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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Renato Blue Cap Barros, um herói da música brasileira!

Meados do ano, fui ver um show de um cover sensacional de Elvis Presley no Shopping da Gávea, e na saída, reparei no cartaz anunciando uma banda que não ouvia há muito tempo. Era Renato e seus Blue Caps! Fomos em grupo, adoramos, e logo escrevi um post sobre o show (link), que foi muito bom!!! Publiquei no Facebook, e também numa página especializada na banda! A administradora da página gostou muito e começamos a trocar figurinhas. Ela contou que estava finalizando um livro sobre o líder d'A Band de Rock em Atividade Mais Antiga no Planeta. Ele ficou pronto, eu comprei, ele chegou, e um tempo depois, eu li, aliás eu devorei!

Renato Barros: Um Mito! Uma Lenda!A autora é Lucinha Zanetti e o livro é 

Renato Barros - Um mito! Uma lenda!

Lucinha optou por não fazer um livro usual, e oferece diagramação muito dinâmica, com fontes variáveis conforme a classe, fotos coloridas, e fez boas escolhas ao escrever a vida do astro e sua banda. Não espere textos longos. Claro que há muita pesquisa, visual e factual, mas grande parte do livro se constitui em transcrições de entrevistas com Renato, ou de conversas do comandante com convidados especiais (a com Getúlio Cortes é estupenda), que ela coordenou, presencial ou remotamente.

A história da banda com todas as suas formações está lá, desde a época dos Bacaninhas do Rock da Piedade (o primeiro nome) em 1959, que tinha os três irmãos, Renato, Paulo Cézar e Edson, com um baterista. O irmão caçula Edson (Edinho) partiu em 1962 para uma razoavelmente bem sucedida carreira solo com o nome de Ed Wilson, e Paulo Cézar esteve várias vezes na formação da banda, como baixista e vocalista, intercalando com contribuições a outros artistas, inclusive, Roberto Carlos. A banda teve a presença de Erasmo Carlos, sim, o Tremendão passou por lá, entrando no lugar de Edinho, e mais tarde, na década de 1970, chegou Michael Sullivan, sim, o maior compositor de hits do Brasil (pesquisem!). A celebrar-se a presença constante, desde 1964, do fiel Cid Chaves (*), primeiro como saxofonista, depois como vocalista, em todas as formações desde então, até a formação atual, que segue viajando pelo país, que vi no show, muito afinada, com poucos intervalos entre as músicas. Na bateria, tem Gelsinho Moraes, que herdou as baquetas de seu pai Gelson, o mais antigo da banda afora Cid, no barco desde 1972, só o abandonou quando passou de plano; no teclado, Darci Velasco, desde 1989, e no baixo, o mais jovem que já estava na entourrage como técnico de som, e assumiu o instrumento com a saída de Amadeu Signorelli. Todos e cada um dos membros da banda, de cada formação são destacados a seu momento!
(*) Abro aqui um breve hiato, para falar sobre essa união. Quando escrevi o texto, inadvertidamente escrevi Cid Barros, ao invés de Cid Chaves. Lucinha me alertou e agora corrigi, e tal, mas considero ter sido um ato falho para expressar uma realidade. Ao escrever 'Barros', na verdade eu estava colocando o Cid na mesma família do Renato. E por que não? Na verdade, ele foi mais irmão que os de verdade, não é mesmo? Edinho saiu logo que viu uma oportunidade e nunca mais voltou; Paulo Cézar abandonou o barco várias vezes em busca de mais dinheiro, e voltava várias vezes em busca de abrigo quando aquela fonte secava; já o Cid, não, entrou e nunca mais saiu. Sabe lá o que é uma união ininterrupta de 55 anos? Nem em família isso acontece! É a velha história, irmão a gente não escolhe, amigo, sim! E que amigo!! Lembrou-me até o nome de uma versão que Renato fez para 'You Won't See Me', que ele chamou de 'Até o fim'! É como Cid estará atrelado a Renato ... 
A-té-ufim ... Aaa-téé-uu-fim ... A-té-ufim ... Aaa-téé-uu-fim
uuuuuuuuu - lá lá lá - uuuuuuuuu - lá lá lá 
Claro que a discografia é apresentada na íntegra, com as capas (e às vezes contracapas) de cada disco, mas muito além desse jardim, tem a exposição das composições em classes, independente dos álbuns em que foram lançadas. Composições dele para a banda foram mais de 60. Se contar as que compôs para outros artistas e as versões que fez, a contagem passa de 150!

Há o capítulo com as versões que ele fez de músicas dos Beatles, aliás, o que os lançou ao estrelato, pois muitas delas eram lançadas antes que conhecêssemos as originais dos rapazes de Liverpool, como foi o caso da primeira delas, 'Menina Linda', 'Aaaaah deixessa boneca faça-me o favor!' lançada aqui antes do álbum 'Os Reis do Iê Iê Iê', que tinha a original 'I Should Have Known Better'. Foram 15 as versões dos Beatles, sendo a última 'Não Volto Mais', de 'Paperback Writer', mas não esperem na versão em português, a história do escritor querendo vender seus escritos!  E Renato se esmerava nas harmonias vocais, orientando os demais sobre quem devia cantar o quê, em que tom e quando! A ótima história da origem daquela primeira versão, inspirada numa orientação de Carlos Imperial, é contada várias vezes ao longo do livro, mas eu gostei de ler novamente todas elas ('IMPERIAL, VOCÊ É FODA!!!'). A canção estourou nas rádios e em vendas, com a banda perdendo apenas para o Rei, Roberto Carlos, já um astro! 

Falando em Roberto, há um capítulo especial, afinal, segundo Renato, compor uma canção para o Rei significava um carro ou um apartamento, em direito autoral!! E ele tem 6 canções nos discos dele, sendo as mais famosas 'Você Não Serve pra Mim' e 'O Feio' ('E é 54, 54, o número do seu sapato'), que eu amo de paixão, desde sempre, que fez em conjunto com Getúlio Cortes. Aliás, este último também ganhou muito dinheiro em composições para o Rei, infelizmente, como ele mesmo conta, eles eram jovens e irresponsáveis e torravam todo o dinheiro, especialmente em carrões.... tem até um caso do Renato, que pegou uma sacola de dinheiro para comprar uma casa para seus pais (**), só que quando chegou, ela já tinha sido vendida, e na volta, cabisbaixo, passou numa exposição de carros e comprou uma Lotus EUROPA, original, que acabou numa batida um mês depois.... a história toda é ótima ... e triste...
(**) Claro que Renato acabou comprando uma casa pra seus pais, mas na verdade, abro aqui mais um hiato, para falar sobre eles. A mãe foi fundamental, e não apenas por ensinar os filhos a tocarem violão. Ele sempre conta com muito carinho de como ela cantava bem, até fazia backing vocal na Rádio Nacional, mas nunca se profissionalizou,  e de como ela gostava de música, e como Renato ficava encantado com aqueles LPs que ela punha pra tocar enquanto fazia o trabalho de casa, estilo Glen Miller, Nat King Cole, Tommy Dorsey, e também as brasileiras, de Dalva de Oliveira e Orlando Silva, que ele ouvia e que despertou nele o gosto musical, que ele honra até hoje. Apesar de ter feito a carreira no rock, Renato não abandona os grandes clássicos, e sempre faz homenagem em seus shows. No show que eu vi, teve 'Smile' de Charles Chaplin, que o inspirou a compor, e teve 'Corcovado', ao estilo d'Os Cariocas, com aquela harmonia vocal primorosa! Seu pai era um segurança, e fazia pontas em filmes da Atlântida, e sempre apoiou as aventuras do filho.

Depois, há o capítulo das composições de Renato para outros cantores. Jerry Adriani, por exemplo, teve 7 composições de Renato em seus discos, e para o 'conjunto' The Fevers' (que está aí até hoje), foram 9, dentre elas 'A Pobreza' (a garota que eu adoro, por quem tanto choro, não pode me ver...), na verdade uma regravação, pois Renato a fez para o Leno, da dupla Leno e Lilian, mas a mais legal era 'O Pica-Pau', sensacional... que foi regravada por Sandy e Júnior. A mais famosa dele, 'Devolva-me' em conjunto com Lilian (sua namorada de então), que foi um sucesso estrondoso de Leno e Lilian, e teve um revival sensacional mais de 30 anos depois, quando foi tema de novela na voz de Adriana Calcanhoto, só o disco dela vendeu 300 mil cópias, e se contar as vendas da Trilha Sonora da novela, a contagem chegou perto dse 2 Milhões!! Mas a melhor descoberta que tive neste quesito, foi a composição 'Rossi, The King', que Renato compôs justamente para Reginaldo Rossi, um rock-exaltação sensacional, engraçadíssimo, que até deixarei aqui, neste link!

Há um destaque, merecido, da atividade de Renato Barros como produtor musical, assalariado da CBS, a gravadora. Descobriu alguns astros, foi o produtor que mais vendeu discos da gravadora em 1972, com o então desconhecido José Ribeiro, muito popular no Nordeste, pelo que foi levado a uma concessionária, mostrou um carrão pro Renato, perguntou: 'Gostou?'... 'Sim!' ... 'É seu!' ... era assim que funcionava a coisa.... Mas neste capítulo de produtor, o que me deixou surpreso foi a presença de Raul Seixas, que também foi produtor como ele, à época, bom amigo, e responsável conjunto pela 'Lei da Insequapibilidade', termo criado por Renato pra impressionar as 'meninas do Leblon', cuja fórmula e corpo tomaram forma na contracapa do disco de 1970 de Renato e Seus Blue Caps. Melhor ler tudo no livro, é muito divertido...

E tem também os causos sensacionais da época, dos quais destaco aqui o episódio da compra dos primeiros instrumentos de verdade (eles usavam instrumentos feitos por eles mesmos..). Renato chegou ao Imperial e contou que teriam que abandonar a 'carreira' porque não tinham instrumentos, e o gênio da música não teve dúvidas, mandou Renato aparecer no seu triplex de Copacabana, onde se 'encontrava' com a Miss Guanabara, e deu a ele bilhetes de ida e volta de ponte aérea para São Paulo e dois cheques assinados, em branco, para comprar junto ao Sr. Giorgio Gianini, ele mesmo, dos famosos violões, os instrumentos que precisava. Renato pegou então o primeiro avião de sua vida, chegou na fábrica, escolheu duas guitarras, baixo, amplificadores, e bateria, e deu um cheque que o próprio Gianini preencheu, uma Kombi levou tudo pro aeroporto, aonde percebeu para quê era o segundo cheque: para pagar o excesso de bagagem!! Enfim, a carreira decolou graças a essa atitude, coisa e tal, mas cinco anos depois, o Sr. Gianini se encontra com um Renato já famoso, num evento em São Paulo, conversa com ele, normalmente, até que chega no acontecimento do passado. Sr. Gianini diz: 'Fiquei muito feliz de ver meus instrumentos nas mãos de vocês fazendo sucesso no Brasil todo, mas sabe aquele cheque que você preencheu? Não recebi aquele dinheiro até hoje!!!' e desabou em gargalhadas! E comentaram sobre o gerente da Ponte Aérea que também ficou a ver ... aviões. 

Há um capítulo inteiro sobre guitarras, de como ele é considerado um dos melhores guitarristas brasileiros, por sua inovação, pois praticamente instaurou o som distorcido, que era novidade aqui. Deu pra perceber a maestria dele no show que vi. E deu pra sentir a admiração que os fãs têm por essa habilidade. Há uma sessão inteira de depoimentos dos fãs, que não poderia faltar!

Claro que a Jovem Guarda não poderia deixar de passar incólume, afinal, eles fizeram parte daquela história! O que marcou Renato é que eles não faziam parte do grupo inicial do show das tardes de domingo, mas foram pra lá por causa do sucesso de 'Menina Linda'. Renato nunca entendeu por que eles não foram chamados no início.... mas eles ficaram no show até quase o final, em 1968, mas rescindiram o contrato antes. Ele não gosta de ser considerado uma Banda da Jovem Guarda, porque, afinal, eles estavam na estrada seis anos antes. Volta e meia ele é chamado a falar sobre isso e conta essa história e tal, mas a melhor definição foi dada por uma namorada que teve, que era psicóloga, e que lá pelo meio do relacionamento, disse: 

'Já tenho um diagnóstico pra você, querido!
Você AMA a Jovem Guarda!!!'

Recomendo muito, e sugiro que ouçam as cancões assim que elas vão aparecendo.

Muito bom mesmo!! 

3 comentários:

  1. Nossa! Obrigado por compartilhar essa joia, vou procurar este livro! Como sempre Seu Homero, muito bem escrito seu blog!

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  2. Homerix,

    Genial postagem, com agradável sabor de nostalgia. Não sabia da publicação do livro "Renato Barros - Um mito! Uma lenda!", de autoria de Lucinha Zanetti. Pela sua excelente resenha soa muito atraente. Buscá-lo-ei.

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  3. Ótimo post, bem interessante saber mais sobre esse mito.

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