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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Finados leva a Memórias

No último 2 de novembro, Dia de Finados, 
lembrei de meus finados de primeiro grau...

Minha mãe Iracema, 1975 
Meu pai Saul, 1986 
Meu sogro Antônio, 1992 
Minha madrasta Ely, 1997 
Minha cunhada Nídia, 1998 
Meu cunhado Carlinhos, 2008 
Meu irmão Flávio, 2015 
Minha sogra Zulmira, 2016 
E vamos parar por aí!!

Mira, Antônio, Carlinhos, 1982
Seu Antônio, Dona (Zul)Mira e Carlinhos foram minha segunda família, e me ensinaram muito sobre esta e sobre outras vidas ... com eles, passei a ser uma pessoa melhor. Seu Antônio se foi aos 73 anos, vítima de câncer no pulmão, apesar de ter parado de fumar aos 49, quando se aposentou para poupar Dona Mira para se dedicar ao filho. Dona Mira, aos 93, vítima de falência dos órgãos gástricos, e o Carlinhos, aos 55, por complicações renais, deixando um vácuo enorme em nossas vidas.

Escrevi sobre eles e sua vida de dedicação em 2007, em um post que não me canso de divulgar... Quem ainda não conhece, ou deseja reler, é só clicar aqui.

Sobre minha família original, eu nunca escrevera, até porque eu não tinha o hábito, que começou em 1997, com um artigo sobre Beatles, claro...


Iracema - Aos 19 anos
De minha mãe, Dona Iracema, tenho poucas lembranças. Foi sempre dona de casa, mas tinha classe, acompanhou a subida social de meu pai com louvor, lembro dos penteados dela com laquê, e sempre elegante e bem vestida. Lembro-me de chás que fazia com as amigas. Uma sua contemporânea, bem mais jovem, declarou, para mim: "Sim, elegante, simpática, uma mulher à frente de seu tempo, o que nos permitia, apesar da diferença de idade, termos longas conversa quando nos encontrávamos, geralmente no cabeleireiro que frequentávamos e que ficava sobre o Cine Independência. Tinha um grande carinho e admiração por ela!". Me emocionei quando li... Aliás, esse 'à frente de seu tempo' fez-me lembrar um comportamento lá de casa que eu só via lá em casa. Eu e Flávio não nos dirigíamos a eles por 'Senhor' e 'Senhora', era 'você' pra lá, 'você' pra cá. Não via isso em meus primos, amigos, e depois que ganhei minha segunda família, também não. Não sei se isso é bom ou ruim, errado ou certo, mas é certo que hoje em dia, esse tratamento menos formal acho que é mais comum, portanto, atina-se ao fato de ela estar alguns anos à frente.

Era a mais velha de seis irmãs, filhas de espanhóis, os Vasques de meu nome. Dizem que era mais bonita delas, mas que não se comente com as irmãs. Casou-se aos 19 anos com meu pai, e teve meu irmão menos de um ano depois. Segundo consta, engravidou quatro outras vezes, tendo aborto espontâneo em três delas, até que euzinho vinguei, 13 anos depois do Flávio(*), fruto da insistência. Não conheci avós, de nenhum dos lados, temporão que fui. Lembro que teve uma época que subíamos a Serra do Mar uma vez por semana pra minha mãe posar para um pintor, que fazia seu retrato, muito chique. Ficou lindo, né! Infelizmente, o retrato original perdeu-se ao longo das décadas e mudanças da vida, uma pena... na verdade, uma vergonha, imperdoável! Obrigado, prima Valéria, por encontrar essa foto preciosa. Grande recordação!! Minha mãe era muito diligente e salvou a vida de meu primo Marcos Cézar quando ele se engasgou, perdia o ar, minha tia Ruth estática, ela não teve dúvida e meteu os dedos na garganta e retirou a espinha de peixe que lhe bloqueava. Esse mesmo primo, noutra ocasião, prendeu o irmão menor num quartinho de casa, que ficou nervoso e deu um soco na janela de vidro, ficando todo ensanguentado, a mãe estava a tratar do avô no hospital, deixara os dois filhos sós em casa, Marcos discou o nosso telefone 47054, que sabia de cor, para emergências, Tia Iracema, a Mulher Maravilha da família, se materializou lá, fez um torniquete, levou os dois ao mesmo hospital. Próxima cena, minha tia Ruth descendo as escadas do hospital e quase desmaiando ao encontrar a irmã com seus dois filhos, um deles se esvaindo em sangue adentrando o recinto. 


Após suas Bodas de Prata, em 1969, quando inaugurei meu indefectível terninho de veludo marrom, Dona Iracema partiu com meu pai para uma viagem de volta ao mundo, mas quando voltou, já não era mais a mesma. Segundo contam, já na cerimônia do casamento do Flávio, um ano depois, teria mostrado alguns momentos de ausência. Começávamos a perdê-la para a doença no cérebro, até que algum tempo depois começaram a entrar enfermeiras em casa para cuidar dela. Lembro de visitas em casa, de um renomado psiquiatra. Por longos anos, manteve um estado catatônico, talvez hoje fosse diagnosticada  com Alzheimer, mas o que a levou daqui foi uma pneumonia, e se foi sem ter a menor ideia de que eu cursaria a Escola Politécnica da USP e seria engenheiro.


(*) A minha chegada foi uma bênção para meu irmão, que começava sua adolescência e viu as atenções voltaram-se para o novo astro da família, além de me adorar, claro, diz que adorava morder meus pezinhos fofos. Flávio era meu ídolo, chamava-o de Vavá, ele me levava ao cinema, aos jogos do Santos, lia gibis comigo, me ensinou a jogar xadrez, deixava eu tocar seus LP's (incluindo 'Time-Out' de Dave Brubeck, e Bolero, de Ravel, que me marcam até hoje) e, principalmente, me levou numa galeria onde pediu que eu escolhesse um presente de aniversário ao que eu optei por um disco de capa vermelha cheia de fotografias de quatro rapazes fazendo caretas, que se intitulavam Os Reis do Iê-Iê-Iê, que foi o começo de minha principal paixão (afora a família, claro). Lembro-me também de meu aniversário de 10 anos, quando me foi presenteado Um Dia no Rio de Janeiro, com meu irmão de cicerone. Viemos  de ponte aérea, de Electra II da VARIG, e voltamos à noite, de navio, que chique, e nunca me esqueço da imagem de Vavá debruçado na grade do convés vomitando um monte, quando então me lembrei do alerta que ele me dera, todo forte e experiente, sobre enjoos, sendo que eu passei muito bem...
Iracema e Saul -1944
Meu pai, Seu Saul, como o chamavam, filho de portugueses, quatro irmãos, foi um self made man, não fez curso superior, mas se virava, lidou com bananas, como o pai, fez dinheiro com corretagem de café, teve uma concessão da CTLP, Companhia Telefônica do Litoral Paulista, que foi encampada pelo governo em 1976, e virou construtor de edifícios residenciais. Casou-se com Dona Iracema aos 24 anos (ela com 19, parece que 5 anos era uma diferença padrão), tiveram o Flávio um ano depois e eu, 13 anos depois do Flávio. Sempre leu muito, tinha uma biblioteca de mais de 1.000 livros. Escrevia muito bem e começou a escrever um livro, um romance autobiográfico, na sua velha Olivetti, mas o deixou pela metade. Aprendeu inglês sozinho, mas era muito esforçado,  inclusive meu primo se lembra de quando ao chegou de seu mestrado nos EUA, meu pai o cercava e perguntava a pronúncia de algumas palavras. Ele adorou quando entrei na faculdade de engenharia, era o seu orgulho ter um engenheiro da família, queria até mesmo que eu me casasse com uma festa no Clube de Engenharia, imagina! Aliás, eu fiz Engenharia Civil porque ele construía edifícios (que interesseiro era eu!), mas no meio do caminho, a construtora faliu, e eu acabei na mão, nesse sentido, mas acabou sendo bom, pois a Petrobras entrou na minha vida e me possibilitou uma carreira segura e interessante. E esse foi mais um motivo de grande orgulho para ele! Moramos sempre em apartamentos alugados,  até  meu pai decidir pelo primeiro imóvel apenas aos 51 anos de idade, no Gonzaga, perto da praia, na minha querida Santos. Gostava de um bom whisky, mas nunca o vi alterado, aliás, quando eu era pequeno, ele me dava uns golinhos, eu gostava, ficava alegrinho, ai ai ai... Fumou muito, e só parou mais ou menos perto dos 60 anos, quando teve um enfarte e ganhou algumas safenas. Sempre que estava parado, tinha um cigarro apagado entre os dedos, ou na boca, até ficar empapado, muita saudade do desgraçado. Temeroso, começou logo depois da cirurgia de peito aberto a fazer caminhadas na praia, fez boas amizades lá, e usava as escadas do edifício ao menos duas vezes por dia (e eram 15 andares). Mesmo com o exercício constante, o histórico fumante cobrou seu preço fatal, e ele teve um enfarte, desta vez fulminante, numa agência bancária, sentado, conversando com seu gerente. Minha maior mágoa é que não teve a satisfação de ver meu relativo sucesso profissional, imagino como ficaria feliz em saber de minha primeira viagem internacional, um ano depois de sua passagem. E que viagem.... para a China, fazendo escala em Tóquio. 

Mamãe, eu, Papai, 1969
Meu pai era um gozador visceral e tinha uma gargalhada extremamente alta e contagiante: contou que certa ocasião em plena Praça da Independência, parou, apoiou seu guarda-chuva no chão e olhou para o alto, apontando ereto para um ponto fixo no céu, ao que um transeunte parou também para olhar, depois dois, três, DEZ, após o que saiu andando sem dizer palavra, deixando o grupo para trás manuseando sua Tribuna. E meu primo Vinicius, lá de São Bernardo, me lembrou de outra que havia esquecido e que vem ao encontro dessa fama: ele gostava de pegar as crianças (meus primos e eu) e meu tio Juarez e levava a passear no seu enorme Galaxie (*),  enquanto as irmãs ficavam em casa, e vez por outra parava um transeunte para perguntar instruções de como chegar em um lugar, Parque do Ibirapuera, por exemplo, e o cara explicava, e Seu Saul respondia com outra pergunta: 'Mas a quantas milhas daqui?" ... "Ahn?" e depois ... "Será que está chovendo lá?" ... e nisso nós todos segurávamos o riso, e depois da terceira pergunta, ele engatava a primeira e saía em disparada, para gargalhadas gerais. Verdadeiro bullying! Esse  era o velho Saul!! Ele ria muito também com o espetacular LP 'Eu Sou o Espetáculo', de José de Vasconcelos, o primeiro comediante stand-up do Brasil, que ouvia comigo menino ainda e me explicava o que eu não entendia, foi muito marcante pra mim, que volta e meia colocava para ouvirmos juntos, e rir tudo novamente. Lembro também que fazia questão de pegar firme as bochechas dos meus primos e balançar as cabecinhas, ele achava a maior graça, meus primos, nem tanto, hehe. As vítimas dele não eram apenas humanos, entretanto! Tínhamos um papagaio, que aprendeu a clamar 'Martaaa, Martaaa!!', nossa ajudante de décadas, antes e depois de sua morte, para que lhe trouxesse o café com leite com pão molhado, que ele adorava, mas conto sobre ele porque Seu Saul judiava do pobre, coitado, jogava aquelas batatas pequenas nele que matava no bico e mandava de volta, mas, pior, adorava jogar um rolo de barbante, no qual o pobre se entrelaçava até ficar imóvel, todo enredado, dava um trabalho pra gente soltar o bichinho, fosse hoje, meu pai seria denunciado à sociedade protetora dos animais... Em reuniões, sempre tinha piadas a contar (e gargalhar após elas), e se o público permitia, passava das piadas de salão para as mais picantes, para desespero de minha mãe, e depois de minha madrasta Ely. Um bom par para ele era o amigo do Flávio, o Paulo Roberto, conhecido desde 1966, que a Ely definia como 'enfant terrible', e com quem se encontrou várias vezes na fazenda, que me disse que perguntou a ele por que ele era tão gozador, ao que o velho Saul respondeu: "Por necessidade!". Posso encaixar nesta faceta de meu pai o jeito pelo qual ele decidiu qual nome me daria. Botara na cabeça que eu teria que ter um nome de alguma figura proeminente da Grécia, cuja cultura admirava muito. Fez uma lista, foi á janela da sala, não me lembro em que andar era no Edifício Lutécia, onde nasci, e começou a gritar a plenos pulmões, para a sempre movimentada Avenida Ana Costa: Demósteneees!!, Sócrateees!!, ... e observava a reação das pessoas ... Heráclitooo!!, Pitágoraaas!! ... e observava ...Homerooo!!, e então parece que gostou da reação que teve a este último, quem sabe algum sinal de positivo da época e decidiu por ele. Eu não gostava muito de meu nome, até que soube dessa história, aí senti um alívio. Bem, na verdade, eu achava meio estranho mesmo assim, mas aos poucos fui gostando, mais e mais, deu-me uma certa distinção, por exemplo, apenas 8 entre 80 mil colegas da Petrobras tinham meu nome (sem contar os nomes duplos, como Paulo Homero e coisas do gênero). Além disso, não posso reclamar de um nome que lembra a um  dos maiores poetas da História, autor de Ilíada e Odisséia, e também, qualquer ação de minha parte era uma ação homérica, o que denota uma certa grandeza já na qualificação! Hoje, tenho orgulho! Inda mais quando agregado ao sobrenome, Ventura.
(*) Aliás, aquele carro era uma sensação, sempre que passeávamos havia uma disputa sobre quem ficava no banco da frente com meu pai. Como ele era largo, o câmbio (de 3 marchas) era na direção, e o banco era contínuo, acabava que ao menos dois de nós íamos juntos com ele, escorregando pra lá e pra cá nas curvas, que invariavelmente ele fazia muito rápido. Era um pé de chumbo meu pai... 


Quando nasci, seu Saul tinha 38 anos e caminhava para os 50 na minha infância, o que não impediu que fosse um grande companheiro! Ele sempre me levava aos Parques de Diversões (Shanghai era o nome de um deles) que se instalavam nas praias de Santos, trem-fantasma, roda-gigante, estava sempre comigo, mas sua preferência (e a minha) era a hora dos carrinhos bate-bate, que se ligavam eletricamente à tela de cima da pista, e ria sem parar quando batia seu carro no meu. Saíamos de uma corrida e entrávamos na fila para outra. Adorava maçãs, que comprava aos baldes, e se divertia arremessando pedaços já descascados para mim, lá do outro lado da sala, que era grande, o que me desenvolveu uma certa habilidade de goleiro. Outra coisa que se amarrava era tremoços, que comprava nas barraquinhas da Biquinha de São Vicente, sempre que íamos à Praia Grande e ficávamos na sempre presente fila da super-charmosa Ponte Pênsil e nunca deixava de comprar dos ambulantes aquelas bananadas envoltas em papel fino, açucaradas e deliciosas, bem como o querido biju, que não podia faltar, ainda me lembro do barulho que o reco-reco dos vendedores fazia. Não era à toa que eu sempre estava acima do peso. E falando em fila de automóveis, lembro-me da gastrite dolorosa que tinha, e que contava que na fila da balsa do Guarujá que já durava uma hora, quando acompanhava a obra de um prédio lá no continente, tendo que comer alguma coisa para aplacar a dor, lançou mão do próprio bilhete da balsa! Meu pai adorava sair de carro com a família e o que me lembro bem são três lugares: Águas de Lindóia, ou São Lourenço, Guarapari e Campos do Jordão, além claro, de muitas vezes que íamos a São Bernardo, logo ali, para visitar meus queridos tios, ele levava sempre no carrão uma pipa e uma bola de capão. Interessante que com tanta praia em Santos era ali o único lugar em que me ensinou a empinar papagaio, num terreno baldio lá perto. Mas o que mais gostávamos (eu e meus primos, era quando ele dizia: ‘Vamos jogar bola pro céu?!’ chutar a bola de capão bem alto, a bola chegava a sumir de vista mas depois voltava (claro!), e a gente gritava, ele tinha umas pernas poderosas. Sobre a viagem a Guarapari, lembro-me que descemos com as malas lá do Edifício Independência, na Praça Idem, aonde morei meus primeiros 10 anos, e corria pelos corredores batendo nas portas dos outros apartamentos perguntado 'Tem kiança pá bincá?'. Surpresa triste naquela madrugada, nosso Aero Willis não estava lá, havia sido roubado, não sei o que foi feito mas o fato é que no dia seguinte, a carro estava de volta, e partimos para a viagem que iria me proporcionar o primeiro banho de mar da criança naquela longínqua cidade do Espírito Santo, aos quatro anos, pois eu me recusava a entrar no mar, ali, tão pertinho de casa, vai entender! Águas de Lindóia era tipo hotel fazenda e Campos do Jordão, bem, de Campos do Jordão eu falo depois no papo sobre meu irmão!!!

O velho Saul gostava de receber. Nos domingos à tarde, reunia a família, mormente tios Nemércio e Ruth e os primos Carlinhos e Marcos Cézar, que moravam ali perto, e quem mais viesse,  para fazer jogos culturais, ou de mímica, com pontuação e tudo, num deles tinha que se achar as palavras de um certo tema começando com certas letras, e tal, e sempre que era chamado a escolher o tema, dizia: 'Deuses, Túmulos e Sábios!", nunca me esqueço. Quando chegamos a um apartamento um pouco maior que o da Praça da Independência, fez algumas vésperas de Natal lá, chamava mais gente, e vinham sempre lá de São Bernardo os queridos tios Juarez, Edméia, e os primos Vinícius (que tinha a minha idade ... e ainda tem .. incrível!) e Valéria,  esta última, mais jovenzinha, afilhada de minha mãe. E foi Vinícius quem me lembrou como foi o último desses Natais, em 1970, quando meu Tio Juarez desceu a serra já meio alto, vestido de Papai Noel em seu Fuscão vinho novinho em folha, adentrou ao apartamento cantando canções de Natal, Ho-Ho-Ho, com seu sininho e saco de presentes, tudo bem, só que entrou na cozinha e deixou um pacotinho dentro do forno onde se assava um suculento peru .... porém, eram bombinhas de São João, aaaah, e pouco depois sente-se um pequeno abalo sísmico e a cena seguinte era um palco de guerra, com pedaços de peru espalhados até o teto da cozinha, tendo um deles chegado à área de serviço e entrado na gaiola de nosso pobre e sofrido papagaio. Dona Iracema não acreditava e Seu Saul ria aquela gostosa gargalhada que só ele tinha! Aquele nosso apartamento também se acostumou a suas manias. Marcante era sua hipocondria. Além ter uma divisão do armário do corredor só de prateleiras com remédios, mantinha um estoque à mão na mesa ao lado da confortável poltrona da sala, além de um tubo de oxigênio a postos para emergências, que eu não me lembro de ter sido usado!!  Mania também ele tinha de estocar coisas, em grande quantidade, tipo papel higiênico, sabonete, pasta de dente, sempre da mesma marca. Outro costume dele era assistir televisão sem o som.... mas me lembro que ouvia atentamente quando tinha um artista que gostava na televisão, um Jair Rodrigues, um Raul Seixas, um Frank Sinatra, e um que me lembro bastante foi aquela gravação de vários astros americanos cantando 'We Are The World', ele admirava muito Michael Jackson.  

Primeiro dia no Santista
No quesito educação dos filhos, meus pais fizeram ótimo trabalho, a começar por nos colocarem no melhor colégio da cidade, o marista Colégio Santista, do qual guardo ótimas recordações. Agradeço o incentivo que meu sempre me deu à leitura, até pagando um dinheirinho (que ninguém saiba!!) sempre que eu lia livros importantes, e acima do nível correspondente à minha idade, foi assim que li os dois volumes de História da Civilização Ocidental, de Edward McNall Burns, por exemplo, poucos da minha idade tiveram essa oportunidade e decerto que esse hábito foi muito importante para meu desenvolvimento, e para que eu tivesse que fazer apenas dois exames nesta vida, um vestibular (quando entrei na Politécnica da USP) e um concurso (quando entrei na Petrobras). Para o Flávio, o esquema era mais rígido, pois se ele não lesse um livro importante por semana, não ganhava a mesada, que era importante pra ele (eu nunca tive, não ligava), então ele chegou a ler Kant, Schopenhauer, Bergson e Pitigrilli aos 15 anos de idade. Sempre agradeço o fato de meu pai ter me colocado em aulas de inglês desde cedo, no CCBEU (Centro Cultural Brasil Estados Unidos), tendo me formado já aos 12 anos, quando já falava inglês razoável, o que me ajudaria muito em minha carreira profissional. Lembro com carinho que meu pai, sempre atento à minha evolução,  quando eu estava de férias, para eu não ficar à toa, contratava o meu querido primo Carlos Eduardo que era seis anos mais velho que eu (e ainda é... incrível!) para me dar aulas de inglês e matemática, mesmo eu sendo bom aluno, pois sempre fui o segundo da turma. Ao terminar as aulas, muitas vezes ele me ajudava a montar aqueles modelos Revell, de navios, aviões, com aquela colinha em bisnaga, com aquele cheirinho delicioso, bom companheiro. Lembro que, quando meu pai chegava em casa, pegava nós dois e íamos todos tomar um banho de mar. Decerto ele chamava meu primo para ajudar, numa fase difícil da família dele, que até teve seu apartamento penhorado por dívidas do tio Nemércio, e posto a leilão. Felizmente, Seu Saul arrematou o apartamento, aonde minha querida tia Ruth vive até hoje, aos 93 anos. Aquele meu primo hoje é referência do Jornalismo brasileiro, livre docente, já foi Chefe de Redação da Folha e apresentador do Roda Viva, enfim, um gênio! Meu pai torcia muito por ele, que se lembra que ficou muito impressionado quando, no seu aniversário de 15 anos, recebeu uma ligação internacional de parabéns de meu pai, não se lembra se da Europa ou do Oriente Médio. Aprendi com meu pai também que não se deve ralhar com motorista acidentado na hora do acidente, porque afinal o cara já está se achando o último dos homens, e olha que eu tive quatro oportunidades de aprender isso em meu primeiro ano como condutor, de meu Passat branco, que me foi presenteado quando entrei na Poli, felizmente depois me tornei exímio motorista, verdadeiro 'piloto de fuga', como definiu um amigo de meu filho, quando o levei correndo ao Aeroporto Santos Dumont. 

Ely, Eu, Neusa, Saul, 1982
Ano e pouco depois de enviuvar, meu pai se casou com a Ely, que fora sua secretária na CTLP, foi lá pra casa e foi ótima companhia para nós. Esteve ao lado de meu pai no meu casamento em 1982, no altar da igreja Santo Antônio do Embaré. Aliás, ela estava sempre ao lado de meu pai, para todos os lados, eram inseparáveis, foi uma bonita história de amor maduro. Também estava ao lado dele na ocasião em que ele teve o segundo e fulminante enfarte, conversando com o gerente do banco em São Vicente. Viúva, mudou-se pouco tempo depois para um sítio em Serra Negra, para viver com seus cinco irmãos, todos solteiros. E acabou morrendo no hospital aonde vegetava há bom tempo depois de sofrer um violento e imobilizante AVC. Neste caso, entretanto, acho não ha culpabilidade do cigarro, como foi em outros quatro membros da minha família (pai, irmão, cunhada e sogro) que se foram, não tenho recordação de vê-la com um cigarro na mão.

Ely tinha Fittipaldi no nome, era parente de Emerson e Wilsinho, na verdade, prima de primeiro grau, o velho Wilson era seu tio, mas não tinha muito relacionamento com eles. Houve outra celebridade na vida dela, pois o ex-Presidente Jânio Quadros era seu padrinho de nascimento. Foi convidado para a cerimônia do casamento civil da afilhada com meu pai, aceitou com prazer e esteve lá em casa, alguns anos antes de se candidatar a Prefeito de São Paulo (e vencer). Claro que ele foi o centro da celebração, até um repórter esteve lá, e brindou a todos com suas citações bem humoradas, povoadas de mesóclises. Não cheguei a ouvir a mais famosa delas ("Bebo, sim, porque líquido é... fosse sólido, comê-lo-ia!"), mas decerto que confirmou a fama de especialista em arregaçamento de garrafas de whisky em sequência foi amplamente confirmada.... saiu cambaleando de casa. Mas estava sóbrio o suficiente para lembrar-se de uma coisa, tocar o interfone lá embaixo, subir de novo e dizer: "Voltei para pegar o melhor presente que que eu iria receber hoje!" que Dona Edméia, minha tia, muito gozadora, havia lhe dado, com essa qualificação, e ele esquecera de levar. Era uma vassourinha que ela comprara numa loja de 1,99 e embrulhou direitinho, e disse que ia dar para ele, para desespero de meu tio Juarez (o Presidente o abraça, na foto), que achava que ela seria presa! Seu Jânio não apenas pegou o embrulho, abriu, e quando viu o que era,riu muito, já com todo mundo brindando novamente e cantando "Varre, Varre, Varre, Vassourinha!". Aliás, neste ângulo da foto, meu pai lembra o Jorge Amado!

Aliás, noto a cor clara da roupa de meu pai, não lembro se era um paletó ou se usava um slack, sua roupa preferida, aquele 'conjunto esportivo formado por camisa e calça, ambas do mesmo tecido, podendo ser de seda ou outros tecidos' (fui pegar a definição na rede). Acho que não, pois slacks eram para ocasiões mais informais. Ele gostava de usar calças de linho, na cor bege a maioria das vezes, feitas sob medida, e lembro como ele recomendava que tivessem bolsos grandes, que iam quase até os joelhos, tal que pudessem acomodar alguns itens de primeira necessidade, como remédios, um biscoito, uma pequena maçã(!!), alguma coisa para ler e, claro, aquele maço de dinheiro arrumadinho ordenadas por valor, que ele retirava e fazia ventinho com as notas, sem cerimônia, quando precisava pagar alguma coisa, em qualquer lugar, em ambientes fechados ou no meio da rua!! Acho que hoje ele teria um pouco mais de temor em adotar tal procedimento, né? Bem, voltando ao slack, quando fui procurar a definição na rede, acabei vendo um link com imagens de Jânio Quadros, abri e vi que ele popularizara a vestimenta quando assumiu a Presidência, lá em 1960, e a usava em seus despachos, como forma de aplacar o senegalês calor da nova capital federal. Deram ao modelito o singelo apelido de 'Pijânio'. Por isso, resolvi colocar esta característica de meu pai neste 'capítulo' sobre a queridíssima Ely, que também se foi muito cedo desta vida.

Fotos de divulgação de Flávio Voven
Lembra de Campos do Jordão, o destino predileto de nossas viagens de carro? A cidade tem que abrir o capítulo sobre meu irmão Flávio. Foram muuuitas vezes naquela cidade da Serra da Mantiqueira, que à ápoca de minha infância tinha uma serra cheia de curvas que levava hora e meia para ser vencida. Hoje, é uma serra sem graça... . Quando meu pai diminuiu o ritmo de visitas á cidade, era Flávio quem me levava, junto com a querida Nídia, que viria a ser minha cunhada, que enjoava seriamente na serra, passava bem mal. Ficávamos sempre no Hotel Vila Inglesa, aprendi a andar a cavalo lá, era tão legal, que meu irmão, que já ia lá desde acho que antes de eu nascer, disse: "Um dia eu serei dono desse hotel!" meu pai me contou ... e foi, o que seria seu maior sucesso e também sua perdição. Administrador de empresas formado, trabalhou na incorporadora do meu pai, não sem muitas brigas, que sempre foram frequentes, pois ele não era fácil. Nunca teve um patrão. O histórico agitado de adolescência incluiu no currículo uma chamada às duas da manhã a meu pai para ir recuperar o carro que pegara escondido, atolado em outra cidade. A par disso, contraiu surdez total do ouvido direito numa cabeçada de futebol, o que fazia que as pessoas sentadas ao lado do motorista tivessem que elevar o tom para serem ouvidas. Foi sempre namorador, apesar de tímido e sempre gaguejava no primeiro contato, mas era bem sucedido porque era bonitão, atlético e inteligente. Ápice de sua história jovem foi quando, mais tarde, já em seus 20 anos, apesar de constar que cursava Medicina Veterinária em Botucatu, na verdade passava boa parte de seu tempo em São Paulo tentando embarcar no ritmo da juventude, o que meu pai veio a descobrir de supetão, na TV, ao assistir ao Programa Júlio Rozemberg num belo sábado à tarde, que anunciou "O novo astro da Jovem Guarda ... Flááávio Voven!", seu nome artístico, com as inicias de nossos nomes do meio e a metade do final. Meu pai quase teve um ataque, enfim, mas Voven até gravou um compacto, que ficou até interessante! Uma das canções, "Desta vez eu Vou Ganhar", rock básico e legal, mas com um órgão espetacular (preciso encontrar o CD que ainda temos aqui). A segunda, que tinha até uns metais legais, mas o especial era uma letra que se mostraria profética, que se chamava 'O Solitário'. Quem tiver curiosidade, pode ouvi-la neste link. Vendeu uns mil compactos, não o suficiente para se animar na profissão. E também não concluiu a Veterinária, aliás, nunca fez direito mesmo.

Criador - Leiloeiro
Firmou-se em Santos novamente, trabalhando com o Velho Saul, e estudava Administração de Empresas à noite. Foi o orador da turma da faculdade quando se formou. E aí, já casado e com um filho, bem relacionado que era, conseguiu um empréstimo da Nossa Caixa, e comprou o sonhado hotel, com uma dívida a pagar em 10 anos. No meio do processo separou-se de Nídia, sua primeira esposa (*). Flávio foi um ótimo hoteleiro, elevou o hotel à categoria 5 Estrelas, criou um Centro de Convenções que ocupava a baixa temporada, e ficou muito bem de vida, comprou uma fazenda ali próximo onde criava cavalos (parte da profética letra, que citava que o 'Solitário' cavalgava), exerceu a prática de leiloeiro, que fazia muito bem, tinha um vozeirão, em pregões de cavalos. Teve até uma estância no Rio Grande do Sul, enfim, podia se definir como um homem rico. 

Contava com orgulho um episódio da época da opulência. Havia racionamento e filas para comprar combustível, quando estava com uma perua enorme com sua nova família como testemunha, distraiu-se um instante na fila e um fusquinha entrou à sua frente e, não contente com o feito, seu motorista desceu, foi até a janela do meu irmão e disse: "O mundo é dos espertos!", ao que imediatamente Flávio colocou o câmbio automático no Drive, soltou o freio e o carro enorme deslizou dez metros até parar no motor do fusquinha que começou a soltar fumaça, enquanto o seu pára-choque nada sentiu. Flávio deu então marcha-a-ré até o ponto onde estava o atônito 'esperto' e disse: "O mundo é dos ricos!". Merecido, né, fala a verdade!

(*) Adorava minha cunhada Nídia e o amor era recíproco. Conversava muito comigo, e deu ao Flávio seus dois filhos, Leandro e Conrado, além de uma menina, Flávia, que morreu ao nascer. Era a oitava de nove filhos de seu João e Dona Fortunata, todos com nomes começando com N, muitos dos quais eu conheci em viagens, tanto para Itapetininga (sua terra natal) quanto para Olímpia onde um deles morava, e aonde comi as primeiras mangas no pé de minha vida, e também as últimas. A segunda vez em que usei meu terninho de veludo marrom foi no casamento dela, em 1970, um dia muito feliz, porque eu a amava, mas também triste porque iria ter menos o Vavá perto de mim.
Nídia, Flávio, Leandro, Conrado, 1982
Nídia nunca comprou a ideia do hotel, sempre achou muito arriscado, e também não suportou a galinhice do meu irmão, não dava mesmo, e acabaram se separando. Teve um namorado ou dois, mas estava sozinha quando teve um AVC aos 53 anos de idade, decerto que o cigarro, que fumou inveteradamente até o último dia, teve participação importante no ataque fulminante. Nunca me esquecerei que, mesmo fula com meu irmão, ela aceitou ser minha madrinha de casamento ao lado dele, e no altar, eu fazia questão. Nunca me esqueço também de uma ocasião em que a Neusa assustou a querida Nídia, quando esta foi visitar-nos no Rio. Ela não conhecia ainda o Felipe, já com 10 anos, e quando o apresentamos, Neusa disse que era o seu amigo Mark, que apareceu primeiro na frente dela, que é lourinho de olhos azuis, ao que ela olhou para a Neusa e disse: 'Neusa??!!'. Logo depois, o real Felipe chegou, a minha cara, e o embuste acabou, para gargalhadas gerais!!


Hoteleiro - Escritor
Ocorre que depois que saldou a dívida do hotel com o banco, ao final dos 10 anos, parece que Flávio se desestimulou do negócio, vendeu o hotel e a fazenda e foi para Orlando, com sua nova mulher, os filhos dela e o Conrado. Leandro ficou com Nídia. Em Orlando, teve dois enfartes e adquiriu a companhia de safenas e mamárias, com uma heart condition que o permitia utilizar vagas de 'handicapped', o que era contestado em um estacionamento ou outro, sendo que numa das ocasiões, um policial negão de quase dois metros questionou sua condição, dizendo: 'You don't seem to be handicapped!", ao que Flávio respondeu, do alto de sua segurança: "You don't seem to be a doctor!". Após o espanto, o guarda sorriu, e foram tomar um café e tornaram-se amigos. Bem, voltando ao tema rico/pobre, parece que ele se desligou do processo de venda do hotel. Quando se apercebeu, o comprador não pagou o que devia e ele ficou sem o hotel e sem o dinheiro. Não conheço os meandros do que o levaram a esse calote fenomenal. Separou-se da segunda mulher, voltou ao Brasil, com o Conrado. Ele e os filhos tentaram recuperar o hotel na justiça, mas não conseguiram. Flávio enamorou-se algumas vezes, chegou a apresentar uma delas como esposa, quando veio no meu aniversário de 50 anos. Em suas tentativas de atividade remuneratória, chegou a Secretário de Turismo de Campos do Jordão, mas depois nunca mais nada deu certo, inclusive uma candidatura a Prefeito da cidade, e tinha como única renda o BPC do INSS que começou a receber aos 65 anos, e do qual pagava um ótimo seguro saúde, o PREVENT Senior, tão bom que nunca passou por nossa ideia ele morar conosco, para não perder a ótima cobertura do plano, que o curou de um câncer de próstata e salvou teve embolia pulmonar, com tratamento em ótimo hospital.

Adorava aqueles filhos, entretanto às vezes até exagerando nos presentes que a opulência, que viria a terminar, permitia. Apoiava incondicionalmente seus projetos e iniciativas, a destacar uma do Conrado, que jogava bem o futebol (soccer) e tinha uma forte perna esquerda, o que acabou, à época em que estava nos Estados Unidos, atraindo a atenção de um técnico de futebol americano, que via nele o potencial para ser um ótimo kicker, aquele cara que só entra para tentar um field goal, ou um ponto extra após o touch-down, e que estava em falta no 'mercado' local. Flávio virou fã e apoiador Número 1, destacando-se a ponto de ser eleito o pai de jogador mais atuante, pelos demais pais, no time em que Conrado jogava, até conseguindo uma reportagem para o filho. A coisa não vingou, infelizmente, e quando voltaram ao Brasil, Conrado embrenhou-se em uma atividade de risco que causou a maior aflição da vida de meu irmão: pa-ra-que-dis-mo! O pai não expressava seus receios, sempre apoiando os projetos do filho. Entretanto, num salto em Boituva, no interior de São Paulo, ele não avaliou bem a equação dos ventos num certo e terrível dia, o velame colapsou e Conrado teve queda livre de uns 12 metros de altura, num canteiro de grama de uma rodovia, entre uma pista e outra, a grama foi a sorte, mas ficou entre a vida e a morte, no hospital mais caro de São Paulo, que bom que voltou e está ótimo, casou-se com uma ótima mulher e mora em Orlando.

Meu irmão acabou solitário, como a letra da música que gravara décadas antes, num apartamento em São Paulo, sustentado por mim nos últimos anos. Leandro morou perto sempre que podia, foi um bom companheiro e estava junto quando o pai teve aquela embolia. Flávio estava magoado com os erros que cometeu (especialmente com Nídia, minha cunhada), com os amigos que sumiram, mas estava sereno. Conversávamos por telefone praticamente todos os dias, quando eu voltava do trabalho, no bluetooth do carro, sempre tinha boas histórias, e falávamos do Santos, e de clássicos do cinema. Ele se tornou mais religioso, místico até, e contava as visões que tinha com o pai. Nos últimos meses de sua vida, Leandro tentava a vida em Santos, e Flávio ficava só, no apartamento. Tive muita, muita sorte mesmo, que a minha Turma da Politécnica 1980 marcou um churrasco de confraternização em novembro de 2015, eu fui sozinho, de ônibus, pra São Paulo, e passei a manhã com ele no apartamento. Foi a última vez que o vi... Exatamente UM MÊS depois, em 15 de dezembro, uma segunda-feira, dois dias após visitar nossa família, em Campinas (até parece que foi lá se despedir, não os via há muitos anos...), ele saía de um restaurante (aonde abraçou a todos pela primeira vez e deixou o telefone do filho para o dono, também pela primeira vez) de volta para o apartamento, e dez metros depois, desabou de seu metro e noventa, na esquina de casa, após um ataque de coração causado por uma embolia pulmonar, mais um da família que vai embora por causa do cigarro, que nunca deixou de fumar, afora um interregno de poucos meses. Na cerimônia de sua cremação no dia seguinte, a que atenderam uns poucos parentes e quase nenhum amigo (avisei aos que conhecia), escolhi 'What a Wonderful World', o tema de 'Em Algum Lugar do Passado' e a Prece de Cáritas ao som de Ave Maria, e desabei quando aquele caixão enorme emergiu, o Vavá com sua face serena, imóvel. O que fez da vida aquele meu irmão querido, meu herói da infância, e até dos meui cativante, culto, conquistador, mas também temperamental, por vezes, arrogante, como ele mesmo se definia, que foi ao ápice e chegou ao fundo...?

Resultado de imagem para sagasséiaPra completar, termino com um fato positivo, que completou a famosa trilogia, já tivera filhos, já plantara árvores (muita). Assim como nosso pai, Flávio escrevia muito bem. Tinha um vocabulário impressionante, e uma memória de citações incrível, que começou a ganhar quando lia aqueles livros complicados que meu pai incentivava. Em algum ponto de sua vida, pegou os originais inacabados do livro do velho e o continuou, e terminou, e publicou, uma obra que intitulou 'Sagasséia', ótima combinação de Odisséia com Saga, a da família Vilanova, a base é a nossa família, histórias de nosso pai e da dele, romanceada, com muitas adaptações, afinal, meu pai nunca foi engenheiro nem Flávio foi diretor de banco. Alguém atento observará que o protagonista Fernando era dono de estância e criador de cavalos, Henrique era seu irmão engenheiro, e seu pai era Saulo, sua mãe América (anagrama de Iracema) e sua mulher era Nadja e os filhos eram Luciano e Cláudio, enfim, usou as iniciais para contar a história, com um mix de fatos reais e outros ficcionais. Incrivelmente, o livro ainda pode ser encontrado em muitos sites, por preços que variam ao redor de 5 reais, como vi neste link, e me surpreendi com o nível de aprovação dos leitores, com índices nunca menores que 95%, em universos de algumas dezenas de leitores, comprovando a qualidade da escrita de meu pai e irmão.

Na volta da cremação, naquela tristeza e solidão do apartamento, recuperei alguns de seus escritos em seu computador e pretendo compilá-los de alguma forma, em sua homenagem, tem muita coisa interessante. Inclusive um outro livro, que ele não publicou.

Bem, acho que resgatei aquela dívida e retratei minha família, da melhor maneira que pude.


Obrigado por chegarem até aqui!!!


4 comentários:

  1. Que maximo essa compilacao de lindas historias de uma familia tao extraordinaria. Orgulho define :)

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  3. Homerix,

    Excelente idéia a de reconhecer e registrar no Blog os legados positivos que os entes queridos nos brindam. Além do mais, emocionante para quem conhece e admira essa extraordinária Família.

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  4. Realmente ...repassei meus bons momentos que tive com meu amigo Flávio e Saul... que muito admirava!!! Conversávamos muito de Pitigrilli(que aprendi a gostarpelo Malaquias..
    Meu pai!!
    Você conheci !!! ...o irmão cuidado pelo irmão mais velho(Flavio) que vc chamava de Vavá...

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