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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Economia do Petróleo - O Risco

Encomendaram-me um artigo com as perguntas abaixo listadas:
O que é petróleo? Qual a sua composição química? Como foi formado? Como é encontrado na natureza? Como é feito o estudo geológico para encontrar o óleo? Quais tipos de rochas se pode encontrar petróleo? Quais são as principais características que as rochas apresentam e que são indicativos de encontrar petróleo e gás natural? Se for mais de uma, quais são as diferenças entre elas? Quais são as características que um poço precisa ter para que seja considerado um poço comercialmente viável? Como é feito esse estudo? O que é pré-sal? Qual a diferença entre as demais áreas que encontra-se petróleo?

Ao invés de responder uma a uma, no velho estilo Q&A, preferi responder apenas uma delas... a que está em vermelho ... com um texto só passeando pelos vários aspectos que determinam a viabilidade de um campo de petróleo, tentando passar por todos os demais pontos questionados ao longo dele...

E vou publicá-lo aqui em uns poucos capítulos .... pode ser?

Desde já, deixo aqui um disclaimer: não espere encontrar aqui um tratado técnico detalhado sobre o tema, a intenção foi apenas apresentar alguns aspectos dessa indústria, pra quem só ouve falar sobre ela, e não tem ideia da magnitude desse mundo, que começa lá embaixo da terra. Os puristas que me perdoem! Ah, e também releve o estilo leve... esse é meu estilo de escrever...


Capítulo 1: O Risco 


Em primeiro lugar, claro, para um campo ser viável, o petróleo precisa existir! A responsabilidade de se encontrar petróleo é do Segmento Upstream da indústria, que investiga as possibilidades de existência de petróleo, perfura poços e, caso confirmada sua presença em quantidade comercial, desenvolve o campo, processa e trata óleo e gás natural no estado bruto para entregá-los ao Segmento Downstream, que produz os derivados que serão consumidos pela população. Mais recentemente, dá-se destaque também ao Segmento de Midstream, responsável pelas entregas entre segmentos, utilizando as mais variadas modalidades, sem mexer com as propriedades do que carrega.

A possibilidade de se encontrar petróleo depende da conjunção de cinco fatores da natureza, independentes entre si, que têm que estar presentes simultaneamente: a geração, a migração, fechamento, reservatório e o ’timing’ da ocorrência deles todos. Para colocar numa linguagem lúdica, o petróleo tem que nascer, viajar, encontrar um obstáculo que será sua morada final e tudo tem que ocorrer com sincronismo para que se definir que o ouro negro se encontra na sua propriedade, pronto para ser explorado pelo homem.

Então, vamos lá, ponto a ponto. Geólogos e Geofísicos (trataremos aqui pelo termo que engloba as duas categorias, Geocientistas) têm ferramentas (e muita imaginação!) para inferir a probabilidade de ocorrência de cada um dos fatores fundamentais para a ocorrência de petróleo. A cada ponto, como exemplo, estará um percentual, referente a tal possibilidade:

Geração (O Nascimento) – 100%

O petróleo nasce na Rocha Geradora, uma rocha argilosa ou carbonática, mormente folhelhos, siltitos, e calcilutitos, portadoras de matéria orgânica. Restos de animais e vegetais mortos há milhões de anos são soterrados por quilômetros de camadas rochosas ao longo do tempo, resultado de movimentos tectônicos. A ação da pressão dessas camadas, associada a temperaturas que variam de 80 a 200 graus Celsius, faz com que tal matéria orgânica se transforme em compostos de hidrogênio e carbono, os hidrocarbonetos, elementos básicos do petróleo, o chamado ouro negro! A triste realidade: nós seremos o petróleo do futuro! Não há como escapar!

Migração (A Viagem) – 60%

Após a geração, o óleo convive com água salgada nos poros da rocha geradora até que é expulso (migração primária) para as rochas carregadoras ou para falhas, por diferencial de pressão. O óleo busca sempre um ponto de menor pressão e, por isso, o caminho é geralmente ascendente, em direção à superfície, mas pode ser levado a quilômetros de distância (migração secundária). Se sua alegre viagem acontece sem obstáculos, em passo de tartaruga geológica, o petróleo pode chegar até a superfície já na forma asfáltica, por vir perdendo seus componentes voláteis, o que ocorre por vezes, em inglês, o ‘oil seep’. Aliás, os primeiros ‘óleos’ descobertos foram achados assim.

Fechamento (O Obstáculo) – 70%

O petróleo caminha até que encontra um impedimento para prosseguir: uma trapa ou um selo. As trapas são divididas em dois grandes grupos: i. as trapas estruturais, compostas por dobramentos ou falhas selantes, provocadas por movimentos da crosta terrestre e  ii. as trapas  estratigráficas,   que bloqueiam o petróleo por variações na litologia, ou,  em outras palavras, nas propriedades das rochas, o que pode ocorrer por fenômenos diversos. No momento em que encontra um obstáculo, também chamado de ‘selo’, o petróleo interrompe seu caminho e a mesma rocha que sempre o carregara, agora o acumula, e  muda, levianamente, sem razão aparente, sua identidade: é, agora, o reservatório!

Reservatório (A Morada Final) – ou O Campo de Petróleo – 80%

Não, o petróleo não se encontra em grandes lagos subterrâneos! O reservatório de petróleo nada mais é que uma rocha porosa, uma rocha com espaços preenchido por fluidos. Se os poros são intercomunicáveis entre si, ocorre a permeabilidade. No reservatório, o óleo, por ser mais leve , segrega-se da água e instala-se em sua porção superior. O gás, mais leve ainda, sai de solução e fica lá no topo. Um bom reservatório tem porosidade mínima de 10% e a máxima não passa de 35%. Arenitos e conglomerados (como os turbiditos) são tradicionais rochas-reservatório. Ser ou não ser um bom reservatório .......... eis a questão do risco!

Timing (Sincronismo) – 60%
Os fenômenos descritos até aqui não ocorrem da noite para o dia! A escala de tempo aqui é geológica e a unidade é milhão de anos! Além de ser necessária a ocorrência de todos eles, tudo tem que ter acontecido na ordem correta. A estrutura tem que estar pronta para conter o petróleo que migrou após ter nascido na rocha geradora e de lá ter sido expulso. Um exemplo comum de falta de timing: há geração, o petróleo migra e somente depois ocorre a estruturação. A esta altura, o querido ouro negro já está a léguas de distância, em busca de outro ombro amigo, na propriedade alheia!


Pronto! O petróleo só estará lá embaixo, quietinho, esperando que o bondoso homem venha mostrar-lhe a luz do sol se, e somente se, todos os componentes do risco ocorrerem, simultaneamente! Como são todos fatores independentes, a probabilidade total é o produto das probabilidades individuais! Portanto, o risco que o investidor encara, de encontrar petróleo em sua propriedade, neste exemplo numérico, é a multiplicação 100% x 60% x 70% x 80% x 60%, que resulta, sim, em APENAS 20%. Ou seja, ele sabe que tem uma chance de 80% de não encontrar nenhum petróleo ali, onde ele precisa que esteja!

Próximos capítulos:


Capítulo 2: A Exploração

Capítulo 3: O Desenvolvimento

Capítulo 4: A Viabilidade

Capítulo 5: O Pré-Sal 

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