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sábado, 24 de setembro de 2016

Cabeludo e Sem Meião


Faz 10 anos, escrevi este texto sobre o Rei...
Na era pré-blog, os textos eram looongos
Em que pese recentes pisadas na bola, 
sigo admirando sua obra.... 
compartilho com vocês...
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A referência do título distingue um do outro. Aquele, o careca depilado que estava arrumando o meião quando mais precisávamos dele, aquele que aprendemos a odiar nos campos sem concentração alemães. Este, o que ficou por aqui, desperta variadas emoções em milhões de brasileiros, da idolatria à indiferença, da admiração ao desprezo, mas nunca, penso, despertou o ódio. Desde que comandava aquelas doces tardes de domingo, vem participando da vida musical brasileira, com menos ou mais intensidade, mas sempre com presença marcante, ostentando a alcunha que lhe deram logo cedo! Décadas se vão desde que subiu ao trono, mas ainda nenhum aventureiro lançou mão.
                        Esse papo todo aí de cima foi somente para introduzir o artista do qual falarei a seguir. Ele mesmo, o Rei, Roberto Carlos. Alguns falarão: pô, cara, logo você, beatlemaníaco e amante de rock progressivo e clássico, entoando odes a Roberto? E eu digo: por que não? O cara tem o seu valor. Naquela sua fala mansa, ele vem dando seu recado há 45 anos, com competência. E aquela voz melodiosa é imbatível!
                        O foco da minha fala é a caixa Anos 70 da coleção lançada em 2005 com a carreira de Roberto Carlos até 1979. Não sei se sabem: quase 40 anos de carreira, divididos em 5 caixas, Anos 60, 70, 80, 90, e uma com a carreira internacional, discos remasterizados, muitos deles pela primeira vez em CD, envolvidos em capinhas que reproduzem fielmente as capas dos LPs, com letras, o que não havia nos primeiros discos. Em boa hora resolveram fazer esta compilação, já que a primeira década do novo milênio parece ter encontrado a inspiração real em baixa, dificilmente haverá material suficiente para uma sexta caixa. Comprei a dos Anos 60, louco que estava por reviver aqueles bons tempos, em que grudava meus olhos infantis nas dominicais tardes da TV Record, para admirar aqueles que foram meus primeiros ídolos brasileiros, que estavam logo ali, a 60 km da minha praiana Santos, bem mais próximos que aqueles outros, de Liverpool, lá do outro lado do Atlântico.
                        A caixa dos Anos 70 foi presente de aniversário, lá se vão 10 meses. Como andava meio viciado em ouvir notícias no carro, não evoluí muito na esfera musical, só aproveitava a hora da Voz do Brasil (“Em Brasília, 19 horas!”), já falei sobre isso antes. Agora, recentemente, com o hilário eleitoral, aumentou sobremaneira o tempo dedicado à música e comecei então a ouvir os discos que ganhara de presente. E, gostei do que ouvi, fora algumas exceções.
                        Começo tentando transcrever um possível diálogo entre fanáticos por Roberto que, se ninguém explicar, parece conversa de loucos: “- Cara, ouvi o disco Roberto Carlos e está sensacional”, ao que um outro retruca: “Eu também ouvi, mas prefiro o disco Roberto Carlos!”, quando então entra um terceiro fã, e diz:”Que nada, vocês estão doidos, o melhor mesmo é o disco Roberto Carlos!”. Pois é, fica difícil distingui-los pelo nome, já que o Rei optou por nomear TODOS (são pouquíssimas as exceções) os seus discos com o seu próprio nome, não sei se por absoluta convicção, ou pela dificuldade de destacar alguma das canções, galgando-a à condição de canção-título, ou ainda pela falta de um tema que unisse algumas canções o suficiente para nomear o disco todo. Que nada, acho que foi mesmo por teimosia, ou superstição, afinal ele é o supersticioso mais famoso destas plagas: “Comecei assim, deu certo, não mudo uma vírgula!”. Ah, e se quiserem referir-se às capas, nada feito: TODOS os discos estampam a foto de sua majestade, sob os mais variados ângulos. O jeito, então, é referir-se ao ano em que foram lançados.
                        Não vou expressar a opinião disco a disco, para não encher a paciência, o plano é dar uma linha geral, comportamental, melódica, estrutural. Começo logo quebrando a promessa, falando do primeiro disco da caixa (1970), não que ele seja nada de especial. Apenas porque marca um espécie de transição entre o rapaz, líder da juventude, com mensagens rebeldes, que cantava rock, com uma voz forçadamente anasalada, falava sobre a garota papo-firme e entrava na Rua Augusta a 120 por hora, querendo que tudo fosse para o inferno, na década de 60, e o homem, quase aos 30, mais intimista e solitário, com declarações românticas, que entoava baladas, com uma voz naturalmente macia, falava sobre (e para) a mulher e procurava um lugar além do horizonte da década de 70. Sintomaticamente, na canção “120... 150 ... 200 km Por Hora70 ele foge do passado, na última menção a velocidade  em sua obra.
                        Os discos da caixa têm, em sua maioria, 12 canções, das quais entre 5 e 7 da dupla Roberto e Erasmo Carlos. Como é sabido, num certo momento a dupla adotou a mesma estratégia de Lennon e McCartney. Todas as canções de um e de outro seriam lançadas como composições da dupla, sendo que no caso beatle, os dois se beneficiaram mutuamente, pois eram iguais, o que não acontece com a dupla tupiniquim. Então, nos discos de Roberto, as canções Roberto/Erasmo são predominantemente só dele, com algumas sugestões do amigo. E, de um modo geral, são muito superiores às canções de outros compositores convidados. Com honrosas exceções, de que falarei mais adiante.
                        Não vou falar só bem, claro, paro um pouco a exaltação para comentar sobre letras. Não vou falar exatamente mal, apenas ressaltar um aspecto um pouco negativo de sua composição: é que as rimas e os versos de Roberto são como grande parte do eleitorado brasileiro! Os versos são simples, as rimas são pobres! Não sei se lembram, lá do ’ginásio’, rimas pobres são aquelas que rimam palavras de mesma classe gramatical, substantivo com substantivo, adjetivo com adjetivo, verbo com verbo. Então, nas letras do Rei encontrarão uma profusão de “passando” com “caminhando”, “momento” com “pensamento”, “amou” com “sonhou” e “falou”, enfim. Não que isto prejudique a mensagem, ou a linha melódica, é que, às vezes, choca; acho que ele não investia muito tempo para procurar algo melhor. E, na verdade, às vezes não dá pra escapar. Até mesmo o grande Chico, que conseguiu fazer uma letra só rimando proparoxítonas (rimas esdrúxulas) em sua obra-prima ‘Construção71, teve que apelar para a rima pobre, em diversas ocasiões. Não seria justo exigir versos decassílabos (como mencionou Caetano em sua genial ‘O Quereres84) de um poeta popular. Não vamos crucificar o Rei por esses, como direi, detalhes tão pequenos .....
                        Aliás, aproveitando o gancho, logo no disco seguinte, em 1971, Roberto lançou aquela que seria, na minha modesta opinião, sua “masterpiece” romântica: “Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes pra esquecer e a toda hora vão estar presentes, você vai ver!”. Que hino! Alguns poderão classificar ‘Detalhes71 como um primor da “corno music”, mas não fica claro em lugar nenhum que a amada o abandonou por outro. E é uma sucessão de pragas rogadas pra ela nunca se esquecer dele, como em “antes de dormir você procura o meu retrato, mas na moldura não sou eu que lhe sorri, mas você vê o meu sorriso mesmo assim e até nesse momento você vai lembrar de mim”. Naquele mesmo disco, ele abria ‘Traumas71 com uma declaração chocante: “Meu pai um dia me falou pra que eu nunca mentisse, mas ele se esqueceu de dizer a verdade!”. A mesma citação foi relançada, com grande repercussão, pelos Titãs, na década seguinte, em declamação na magnífica ‘32 Dentes89.
                       
                     Como já mencionado, os títulos dos discos não eram lá muito imaginativos. Entretanto, o disco de 1974 poderia ter sido considerado um “Concept Album“, com o título de ‘Férias Conjugais’ ou ‘Dando um Tempo’, ao menos no conjunto das 6 composições de Roberto ali presentes. Senão, vejamos:

1.   Em ‘Despedida’, ele vai embora dizendo: “Só me resta agora dizer adeus, e depois o meu caminho seguir”;
2.   Ela foi acompanhando-o, então, até ‘A Estação’ onde “ela sorriu, me olhou nos olhos, me beijou, depois saiu, .... me acenou mais um adeus depois seguiu”;
3.   Já só, ele se arrepende em ‘Você’, dizendo “Você, que eu não encontro mais, os beijos que já não lhe dou, fui tanto pra você e hoje nada sou”;
4.    Depois, percebe que ‘É Preciso Saber Viver’ e partir pra outra
5.   E, em ‘Eu Quero Apenas’, adota uma vida frugal, querendo apenas “.. olhar os campos, ... cantar meu canto .... ter um milhão de amigos...”.
6.   Mas depois de algum tempo, se cansa de tudo,  sente saudade da vida antiga (e do cachorro, que “.... sorriu latindo”) e, em ‘O Portão, diz: “Eu voltei, agora pra ficar, porque aqui, aqui é meu lugar, eu voltei pras coisas que eu deixei ....!”.

               Bem, reconheço que foi um pouco de apelação, uma tentativa de encontrar alguma linha de criação, as canções nem estão naquela ordem, enfim, mas acho que valeu o exercício.
                       
                     Não encontrei em mais nenhum disco algo com alguma tendência marcante, mas é notória a sucessão de pérolas com a temática romântico/erótico/sensual, bem diferente dos ingênuos olhares, abraços e o “pegar na mão”  da década de 60, em que o máximo de ousadia era o beijo que fazia “... splish-splash ..... nela dentro do cinema!”. Roberto trouxe para seu cancionário a imagem que tinha, de um amante conquistador.

                      Sigam o roteiro daquilo que poderia ser intitulado ‘24 Horas de Amor com o Rei’:
1.      Ele começa, logo após um jantar a dois: “Eu te proponho, nós nos amarmos, nos entregarmos, ....., eu te proponho te dar meu corpo ....”.
2.      Ela aceita a proposta e meia-hora depois, ouve ele dizer: “Os botões da blusa que você usava e, meio confusa, desabotoava, iam pouco a pouco, me deixando ver, no meio de tudo, um pouco de você!”.
3.      Então, ele mostrava confiança no taco: “Vou cavalgar por toda a noite, por uma estrada colorida, usar meus beijos como açoite e a minha mão mais atrevida”.
4.      E, depois da cavalgada, “No seu corpo é que eu encontro, depois do amor o descanso e essa paz infinita, no seu corpo, minhas mãos se deslizam e se firmam numa curva mais bonita!”.
5.      Não satisfeito, depois do descanso, ele promete: “Amanhã de manhã, vou pedir o café pra nós dois, te fazer um carinho e depois, te envolver em meus braços  ..... pensando bem, amanhã eu nem vou trabalhar  ... quando, mais tarde, nos lembrarmos de abrir a cortina, já é noite e o dia termina, vou pedir o jantar!”.

                      Caramba, haja energia! É claro que aquela maratona  durou uns cinco anos, de 1973 a 1978, e as canções ‘Proposta’73, ‘Os Seus Botões’76, ‘Cavalgada’77, ‘Seu Corpo’75 e ‘Café Da Manhã’78 nem estavam nesta ordem, mas deu pra perceber como estas imagens povoaram as cabeças dos românticos da década. Hoje, um quarto de século depois, as ‘canções’ andam bem mais explícitas, onde o romântico sedutor pergunta à sua egüinha pocotó se ela quer bolete, mandando ela sentar na boquinha da garrafa!!!
                     
                     Sempre, numa longa carreira, chega a hora em que o compositor homenageia seus entes queridos. Algumas dessas obras foram grandes sucessos: o grande amigo Erasmo, em ‘Amigo 77, a mãe, em Lady Laura78 e o pai, em ‘Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo 79. Em outra homenagem, o sucesso não foi lá muito grande, mas a canção ‘Minha Tia 76 é simplezinha, mas bonitinha: ele faz menção ao começo de sua carreira,  em que participava de shows de calouros, em que foi hospedado, na Tijuca, por sua Tia Amélia. Interessante é ver o famoso bairro carioca mencionado na letra, assim como a metrópole Niterói, onde ele morou! Deve ter sido naquele período que ele, natural de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, adquiriu a parte boa do sotaque carioca, os r’s aspirados, deixando, sabiamente, os s’s chiados para os demais nativos. Outra homenagem importante, mas não explícita, está em ‘Debaixo dos Caracóis de Seus Cabelos’ 78, em que ele homenageia Caetano Veloso, na época, no exílio.
                        Uma linha recorrente é a temática religiosa, que começou com ‘Jesus Cristo 70 (“... quem poderá dizer o caminho certo é você, meu Pai!”) e teve ainda ‘Todos Estão Surdos71 (“... vem olhar pelo meu povo ... vem dizer tudo de novo!”), ‘A Montanha72 (“..por isso eu digo, obrigado Senhor!”), ‘O Homem73 (“Tudo que aqui Ele deixou, não passou e vai sempre existir!”) e ‘78 (“Você pra mim é tudo, você é meu escudo, minha fé me leva até você!”). Na década seguinte, ele seguiria firmemente nesta linha.
                        Quanto aos outros compositores, o grande destaque vai para Isolda, que quase nunca apareceu em público, mas presenteou o Rei com a mais bela canção cantada por ele, ‘Outra Vez77 (“Só assim, sinto você bem perto de mim, outra vez!”), rivalizando com ‘Detalhes71. Roberto gravou outras cinco canções de Isolda, com destaque absoluto para “Um Jeito Estúpido De Te Amar76, que fez grande sucesso também na voz Maria Bethânia. Outro grande presente foi a linda ‘Como Vai Você72, que já havia sido gravada pelo compositor Antônio Marcos, mas que teve o sucesso catapultado na voz do Rei. Entre os demais, nada que emocione muito, a não ser a presença de Caetano Veloso, com 3 canções medianas, ‘Como Dois E Dois71, ‘Muito Romântico77 e ‘Força Estranha78. Não poderia deixar de dar destaque também a dois sucessos do passado, magnificamente regravados por Roberto: ‘El Día Que Me Quieras73, de Carlos Gardel e ‘A Deusa Da Minha Rua74, de Newton Teixeira e Jorge Faraj, uma pérola romântica (“Ela é tão rica e eu tão pobre, eu sou plebeu, ela é nobre, não vale a pena sonhar!”).
                        Fechando a caixa, dois extras interessantes. O primeiro, Roberto Carlos narra ‘Pedro e o Lobo’70, música clássica de Sergei Prokofiev (uau!), regida pela Orquestra Filarmônica de New York (uau uau!) regida por Leonard Bernstein (uau uau uau!).  Uma combinação improvável de talentos, com um resultado surpreendente. Finalmente, San Remo 1968, lançado em 1976, com uma compilação de compactos gravados entre 1968 e 1973, incluindo a linda ‘Canzone Per Te’68, de Sergio Endrigo, com a qual Roberto ganhou o Festival de San Remo, naquele ano na Itália, cantando em italiano.
                        Bem, como sempre, não consigo ser objetivo. Também fica difícil resumir 10 anos de carreira em poucas linhas. Meu plano com relação a esta coleção era apenas a primeira caixa, como disse. Ganhei a segunda caixa e gostei de ouvi-la, lembrei-me de bons momentos da adolescência. Estou ainda pensando se parto para a terceira com a década de 80, já que a qualidade da composição real diminuiu bem, pelo que pude acompanhar de longe, andou caminhando perigosamente pelo universo mais brega. Por outro lado, lembro-me de algumas canções muito boas daquela época.
Enfim, quem sabe?!
Afinal, são tantas ‘Emoções81!

Um comentário:

  1. Ufa!!! realmente são muitas emoções "bicho"!
    (eu sou muito objetiva como vc pode "ler" ahahaha)

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