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domingo, 29 de outubro de 2017

Nara Leoa

Em uma análise sobre a recente rodada do Pré-Sal,
eu disse que a empresa Statoil suou frio,
mas levou o bloco que ela queria,
 porque Pega, Mata e Come!!!
Nem todos entenderam.
A explicação está no meio deste texto.
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Vocês já devem estar achando: lá vem ele de novo, incomodando -nos com seu bla bla bla. Fazer o quê? Os motivos para escrever têm aparecido!!!
Agora, foi o último programa da série "Por toda minha vida", da Globo. Depois de Elis Regina, que eu vi e não gostei, e de Renato Russo, que eu não vi e não gostaram, veio o de Nara Leão, que eu vi, gostei, e me emocionei!                                                                                                                    
O interessante é que eu sou fã de Elis e Renato, mas apenas admirador de Nara. Bem, talvez até mesmo por isso, vai ver que eu fui muito exigente com o da Elis. Ou talvez pela surpresa de saber da importância daquela cantora dentucinha na música brasileira. Aliás, tivesse ela nascido 30 anos depois, certamente ela não teria convivido com aquela configuração bucal explícita, como fez 'Por Toda Sua Vida. Hoje em dia, por muito menos, as pessoas estão vestindo aquele sorriso metálico; virou uma febre, pra felicidade dos ortodontistas!
Conheci Nara naquele festival de 1966 da Record em que cantou "A Banda", acompanhAda pelo Chico Buarque, o compositor, e de uma bandinha, de verdade! Eu era torcedor absoluto de "Disparada", de Geraldo Vandré, defendida por um improvável Jair Rodrigues, mas não fiquei chateado com o empate, em primeiro lugar com a adorável marchinha do Chico. Aqui, neste link, o desempenho dos dois, já como campeões, com a presença intrometida e simpática de Jair. Era difícil resistir ao charme daquela cantorazinha de voz fraca, mas límpida, desafinadinha ao vivo, mas que deu uma mensagem muito singela, interpretando a vida da pacata cidade, abalada pela passagem da bandinha, os sonhos, os delírios e desejos da humilde população.
Mal sabia eu, descobri agora, que aquela vozinha foi responsável, ou no mínimo esteve presente e foi fundamental para a criação da Bossa Nova, da MPB,  do teatro Opinião, e da Tropicália.
A Bossa Nova começou na casa dela, em Copacabana, ponto marcado de jovens como Menescal, Lira, Bôscoli, para tocar violão, com uns acordes meio esquisitos,  marca registrada daquele movimento.
Por paradoxal que seja, ela só foi gravar o primeiro disco quando já havia rompido com a Bossa Nova. Ela decidira conhecer algo diferente do mundinho burguês em que vivia, e subiu o morro. E aí ajudou a popularizar compositores como Zé Keti, Nelson Cavaquinho, Cartola, e outros como João do Vale, ajudando a começar aquilo que seria conhecido como MPB.
Veio a Revolução, e a repressão e, apesar de não ser compositora, ela era a porta-voz de canções de protesto disfarçado, e embarcou no show Opinião, em que cantores atuavam cantando, o que não era nada comum. Uma das canções era 'Carcará' (pega, mata e come!): Nara ficou afônica uma temporada e importou uma certa Maria, da Bahia, cuja mãe só deixou que viajasse se trouxesse junto seu irmão, um certo Caetano. É isso, Nara foi responsável pela introdução dos filhos de Dona Canô no cenário artístico. Não perca, neste link, o extraordinário desempenho de Maria Bethania, em sua estréia, e com um visual que você não conhecia!!!       

Sua língua ferina ("Os militares podem entender de canhão ou de metralhadora, mas não 'pescam' nada de política") a transformou em perseguida do regime e dizem que só não foi presa devido a um poema de Carlos Drummond de Andrade ao presidente Castelo Branco, que dizia.


Meu honrado marechal
dirigente da nação
venho fazer-lhe um apelo:
não prenda Nara Leão! (...)

A menina disse coisas
de causar estremeção?
Pois a voz de uma garota
Abala a revolução? (...)

Será que ela tem na fala,
mais do que charme, canhão?
Ou pensam que, pelo nome,
em vez de Nara, é Leão? (...)


Estas e muitas outras histórias e depoimentos tocantes estão no especial, que termina com um dos filhos, hoje com mais de 30, e ainda se emocionando (e a nós) quando se lembra da mãe que se foi há 18 anos, vítima de um tumor inoperável.

Recomendo, sem sombra de dúvida qualquer esforço. Se não quiserem esperar o lançamento que certamente acontecerá, o YouTube está aí pra isso!!       

4 comentários:

  1. Homerix,
    Tive o privilégio de conhecer e ter uma pequena convivência com a Nara, pois morei grande parte da minha inicia juventude em Copacabana, no posto 4 e conheci parte desta turma, inclusive a Nara namorava um grande amigo meu, recentemente falecido.
    Minhas homenagens a voce que buscou a lembrança desta Leoa

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  2. Homerix,

    Felizmente não preciso de programas da Globo para recordar tanta gente boa. Mas a Elis, o Renato Russo e a doce Nara continuam com suas imagens e canções muito vivas na minha memória. Seu texto, sim, é um estimulante e agradável caminho para o resgate dessas coisas boas...

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  3. Homerix, tive o privilégio de assistir a um dos últimos shows de Nara, em Natal, em 1989, poucos meses ou semanas antes dela falecer. Já muito pálida, de peruca, acompanhada pelo violão de Roberto Menescal, Nara cantou para uns poucos e emocionados ouvintes no Iate Clube de Natal. Ela bem que merece seu belo post e todas a homenagens que até hole recebe. Aquele abraço, Camargo

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  4. Adoro a voz da Nara! o que dizer de "ploft o dragão mágico"?

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