceu a Nave Estelar Enterprise, e começou a admirar a impagável relação entre o seu Comandante, o intrépido e intuitivo humano James Tiberius Kirk, e seu Oficial de Ciências, o racional e lógico vulcano Sr. Spock, com suas orelhas pontudas. Este último, nada surpreendente que fosse racional e lógico, afinal as duas virtudes estão no sangue de quem nasce em Volcano, e na educação que recebem, na doutrina que é seguida por todos. O que deixava a personalidade de nosso Spock mais fascinante é que ele tinha um pezinho na África, digo, na Terra: seu pai Sarek encantou-se com a malemolência de uma professora terráquea, e deu uma daquelas escorregadas a la Lugo, o bispo matador, que pecou pois o voto de castidade que tinha era paraguaio. Brincadeira, a coisa era séria, e eles eram casados de papel-passado, lá no planeta Vulcano, que só tinha gente séria!
Então, o interracial estelar Spock vivia em batalhas internas para tentar entender como pensava seu capitão, que fazia às vezes coisas contrárias à boa norma lógica e era bem sucedido. Spock pensava nas probabilidades, Kirk contava com a sorte. Os papos entre os dois personagens eram sempre pontilhados de ironias em que as diferenças entre humanos e vulcanos apareciam. E aos poucos, Spock foi aceitando Kirk como um amigo, coisa impensável se ele fosse um puro-sangue: em seu planeta natal, a amizade era um sentimento irracional.
A interracialidade era uma constante na tripulação da Entreprise. Seus principais tripulantes, além do americano Kirk, e do extraterreno Spock, eram o médico americano McCoy, o inglês Scott, o russo Chekov, o japonês Sulu e a africana Uhura. Duas coisas impensáveis à época: em plena guerra-fria, um russo numa posição de comando à frente de americanos, e, num país que um ano depois mataria o líder negro Martin Luther King, uma mulher negra cohabitava com não-negros em posição de comando. O próprio Dr. King elogiou a série por isto e, mais especificamente, por ter veiculado a primeira cena de beijo interracial na TV americana, entre a Tenente Uhura e o Capitão Kirk, que era o galinha da série.
Legal pensar num mundo em que não existe o dinheiro, as necessidades de todos são atendidas, as doenças do planeta já estão todas mapeadas e curáveis. Um mundo sem países ou religiões, onde todos pertencem apenas à raça humana.  Americano, Russo, Japonês são apenas referências geográficas, a coisa subiu um nível, e o importante é saber se o indivíduo é Humano, Vulcano, Romulano ou Klingon. Ao escrever-se um endereço numa correspondência, tem que se acrescentar não o poaís em que se vive mas .... ‘Terra’. Eu associo sempre o universo de Jornada nas Estrelas à letra de 'Imagine' magistral composição de um Lennon, em sua carreira solo.
A série durou apenas 3 temporadas, teve um relativo sucesso, mas não o suficiente para uma quarta. A admiração somente apareceu mesmo, e em níveis de histeria coletiva, quando ela começou a ser reprisada, nos anos iniciais da década de 1970. Termos como phaser, teleporte, dobra espacial, começaram a ser entendidos por mais gente. A coisa virou febre, fã-clubes pipocavam nos Estados Unidos e ao redor do mundo. Kirk, Spock e sua turma viraram ícones.
Os principais reponsáveis pela febre tiveram reações díspares ao fenômeno. William Shatner chegou a rejeitar a fama de Kirk, temeroso por ficar eternamente atrelado à imagem do personagem, criticava a onda, e dedicava aos que se aproximavam dele por causa de Kirk um mal-educado: "Get a life!". Entretanto, logo percebeu que a coisa era inevitável e que poderia seguramente se dar muito bem com o fenômeno, e acabou se rendendo às evidências, aparecia nos festivais de Star Trek, e era ovacionado, enfim, acabou gostando da coisa.
Já Leonard Nimoy foi mais resistente. Ator respeitável com uma carreira sólida no teatro, não admitia de jeito nenhum que ficasse eternizado apenas como o-ator-que-um-dia-interpretou-Spock. Ele chegou a escrever um livro intitulado "I Am Not Spock", que provocou uma revolução na comunidade, crises de choro convulsivo, cartas de decepção chegavam aos borbotões em sua caixa de correio. Ele acabou voltando ao grupo para as filmagens do cinema, dirigiu dois dos seis filmes iniciais, que tiveram grande sucesso, e acabou por resolver o conflito interior, quando lançou um segundo livro sobre o tema, quase 20 anos depois do primeiro, desta vez intitulado: "I Am Spock"!!! 
Aquela não foi a única falha de avaliação de Nimoy com relação à franquia: foi-lhe oferecido participar da produção de uma segunda série de Star Trek, "The Next Generation", por volta de 1985, e ele recusou, achando ser impossível que a coisa desse certo uma segunda vez. E deu!!! 'A Nova Geração' ficou bem oito anos em cartaz na telinha e ainda ganhou o direito de perpetuar a série na telona. Muito por causa do charme de shakespereano ator Patrick Stewart e seu francês capitão Jean Luc Picard, e da simpatia do andróide que queria ser humano, Data! Aliás, este último deve ter sido uma das razões para o fim dos filmes, afinal estava difícil manter o ator que fazia o papel de andróide com a cara imutável, já estava ficando constrangedor. Além disso, contribuiu o pouco sucesso do 10º filme.
O fato é que  que arrumaram uma boa linha de continuação da magia, justamente tentando recuperar a mágica interação entre os dois títeres, Kirk e Spock, contando como tudo começou. O resultado foi ótimo. Depois falamos sobre isso.  
E o nome do filme é bastante interessante, super-apropriado para quem queria um recomeço....
... simplesmente ...
“Jornada nas Estrelas”.
Podemos embarcar novamente!
Beam me up, Scotty!


14 comentários:

  1. Sei que apenas parte dos seus leitores são aficionados da série, mas seria interessante também um post sobre as impressões após assistir ao filme.

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  2. Minha neta está se interessando pelo tema estelar.

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  3. Oba!! Legal, acho que os seriados ficaram meio chatos, os filmes no cinema são mais legais..Tomei conhecimento da série na década de 70, nem sabia que já era repriese...achava o máximo aquelas viagens interesrelares! Depois eu vi um pouco o seriado novo com o Data, e os filmes, claro! Fiquei arrasada com a morte do Spock, mas para felicidade geral, ressucitaram ele...
    BJs, e obrigada pelas notícias cinematográficas!

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  4. Um dos pontos mais importantes da segunda série e que foi pouco comentado foi a "regra máxima": Ao entrar em contato com outras civilizações, era proibido intervir na mesma de forma a tentar reproduzir seus próprios valores naquela cultura.

    Esta regra deveria ser copiada pelos EUA em suas inúmeras aproximações e intervenções em outros paises.

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  5. Homerix, realmente minha praia não é muito de Beatles, John, etc...Mas quando falamos de Star Trek ou JB (os dois) aí realmente me interessa muito! Bom, também adorei a crònica do Rio e o Mar (lembrava dela), as fotos da noite da Renata (adorei a filhinha da Suzi e Da. Mira lá presentes). Mas os comentários sobre ST estão sensacionais, com detalhes que jamais havia imaginado...O comentário sobre o envelhecimento do Brent Spiner é awesome! Comento mais no e-mail...Para dar graça. Abçs, Arnaldo Coelho

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  6. E aquelas outras séries todas derivadas do fenômeno? Perdi até a conta: Deep Space 9, Voyager, aquela da primeira Enterprise... Acho que Star Trek e Star Wars marcaram definitivamente a minha infância!

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  7. Muito boa matéria, como todas que você faz. É sempre bom relembrar a história desta série.
    Abraços
    Beto Brito

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    1. Minha serie favorita e a voyager , janeway e sua trip me encantam.

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  8. Estou de luto também!!!! triste demais.
    Carol

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  9. Marcos Archer Salgado1 de março de 2015 21:04

    Dia triste para todos os entusiastas da série.

    LLAP.

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  10. Homerix,

    Excelente postagem, que permite um momento de alienação da situação dramática que vivemos atualmente, desde a triste situação dos imigrantes que, deseperadamente, estão das atrocidades dos radicais terroristas que assaltam o direito de ir e vir; quer da situação em que os 12 doze anos de política equivocada, por falta de um melhor eufemismo que seja publicável.

    Um bom filme a resgatar, em alusão à situação do Brasil, seria "Perdidos no Espaço". A propósito, não faltarão analogias para o Sr. Smith, tampouco para o simpático robot e seu bordão "perigo, perigo, não tem registro".

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  11. Viajei, na máquina do tempo, para 1970 e Que Boas Lembranças e que Saudades!!!!!.... Brigadãoooooo!!!!... Abs.

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  12. Kirk não era apena O galinha. Parece também que era A galinha...

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