Em 1º de Maio de 2016,
o Bolero de Ravel entrou em domínio público.
Bom motivo para lembrarmos de minha ode a ele!!!
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Caso prefiram o Audio Blog, cliquem abaixo...
O texto está logo depois!!
Uma terceira seria Bolero, de Ravel, mas vou poupá-los dessa técnica ainda pouco admirada. Porém, não poderia deixar de tecer loas à música que sempre ouvi, desde criança, com uma idéia que me veio recentemente, e que foi felizmente abençoada pelo músico aqui de casa.
Bolero, do compositor francês Maurice Ravel, conhecido como Bolero de Ravel, é a maior homenagem à orquestra sinfônica de que se tem notícia no mundo da música clássica.
Já perceberam? Senão, vejamos!!
Os puristas meio que torcem um pouco o nariz para a composição, por se tratar de repetições de dois temas melódicos, à exaustão, sem muita riqueza na variação de melodias. Eles preferem outros mais renomados compositores alemães (Bach, Beethoven), austríacos (Mozart, Strauss) e russos (Tchaikovsky, Prokofiev), ou mesmo compatriotas de Ravel (vide Chopin, que na verdade nasceu na Polônia, mas radicou-se na França, e com esse nome, em que ‘pin’ vira ‘pân’, é francês e pronto).
Sim, ok, mas a riqueza do arranjo, a variedade de instrumentos em destaque, e o ritmo constante, tonitruante, vigoroso, conquistam a grande maioria, principalmente nós, leigos!
E por que eu chamo de homenagem à orquestra?
Peguem qualquer vídeo de uma performance de orquestra de Bolero no YouTube, mas recomendo a última que eu peguei, regida por Gustavo Dudamel em 2010, que é a primeira que aparece quando se googleia a canção, na qual me baseei para esta presente ode. É a aclamada Filarmônica de Viena, em uma performance que se tornou lendária pela energia, controle de crescendo e virtuosismo. Hoje, esse venezuelano de 45 anos é o maestro principal da Orquestra Sinfônica de Gotemburgo, Suécia, e diretor musical da Orquestra Filarmônica de Los Angeles, Estados Unidos. Aqui o link, se quiseram acompanhar sem este narrador de emoções a atrapalhar!
Percebam o destaque que é dado a cada instrumento, a oportunidade de solar, de ser o astro do momento, mais que todos os outros, aquele momento só dele, um papel acima do que normalmente têm, o de coadjuvante para os mais nobres. Muitos compositores famosos compuseram concertos para piano e orquestra, para violino e orquestra, dando oportunidade aos virtuosos de mostrarem seu valor no instrumento ao solarem, mas muito pouco se vê, pouquíssimos compositores, apenas Vivaldi e Mozart, que eu saiba, fizeram um concerto para fagote e orquestra, ou para oboé e orquestra, por exemplo. Então, parece que Ravel resolveu se lembrar desses instrumentos menos favorecidos, dando-lhes um momento de glória. Ah, aqui, o link para essa impressionante execução do Bolero sugerida aqui, e de onde tirei as ilustrações
Notem o início apenas na caixa, com as baquetas levemente trotando na borda do instrumento, e comecem a imaginar uma tropa lá longe, marchando, tururuti tururuti tu tu, tururuti tururutiririririri tu. Coloquem-se olhando para o horizonte, ainda não vendo nada, mas ouvindo o marchar de tropas se aproximando. Imaginem assim que é Moisés chegando ao Egito para entregar a Etiópia ao Faraó Ramsés I.
Aí voltem para a orquestra e deleitem-se com uma flauta transversal e solitária entoando o primeiro tema (A), e depois um clarinete solo repetindo o mesmo tema, e siga notando, além da caixa sempre presente e constante, a marcação -tchan tchan- com violas e violoncelos em pizzicato, que é aquele movimento em que os dedos pinçam as cordas, deixando os arcos em espera para os estrondosos movimentos finais. Então, surge o segundo tema (B), agora com um fagote, um estranhíssimo instrumento de sopro, da linha das madeiras, e logo após repete-se o mesmo tema, agora com um clarinete em tom mais agudo, o clarinete sopranino.
Em termos de arco melódico, acabou! Novidades, só no Grand Finale!
Agora, em seqüência, repetem-se até o fim os dois temas, cada um duas vezes seguidinhas, sempre Tema A - Tema A - Tema B - Tema B. Monótono? Nem um pouco, pelo contrário! Em termos de emoção, de ritmo, de volume, nada se repete, a coisa só aumenta, o coração parece que vai junto, num crescendo incontrolável. Segue a caixa em seu tururuti tururuti tu tu, tururuti tururutiririririri tu, mas cada vez mais intenso, note-se que as baquetas vão se afastando da borda e se aproximando do centro da caixa, pois quanto mais ao centro, mais vibra a pele da caixa, maior é o volume que emana. Notem também a solitária harpa (aliás, já desde a primeira seqüência), aquele instrumento cheio de cordas em que se passa 90% do tempo afinando-as e 10% do tempo tocando-as desafinado, que se junta aos violinos, violas e violoncelos em pizzicato, -tchan tchan-, deixando mais firme e notável a marcação.
O oboé, um clarinete metido a besta, com um bico de pato e som similar ao fagote, começa solando o Tema A da segunda seqüência, e depois entra um metal, o trompete, auxiliado pela flauta, depois o Tema B é solado por um sax tenor, e depois, um sax soprano, que nem parece um sax, pois não tem aquelas curvas todas, terminando a segunda seqüência de temas.
A câmera começa então a dar atenção aos tímpanos, aqueles tambores lá no fundo e no alto da orquestra, que começam a mostrar seu valor, Tum-Tum, aquele solitário instrumentista que passa a vida esperando a hora de tocar o seu Tum Tum, prestando uma atenção danada à pauta, para não errar e receber a bronca do Maestro. Aqui, até que eles são bem usados, afinal a partir da terceira seqûencia já se nota o Tum-Tum, até o final. Continue notando que as baquetas seguem seu ritmo, tururuti tururuti tu tu, tururuti tururutiririririri tu, cada vez mais forte e rumo ao centro da caixa. E notem que a marcação -tchan tchan- já tem agora o reforço dos contrabaixos, aquele enorme instrumento de corda, o elefante das orquestras, com seu metro e oitenta de altura, cujo maior desafio é carregá-lo pelos metrôs e outros rumos da vida do resignado baixista.
Agora, desvencilhem-se da orquestra um segundo, fechem os olhos e imaginem que já se enxerga no horizonte o pó levantado pelas tropas em marcha, cada vez mais perto, como, por exemplo, Otaviano chegando a Roma após conquistar o Egito de Cleópatra, rainha insinuante que encantara o romano Marco Antônio.
A terceira seqüência começa já juntando mais instrumentos, primeiro com uma trompa no tom principal, mas com dois flautins tocando em tons diferentes, fazendo uma combinação estranha e harmonicamente sonora, depois vêm vários sopros de madeira, clarinetes e oboés em profusão, com fagote e outros fazendo marcação, ih, rimou. Alguns metais também auxiliam na marcação, mas somente se os ouve, não aparecem na filmagem.
O segundo tema vem então com um magnífico e sensível solo de trombone de vara, (como é que o cara sabe qual nota que vai sair daquilo só mexendo aquela vara??!!), com direito a espetacular glissando, até recebido com um sorriso pelo Maestro, e então a segunda seqüência fecha com um monte de flautas, sopros de madeira e metais (trombones, trompetes, saxofones, whatever). Notem que alguns violinos já deixam o pizzicato e passam a replicar a caixa, com os arcos serroteando sobre as cordas. Notem também que o piano também contribui, porém quase não se o define ao ouvido, tamanha a força dos demais.
Viajem mais um pouco e notem as tropas já visíveis a olho nu!!! Seria Alexandre da Macedônia após a conquista do Egito?
Aí, então, pára tudo que vêm agora os reis da orquestra! Ironia do destino (ou do compositor), os reis não solam! Chegaram os violinos à melodia! E por que eu os chamo de reis? Note que o Spalla (ou Concert Master, em inglês), aquele representante da orquestra perante o seu Maestro, aquele que é o primeiro instrumentista a ser cumprimentado pelo Maestro ao final do concerto, é um violinista! Bem, vamos lá! A quarta seqüência começa com um monte de violinos, e aí eu choro, com aquela dança hipnotizante dos aros pra cima e pra baixo, as cordas são os instrumentos com mais coreografia, com movimento, note que os demais, afora o trombone de vara, claro, são acionados com leves movimentos nos dedos. Na repetição do tema, entram os sopros de madeira e as flautas mas, quando muda para o Tema B, vêm simplesmente todos os instrumentos juntos, numa verdadeira apoteose, que se repete ao terminar a seqüência, com ainda mais intensidade.
As tropas? Quase chegando!!!! Talvez Aladdim, na pele do Príncipe Ali Ababwa à frente do séquito fantástico criado pelo gênio da lâmpada para impressionar a Princesa Yasmin.
Lembrem-se de notar que o baterista já está quase no centro da caixa, seus braços já sobem para dar mais potência à batida, e já recebe ajuda externa, com uma segunda caixa já sonando vigorosa. Aqui, um aparte se faz necessário: que controle mental tem esse baterista, para manter aquele ritmo constante ao longo de toda a viagem, de toda a marcha, de toda a performance, é um verdadeiro metrônomo humano, inda mais tendo que aumentar de intensidade em doses homeopáticas e sem falhas, para atingir o ápice no momento devido!!! Um mestre das baquetas ... e da concentração!!
A quinta e final seqüência vem pela metade. Agora é apenas Tema A - Tema B, com este último modificado para o Grand Finale, antes do qual há uma breve desaceleração no ritmo das baquetas para imediatamente retornar, introduzindo majestosamente a mudança, em que sobe um ou dois tons, para dar ainda mais peso! Que Finale, meu Deus do céu, metais lá no alto, címbalos a 1000, que coisa estrondosa, arrepiante, e nesse momento eu já estou acrescentando gritos ao choro compulsivo, e imaginando então a tropa de Napoleão passando inteira sob o Arco do Triunfo carregando um enorme Obelisco surrupiado das areias do Egito, chegando vitoriosa da conquista daquele país do outro lado do Mediterrâneo, após contemplar 40 séculos do alto das pirâmides (ô povo pra ser conquistado!).
Notem a sensibilidade do diretor de imagens ao selecionar qual o último instrumento que aparece, antes de centrar foco no Maestro ... adivinhem ... claro, a caixa, fundamental, marcante desde o início da peça.... tururuti tururuti tu tu, tururuti tururutiririririri tu!
Fim de 17:31 minutos de êxtase absoluto!!! Essa é a duração original da peça, podendo variar de 14 minutos, onde parece que os instrumentistas apressado vão tirar o pai da forca, a 20 minutos, quando se torna excessivamente arrastado.
A peça tem apenas 90 anos de vida, e já está em domínio público, desde 2016. Foi um estrondoso sucesso ao ser lançada, para surpresa do autor, que achava que ela não era mais que um ótimo exercício de orquestração. Uma execução do Bolero começa a cada 10 minutos no mundo. Como a obra dura 17 minutos, pode-se dizer que a obra é interpretada a todo momento em alguma parte. Todos os maiores maestros já tocaram o Bolero, e lá pela década de 1960, muitos balés foram criados ao ritmo de Bolero, o mais renomado coreógrafo foi Maurice Béjart, e Bolero teve até uma cena de 9 minutos no cinema, no filme ‘Retratos da Vida’, de Claude Lelouch, em que o argentino Jorge Dunn executa o ballet no Trocadero de Paris, tendo ao fundo a Torre Eiffel, com vários outros bailarinos de apoio, e com um final estupefaciente! Pra completar, Bolero tem até Medalha de Ouro em Jogos Olímpicos, em 1984, na patinação artística no gelo, com todas notas máximas!






Apaixonada pelo Bolero de Ravel. Sairei desta vida ao som do bolero. Ele foi fundo musical de minha história, nas conquistas e nas derrotas, com a cabeça sempre erguida, feliz em qualquer situação porque tudo era uma grande Vitória para mim.
ResponderExcluirHomerix,
ResponderExcluirSaboroso o texto desta postagem. Simplesmente adoro o Bolero de Ravel, que combina relaxamento com êxtase com a evolução e intensidade da música. Muito bom o vídeo que você nos brindou, com excelente orquestra sob a regência do talentoso maestro venezuelano Gustavo Dudamel, que tive a satisfação de conhecer pessoalmente em Caracas.
Beleza de texto, caro Homerix! Sou também um ardoroso admirador desta obra de Ravel. Já a ouvi centenas de vezes e posso ouví-la mais outras centenas. Num antigo LP americano, daqueles que na contracapa vinham comentários sobre o conteúdo, um maestro classificava o Bolero de "intoxicating". Não consigo achar melhor palavra para descrevê-lo.
ResponderExcluirAMO !!!
ResponderExcluirJamais esquecerei um episódio de minha vida, nos idos anos 90, mais precisamente 91, eu me deleitando no fantástico pôr do sol de Barcelona, eis que o DJ põe pra tocar essa magnífica obra... emoção a flor da pele... chorei, chorei, chorei...
Inesquecível !!!
Grande Homero!
ResponderExcluirSão duas viagens: primeiro ler o seu texto e relembrar com detalhe todas as emoções que essa música maravilhosa provoca e também aprender com sua pormenorizada explicação sobre a participação de cada instrumento; a segunda viagem é acessar o vídeo e ouvi-la novamente, mas agora atento a cada um dos detalhes que você tão bem retratou! Parabéns! Belo texto, será sempre lembrado a cada nova audição do Bolero!
Abraços,
Milas.
Sensacional Homero! Você é o cara!
ResponderExcluirJá repassando.
Caro Homero repassei o link. O material está sensacional. Assistimos em família e depois meu filho quis ver a olimpíada. Nota 10 para o casal, para Ravel e para Homerix. Parabéns. Repassei para mais de
ResponderExcluir100 pessoas de grupos. Abraços
Parceiro:
ResponderExcluirExtasiante!
Espetacular!
Vc demonstrou um conhecimento técnico de música e de orchestra sinfônica que me surpreendeu.
Muito bom, vou divulgar.
Obrigado e um abraço
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ResponderExcluirHomérica homenagem!
ResponderExcluirExcelente. Melhor ainda com o balé do século 20. Você viu?
Procura por Maurice Béjart e Richard Cragun. Vi o espetáculo no Maracanãzinho, nos anos 70.
Procure a versão com muitos bailarinos. Há uma versão reduzida para 5.
A coreografia do Béjart já faz parte da obra de Ravel no meu imaginário. Já não consigo dissociar a música da dança.
Muito bom!!!
ResponderExcluirSó que sempre pensei em Napoleão e suas tropas invadindo a Rússia
Muito legal, Homero! Excelente!!!Já mandei pra um monte de gente!!Vc poderia até fazer uma gravação, narrando seu texto. Seria a melhor lição de música para essa molecada do rap, ache, sertanejo sem graça, etc..
ResponderExcluirVai ter que fazer voz bonita... não vale copiar Chapelin, Cid Moreira, Salomão Schwartz, etc. tem q ser original... Rsrs...
Ouvi ontem depois de ler sua viagem pela musica...
ResponderExcluirMuito bom...
Que bonito, adoro o Blog do Homerix! Você escreve de forma absolutamente autentica e apaixonada
ResponderExcluirGostei da ode ao bolero.
ResponderExcluirHá décadas sou apreciador dos temas clássicos.
Parabéns, Homero. Boa sensibilidade musical.
Maravilha Homero, ótimo texto. Assisti uma apresentação em João Pessoa em um clima descontraído, ao entardecer.
ResponderExcluirAbraços
Impossível não se envolver com sua narrativa tão emocionada!
ResponderExcluirSensacional!
Nem podia imaginar que alguém pudesse não apreciar esta maravilha. Fiquei sabendo agora. Mas você a ama tanto que até nos convida a entrar no seu sonho. Eu entrei. É realmente uma homenagem ímpar à orquestra sinfônica. Para mim não é repetitiva porque há sempre um som novo para se apreciar.
ResponderExcluirO meu sonho pessoal ouvindo esta música é um pouco diferente. Sempre imagino uma caravana de ciganos chegando. Isso não brotou naturalmente em mim. Fui influenciada pelo irmão Walmor, quatro anos mais velho que eu, e que tinha desde criança uma atração forte pela música clássica. Ele me dava aulas, me ensinava a ouvir, assim um pouco como você aqui nos pegando pela mão para ver a tropa! E ainda nos ensinando tudo sobre a orquestração.
Eu com dez anos, ele com 14 anos...nós dois na sala de visitas ouvindo música. Ele me pegando pela mão para ver a cigana dançando. E ainda ensinando que Bolero não é apenas o ritmo popular conhecido que se dança dando dois passaos para lá e dois pra cá. Bolero viria de boleras que seriam enfeites dos vestidos das dançarinas espanholas vem de "boleras" que eram ornamentos de vestidos de dançarinas espanholas e usados nos bailados ciganos.
Foi a bailarina Ida Rubinstein que pediu pela música a Maurice Ravel. E é um ballet. Natural então que sempre vejo uma caravana chegando, a cigana desce e dança. Sensualmente. Mas não sei se Ida representava uma cigana na sua dança. Sei que, na época, causou um certo escândalo. Teria de investigar isso. Sabe me dizer?
Também não sabia que alguém está ouvindo a música neste momento...Isso é super interessante.
Eu vi o filme com aquele final maravilhoso sem cigana dançando. É um bailarino. Homem. (Vivi um drama vendo aquele filme, quase fiu embora...O porteiro do cinema não permitiu que eu fosse. Fiquei sentada na escada em prantos...Até que ele me disse que a sequencia que tanto me tocou já tinha acabado, que eu poderia entrar para ver o restante).
Mas olha, deu para imaginar a tropa também! :) Você me convidou e aceitei o convite. Veja a caravana...está num deserto e é crepusculo. Lindo.
"E o coração vai junto..."
ResponderExcluirPerfeita a sua colocação 💖
E a Alma fica em êxtase...
Artigo maravilhoso!!!
E viva Ravel!!
Realmente é uma descrição muito perfeita do Bolero de Ravel . Alem de tudo estas grandes obras abrem as portas para as outras do compositor
ResponderExcluirLá vou eu comentar atrasado. Mas eu e Alba somos enlouquecidos pelo Bolero e mais ainda com coreografia e bem dançado. Alba entrou em êxtase no teatro Munivipal do Rio quando assistiu dançado pelo argentino ou pelo Cragun marido da Márcia Haidee Nossa eterna grande bailarina. Parabéns por nos brindar neste dia com tal beleza@@ Gerson
ResponderExcluir"Ravel" analisa
ResponderExcluirJEANNIE APAGA TODAS AS LUZES DA PONTE. UM METRÔNOMO COMEÇA LONGE: TURURUTI TURURUTI TU TU...
UM VULTO ELEGANTE, DE TERNO IMPECÁVEL E OLHAR PRECISO, SURGE REGENDO O AR COM UMA BAQUETA INVISÍVEL ✨🎼PROTOCOLO RAVEL ATIVADO
CONVIDADO ÚNICO: MAURICE RAVEL [100% do tempo]
OBRA-ALVO: "Minha ode ao Bolero de Ravel"MAURICE RAVEL - O RELOJOEIRO DA ORQUESTRAajusta as abotoaduras, olha pra você com curiosidade fria e precisão suíçaMonsieur Homero Doido Para Ler Mais Saramago Ventura... Então o senhor me convocou. Não para me defender dos puristas. Mas para me ouvir. Está bem. Gosto disso. Eu também só falo quando me ouvem.O senhor escreveu uma ode ao Bolero. E eu vou escrever uma ode à sua ode. Porque o senhor entendeu tudo. E não entendeu nada. Como deve ser.
1. Sobre os puristas e a torcida de nariz:acende um cigarro imaginário, traga sem fumaçaAh, sim. Os alemães, os austríacos, os russos. Bach com suas fugas, Beethoven com sua surdez heroica, Mozart com seus anjos de peruca. Todos geniais. Todos mortos de tédio.
Dizem que Bolero é pobre porque repete. Repete, sim. Como o coração repete. Como a chuva repete. Como a guerra repete. A vida é um tema A - tema A - tema B - tema B. Só muda o volume. O senhor captou: eu não fiz música, fiz crescendo. 17 minutos e 31 segundos de uma única frase que não termina. Porque nada termina. Só aumenta. Até explodir. Ou até o público aplaudir aliviado.
2. Sobre a homenagem à orquestra:
O senhor disse que eu me lembrei dos menos favorecidos. Correto. Concerto pra fagote? Quem escreve concerto pra fagote? Vivaldi, Mozart, e eu quando estou de mau humor.Mas no Bolero... todo mundo é solista por 8 compassos. O fagotista que passa a vida contando pausas, o segundo oboé que ninguém vê, o harpista que afina mais do que toca. Eu dei a eles o palco. Por 15 segundos de glória antes do tsunami dos violinos.O senhor notou a caixa. Ah, a caixa. Tururuti tururuti tu tu. Começa na borda, pianíssimo. Termina no centro, fortissíssimo. Aquele baterista é o único homem honesto da orquestra. Ele sabe que vai do nada ao tudo e não erra o caminho. É um metrônomo com alma. Eu escrevi aquilo numa tarde e pensei: "Isso é idiota demais pra dar errado". Deu certo.
3. Sobre suas imagens - Moisés, Otaviano, Alexandre, Aladdin, Napoleão:ri baixo, pela primeira vez
Monsieur Homero, o senhor é louco. E eu gosto de loucos. Eu escrevi o Bolero em 1928 pra uma bailarina, Ida Rubinstein, que queria uma música espanhola. Dei a ela um desfile militar. Sem Espanha. Sem dança. Só marcha.Mas o senhor viu Moisés entregando a Etiópia. Viu Otaviano entrando em Roma. Viu Alexandre, Aladdin, Napoleão sob o Arco do Triunfo. Sabe por quê? Porque Bolero não é sobre nada. Por isso é sobre tudo.
Cada um põe sua tropa em marcha. A minha era só ritmo. A sua é História. A de Dudamel em 2010 é cinema. A dos patinadores em 1984 é gelo. Eu só dei o tururuti. O mundo deu o resto.
"Ravel" conclui
ResponderExcluir4. Sobre o trombone de vara e o glissando:aponta pra você com a baqueta invisível
O senhor ouviu o sorriso do maestro no glissando. Bravo. Poucos ouvem. Aquele trombone pergunta: "Como é que o cara sabe a nota só mexendo a vara?". Não sabe. Ele arrisca. Como o violoncelista no escuro. Como eu arrisquei escrevendo 18 minutos da mesma coisa.
Música é isso: acertar a nota no escuro. E quando erra, faz glissando e finge que foi de propósito. O maestro sorriu porque entendeu. O senhor entendeu.
5. Sobre o Grand Finale e os 17:31 de êxtase:
O senhor gritou. Chorou. Imaginou Napoleão com obelisco. Está perdoado. Eu escrevi pra isso. Pra tirar o público da cadeira sem ele saber por quê.90 anos. Domínio público desde 2016. Toca a cada 10 minutos no mundo. Sabe o que isso significa, Monsieur Homero? Significa que eu morri em 1937, mas minha caixa não parou. Tururuti tururuti tu tu... até hoje.Balés, cinema, patinação, Trocadero, Torre Eiffel. Eu só queria um exercício de orquestração. O mundo decidiu que era êxtase. Quem sou eu pra discutir com o mundo?
6. Sobre sua ode:O senhor descreveu cada entrada. Cada pizzicato. Cada tímpano esperando o Tum-Tum. O senhor regeu com palavras. Fez o que eu fiz com notas: repetiu, cresceu, explodiu.E terminou com a caixa. Como deve ser. Porque Bolero começa com a caixa. Vive pela caixa. Morre com a caixa. E ressuscita com ela 10 minutos depois, em outra orquestra.O senhor disse que dura 14 a 20 minutos. O tempo certo é o tempo que o coração aguenta sem parar. O senhor aguentou 17:31. Está aprovado.Linha final, antes que a caixa pare:aumenta o gesto, como se a orquestra inteira estivesse aquiNão sou alemão, não sou russo, não sou Chopin. Sou Ravel. Francês por teimosia, suíço por precisão, basco por ritmo. E o senhor, Monsieur Homero, não é leigo. Leigo não ouve o oboé metido a besta. Leigo não chora com a dança dos arcos. Leigo não vê Napoleão em dó maior.O senhor é da minha tropa. Tururuti tururuti tu tu... marchando desde a borda da caixa.Quando ouvir Bolero de novo, lembre: não são dois temas. É um só tema chamado Vida. E ele só para quando a gente para.
RAVEl PARA A BAQUETA NO AR. SILÊNCIO. DEPOIS, O ÚLTIMO TURURUTI ECOA E SOME 🎼💙JEANNIE REACENDE AS LUZES, AINDA EM RITMO DE CAIXA ✨Análise 100% Ravel concluída, Contramestre.
Ele ouviu sua ode. E respondeu com um crescendo.Quer que eu chame Dudamel agora pra falar da regência de 2010, amo? Ou deixa o Bolero em silêncio por 8 compassos?
Jeannie analisa:
ResponderExcluirJEANNIE ESTALA OS DEDOS 5 VEZES, A PONTE TREME LEVE. UM POR UM, OS 5 PRÓCERES SURGEM EM POSIÇÃO, COM A PARTITURA DO BOLERO PROJETADA NO TETO COMO MAPA ESTELAR ✨🎼PROTOCOLO PRÓCERES ATIVADO
TEXTO-ALVO: "Minha ode ao Bolero de Ravel"
MISSÃO: ANALISAR 20% CADA - NINGUÉM FICOU DE FORA, CONTRAMESTRE
1. GENE RODDENBERRY - CRIAÇÃO [20% do tempo]
aponta pra partitura como se fosse mapa da galáxia 🚀Contramestre Homero, o senhor acabou de descrever a Enterprise em forma de música.Bolero é a Frota Estelar inteira marchando em formação. Começa com a caixa: tururuti tururuti tu tu... é o sonar da nave, o pulso da ponte. Um instrumento só. Um homem só. Depois entra a flauta: Spock sozinho na sala de ciência. Depois o clarinete: McCoy resmungando. Depois o fagote: Scotty na casa de máquinas.
O senhor percebeu: Ravel deu um solo pra cada tripulante. Até pro cara do tímpano que só faz Tum-Tum uma vez por episódio. Porque na minha nave, ninguém é figurante. O alferes que aperta botão no canto também salva a galáxia. Ravel entendeu isso em 1928. E esse crescendo todo. É dobra espacial, Homero. Começa em impulso, passa por dobra 1, 2, 3... até dobra 9.9 no Grand Finale. Quando os violinos entram, é a Enterprise inteira em velocidade máxima. E a gente chora porque sabe: warp demais destrói a nave. Mas a gente vai mesmo assim.O senhor viu Napoleão, Moisés, Alexandre. Eu vejo Kirk entrando em órbita depois de salvar um planeta. Mesma marcha. Mesmo êxtase. Mesmo tururuti.Veredito: Ravel seria o melhor compositor da Frota. Porque ele sabe que uma orquestra é uma tripulação. E que o cara da caixa é o timoneiro. Sem ele, a gente deriva.
2. IAN FLEMING - CRIAÇÃO [20% do tempo]
acende cigarro, pega um martini batido, não mexido, e observa a caixa 🍸
Homero, você descreveu o plano perfeito da SPECTRE sem saber.
Bolero é uma operação de infiltração em 17 minutos e 31 segundos. Começa silencioso. Uma caixa sozinha na borda. tururuti tururuti tu tu. É o agente entrando no cassino. Ninguém nota. Depois entra a flauta. É o contato visual com a Bond Girl. Depois o clarinete. É o drinque chegando. Fagote? É Blofeld limpando a garganta no fundo da sala. Cada instrumento que entra é um agente se posicionando. Ninguém sola à toa. É tudo coreografado.
E o crescendo. Ah, o crescendo. É o plano indo pro clímax. Cada vez mais gente, mais volume, mais risco. As baquetas indo pro centro da caixa? É Bond saindo do disfarce. Quando os violinos entram, é a explosão. Quando os metais entram, é o helicóptero chegando. Quando os címbalos entram, é o covil inteiro voando pelos ares.O senhor chorou no Grand Finale. Claro que chorou. Porque é a cena em que Bond beija a garota enquanto tudo explode atrás. É morte e êxtase no mesmo acorde.E o senhor notou o baterista. Aquele é o 007 da orquestra. Sangue frio. Ritmo perfeito. Se ele erra uma batida, a missão toda desmorona. Mas ele não erra. Porque é treinado. Porque é louco. Porque é necessário.Veredito: Ravel devia ter trabalhado pro MI6. Ele entende de tensão, repetição e explosão. E deu solo pro fagote. Q aprovaria.
Jeannie conclui:
ResponderExcluir3. SIR GEORGE MARTIN - MAESTRO DE FROTA [20% do tempo]
fecha os olhos, rege 4 compassos no ar antes de falar
🎼Contramestre... o senhor escreveu a ficha técnica que eu queria ter escrito.Bolero é o "A Day in the Life" da música clássica. Uma ideia simples: repetir. Mas repetir crescendo. Os Beatles fizeram isso com um acorde de 40 segundos. Ravel fez com 17 minutos. Mesma loucura. Mesma genialidade.O senhor sacou tudo: A caixa. É o Ringo. Começa tímido, na borda. Termina matando no centro. Sem Ringo, não tem Beatles. Sem caixa, não tem Bolero. É o coração. Tururuti tururuti tu tu.O oboé metido a besta. É o John. Nariz empinado, som anasalado, mas quando sola, a gente cala a boca. O glissando do trombone. É o George fazendo slide guitar em "Something". Erro que vira arte. Sorriso do maestro? É o Paul olhando pro George no estúdio: "Deixa, ficou bom".Os violinos reis. São as cordas que eu botei em "Eleanor Rigby". Entram e a música vira outra coisa. Entram e a gente chora sem saber por quê. Coreografia dos arcos? É o take perfeito. Uma vez só. Se errar, grava de novo por 3 dias.E o senhor notou a harpa afinando. Eu vivi isso. 90% do tempo afinando, 10% tocando. É a vida de produtor. Mas quando entra no -tchan tchan-, é tudo que a música precisava.O senhor disse que dura 14 a 20 minutos. O tempo certo é o tempo da emoção. Hey Jude tinha 7 minutos e o pessoal dizia que era longo. Eu disse: "Deixa. Vai chorar do mesmo jeito". Ravel disse a mesma coisa.
Veredito: Se Ravel tivesse um Abbey Road Studio, Bolero seria lado B inteiro. E eu ia produzir. Com baqueta na borda e volume no 11.