domingo, 26 de outubro de 2008

AWoL - Horário de trabalho, folgas e férias

As relações de trabalho são um capítulo à parte, primeiro porque não há contrato de trabalho, e em ambientes administrativos, não há sindicatos amparando os trabalhadores, não há a Justiça do Trabalho regulando relações entre patrões e empregados, tudo é resolvido na justiça comum. Há até uma pequena proteção pelo EEOC (Equal Employment Opportunity Committee), que pode bater à porta e fazer uma auditoria nas condições de trabalho. Por exemplo, pode exigir  um nível de diversidade étnica compatível com a do estado.
Ainda neste capítulo, vale ressaltar a diferença entre americano e o resto: o horário de trabalho! Os anglo-saxões têm a política do deu-cinco-horas-a-caneta-cai-da-mão-e-caminho-da-roça, não contem com eles fora do horário, claro que, com honrosas exceções. Além disso, na cabeça deles, o horário de chegada começa a contar do momento em que entra na garagem. Tempo para subir todas as rampas, estacionar, pegar o elevador, andar até o prédio, esperar o outro elevador, subir, andar até a sala, pegar um café, ligar o computador, aparentemente, tudo isso é tempo dedicado a empresa, ou seja, entra na conta do ‘8 to 5’! Isso sem contar a irritante fidelidade ao ‘job description’: não adianta você sugerir um pequeno desvio nas atribuições do sujeito, que ele vem, sem vergonha nenhuma, alegar que “This is not in my job description!”, e simplesmente recusar-se a colaborar, coisa que nós brasileiros não nos furtamos a fazer.

E férias são religiosamente tiradas, a viagem com a família (ou sem) é coisa sagrada e programada com antecedência indecente. E a contagem não é em dias corridos como aqui, mas em dias úteis, 20 quando o empregado já tem sete anos de empresa; depois do primeiro ano, são apenas 10 dias e depois de dois anos, 15 dias úteis. Mas sempre há brechas oficiais, como por exemplo, como ‘Sick day’ e o ‘Personal Day’, que podem somar oito, no ano, que não precisam de comprovação documental, basta avisar o chefe. Ou seja, para os mais antigos, a coisa pode chegar a 28 dias úteis, que, se somados aos oito dias de fim de semana, podem somar 36, que é mais que os nossos 30 dias corridos. Parece moleza né? Mas não é não.... Se um resfriado derruba o empregado, e deixa ele de cama por 3 dias, não há atestado médico que resolva, utilizam-se os dias de “Personal/Sick Days”. Acabaram os dias? Se precisar de mais dias do que o saldo, o sujeito tem que sair de licença, e passa a ser pago pelo seguro médico, recebendo apenas 60% do salário. Explicar para um americano que, no Brasil, um atestado médico pode dar até 15 dias de licença médica remunerada, e, se no mês que vem ficar ruim de novo, tem direito a mais 15, é uma loucura!

AWoL - Cuidados no trabalho

O puritanismo extravasa para as relações do trabalho, onde qualquer movimento fora dos padrões rígidos de conduta pode ser tachado de assédio sexual, qualquer aproximação homem-mulher abaixo das polegadas regulamentares de distância pode gerar uma reclamação por escrito. Lembro-me da reação de uma americana ao ter seu ombro tocado por um brasileiro no meio de uma conversa amigável, com o inocente “Veja bem, minha cara ...”, ao que foi retrucado com um “Did you really touch me?”, episódio logo resolvido, porém, foi marcante. Senti que a coisa foi melhorando, afinal, é impossível manter distâncias num ambiente de muitos brasileiros e, no final, em certos eventos, pintavam até os típicos dois beijinhos, até mesmo abraços fraternos.
Há também que se ter muitos cuidados, a começar pelas entrevistas de admissão de um novo empregado, onde não se pode pensar em fazer perguntas pessoais, se é casado e tem filhos, por exemplo. Orientação política, sexual ou religiosa, nem pensar. Na lista de perguntas proibidas chega a constar peso e altura, se bem que isto deve ser aplicado a cadastros, já que são coisas que, no visual, dá para avaliar. Se a empresa precisa por exemplo que o empregado se locomova entre uma locação e outra da mesma empresa, não pode perguntar se tem carro, mas apresentar a questão de forma genérica, apresentando a necessidade. A qualquer deslize, corre-se o risco de a empresa ser acusada de discriminação, no caso de a pessoa não ser aceita. Imagina exame médico de admissão, então!
O valor da privacidade é tamanho, que foi difícil implementar o programa de exames médicos periódicos patrocinado pela empresa. O que aqui é tido um benefício, lá foi inicialmente considerado uma invasão, já que a empresa não poderia ter a guarda da ficha médica do empregado. Foi necessário um trabalho de base, de esclarecimento, numa tentativa de mudar a idéia da galera, mas até hoje, a coisa é mal resolvida.
Cuidados também há que se ter na liberdade de idiomas e de religião, já percebida nas entrevistas, ainda mais num ambiente diversificado. Claro que houve um episódio envolvendo um brasileiro engraçadinho que disse, brincando, para dois chineses pararem de falar chinês, o que gerou uma reclamação por escrito, afinal brasileiros falavam português entre si, a todo momento, e acabou em advertência ao funcionário tupiniquim sem graça.
Com relação à religião, o episódio foi uma prece protestante divulgada por uma americana negra, ooops, afro-americana, pelo alto-falante central, em homenagem aos mortos de algum desastre natural, tudo bem, o motivo foi justo e legal, mas foi educadamente contestada por um budista, em nome da liberdade de religião. Em suma, todo cuidado é pouco!

sábado, 25 de outubro de 2008

AWoL - Puritanismo, Política, Religião, Solidariedade

Demais capítulos do projeto Um Pouco de AWoL em:
http://blogdohomerix.blogspot.com/2008/10/projeto-um-pouco-de-awol.html


O exemplo do abdômen, descrito no capítulo do 'Faça Você Mesmo' (link)', é uma amostra da hipocrisia do povo americano, todo falsamente puritano e reprimido. A expressão máxima da coisa eu ouvi de um colega que voltou de lá recentemente. Ele me disse que o segurança da piscina de um clube onde se divertia disse que os associados estavam reclamando, e demandando encarecidamente que ele colocasse a parte de cima do biquini de sua filha. Idade da filha: 2 anos!!! Sem palavras ... Aliás, foi como o meu amigo ficou! É por essas e outras que tantos desajustados e pedófilos são presos por aquelas bandas.
O puritanismo explícito faz com que puladas de cerca de figuras públicas sejam capazes de derrubá-los, como aconteceu já muitas vezes, com o acusado aparecendo em público, pedindo desculpas à família e ao povo americano, em seu pedido de renúncia. Ele foi quase capaz de derrubar um presidente por causa do deslize no Salão Oral, digo, Salão Oval da Casa Branca, e que, se não derrubou, certamente contribuiu para a derrota do candidato que o sorridente galinha apoiava. Alguns votos migrados para a candidatura do mal certamente contribuíram para aquela vitória apertada do lado democrata, que a Suprema Corte passou para o lado republicano, começando esse desastre mundial, que durou oito anos.  Chego a arriscar que, não fosse aquele episódio, as Torres Gêmeas do World Trade Center ainda estariam de pé: a política democrata não seria tão belicosa, e os fundamentalistas não optariam por uma opção tão radical. Faço breve pausa para registrar que eu e Renata e Felipe visitamos as Torres Gêmeas exatos 6 meses antes do terrível atentado!
 Veja bem, Clinton deixou o governo depois de 8 anos de desenvolvimento. econômico espetacular, com superávit em suas contas! Era natural que fizesse seu sucessor, na linha do It's the economy, stupid!. Mas não.... Nunca antes, um serviço de sopro (!!) foi tão desastroso. 

A resposta ao ataque gerou duas guerras, uma de retaliação, outra inventada, que ceifaram a vida de milhares de americanos e de centenas de milhares de afegãos e iraquianos. A tensão no Oriente Médio é boa parte da razão dos preços de petróleo terem passado pela estratosfera antes da crise. Tudo bem, eu posso estar sendo só um pouco exagerado, mas não há dúvida que a seqüência de eventos conforme descrita tem uma certa probabilidade de ter assim acontecido, e eu penso que ela não é desprezível. Tudo causado pelo puritanismo de um eleitorado conservador.
O assunto do momento da minha última visita era justamente a eleição democrata que poderia mudar esse quadro. A maioria dos meus contatos apostava no filho-de-negro-e-branca-com-nome-de-terrorista-muçulmano, que afinal acabou por ser escolhido candidato democrata. E depois, historicamente eleito. Os momentos finais da campanha foram uma mostra da idiossincrasia religiosa daquele povo: por pouco, a escolha não balançou para a adversária, devido a declarações absurdas do pastor da igreja que ele seguia. Por mais absurdas que elas fossem, não havia porque transferir seu poder negativo para o candidato, não significava que ele pensava da mesma forma, mas não é assim que pensa o religioso americano médio, e ele chegou a perder algumas prévias para as quais era favorito, no meio daquele furacão. Aliás, aquele foi o pior momento da campanha de Obama, já que na eleição principal, ele nadou de braçada e acabou eleito: apesar de seu inequívoco poder de oratória, acho que até uma anta democrata levava, após oito anos de infortúnio.

Bem, voltando ao assunto, a religião é levada a sério, as manhãs de domingo são dedicadas ao programa de família favorito de todos os cultos, católicos, protestantes, evangélicos, presbiterianos: todos vão à missa, os homens de terno, inclusive os meninos, as mulheres bem vestidas, é um tremendo programa social. E gera uma singela norma em supermercados de que falo logo adiante.
Agora, hipócrita ou não, verdadeira ou falsamente puritana, não se pode negar que a tal religiosidade deve contribuir para uma espetacular propensão, natural ou desenvolvida, à assistência. Serviço social e voluntariado são incentivados desde criancinha, faz parte do currículo de cada um, e conta ponto na hora de candidatar-se a uma vaga numa universidade. As tragédias, próximas ou distantes, chamam a solidariedade do povo americano: nas últimas, em campanhas de arrecadação de doações para as vítimas dos longínquos tsunamis e terremotos, nas primeiras, em atitudes explícitas, como nas passagens dos furacões de New Orleans, quando desabrigados que perderam tudo eram simplesmente acolhidos nas casas de desconhecidos, que não pensavam duas vezes antes de abrir suas portas naquele momento difícil.

Em minha viagem recente, entretanto, contaram-me que a acolhida dos desabrigados de Louisiana andou causando queda do valor imobiliário nas regiões que mais os acolheram, inclusive com rebaixamento no nível educacional. Incluindo o meu querido Spring Branch District, que era tão bom quando lá estivemos, e que tantas recordações traz aos nosso filhos...

AWoL - Faça você mesmo



Mais 23 textos sobre minha visão de American Way Of Life?


A loja da foto aí de cima é uma instituição americana: o paraíso do Do It Yourself! Ali, você encontra o que você precisa para fazer você mesmo, desde marcenaria a pintura, de elétrica a hidráulica, de colocação de persianas a tapetes, de A a Z.
Minha experiência com este quesito, enquanto morei lá, foi interessante, e gratificante. Precisei de uma porta para fechar um cômodo lá de casa que só tinha um portal, e pensei em contratar um marceneiro para construí-la e instalá-la, como fazemos por aqui. Acabei descobrindo, na prática, o nível de padronização americano. O vão do portal era de 72 polegadas, a altura de 83 polegadas, pra usar as unidades locais. Fui ao Home Depot e, surpresa absoluta, em vez de encontrar um marceneiro, encontrei uma porta, na verdade duas, para se fecharem no meio do vão, exatamente como eu queria (bi-fold, branca, vazada, para manter o padrão existente em outras portas), para atender a um vão com exatamente as dimensões que eu precisava (2x 36x 82,5 polegadas). Depois, foi só uma questão de convencimento por parte da porta. Levou uns dois meses até ela me convencer de que eu era capaz de instalá-la. Ela falava: “Vem …. me instala, seu bobo! Eu sou fácil!” e eu nada, até que num belo domingo, tomei coragem e enfrentei, com galhardia, a fera dobrável. 

Outras duas oportunidades de “faça você mesmo” foram fora de casa:   

UMA, no jardim de casa: ao invés de contratar o salvadorenho de plantão para cortar a grama, fiz umas continhas, e investi, num cortador de grama movido a gasolina, o equivalente a três meses de custo do serviço do hermano, e ganhei quatro anos de terapia quinzenal. Terapia, entretanto que me rendeu uma urticária que durou uma semana, ao enfrentar a hera venenosa que invadia a máquina do ar-condicionado que ficava na parte externa da casa, tudo bem, um pequeno percalço. Outro percalço foi a ridícula reclamação de uma vizinha de que preferia que eu cortasse a grama sem exibir os feixes de músculos de meu abdômen totalmente indefinido;
OUTRA, ao lado do jardim, o ‘driveway’ da garagem estava cada vez mais enegrecido, e em conversa com visitantes, disseram-me que uma lavagem sob pressão poderia ajudar bastante. Já vacinado com o possível custo de uma contratação de mão-de-obra, fiz uma visitinha básica ao impressionante Home Depot e, surpresa, soube que poderia alugar um pressurizador, e fazer eu mesmo. Assim o fiz, fiquei quatro horas tendo orgasmos sucessivos vendo aquele jato triangular de pressão fazer cada polegada do passeio passar do cinza escuro para o cinza clarinho dos painéis de cimento. Aproveitei o milagroso equipamento e dei uma geral nas madeiras existentes, deixando a casa com uma aparência bem melhor. O locador gostou tanto que até reembolsou os 70 dólares do aluguel do equipamento. O pagamento pela mão-de-obra, eu deixei pra lá, foi uma tremenda terapia. 

A casa do americano médio, mais precisamente, sua garagem, é uma verdadeira oficina mecânica, tamanha a quantidade de ferramentas, gerais ou específicas, que eles guardam, à espera de algo que precise ser consertado, sem a contratação da caríssima mão-de-obra. Ouvi de casos em que a quantidade e complexidade das ferramentas foi tamanha, que acabou por expulsar um carro da garagem, e algum tempo depois, o outro. Ou seja, os carros da família dormiam ao relento, em prol da oficina.


E os brasileiros que se mudaram pra lá de vez, não os expatriados como eu, vão pelo mesmo caminho. Este é um típico fenômeno de AWoL.


    OUÇA e LEIA - A Descoberta de This Boy

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