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sexta-feira, 7 de abril de 2017

Tchernóbil

Aguardando o último livro da saga de Guerra dos Tronos, já encomendado, embarquei numa iniciativa de Renata, que encomendou dois livros da ganhadora do Prêmio Nobel de 2015, Svetlana Aleksiévitch.


Escolhi, para começar, ‘Vozes de Tchernóbil’, e comecei sem ler orelhas, como sempre faço! Sobre o ooutro livro, que já acabei também, escrevo aqui, neste link!

Em primeiro lugar, foi a primeira vez que vi o acento no ‘ó’.... pensava ser a tônica no ‘i’, como sempre se falou desde a explosão do reator em abril de 1986.

Um desastre que não é como um tsunami ou um terremoto ou uma inundação, que acontece, destrói e fim, começam as operações de recuperação. Aqui, foram relativamente poucas as fatalidades no dia do acidente, mas seus efeitos duram até hoje, e ficarão por séculos....

No primeiro capítulo, um brevíssimo histórico do acidente, e fico sabendo que, apesar de a usina atômica estar numa cidade da Ucrânia (até coloquei no meu quiz), o país mais afetado foi a Bielo-Rússsia (assim chamada por aqui), na verdade Belarus, e que significa Nova Rússia, apesar de ‘bela’.

Depois, fico sabendo ser a escritora jornalista...... e depois começam depoimentos, depoimentos e mais depoimentos de sobreviventes.... aí pensei, caramba, é um monte de relatos, muito bem concatenados e coordenados, típico de uma reportagem, um documentário jornalístico, que talvez pudesse merecer um Prêmio Pullitzer.

Sabedor de que a instituição norueguesa premia, não Um livro, mas a carreira do escritor como um todo, pensei.... ‘então, vou ler este, mas depois leio um outro que deve ser o motivo do prêmio’..... afinal, sempre pensei que ganhadores de Nobel seriam escritores profissionais, que ganhavam notoriedade pela qualidade de seus romances, históricos ou não, e não compêndios de depoimentos.


Bem, isso foi a impressão inicial, porque o conteúdo acabou me conquistando... as histórias dos primeiros mortos, dos efeitos da radiação, depois das evacuações, de Pripyat, a cidade mais próxima, e das demais vilas e povoados, hoje cidades-fantasma.... e das operações oficiais atrapalhadas, quando se enterrava terra com terra, a ocultação do verdadeiro teor do desastre, tanto que mantiveram a usina gerando eletricidade até 2000, os ‘liquidadores’ responsáveis pela ‘limpeza’, os robôs que utilizaram mas por pouco tempo porque quebravam por conta da radiação (imagina o que não fazia com o corpo humano...), o abandono dos lares, as coisas que levavam, ou as que não deixavam levar, a política oficial de dizer que estava tudo bem, o envio de tropas inteiras sem a proteção adequada para uma morte lenta, relatos sobre os heróis que mergulharam num tanque radioativo para abrir um ralo evitando um espalhamento ainda maior, os pilotos de helicópteros que chegavam muito próximos para lançar chumbo sobre os destroços, uma geração que morreu jovem, desprezada, lutando com o preconceito, tudo foi muito tocante. Acostumei-me com as contagens de radiação, os roentgens, os curies, os milicuries, nos dosímetros que ardiam, apitavam, gritavam, ao serem aproximados de uma cadeira, de uma maçã, da relva, do gato, da tiroide das pessoas (que é onde se depositava a radiação), ... E as cores que tomavam as coisas e as pessoas, e dos inchamentos que acometiam os mais graves, e dos aumentos exponenciais dos índices de abortos espontâneos, dos nascimentos de crianças e animais malformados (não coloquei fotos aqui), dos indicadores de câncer.

Então, cheguei à conclusão de que o Nobel fez muito bem, sim, em premiar esse estilo de literatura, pois assim, essas histórias vieram ao mundo, e em última análise, eu as fiquei conhecendo....  a própria autora publica, ao final do livro, o discurso que fez ao ganhar o prêmio, em que diz exatamente sobre essa decisão de premiar uma obra que não era ‘literatura’.

Leitura altamente recomendada... eu diria, essencial!!!

Bem, a gente viu mesmo que os velhinhos noruegueses estavam querendo quebrar paradigmas... e foram ao extremo no ano seguinte, quando concederam o mesmo prêmio ao compositor Bob Dylan, esta, sim, uma quebra monstro de paradigma elevada ao cubo!!! 

O que será que vem em 2017???


4 comentários:

  1. Eu estou a ler da autora também "A guerra não tem
    rosto de mulher" que é fascinante!
    Continue a escrever Homero que somos muitos os leitores!
    Um abraço de Londres, Patrícia

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  2. Ganhei este livro neste final de semana, de uma amiga. Ansioso para ler!

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  3. Homero
    Obrigado pela dica, mas estou aguardando o terceiro da Renata. rsrs

    Itamar

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