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domingo, 13 de janeiro de 2013

CFO Deu-se

Em defesa dos gerentes financeiros (CFO, pronuncia-se SIÉFOU em inglês) do mundo, compartilho uma carta que fiz a um gerente não-financeiro sobre a minha experiência como um do primeiro tipo.... após presenciar numa troca de emails uma certa impaciência de um com outro...

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Colega COO - Chief Operating Officer, não pensava que fosse presenciar tamanha desinteligência entre colegas.
De minha parte, apenas fiz o que me foi pedido. Deixei de fazer parte de minhas tarefas para dedicar-me ao efeito  e nem mesmo acreditei que conseguiria.
Minha irônica mensagem apenas reflete meu estado de preocupação quanto ao possível insucesso de minha tarefa, dado o enorme número de atores envolvidos. E, você já deve ter percebido, minhas mensagens são preferencialmente irônicas (um dia ainda me ferro!).
Notei um certo inconformismo da sua parte quanto a uma postura aparentemente burocrática de seu colega CFO – Chief Operating Officer.
Devo aqui, até para tentar acalmar os ânimos, dar meu testemunho, saindo em sua (dele) defesa.
Pelo que conheço do colega, trata-se do menos burocrático dos gerentes financeiros que conheço. Prático, dinâmico, voltado para o negócio, pensando grande, são estes os qualificativos que eu a ele aplicaria, sem pestanejar. Burocrático, nunca!
Ocorre que a posição que ele ocupa é baseada em controle, tanto que, em inglês, ela é também oficialmente chamada de Controller. O Controlador é o guardião dos processos documentais de contabilidade e finanças, da boa norma. É dele a responsabilidade sobre o que ocorre com os números da empresa, não aqueles do futuro, do valor presente, das perspectivas, da imaginação, mas aqueles do dia-a-dia, do dinheiro no caixa (ou a falta de), da realidade.
Portanto, por mais pro-ativo, objetivo, ágil, moderno que o Controlador seja, ele tem que se ater a um mínimo de processo seguro para guardar coerência com certas normas que, caso não sejam seguidas, podem prejudicar a empresa. O pomposo título de CFO traz consigo um nível de responsabilidade perante entidades fiscais, governamentais, e, no presente caso, perante a casa matriz (como dizem 'los hermanos'), que o obriga a estar sempre atento, sob pena de perder o cargo, o emprego, ou em casos extremos, a liberdade. Isso, sem falar na saúde. Bem, esta última, todos os que estão submetidos a stress indevido estão sujeitos a isso, fazer o quê, vide o recente caso de nosso diretor. Acresça-se que, nesse caso de filial no exterior, você tem 2 governos, 2 fiscos, 2 justiças, de olho em cada um de seus movimentos. Poderíamos tirar o último 'r' do título 'Controlador', e ainda assim caberia perfeitamente. O Controlador é, paradoxalmente, um eterno Controlado, permanentemente auditado pela Sede (audioria interna), pelos sócios (auditoria conjunta), pelos independentes (auditoria externa), pelo leão (auditoria fiscal). E tem que obedecer a USGAAP, a BRGAAP, a Local GAAP e, como se não bastasse, agora vem o International GAAP. Bem, no caso americano tem um GAAP a menos.
Daí, a brincadeira lá do título. Na verdade, repete-se no presente, a todo momento. Quando faz certo, quando não faz certo, é a toda hora!
Eu nunca gostei do título de CFO, enquanto o tive, durante quatro anos, aí mesmo. Caí meio de pára-quedas naquela cadeira, nunca havia passado por posição no exterior, muito menos gerencial, menos ainda na área contábil-financeira. Demorei muito para me adaptar, levei muita surra da auditoria interna (se bem que, no meu caso, tinha lá do outro lado um crápula, que felizmente já caiu fora), vivi numa zona de perigo. Só no terceiro ano comecei a ver a luz no fim do túnel, mas só tive certeza que não era um trem no quarto (ano), quando estava prestes a fazer as malas. Houve momentos de tensão que minha esposa não quer nem se lembrar. 
 Sempre fui um gerente FILO (First-In Last-Out, para falar um pouco de contabilês, FIFO, LIFO, essas coisas de controle de estoque). Eu inaugurava a garagem gerencial todos os dias e a fechava de noite. A pressão era grande. E, saiba, os problemas vinham não de nosso querido E&P, mas das áreas de serviço. A papelada contábil me enterrava. Lá do Hemisfério Sul três letrinhas povoavam meus pesadelos: o T, o C e o U. Felizmente consegui ter todas as minhas contas aprovadas.
Quando meu substituto chegou, notei que sua postura era diferente, vinha de outras experiências na área financeira, vinha de outra bagagem gerencial (esta última, então, precisava do porta-malas de um Galaxie), conhecia os caminhos das pedras, os trâmites e os meandros da sede. Percebo aqui de longe que adota uma postura muito mais delegante que concentrante. Colocou o pessoal da Sede a falar diretamente com a galera daí, batalhando no idioma, coisa da qual eu os poupava, os de lá e os de cá, servindo de intermediário de luxo. E, assim agindo, pôde dedicar-se a coisas como a engenharia financeira, a política de capitalização da unidade, a política de transferência de preços das áreas de serviço, enfim, assuntos bem mais nobres. E o está fazendo com brilhantismo, ainda que com dificuldades, pois não há como driblar a velocidade mastodôntica da sede.
Mesmo assim, como controlador, precisa ter um pouco de apego a certas normas, que por vezes podem parecer picuinhas e irritar os objetivos gerentes do negócio. De vez em quando, precisa colocar o lápis na orelha e vestir aquele colete de 'guarda-livros', que é como chamavam os contadores no começo do século passado. É o dele que está na reta, lembre-se.
Não sei como era seu relacionamento com os financeiros das unidades de negócio brasileiras, tenho a impressão que era um pouco mais distante do que o que têm aí, onde vocês convivem muito mais. Talvez por isso, você não esteja acostumado com a proximidade, talvez tivesse menos limites por aqui. Aí, você pode ter certeza, o buraco é mais embaixo, pode haver um preço alto a pagar. Aí, dá cadeia! E ele nem fuma, para podermos levar os Marlboro.  Bem, esta pode ser uma conclusão precipitada, talvez até para tentar entender o que ocorre. O que eu tenho certeza é que vocês contam aí com o que há de mais moderno em administração financeira: onde já se viu um gerente financeiro defendendo a exploração a 100% de participação, sem dividir o risco e, pior, o capital de risco, como vi o colega externando na última reunião estratégica? Ainda não ouvi sua opinião sobre o nosso desenvolvimento ultraprofundo, mas acredito ser de total apoio.
Bem, espero que este blá-blá-blá todo tenha ajudado. Peço um pouco mais de compreensão, um pouco mais de paciência com aparentes picuinhas, ele o faz para o bem de todos. Penso que vocês estão em boas mãos.
Desculpe-me a intromissão, o aconselhamento não solicitado. Quero apenas ajudar, quero apenas que todos convivam em paz, quero levar o meu ombro amigo a qualquer amigo que precisar. Êpa! Esta é do Rei!
Abraço e que a paz esteja convosco!

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