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quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Chegando ao Frederico I

Rio de janeiro, 29 de dezembro de 2005
Caros vizinhos do Frederico I,
Venho, por meio desta, apresentar-me e à minha família, a vocês e à administradora de nosso condomínio, como novos moradores do apartamento 501.
Além de mim, engenheiro, 47 anos, beatlemaníaco, estão comigo: minha esposa Neusa, funcionária pública federal, 47 anos (apesar de aparentar bem menos!); minha filha Renata,  estudante de Jornalismo, 20 anos, cinemaníaca; meu filho Felipe, estudante de Matemática, 17 anos, guitarrista e violinista; minha sogra Zulmira, dona de casa, 82 anos bem vividos; meu cunhado Antônio Carlos (o Carlinhos), deficiente físico e mental, 53 anos, um verdadeiro santo; Juraci, empregada doméstica, 60 anos, que ajuda no trato do Carlinhos e, finalmente, Suzy, empregada doméstica, 22 anos. Como vêem, viemos aumentar consideravelmente o número de habitantes do nosso edifício.
Eu e Neusa somos paulistas, de Santos, e viemos para o Rio de Janeiro há 23 anos, quando nos casamos. Desde então, e até agora recentemente, moramos em um mesmo condomínio, logo ali em Botafogo, que tinha 231 outros vizinhos. Estamos, portanto, achando incrível o que acontece aqui: desde que freqüentamos estes nossos elevadores, há mais ou menos 1 mês entre namoro, negociação, pré-mudança e efetiva morada, não compartilhamos nossos elevadores com nenhum de vocês! Outra coisa interessante: aqui os elevadores chegam e ficam. Bem, acostumar-nos-emos a isto! Não será difícil, claro!
Outra razão para esta carta: um pedido de desculpas! Ontem, ao empreender mais uma de minhas obrigações maritais, a de preencher paredes com enfeites, tive a “felicidade” de perfurar o coração de um Tê, componente de uma coluna de descarga de vaso sanitário, que atendia a todos os apartamentos! Poderia ter sido uma ramificação que só afetasse a mim ou, ao menos, uma coluna menos inportante, porém caprichei e acabei com o fornecimento de água de 80% das tão necessárias privadas! Menos mal que os lavabos continuaram funcionando. Quis a providência que, no exato instante em que perpretei o insano movimento, estava a cerca de 2 metros de mim um bombeiro (ou encanador, como nós, paulistas, muito mais apropriadamente denominamos!), consertando um vazamento no banheiro da suite que eu enfeitava. Foi ele o único ser vivente a ouvir a pouco educada expressão que proferi ao receber o inesperado jato de áqua em minha cara (felizmente, não perfurei a coluna de esgoto!). Depois de identificar o registro que alimentava a coluna, operação que teve a ajuda de nosso prestimoso zelador, começou a empreitada de conserto, que durou quase 5 horas, de sangue, suor e lágrimas … bem, corrigindo, apenas as 2 últimas.
Pelo feito, peço desculpas! Concordo que não foi um perfeito cartão de visitas de nossa chegada à pequena comunidade. Serviu também para que, quando nos visitarem, notarão muito menos quadros e espelhos nas paredes do que o originalmente previsto. Certamente pensarei 5 vezes antes de acionar aquela furadeira novamente!
Enfim, quero aproveitar para oferecer nosso telefone, 2537 2628, e desejar a todos um excelente 2006, com muita saúde, harmonia e, se possível, um condominiozinho um pouquinho mais em conta!
Abraço a todos!
Homero Ventura, família e agregados!

sábado, 3 de dezembro de 2005

Paul is 63 and Rolling

Há uns três meses tenho estado acometido da Síndrome Noticiosa Aguda. Explicando: estou viciado em notícias via FM, enquanto dirigindo meu carro .... música, só entre 19:00 e 20:00 (“Esta é a Voz do Brasil!”). Nas últimas semanas, porém, outro poder se “alevantou”, salvando-me temporariamente do vício: chegou em casa uma caixinha com três CDs, encomendados via internet. O primeiro que ouvi (claro!) foi o novo disco de Paul McCartney, chamado “Chaos and Creation in the Backyard”. Trata-se do 20º disco de estúdio de Sir Paul (sem contar os discos ao vivo) desde que deixou os Beatles, há (pasmem!) 35 anos. Desde então, venho prestando atenção aos detalhes, entendendo as letras, ouvindo e re-ouvindo este que é, sem dúvida, o seu melhor disco em 20 anos. As notícias ficaram para trás, por um momento!
Esta é a terceira vez que Paul se aventura a ser um ‘One-Man-Band’. Isso é para poucos! O primeiro disco solo, McCartney, em 1970, também foi o primeiro deste tipo, em que ele é o único instrumentista, mostrando todo seu talento. Foi até sintomático aquele lançamento, pois, na primeira vez em que canta solo, ele ‘manda um aviso’ aos outros Beatles: ‘Não preciso de vocês!’. Nem deles, nem de ninguém: tocou, além do baixo elétrico (sua especialidade), guitarra, bateria e piano. Aqui, cabe um esclarecimento: tocar tudo não significa tudo ao mesmo tempo! Primeiro grava-se uma base com a música toda, com piano ou guitarra, com voz ou não, depois se vai acrescentado um a um os instrumentos que faltam. Recurso disponível com a tecnologia de estúdio.
Entretanto, aquela não foi a primeira vez em que tocou algo diferente do que o seu querido baixo Hoffner (só se ficarmos no instrumentos de cordas). Em 1969, ainda Beatle, quando estava de férias, John apareceu à porta de Paul, que morava perto de Abbey Road, e disse: ‘Vamos para o estúdio!’ Ele havia acabado de compor uma ode a sua lua de mel com Yoko Ono, “The Ballad of John and Yoko”, e não queria deixar de registrar. Como George e Ringo também estavam de férias, porém, fora da Inglaterra, resolveram tudo eles mesmos: John além de ser o guitarrista-base, como sempre, fez também o papel de George, tocando a guitarra solo, e Paul, normalmente só baixista, fez também o papel de Ringo, tocando bateria. Num dos momentos da gravação, John, tocando guitarra, perguntou a Paul, tocando bateria: “All right, Ringo?” E Paul respondeu: “Yeah: George!” A brincadeira foi lançada em compacto e foi um grande sucesso, como sempre! Os outros dois Beatles não gostaram muito, mas, afinal, ganharam sem trabalhar!
Claro que, depois daquela primeira aventura super solo, ele montou algumas bandas até fixar um novo grupo, Wings, e saiu fazendo shows pelo mundo. Seus maiores sucessos no início da década foram “Another Day”, “Maybe I’m Amazed” e “Live and Let Die”, esta última, tema do sétimo filme de James Bond. Fato interessante do começo desta fase é que, sem fazer shows ao vivo há mais de cinco anos, desde o último show dos Beatles, em Candlestick Park, San Francisco, em 1966, ele estava inseguro quanto à sua capacidade no palco. Então, começou a tocar, de graça, e sem aviso, nas universidades dos Estados Unidos, assim quase que batendo à porta dos reitores das escolas e se oferecendo: ‘Podem abrigar um show de uma banda que está começando?’. Dá para imaginar o furor que eram aquelas incertas!
Aliás, incerto foi também o começo da nova banda, mas ela acabou se firmando com alguns bons discos, o melhor deles, ”Band on the Run”. A fase Wings foi marcada também pela prisão de Paul, em Tokyo, por porte de maconha. O acontecimento proporcionou as únicas 24 horas seguidas em que ficou sem a companhia de Linda, sua mulher desde 1968 até 1997, quando morreu de câncer, sem dúvida, uma bonita história de amor. Já a cannabis também foi companheira de Paul durante uns bons 15 anos! Ele foi o último dos Beatles a embarcar na onda daquela juventude, no meio da década de 60. Muitos ingleses nunca se esquecem de sua declaração na TV, admitindo o consumo, com aquela carinha de anjo: não viu necessidade de mentir. Ele não foi tão fundo nas drogas como John, mas acabou por adotar a maconha como inspiradora mental. Até fez uma de suas canções com letra dedicada ao hábito, “Got To Get You Into My Life”, do disco ”Revolver”, de 1966. Sabiam? Notem bem a letra: parece que ele agradece por ter encontrado alguém que mudou sua vida mas, na verdade, esse ‘alguém’ é a marijuana! Releiam a letra com mais atenção: ele começa com ‘I was alone, I took a ride, I didn’t know what I would find there. Another road where maybe I could see another kind of mind there!’, e termina perguntando ‘What are you doing to my life?’. Só entendi isso quando li relato dele mesmo no livro “Many Years From Now”, de sua autoria.
Quando Wings terminou, ele lançou o 2º disco tocando tudo, em 1980, ”McCartney II”. Só que, naquela oportunidade, usou e abusou da música eletrônica, moda na época, e acabou produzindo um disco estranho, que tinha pérolas como “Temporary Secretary”, que ele teve a coragem de lançar em ‘single’. Mesmo assim, ainda conseguiu um hit, com “Coming Up”. Durante a década de 1980, ele lançou discos como Paul McCartney, simplesmente, sem montar uma banda fixa. Foram alguns bons discos com algum sucesso comercial, dos quais meus favoritos são “Pipes of Peace”, “London Town” e “Tug of War”. Fez interessantes parcerias com Michael Jackson (“The Girl Is Mine” e “Say, Say, Say”) e Stevie Wonder (“Ebony and Ivory”) que foram grande sucesso. Sozinho, marcou um grande hit com o compacto “Mull of Kintire”, homenagem ao local de sua casa de campo na Escócia, que vendeu, só na Inglaterra, mais de 3 milhões de cópias, um recorde do Guinness. A canção, linda, é marcada por uma sinfonia de 100 gaitas de fole. No final da década, resolveu fazer uma excursão mundial, preenchendo mais da metade do repertório do show com canções suas da época Beatle. Antes, a concessão era de uma ou duas, apenas. Foi um delírio, sucesso absoluto, e lhe rendeu mais uma inscrição no Guinness, recorde até hoje não superado: reuniu, em recinto pago, o maior público para um artista solo, em outras palavras, 183.000 pessoas, no Maracanã, em abril de 1990. E eu era uma delas, claro!
Na década de 90, uns poucos discos, entre eles o “Unplugged – The Official Bootleg”: Paul foi o primeiro a gravar, em disco, o show acústico ao vivo promovido pela MTV, que começara em 1989. Ele quis evitar a gravação pirata (‘bootleg’) que sempre acontecia com os outros artistas convidados, mostrando, mais uma vez, seu tino comercial! Fez outra excursão mundial, em 1993: ele esteve no Brasil, em São Paulo e Curitiba, e eu não pude ir devido a compromisso profissional, ‘shit’! O fato mais marcante da década, entretanto, foi o câncer e a morte de Linda, sua companheira de quase 30 anos, em 1997, mãe de seus três filhos até então, mais um ente querido levado pela terrível doença. Treze meses de luto depois, veio o flerte com Heather Mills, modelo-loira-ativista-anti-minas-nomeada-para-o-Nobel, namoro, casamento e, finalmente, sua última filha, Beatrice, hoje com dois anos de idade. A volta ao trabalho foi em 2000, com um disco chamado ”Run Devil Run”, que tinha apenas três inéditas McCartney (uma delas, a música título) e era puro Rock & Roll. Marcante foi a banda que ele amealhou. Qual outro artista poderia dar-se ao luxo de ‘contratar’ um baterista como Ian Paice, do Deep Purple ou, mais ainda, tirar da aposentadoria de seis anos o lendário David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd? Outra marca do retorno à vida artística, foi a gravação do DVD ao vivo no Cavern Club, ou melhor, na réplica da birosca onde começara sua carreira, mais de 40 anos antes, tocando muitas das canções do disco.
O relacionamento com Heather foi inspirador de muitas das canções de seu disco ”Driving Rain”, de 2001, de relativo sucesso. Junto com ele, a excursão “Back To US”, dedicada apenas aos Estados Unidos. No título, uma brincadeira com um dos grandes sucessos da era beatle, “Back To USSR”. Quase 30 cidades americanas foram visitadas, shows em ginásios de basketball, todos lotados. Felizmente, uma delas foi Houston, onde morava, e eu tive o privilégio de assistir. Imediatamente, desbancou “In The Flesh”, de Roger Waters, do posto de ”Melhor-Show-Que-Eu-Já-Assisti!”, não só pelas canções, mas também pela cuidadosa (e audaciosa) produção, banda impecável e, principalmente, pelo carisma de Paul, extremamente simpático, conversando muito com a platéia, contando muitas histórias divertidas. Uma verdadeira benção! Minha família e os felizardos houstonianos tivemos o privilégio de ouvir algumas canções beatle que jamais haviam sido executadas em público, com destaque absoluto para “She’s Leaving Home”, balada magnífica presente em ”Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, de 1967. Jamais ela poderia ser cantada ao vivo, naquela época. Infelizmente, esta canção não está presente nem no CD nem no DVD que reproduzem o show, o que somente reforça o caráter de exclusividade da audição ao vivo. Obrigado, Paul! No DVD, com excelente edição, é mostrada a grandiosidade da excursão pelos Estados Unidos, com todo o equipamento sendo transportado de cidade a cidade por seis gigantescos ‘eighteen wheelers’, como os americanos gostam de denominar aquelas enormes jamantas de cinco eixos e 18 rodas (daí, o nome). Nas imagens da platéia, entrecortadas com imagens do show propriamente dito, alguns dos melhores momentos são retratados: a presença de estrelas como Michael Douglas e Jack Nicholson sorrindo como crianças, a mescla de jovens, velhos e outros nem tanto, acompanhando as letras das canções e, no momento mais tocante, um quase cinqüentão (como eu), ouvindo calado os acordes de “All My Loving” com os olhos marejados, as lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos, não se sabe se recordando o passado perdido, ou emocionado e agradecido por estar presenciando um show do maior artista vivo deste planeta.
Depois de um recesso para dedicar-se à gravidez de Heather e aos primeiros meses da vida de Beatrice, dedicou-se ao presente lançamento, que ora passo a descrever, brevemente.  Desta vez, a aventura de tocar tudo veio acompanhada de muita musicalidade e inspiração. “Chaos and Creation in the Backyard” é generoso: são 13 canções, todas de autoria de Paul. O disco inteiro foi bem recebido pela crítica e vai bem com o público, saindo facilmente da rotina beatlemaníaca do oba-saiu-mais-um-disco-de-Paul-e-vou-comprar-mesmo-que-seja-uma-droga!

Paul caprichou! Convidou para produzir o disco Nigel Godrich, o produtor do Radiohead, banda inglesa cuja principal obra, o álbum “Ok Computer!”, foi considerado, em pesquisa de 1995, o melhor disco dos últimos 100 anos!!!!! Claro que foi beneficiado pela memória curta (ou falta de memória ou respeito) da galerinha mais jovem, que respondeu à pesquisa. Comprei o disco na época para verificar quem tinha batido “Abbey Road“, “Sgt. Peppers...“, “The Wall“, “The Dark Side of the Moon“, “Led Zeppelin III“, só pra ficar restrito a uns poucos. Resultado: comprei o disco na época, ouvi e joguei no lixo, de imediato! Mais por indignação do que por isenta crítica. Não dava nem para pensar em comparação! Hoje, 10 anos depois, admiro o grupo, resgatado que fui por meu filho: os caras são muito bons! Só que, se você ouvir “Ok Computer!” quando estiver meio ‘down’, corre o risco de entrar em depressão: algumas canções são de chegar às lágrimas. Mas, ainda assim, looonge de ser comparado aos citados e a uns tantos outros. Por coincidência, um dos discos da caixinha que recebi via Internet é justamente “Ok Computer!”, encomendado por meu filho para resgatar um ‘erro’ meu do passado.
Nos instrumentos, Paul toca baixo elétrico, violão, guitarra, guitarra de 12 cordas, bateria, piano, teclado, sintetizador, órgão, e alguns artefatos de percussão simples como pandeiro, címbalos, gongos, sinos tubulares, maracas e triângulo. Toca ainda outros instrumentos que eu nem sei do que se trata, tipo, ‘autoharp’, ‘flugelhorn’, ‘melodica’, ‘floor tom’, ‘mass vibrachimes’, ‘cello’ (não acredito que seja o tradicional violoncelo clássico, só vendo para crer!) que só vendo o DVD vou descobrir do que se trata. Tudo com muita competência! Ele não foi tão auto-suficiente como em “McCartney” e “McCarteny 2”: desta vez, para o bem da musicalidade, ele agregou especialistas em instrumentos que não domina, talvez por influência de Nigel. Em ”Jenny Wren”, sobre a qual escrevo mais adiante, ele convida um tocador de ‘duduk’, instrumento do qual eu nunca ouvira falar, que complementa muito bem a leveza da canção. Parece um instrumento de sopro, cujo som se assemelha a uma voz humana. Em ”English Tea” e outras seis canções, ele complementa com um ‘string ensemble’, ou um quarteto de cordas, com violino, viola, violoncelo e baixo, coisa que eu sempre gostei de ouvir, mas admiro muito mais hoje, por ter um violinista na família e ver a dificuldade de se tocar esses instrumentos. Aliás, cordas e rock é uma mistura que foi inaugurada por ele mesmo, Paul, quarenta anos atrás quando lançou “Yesterday”, que tinha um arranjo de cordas feito por George Martin, o quinto Beatle. Outras canções levam um naipe de metais e, em uma delas, bongôs, coisa que ele não se arrisca a tocar.
Das 13 canções, apenas duas são rock’n roll, as demais, baladas ou ritmos mais suaves. O disco não padece daquele mal de que é preciso ouvi-lo várias vezes para aprender a gostar. Aqui, pelo menos seis das canções ‘te pegam’ de imediato. Além disso, as letras são muito boas, a veia poética de Paul está em muito boa forma.  A canção mais trabalhada até o momento, que também foi lançada em single, é ”Jenny Wren”, aclamada pela crítica como a nova ”Blackbird”. Para quem não se lembra, ”Blackbird” é canção lançada no álbum duplo “The Beatles”, em 1968, onde Paul é acompanhado apenas do violão que toca, considerada uma obra-prima por crítica e público. Naquele disco, Paul lançou outras duas baladas, ”Mother Nature’s Son” e ”I Will”, reverenciadas pelos beatlemaníacos. A versatilidade de Paul naquele magnífico album é marcante, pois, ao lado de tantas baladas, e mais um magnífico vaudeville “Honey Pie”, Paul gravou “Helter Skelter”, considerada por muitos a primeira canção ‘heavy metal’! “Blackbird” era um recado/homenagem às garotas negras (a juventude inglesa chamava as garotas de “birds”, carinhosamente): incitava-as a alçarem vôo próprio (‘you’ve been only waiting for this momento to be free, blackbird, fly’), amparadas pelo movimento de emancipação dos negros, que ocorria do outro lado do Atlântico. Aqui, conta a batalha de Jenny Wren para superar uma desilusão amorosa. Apesar de o próprio Paul considerar ”Jenny Wren”, como ‘Filha de Blackbird’, noto no dedilhado do violão mais similaridade com “Julia”, canção que John Lennon gravou naquele mesmo Álbum Branco (como ficou conhecido popularmente “The Beatles”), em homenagem a sua mãe.
Outra balada muito bem recebida foi ”English Tea”, alegre, bem ao estilo bem-humorado de Paul, que conta um convite/cortejo a uma garota ‘Would you care to sit with me, for a cup of English tea’. Musicalmente, lembra um pouco “For No One”, sucesso do álbum “Revolver“, de 1966. Em “A Certain Softness”, “This Never Happened Before” e ”How Kind Of You”, declarações de amor a Heather, nesta última dizendo ‘I thought I would never find a someone quite as kind of you’ (após tantos anos dedicados a Linda). Em “Follow Me”, ele agradece: ‘You lift up my spirits, you shine on my soul, whenever I am empty, you make me feel whole’. No lado rock, a principal é ”Fine Line”, bem animada, onde consta parte do título do CD (‘There is a fine line between chaos and creation....’), expondo sua veia filosófica. Noto um valor conferido a amizades: em diferentes canções há várias menções a ‘friends’ ou ‘friendship’ como em “Riding to Vanity Fair” e, em “Too Much Rain”, aconselha um amigo a dar a volta por cima com ‘Laugh when your eyes are burning, smile when your heart is filled with pain, sigh as you brush away your sorrow’. Sem dúvida, vale a pena conferir!
Se me permitem, uma ilação sobre a capa e o título! Na capa, aparece Paul, com seus 20 anos, tocando um violão em meio a varais cheios de roupa em um quintal. A referência ao caos é evidente, não há nada mais caótico que um monte de roupas de diferentes cores, assentadas sem regra sobre varais entrelaçados idem. E a criação, também: sempre que se tem um instrumento à mão, você está criando, ainda que esteja tocando uma música de outra pessoa, sempre é um toque pessoal que se dá. A menção ao quintal também pode ser explicada em “Promise To You Girl”,  que diz: ‘... in the backyard of my life, time to sweep the fallen leaves away ...’, com ‘backyard’ tendo o sentido de passado, de olhar para trás, ‘varrer as folhas’ e avaliar toda uma vida de caos e criação. Profundo, não? A foto foi tirada por seu irmão Mike no quintal da casa, em Liverpool, em 1962, alguns meses antes de os Beatles lançarem “Love Me Do” e iniciarem sua carreira. Paul e Mike viviam naquela casa com o pai James, um vendedor de algodão que, nas horas vagas, era um instrumentista de uma banda de jazz, e certamente foi uma fonte de inspiração para a musicalidade de Paul. A mãe, Mary, uma enfermeira do serviço público, falecera seis anos antes, vítima de câncer de mama. Paul rendeu-lhe homenagem em “Let It Be”, dizendo invocar sua presença em momentos difíceis (‘... Mother Mary comes to me, speaking words of wisdom ...’). Sempre correu o rumor de que a citada Mary referia-se a Marijuana, porém, não acredito que Paul iria brincar com o nome da própria mãe.
O disco está sendo levado na mais nova excursão de Paul, “US”, novamente somente para olhos, ouvidos e corações americanos. A patuléia ignara do ‘resto do mundo’ terá que esperar pelo DVD. Bem, claro que, no palco, ele está acompanhado de vários instrumentistas, não dá para reproduzir a mágica de estúdio. O nome da excursão é, novamente, um magnífico duplo sentido com o nome do país US (United States) e a idéia de compartilhamento ‘Us’ (Nós), em contraponto a ‘Me’ (Eu), garantindo que, no palco, não está sozinho, como no disco, ou ainda, dando uma idéia de união entre ele e o público que o ouve. Mais uma vez, Paul é partícipe de um “Pela primeira vez ...”: em uma das ‘performances’ do show, Paul e sua banda acordaram os astronautas da Estação Espacial Internacional pela primeira vez com uma performance ao vivo. Normalmente, os astronautas são acordados por música gravada. As canções escolhidas foram “English Tea” e “Good Day Sunshine”, esta última de ”Revolver”, muito apropriada para quem está acordando com a luz do sol batendo firme nos olhos, como nenhum outro ser humano pode apreciar. Vi a cena: lá no alto, dois astronautas, um americano, que dava piruetas de felicidade, em gravidade zero, ao lado de um soviético que parecia não estar lá muito bem entendendo o que se passava.
Bem, como já visto, Paul adora nomear suas excursões de maneira inteligente. A do ano que vem, como eu previra há anos atrás em conversas com amigos, deverá se chamar “Now I’m 64, clara alusão ao grande sucesso “When I’m 64”, uma canção ao estilo vaudeville lançada em ”Sgt.Peppers...”, em que ele se imagina velho, caído, temeroso se ainda teria a companhia de sua amada, numa situação de futuro então muuuuito distante: ‘Will you still need me, will you still feed me, when I’m sixty-four?’. Em 18 de junho de 2006, ele completará 64 anos e, se tudo correr como planeja, ainda estará muito ativo, rodando, desta vez, pelo mundo, encantando a galera. Felizmente, o Brasil está em seus planos!
O título deste artigo foi inspirado em uma coincidência tripla. O segundo disco que ouvi da encomenda foi o novo lançamento de outros sessentões, que também estão ainda ‘Rolling’: os Stones. Profético foi Mick Jagger ao nomear a banda, lá no início da década de 60, baseado em uma passagem de um grande sucesso de blues que dizia: ‘Rolling stones gather no moss’, traduzindo, ‘Pedras que rolam não criam limo.’. E eles vêm seguindo aquela máxima há mais de 40 anos: para não criar limo eles seguem na estrada, nunca ‘disbanded’, como fizeram os Beatles, Pink Floyd e tantas outras bandas de rock, continuam fazendo shows pelo mundo. Quando morreu um importante membro, Brian Jones, substituiram-no e seguiram adiante, ao contrário de Led Zeppelin, que encerrou a carreira quando morreu o baterista John ‘Bonzo’ Bonham. Enfim, seguem fazendo seu rock’n roll. Se bem que, no caso deles, já entrou na categoria ‘Rug’n Roll’. Dá pra notar a idade deles, mas só nas faces: no palco, a energia, principalmente de Mick, é contagiante. A máxima deles é bem direta, já admitiram: se dá para seguir faturando, por que não? A segunda parte da coincidência também é porque eles também produziram o melhor disco deles em muito tempo! Não sou especialista na carreira deles, mas garanto ser o melhor dos últimos cinco que ouvi. São 16 canções (foram até mais generosos que Paul), todas de autoria Jagger/Richards, umas poucas baladas e muito rock, blues e ritmos dançantes. Uma última parte da coincidência fica por conta do título do disco: “A Bigger Bang”, portanto, como no disco de Paul, falando em ‘Criação’.
Bem, comecei este papo, vejam bem, apenas para recomendar o novo disco de Paul, acabei falando sobre sua carreira solo, e terminei, vejam só, mudando até de artista! A sorte de vocês é que ainda não ouvi o terceiro disco, o último dos Titãs, outros que admiro muito e que caminham a passos largos para se tornarem dinossauros do rock.
Abraço!