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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Zênite da Mitologia Grega


Artigo já escrito há muuuito tempo,
só que hoje, um amigo meu,
que está lendo A Arma Escarlate,
alertou para dois erros tipográficos,
e então me lembrei da célebre frase de Monteiro Lobato,
que escrevi neste texto e que está ressaltada em vermelho.
Ah, sim, ele está ADORANDO o livro.
E tem quase 70 anos!!!
O que confirma que o livro de minha filha atinge todas as idades.
_________________
Zênite: Auge, apogeu, culminância.

Outro dia, li, depois de muitos anos, a palavra acima num artigo, o que reacendeu em minha memória um bom momento de minha infância.
Meu saudoso pai costuma ‘patrocinar’ a leitura de alguns livros que considerava necessários a meu desenvolvimento cultural. Isso mesmo, pagava-me para ler, 5 moedas da época, não lembro o quê, mas que eram suficientes para comprar muitos gibis, que eu devorava, tipo Fantasma (O Espírito Que Anda), Tarzan (Krig-a-bandolo), Mandrake (aquele Lotar, não sei não...) e Tio Patinhas (adorava a Sala da Preocupação). Com a estratégia, em minha tenra infância, li coisas como ‘Os Irmãos Karamázovi’ de Dostoievski e ‘Guerra e Paz’ de Leon Tolstói. Li também os 2 volumes da História da Civilização Ocidental’ de Edward G. Burns. É evidente que não me lembro de nada da trama dos dois tijolões russos, mas os dois últimos melhoraram muito meus conhecimentos históricos. E, inegavelmente, a prática contribuiu para que eu desenvolvesse uma escrita correta.
Lia também coisas que não requeriam quaisquer incentivos paternos, como por exemplo, a obra infantil de Monteiro Lobato. Ele conseguiu se comunicar com a alma infantil de uma maneira ainda não atingida por nenhum outro escritor. Com uma linguagem simples e corretíssima, Lobato fazia o aprendizado de coisas importantes parecer uma brincadeira agradável. Através das personagens do Sítio do Picapau Amarelo, ele passava mensagens que se tornariam indeléveis em nossas mentes. Dona Benta nos ensinava Geografia e História do Mundo, Tia Nastácia contava suas histórias, Pedrinho nos levava junto em caçadas bem brasileiras e em viagens ao céu, muito antes de nosso destemido astronauta passageiro. Personagens históricos e outros imaginários eram freqüentadores assíduos do Sítio, como Don Quixote e Peter Pan. Emília ensinava Gramática e Aritmética e mandava mensagens sobre as injustiças e as amarras do mundo, ela que é a considerada a primeira personagem feminista da literatura brasileira. Havia fábulas fantásticas, como ‘A Chave do Tamanho’, que ainda não se tornaram realidade; e sonhos fantásticos, como ‘O Poço do Visconde’, que se materializaram de forma brilhante. Monteiro Lobato foi um dos primeiros a acreditar que havia petróleo no Brasil, e o fazia de forma veemente e foi até preso por isso (1931). Seu movimento foi o precursor d’O Petróleo é Nosso, que veio a possibilitar a criação da Petrobras.
A obra de Monteiro Lobato não se limitou ao público infantil, atingiu também o público juvenil e adulto. Em seus 66 anos de vida, foram mais de 100 publicações, entre livros, estudos e traduções. É de sua lavra uma declaração que resume muito bem o tormento de todos os que se aventuram na arte de escrever:

“A luta contra o erro tipográfico tem algo de homérico. Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis. Mas assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas. Trata-se de um mistério que a ciência ainda não conseguiu decifrar...”.

O zênite da obra infantil, em minha modesta opinião é ‘Os Doze Trabalhos de Hércules’, um dos últimos da série, que ele publicou em 1934. Eu não apenas li aquele livro, eu o devorei  ... e assim fiz mais sete vezes, anualmente: dos 7 aos 14 anos de idade, eu li os dois volumes, religiosamente, uma vez por ano. E agora, mais recentemente, o li novamente, aos pedaços, juntamente com meus filhos.
Para quem não leu, um breve resumo: Monteiro Lobato descreve, neste livro, 11 dos trabalhos do hercúleo herói na antiga Grécia, em que é acompanhado por Emília, Pedrinho e o Visconde de Sabugosa, os mais aventureiros personagens do Sítio do Picapau Amarelo, que viajavam pelo tempo, ao cheiro do pó de pirlimpimpim (quem diria que, 30 anos depois que Lobato escreveu sua obra infantil, outro tipo de pó faria as pessoas 'viajarem' ....). Em tempo, o 2º Trabalho, em que ele detona as sete cabeças da Hidra de Lerna, já havia sido descrito em 'O Minotauro', em outra viagem movida a pó, que era o recurso usado pelo autor para colocar os queridos heróis em contato direto, em carne e osso (e pano, no caso de Emília), com os personagens históricos e fictícios. Isso propiciava uma fácil assimilação, por parte dos leitores mirins, dos conceitos e mensagens que ele queria passar. O efeito era parecido com o teleporte de Jornada nas Estrelas (Beam Me Up, Scotty!), eles sumiam e reapareciam nas coordenadas desejadas. A tecnologia tupiniquim entretanto era superior, pois propiciava viagens no tempo; os bravos comandados por Capitão Kirk precisavam  viajar a uma velocidade de vários WARPs (singelamente traduzido no Brasil por ‘Dobra Espacial’) para atingir o mesmo objetivo.
Emília, Pedrinho e o Visconde não apenas acompanhavam o herói, mas participavam efetivamente na execução das impossíveis tarefas encomendadas por Euristeu, sob ordem de Hera, deusa suprema que nunca se conformou com a traição de Zeus com uma mortal, Alcmena, que resultou no nascimento do semi-deus Hércules. Pedrinho dá a idéia de desviar um rio para limpar as Cavalariças de Augias, mostra como se faz a arapuca para capturar a Corça dos Pés de Bronze, sem feri-la, e culmina com pegar, com seu charme infantil, O Pomo (de ouro) das Hespérides. Emília era a conselheira espiritual do herói, a quem carinhosamente chamava de Lelé, ajudava-o com ferramentas tipo varinha de condão e faz-de-conta, disponíveis em sua canastra, e também com muitas idéias: para arrebanhar Os Bois de Gerião, ela sugere, ao pé do ouvido do herói, que mire sua flecha no joelho do rei, gigante de três cabeças, seis braços e apenas duas pernas, sua fragilidade. O Visconde ajudava com sua sapiência e também em missões arriscadas, como a ocasião em que coloca a argola do laço na perna do louco Touro de Creta. Hércules desenvolveu uma relação de amizade e confiança com os pica-pauzinhos. Emília até mesmo convenceu-o de que centauros, seus eternos inimigos, poderiam ser ‘gente’ boa, adotando para o grupo um centauro-menino, criativamente batizado de Meioameio, que acaba acompanhando a trupe, quase todo o tempo.

   Lobato não se limitou aos feitos do herói, e aproveitou para dar uma aula de Mitologia Grega. Durante as aventuras, sempre encontrou oportunidade para explicar outros mitos, como o de Prometeu, Andrômeda e tantos outros. Dentre eles, um fixou-se em minha lembrança, o da luta de Hércules contra o gigante Anteu, que era filho da deusa Géa, a nossa Terra, e até então invencível: a sempre esperta Emília aconselhou Hércules a erguer o gigante do chão para desconectá-lo das energias inesgotáveis que a deusa lhe enviava, só que Hércules esqueceu-se no calor da luta, mas foi salvo pelo antológico berro da bonequinha: "Desliga, Lelé!".

         Bem, ao final do 12º Trabalho, em que Hércules captura Cérbero, o cão de guarda do Inferno, que tinha três cabeças, vem a página final em que os três picapaulinos se despedem do Herói, logo antes de aspirarem a última dose do pirlimpimpim que os levaria de volta para o futuro. Após declarações emocionadas de admiração múltipla, chega a hora do adeus.




Pedrinho diz: Adeus, Hércules, grande amigo!

Emília berra: Adeus, Lelé!

E o Visconde, com sua proverbial cultura, diz:

Adeus, zênite da mitologia grega!


E, claro que eu chorei, copiosamente, ao ler aquela última página .. e chorei todas as outra sete vezes em que a li, assim como estou, neste exato momento, com  os olhos marejados, só de lembrar!

Acho que está na hora de ler de novo!

5 comentários:

  1. Muito bom, Homero. Eu mesmo que não fui (ou sou) leitor de Monteiro Lobato fiquei com vontade de ler.
    Mas Hércules naquela capa está mais para Tarzan, não?...
    abs,
    RAFAEL

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  2. É...... é muito bom lembrar minha infância com Monteiro Lobato, sempre que uma motivação bate à porta... gostava, nunca te contei, quando frequentava Campos de Jordão, a convite de amigos, gostava de subir pela gôndola, que transportava o carro..., passando pelas paragens deste personagem ilustre.
    Paulus

    P.S- Quando tiver oportunidade te apresentarei a este meu grande amigo de Campos de Jordão... voçê vai gostar dele. Teem muitas coisas em comum... o QI, uma delas.

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  3. Homero,

    Adorei esse post do seu blog. Também me faz recordar com lágrimas nos olhos.

    Lembro-me que li vários livros dele na minha infância. Meu avô adorava me presentear pelo prazer que tinha em me ver lendo os livros. Só que o prazer era todo meu. Aqueles livros grandes (não sei ao certo se eram tão grandes. rs), suas histórias me encantavam e me ensinaram a gostar de ler.

    Ler Monteiro Lobato é uma prática saudável para qualquer idade. Seu entendimento se adptadará a leitura como uma luva.

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  4. Olá Homero!
    Finalmente encontrei alguém que adora Os doze trabalhos de Hércules, do Monteiro Lobato!! (não é que as pessoas não gostem, mas geralmente não conhecem, e quando sim, me olham como se eu não tivesse crescido ainda...rs..)
    Só não´eo meiulivrode cabeceira, porque demorei anos para encontrar o volume 1 para comprar, e agora emprestei e meu irmão não me devolve...já li várias vezes e sempre caio na risada com as situações hilárias do livro...aliás, Monteiro Lobato é o autor de estórias infantis mais criativo de todos os tempos...aprendi tudo de Saci Pererê com Caçadas de Pedrinho, e os contos de fadas no Sítio? Dom Quixote e Sancho Pança com a tia Nastácia! Hilário!!
    Bjs, Carol

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  5. Os 12 trabalhos de Hércules foi o meu primeiro contato com as obras de Monteiro Lobato.
    Também foi minha introdução à mitologia grega.
    Li e tenho até hoje quase todos os livros da série "picapaulina".
    Só uma provocação: quem garante que o pó de pirlimpimpim não é apenas um eufemismo para esse "pó que faz viajar"?
    No filme Moulin Rouge, o absinto, bebida alcoólica de alto teor alcoólico com efeitos alucinógeno e que era apelidada de "fada verde" (green fairy", foi representada por uma "fadinha" à semelhança da Sininho do Peter Pan.

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