quinta-feira, 17 de setembro de 2026

OUÇA e LEIA - O Historiador do Submarino - "Como eu conheci os Beatles"

 Começou em 15 de setembro de 2026 uma coluna mensal de 

O Historiador do Submarino Angolano.

Nesta 1ª coluna, como chegaram os primeiros sons dos Beatles em Portugal!

Como descobri os Beatles

Entra Easy star all stars lonely hearts club band

Olá, companheiros da LAC (Luanda Antena Comercial). Eu sou o Joaquim Correia (currículo ao final), e falo-vos desde Lisboa. Hoje, na minha primeira crónica, quero contar como descobri os Beatles.

Os meus amigos do Submarino Angolano desafiaram-me e eu, com ousadia, aceitei o repto: relembrar uma banda que me acompanha há mais de 60 anos, como se de irmãos mais velhos se tratassem, todos eles já na casa dos 80. E  a ousadia está aí, vai ser como falar da família e até da minha vida pessoal, talvez mesmo entrar em… bem, pequenas  intimidades! Companheiros desde a adolescência, conhecem muito da minha vida: comigo estiveram nos três continentes onde habitei, sabem dos meus amores, tristezas e dores, dos meus gostos musicais, numa palavra, sabem tudo!

Entra In My Life- There are places I remember, in my life…

Mas não se assustem, fora uma ou outra menção mais privada e até estranha, irei principalmente recordar os meus tempos de Angola, em que estive integrado no meio musical do pop-rock luandense onde, claro, os Beatles pairavam e inspiravam os conjuntos da chamada “cidade de cimento”.

Nos bairros limítrofes a dança era outra, menos ritmos modernos e mais balanços africanos, como merengues, sembas e rebitas.

Entra Prado Paim - Bartolomeu

Será esse o objetivo principal destas crónicas: retratar o som que fervilhava pela então Província de Angola, lembrar nomes de bandas (na altura denominados conjuntos), festivais e locais de convívio, para que todo esse património musical do passado seja trazido à tona para as novas gerações.

Quase sempre com os Beatles como base orientadora, fio de prumo, não é por acaso que o Submarino Angolano existe para homenagear essa banda que, afinal, influenciou toda a música pop- rock dos anos 60 e 70.

Farei o possível! Tentarei vasculhar, partir pedra, mergulhar para descobrir onde alguma dessa informação está preservada.

Mas, desculpem, tenho de começar pelo princípio. Como é que os Beatles entraram na minha vida? Reparem, para mim, aqueles 4 músicos existem como um todo único, com sons intemporais, como se todos continuassem vivos. Ouço agora os seus sons com o mesmo prazer de há mais de 60 anos.

Descobri os Beatles por via indireta: o som de uma voz que se espalhava da janela dum prédio na Av. Brasil em Lisboa, que cantava  “I’ll get you”, prendeu-me para sempre. 

Entra I´II get you  - 

O tema faz parte do EP "She Loves You”, gravado e editado em julho de 1963, mas que, embora tenha sido prensado e distribuído em Portugal no dia 22 de Novembro de 1963, exactamente no mesmo dia do assassínio de Kennedy, apenas em meados de 1964 iria teralgum impacto. Na época, o mercado nacional de vinil era muito pequeno e o EP acabou por vender, segundo a Valentim de Carvalho, um total de apenas 7.500 exemplares.

Está emoldurado em minha casa, é aquele da capa vermelha com as “chipalas” dos ainda pouco 4 cabeludos, com estranhas chavetas (vão ver), sem qualquer indicação de quem foi o ilustrador. Este vinil  foi o primeiro dos quatro de Liverpool a ser editado em Portugal.

Segue I´II get you  - 

Entra Rádio Luxemburg

Eu devo ter ouvido o anónimo intérprete em princípios de 1964, e devo ter descoberto a banda através da Rádio Luxemburgo:

Entra Elvis - Hound Dog

na verdade, devido à forte censura do Estado Novo em Portugal e à limitação de géneros musicais na Emissora Nacional, muitos jovens e entusiastas de música recorriam a rádios estrangeiras de alta potência, à noite, para ouvir êxitos do momento, tendo servido de grande rampa de lançamento para bandas como os Beatles ou Elvis Presley.

Segue Elvis - Hound Dog

Comprei-o pouco depois, pelo preço de 60$00 (cerca de 35000 Kwanzas angolanos), talvez na loja de discos Sinfonia ou na Roma, ambas na Av. Roma em Lisboa.  É uma capa única e é considerada uma das mais bonitas em qualquer disco dos Beatles, incluindo os temas "Do You Want To Know A Secret" , "I'll Get You", "She Loves You" e "Twist And Shout". 

Entra Do You Want To Know A Secret - The Beatles

Só em meados dos anos 60 a música dos Beatles começou a chegar a Portugal através da Rádio Renascença, Emissores Associados de Lisboa, impulsionada por programas dedicados à juventude, apesar da forte censura do Estado Novo. 

Acresce que a Beatlemania só atingiu o seu auge em Portugal entre 1965 e 1966, impulsionada pelo lendário concurso "Ié-Ié" no Cine-Teatro Monumental, onde Os Rocks de Eduardo Nascimento representaram Angola. 

Entra I Put A Spell On You - Os Rocks de Eduardo Nascimento

Apesar da loucura e da forte base de fãs, a banda nunca actuou em Portugal devido à conjuntura política e à falta de capacidade económica da época.

George fala sobre Ed Sullivan Show

Abertura do apresentador em 9 de fevereiro de 1964

She Loves You 

Apresentador Sueco

Twist and Shout - The Beatles na Suécia 1964 

Como curiosidade, o primeiro jornalista português a entrevistar os Beatles foi Cézar Faustino, em Estocolmo, no verão de 1964. O jornalista do Diário de Lisboa escreveu que (e vou citar) “eles aceitarão vir tocar a Portugal, por 160 contos (cerca 90 milhões KZ), disse-me Mr. Derek Taylor, chefe da comitiva e braço direito de Brian Epstein o génio que descobriu os Besouros (tradução de Beatles) no Caverna Club da brumosa Liverpool”.

Pronto, já chega de recordações metropolitanas, eu prefiro dizer coloniais, prometo que na próxima crónica entraremos nas memórias angolanas.

 

Um abraço, para os Marujos do Submarino Angolano, da rádio LAC

Conto convosco na próxima crónica.

Entra I'll Get You - The Beatles


______________________

Currículo do Historiador!!


O perfil do nosso Historiador Naval Joaquim Augusto Pinheiro Correia, conta-nos que é nascido em Coimbra a 7 de Abril de 1951, este homem é um verdadeiro andarilho da cultura! Estudou em Portugal e em Angola, rumando depois para Macau, onde residiu onze anos inteirinhos e abriu caminho para desbravar o Oriente. 

Investigador incansável e apaixonado pela música, o Historiador Naval Joaquim defende sem rodeios que "o futuro é mestiço nas cores, nos sons, nas palavras e no pensamento". E a sua obra reflecte exactamente essa mistura! Escreveu sobre o jazz e os ritmos de Luanda em «Angola Blues» e a história do baterista Beto Kalulu, investigou até as "fumarentas" motorizadas em «Motos de Papel», e levou a sua pesquisa sonora até Goa, à Indonésia e ao Tibete!

Mais recentemente, cruzou a Rota da Seda em Banda Desenhada e continua a assinar crónicas regulares no jornal Cultura: Jornal de Letras e Artes em Angola, entre vários periódicos.

Em suma: um homem de acção e das letras que faz da cultura uma ponte entre povos.

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