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segunda-feira, 2 de junho de 2008

Afagando Afegãos Afogados

Nestes últimos anos, temos sabido mais sobre a história do Afeganistão, aquele sofrido país asiático, do que sobre a nossa própria. Começamos a perceber sua existência em 2001, quando suas cavernas viraram esconderijo de Bin Laden, e tornaram-se o alvo preferido dos caças americanos. Depois, veio "O Caçador de Pipas", espetacular livro de Khaled Hosseini, médico afegão emigrado para os EUA, contando a saga do país ao longo de três décadas, através da visão masculina, de um garoto rico Amir e seu amigo de infância, o pobre e muitas vezes sábio Hassan. Somos apresentados a uma situação inicial de prosperidade, antes da invasão soviética, os anos de atrocidades dos russos e seus rifles Kalishnikov, o financiamento dos americanos para derrubar os soviéticos, enchendo o próprio Bin Laden de armas, depois a expulsão dos soviéticos pelos musharedin, mas ao mesmo tempo a falta de coesão entre quatro grupos rivais, e o estabelecimento de uma guerra civil sem limites; e quando finalmente uma das facções prevalece, quem vem é o Talibã, com as mais rígidas regras muçulmanas da face da Terra.  Neste livro, há um enfoque mais para a legião de refugiados, mais de dois milhões de afegãos, que simplesmente quiseram tentar escapar do massacre, e foram tentar a vida no Paquistão, Irã e uns poucos que foram para os EUA e outros países de primeiro mundo, então o terror no país natal é contado, em boa parte, como um flashback do narrador, que assiste boa parte do que se passa de longe.                 
O autor é brilhante no envolvimento do leitor com sua estória, a gente não consegue parar de ler. O relato é tão pungente que nos faz crer tratar-se de uma autobiografia (será que ele não teve o seu Hassan, na verdade?). O livro foi um enorme sucesso no mundo todo (vendeu 8 milhões de cópias). Eu lia e imaginava as cenas num filme, o filme acabou saindo, eu muito esperei por ele e quando ele foi lançado, eu não assisti. Pode?
À época, já fazia sucesso o segundo livro de Hosseini, "A Cidade do Sol", mais um romance, também contando histórias do seu país, de novo ao longo de 3 décadas, mas, desta vez, sob o ponto de vista de duas mulheres, e sob a ótica de quem ficou, porque quis ou porque não conseguiu fugir. Por este motivo, aparecem mais detalhes sobre o sofrimento da população civil, que era mutilada por minas e bombas, mulheres estupradas na frente dos maridos e filhos antes da execução destes, sumária, pessoas comuns servindo de tiro ao alvo dos atiradores das montanhas, esse era o dia-a-dia do povo afegão. Por se tratar de personagens femininos, fica-se mais envolvido com o livro, afinal, se há uma espécie que sofre com o Afghanistan Way Of Life, é a "ser humana", tratada como inferior, do começo ao fim da vida. O comportamento ocidental era admitido antes das guerras e revoluções, mas a maioria das mulheres submetia-se à rigidez islâmica dos casamentos combinados, namoros furtivos, esposas múltiplas, discriminações, o papel das mulheres, e da falta de liberdade, mas com a chegada dos talibãs, a coisa chegou ao absurdo, já que eram o principal alvo da política radical islâmica.
Para as mulheres, a lista de proibições era extensa, a começar pelo uso de coisas simples como cosméticos, jóias e roupas "atraentes", mas chegando a condutas de comportamento: meninas estavam proibidas de freqüentar escolas, adultas de trabalhar, e de dirigir o olhar a nenhum homem. Só podiam falar quando lhes dirigissem a palavra. Rir em público levava ao espancamento in loco, mesma punição se caminhassem sozinhas, sem o acompanhamento de um macho da família, e claro, portando aquela burqa completa, a da telinha. Unhas pintadas levariam ao decepamento de um dedo da condutora do abuso, e adúlteras seriam apedrejadas até a morte (no estádio de futebol, fiquei sabendo depois). Para todos, homens e mulheres, o ladrão tinham a mão decepada e, na reincidência, um pé. Isso, sem contar as inadmissíveis restrições a qualquer forma de cultura (canto e dança eram proibidos) ou lazer (jogar cartas, xadrez, apostar, soltar pipas, também) ou religião não muçulmana (lembram-se dos Budas gigantes destruídos?). Para os homens, havia a obrigação do uso de turbantes, e a exigência ridícula de cultivar barba comprida "... até pelo menos um punho fechado abaixo do queixo" (pobres imberbes eram espancados diariamente!). As restrições chegavam mesmo a detalhes pueris como: é proibido criar periquitos.
A descrição do sofrimento das personagens principais do livro, Mariam, uma filha bastarda de um rico homem de negócios, e Laila, uma linda menina loira filha de um ex-professor, toca fundo, e faz com que mais uma vez a gente se torne um chain reader, devorando uma página atrás da outra. O livro foi lançado em 2007 e está seguindo a trilha de sucesso de seu antecessor.                                  
Entre os dois romances, passei pela vida real, primeiro pelo relato de uma repórter norueguesa Åsne Seierstad, que conseguiu convencer "O Livreiro de Cabul" a deixar que se hospedasse em sua casa, para experimentar um pouco da vida de uma família afegã, obteve a autorização para contar ao mundo e acabou produzindo um grande livro, best seller desde que foi lançado em 2002. Ela vestiu uma burqa e ganhou a confiança das mulheres, e até mesmo de alguns dos homens da casa, e contou no livro tudo o que viu e ouviu, às vezes usando detalhes sórdidos. Usou nomes falsos para proteger a identidade dos envolvidos, o que, claro, não conseguiu, e acabou provocando a ira do cabeça da família, o verdadeiro livreiro, cujo nome era Shah Muhammad Rais, que se arrependeu profundamente da autorização concedida, processou-a no seu próprio país e disse "Eu Sou o Livreiro de Cabul", indignado, em um outro livro, tentando desmentir algumas das histórias, e reclamar do jeito que ela descreveu outras, enfim, quem mandou confiar em jornalista?                                        
Enfim, quatro obras, cada uma com seu estilo, suas qualidades e defeitos, a afagar (sic) o espírito de um povo afogado (sic) em guerras há décadas, que hoje, pelo menos, está livre dos talibãs (ao menos para alguma coisa, Bush serviu!), mas longe de se tornar um local de vida digna para seu povo! Dificilmente, tantas feridas serão cicatrizadas a curto e médio prazo. Há a necessidade de reconstrução do país, que não é nada brilhante em riquezas naturais, e dependerá muito de ajuda externa. Ao menos, a insistente obra literária serve para que o resto do mundo veja o país com olhos de compaixão. Se fluidos positivos ajudarem de alguma forma, o serviço certamente foi feito.
Aproveito o ensejo para comentar: se você quer ler um livro e aproveitar todos os seus momentos de apreensão, suspense, e ter toda a surpresa que o autor programou para você, não leia a resenha do Wikipedia! Ela entrega tudo! E aí você será limitado apenas a apreciar o estilo, tudo bem, mas não terá extraído todo o prazer possível da boa leitura. Na verdade, estendo minhas restrições até a orelhas: não vou muito pelo antigo ditado que diz que você identifica um bom livro pela sua  orelha (a do livro, claro!). No caso dos livros recomendados, elas não estragam os momentos principais, não revelam os segredos, mas falam sobre certos momentos cruciais, que eu preferiria não ter sabido de antemão.
Acabo minha dica, voltando a falar do Afeganistão, sobre um livro que ainda não li, escrito por uma iraniana, Siba Shakib, cujo título penso resumir bem o que é a vida daquele povo:
Deus veio ao Afeganistão e chorou

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