segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Minha primeira Digressão Cultural num grupo de assunto fixo

Num grupo do WhatsApp com assunto específico, os rígidos administradores permitiram o Domingo Cutural, com abertura para outros temas, e inaugurei minha participação com um poeminha raso, quadras com versos octassílabos, rimas ABAB, e falando sobre um assunto que eu entendo só um pouco!

Fiz uma estatística: Foram 16 versos, duas rimas por verso, total 32 rimas, das quais 26 ricas, índice de riqueza, 81%. Eu não busco isso, elas acontecem. Gosto especialmente das rimas intra-idiomas.

Palavras em vermelho levam aos áudios ou posts correspondentes

__________________________________________________


Num certo Grupo ABCD,

Assunto geral, só domingo.

Então, eu falei sobre o quê?

Claro que John, Paul, George e Ringo!


Chegando a 700 textos, (*)

Resolvi usar minha voz

E virei locutor bissexto.

Não foi dificuldade atroz.


E descobri um novo flanco.

Soltando a comunicação.

E olha, peguei logo no tranco,

E usei a imaginação.


A cara FM UNIARA,

Do programa Beatlemania,

Me perguntou: você encara

Narrar alguns textos que cria?


É pra já, logo respondi.

E ouviu o DJ angolano. (**)

E num Submarino imergi!

Minha voz cruzou o Oceano.


Então, já foram mais de 20,

Todo sábado tem programa.

E o DJ me dá o requinte

De imaginar complexas tramas.

  

Já falei até de Star Trek

Ligando à música de John.

Me animou a ampliar o leque

Migrando para além do som.


Quando abalou-se o alicerce,

Numa tristeza que até travo,

Falei sobre Across The Universe

E o feito de Lizzie Bravo.


Falei de capa de LP,

E da vida de Buddy Holly.

Procuro entregar a você

Algum assunto que decole.


Neste meu mais novo projeto,

Cinco capítulos bolei,

Para contar num papo reto,

Os segredos de um Medley Rei.


Dos Beatles, a última obra,

Encanta quem quer que a escute.

Tanta qualidade que sobra

E há cinquentanos repercute.


Na primeira parte, eu conto

Do nascimento, suas ruas, 

E uma canção de deixar tonto!

E outras oito, duas a duas.


Então, venha entender comigo

O talento daquela gente.

Vai correr somente o perigo

De se encantar perdidamente!


Proponho-te fazer um teste:

Abra o LINK que te apresento,

Bote pra tocar o podcast,

E ao texto de lá, fique atento.


Ela é a primeira parte.

A segunda já foi ao ar.

Logo, logo virá o encarte

E eu te prometo divulgar. 


As demais, pode ouvir ao vivo

Todo sábado às 13 horas.

Se o horário não é atrativo,

O podcast virá sem demora!


Bem-vindos ao Blog do Homerix

(*) 700 só sobre Beatles. O total vai a 2.550!

(**) Pronuncia-se ‘didgei’

Se não captou o LINK ali nos versos, repito ele aqui:

https://blogdohomerix.blogspot.com/2022/02/oucileia-medley-0-1.html



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

The Beatles' 1964 - O 1º EP de inéditas

Neste relato do ano de 1964, a primeira parte contou o que ocorreu até a partida para conquistar América, neste LINK, 

A 2ª Parte contou sobre a Conquista da América e a envoltória do lançamento do compacto Can't Buy Me Love / You Can't Do That, neste LINK.

A 3ª Parte iria até o lançamento do EP Long Tall Sally, que veio com mais uma original dos Beatles, mas estava tão grande (veja neste LINK), que parei antes de destrinchar as 4 canções do EP, o que faço a partir de agora.

O EP (conhecido no Brasil como Campacto Duplo) tinha as canções I Call Your Name, original Lennon/McCartney, e 3 Covers: Long Tall Sally, de Little Richard, Slow Down, de Larry Williams e Matchbox, de Carl Perkins. Elas foram gravadas em meio às sessões de gravação de A Hard Day's Night, o Lado A em 1º de março, ainda antes das filmagens, e o Lado B em 1º de junho, já na volta das férias tropicais dos 4 Beatles! Foram lançadas duas semanas antes do LP. Foi em 19 de junho, enquanto os Beatles, já com Ringo de volta da situação médica, estava no 2º dia de shows em Sidney, Capital de Austrália! Quando eles voltaram da excursão, o EP já liderava a parada inglesa!

Vamos a elas!! Conforme código numérico já combinado entre nós, elas são as canções Nº 35, 36, 37 e 38 e serão apresentadas nessa ordem.


35. Long Tall Sally (by Little Richard)

Paul grita:
I saw Uncle John with long tall Sally
He saw Aunt Mary comin' and he ducked back in the alley
Oh, baby, yeah now baby
Woo baby, some fun tonight
... explicando rapidinho, Tio John, safadinho, estava de trique trique na rua com a alta Sally, quando viu Tia Mary e se escondeu num beco. Mais adiante, dá-se a entender que Sally é um travesti. "Ela tem tudo de que o tio John precisa", ai ai. 
Paul é o vocalista, e ele faz aí uma das melhores gravações de sua vida! Vocal gritado, um tom acima do que cantou seu autor Little Richard. E a banda contribuiu tão bem, que foi necessário APENAS UM TAKE, ao efeito.  George Harrison fez dois solos perfeitos. Até George Martin entrou na onda, lascando seu piano com perfeição. Uma vez só! Quando acabou, todos se entreolharam espantados com a própria performance. Não tocaram mais nenhuma vez, não tem take alternativo, não fizeram nenhum overdub, nenhum ajuste ou edição foi necessário. Era a resposta de Paul para o show de John em Twist and Shout um ano antes, que também fez a proeza.
 
Esse show foi dado num hoje histórico 1º de março de 1964. Não foi à toa, não foi difícil escolher qual seria a primeira cover a se candidatar a entrar no mais novo álbum da então mais famosa banda do mundo, posto que eles haviam acabado de conquistar a América. Long Tall Sally era uma favorita de John e Paul, aliás, desde seu primeiro encontro em 6 de julho de 1957 no pátio de uma igreja em Liverpool. Paul sabia os acordes e a letra (e cantá-la, o que não era fácil) e impressionou John com sua habilidade na guitarra. Tocaram-na ainda como Quarrymen, depois como Silver Beatles, e seguiram tocando-a, já com o nome definitivo da banda, ainda antes da chegada de Ringo, no Cavern Club e em noitadas compridas nas casas noturnas de Hamburgo na Alemanha. E ela estava em quase todos os shows já depois da fama, e também com Ringo. Ela normalmente fechava os shows, e levaram-na em excursões pelo mundo, em todos os 4 anos que durou sua carreira ao vivo da banda, interromperam sua presença brevemente quando chegou I'm Down, de Paul, que passou a fechar os shows, mas retornaram com ela aqui e ali, inclusive no último show em San Francisco, em agosto de 1966. Ela é a primeira canção do Lado A do compacto duplo. Deixo aqui este LINK, na 1º vez que tocaram a canção no Estados Unidos, em Washington, para terem uma ideia.


36. I Call Your Name (Retun Miss Song by John Lennon)

John chora 'Eu chamo o seu nome, mas você não está lá. Será que eu estou sendo injusto?
Ah, eu não consigo dormir à noite desde que você se foi. Eu nunca choro à noite, assim não dá mais'

Essa canção foi feita por John em 1957, e provavelmente é a primeira composta por ele.  Ela foi terminada em 1963 (somente aí veio a ponte) para ser dada para o grupo Billy J Kramer and The Dakotas gravarem. Eles o fizeram e gravaram uma outra de Lennon/McCartney chamada Bad To Me, e lançaram as duas em compacto de grande sucesso, que chegou ao Nº1 das paradas. Só que cometeram um pecado: lançaram a canção de John no Lado B. John, então, resolveu promovê-la com sua gravação pelos Beatles! E ela sem dúvida merecia fazer parte do catálogo beatle! É ótima!! Eu adoro!! I Call Your Name chegou a ser sugerida para a trilha sonora de A Hard Day's Night, em 1964 quando ainda não havia surgido a canção título. Uma vez composta a nova canção, I Call Your Name acabou relegada e não entrou nem na trilha do filme (as 7 canções do Lado A) e nem no Lado B do próprio álbum de mesmo nome. Uma pena, porque caberia perfeitamente, e completaria as 14 canções que foi a regra dos primeiros álbuns dos Beatles de 1963 a 1966. A Hard Day's Night foi exceção à regra, com 13. E poderia muito bem ser cantada por Ringo, que ficou sem vocal no LP, e ele provou isso ao cantá-la em sua carreira solo. Bem, a canção não poderia ser abandonada e acabou sendo lançada num EP (Extended Play), ou compacto duplo, com duas canções em cada lado da bolachinha de vinil, que foi nomeado Long Tall Sally EP, que tinha, além da canção título, também Slow Down e Matchbox, das quais falo em post separado. 
 
O assunto da canção merece uma discussão à parte. Quem lê assim de pronto, como eu, define como o nome como de uma garota que está dando um gelo para o autor. Assim fiz eu e a classifiquei como Miss Song, Return Class, ou seja, uma canção de saudade em que o abandonado quer o retorno à condição antiga. Só que ele poderia estar se dirigindo a uma de duas figuras importantes de sua vida: sua mãe Julia, que o deixou para ser criado com a irmã,  mas estava com ele à época e morreu atropelada em 58, uma verdadeira tragédia. Ou seu pai Fred que o abandonou logo cedo, depois voltou para pegá-lo, mas John preferiu ficar com a mãe.,.. e talvez venha daí a  parte em que pergunta se foi injusto... São traumas da vida de John que ele voltou a tratar em canções de 1968 e 1969, especialmente Mother, das mais pungentes canções da história da música. Só que John nunca disse, nem para seu parceiro Paul, quem era o alvo de seu lamento, então, sigo com minha interpretação. Em tendo percebido essa outra conexão, eu a teria classificado como Self Song, ou ainda, Speech Song (para uma pessoa).... mas deixa como está. 
 
A gravação foi feita em 1º de março, o último dia antes de começarem as filmagens de A Hard Day's Night, e ela dormiu aquela noite como parte da trilha sonora. Foram 7 takes, com todos cantando e tocando ao vivo, houve variações na introdução com relação ao que havia sido lançado um ano antes. Em 1º de junho veio um overdub com um instrumento fundamental da canção, e quem o trouxe foi Ringo Starr: o cowbell. Adoro aquele som! E ele está lá na canção toda. Ele havia utilizado o simpática percussão cinco dias antes na gravação de You Can't Do That, e voltaria a usá-la na canção título do filme, e depois em I Need You do filme HELP! em 1965 e em outras 4 canções da carreira! Gosto tanto que é a imagem dele que eu uso para ilustrar o post! Eu tenho até mesmo a tara de contar quantas vezes ele é acionado! Aqui, foram 201 vezes! Mas por que não é um múltiplo de 4, como se esperaria, afinal ele é acionado a cada tempo dos compassos, que são de 4 tempos? É que, quando vai começar o verso instrumental, Ringo bate apenas uma vez no 1º compasso e para, voltando apenas quando volta a ponte. Aliás, estou falando em verso pra lá, ponte pra cá, e o leitor pode não estar identificando. 
 
Vamos lá! Os versos de I Call Your Name são provavelmente os mais curtos da carreira dos Beatles, apenas duas frases cada um:
Verso 1: 
I call your name, but you're not there
Was I to blame, for being unfair?
Verso 2: 
Oh I can't sleep at night since you've been gone
I never weep at night, I can't go on 
 
A Ponte é mais generosa, com quatro frases e ainda apresenta uma guitarra em gangorra fenomenal com 8 puxadas por compasso. O amigo beatlemaníaco notará uma semelhança desse riff com Hold Me Tight, que foi gravada 6 meses antes: 
Don't you know I can't take it?
I don't know who can
I'm not going to make it
I'm not that kind of man

Depois da ponte, vem um verso, com letra um pouco diferente e, em seguida, um verso sem palavras, apenas instrumental e magnífico, porque introduz um ritmo novo para os Beatles, um ska, ou reggae, defina como quiser. Talvez por causa dessa mudança foi que Ringo desistiu de pulsar o cowbell nesse setor! Depois dele, vem mais uma vez a ponte e um verso final, que termina com o título da canção repetido várias vezes em fade-out. 

I Call Your Name nunca fez parte de shows ao vivo, mas os Beatles a tocaram ao vivo na BBC, ouçam neste LINK, claro que sem o cowbell. Notem o riff da ponte um pouco modificado e também que John erra a letra do verso final. Mas é sensacional!

Bem, a ligação de Ringo com a canção, com sua bateria precisa, o desafio de fazer um novo ritmo no verso instrumental, e a decisão pelo cowbell, foi muito forte, tão forte foi que ele veio nos salvar, em sua carreira solo, com uma performance da mesma, tendo como companheiros Jeff Lynne, Joe Walsh e Tom Petty nas guitarras. Como Ringo está na bateria, um terceiro teria que se encarregar do cowbell, então veja um sujeito, um outro baterista famoso, Jim Keltner, ali atrás, encarregado do instrumento! Valeu, Ringo!!! Vejam e deliciem-se aqui, neste LINK! 

37. Slow Down (by Larry Williams)

John implora:
Well, come on pretty baby, won't you walk with me?
Come on, pretty baby, won't you talk with me?
Come on pretty baby, give me one more chance.
Try to save our romance!
Slow down, baby, now you're movin' way too fast.
You gotta gimme little lovin', gimme little lovin'
  
 
Ow! if you want our love to last
... nos outros dois versos, Larry, na voz de John, dá ainda mais argumentos para a garota dar mais uma chance pra ele
Pois é, John é o vocalista, e entrega um magnífico desempenho vocal, es-pe-ci-al-men-te no 3º verso, ele faz aí uma das melhores gravações de sua vida! Sua voz rouca se encaixou como uma luva no clima desse magnífico rock'n roll americano. São 5 vezes um 12-bar-blues duplo, pode contar, você vai ver que vai contar até 24 em cada um. O primeiro deles é instrumental, com piano e floreios de guitarra, depois dois versos são cantados (com direto a um sensacional "Brrrrr, if you wan your love to last"), e vem mais um verso instrumental, com solo de guitarra de George e, finalmente, o verso matador de John, não deixem de ouvir. Isso foi conseguido, não em um, mas 3 takes, dedicados à base, sem a voz de John, só com os instrumentos tradicionais.  Depois, vieram o piano de George Martin e o vocal inicial de John, e depois seu vocal dobrado, onde ele erra algumas vezes a letra, mas com direito a uma harmonização dele com ele mesmo no último 'slow down' da letra, percebam. vale a pena vale a pena, neste LINK!! Era 1º de junho. Slow Down fazia parte do set list do Cavern Club e de Hamburgo, mas não viu a luz do palco na era dos shows do Beatles, com exceção de uma participação num programa da BBC.

 38. Matchbox (by Carl Perkins)

Ringo se resigna:.
  1. I ain't got no matches, but I sure, Got a long way to go
  2. I'll never be happy, cause everything I've ever did was wrong  
  3. I got news for you, baby, Leave me here in misery 
  4. And when your big dog gets here. Watch how your puppy dog runs

 A numeração corresponde à finalização de cada um dos versos diferentes da canção, naquela estrutura comum dos lamentos do blues, uma frase, depois ela é repetida, e depois vem a conclusão. O 1º verso é repetido na finalização da canção.

A letra, de autocomiseração, "ó vida, ó azar!", é típica das preferências de Ringo, que adorava esse tipo de declaração, de dar essa conotação de sad and lonely poor boy que viria em várias de suas outras 10 participações como vocalista na carreira dos Beatles, duas delas com autor da canção. E também seria a physique de role de seu papel como ator Beatle, em 3 dos 5 filmes da banda, abrindo com a sensacional cena de A Hard Day's Night, que é  acompanhada por uma This Boy instrumental, depois sendo O CARA que é perseguido por uma seita maluca em HELP!, e mesmo na animação Yellow Submarine, sendo O CARA que aperta o botão errado e é ejetado da nave que viajava por mares psicodélicos. Grande Ringão! 
 
A sessão de gravação ocorreu no mesmo 1º de junho de Slow Down, acima descrita, e Matchbox foi a primeira gravada. E foram 5 takes, dos quais 3 completos, e com tudo dentro, todos tocando, inclusive George Martin ao piano, e Ringo cantando, em sua bateria. O curioso é que foi John quem fez o solo na guitarra, entre o 3º e o 4º versos. Posteriormente, Ringo dobrou seu vocal, depois triplicou seu vocal, o que dá pra ser notado explicitamente em algumas ocorrências do "Weeeell" no começo de alguns dos versos, que se ouve 3 vezes claramente. Uma figura ilustre estava nos estúdios, o próprio autor Carl Perkins, então em excursão pela Inglaterra, que foi convidado para testemunhar a primeira de 3 composições que ele autorizou, com muita satisfação, que os Beatles regravassem, as outras sendo Honey Don't, tambem com Ringo e Everybody Is Trying To Be My Baby, com George, outro admirador do roqueiro americano. 
 
Nos EUA, as duas canções do Lado B do EP foram lançadas em compacto simples, com grande sucesso, tendo inclusive a de Ringo alcançado melhor posição que a de John nas paradas americanas. Ringo era o mais popular dos Beatles naqueles tempos, terra de Tio Sam, sendo inclusive lançado para Presidente dos EUA! Hehehe!


 


The Beatles' 1964 - O 1º Filme e A Excursão Mundial


Neste relato do ano de 1964, a primeira parte contou o que ocorreu até a partida para conquistar América, neste LINK, 

A 2ª Parte contou sobre a Conquista da América e a envoltória do lançamento do compacto Can't Buy Me Love / You Can't Do That, neste LINK.

Esta 3ª Parte contará o que aconteceu até o lançamento do EP Long Tall Sally, que veio com mais uma canção original dos Beatles! O que significa Um Filme de longa metragem e Uma Excursão Mundial.  Sempre bom relembrar que, aqui nesta saga, contam-se os lançamentos de canções inéditas. Outros EPs foram lançados para surfar na onda do sucesso e faturar mais um pouco, mas com canções já lançadas anteriormente! Este de que falarei, além de ser o veículo em que o mundo conheceu a ótima I Call Your Name, e o excepcional desempenho de Paul na canção título, tem outras duas ótimas covers: Slow Down, cantada por John, e Matchbox, cantada por Ringo!!

Enquanto nos EUA, o pessoal tirava o atraso lançando até  material já lançado, pra aproveitar a enorme fama dos 'rapazes', até lançando dois produtos num dia só, do outro lado do Atlântico, John Lennon lançava um livro, In His Own Write, com 76 páginas de histórias curtas em estilo nonsense,  e gravuras que beiravam o surrealismo (sim, ele desenhava muito bem!), com prefácio do amigo Paul. Foi sucesso de crítica e público, elogiado até no Parlamento Britânico (alguns) e traduzido para vários idiomas.

E começava um longo período de filmagens do ainda chamado Beatlemania! Foram 7 sessões no Teatro Escala, onde foram gravadas as cenas com eles dublando If I Fell, And I Love Her, She Loves You e Tell Me Why. Em um desses dias, mesmo após exaustivas sessões de filmagem, foram à BBC para mais de 3 horas de gravação de mais uma edição do Saturday Club, programa de rádio de grande sucesso. 

Pausa para uma situação tensa!

O 1º de abril abriu com uma inesperada visita de Alfred Lennon, pai de John aos escritórios da NEMS (de Brian Epstein) acompanhado de um jornalista. John foi chamado. Ele não via o pai há 17 anos, e levou George e Ringo com ele. A conversa, que começou com um seco "O que você quer?" durou 20 minutos e terminou com John expulsando o pai do recinto. Uau! Depois, dirigiram-se ao Teatro Scala para mais filmagens.

Fim da situação tensa


Para desanuviar as coisas, contribuiu a notícia de que The Beatles ocupavam as cinco primeiras posições na Billboard americana, conforme já mencionado anteriormente. Era um 4 de abril de 1964, e foi a primeira vez que isso acontecia na história, e seria também a única. Can't Buy Me Love puxava o trem e ficaria no posto por cinco  semanas, após sete semanas de I Want To Hold Your Hand e duas de She Loves You naquele posto! Outras sete canções dos Beatles estavam presentes na lista dos Top 100 naquela semana: I Saw Her Standing There, From Me To You, Do You Want To Know A Secret, All My Loving, You Can’t Do That, Roll Over Beethoven e Thank You Girl, nessa ordem. E na semana seguinte, outras duas canções entrariam na lista, There's A Place e Love Me Do, sim, ela mesma, a canção inaugural dos Beatles, aquela da gaitinha de John, entrava ali, rumo ao 1º posto, que atingiria na semana de 30 de maio, portanto mais de 18 meses após seu lançamento no Reino Unido, em 5 de outubro de 1962.  Portanto, The Beatles tinham 14 canções entre as mais vendidas (o equivalente a um LP deles na época ... e que LP!!!), número jamais sonhado por nenhum outro artista, nunca antes (nem depois) na história da música. Aquele número 27 ali no topo da imagem também foi um recorde: foram 27 posições que a canção subiu de uma semana pra outra, que só foi batido 40 anos depois.

Enquanto isso, seguiam as filmagens do longa metragem, na estação do trem, em dois domingos em que ela estava fechada, um deles com fãs contratadas correndo atrás deles, e a cena de Ringo solo, ao longo do rio (ele confessou que estava bêbado), e a hilária cena de George solo, e a cena na estação de polícia, e a cena das entrevistas, e a cena do escritório de produção, e mais cenas externas, próximo ao Teatro Scala. Num desses dias, Paul e apenas Paul, foi chamado pra participar do programa de TV de David Frost (que seria o host daquele clip de Hey Jude em 1968). E num outro dia, particularmente cansativo, Ringo sentava numa daquelas cadeiras de diretor, e comentou: 'Oh, it's been a hard day" e olhou que anoitecia e complementou "...'s night...", o diretor ouviu, gostou, decidiu que seria esse o título do filme, comentou com a dupla mais famosa do planeta, John disse: "Deixa comigo!", foi pra casa e dia seguinte, um 16 de abril, chegou com ela pronta, mas entregou a ponte da canção pra Paul cantar, porque não atingia as notas agudas, e os Beatles gravaram-na em três horas, e estava pronto o próximo Nº1 da carreira, com direito a um acorde inicial arrebatador que intrigou até matemáticos e físicos.... uau, belo resumo, que será detalhado mais adiante. Ah, sim, foram três horas noturnas, pois durante o dia foi mais uma intensa sessão de filmagens, com uma antológica cena de perseguição, que culmina com os quatro dando de cara numa rua sem saída e retornando calmamente...

A rodada final de filmagens teve o retorno ao Ambassadeur's para gravação da cena de dança, que no filme foi acompanhada por versões instrumentais de I Wanna Be Your Man, que era de John e Paul, mas cantada por Ringo no original, e Don't Bother Me, que fora a primeira canção composta por George. Houve sessões apenas de dublagem de diálogos, inclusive aquela de John com uma atriz, em que ela desconfiava que era ele e ele disfarçava irônica e brilhantemente. E também passaram dois dias filmando uma cena solo de Paul que não foi para a edição final (por quêêê??). Na verdade, após filmarem a cena todinha, em dois dias, chegaram à conclusão que ela não seria adequada por não retratar um dia típico dos membros da banda, eles não ficariam cortejando uma garota daquela maneira... E Paul ficou sem uma cena solo pra chamar de sua, o único, dentre os Beatles... mas pior que tudo, é que o filme foi DESTRUÍDOOO, quando chegou o tempo regulamentar de destruírem o que não foi usado, gente, ali tinha um Beatle atuando... que pecado!!! Digno de nota é que a atriz Isla Blair, cujo personagem, a caráter de época, era cortejada por Paul, arrependeu-se de ter aceito a oferta de carona do astro ao final do primeiro dia, pois antes de chegar ao carro os dois foram cercados por fãs enlouquecidas, que a hostilizaram, beliscaram, puxaram, empurraram, até socaram, arrancaram seus cabelos. No dia seguinte, Isla declinou de igual oferta do astro. Blair fez carreira de atriz e produtora e vive até hoje, aos 78 anos! Para finalizar, a última cena filmada de A Hard Day's Night foi a de quem deu a ideia para o nome do filme, Ringo Starr, na divertidíssima passagem em que ele gentilmente coloca seu casaco para uma dama passar por uma poça, que na verdade era um profundo buraco. Era 24 de abril e acabava a primeira experiência dos Beatles como atores de cinema.

Um dia antes, entretanto, ocorreu uma situação inusitada, ou até mesmo embaraçosa. John, por conta de seu elogiado livro, e associado à sua fama na música e sua importância no cenário do próprio país, até mesmo financeiramente, pois fazia parte de uma das maiores entidades arrecadadoras de impostos de todo o reino, foi agraciado com um prêmio literário, e convidado a um almoço em que era convidado de honra, porém, mais que um almoço, era um 'lancheon', em que o homenageado é homenageado, mas dele se espera um discurso! Só que John não sabia disso, nem Cynthia, que o acompanhou. Esta última achou estranho que assim que chegaram, colocaram-na distante de John, que foi levado a um local na mesa, que dispunha de vários microfones à sua frente. John entrou em pânico, e quando foi anunciado, se levantou, disse:Er, thank you all very much, and God bless you.”, e sentou-se, todos aplaudiram meio sem jeito, e John disse ao homem a seu lado: You’ve got a lucky face!”. E só!! Que situação! Brian se levantou e disse algumas palavras, reduzindo a tensão. De qualquer modo, o evento foi considerado apropriado a um Beatles esnobando o establishment, coisa que tinha magnitude para fazer! Enfim... 

Três dias depois, entretanto, veio uma emoção em que eles voltaram a ter total controle, uma apresentação vespertina para 10.000 espectadores na Wembley Arena, então conhecida como Empire Pool, como parte do New Musical Express’ 1963-64 Annual Poll-Winners’ All-Star Concert, tradicional premiação, desde os anos 1930, dos melhores do ano no entretenimento, por votação do público. Os Beatles fecharam as apresentações da tarde cantando cinco canções, dentre elas, as duas do mais recente compacto, e os Rolling Stones comandaram os shows da noite! Deixo aqui o vídeo dos Beatles, quem apresenta é o DJ de New York que virou amigo deles de todas as horas, Murray, The K. Entretanto, só aparece o som do microfone de John em She Loves You, mas o outro volta em You Can't Do That, e veja John errando, e lutando com seu microfone, e Paul se afastando, muito interessante, e shows de John em Twist And Shout e de Paul em Long Tall Sally, note a entrega de Ringo e George, e claro, note a euforia dos fãs, inclusive para recepcionar o então astro da TV que iria entregar os troféus, Roger Moore, que então nem sonhava que seria James Bond por 7 filmes!!! Aqui, neste LINK

Pausa para conexão Bond-Beatle
Na época, Roger Moore era O Santo, seriado de grande sucesso na TV! Depois, quando Sean Connery disse que não queria mais ser 007, em 1967, ele foi chamado para substituir o escocês no filme de 1969, mas não foi persuadido porque já era um dos Persuaders, excepcional série com Tony Curtis, essa sim, eu não perdia um episódio aqui! E veio o australiano George Lazenby fazer um ótimo On Her Majesty's Secret Service, mas com desempenho 'canastrófico'. E voltou Sean Connery para fazer seu último 007, Diamonds Are Forever, em 1971, a peso de ouro, ou melhor a peso de Um Milhão de Libras (equivalente a R$ 90 Milhões hoje!!!), que doou para a caridade, para, aí sim, abandonar o posto de agente secreto de Sua Majestade, dando lugar ao inglês Roger Moore, que estreou em 1973 na pele do espião, justamente em Live And Let Die, que recebeu o tema sonoro de ninguém menos que Paul McCartney, em carreira solo, justamente a quem entregara aqueles troféus, 9 anos antes, fechando-se um ciclo! Ufa!! Um pouco de história de entrelaçamento Bond Beatle
Fim da conexão Bond-Beatle


Foi bom destacar a qualificação de atores 'de cinema' mais ali acima, porque eles tiveram algumas oportunidades de mostrar seu histrionismo em alguns sketches na TV, e especialmente, numa oportunidade da ITV, chamada Around The Beatles, que deu muito trabalho a eles, mas ficou muito legal! Em meio às filmagens de seu primeiro filme, eles se desligaram por dois sábados e um domingo para ensaios, tanto de performances como músicos que eram, mas como atores, travestidos de personagens de Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare. O espetáculo foi finalmente gravado no dia 28, e durava 1:15 hora. Paul e John faziam o casal apaixonado, Pyramus ('ele') e Thisbee (ela, banguela), George era o Luar, e Ringo, o Leão, divertidíssimo e muito bem atuado sketch! Melhor do que descrever, o melhor é ver este extrato de quase 10 minutos iniciais do show, que deixo aqui, neste LINK, para gáudio de meus poucos leitores. Aliás, o show inteiro é fantástico, com ótimos artistas da época, que os Beatles acompanham e apresentam de um balcão o tempo todo, animado com dançarinos no palco, além dos Beatles, claro, que, apresentados mais uma vez pelo DJ Murray The K, com seu já tradicional John.... Paul .... Ringo .... George, para delírio dos fãs, cantam 7 canções, e um medley sensacional com todas as canções Lado A dos 5 primeiros compactos da banda. Preciso listar aqui? Não, né...

Bem, terminados os compromissos de filmagem e de TV, os Beatles estavam preparados para merecidas férias, mas ainda fizeram dois shows na Escócia (Glasgow e Edinburgh), um programa de rádio (a 3ª edição de From Us To You na BBC) e ainda inauguraram suas figuras de cera no Madame Tussaud, a primeira vez em que a velha senhora se rendeu a artistas populares, pois antes, eram apenas figuras históricas! Aliás, nada mais natural, porque os Beatles mudaram a história! Aliás (2), ainda bem que houve outras versões dos bonecos, porque os primeiros, valha-me.... Então, sim, estavam prontos para partirem, para longe dos holofotes, só que não. Elaboraram enorme esquema para disfarçarem os destinos, estabeleceram nomes fictícios aos quatro casais para as comunicações entre eles e as equipes, tanto segredo que até se atrapalharam e George teve o passaporte trocado com Ringo, fato descoberto nas chegadas de cada um a Amsterdam e Lisboa, respectivamente, que eram os aeroportos de partida para os destinos finais. Aviões pra lá e pra cá, documentos no lugar, lá se foram, John (com Cynthia) e George (com Pattie), para o Tahiti, mas com escalas em Vancouver, e dois dias em Honolulu, onde foram descobertos imediatamente, o que não ocorreu no destino final na Polinésia Francesa, no Pacífico Sul, onde nem sabiam da existência dos Beatles. Paul (com Jane) e Ringo (com Maureen), passaram quase um mês nas Ilhas Virgens Britânicas no Mar do Caribe, portanto ainda no mesmo oceano de seu país de origem. Paul também foi mais modesto na produção musical. Ele e John estavam encarregados de produzirem material para o Lado B do LP com a trilha sonora do filme, mas só conseguiu compor Things We Said Today; já John, lá no Pacífico, leu muito, inspirou-se para escrever seu segundo livro, A Spaniard In The Works, e compôs, nada menos que quatro canções, Any Time At All, When I Get Home,  e I'll Be Back, que foram para o destino programado, e ainda No Reply, que acabou ficando para o LP do final do ano. O querido George não produziu nada.... após sua composição inaugural em 1963, tornou sabático o ano seguinte, e somente voltaria em HELP, aí si decolando sua brilhante carreira de compositor, que traria 22 canções ao cancioneiro Beatle.

Na volta, estavam animados, bronzeados, educados e falantes. Na primeira entrevista coletiva programada pelo novo assessor de imprensa Derek Taylor (aquele dos textos das capas dos discos), os Beatles falaram durante SEIS HORAS, sobre tudo, as férias, os planos, a excursão que fariam em breve, suas namoradas, o lançamento esdrúxulo de um compacto mal gravado em Hamburgo, e no dia seguinte fecharam o mês de maio com mais dois shows no Prince of Whales Theatre, mas tiveram que ensaiar mais que o habitual, pois estavam enferrujados de tanto banho de mar e sol tropical, sete canções em cada um deles,. Abriram junho no estúdio, com dois dias gravando a produção de John e de Paul durante as férias, para o LP A Hard Day's Night, e mais duas canções para o EP Long Tall Sally, que sairia durante a excursão mundial que, aliás, começou com uma bomba: Ringo caiu doente!!! Amigdalite braba, faringite, hospital, operação, e tudo o que têm direito. Solução? Chamar um baterista reserva! George Harrison foi contra, mas acabou aderindo, por pressão de Brian Epstein e George Martin. Jimmy Nicol foi chamado, ensaiou duas horas e foi arrumar as malas, mas o dia de gravação seguiu em Abbey Road, com Paul assumindo a bateria para uma demo de No Reply, que sairia em Beatles For Sale. Outras canções que jamais viram a luz do sol (uma delas veio no Anthology), foram gravadas ali, You Know What To Do e It's For You, que ficaram na prateleira. Especula-se, que se Ringo estivesse OK, decerto uma das canções daquele dia completaria o novo álbum, que acabou ficando com 13, único dos 7 primeiros álbuns que não ficou com as 14 canções regulamentares. 

E veio Excursão Mundial (não sei por que, mas a excursão de 1966 a Japão e FIipinas não foi considerada uma excursão mundial), para Dinamarca, Holanda, logo ali, e para Hong Kong,  Austrália e Nova Zelândia, bem longe, sendo os cinco primeiro dias sem Ringo. Jimmy Nicol, apesar de deslumbrado pelo mundo Beatle, com milhares de fãs recepcionando cada parada, desfiles em carro aberto e até em barco aberto (Amsterdam), errou umas entradas, mas se recuperou e fez bem seu papel. Ele se entregava. Dois shows em Kopenhagen, mais dois em uma cidade da Holanda, com direito a uma cena inusitada, numa gravação de um programa de TV antes dos shows. Enquanto eles dublavam as canções, fãs começaram a subir no palco para dançar, tudo bem, mas depois mais fãs, até que ficou incontrolável, e eles tiveram que abandonar o recinto, mas não Jimmy Nicol, que estava possuído, nem percebeu, e seguiu tocando, ao som da canção gravada que continuava... hilário! A longa viagem à Ásia foi tranquila, na recepção havia bem menos gente do que os que os receberam na Europa. Apesar do longo jet lag, John ainda teve disposição para assistir ao concurso de Miss Hong Kong, salvando o dia. E ele levou sua Tia Mimi pra conhecer a colônia inglesa. Deram uma longa entrevista coletiva, e fizeram dois shows para uma audiência que não encheu o auditório, face aos elevados preços!  Interessante que essa viagem não se pagou, por incrível que pareça, pois foi um compromisso assumido antes da fama, portanto o cachê combinado foi incompatível com os novos custos dos maiores astros do planeta! 

A viagem para a Austrália foi sob intensa tempestade, que continuou na chegada a Sidney, o que absolutamente não afastou nenhum dos 10 mil fãs que os estavam esperando há 24 horas, mesmo assim foram em carro aberto, a baixíssima velocidade, o que possibilitou mais uma cena inusitada: numa bela hora, uma mãe se desgarrou da multidão com seu filho de seis anos, com deficiência mental, e o atirou para Paul, que felizmente o pegou no ar... os Beatles eram considerados santos encarnados... Bem, o hotel que os abrigou em Sidney, o Sheraton, era a segunda opção de Brian, escolhida após a recusa da primeira, por medo da agitação, Brian fez questão de escolher um hotel do outro lado da rua, de forma que o hotel original sofreu os mesmíssimos problemas com milhares de fãs atrapalhando suas operações, sem ter a honra de abrigar os maiores astros da Terra (acho que já falei isto aqui em cima). Mas Sidney ainda esperaria para assistir aos rapazes, eles voaram no dia seguinte para Adelaide, onde tiveram a maior recepção da história: estimativas variam, mas em média se fixam no quarto de milhão de pessoas que estavam dos dois lados da estrada (George disse que era a perder de vista) que os levou, cada um em um carro conversível, até a prefeitura onde foram recepcionados pelo prefeito da cidade. Sentiram-se como se fossem heróis de guerra. Retribuíram com acenos e sinais de positivo (thumbs up), até que descobriram que esse último tinha um péssimo significado lá, equivalente a mostrar o dedo do meio. Enquanto faziam os shows na cidade (quatro em dois dias), Ringo recebia alta do hospital e viajava para o próximo destino da banda, Melbourne, pela rota do Pacífico (Los Angeles - Honolulu), não sem mais uma vez ter problemas com seu passaporte, que viajou sozinho atrás dele. Uma pequena multidão o aguardava em Sidney, onde deu entrevista, e outra em Melbourne, onde chegou cinco horas antes dos demais. Jimmy Nicol voltou para Londres no dia seguinte, com um cheque de 500 Libras (equivalentes a R$ 60 Mil, hoje), conforme combinado, e um relógio de ouro, presente pessoal de Brian Epstein, que foi com ele ao aeroporto para agradecer aos ótimos serviços prestados. Ringo entrou no ritmo rapidinho com 3 dias de show ali em Melbourne, dois por dia, tocando sempre as mesmas 10 canções: I Saw Her Standing There, I Want To Hold Your Hand, You Cant Do That, All My Loving, She Loves You, Till There Was You, Roll Over Beethoven, Cant Buy Me Love, This Boy, fechando com Long Tall Sally de toda a excursão à Austrália. Na Nova Zelândia, foram mais 6 dias de shows em Auckland e outras 3 cidades, também com 2 shows por noite, variando o repertório com a inclusão de Boys e/ou Roll Over Beethoven. Finalmente, de volta à Austrália para mais dois shows, em Brisbane, que encerraram a excursão à Oceania!

Enquanto isso, na Inglaterra, George Martin e equipe finalizavam processos de mixagem, e lançaram no dia 19 de junho o primeiro EP com canções inéditas, que ficou no topo das paradas de EPs por 7 semanas, com as canções que analisaremos a seguir!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

OUÇA e LEIA Medley 0 1

 

Primeiro de 5 capítulos da Série "O Medley de Abbey Road"

Apresentada no Programa Submarino Angolano

da Rádio Luanda Antena Comercial.

Chama-se Medley 0 1 porque cobre a origem do Medley e sua Canção Nº 1

Aqui, o áudio, para que OUÇA, neste LINK

Abaixo, a transcrição, para que LEIA, na verdade, a origem do áudio!

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Olá, viajantes do Submarino Angolano, 

Aqui é Homero Ventura direto do Brasil!


As Canções do Medley de Abbey Road


O grande LP Abbey Road, último a ser gravado pelos Beatles pode ser dividido em duas grandes categorias: as 8 cancões normais, com começo e fim bem definidos, e com aquele espacinho entre elas, e as 9 canções do Medley, que são ligadas umas às outras. Vamos nos dedicar e estudar este medley, em 5 capítulos! Note um sutil detalhe: o termo é aplicável a uma mistura de canções ou partes de canções EXISTENTES, conhecidas, já previamente gravadas e lançadas. A novidade dos Beatles, é que as canções seriam gravadas e lançadas como parte de um medley. Apesar de não ser uma novidade! Afinal, Paul teve a ideia por causa de um certo Keith West fizera algo parecido, mas ninguém se lembra dele. A intenção original era lançar a novidade como um dos lados do disco que sairia do Projeto Get Back, do início de 1969. Com a desistência, engavetamento do Projeto, após o show do terraço, a peça foi junto para a prateleira. Porém, voltou com força em maio, quando se decidiu voltar aos estúdios da EMI para gravação de um novo LP. O medley voltou com força e com tanta força que ele estaria no Lado A do novo disco.

John abraçou o projeto, chegou a dar declarações sobre ele (depois, desanimou-se). Ele já tinha duas canções tentadas para o Álbum Branco no ano anterior, e criou mais uma para a montagem de canções, como ele chamou. Paul apresentou logo de cara um sub-medley de quatro canções para abrir a peça, e compôs outras cinco. Total de nove canções. Seis delas, ensaiadas ainda em janeiro, foram engavetadas com as demais do projeto e gravadas oficialmente a partir de primeiro de julho, em Abbey Road. 

Das 9 canções, seis foram gravadas em pares, 2 com 3, 4 com 5, 6 com 7, retratando AO VIVO o espírito do medley. As nove canções formam um conjunto uno, que espantou a críticos e ouvintes, ao perceberem que não havia espaço entre elas na bolacha. A coisa é tão bem conectada que é considerada como uma unidade. Por exemplo, a revista Rolling Stone, quando faz o ranking das Melhores Canções dos Beatles, coloca o medley em uma posição, e não cada uma de suas nove componentes. O conjunto é mais forte que cada uma das partes. Um verdadeiro caldeirão!

E agora, vamos a elas.


Canção 1: You Never Give Me Your Money (Paul McCartney)

Trecho inicial de YNGMYM

Além de iniciar o maior medley da história da música, a primeira de 9 canções, não é UMA canção, mas ela própria é um medley de QUATRO canções, cada uma com um assunto diferente, sem conexão temática entre elas. Paul gostou tanto da ideia que fez várias vezes em sua carreira solo. Logo no 2º álbum, RAM, temos Uncle Albert/Admiral Halsey, depois, a própria Band On The Run, que é um medley de 3 canções e finalmente o LP Red Rose Speedway termina com um medley de 4 canções.

Voltemos ao medley em questão, de fato um medley dentro do medley. No 1º trecho, Paul reclama: "Você nunca me dá seu dinheiro. Você só me dá um funny paper. E quando a gente negocia, você cai em prantos. Eu nunca lhe dei meu número, eu só lhe contei de minha situação". A menção a 'dinheiro' e a 'funny paper' que pode ser considerado como 'documento', refletia a época em que eles estavam, discutindo relações comerciais, sendo gerenciados por empresários que não lhes davam o dinheiro, então a "situation" se referia à situação financeira!! A reclamação seria direcionada a Allen Klein, que começava a administrar as finanças da banda.

A 2ª canção interna começa por "Out of college, money spent, see no future, pay no rent, all the money gone, nowhere to go"

Áudio deste trecho "Out of college..."

fala das dificuldades de um recém-formado, sem dinheiro e sem saber pra onde ir, uma observação social. No 3º trecho, que tem nada a ver com os outros dois ele diz: "One sweet dream, pick up the bags and get in the limousine, soon we'll be away from here, step on the gas and wipe that tear away",

Áudio deste trecho "One sweet dream..." 

vem a ser uma inspiração de sua esposa Linda, com quem havia acabado de se casar e que gostava quando mais jovem, de sair sem destino, e colocava o pé no acelerador ("step on the gas"), só que a "limousine" que rima com "dream" reflete melhor o estado de milionário do agora maridão. Numa 4ª seção tem a brincadeira infantil rimada "One two three four five six seven, All good children go to heaven",

Áudio deste trecho "One two three four five..."

orientando ritmadamente um pular de corda. Enfim, uma salada, como a que John fez em Happiness Is a Warm Gun, um ano antes. Então, sendo a canção uma montagem de sons, não faz sentido identificar sua estrutura, falar sobre versos, pontes e refrões. No início, até se identificariam dois versos, começando por "You never give me your money" e "I never give you my number", mas como se trata de uma letra que para por aí, nem isso dá pra fazer. Essa é a cara dessa montagem de sons. E, lá adiante no super medley, vem um terceiro verso na linha daqueles primeiros, inserido em Carry That Weight "I never give you my pillow..." numa épica recorrência!

Áudio deste trecho "I never give you my pillow..."

A gravação da primeira canção do grande medley foi fora da EMI, no dia 6 de maio, no Olympic Studios, já utilizado antes em outras canções, inclusive Hey Jude. Foram gravados 36 takes!!!… com Paul ao piano, John na guitarra distorcida, George numa guitarra usando mais os tons graves, quase um baixo, e harmonizando com o piano e Ringo na bateria. O piano do terceiro trecho “Oh, that magic feeling” foi amplificado pelo já famoso Leslie Speaker.

Áudio deste trecho “Oh, that magic feeling”

O Take 30 foi considerado bom o suficiente, mas o Take 36 é bem interessante e foi lançado posteriormente, com vocal apenas de Paul, ainda sem a seção infantil, e com uma finalização extensa que vai diminuindo, fading out. Dá pra se notar logo no início o que significa o efeito do Leslie Speaker no piano: após um papo nonsense delicioso, Paul começa a tocar, mas pede à sala de controle: "Leslie out, please!". Incrível!

Áudio deste trecho "Leslie out, please"

Depois de um break de mês e meio, de descanso e projetos pessoais, em que John fez aquele segundo Bed-in, em Montreal, e teve um acidente de carro na Escócia, a canção voltou a receber esforços em 1 de julho, com apenas Paul gravando seu vocal principal. Àquela altura, já se havia decidido que o medley entraria no último álbum da banda, então sem nome. No dia 11, apenas Paul novamente, acrescentando seu baixo estonteante sobre o Take 30, na seção “Out of college...”.

Áudio do baixo de Paul

Quatro dias depois, vocais dobrados de Paul a partir de "funny paper", e ele também acrescentou sinos tubulares reforçando (e até afogando, eu diria) a guitarra de John…

Áudio do trecho instrumental do LINK

You Never Give Me Your Money (Full Instrumental Performance with Guitar) - YouTube

de 1.34 até 1:52

e George dobrou sua incrível guitarra logo a seguir até o começo do 3º trecho, que começa com "One sweet dream".

Áudio da guitarra de Geaorge

A bateria de Ringo não precisou de consertos, estava perfeita!

Áudio da bateria de Ringo

No final de julho, já com várias canções do super medley quase prontas, começou uma série de sessões para conjuminá-las num conjunto espetacular. Então, eles ficavam indo do estúdio para a sala controle e desta de volta ao chão da fábrica para acrescentar sons. Que sessões devem ter sido aquelas! Como eu queria estar lá! Então, naquele dia 30, os três cantores harmonizaram backing vocals para o 1º trecho e para a seção infantil, e Ringo tocou um pandeiro no final das frases. Àquela altura, o take de trabalho já era o 40, após algumas reduções. O trabalho final daquele dia foi discutir e acertar qual seria a transição da canção para Sun King, mas dia seguinte, ainda continuou o trabalho. Paul reforçou sua linha de baixo e foram gravados backing vocals "aaaaahhh aaaaahh" na seção “Out of college...”, e lá mesmo desistiu do efeito Leslie, e tocou ali um piano sensacional,

Áudio do trecho instrumental

ponto alto instrumental da canção, algo que soaria como aquele honky tonk piano, de Rocky Raccoon com os mesmos truques (velocidade reduzida, uma oitava abaixo, e tal). Tão especial, piano, baixo, vocal, sino, letra, que merece um destaque…

Áudio deste trecho completo

Paul ainda não estava satisfeito com a transição para Sun King e acrescentou, no dia 13 de agosto, efeitos sonoros (bolhas, grilos, pássaros, sinos, vozes, grunhidos)

Sons de ligaçãocom Sun King

e uns tape loops que ele trouxe de casa, e, como sabemos, tudo caiu como uma luva. E depois, entre operações de fita, Paul acrescentou aquele vocal "ah, ah, ah, ah, ah" antes da seção infantil.

Áudio deste vocal

Enfim, alguns meses dedicados a uma verdadeira epopeia sonora…. Ouça o resultado!

No próximo capítulo, a criação e gravação de Sun King e Mean Mr, Mustard

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Todos os Capitulos da série O Medley de Abbey Road.

 1º  Capítulo está neste LINK.

 2º  Capítulo está neste LINK. 

 3º  Capítulo está neste LINK. 

 4º  Capítulo está neste LINK. 

 5º  Capítulo está neste LINK. 

OUÇA e LEIA - A Descoberta de This Boy

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