Lançaram no mercado uma super biografia beatle em 2008, de Bob Spitz. Com meu conhecimento pretérito sobre o assunto, talvez não a comprasse, eu achava que já sabia tudo. Felizmente, deram-me de presente de aniversário de 50 anos (aliás, foram duas!). Que bom que se lembraram de mim!
Pensei que, para lê-la, iria demorar bastante, face ao caráter bíblico do enorme volume, de 1.000 páginas: talvez eu fosse ler um capítulo, ou um ano da vida beatle, depois passar a ler um outro livro, enfim, calmamente eu daria conta do recado.
Quanto ao nível de conhecimento, eu pretensamente estimava que já saberia 60% do que estava lá, mas que seria bom ler de forma diferente para ter outras interpretações sobre o mesmo tema. E ainda mais, em português.
Qual nada! A avaliação inicial de conhecimento foi dramaticamente reduzida para 20%, após a leitura de suas primeiras páginas!
No prólogo, que corre no final de 1960, ele conta como foi o primeiro show do grupo depois de voltar da primeira viagem a Hamburgo, escorraçados pelas autoridades alemãs, alguns momentos de ansiedade por terem ficado parados uns tempos, a luta por uma participação num show, em conjunto com outras 3 bandas, em que receberiam um cachê de 6£ (isso mesmo!), e o magistral desempenho que logo os colocou como a melhor banda de Liverpool, semente para que se tornassem depois a melhor da Inglaterra, depois a melhor do mundo, depois a melhor de todos os tempos, passado e futuro!
E eu não sabia quase nada daquilo!
E a perspectiva de lê-lo em doses homeopáticas também foi imediatamente trocada por uma febre de leitura, poucas vezes experimentada.
O livro passa 349 páginas descrevendo o período antes de entrarem em estúdio para gravar seu primeiro disco.
E é isto que me apaixonou no livro. O autor foi fundo em pesquisas, levou 7 anos buscando fontes confiáveis, em mais de 500 publicações, com o intuito de separar o mito da realidade. E nem sempre conseguiu, mas quando isso acontece, ele fala, e deixa que o leitor decida qual versão melhor lhe apetece. São 12 páginas de bibliografia, 5 de agradecimentos e 130 de notas, dando nome a quem falou o que e quando e onde. Ele foi atrás de amigos da época (e inimigos também) em busca de depoimentos, cruzou informações, referências, enfim fez o dever de casa direitinho, e agora descreve o que coletou, na dose certa.
As últimas 500 páginas, que cobriram a carreira oficial dos Beatles, a partir de meados de 1962, quando lançaram o primeiro compacto, foram como uma viagem a um lugar já muito conhecido, de diversas outras oportunidades, só que desta vez guiado por um especialista, para levar aos meandros de cada lugar, contando os diálogos que rolavam, os pensamentos dos moradores, e chegando inclusive aos detalhes sórdidos.
Além de tudo, foi uma ótima aula de classes gramaticais!
John se declara: 'Eu quero você tanto que estou ficando louco'
A garota em questão nem era 'garota' mais, era mulher feita, casada e tinha uma filha! Era Yoko Ono, que virou a cabeça de nosso amado John. Era a mulher que ele procurava. Cynthia era a namorada de adolescência que ficou grávida (de Julian) e ele se casou com ela, mas ela não o completava, em muitos sentidos. Ele encontrou Yoko em 1966 (9 de novembro, mais um Number Nine na vida dele) numa exposição de arte, e foi fisgado por sua obra e sua personalidade e mais tarde por seu corpo (dispenso comentários!), e também por sua figura maternal. Eu poderia ter classificado a canção, dentro do Assunto Garotas, na Classe Amor, porque ele realmente estava apaixonado, ou na Classe Sexo, por causa da conotação do verbo To Want, mas deixei na Classe Paquera, porque a expressão "Quero você" pode também ser falada por quem ainda não está com a pessoa, mas quer, e até porque quando ele fez a canção ainda não era casado com ela, enfim, eu defini assim...
John deu intensas demonstrações de amor e carinho por ela, a ponto de dormir no chão do hospital ao lado dela quando ela abortou pela primeira vez em 1968 (ver aqui neste LINK), ou ainda quando trouxe uma cama de hospital para o estúdio em 1969 (ver aqui neste LINK) para que ela ficasse sempre com ele enquanto convalescia de um acidente, já grávida novamente, de um filho que também perderia mais adiante. Yoko já tinha 36 anos e suas gravidezes eram de risco. Ela teria ainda um terceiro aborto antes de dar mais um filho a John, já com 42 anos, quando moravam em New York
Bem, eu estou me estendendo um pouco em aspectos pouco técnicos porque tem um capítulo sobre o qual não se tem muito a falar: a letra! São apenas 15 palavras:
Na verdade, seriam 16, a contar o "is" que está escondido em "it's" e "she's". Está bem, posso falar da única rima, "bad-mad", e eu até a classificaria de rica, em português, porque o aparente adjetivo "bad", na verdade está em sua função 'advérbio', portanto, rima rica com o adjetivo "mad". Em tempo, entenda-se "bad" não como "mau" mas como "muito", "intensamente", "loucamente" e outros advérbios expressando quantidade de sentimentos, porque é isso que ele sentia por Yoko. E, é preciso esclarecer, o "heavy" nada tem a ver com o significado explícito do adjetivo, "pesada", mesmo porque sabe-se que ela era (e é) magérrima. Entenda-se em seu sentido figurado, como "intensa", "profunda", "incisiva", "definitiva", "significativa". Considerando-se que a canção tem quase 8 minutos, a taxa de aparição de palavras novas é de menos de duas por minuto, também a menor da carreira, sem contar, claro, a única canção instrumental (Flying). Puxa, até que falei muito pra uma letra de 15 palavras ... aliás, não confundir com palavra de 15 letras, como 'cinematográfico", por exemplo.
Gravação no Trident Studio, 22-02-69
Bom, chega de papo, e vamos ao que interessa: a parte musical!! A música é espetacular!! E tem desempenhos notáveis de todos os Beatles, inclusive o agregado, Bily Preston, e seu insano órgão. Explica-se: a canção foi ensaiada um punhado de vezes nos três dias finais do Projeto Get Back, em janeiro de 1969, já na fase em que estavam no porão da Apple Studios e, em todas elas Billy esteve presente, seja no piano, no órgão ou até num backing vocal. As primeiras sessões de gravação da canção ocorreram de 22 a 24 de fereveriro, no Trident Studios, sem a presença de Billy, mas com a presença de Yoko, claro, veja na foto, a inspiradora da canção estava sempre presente! Usaram o gravador de 8 canais em sua totalidade, com o luxo de deixar DOIS deles para a bateria de Ringo, o que era inédito. Na ocasião, três de 32 takes (o 9, o 20 e o 32) foram mixados em partes selecionadas (início, meio e fim) para formar uma base, sobre a qual houve overdubs que, entretanto, não sobreviveram. Havia inclusive um prato 'reverso', ou seja, gravado com a fita andando pra trás, pena...
Apenas em 19 de abril, já na EMI, John e George gravaram guitarras na parte final da canção, bem pesada! Dia seguinte, veio Ringo no bongô, e finalmente Billy Preston naquele órgão insano que eu mencionei, parecia que estava possuído, especialmente na longa seção final. Pena que não se ouve tamanha insanidade na versão oficial. Tudo isso até agora foi antes de se decidir que haveria um último álbum, o que aconteceu no comecinho de julho e, em agosto, John quis voltar à gravaçao. No dia 8, John pediu a George para colocar seu sintetizador Moog, lá no alto e encher de sons aquele refrão final, num modo conhecido como White Noise, e pediu a Ringo que ficasse doido nos pratos de sua bateria, ajudando a gente a entrar no transe. Outro overdub irado feito nesse dia foia harmonização de John, Paul e George em "She's so heavy", tão espetacular e arrebatadora que John decidiu mudar o nome da canção: sim, ela era apenas I Want You, e passou a ser o que conhecemos, com a inclusão de (She's So Heavy).
Houve ainda mais uma sessão, porém sem gravações, apenas de edição e mixagem, pois os últimos sensacionais overdubs haviam sido feitos em uma versão de fevereiro, enquanto havia um outro de abril. John ainda estava em dúvidas e acabou naquele dia 20 de agosto optando por juntar os dois, pegando a parte inicial do take de abril, até o último “She’s so...” e, a partir daí, valeu o take de fevereiro. E, com isso, perdeu-se aquele órgão insano de Billy Preston no refrão final estendido, que ele tocou em abril. Uma pena, só não irreparável porque, felizmente, tivemos acesso a ele, por conta do lançamento da versão comemorativa dos 50 anos. Está lá registrado! Bem, ainda houve um overdub adicional, após a mixagem: John disse a Ringo para pegar a máquina de vento e introduzir o som junto do White Noise do sintetizador na última parte da canção, e ir crescendo de intensidade. Nesse ponto, registra-se que Paul está ali na sala de controle, cabisbaixo, olhando pro chão, não concordando com aquilo tudo, mas sem forças para contestar o companheiro. Eu nada tenho a reclamar do resultado. Ficou incrível, assim como incrível foi a decisão de cortar abruptamente a fita, sem permitir o usual fade-out, sempre usado em conlusões longas como aquela. Mais uma bola dentro, perfeita para fechar um lado do disco!
Mesmo tendo apenas 15 palavras, a canção não deixa de ter estrutura, e é importante detalhá-la, para poder acompanhar o relato do que se ouve. Deixo, antes, o LINK, para ouvir junto da descrição! Nesta canção de poucas palavras, os versos "I want you ... so bad... driving me mad" e os refrões são o "She´s so heavy", mas antes do Verso 1, tem uma introdução de cinco compassos na melodia do refrão, no tempo 6/8, uma verdadeira valsa, como todas as ocorrências do refrão, mesmo no final, estendido por minutos. A introdução tem a guitarra de John na gangorra base e a guitarra solo de George, chorosa, dobrada, com leve harmonização pouco antes do break, quando entra o Verso 1, apenas a voz de John acompanhada igualzinho por sua guitarra, nota a nota, magnífico, e três batidas em staccato dos companheiros, mais uma linha de John, voz e guitarra, e mais 4 batidas e então entra a banda toda. Note que o tempo mudou para 4/4. Destaque para a entrada do órgão de Billy Preston, primeiro em 4 acordes depois 3 depois 7, conversando com o baixo de Paul in between. Depois, mais John repetindo voz e guitarra em um tom acima e mais dobradinha Billy-Paul-Billy-Pau-Billy. Fantástico! O segundo verso é tocado por toda a banda sem aqueles staccatos iniciais. E aí vem o primeiro refrão, claro, em 6/8, e impressione-se, entre o "She´s so" e o "heavyyy", com o show do órgão de Billy Preston. É aquilo, elevado ao cubo, que se ouviria no refrão final, mas que foi deixado para trás. Ah, sim, vem a primeira ocorrência da impressionante harmonização John-George-Paul entrando nessa ordem no "heavyyy". O Verso 3 é instrumental e em ritmo de jazz ou blues, como queira. O refrão seguinte não é igual ao primeiro porque os vocalistas entram com o "heavyyy" um compasso antes, e cantam juntos "She´s soheavyyy". O Verso 4 é igual ao 2, porque John canta, mas é igual ao 3, porque é em ritmo de jazz, e não é igual a nenhum outro porque a dobradinha Billy-Paul é acompanhada por um "YEAAAAAHHHH" primal de John, que mandaram os ponteiros dos equipamentos ao vermelho. Finalmente, vem o refrão final, estendido por três minutos, deixando-nos em transe absoluto, com tudo o que tem direito, o tempo de valsa e todos aqueles sons e vocais descritos nos parágrafos anteriores! Eu, por mim, deixava mais 3 minutos, com o vento crescendo, até virar um furação, e suplantar o som da banda. Não pensaram nisso! Felizmente, em Love, de 2006, do Cirque du Soleil, fizeram exatamente o que eu pedi...
Uma nota final: o dia daqueles overdubs esplêndidos, o 20 de agosto de 1969, acabou sendo o último dia em que os 4 Beatles se reuniram em Abbey Road. John Lennon abandonaria o grupo dias depois... Os outros 3 ainda se reuniriam nos primeiros dias de 1970, para finalizar uma canção de George.
Tenho recebido no Facebook e no Whatsapp, um vídeo sensacional,
mas, já antigo, de 2018 associou a versão de In My Life
abaixo descrita com ótimas fotos dos Beatles.
Hora de recomendar mais uma vez esta linda obra!!
O artigo original é de 2000!
Viva George Martin, o 5º Beatle!!!
Ainda embalado, emocionado e com os olhos marejados pelo violino de Vanessa Mae, decidi começar estas linhas para reativar minha sub-carreira de comentarista musical. Desta vez, para recomendar uma coletânea de homenagem. Sim, uma coletânea de homenagem! Nós, os puristas admiradores da boa música, temos uma certa aversão a coletâneas de artistas que admiramos, pois elas só listam o que os organizadores pensam ser o melhor de vários discos, com aquele enfoque oportunista de ganhar uns trocados a mais em cima de sucessos que já deram o que tinha que dar. Menos mal quando são produzidas pelo próprio artista, porém, coletâneas deixam de captar nuances escondidas em músicas do Lado B (lembrem-se dos velhos LPs!), por vezes pouco conhecidas, que não chegaram às BillBoards da vida, mas que têm doses generosas de prazer musical. Agora, a aversão a coletâneas se transforma em algo próximo ao ódio, quando ela é “de homenagem”, aquelas iniciativas oportunistas ‘ao quadrado’, em que um certo cantor(a) ou banda, sozinho(a) ou acompanhado(a) de outros cantores e bandas, de vários estilos, para gravar canções famosas de cantores ou bandas antológicos, geralmente extintos ou mortos. Um horror! Pior que as coletâneas simples, pois estas se prestam a esse papel para ganhar dinheiro em cima do sucesso de outrem.
Bem, todo o asco explícito acima se esvai no caso de In My Life, ‘coletânea de homenagem’ aos The Beatles, lançada em 1998. “Ih, lá vem ele de novo, o chato beatlemaníaco!”, vocês diriam! “Só porque é Beatles!”, vocês bocejariam! Bem, pode até ser um pouco disso, mas posso garantir: desta vez, há mérito. E o motivo começa pelo produtor, patrocinador, idealizador, maestro do projeto: ninguém menos que George Martin. O maestro por trás (no bom sentido!) da carreira dos 4 rapazes de Liverpool, considerado como o 5o Beatle, responsável por muitos dos magníficos arranjos das canções, produtor de n-1 discos da dourada era. Quando anunciou-se sua intenção de realizar o projeto, já se sabia que vinha coisa boa. Ele não é de arriscar seu nome colocando no mercado um produto menos que ótimo.
E o motivo principal não é o repertório: quaisquer grupos de 10 ou 12 canções beatle fariam um bom serviço. Na verdade, o que toca é a escolha dos intérpretes, instrumentistas perfeitos e arranjos com a marca Martin. Profissionais do canto mesmo, em somente 2 canções. Os demais, inesperados intérpretes inesperadamente bons, instrumentais tocantes, e ainda, ..... declamadores.
Abre o disco uma dupla inusitada: Robin Williams e Bobby McFerrin cantando “Come Together” com exatamente o mesmo arranjo do Abbey Road. Robin leva com afinação e emoção o vocal que era de John. McFerrin, com sua destreza vocal, tirando sons não se sabe de onde, como sempre, faz a abertura e lidera uma das estrofes. Depois, “A Hard day’s Night” por Goldie Hawn em arranjo tipo Big Band, com um vocal leve e afinado que parece ter saído sem esforço. Vai longe, a garota (!!). A terceira é “A Day in The Life” com exatamente o arranjo original, porém com os vocais de John e Paul substituídos pela guitarra chorosa de Jeff Back, pertencente ao seleto grupo de quitarristas que cantam com o instrumento. O ritmo vai bem, as novidades se sucedem, aí chega a mesmice de Celyne Dion, primeira concessão de George aos intérpretes tradicionais: a interpretação de “Here, There and Everywhere” é perfeita, limpa e .... chata! Além disso, por ser mulher, troca todos os ‘her’ por ‘his’, quebrando a magia da linda letra de Paul.
Agora, vêm dois momentos mágicos. O primeiro, o momento que originou este texto: “Because”, a linda canção de John em Abbey Road, que ele dizia ser a Sonata ao Luar de Beethoven tocada ao contrário, aqui solada pela violinista chinesa Vanessa Mae. Na introdução, arrepiante, usando todos os recursos de um virtuose, esbanjando ‘double stops’; na primeira estrofe, solando com vibratos pungentes; na segunda, acompanhando em segunda voz um coral, atingindo notas incrivelmente agudas. Simplesmente, de parar o carro, se arrepiar todo e chorar! O segundo, uma surpresa: Jim Carey interpretando “I Am The Walrus” (curiosamente, The Walrus was Paul!), nada menos que uma de minhas Top Five Beatle Songs, virtual viagem alucinógena de John. Interpretação vigorosa, afinada, divertida, magnífica, cheia de graves, agudos, e falsetos, em arranjo idêntico ao original, com todos os Hoo Hoo Hoos e Haa Haa Haas, ponto fundamental da música. Tenho certeza que John não revirou no túmulo ao ouvir a nova versão. Teria aprovado, com louvor!
Delicie-se!
O próximo intérprete, ‘The Choir of the The Singing Girls of Peter City’, ou, em bom português, ‘O Coral Das Meninas Cantoras de Petrópolis’, canta “Ticket To Ride”, interpretação corretíssima, boa de se ouvir. Penso tratar-se de retribuição de George às meninas, que não se furtaram a cantar debaixo do dilúvio que se abateu sobre a Quinta da Boa Vista, quando ele esteve no Rio, dois ou três anos antes, para tocar seu concerto beatle, coisa que a orquestra que veio de Londres não pôde fazer, sob pena de estragar os instrumentos. Depois, a bola baixa um pouco: primeiro, a única concessão de George ao outro George, o Harrison, com a performance, em orquestra, de “Here Comes The Sun”, nada demais; depois, um desconhecido (para mim) comediante inglês Billy Connoly anuncia, como se fosse o mestre de cerimônias de um circo, a letra de “Being For The Benefit Of Mr. Kite”. Interessante, mas ‘boring’.
Dentre as quatro últimas faixas, duas performances de George Martin e orquestra: numa, fazendo um medley com as quatro bonitas músicas orquestradas do filme “Yellow Submarine” compostas por ele; noutra, uma composição inédita dele, chamada “Friends and Lovers”, muito bonita.
A segunda concessão a intérpretes tradicionais é feita para Phil Collins, cantando e tocando bateria no fantástico medley de Abbey Road “Golden Slumbers / Carry That Weight / The End”. Muito bem escolhido o intérprete, pois Collins, originalmente o baterista do Genesis, teve a oportunidade de repetir o único solo de bateria de Ringo Starr e, ainda por luxo, encompridá-lo um pouco mais, com categoria. Nós, beatlemaníacos, o perdoamos!
Finalmente, para fechar o barraco, a canção título da coletânea, não cantada mas declamada. Sean Connery, com aquela voz de Sean Connery que só ele tem, declamando a linda letra de John. Tenho certeza que John, não apenas ficou quietinho, ouvindo, mas deve até mesmo ter esboçado um sorriso. Nada como uma conexão Beatle/Bond para fechar, com chave de ouro, esta última obra do grande George Martin.
Ringo sonha com um lugar: 'Eu gostaria de estar sob o mar, no jardim do polvo, na sombra. Ele nos deixaria entrar, sabendo de onde éramos, em seu jardim, na sombra'
Olha o Ringão aí, geeente! Depois de um longo período em que via seus amigos produzindo canções e mais canções, Ringo desabrochara no ano anterior, com Don't Pass Me By, sua primeira autoral na época dos Beatles, e um ano depois, gravou sua segunda, uma composição leve, onde sonha em morar num local idílico, sem preocupações, mais especificamente sem as tensões que sentia naquela fase meio turbulenta de sua banda. Ele teve a inspiração na Sardenha usando o iate de Peter Sellers, óia que chique, justamente fugindo das tensões que culminaram com sua saída da banda, em 1968. Contei sobre o episódio aqui Back In The USSR. Ele comeu polvo pela primeira vez na vida, e o capitão contou que os polvos iam coletando materiais sólidos no fundo do mar e faziam seu refúgio, um
octopus's garden, e então Ringo sonhou "I'd like to be under the sea!". Ringo teve a ajuda não creditada de George nos acordes, além claro do riff de abertura inspirador e característico de uma children's song, aliás, como ela foi considerada, sendo utilizada no programa Muppets (LINK) várias vezes, e em outras instâncias do gênero.
Ringo nos presenteia com uma canção só com três versos, mas com versos longos, de 8 linhas, portanto com oportunidade para 4 rimas cada um, e com letras diferentes, obecendo ao The Beatles Way of Composing, um manual que não existe, mas parece estar instalado em suas mentes, com o mandamento "Não repetirás versos!". As vezes em que The Beatles desobedeceram ao mandamento não preenchem uma mão, entre 185 canções que criaram, incrível isso. A única repetição em Octopus´s Garden, é da dupla com o título "I'd like to be under the sea / In an octopus' garden in the shade" que abre a canção, e também fecha também os três versos, consistindo num 'quase' refrão, muito interessante, sendo que no terceiro, o "in the shade" é trocado por "with you", aliás, rimando com "knowing what to do", boa rima, que em portugués seria considerada rica, assim como a maioria delas. Por exemplo, veja que as frases 1 e 3 cada verso apresentam rimas internas (Paul deve ter ficado orgulhoso), Ringo foi uniforme na estrutura e caprichou:
I'd like to be under the sea
verbo-substantivo
He'd let us in, knows where we've been
preposição-verbo
We would be warm below the storm
adjetivo-substantivo
Resting our head on the sea bed
substantivo-substantivo
We would shout and swim about
verbo-preposição
Oh what joy for every girl and boy
substantivo-substantivo
Segundo George, seu companheiro Ringo fez, sem querer, uma canção cósmica, de busca de si mesmo, especialmente com a imagem do Verso 2, sonhando com um lugar tranquilo (warm), protegido das tempestades (storm) acima do nível do mar.
Com o começo desta canção em mãos, Ringo chegou animado para o segundo dia de ensaios no começo de 1969, e apresentou-a aos demais, juntamente com outras duas de sua lavra, mas apenas a primeira seguiu adiante. Num glorioso 26 de janeiro, já com George de volta, de seu 'recesso' de Beatles, as câmeras capturaram para a eternidade uma sequência charmosa de cenas retratando uma pequena mostra da gestação da canção. Ringo estava ao piano, com toda a habilidade dos 3 acordes que ele conhecia, e George chega a seu lado, e se admira que ele aprendeu um La Menor, e ensina outros acordes tocando junto sua guitarra, e chega John (com Yoko) e vai para a bateria, e chega Paul, e o diretor do filme, mal-intencionado, corta a cena, como se o chefe tivesse chegado pra atrapalhar a brincadeira. Intriga! Na verdade, Paul pegou seu baixo e acompanhou a canção nascedoura em 8takes! Todos gostaram da canção de Ringo, inclusive, George Martin que estava lá naquele dia! Exatos dois meses depois, ela começou a ser gravada em Abbey Road. Foram 32 takes tendo Ringo na bateria, Paul no baixo, George na guitarra solo e John na guitarra base. Ringo cantou um guia vocal, que foi perdido embaixo do vocal definitivo, três dias depois, com todos elogiando a firmeza com que cantou sua canção. No mesmo dia, acrescentou-se os backing vocals de Paul e George, e os efeitos sonoros de fundo do mar. Ringo já estava orgulhoso de sua primeira canção, no Álbum Branco noano anterior, e agora, estava próximo ao céu, de tanta felicidade!
Acompanhe este LINK com a descrição de fatos sonoros a seguir, claro imaginando cada Beatle no lugar dos membros da All Star Band de Ringo. Note a colaboraçao de todos, aprecie a introdução de George, e entra Ringo cantando solo as linhas 1 a 4 do Verso 1, dobrando o vocal nas linhas 5 e 6, onde aparece o ótimo piano de Paul, e recebendo a visita de George e de Paul harmonizando os vocais nas duas linhas finais 7 e 8. Já deve ter notado a guitarra de John firme no dedilhado dos acordes, sua especialidade desde Julia e Dear Prudence, que permanece firme ao longo de toda a canção, e também notou Paul firme no baixo, sem muitas firulas. No Verso 2, Ringo tem logo a companhia de Paul e George nos backing vocals em "ooooh"s no começo e passando a "aaaah"s em seguida, descansando na dobrada de Ringo e repetindo a harmonização final. Na sessão instrumental, George dá show no solo de guitarra, Ringo está firme no tambor da bateria, e George e Paul num "Aaaah" perfeito. O Verso 3 vem do mesmo jeito que o Verso 2, PORÉM, com o charmoso acréscimo de vocais resposta de George e Paul após as linhas 2 e 4, o primeiro com "Lies beneath the ocean waves", o último com "Happy and they're safe", e Ringo termina repetindo duas vezes a linha final "In an octopus's garden with you", após o que vem a conclusão brilhante de George na guitarra. Aliás, tudo brilhante... como os objetos que os polvos procuram para fazer seu jardim.
Foi a última vez que se ouviu a voz de Ringo num disco Beatle. Os demais Beatles contribuíram nos instrumentos tradicionais e, veja bem, Ringo Starr é o ÚNICO ser humano a poder contar aos quatro ventos que teve Paul McCartney e George Harrison como vocais de apoio numa canção que ele fez!! Não é pouco!!!