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domingo, 1 de março de 2026

Toda vez que eu ..., eu me lembro de ...

Certas coisas que se faz usualmente que te fazem lembrar de alguma pessoa.... 

Acrescentei hoje a ocorrência número 35
  1. Toda vez que eu atravesso a rua fora da faixa, eu me lembro do meu amigo Milas, especialista em SMS (Segurança, Meio Ambiente e Saúde), que me diz: "Não importa o quão longe você está do veículo em sua direção, pois você pode tropeçar ou ter um mal súbito e o motorista pode não ter tempo de parar ou desviar! Você pode até não morrer do motivo da queda, mas pode morrer atropelado! "
  2. Toda vez que eu desço uma escada, eu me lembro do mesmo Milas, que me diz: "Sempre use o corrimão das escadas, tropeços são sempre inesperados e se você está de mãos livres, pode demorar décimos de segundo preciosos até encontrar um apoio que poderá evitar um estrago maior. Ah, você me diz que corrimões são poços de bactérias, ok, então, ao menos, ande com a mão 'voando' por sobre o corrimão, melhorando o tempo de reação!"
  3. Toda vez que vou pegar um elevador público, eu me lembro do colega Heber, que me disse: "Ao aguardar a chegada do elevador, posicione-se a montante do mesmo, para liberar o caminho de saída dos passageiros que sairão, isso evitará choques desnecessários, ou no mínimo, interrupções ao fluxo ótimo das pessoas!"
  4. Toda vez que eu vou usar um cotonete no ouvido, eu me lembro do mesmo Heber, que lembrava de uma recomendação de seu otorrinolaringologista: "Seu ouvido é tão delicado que a coisa mais fina que pode entrar nele é o seu cotovelo!" .... Acrescento mais uma declaração, no mesmo tema, no caso da amiga Simone, e com um instrumento diferente, que disse: "Quem nunca coçou o ouvido com um palito de fósforo, não sabe o real significado da palavra orgasmo".
  5. Toda vez que eu vou enxugar meus pés ao sair do banho, eu me lembro de meu primo Renato, que me diz: "Tenho tanto pavor de frieiras e micoses provocadas pela umidade que eu uso um secador de cabelos para deixar os pés bem sequinhos!
  6. Toda vez que eu faço a barba na pia, eu me lembro de Márcia, amiga da Neusa, recém-casada, que reclamava de uma coisa que o recém-marido fazia que ela não suportava: deixar a pia cheia de cabelinhos da barba, sem ao menos passar uma água...
  7. Toda vez que eu coloco uma calça em pé, eu me lembro de um conselho que ouvi no rádio: "É fundamental que a pessoa perceba o momento de que chegou a idade em que é melhor sentar-se para colocar calças... melhor não arriscar a queda!"
  8. Toda vez que vejo uma moto se aproximar pelo retrovisor direito, eu me lembro do meu amigo Tessarollo, que me aconselhou, em minha chegada após quatro anos fora do país: "Melhor abrir caminho pra ele, pra não correr o risco de ele meter o pé no seu retrovisor!"
  9. Toda vez que o sinal de rádio some em túneis, eu lembro (também) do Tessarollo, que me disse que túneis tinham antenas à jusante e à montante para garantir o sinal do celular, mas não o das ondas do rádio.
  10. Toda vez que alguém diz: 'Uma imagem vale mais que 1.000 palavras", eu me lembro do meu amigo Camargo quem, após assistir AO MESMO SHOW de Paul McCartney que eu, me disse: "Homerix, vou ficar esperando sua análise para saber O QUE EU VI HOJE, pois sua palavra vale mais que 1.000 imagens", e então resolvi dar meu dePAULimento (link).
  11. Toda vez que alguém me diz uma expressão em francês, eu me lembro (também) do Camargo, que definiu meu cunhado doente como 'Enfant de Dieux', ao conhecer a história dele, através de um texto meu (link).
  12. Toda vez que eu conheço um Fulano DE Tal, com a preposição no meio, eu me lembro de meu amigo João Carlos Araújo, que não é DE Araújo, dizendo: "De Araújo coisa nenhuma, este João Carlos não é DE ninguém!"
  13. Toda vez que sou apresentado a alguém, eu me lembro de meu primo Carlos Eduardo contando como Presidente Bill Clinton apertou sua mão, olhando firmemente nos olhos dele, e prestando TOTAL atenção a seu breve currículo que um terceiro lhe contava. Isso é o que os americanos chama de 'undivided attention'
  14. Toda vez que eu como maçãs argentinas, eu me lembro do meu pai Saul, que as tinha em quantidades obscenas, e que sempre cortava um pedaço e chamava 'Merooo!', um segundo antes de lançá-la para mim, no outro lado da sala.
  15. Toda vez que eu me vejo num ambiente com crianças agitadas e barulhentas, eu me lembro de meu amigo Adauto, que quando estava comigo numa dessas situações, olhava pra mim e dizia: "Santa Vasectomia".
  16. Toda  vez que ouço aquele 'r' caipira carregado, eu me lembro do meu amigo Carvalhinho, que tinha essa ocorrência no próprio nome, e gostava de contar a situação da ida ao mecânico carioca com a intenção de, imitando o sotaque da terra, enganar o prestador, mas acabava se entregando ao dizer que o problema poderia ser no 'carrrburadorrr'.
  17. Toda vez que alguém me chama de 'Homerix', eu me lembro de meu amigo Miró, quem me deu a alcunha, lá em 1982, talvez inspirado no grandão e bonachão personagem Obelix, da famosa história em quadrinhos, sem ter a menor idéia de que o apelido se perpetuaria no meu querido blog.
  18. Toda vez que sei de casais jovens que viajam e deixam filhos bebês com vovós ou babás (!!), eu me lembro de Joyce, minha colega prestes a fazer o mesmo com seu filho, que entrou chorosa em minha sala e perguntou: "Você fez isso com seus filhos quando eram bebês?" e eu respondi em duas sílabas destacadas: "NUN-CA!!!"... "buáááá...."
  19. Toda vez que eu uso banheiro público, eu me lembro, e testemunho, e confirmo a eficiência da Teoria da Ocupação dos Mictórios, a qual detalhei em postagem de ótima receptividade no meu blog (link). 
  20. Toda vez que eu uso banheiro público (de novo), eu me lembro da máxima que diz: "Sempre que perceber (ou algum te alertar) que você está com a braguilha aberta, tendo esquecido de fechá-la, pense sempre que isso é muito melhor do que se esquecer de abri-la!!"
  21. Toda vez que eu vejo ou ouço alguém cantando, ou que eu mesmo canto Ave Maria em latim (link), eu me lembro de meu amigo, o advogado Marcelo Mello, há quase 40 anos atrás, numa época sem internet, a quem recorri para saber a oração em latim.
  22. Toda vez que testemunho uma situação de traição masculina, seja na TV ou na vida real, eu me lembro de meu amigo Sicrano de Tal que dizia: "Existe uma linha tênue entre a fidelidade e a traição", ao justificar sua prática. Não conto quem é o Sicrano nem amarrado... aliás, nunca pulei aquela linha, aliás, nem cheguei perto, aliás ... vejam a última citação ...
  23. Toda vez que vou tomar café com bolo de fubá, eu me lembro de Tom Fernandes, um leitor/fã de minha filha que, ao ler este post meu,  e disse "Chamaria ele toda hora para tomar um café com bolo de fubá e ouvir todas as suas histórias"
  24. Toda vez que eu me ensabôo, eu me lembro do Mundo de Beakman, programa que eu via com as crianças, que me ensinou que o sabão diminui a tensão superficial, fazendo com que a sujeira se despregue da superfície lavada.
  25. Toda vez que ouço a conjugação neologística 'Sextou!", eu me lembro do recente e nobre amigo Queiroga, em um grupo do Whatsapp, convocando para que comecemos a falar de coisas mais leves que o objeto do grupo
  26. Toda vez que atualizo minha história retroativa (aqui, neste link), eu me lembro de 'A Estranha História de Benjamim Button'
  27. Toda vez que faço uma Tabela Dinâmica no Excel e um punhado de outras coisas planilheiras, eu me lembro de Valcir, que, gentil e brilhantemente, mas vem me ensinando, em tempos recentes.
  28. Toda vez que faço duplo-click no canto inferior de uma célula no Excel, para copiá-la até um fim identificável, eu me lembro do Guilherme, que me ensinou a operação, dando-me argumento para convencer a ele mesmo a adotar a configuração vertical ao invés da horizontal, em cálculos temporais.
  29. Toda vez que me deparo com uma evidente impropriedade (pra não dizer burrice) do Excel, eu me lembro da carta que escrevi há quase 30 anos ao Bill Gates (aqui, neste link), listando 49 coisas em que o pioneiro Lotus 1-2-3 era melhor que o sucessor famoso.
  30. Toda vez que eu tomo café-da-manhã, eu me lembro de meu DJ Paulo Seixas, que foi ao Programa Mata-Bicho numa rádio FM de Luanda, e me explicou depois que o nome é a expressão popular para o "Pequeno Almoço", que é como chama em Angola, o café da manhã, e que ninguém havia me contado isso em uma semana que passei lá, um pouco antes.
  31. Toda vez que ouço Any Time At All, dos Beatles, eu me lembro do amigo Danemberg, quem destacou minha apreciação pela música ao reproduzir minha batida na mesa, por ocasião de nosso almoço final de compilação das melhores músicas da banda.
  32. Toda vez que ouço falar de qualquer tipo de assédio corporativo, eu me lembro de minha chefe e amiga De Regina, que num memorável dia, em São Paulo, instruiu ao resto da equipe, que deveriam dar um jeito de interromper o assédio INTELECTUAL que eu estava a sofrer.
  33. Toda vez que o ouço o nome de Yoko Ono, eu me lembro de Virgínia, de Montes Claros, seu mais contundente algoz quando se fala em apontar um único responsável pelo fim dos Beatles, além disso a MAIOR sumidade em Beatlemania que conheço, incluindo todos os gêneros.
  34. Toda vez que fazemos o Evangelho no Lar, lembramo-nos das mais de 60 pessoas de nosso relacionamento próximo que fizeram parte de nossas vidas e já se foram, e que mantemos nominalmente numa lista, e sempre oramos para que tal lista não cresça nunca mais... 
  35. Toda vez que eu vou à área de serviço e me deparo com a porta do quarto aberta, eu me lembro que nossa gatinha Luna não está mais em casa... é que deixávamos aquela porta fechada pra ela não se esconder em baixo de um armário com difícil acesso para "salvá-la"...
  36. Toda vez que eu faço 50 outras coisas, eu me lembro de Neusa, que me ensinou a viver, desde que me conheceu, há quase 47 anos....


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Carnaval sem Paulo Barros? Poizé, mas teve outras grandes atrações!

Ora ora ora, com que então, teremos um PauloBarrosLess Carnival,  veja só,  e eu só percebi no 3º dia de desfiles.... esperava estivesse na Unidos da Tijuca, na 2ª feira, onde foi Campeão pela 1ª vez, depois chegou a Unidos de Vila Isabel, (também Campeão) ele não apareceu, aí eu fui verificar e  ele realmente não foi contratado por nenhuma escola deste ano como Carnavalesco.... Como assim? Sempre era um ponto alto, já desde 2004,  nos apresentava seus carros alegóricos geniais, desde que inventou a "Alegoria Viva", e agora, nada?

Então, fui pesquisar mais um pouco e descobri que ele andou dando umas declarações polêmicas sobre a profusão de desfiles com enredos afro. Ele diz que 90% das pessoas não entende o que a escola com esse estilo de enredo quer dizer, nem no samba nem nas alegorias (neste LINK). Virou personna non gratta.

Eu chego a concordar com ele... por exemplo, este ano eu vi os 3 dias. mas  inteirinho mesmo, só as primeiras escolas de cada dia. 

  • Então, veio no primeiro dia a escola Acadêmicos de Niterói, que fez o enredo sobre o Lula, magnífico samba-enredo em que quem "canta" a história na verdade é a mãe do Lula, Dona Lindu, emocionante mesmo contando a saga de sua família e de seu filho mais famoso, veja como nos conta uma articuladora no Instagram, neste LINK.... 
  • e no 2º dia, a Mocidade Independente de Padre Miguel fez um enredo estupendo sobre a Rita Lee, entendi tudinho também e vibrei muito, e havia comentado no pr+oprio dia em alguns grupos (*)
  • mas no 3º dia, veio a Paraíso do Tuiuti e fez um enredo afro-cubano. Rapaz, foi muito bonito e tal mas realmente nem com os comentaristas explicando, a gente consegue entender muito bem, mas devo admitir que foi muito bonito...  a bateria e especialmente o cantor chamado Pixulé deram um show. 
Gente, esse tal de Pixulé, antes de começar o desfile, cantou o samba todinho A CAPELLA... uma voz fantástica... um silêncio sepulcral acompanhou...foi um momento dos melhores deste Carnaval. Ainda não tenho o vídeo desse épico momento, mas aqui, neste vídeo, o autor do samba está a explicar como compôs pensando que era o Pixulé a cantar!

E falando em cantor, este ano foi o primeiro Carnaval em 50, na verdade 51 anos, sem a presença do Neguinho da Beija-flor puxando o samba da escola... foi um NeguinhodaBeija-florless Carnival, e agora, na dificuldade de encontrar um substituto, a escola de Nilópolis colocou um casal de cantores, que deram muito bem conta do recado.

Outra coisa interessante dessas minhas breves anotações de Carnaval é que notei ontem que o Presidente de Honra da Vila Isabel é ninguém menos que o notável Martinho da Vila, já com seus 88 anos, mas só que eu notei também que quem é o Presidente de Honra da Mocidade Independente de Padre Miguel, é ninguém menos que um certo Rogério de Andrade, um sujeito que tá preso. 

Ah esse Carnaval do Rio de Janeiro...____________________________________

(*) Gente!!!

Rita LEEberdade arrebentando na Sapucaí, com a Mocidade!

Desfile lisergicamente colorido!

Samba ótimo povoado de referências às canções da Rainha...

Alas incríveis! A dos bichinho amados por ela, tocante! A ala Ovelha Negra, genial!

Comissão de Frente com uma surpresa atrás da outra.

Perfeitooooo!!!!

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ATUALIZAÇÃO PÓS-CARNAVAL

O meu leitor Aziz Warrack, jovem colega da empresa em que trabalhei e neste ano completa 10 anos que saí, apareceu, depois de muito tempo, para comentar o meu post, pois ele ama Carnaval.

Ele acresceu dois comentários cuja imagem apresento na mensagem abaixo e comentarei sobre eles e um pouco mais, em seguida.













Vamos lá:


  1. Como assim, "ouvi na Rádio..."? Você acompanha os desfiles em radinho de pilha? Explique melhor essa afirmação, hehehe
  2. Interessante essa informação que você "ouviu no rádio", sobre o espetacular desempenho da Viradouro desde que voltou da "Série B", seja lá como chamam. Não havia me apercebido!!!
  3. Sobre a pergunta "Efeito Virgínia?"... tive que ir buscar mais informações! Eu havia ouvido sobre o tapa-sexo da tal Rainha de Bateria Virgínia, que descolou, mostrando o que não devia, mas isso não teria efeito suficiente para perturbar a performance, acho. Descobri que, na verdade, havia polêmica na indicação dela como substituta de Paolla Oliveira. Ela é uma influenciadora digital, que, claro, nunca ouvi falar, mas soube mais recentemente que se enamorou (que lindo!!) de Vinicius Jr, o astro do Real Madrid. Bem, sobre o desfile, dizem  que o costado que ela usou, que pesava 12 kg, atrapalhou sua evolução, tanto, aliás, que ela até o tirou em algum momento da coisa toda.
  4. Aí, vem o papo sobre a Viradouro... como eu disse, vi apenas o primeiro desfilede cada um dos 3 dias de desfile.... então, não vi o desfile campeão... mas soube antes que seria com enredo em homenagem a Mestre Ciça, quando vi a reportagem sobre a rainha de bateria global no Fantástico. Então não prestei atenção, mas me intrigou COMO a história de um mestre de bateria seria retratada na avenida, O QUE iriam buscar como grandes momentos DE BATERIA de sua carreira iriam passar no asfalto.
  5. Bem devem ter feito algo bom pois ganharam 100% de notas 10-Nota-10, sem necessidade de descartar a mais alta e a mais baixa na apuração. Incrível desempenho. Também não me lembro do samba, sorry. Mas vi, sim, nos melhores momentos uma coisa incrível: a participação do próprio Moacir na Comissão de Frente e depois saindo de cadeira de rodas até a porta de saída e depois na garupa de uma moto, para a concentração, onde foi levado pela mão da Rainha Juliana Paes até um carro alegórico que tinha uma plataforma enorma vazia, e que magicamente foi tomada pela própria bateria. Momento verdadeiramente mágico!!
  6. E QUE (vou usar maiúsculas propositais) FOI IDEIA DE QUEM, QUEEEM, QUEEEEEM? DE PAULO BARROS! Sim, na última vez que a Viradouro desfilou sob o comando de Paulo Barros como Carnavalesco, há 17 anos, apresentou essa espetacular ideia de evolução da bateria!!! Merecidamente homenageada!!!
  7. E pra terminar em número mágico, afinal "São 7 níveis!" como Paul McCartney descobriu, finalizo dizendo que TEVE PAULO BARROS, SIM, na Sapucaí 2026, pois ele desfilou, emocionado, como destaque, na própria Viradouro, satisfeito, claro, com a homenagem à sua idéia genial!! Valeu  muitooooo!
  8. aah vou quebrar a magia... fazendo o 8º ponto: eu não devo entender nada de Carnaval pois o desfile da Mocidade, que eu gostei tanto, em homenagem à Rita Lee, com tantos carros alegóricos lindos e um samba envolvente e cheio de referências à Rainha, não foi classificada para o Desfile das Campeãs! Aliás, quase caiu!!!! FOi a 11ª colocada!!
  9. aliás, (e vem o 9º!) uma outra escola que vi, e gostei, com samba maravilhoso, com letra inteligentíssima, caiu para a Série B, ou o que quer que chamen a segunda divisão do Carnaval.
  10. Faço um 10º ponto, pra fechar em conta certa, apenas para me despedir. FUUUUUI!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A Rua de Baixo - Uma crônica de Virgínia Abreu de Paula - Capítulo 1


Minha memorialista preferida nos encanta sempre com histórias de sua cidade... Montes Claros-MG

Neste LINK, A Introdução!

Agora, o Capitulo 1... o relato segue encantador

RUA DE BAIXO


Capítulo 1

    Ano de 1958. Estou sentada na poltrona da sala de jantar lendo meu livro de catecismo, quando chega minha mãe pedindo para eu “dar uma chegada lá em casa”... Querendo dizer, na casa dos meus avós.  Mesmo tendo se casado e mudado, a casa da Padre Teixeira continuava sendo a sua casa principal.

    Naquele dia, teríamos um almoço especial – um jantarado - com convidados. A sobremesa seria o doce de leite  pomadinha feito por vovó Lica, ainda sendo preparado. Com as empregadas atarefadas na cozinha e meus irmãos também ocupados, tinha sobrado para mim a tarefa de buscar o doce.  Ai que preguiça.  Era longe... Volto os olhos para o livro levando um susto. O texto fala exatamente sobre pecados veniais citando a preguiça como um deles. “Melhor espantar a preguiça agora mesmo.” 

    Levanto já disposta. Que longe que nada. Capanguinha à tiracolo, sigo até o final da nossa avenida; subo um quarteirão da Governador Valadares; dobro na Dr. Veloso; desço dois quarteirões e chego à Praça Dr. Chaves. Puxa, é longe, sim... A praça é enorme e só no seu final pego a Justino Câmara onde a cidade se transforma. Casas coladas umas às outras. 

    Até pouco tempo, as ruas eram calçadas com pedras enormes e redondas. No meio, nem pedras havia. Nas chuvas, que lamaçal. Foram calçadas com blokrets no ano anterior para a festa do centenário. A Padre Teixeira  recebeu asfalto! 

    Sigo meu caminho. O sol brilha no céu muito azul.  Por razões desconhecidas, sinto-me leve, apesar do calor. 

    Pronto. Cheguei. Antes de bater, a “porta da rua” é aberta por Lia de saída para algum lugar. - “Ei Ginoca, o que você está fazendo aqui? Não tem festa na sua casa?” - “Vim buscar o doce de leite!”

    Lia.  Minha prima filha do tio Waldemar. Desde criancinha mora com os avós. Linda como uma estrela de Hollywood. Visual típico da época: óculos escuros, saia justa preta, blusa vermelha e lencinho de “pois” em volta do pescoço. Antes de ganhar a rua, avisa: “Vovó, veja quem está aqui!” Vovó surge no final do corredor, Fatinha ao colo. Fatinha é sua neta, filha da tia Aracy, falecida pouco depois do seu nascimento. Peço a benção adulando a menininha. Pergunta vovó: -“Uai, você? E Joana?”  –“Está muito ocupada hoje,” explico.  

    O doce não estava pronto. Na cozinha, Dinha Preta, à beira do fogão à lenha, mexe o tacho. “Ei Fiinha. Está quase dando ponto...” Ouço o badalar do relógio. Uma hora da tarde. Vem do rádio, ligado na Nacional, a música tema do programa “A Crônica da Cidade”. De repente, aquela badalada, a música, a luminosidade da tarde e o delicioso perfume do jasmim Bogari junto à porta que dá para o quintalzinho, deixam-me comovida.  Digo “quintalzinho”  porque há dois quintais na casa.  Um grandão e outro menor que vai até ao muro junto à rua. Penso em fotografar esse momento ou mesmo filmá-lo para dele nunca me esquecer. 

     Tomo assento no banco de madeira junto à parede e fico apreciando, achando ser aquela a mais bela cozinha do mundo.  Grande,  como geralmente são as cozinhas das casas antigas. Meus olhos observam tudo. O armário rústico, o fogão aceso, lenha crepitando.  Dinha Preta, com seu pano branco na cabeça segue mexendo o tacho de cobre. Ao lado do fogão está a pia.  Muita luz entrando pelas portas e janelas. O cajueiro carregado de cajus amarelos. Ao fundo, o azul impressionante do céu. “Ah, se eu fosse pintora...” penso. Mas um quadro não mostraria o perfume nem o som da voz de César Ladeira dizendo a crônica. 

    Levanto. Vou até a portinhola olhar todo o quintal. Lá no fundo, junto ao muro, há um jasmineiro que, quando florido, perfuma toda a rua. Dá muitas lagartas, deixando Dinha Preta apavorada. - “Elas vem pra cima de mim fazendo a cão, a cão, a cão...” Imita o caminhar das lagartas com as mãos. Acho a maior graça.

    Desço para o quintal. Há duas pinhas já grandes na pinheira. Dou uma paradinha junto à árvore “Cama de Noiva”, cujos frutos se parecem com boizinhos. Se colocarmos pernas de palitos de  fósforos neles fazemos uma boiada. Muitas vezes brinco de fazendeira sentada à sua sombra. Não hoje. Sem tempo para isso. 

    Dirijo-me ao outro quintal.  Mangueiras, goiabeiras, mamoeiro, uma latada de chuchu... Que riqueza. Tem ainda a “casinha”. Antes de ser construído o banheiro interno usavam o do quintal, com fossa,  como em todas as casas.  Usado depois para banhos com água quente pelos raios solares. Arranjo de vovô.  

   O nome “casinha” não bate bem, pois é uma casa até grande.  À direita fica o banheiro e à esquerda um forno de barro.  A cisterna ao centro.  O cavalo de vovô está tranquilamente ruminando sob a sombra da mangueira. Ele é seu meio de transporte preferido para as idas diárias até sua fazendinha Renascença. Um cavalo lindo, pelo lustroso, considerado amigo do peito. Mas como entrou?  Só pode ter passado por dentro da casa para chegar até aqui. Puxa que legal!  Eu gostaria de ter visto. 

     E quem vem lá toda saracoteando? Soraya! Uma cachorra pastora alemã pertencente a meu tio Olimpio, o diabinho, ou dabinha, caçula da família. Ela me ama! Quando tomo assento,  coloca a cabeça nas minhas pernas para receber carinho. Hora de brincar um pouco correndo com ela pelo quintal.  - “Você com esse seu querer bem”... diz vovó da janela. Pergunto por vovô. - “Na tenda”, diz ela.  Preciso ir lá pedir a benção. 

    Entro na sala de jantar,  grande e clara, com duas janelas para o quintal. Muitas portas. Além dessa por onde acabo de passar, tem a da cozinha, a do banheiro, a do quarto dos donos da casa, a do  corredor, a do “quarto da rede”, e a do cômodo que dá acesso à casa vizinha.  No “quarto da rede”, além da própria, ficam as  arcas, sendo uma delas feita por meu bisavô Cassimiro, cheia de tachinhas. É nessas arcas que guardam as roupas de cama e toalhas.

    O que mais tem ali? Uma estante com os livros de vovó, geralmente romances e os livros de vovô, a maioria de cunho espiritual. O quarto da rede é também uma biblioteca!

    Enfim, todos os caminhos levam até a sala de jantar. Poucos móveis e muito espaço. Mesa grande. Na parede, o belíssimo relógio que badala de meia em meia hora. O lavatório fica ao lado da porta do banheiro.  Acima,  o filtro de água, marca Fiel. Estou com sede, mas não alcanço a torneira.  O jeito é  pegar água na talha.  Passo pela  cristaleira cheia de compoteiras, copos ornamentados com flores, um porta copo de folha de flandres, e até mesmo louças inglesas, estilo chinês, de Xangai. Sobre a cristaleira está o rádio de onde vem, novamente, a música tema do programa de crônicas, indicando seu fim. Lembro de lavar as mãos, pois tinha brincado com Soraya. Dou meia volta. - “Ô minha filha, está faltando toalha...No banheiro tem uma!”

    Entro lá dentro. Por muito tempo, esse banheiro foi  apenas sala de banho. De banheira.  Agora já tem chuveiro, privada, e uma beleza de lavabo de louça no móvel apropriado, com lugar para o jarro esmaltado.

   Já de mãos enxutas volto ao pequeno cômodo. Ali, fica a talha com água fresca retirada do filtro. Delícia de água.  Meus avós não possuem geladeira, mas a água é sempre fria graças a essa talha. Na tampa, uma  toalha de crochet tecida por vovó. Ao lado, uma mesinha com bandeja e copos, sendo um deles exclusivo de vovô, muito bonito, com seu nome. Há duas portas nesse cômodo. A da esquerda vai para o quarto de Dinha Preta. A da direita leva à “cozinha de vovó França”. Com certeza era usada por ela, a minha bisavó, que não conheci. Desço dois degraus. Se seguisse em frente entraria na casa vizinha, sempre  habitada por amigos íntimos ou familiares, como Elisa Mendonça, Tia  França e  Tia Aracy.  

    Viro à esquerda. Eis aqui a famosa Tenda.  É um quarto meio escuro onde meu avô trabalha nas suas diversas funções. Inventa coisas, faz pesquisas, faz música, lê e guarda seus pertences. Aqui  estão suas balanças de pesar ouro, sendo uma delas  herdada do seu avô Manoel, também ourives como seu pai. Guarda na Tenda a sua clarineta e a caixinha com seringas e agulhas, pois aplica injeções.  Tendo sido comerciante, dono da casa Souvenir, sabe como arrumar os objetos  nas devidas caixas,  de forma a tudo ser encontrado com facilidade. A Tenda é como uma venda, onde achamos lápis, borrachas, lâminas, tachinhas, pregos, e ferramentas como serrotes, martelos, chaves de fenda, facões. Esses últimos ficam presos numa cartolina e pendurados na parede. Organizadíssimo, contorna os objetos com lápis para saber quando algum foi retirado do lugar. 

    Nessa manhã, porém, ele não está no seu habitual processo criativo. Encontra-se sentado junto à janela onde há claridade. Está lendo um livro. Também daria um quadro a cena que vejo. A rusticidade do ambiente é de uma beleza indescritível. Ele tão bonito! Tão “antigo”...com seus óculos de aros dourados bem fininhos...Usava chapéu quando saía às ruas. Usava colete sob o paletó quando celebrava casamentos, pois entre as muitas atividades que exercia, estava a de Juiz de Paz.  Usava relógio de bolso! Quando se sentava de cócoras no quintal picando fumo para seu cigarro de palha, lembrava um matuto. Quando se aprontava, penteando bem os cabelos lisos e ainda pretos parecia um gentleman. Olho para ele lembrando do personagem interpretado por Gary Cooper no filme “Sublime Tentação”, visto há poucos dias. Semelhança no vestuário e também na mansuetude.

 –“A benção, vovô”.

 – “Deus te abençoe minha neta”. 

-“Que livro é esse?”

– “Uma beleza de livro: “A Era de Aquarius”. Diz aqui que chegará um tempo que todo sofrimento terá fim. Haverá harmonia na Terra e todos viverão felizes.”

 - “Nossa! Que beleza! E quando será?” 

-“Ainda estamos na era de Peixes. A de Aquários só virá depois do ano 2.000.” 

-“Ah...vai demorar muito!”, exclamo decepcionada. 

       Vovô gostava de assuntos diferentes do usual. Espírita Kardecista. Frequentador, como  seu pai,  do Centro Espírita Canacy. Evitava falar no assunto por ter prometido à esposa, católica, que jamais interferiria nos ensinamentos religiosos dos filhos. De vez em quando, falava alguma coisa fascinante. Como quando disse que voltamos em outro corpo para nova vida. “Quando eu voltar vou nascer na Suíça. Está decidido”. Tenho por mim que foi de lá que ele veio. Vendo vovô fabricando jóias era fácil pensar num relojoeiro suíço tal é o seu esmero e precisão. E como tudo que ele tocava recebia um brilho especial, inclusive as frutas, podemos imaginá-lo também como uma espécie de alquimista. Paixão pela música clássica, ouvinte assíduo do programa “Classe A” da Jornal do Brasil para apreciar Mozart, Beethoven, Debussy... Foi uma vez ao cinema, apenas porque o filme – Fantasia, de Walt Disney – era musical com temas clássicos.  

     Olho pela janela. Lembro de um desenho visto certa vez na biblioteca do meu pai. Mostra um homem à cavalo bem em frente à Tenda. Vemos a figura de  Augusto de Abreu na janela, o pai de vovô Olímpio. Meu bisavô.  O cavaleiro, que traz uma pedra na mão,  diz  assim: “Vigia, seu Augusto. Que pedra é essa?” Seu Augusto, nascido em Rio Manso, município de Diamantina, descendia de portugueses que vieram trabalhar nas minas de ouro e de diamantes. Seu pai, Manoel de Abreu, era ourives e o filho seguiu a mesma profissão tornando-se grande conhecedor de pedras preciosas.   Daí o pedido de avaliação. Era uma pepita de ouro! A primeira pepita encontrada em Montes Claros.  Dou-me conta, de repente, de estar num lugar histórico!

 -“O Senhor já tinha nascido quando aquele homem trouxe a primeira pepita de ouro?”, pergunto.  Vovô sorri. Conhece a história, mas não se lembra daquele dia especial. Faço outra pergunta ainda olhando para a rua já pensando  no outro bisavô, o pai de vovó Lica.  

-“Onde é que vovô Cassimiro morava?” 

- “Bem aí na frente. A casa era do seu compadre Etelvino, de Coração de Jesus. Vinha pra cá de vez em quando. Meu sogro queria muito que ele morasse aqui. Aceitou com uma condição: trocar as residências. Pois ele aceitou! Veio morar  na Padre Teixeira passando o sobrado no largo da Matriz para seu Etelvino. Isso é que é amizade”. 

-“Era aparentado conosco, não era? Casado com Sá Estela”, digo toda feliz por mostrar algum conhecimento. Vovô mexe a cabeça dizendo sim. Eu  prossigo.

 -“Papai conta que, numa noite, ele teve um pesadelo. Passou mal no sonho. Sá Estela viu que ele estava gemendo e deu nele  uma balançada. Sabe o que  falou quando acordou? -“ Deus te ajude Sá Estela.” Vovô dá uma risada e continua. 

– “Sá Estela tinha um penteado que ficou famoso. Um coque no cocuruto da cabeça”. 

Eu sabia, pois minha mãe costumava prender meus cabelos com esse penteado, chamado por ela de: “Coquim de Sá Estela”. 

   Antes de fazer meu comentário vejo vovó entrando para dizer que o doce está pronto. Hora de ir embora. Já na sala de visitas, ouço a voz de Dinha Preta: - “Ô Sá Lica... E a rapa do tacho? Será que Virgínia espera só mais um pouquinho?” Claro. Pela rapa do tacho eu esperaria até um poucão. Tomo assento no sofá. Sofá? Seria melhor chamá-lo de cadeira dupla. Cabe apenas duas pessoas! As demais cadeiras seguem o mesmo estilo. Nada de forros  sobre elas. Simplicidade e excelente qualidade. Cupins jamais atacaram os móveis dessa casa.  

     Coloco a capanga com o doce na mesa do centro da sala. Uma mesinha de pernas altas, diferente das que geralmente vemos nas salas de visita. Tão bonitinha! Dou uma olhada ao redor. Na entrada, fica o porta chapéus, móvel comprido com espelho, tão bonito quanto os outros. Na parede, uma tela de Lino Oliva mostrando a ponte sobre o Rio Vieira em direção ao bairro Santos Reis. Abaixo do quadro, está a porta do quarto de tio Olimpio, com maçaneta de porcelana branca. Entrei ali apenas uma vez para conhecer meu priminho recém nascido: Júlio César, filho de Tia França. Quarto com poucos móveis, sem tapete, sem luxo. No de vovô, há uma peça de beleza ímpar: o cofre. Grande, com desenhos na porta. Pesado. Ali ele guarda documentos importantes, talvez algum dinheiro, jóias...

     O mais chique na sala são as “tulipas” em cores suaves, predominando o verde e o rosa. Há delas também no teto do corredor onde fica a caixa d’água. Do lado oposto ao quarto de tio Olimpio dorme a prima Lia. Seu guarda-roupa tem espelho na porta. De vez em quando entro lá para ler revistas. A meu lado está a outra porta do quarto da rede. 

     Escuto um barulhinho... é Fatinha que chega se arrastando. Atrás dela está vovó com o doce de rapa. Coloco o  pacote  na capanga, peço a benção novamente,  abro a porta e ganho rua.  Pronto. Dei conta do recado. Sigo feliz, saltitante, cantarolando a música da “Crônica da Cidade”, que desde então, torna-se uma espécie de tema musical daquela casa querida: “Tam tam tam taram tam tam, tam tam taran tam tam tam tam taram tam tam...”.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A Rua de Baixo - Uma crônica de Virgínia Abreu de Paula

 Minha memorialista preferida nos encanta agora com histórias de sua cidade... Montes Claros-MG

Tenho que registrar aqui esta introdução!

Qeu relato delicioso!

RUA DE BAIXO

Introdução


            No “tempo antigo”, como dizia minha avó Lica, Montes Claros era naturalmente dividida em duas regiões distintas, às vezes chamadas de Rua de Baixo e Rua de Cima. Separadas pelo Largo de Baixo, mais tarde Praça Dr. Chaves, as duas eram tão diferentes uma da outra quanto a zona norte e a zona sul do Rio de Janeiro.   Eram diferentes também na política e até na música. Tinham suas próprias bandas.  A banda “de baixo” chamava-se Euterpe Montesclarense escrito sem o hífen. Fundada no tempo do Império por Dona Eva Bárbara Teixeira, a banda desfilou pela primeira vez no dia 3 de Julho de 1857, quando a Vila de Formigas foi elevada à categoria de Cidade de Montes Claros.  Seus músicos eram monarquistas até à medula, razão pela qual se recusaram a tocar em comemoração à Proclamação da República. Alguns anos mais tarde, surgiu a Banda Operária do partido “de cima”. Na época do império, grande parte dos moradores da região “baixa” pertencia ao partido liberal trazido para a cidade por Antonio Xavier de Mendonça entre outros. Isso significava que, embora apoiassem o Imperador, lutavam pela abolição da escravatura. Com a queda do império, as diferenças permaneceram. 

   Apesar do antagonismo político, não creio ser essa a causa da diferença no viver. Os habitantes da parte logo acima do Largo  da Matriz, seguiam os Prates na política, exatamente como os habitantes das ruas de Baixo.  Muitos com Prates no sobrenome.  E levavam o mesmo “sofisticado” estilo de vida dos membros do partido de cima, ligados ao Dr. João Alves.  Portanto, a causa da diferença permanece misteriosa. O pessoal de cima, com exceções, parecia ser menos tradicionalista, enquanto os moradores da Rua de Baixo, ou seja, da Rua Padre Teixeira e arredores, eram conservadores, vivendo numa região riquíssima em cultura popular, onde as tradições eram mantidas. Vale dizer ser a região mais antiga da cidade, onde toda nossa história começou. Daí o visual “ouro-pretano”. Houve um tempo, já bem longínquo, que esse era o visual de toda a cidade. Mas enquanto construções modernas surgiam na parte de cima, a parte de baixo mantinha seu estilo barroco parecendo guardar ali a alma mineira como dentro de um relicário. 

  “Éramos uma única família”, conta minha mãe com olhar sonhador. E explica: “A Rua de Baixo era a Padre Teixeira. Mas as pessoas que moravam nas ruas próximas eram todas unidas da mesma forma. Era tudo igual”. 

   O mesmo não acontecia com a outra parte da cidade. Não havia uma rua específica com o nome Rua de Cima. Porém havia o Largo de Cima, a atual Praça Dr. Carlos.  Cyro dos Anjos, no seu livro “A Menina do Sobrado”, fala do seu medo de apanhar se andasse sozinho pelo Largo de Baixo. É que ele residia no Largo de Cima!   

Casa da avó de Virgínia na Rua de Baixo

          Na minha infância essa diferença era bastante visível. Eu a sentia dentro de casa. Meu pai era cria da Rua de Cima e minha mãe só deixou a Rua de Baixo após o casamento. Meu avô paterno, Basílio de Paula Ferreira, habitava na Dr.Veloso, isto é, na parte de cima da cidade. E meus avós maternos moravam na Padre Teixeira. As casas eram parecidas, mas não a forma como viviam. Minha tia Maria era uma “cosmopolita”, usando perfumes franceses, com cabeleireira pessoal cuidando dos seus cabelos diariamente e outras sofisticações. Suas primas da Rua de Baixo, embora bem vestidas, eram adeptas da simplicidade.  Vovô Basílio gostava de brincadeiras.  Puxava nossas pernas com a bengala, nos colocava em seu colo, nos fazia cócegas. Se por esquecimento - visto que ele não gostava disso - pedíamos a benção, respondia: “Deus te abençoe, seu nariz é de boi.” E ria alto.

     As visitas aos outros avós aconteciam cerca de uma vez por semana. Lá chegando, o pedido da benção era obrigatório. Vovô Olimpio respondia de forma tradicional, com seriedade, me olhando nos olhos. “Deus te abençoe minha neta”. Os rituais eram sagrados na Rua de Baixo. Eu gostava imensamente das duas casas e dos dois vovôs. Infelizmente, não conheci minha avó Joaquina. 

         Minha mãe manteve expressões usadas na Rua de Baixo por muito tempo, mesmo quando não mais faziam sentido. Ainda mantém algumas. Cito dois exemplos: a “porta da rua” e “o café do meio dia”. Na Padre Teixeira as casas não tinham alpendres. As portas eram voltadas para a rua, daí a expressão. Já na nossa primeira casa, ganhávamos a rua por um corredor lateral.  Mesmo assim, a porta  da sala de visitas era chamada ‘porta da rua” por minha mãe. O motivo só pode ser um: na Padre Teixeira saiam para a rua sempre pela porta da  sala principal. 

      Nossa segunda casa tinha porta para um alpendre. No entender de minha mãe seria essa a porta da rua.  Até que deu certo. Era a única porta de saída da casa sem contar com o portãozinho do fundo do quintal. Porém, em 55, mudamos para uma chácara com a casa lá embaixo. Três portas dando para o alpendre em frente ao muro vizinho. Uma saindo da biblioteca, outra saindo da sala de visitas e a terceira, a mais usada por todos, saindo da sala de jantar. Para chegarmos na rua temos de subir por uma extensa área ajardinada até ao portão que dá acesso à Avenida Coronel Prates. Seria o “portão da rua” sem sombra de dúvida. Portão da rua? Tal expressão nunca existiu na Padre Teixeira do passado. As casas não tinham portões! Com toda certeza minha mãe percebeu que, na parte de cima da cidade, até as casas eram diferentes. Muda-se então  a definição de ‘Porta da Rua” para  a porta principal da casa, a mais usada. Mas a expressão permanece. Ainda hoje ela me pede ao  deitar. “Verifique se a porta da rua está fechada.” 

         Já o “Café do Meio Dia” foi mistério para mim durante muito tempo. Ao meio dia estávamos no almoço. Era comum um cafezinho após a refeição, mas o café do meio-dia era servido às 3 horas da tarde! Por que “do meio-dia?” Resposta: porque era servido ao meio dia na Rua de Baixo! Minha mãe mudou de rua, adaptou-se aos novos horários, mas não mudou a maneira de falar. Ela conta que houve demora na adaptação. Quando solteira, costumava se levantar às cinco da manhã. O almoço já estava pronto às nove. Ao meio dia tomavam o “Café do Meio Dia”. Jantar às três. Lá pelas sete horas da noite vinha uma refeição ligeira. Às nove horas já estavam dormindo. 

        Vem o casamento. Minha mãe mora um ano na casa dos sogros. Hora de levantar: seis horas ou sete! Almoço ao meio dia! Que fome! Às 3 da tarde, o café com pão. Jantar às sete da noite. Recolhimento para dormir só depois das 10 horas! Tudo muito diferente. “Que povo prosa esse da rua de cima”, pensa minha mãe recém-casada, ciente que, do outro lado, estavam dizendo: “Que povo jeca esse da Rua de Baixo.” 

        Claro está que não era  bem assim.  E nem tudo era rivalidade. Meu pai, por exemplo, além de ser “de cima”, tinha estudado fora: Belo Horizonte, Juiz de Fora e Niterói. Tinha alargado bastante os horizontes, sem deixar de ser norte-mineiro. Dava o maior valor às sapiências antigas tão enraizadas na Rua de Baixo. Ao escrever seu livro “Montes Claros, Sua História, Sua Gente e Seus Costumes”, muito se valeu da sogra, sogro e  esposa em suas pesquisas. “Fina, como é mesmo aquela simpatia para ficar bonita?” Resposta de mamãe: “Basta comer cabilouro atrás da porta.!” “Tia Lica, preciso da receita de João Beó para meu livro.” E lá vem vovó com tudo escrito. Foi com eles que aprendeu a  penitência pra chover, a reza para curar espinhela caída e por aí afora. 

    Meu avô colaborou de outra forma. Ficou a seu cargo as partituras musicais de todas as músicas folclóricas e modinhas. Era músico e compositor de mão cheia. Tocava clarineta, foi membro da Orquestra Carlos Gomes e da Banda Euterpe. Fazia sabão, fabricava inseticida com folhas de eucalipto da Chacrinha  (que jamais provocava alergias), e jóias diversas, ourives que era.  Todo seu trabalho era feito num cômodo especial por ele denominado Tenda. Que vontade de rever aquele lugar, de poder visitar a casa inteira. Não sei ainda como fazer isso, mas, posso ter um gostinho através da memória. Convido a todos a irem até lá comigo enquanto recordo certa manhã.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Afastando a ameaça silenciosa

 As caminhadas na Lagoa vêm ficando perigosas.

A profusão de veículos eletrizados birródicos, seja lá como os definam, vêm se consituindo em verdadeiras ameaças aos caminhantes bípedes e muito por irresponsabilidade de seus condutores, que não satisfeitos por poderem chegar mais rapidamente a seus destinos, parece que estão a disputar provas de velocidade.

Não raro, sentimos o ventinho daqueles bólidos a passr raspando por nós, isso quando não efetivamente se chocam, provocando quedas que podem ser até mesmo fatais. Amigos meus já se estabacaram no asfalto das ciclovias, quando não resvalam perigosamente nos meios-fios, ou nas guias, como quer que chamem.por esses brasis por aí, à beira dos asfaltos povoados de veíclos quadrirródicos quase sempre não-elétricos...

Na volta da caminhada de hoje, após sentir duas vezes o tal "ventinho", decidi inovar.... vejam o vídeo...


Sim, aí é que entra o nome do post, pois na volta resolvi usar a mesma faixa que usei na ida... dessa maneira, a ameaça deixa de ser silenciosa e fica muito bem vista, e pode ser prevenida, com um leve deslocamento à esquerda, deixando quase toda a faixa para a ameaça passar sem perigos para mim.

Classifiquei este post com os Marcadores "Comportamento" e "Costume", o primeiro porque esse perigo é uma questão de comportamento, dos pilotos insanos, que deveriam conduzir seus "bólidos" com mais responsabilidade, e o segundo porque preciso fazer com que esse hábito de caminhar vire um costume em minha vida... agora com essa providência de enxergar o inimigo.

Só espero que não me inpinjam uma multa por andar na contramão...


sábado, 8 de março de 2025

O bolso ou a vida


Escrevi este texto há 18 anos...
(notem o modelo do celular da foto)
Hoje, algumas mulheres reclamam! 
Acham o texto machista!
O que acham?
Felizmente, a grandíssima maioria delas adora!
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Dia normal de trabalho, você precisa discutir com uma colega sobre um assunto importante, você sabe o ramal dela e liga direto. 1, 2, 3, 4 toques, entra a secretária eletrônica. Pelo número de toques, você percebe que ela não está na sala, mas você não deixa mensagem, pois tem urgência. Você vai pacientemente ao celular, procura no catálogo pelo celular dela, encontra e liga. 1, 2, 3, 4 infindáveis toques, às vezes a voz mecânica entra. Você xinga, mas a voz não está nem aí, continua falando como se nada tivesse ouvido, mas você desliga antes de deixar o recado. Você vai ao catálogo da empresa, e procura por algum ramal do setor ou departamento em que ela trabalha, para encontrar a secretária ou alguém por perto da 'baia' dela (ah! a beleza da vida corporativa!), de repente ela está logo ali, quem sabe você dá uma sorte. Alguém atende e você pergunta por ela, aí vem: “Ela já chegou, sim, estava por aqui neste momento, aguarda um pouquinho”. (muito solícito, obrigado mas a minha adrenalina vai aumentando...).  1, 2, 5, 10, 20 insuportáveis segundos, volta o colega de boa vontade: “Ó, ela saiu da sala, mas não deve ter ido longe, pois ela deixou o celular na mesa, deve ter ido ao banheiro!” (a pressão sobe ao vermelho!!). Ora, ora, por que, diabos, ela tem um celular se não anda com ele? Você, então, procura manter a calma e pede que o simpático colega avise à querida colega, quando ela voltar de não sei onde, que você precisa falar urgente com ela!

Aí, você se lembra imediatamente da insolúvel incompatibilidade entre mulheres e bolsos. E até tenta compreender, onde já se viu roupa de mulher com bolso? Não permitir-se-á nada que ameace a silhueta mantida pela calça justinha, delineando as formas, enfim, sabe-se lá!! Algumas peças de vestuário até contam com aquele simpático e prático compartimento, feito para abrigar pequenos utensílios que podem vir a ser úteis em algum momento do dia-a-dia, o jeans, por exemplo, mas, invariavelmente, aqueles bolsos estão lá só para enfeitar, vaziozinhos, como se não existissem. O bolso é uma figura desprezível na vida da mulher. Em camisa, então, nem pensar, o que é totalmente justificável!
Em outra situação, você a procura no celular, ele toca, toca, toca, se esgoela de tocar e nada. Você repete a tentativa, uma, duas vezes e desiste. Quinze minutos depois, ela te liga: “Oi, você ligou???!!! Tinha 3 chamadas perdidas no meu celular! É que eu estava no almoço e, com a barulheira do restaurante, acabei não ouvindo, pois ele estava na bolsa!” (... me tira os tubos!!). Não adianta, pode botar no volume que quiser, ligar o vibra-call no nível ‘terremoto’, que não vai dar resultado, a bolsa está lá na cadeira vazia, junto com outras cinco companheiras, igualmente abandonadas!
Entra então a personagem, esta sim, onipresente na vida feminina, a bolsa
Uma letrinha só diferente na escrita, bolsO versus bolsA, mas quanta diferença! Um, rejeitado, a outra, inseparável! O que seria das mulheres sem suas queridas bolsas? Documento, carteira, talão de cheque, remédios para variados fins, maquiagem, escova, chaves, creme para as mãos, blush, agenda, i-pod, lenço, óculos-de-sol, pen-drive, álcool-gel, pinça (veja abaixo uma situação em que fui salvo por uma bolsa de uma desconhecida!), mini guarda-chuva, enfim, a mais variada quantidade de badulaques, tudo vai naquele sumidouro. Chego a lembrar-me de minha tenra infância, da bolsa da Mary Poppins, de onde saía até abajur. Isso tudo tem que mudar de lugar naquela hora da manhã em que todos têm pressa, sabe, com o marido esperando, já com o carro ligado. Sim, porque claro, impensável é que se use a mesma bolsa dois dias seguidos. Então, além da dúvida cruel sobre  'qual bolsa combina melhor com minha roupa?', que toma alguns minutos, senão dezenas, tem o tempo gasto de mob/demob, que consiste em remover os objetos da bolsa de ontem e colocá-los na bolsa de hoje. O que não impede de ouvirmos, meia hora depois: 'Ih! Esqueci dos óculos na outra bolsa!'


Na bolsa, está, inclusive, o querido celular: não adianta a caixinha do bichinho vir com prendedores de cinto, penduradores para pescoço, ou outra solução qualquer para carregá-lo, o destino final de todo celular feminino é lá, afogado junto com as 1001 outras utilidades do universo feminino. O que provoca também, muitas vezes, aquelas ligações misteriosas, provocadas por algum daqueles objetos contundentes, um batom, um chaveiro, sei lá, que acaba acionando o último número chamado. Ou seja, além de não serem atendidos, porque afogados, eles ligam sozinhos, porque afogados! Surreal....

            Houve época em que homem também usava bolsa, a tiracolo ou, ainda, na forma da indefectível pochete, hoje meio fora de moda (eu usei...). Ainda passamos pelas carteiras, que carregávamos na mão, facílimas de serem esquecidas nos mais variados balcões. Hoje, concentramos nossas necessidades diárias nos queridos bolsos, em nossas confortáveis calças, em nossas sociais camisas. Vamos desconsiderar a moda adolescente de ter bolsos até à altura dos joelhos, sabe-se lá o que guardam lá, fiquemos só nos tradicionais. A gente se lembra da utilidade dos bolsos quando viaja de avião, aaah que bem faz um bolso numa camisa! 

Depois, vem a multiplicação do efeito benéfico: o paletó, com seus cinco bolsos entre externos e internos, recheados de apetrechos de viagem. O paletó é a bolsa do homem, utilíssimo em viagens, mormente as internacionais. Bilhete (eletrônico ou papel), passaporte, dinheiro, cartão de embarque, ticket de bagagem, cartões de visita, formulário da imigração, da alfândega, pen-drive, caneta e, claro, o inseparável celular, todos confortavelmente acomodados no paletó, para passar facilmente na caixinha do raio-X. E cada um no seu lugar, facilmente localizável, bem diferente do visceral dilema feminino ao procurar qualquer coisa na bolsa. A única coisa que se tem certeza quanto a pertences em uma bolsa, é a de que eles entraram lá; agora, encontrar e extrair de lá, exatamente o que se deseja, é uma história bem diferente. A não ser, claro, que se apele para aquela radical chacoalhada de cabeça pra baixo, espalhando o conteúdo sobre uma superfície livre. Deixo aqui um alento para o inseparável apetrecho, tenho que admitir: nós, homens, invariavelmente, vamos precisar, alguma vez em nossas vidas, de alguma coisa não temos à mão, e as bolsas delas estarão lá para nos salvar!

Sei que a mulher de hoje conquistou um mundo muito maior do que cabe em sua bolsa, mas permito-me esta análise levemente crítica sobre o acessório indispensável para uma enorme maioria delas!!!
E, na verdade, nas diferenças é que mora a beleza. Se as mulheres não usam bolsos, é para ficarem mais elegantes, seja para nós, seja (quem sabe, principalmente) para as outras mulheres. É assim que as conhecemos e assim que as amamos. E que continuem assim. Mas, ao menos, que encontrem uma solução compatível para que sejam encontradas neste fundamental meio de comunicação do mundo moderno.
            Vida longa à classe e à elegância feminina!
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Ah, sim, a situação em que fui salvo decisivamente por uma bolsa apetrechada!

A pinça salvadora!



terça-feira, 26 de novembro de 2024

É Legal Ser Negão no Senegal

Renata esteve no Acre a divulgar seus livros, 
a convite e expensas do SESC.
E testemunhou o inclemente sol. 
E me lembrei da expressão Calor Senegalês!
Em homenagem àquele país, relembro 
minha experiência lá em 2006 
Eles vêm apresentando um crecimento consistente. 
A escala do gráfico, vai de 0 a 7% aa.

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Sangue em praça pública? É possível, permitido e oficializado em alguns lugares do planeta, e sem muitos traumas. Uma sólida introdução, antes de chegar ao tema... Por favor, encarem este meu ensaio como informativo. 

O título deste ensaio, nada original, roubo-o de uma música de Chico César por ser sonoro, e por ser um pouco a expressão da verdade. Não sou um especialista em África, mas posso dizer que aquele é um país que tem futuro. Visitei o Senegal em 2006, a trabalho (claro!). Foi o sexto país africano que visitei, e me deixou boa impressão. Foram somente dois dias em Dakar, portanto, não se espere um diagnóstico vasto e preciso. E calma, o país está longe de ser uma Namíbia, que a colonização alemã deixou mais ou menos em ordem, “limpinho, nem parece África!”, como nosso atual presidente falou ao lá chegar em visita de seu primeiro mandato. Os senegaleses continuam sendo pobres, mas têm alguma perspectiva. Ou seja, não é a melhor coisa do mundo, mas é legal.
Senegal é aquele país na pontinha mais ocidental da África, e sua capital Dakar, localiza-se bem na tal pontinha, é o ponto africano mais próximo da América do Sul. Ponto estratégico, meio caminho entre este continente e a Europa, Dakar foi por muito tempo utilizada como ponto de reabastecimento em viagens de avião entre os dois continentes. Seu mapa político é muito interessante, pois aparece uma língua mais para o sul, que não é Senegal, e sim outro país, Gâmbia, ao redor do rio do mesmo nome. Se observar-se bem o mapa, o conjunto Senegal / Gâmbia assemelha-se ao rosto de uma velha, de perfil, olhando para o oeste, sendo o nariz a pontinha de Dakar, e o traço da boca, Gâmbia. Interessante que notei isso logo de cara, e falei a meus interlocutores, que acharam o máximo, nunca haviam percebido, nem mesmo os locais.  Etnicamente, são exatamente o mesmo povo e falam exatamente a mesma língua nativa, o Uolof, mas por resquícios da colonização, na “boca” fala-se o inglês, no “resto do rosto”, o francês. Aliás, a configuração lingüística desta minha missão foi bastante confusa: acompanhava-me um italiano, num país de língua francesa, com os negócios sendo tratados na língua do petróleo, que é o inglês, que bom, pois não falo a língua do biquinho, mas tentava un peu, com as 17 palavras de meu vocabulário francês, e ainda arriscava de vez em quando um italiano nas conversas com meu camarada, e quando eu não sabia a palavra correta, ia buscar lá no espanhol. Então, uma verdadeira salada!
Sempre que chego a um país africano,lembro-me da saudação padrão de nosso gerente geral da Nigéria, que ele mandava por email a todos os viajantes da empresa para o seu querido país, que, entre outros conselhos, dizia: “Se, por acaso, você não tiver sido encontrado (por um agente da empresa) depois de passar pelo check-out de bagagens, não saia do aeroporto em hipótese alguma. Da mesma forma, nem pense em pegar um táxi, pois correrá risco de vida.” .... pausa para suspiro ...

       No aeroporto de Dakar, entretanto, você não sente o assédio das pessoas querendo vender algum tipo de serviço. Você passa pela alfândega, direitinho, sem visto (se tiver Passaporte de Serviço), não tem ninguém querendo extorquir dinheiro. Você pede uma informação, o sujeito dá, sem pedir nada em troca, você pega sua mala, não aparece ninguém querendo ajudar, passa a mala num raio-x, portanto sem niguém querendo abrir pra ver “se tem alguma coisa interessante” pra achacar. Ou seja, não tem que ter os famosos “cem dólahh” no bolso, pronto pra facilitar as coisas. Com relação à arquitetura, o terminal de desembarque ainda tem a cara “This is Africa”, meio caído, já o terminal de  embarque é todo novo, informatizado, cheio de mármores e luzes, como qualquer outro aeroporto decente. Poderiam ter começado a reforma pelo outro, que já seria um excelente cartão de visitas.
Na saída do aeroporto, você acaba se lembrando que está em África, um monte de desocupados zanzando, mas ninguém nos assediou, fomos direto ao ‘shuttle’ do hotel, passando por meio deles. No caminho, era de noite, mas já deu pra perceber que a cidade está em obras, um prédio aqui, outro ali sendo construído, mas também, ainda muitas ruas sem calçada, marca registrada africana. Ao longo dos dois dias, presenciamos largas autopistas e viadutos em construção. Por outro lado, andamos também por ruas de terra, que o motorista que nos levava usava para cortar caminho e escapar dos engarrafamentos provocados pelas obras e por outro motivo sobre o qual falarei mais adiante (mééé). Sim, ruas de terra, mas nada que se compare ao que eu presenciei no Chade, paupérrimo país centro-africano, sem mar, em que andei mais da metade do tempo em ruas de terra: nem mesmo a rua na frente do aeroporto merece o tratamento. Calma, as pistas para descida dos aviões são de asfalto, e na verdade, formam um percentual importante para o país, que tem menos de 500 km de asfaltamento.
A outra parte daquela mesma simpática nota que mencionei lá em cima, falava da malária. Dizia: “A malária é uma doença endêmica na África, e pode se manifestar em duas formas: malária recorrente, tipo amazônica, e malária do sangue, conhecida como malária cerebral. A malária cerebral é a mais comum na Nigéria, e pode matar, por hemorragia no cérebro, em até 72 horas..... pausa para suspiro ...

       Deveras tranqüilizador, não? No Senegal, a coisa não é tão catastrófica assim, têm incidência apenas em partes do ano, mas, como alerta a nota, é uma endemia. E, se existe a expressão “calor senegalês” é porque certamente, tem épocas do ano em que faz um calor bem propício para a proliferação dos mosquitos.
O Senegal é um país com 95% de muçulmanos, mas com total tolerância religiosa, havendo casos de membros de uma mesma família com religiões diferentes. Não são, portanto, radicais. As mulheres andam com roupa ocidental, ou não, é opção delas. A poligamia é tolerada, mas a maior parte dos casais segue a monogamia. Mantém as cinco rezas diárias voltadas para Meca, a obrigação de visitá-la uma vez na vida, enfim e outros costumes, um dos quais, eu falarei adiante (mééé). Muito do esforço de construção que presenciamos é por conta de uma conferência da comunidade islâmica internacional que acontecerá em Dakar em 2008. Mas muito também da atual política imposta pelo presidente e equipe, no poder desde 2000, de investimento para o futuro.
Tivemos oportunidade de conhecer o Ministro da Energia, o motivo de nossa visita ao país, onde tínhamos sociedade com uma companhia italiana na exploração de um bloco offshore. Trata-se de uma figura imponente, energética, alto, jovem, de forte personalidade, que nos recebeu em elegante traje muçulmano (e chinelos). Fora recentemente empossado, fruto da nova composição política do governo, depois da reeleição. Vindo da área financeira, estudou e trabalhou em Londres em posições de comando. Nos últimos quatro anos, era presidente da estatal de energia elétrica, e agora subiu de posto.  A reunião foi brevemente interrompida logo no início, quando adentrou a sala o Ministro de Estado da Justiça, que foi recebido pelo nosso ministro com extrema reverência. Apresentou-nos a ele, dando o devido destaque à nossa empresa, e mostrou que sabe das dificuldades e dos custos da atual indústria do petróleo, em uma breve conversa com o ilustre intruso, antes de pedir muitas desculpas e mostrar-nos a porta da sala, explicando que uma visita daquelas não pode ser adiada. Depois ficamos sabendo das duas categorias de ministro: os de Estado, das grandes pastas, pessoas de grande experiência e proximidade com o presidente; e os normais como o nosso alto interlocutor, num nível inferior. Não temos correspondência aqui. 

        Quando voltamos à sala, reiterou as desculpas pela interrupção. Enquanto tratávamos de nosso assunto, desfilava uma impressionante sequência de números, contando seus planos para o país. O país estava sendo reconstruído, como percebemos nas ruas. Seu conhecimento de finanças faz com que consiga altas somas de financiamentos externos (citou muitas cifras). O que mais impressionou foi quando disse que estão plantando o futuro, dedicando 40% (!!) do orçamento nacional para educação e 10% (!!) para a saúde. Que tal? Parece até mesmo um certo país de dimensões continentais que conhecemos aqui do outro lado do Atlântico, não? Bem, na verdade, aqui não precisamos disso tudo, temos excelentes resultados nos concursos internacionais de matemática e ciências....
Tem planos de longo prazo. A comunidade financeira internacional gosta disso e vem se mostrando disposta a ajudar, abrindo os cofres. Agrada também o fato de ser um país sem conflitos étnicos, com tolerância religiosa. O ministro diz que a mãe e a irmã dele são cristãs. No campo da riqueza, não quer cometer o erro de Angola e Nigéria, que gastam o que Deus (ou Allah) lhes deu em luxo para poucos, enquanto a população sofre. Eles sabem que terão petróleo, mas não querem esperar por ele e estão investindo pesado em infra-estrutura. O ministro é um workaólico, que trabalha das oito da manhã às 11 da noite, quando vai pra casa cuidar de sua “small family”, palavras dele, dormindo no máximo quatro horas por noite. Sua citação lembrou-me Napoleão, que dizia: duas horas de sono são suficientes para os comandantes, quatro horas para os comandados, e oito horas para os idiotas (ainda bem que estou mais pro meio!). 

       Contou que o Presidente, apesar de seus 82 anos, também tem esse pique, só que vai até as duas da manhã todos os dias. Disse que foram companheiros de luta e juntos ficaram na prisão, por mais de um ano. Disse que sua luta agora é contra o tempo. Diz: “We have a country to run!”. Não admite que se viaje dois dias para ter reunião em um e se retorne somente no dia seguinte: ele viaja de noite, passa o dia em reuniões e volta na noite seguinte. Reuniões em países árabes, aproveita para marcá-las em fins de semana, que são dias normais naqueles países. Quando volta, segue o ritmo normal de trabalho. Não há tempo a perder. Só falta Allah dar uma ajudazinha com o petróleo. E estávamos lá para ser Sua mão. Inshallah!
O petróleo é a dádiva divina que falta ao Senegal, mas abunda em Nigéria e Angola. Este nosso irmão de língua portuguesa tem a riqueza já desde a década de setenta, mas sofreu durante mais de 25 anos com a guerra civil. Agora é finda a guerra, eles têm a sorte de serem poucos (pouco mais de 12 milhões de habitantes), os recursos estão aparecendo, o país está crescendo a dois dígitos, mas grassa vez por outra um certo hábito no alto escalão, que faz com que a distribuição não seja lá muito equânime. A Nigéria descobriu petróleo há mais tempo, já teve o seu auge, coincidentemente com o título de país mais corrupto do mundo. A atual administração quer acabar com a pecha, mas agora tem que distribuir riqueza por mais de 150 milhões de almas, concentradas numa área pouco maior que o estado de Mato Grosso (veja, sem incluir o do Sul). A pobreza é generalizada, há conflitos étnicos e uma religião não suporta a outra. Deu pra perceber a situação inversa de nossos amigos senegaleses?
Agora, a razão do mééé. Não é a 'marvada' pinguinha, como alguns apreciadores carinhosamente a chamam. Trata-se do som que mais ouvi em Dakar. Logo no primeiro translado entre o hotel e a estatal senegalesa, notei a presença nas ruas, em cada terreno baldio, ou em frente às casas, um pequeno acúmulo de cabras, ou em pé, ou deitadas em cima das outras, sendo movidas pra lá e pra cá, algumas teimosas sendo arrastadas. A cena ia se repetindo ao longo do caminho, de todo o caminho, quando o carro andava por ruas menores. Uma coisa impressionante! Na volta para o hotel, que começou às 18:00 horas, já anoitecendo, a cena continuava, agora sob a luz do luar, umas poucas de iluminação pública e das próprias luzes dos automóveis. Um número incalculável de cabras. Acho que vi seguramente muito mais cabra que gente. Aquela volta para o hotel demorou duas horas: era cabra atravessando rua, empacando na frente dos carros, sendo arrastadas. Aqui, temos o cabra da peste; lá, era uma peste de cabras. Acho que vi umas 10 mil, por baixo.
A explicação para esse movimento todo remonta aos tempos de Abrahão. Aquele profeta existiu antes da separação entre as três grandes religiões monoteístas de hoje: judeus, católicos e muçulmanos veneram Abrahão como um dos pais de sua religião. Diz a lenda que, para testar a fé do profeta, Deus ordenou a Abrahão que sacrificasse seu filho Isaac. O profeta não pensou duas vezes, pegou da espada, levantou-a sobre a cabeça do filho, e quando ia desferir o golpe, um anjo o impediu. Deus considerou prova de fé suficiente, e aceitou o sacrifício de um cordeiro em troca. E ele assim o fez, cortando a jugular do pobre bichinho, certamente no meio de um mééé. Pois é, a data é celebrada todos os anos, pelos muçulmanos, a Festa do Sacrifício. 

       Cada chefe de família repete o gesto de Abrahão, a Sunna, ali mesmo, no meio da rua. Faz parte do ritual a preparação da carne, depois de tirar a pele e os internos, que será dividida em três partes e dada aos pobres, aos parentes e para  a própria família ao longo da semana seguinte. Como nem todos têm animais, as últimas semanas antes da festa são tomadas pelo comércio, daí a enormidade de caprinos que invadiu as ruas, vindas do campo, num mercado a céu aberto.  Outros países muçulmanos também seguem o costume, Líbia e Paquistão, por exemplo. Pelo que soube, não precisa ser cabra, pode ser ovelha, boi, enfim, pobres sacrificandos!
Felizmente, a linhagem cristã de Abrahão não celebra aquele momento máximo de comprovação de fé. Acho que os judeus também não o fazem. E, felizmente também, o dia do sacrifício era exatamente um dia depois, quando havia saído do país. Trata-se de um costume, na minha opinião, meio incompatível com um país que quer ser moderno. Por outro lado, como se trata de uma tradição milenar, aliás, de vários milênios, é uma coisa impossível de ser revertida. Passa de geração para geração, os meninos sonham com o dia em que farão a sua primeira degola.


Que bom que a coisa iria acontecer apenas no dia seguinte, o 17 de novembro.

Enfim, esse era o recado. Claro que o Senegal não é uma Brastemp, mas certamente estava-se traçando o caminho para se tornar. À época...

O feriado religioso é móvel. Neste ano da graça de 2011, ele acontecerá no próximo domingo dia 6 de novembro...


Mééé

sábado, 5 de outubro de 2024

São Francisco Ghandi


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Num certo dia 3 de outubro anos atrás, houve um culto ecumênico na sede da Petrobras pelo aniversário da empresa.

Estavam presentes representantes das quatro religiões mais representativas do país, nesta ordem: católica, evangélica, espírita, e de matriz africana.

Interessante o depoimento dos candomblés, impressionante o depoimento da espírita, normal o depoimento evangélico, e tocante o depoimento católico, feito por um frei franciscano

A única parte lida pelo frei foi um discurso, na verdade, uma verdadeira oração de Gandhi. Sabia que ele era um santo homem, de seu princípio de não-violência, que levou à libertação de sua Índia do jugo dos ingleses. Muito do que soube foi pelo espetacular filme  inglês de Richard Attenborough, ganhador de vários Oscars, em que Gandhi foi reencarnado por Ben Kingsley, sim, porque aquela interpretação só pode ter sido reencarnação, inclusive física, do grande Mahatma (ih, olha o pleonasmo, porque 'Mahatma' significa 'Grande').

Mas não sabia que tinha uma oração, tão linda...

Suas linhas gerais, o que se pede, é bastante similar a uma outra, muito conhecida de todos.


Veja:

Senhor, ajuda-me a dizer a verdade
diante dos fortes e a não dizer mentiras para
ganhar o aplauso dos fracos.
Se me dás fortuna, não me tires a razão.
Se me dás sucesso, não me tires a humildade.
Se me dás humildade, não me tires a dignidade.
Ajuda-me a enxergar o outro lado da moeda.
Não me deixes acusar o outro
por traição aos demais, apenas por não pensar igual a mim.
Ensina-me a amar os outros como a mim mesmo.
Não deixes que me torne orgulhoso, se triunfo;
nem cair em desespero se fracasso.
Mas recorda-me que o fracasso
é a experiência que precede o triunfo.
Ensina-me que perdoar é um sinal de grandeza
e que a vingança é um sinal de baixeza.
Se não me deres o êxito,
dá-me forças para aprender com o fracasso.
Se eu ofender as pessoas,
dá-me coragem para desculpar-me.
E se as pessoas me ofenderem,
dá-me grandeza para perdoar-lhes.
Senhor, se eu me esquecer de Ti,
nunca Te esqueças de mim."

Lembrou-se da outra oração?

Pois o dia seguinte foi o Dia de São Francisco!

Todos conhecem, aquela que pede:
 
Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.

Deixo aqui a oração completa, na voz de Cid Moreira, que desencarnou no último dia 3, dia aliás em que se lembra Gandhi, que nasceu naquela data em 1869.



Ela me toca muito, sempre, assim como me tocou a de Gandhi, igualmente edificante, igualmente sublime, igualmente difícil de se fazer valer, como modo de viver, como modo de ser, em nosso difícil dia a dia.

Mas sempre tentaremos!!!!

Homerix Tocado Ventura

Projeto By Homerix -Tronco Norueguês (Ela se foi) - OUÇA e LEIA

Este Projeto By Homerix não tem qualquer fim lucrativo.  Tem caráter meramente lúdico. Serve apenas ao intuito de mostrar que sempre é possí...