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quinta-feira, 15 de março de 2018

Buen Camino Tomorrow

Até chegar à explicação do título, um breve relato, afinal, a forma foi inusitada.

Estava eu fazendo entregas do CD Primavera nos Dentes (banda de meu filho que reviveu Secos&Molhados em novíssimas interpretações) quando passo na baia de um velho amigo, da época em que fui gerente financeiro, no início deste século, o Macena. Papo vai, papo vem, ele abre a estante dele e de lá tira um livro, este da foto, abro e me espanto: na página inicial está uma dedicatória do autor a mim! Que honra!! É que Macena fora ao lançamento do livro desse amigo, e resolveu comprar um exemplar pra mim, que legal!!! Agradeci e coloquei na fila!!

Conheci o Caminho de Santiago através da leitura de ‘Diário de Um Mago’, primeiro livro de Paulo Coelho, que ninguém deu atenção, mas que foi relançado com força somente após o estrondoso sucesso de ‘O Alquimista’, este simplesmente  um dos 10 mais vendidos da história da humanidade. Depois, sempre ouvi alguns relatos de quem se embrenhou na empreitada, mas nunca havia me chegado às mãos um livro de um ser humano comum com essa descrição. E após ler uns dois livros que estavam na fila, embrenhei-me na leitura do relato. E gostei muito.

Começa com a história de Iago, apóstolo irmão de João, que também virou São. De como suas peregrinações ultimaram com sua decapitação por causa da palavras de Cristo, de como seu corpo foi encontrado centenas de anos depois justamente na região de Compostela. De como Tiago é conhecido nos demais países, de Iago a Jacob, do Saint Jacques francês, até parar no Saint James inglês. Vejam que interessante (e isso minha filha alertou): o nome original é Iago, depois que virou santo, Santo Iago, que com o uso virou Santiago, e, na volta San Tiago, ora.

A seguir, conta como começaram as peregrinações e das diversas lendas, algumas muito interessantes, inclusive de uma em que ele teria incorporado um rei guerreiro em uma batalha que expulsou definitivamente os mouros da Península Ibérica, mas 800 anos, eu digo OITOCENTOS ANOS, veja bem, os mouros dominaram Portugal e Espanha por mais tempo que a história do Brasil!!! Outra coisa interessante que minha filha me contou é que Cleópatra está mais próxima da criação do MacDonalds do que da construção de Qéops, Quéfren e Mikerinos!!! O tempo passa!!  Bem, por conta daquela incorporação vitoriosa, ele é conhecido por Santiago Matamoiros!!!  Adorei saber nessa parte do livro da existência de expressões alternativas da crucificação, uma delas com a cruz em formato Y, e outra tradicional, mas com um dos braços de Cristo solto, já com a cravelha na mão, como se houvesse caído.

Depois, os preparativos, afinal deve-se escolher bem o tênis e as meias que se usará ao longo de 800 km de caminhada. E colocar na mochila o equilíbrio ideal entre coisas que se vai precisar, mas não tudo que é preciso, pra não ficar muito pesado.  E são 805 km porque ele escolheu o caminho francês (só porque começa na França) mas é percorrido quase integralmente no norte de Espanha. Há outros caminhos, menores e maiores, o menor deles, pra ser considerado válido, e ganhar o ‘diploma’, é de 100 km. O maior deles fica a critério do peregrino. Seja qual for, o Caminho de Santiago se enquadra entre os três mais importantes rotas de peregrinação do Cristianismo, rivalizando com Jerusalém, onde cristo morreu, e Roma, onde se instalou a sede da religião. Aliás, é daí que surge o termo Romaria, ou peregrinação a Roma, veja só!

Quando começou a descrição da caminhada, achei que iria me cansar da leitura, estava pronto para dar uma diagonal, mas, que nada! Li tudinho! Foi ótimo acompanhar a rotina dos 30 dias, de 25 a 30 km por dia (ele contou de gente que fez 50 km!!), sempre acordando entre 5 e 6 da manhã, já com a mochila arrumada antes de dormir, caminhar no escuro com o auxílio de lanternas de led, sentir o nascer do Sol (sim, porque se caminha de Leste para o Oeste), parar para olhar pra trás e observar a maravilha, comer um café e um croissant na primeira tienda que abrir, parar a cada 8 ou 10 km para massagear os pés com Cataflan )para evitar bolhas... nem sempre se consegue ... caminhar junto com outros peregrinos, ou também sozinho, chegar ao destino programado para o dia, entre 2 e 3 da tarde, hospedar-se, tomar aquele banho, lavar as roupas, deixar secando, ir conhecer a localidade que pode ser desde uma metrópole de centenas de milhares de habitantes até um vilarejo de 50 pessoas, mas com infraestrutura para receber o peregrino, comer o ‘Menu do Peregrino’ (entrada, principal e sobremesa) ou fazer a própria comida, reunir-se para beber uma cerveja e trocar experiências, às vezes comer de novo de noite, despedir-se dos outros com um “Buen Camino Tomorrow”, e voltar ao albergue antes das 10, quando tudo fecha, arrumar a mochila para o dia seguinte, cair no sono  e ... por aí vai. Só senti falta de ele celebrar um momento especial: aquele em que ele diria “A partir de agora, falta menos do que já foi", lá pelo Km 402 da caminhada. Ou será que não percebi.

Conhecer muita gente, de todos os cantos do mundo, sim, todos, e todas as raças, jovens velhos, mulheres, e em todos os esquemas, os que levam a mochila num daqueles carrinhos, uns que caminham sem nada porque há um carro esperando na próxima parada, havia um que peregrinou com o seu jegue, desde a França (e ia voltar com ele!!) e os que desistiam no meio do caminho e iam de ônibus o restante, cada qual com seus motivos para peregrinar, agradecimento, autoconhecimento, promessas esperando uma graça, de tudo tinha, até mesmo, devoção!


Ao final, ganha seu diploma e volta pra casa uma pessoa renovada, com gostinho de quero mais... Será¿

2 comentários:

  1. Belo texto, parabéns. Também fiz o caminho Português em julho de 2017, com esta "figura", chamada Eleilson.

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